Illuminatti: uma visão interna

domingo, 27 de março de 2011

Antes de voltarmos às origens deste Culto, entretanto, nós devemos primeiro examinar brevemente o passado mais imediato quando a chama da Gnose luzia secretamente no ambiente hostil de uma era ignorante.

A ressurgência massiva de interesse no lado oculto das coisas, no aspecto numenal do mundo fenomenal, deve-se amplamente à dissolução gradual de mores sociais de longa data. Isto tornou possível retirar o selo de células dormentes da consciência através do uso do sexo, drogas, álcool e outros métodos de controle e exploração da consciência.

A gênese desta mudança ocorreu na última metade do século passado, quando Helena Blavatsky escancarou as portas do Esoterismo Oriental e tornou-o acessível ao mundo ocidental.

Também, a tendência da opinião científica mudou de curso e começou a confirmar as descobertas dos místicos e cientistas ocultistas, antigos e modernos.

Estes fios foram reunidos e concentrados em um único nó no ano de 1875, o ano no qual dois eventos de importância de longo alcance concidiram: a fundação, por Blavatsky, do Sociedade Teosófica, e o nascimento em Warwickshire, Inglaterra, de Aleister Crowley.

A fim de avaliar devidamente estas circunstâncias é necessário compreender que um evento igualmente significante estava pendente: a emergência da Ordem Hermética da Aurora Dourada, que existiu de uma forma ou de outra, e sob outros nomes, por um incalculável período de tempo.

A Aurora Dourada era a Escola de Mistério interna da Ordem que formulou a si mesma no mundo externo como a Sociedade Teosófica.
A intenção de Blavatsky em iniciar sua Sociedade era, primariamente, a destruição do
Cristianismo em sua forma “histórica” como oposta à sua forma “eterna”.
Este fato é paliado tanto quanto totalmente ignorado por muitos escritores da Sociedade e de sua fundadora, mas ele é fundamental para um entendimento da corrente vital que inspirou a Aurora Dourada, e mais fundamental ainda para aprofundar a razão de Crowley identicar a si próprio com a fórmula anti-cristã da Besta, 666.

Esta fórmula é primariamente destrutiva; ela invoca aquele poder de Hórus conhecido como Ra-Hoor-Khuit (ou Herakhaty), que necessariamente precede ao advento de seu poder gêmeo e complementar, simbolizado por aquele antigo “diabo” da raça acadiana a quem Crowley invoca sob a máscara, ou persona, de Hoor-paar-Kraat (Harpócrates, também chamado Aiwaz).

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2
Dai, a recepção do Livro da Lei seja às vezes referida como O Trabalho do Cairo.
3
A fim de entender a natureza de Aiwaz, talvez não seja tão enganoso pensar neste Dæmon como similar aos Dhyan Chohans (Espíritos Planetários) que usaram Blavastky e outros como um canal de intercurso com a humanidade.

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A verdadeira Ordem Oculta (às vezes chamada de Grande Fraternidade Branca, e por Crowley de A\A}11 As iniciais A}A} significam Argenteum Astrum (a Estrela de Prata). Esta é a Estrela de Set ou Sothis (Sirius) é o “sol” no sul; “prata”, para indicar que ela é de uma região lunar (ou seja, Noite); ela é a “criança” oculta de Nuit, cuja Luz ela manifesta. De acordo com a Tradição Hermética, nosso sol é senão um reflexo do Sol maior, Sothis. O sol de nosso sistema solar mantém, portanto, a relação de uma “criança” (Hórus Criança) com esta enorme Estrela.) manifestou-se no Ocidente em 1886 como a Aurora Dourada. Antes desta manifestação específica, a Fraternidade contava entre seus representantes não abertamente declarados tais autoridades como Sir Edward Bulwer-Lytton, Éliphas Lévi, Fred Hockley, Keneth Mackenzie, Gerald Massey, Fabre d’Olivet e outros. Bulwer-Lytton interliga-se historicamente com os Adeptos continentais, Éliphas Lévi, Gerard Encausse (Papus), Rudolph Steiner e Franz Hartmann æ nomes celebrados no Ocultismo ocidental. Estes elementos continentais colaterais constituíram o que foi conhecido como a Fraternidade Hermética da Luz.

