A Outra Face

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Marcelo Bolshaw Gomes[1]

O trabalho conhecido como Método Pachwork para a Transformação do Eu Inferior é formado pela canalização das mensagens do Guia do Caminho pela médium Eva Pierrakos em um total de 258 palestras. Em português, as palestras foram compiladas nos livros: “O Caminho da Transformação” (2007) – com seus fundamentos teóricos, organizado por Judith Saly; e “Não temas o mal” (1993) organizada por Donovan Thesenga, com a parte mais prática do trabalho, que resumimos a seguir.

A primeira parte trata dos parâmetros de auto-observação, ensinando a reconhecer a criança irracional e infeliz que vive dentro de cada um de nós, a perceber as máscaras e as falsas soluções que adotamos na tentativa de vencer a vida; a segunda parte concentra-se no mal pessoal como origem da infelicidade.

A maioria das doutrinas e ensinamentos esotéricos incentiva o florescimento das virtudes e qualidades humanas. O Pathwork, no entanto, opta pelo caminho contrário, enfatizando a questão negatividade e incentivando seus usuários a expor o que eles têm de pior. O mal coletivo – que as religiões dualistas polarizam com o bem, enquanto outros afirmam não existir, sendo apenas uma ilusão – é para metodologia pathwork resultante da soma de todos os males pessoais. Se cada indivíduo ‘desse conta’ da própria negatividade, não haveriam guerras ou conflitos sociais em grande escala.

O mal é o elo perdido entre psicologia e religião. Enquanto a religião encara os erros humanos como falhas morais e pecados, decorrentes do caráter, a psicologia as vê defeitos resultantes dos conflitos com os pais e com a sociedade, eximindo seus portadores de responsabilidade. “A mudança pessoal então ocorre quando compreendemos a origem da programação negativa que os outros nos infligiram, vivenciamos todos os sentimentos envolvidos (fundamentalmente, a raiva e o pesar) e então perdoamos a fonte externa de nossa negatividade, da qual ainda sofremos. E isso é uma parte crucial do processo de transformação” (1993, 13). Para psicologia, não somos mais responsáveis pela própria negatividade; e, para religião, somos ‘culpados’.

Então, o ponto de partida do Pathwork é o seguinte: A felicidade não advém da satisfação externa dos desejos, ao contrário, é preciso ser feliz antes, “dentro”, e depois a vida externa se tornará satisfatória. “Se posso admitir que não sou apenas uma vítima do mal que há no mundo, mas sim o responsável pela negatividade – então, o que fazer a respeito?” Resolvendo meu problema de infelicidade pessoal, estarei resolvendo o problema da violência do mundo.

E como vencer a negatividade? a) localizar, aceitar e observar as próprias atitudes negativas; b) reconhecer que gosta da negatividade, que se está viciado nela; e c) perceber o preço (pessoal e social) que se paga pelo prazer negativo, suas causas e efeitos, seus resultados e conexões. Esse processo teria quatro estágios de percepção (1993, 190-191): 1) o semi-adormecido, no qual você não sabe quem é e lutar contra o que odeia em si (consciente e inconscientemente); 2) o primeiro despertar, quando você reconhece que não é aquilo que odeia e identifica seus aspectos negativos; 3) a percepção da consciência como você, que identifica, cria e articula os aspectos negativos; e, finalmente, 4) a compreensão, a dissolução e a integração dos aspectos negativos pela consciência.

Para a metodologia do Pathwork não há uma negatividade pura. Há uma única corrente com dois pólos. O mal é resultante das resistências em relação ao fluxo dos acontecimentos da vida. Por isso, é preciso tomar consciência tanto do desejo de saúde como do desejo de ficar doente é que produz a cura. Esse é o significado da frase: “Não resistas ao mal”. O negativo é sempre desejado por uma parte da personalidade e não por ela toda. É preciso saber que se quer as duas coisas – o positivo e o negativo – para se superar o conflito. O medo do positivo gera a negação. É preciso observar e aceitar o medo positivo para dissolver o negativo. (1993, 153) Por outro lado, se negadas, as emoções negativas tornam-se inconscientes. O medo de ter medo, negado, cria submissão. A raiva de ter raiva, negada, gera o ódio. A frustração repetida das expectativas produz a ansiedade permanente (1993, 201-202).

