Poema da Grande Transformação

sábado, 29 de janeiro de 2011

A primeira vez
que a morte passou pela minha vida,
caíram-me por terra
a coroa do império, o cetro do orgulho,
o castelo da vaidade.
E fui ficando mais leve
do enorme peso da vida.

A segunda vez
que a lâmina da Morte passou pela minha vida,
cortou-me os braços
e todo o apego fugiu-me por entre os dedos.
E fui ficando mais livre
do enorme peso de existir.

A terceira vez
que a lâmina da morte passou pela minha vida,
cortou-me as pernas
e aprendi a caminhar com os próprios passos.
E fui ficando mais livre
do eterno peso de existir.

A quarta vez
que a lâmina da Morte passou pela minha vida,
rasgou-me o horizonte do coração
e todas as estrelas do futuro
caíram-me aos pés.
E fui ficando mais solto
do pesado fardo de ser.

A enésima vez
que a Morte passou pela minha vida,
já estava podado
de quase todos os excessos do ego.
Separado o espesso do sutil,
reduzido à essência do ser.
E fui ficando mais leve
do aéreo peso da vida.

A última vez
que a morte passou pela minha vida,
decepou-me o pescoço e a esperança.
Minha cabeça rolou pelos campos de toda memória.
Estava livre de todo o excesso da matéria
e comecei a viver.

Luis Augusto Cassas (Poeta maranhense)

4 comentários:

Frater Đ 875 disse...

Linda poesia...

=]

Rosane Peon disse...

Boa noite F.A. e amigos
Poesia bem profunda,linda!!
Vários aprendizados descrevem,como somos capazes de ver a morte do "outro"mas dificilmente a nossa mesma.
morrer é estar livre de toda ira,ambição,posse, e de todo excesso do ego.A morte ocorre em todo momento... e agradeço a oportunidade de ser também podada.

Sinto muito,me perdoa,te amo,sou grata.
Rosane Peon

almadascousas disse...

Temos que morrer todos os dias, para a cada manhã, renascer. "Morrer é bom". Obrigada, abraços

Sartriani disse...

"... e é morrendo que se vive para a vida eterna."(São Francisco das Chagas)