Não muito depois do nascimento da Sociedade Teosófica, a Fraternidade da Luz é até então bastante esparçamente organizada æ foi, por volta de 1895, concentrada em dez graus iniciatórios sob o Dr. Karl Kellner, um Adepto austríaco que revelou o verdadeiro nome da Fraternidade como a Ordo Templi Orientis, a Ordem do Templo do Oriente, o Oriente significando o local do nascer-do-sol, a fonte de iluminação. As iniciais O.T.O. também simbolizam a energia solar-fálica da Besta, que Crowley mais tarde incorporou em seu selo mágico pessoal.

Karl Kellner foi o primeiro O.H.O.4 (Cabeça Externa da Ordem) da novamente constituída O.T.O., pois, bem antes disto, uma Ordem do Templo æ sob Jacques de Molay (1293- 1313) æ havia existido e “preparado a Renascença ao fundir os Mistérios do Oriente e do Ocidente”5, e a história externa da Ordem pode ser traçada bem anteriormente a este evento.

Esta Ordem também incluía a Irmandade Hermética conhecida como os Illuminatti, encabeçada no século dezoito pelo notório Adam Weishaupt, cuja obra, embora ainda incalculável, é de indubitável significado com relação ao atual renascimento mágico.

Jean Adam Weishaupt (1748-1830) fundou a Ordem dos Illuminati em 01 de maio de 1776. Ele adotou o símbolo do Ponto dentro do Círculo para representar a Corrente que se expressou através dele. Ele formulou os princípios básicos da Ordem em termos muito similares àqueles aos quais Crowley usa em Liber Oz (veja a ilustração).

A “Palavra Perdida” no sistema de Weishaupt é “Homem”.
A redescoberta desta Palavra requeria que o homem encontrasse a si próprio novamente; que a redenção da humanidade tem de ser efetuada através e pelo homem; que o homem governasse a si próprio e lançasse fora os grilhões dos poderes e controles alheios. Em uma palavra, ele deveria tornar-se um rei por seu próprio direito, pela virtude de sua própria herança primal.

Mais tarde, no sistema de Crowley, a idéia do “homem-rei” tornou-se fundamental; ela é sinônimo de ser um Thelemita, ou seja, alguém que descobriu sua Verdadeira Vontade (Thelema) e é capaz de fazê-la. Daí, Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Quando Crowley assumiu o controle da O.T.O., ele escolheu como seu motto Deus est Homo (Deus é Homem), e em Liber Oz ele declara “Não existe Deus senão o Homem”6. Era para o Homem que seu Manifesto estava endereçado, quando, no meio do Mediterrâneo em 1924, ele declarava Thelema (Vontade) como sendo a Palavra da Lei, de acordo com o que lhe havia sido revelado por Aiwaz7, no Cairo, vinte anos antes.

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4
Preferiu-se manter as iniciais O.H.O. que formam o título inglês para “Cabeça Externa da Ordem”, em inglês Outer Head of the Order, pois em língua portuguesa não há sentido mencioná-lo como C.E.O..
5
Crowley, em seu comentário de Liber Agapé, o manual secreto dos Mistérios da O.T.O.
6
Este motto possui também um profundo significado esotérico que se tornará aparente durante o curso
desta obra.
7
Ver o Glossário: Aiwass.
O Equinócio
8, uma série de maciços volumes, que Crowley publicou periodicamente e que ele descreveu como “A enciclopédia da iniciação”, foi também chamado de “o órgão oficial da A\A\, a Revista do Iluminismo Científico”. Entre os nomes daqueles que, segundo Crowley, representaram esta Corrente no tempos passados aparecia aquele de Adam Weishaupt.

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O Conde Cagliostro (nascido em 1743) e Anton Mesmer (1734-1815) estiveram entre aqueles que foram iniciados na Ordem dos Illuminati. Cagliostro foi iniciado em Frankfurt em 1781, sob a autoridade dos “Grandes Mestres dos Templários”, um outro nome dos Illuminati. Ele recebeu instruções e grandes somas de dinheiro de Weishaupt, que o enviou à França onde a missão especial de Cagliostro era iluminizar a maçonaria francesa.