A identificação/negação da consciência com as formas estrutura o que chamamos de Ego. Há duas formas de compreender o ego: a oriental e a psicanalítica. A oriental deseja que ele seja transcendido pela consciência. Um belo exemplo atual dessa forma é a de Eckhart Tolle: “O ego é um conglomerado de formas de pensamento recorrentes e de padrões emocionais e mentais condicionados que estão investidos de uma percepção do Eu” (2007, 52-53).

Para Tolle, o Ego é o eixo do tempo/horizontal (uma sucessão de momentos – mas o passado só existe quando nos lembramos e o futuro só existe quando nós o imaginamos); a consciência (ou a presença, a sensação pessoal imediata) é o eixo místico agora/vertical.

A metodologia do Pathwork optou por outro modelo da noção de Ego:

FREUD

PATHWORK

XAMANISMO HAVAIANO

ID

Eu Inferior (corpo instintivo ou criança ferida).

Unihipili (criança/subconsciente)

EGO

Ego, Máscara ou Auto-imagem idealizada

Uhane (mãe/ consciente)

SUPERGO

Eu Superior (Centelha Divina)

Aumakua (pai/superconsciente).



Nesse modelo, o Ego ou máscara é uma mediação entre os dois Eus, inferior (sede dos impulsos instintivos) e superior (ou Centelha Divina): “Ocultando o Eu Inferior existe uma máscara, uma autoimagem idealizada, uma representação glorificada de quem achamos que deveríamos ser e que tentamos fingir que somos” (…) “são essas duas camadas da personalidade que escondem o Eu Superior”. (1993, 20).

Para o Pathwork, o Ego faz com que as atitudes das pessoas e as situações se repitam na vida aparentemente sem nenhuma responsabilidade por parte de seu portador-vítima, principalmente os Círculos Viciosos entre o amor egoísta inconsciente e o amor altruísta na consciência. A criança quer amor exclusivo dos pais, o que é humanamente impossível. A frustração deste anseio gera o sentimento de rejeição e … ódio, agressão, hostilidade, ressentimento. Gera-se assim um ciclo de amor e ódio. “Odeio quem eu amo”. Medo do castigo, medo da felicidade: o ódio de quem se ama gera a culpa (“eu mereço ser castigado) e daí o medo (inconsciente) de ser punido. Assim quando está feliz, a pessoa sente que não merece. A culpa por odiar aqueles quem mais ama faz com se evite a felicidade e acaba destruindo o que a pessoa mais deseja. A inadequação e a inferioridade aumentam a necessidade neurótica de ser amado. E mais: todos sofremos da compulsão de criar e superar as feridas infantis. Todo mundo quer ser mais amado do que amar. Escolhemos parceiros para tentar reproduzir e corrigir essa compulsão do “falso amor não correspondido”. “Inconscientemente, você saberá como escolher no parceiro aspectos semelhantes ao daquele dentre os pais que mais deixou a desejar em afeição e amor reais e genuínos”. (1993, 75) Você busca os pais novamente em seus relacionamentos: conjugue, amizades e parcerias. Você tentar reproduzir uma situação passada na tentativa de dominá-la.

(cont.)

PIERRAKOS, Eva; THESENGA, Donovan. Não temas o mal – o método Pachwork para transformação do Eu Inferior. Tradução Sérgio Luiz dos Reis Lasserre. São Paulo: Cultrix, 1993.

TOLLE, Eckhart. Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência. Tradução Henrique Monteiro. Rio de Janeiro: Ed. Sextante, 2007.

[1] Professor de Comunicação da UFRN, doutor em Ciências Sociais.

"Seja a mudança que você procura" - Mahatma Gandhi.

2 comentários:

José María Souza Costa disse...

Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Tempo agradável, Harmonioso e com Sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito Simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Um abraço e fique com DEUS.

http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

matheus disse...

a gente percebe é isso mesmo, na ignição, ainda q de uma forma totalmente caótica.. a fase de tranquilizaçao e purificação é mais uma luta contra a auto-imagem idealizada, q se Alimenta do pus inconsciente expelido pelas chagas da criança ferida. MANERAÇU!