Weishaupt, cujo primeiro treinamento foi influenciado pelos jesuítas, fundou os Illuminati æ como Blavatsky fundou a Sociedade Teosófica æ com a intenção principal de destruir os efeitos perniciosos do Cristianismo organizado. Weishaupt dizia ter usado “para bons fins os meios que os jesuítas haviam empregado para maus fins”.

Dando ouvidos a Santo Inácio de Loyola (1491-1556), Weishaupt introduziu uma obrigação de obediência incondicional na Constituição de sua Ordem. Assim, o Iluminismo æ como concebido por Weishaupt æ foi modelado na Sociedade de Jesus, embora ele propusesse um plano de campanha diametralmente oposto à ela.

Embora a Ordem dos Illuminati tenha sido suprimida em 1786, Weishaupt e seu círculo interno de adeptos continuaram a operar em segredo por detrás do véu da Livre Maçonaria, com
a qual a Ordem se ligara em 1778. Weishaupt mantinha que os Illuminati era menos uma Ordem
que uma Corrente, a qual poderia operar mais efetivamente sob a cobertura de uma outra coisa:
“sob outros nomes e outras ocupações”.

Cagliostro obteve sucesso em formar um elo com a Ordem Martinista (fundada por Martinez Pasqually em 1754) com a qual Anton Mesmer estava também envolvido. Os Illuminati gradualmente ganharam o controle de todas as Ordens importantes até que uma rede iluminizada de sociedades ocultas foi criada.

Em 1880, a Ordem foi revivida em Dresden por Leopold Engel. Era com esta Corrente revivida que Rudolph Steiner estava conectado; e Franz Hartmann (fundador da Ordem da Rosa Cruz Esotérica) estava conectado tanto com os Illuminati de Engel quanto com a Sociedade Teosófica.

Em 1895, Dr. Karl Kellner deu prosseguimento ao sistema, chamando-o de Ordo Templi Orientis, revertendo assim à designação pré-weishauptiana. Na morte de Kellner, em 1905, um Teosofista alemão chamado Theodor Reuss, junto com Franz Hartmann, constitui o Conselho Interno da Ordem. Foi Reuss quem iniciou Steiner na O.T.O..

O Ponto dentro do Círculo, o símbolo dos Illuminati, é não somente o hierograma do Sol e do deus Hórus, mas no sistema de Crowley, é simbólico também da união de Nuit e Hadit, que são emblemáticos da Consciência e sua projeção como um raio de luz.

A união do Círculo (Nuit) e o do Ponto (Hadit) formula a “criança” deles, ou vontades combinadas, expressa como Ra-Hoor-Khuit. O Círculo e o Ponto também representam as expressões abstratas de Amor e Vontade, componentes gêmeos da equação mágica conhecida como a Lei de Thelema.9

Dion Fortune, em Aspectos do Ocultismo (publicado postumamente em 1962), observa que os cultos primitivos, tais como Vudu, inicia o Subconsciente; o Hinduísmo inicia o Ser Altíssimo; e o Cristianismo inicia a Personalidade, o Ser Inferior. Aqui ela se refere o verdadeiro Cristianismo Gnóstico, a “religião eterna” em oposição ao Culto do Cristo carnalizado do Cristianismo histórico. Austin Spare, Aleister Crowley e Dion Fortune desenvolveram precisamente estas três linhas de atividade.

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8 Em inglês, The Equinox.
9
Thelema, a palavra grega para Vontade, soma 93 que é também o número de Agapé (Amor), seu
equivalente cabalístico. 93 é um número-chave no Culto de Crowley; ele é três vezes 31, o qual é ele mesmo o número do Livro da Lei no qual as fórmulas mágicas do Æon de Hórus (iniciado por Aiwaz) estão concebidas em cifras literárias e cabalísticas. O próprio Crowley não conseguiu interpretar todas elas durante sua vida. Ver em LAShTAL (Glossário).

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A fórmula de Spare da Ressurgência Atávica (ver Capítulo 12) desenvolve a linha “vudu” por meios de um sistema de Sigilos derivando de seu Alfabeto do Desejo, cada letra do qual representa uma fase da consciência sexual. Ele usava a fórmula em conjunção com um ritual chamado de Postura da Morte (ver Capítulo 12). Ao invés dos vevers da feitiçaria africana e do Vudu da Índia Ocidental, Spare empregava várias geometrias ocultas incorporando em forma linear as vibrações sonoras peculiares aos deuses æ ou níveis de subconsciência æ a serem invocados; estas vibrações constituem os mantras dos deuses. Seu sistema deriva não somente da Aurora Dourada, mas também das tradições iniciáticas ocultas do Culto Draconiano original, operando nas dinastias escuras do antigo Egito.10

No outro extremo, o tema da obra de Crowley é seu ritual para atingir o congresso com o Ser Altíssimo, ou Sagrado Anjo Guardião. Para este fim, ele adaptou com sucesso um rito acadiano, ou sumeriano, usado pelos Iezidis æ os adoradores do “diabo” da Baixa Mesopotâmia.

Crowley identificou o “diabo” deles com Aiwaz, seu Sagrado Anjo Guardião, um estado peculiar que será explicado mais tarde. Para despertar e exaltar a consciência mágica, Crowley usava um tipo de ritual reminiscente dos Tantras.

Dion Fortune, por sua vez, desenvolveu um sistema para criar a Personalidade Mágica dos escombros da vida cotidiana. Seu trabalho envolvia o uso da Magia lunar. Ela usava as energias manifestando-se através da polaridade sexual. Sua novela, Magia da Lua (postumamente publicada em 1956), explica a mystique, se não o mecanismo real do processo. Ela enfatizava a relação íntima entre o sistema endócrino e os chacras, os centros de poder mágico no organismo humano. Sua técnica de controle do sonho deriva da “Visão Espiritual” da Aurora Dourada, e relembra aspectos dos exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola que fundou a Sociedade de Jesus.

Estes aspectos de desenvolvimento espiritual formam os três maiores temas característicos do renascimento da magia dos dias atuais, e eles refletem as três maiores fases da Consciência exemplificada na mitologia como as correntes astral, lunar e solar da Grande Obra. O sistema de Crowley, particularmente, resume todas as três.

A injunção “Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei” apareceu primeiro no Livro da Lei que Crowley recebeu no Cairo em 1904 enquanto em comunicação astral direta com o Dæmon, Aiwaz.

“Faze o que tu queres” é a primeira metade de uma fórmula mágica que Crowley praticou toda sua vida. A segunda metade æ “Amor é a lei, amor sob vontade” æ é seu complemento. Isto também apareceu no Livro da Lei, ou, mais precisamente, O Livro da Lei de Thelema, pois o texto, compreendendo três breves capítulos, é um comentário sobre esta fórmula dupla.

Crowley gastou a maior parte de sua vida tentando sondar os mistérios deste Livro singular e ele disse em seus últimos anos que muito permanecia obscuro. Mas ele o sondou o suficiente para descobrir um sistema de Magiak sem rival na história do Ocultismo Ocidental.

A essência de Faze o que tu queres, e seu corolário, não é nova. Pelo contrário, ela é tão antiga e sem idade quanto o Tao e o Teh, o Yin e o Yang, Shiva e Shakti ou o imaginário tibetano do Yab-Yum. O que é novo é sua ênfase sobre a ação, sobre o fazer, ao invés da não-ação e da renúncia. Thelema é uma fórmula dinâmica, não estática, e ela requer a formulação precisa æ antes da ação æ da energia que deve ser sua mola mestra.

Do Livro Renascer da Magia, de Kenneth Grant

Um comentário:

Martyn disse...

Raul Seixas - Nuit
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http://www.youtube.com/watch?v=gHWMRbrVc3M
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Na filosofia telêmica, eles acreditam que toda existência surge da interação de dois principios cósmicos: o Contínuo Espaço-Temporal, infinitamente extenso e perpétuo, e o Princípio da Vida e Sabedoria, atômico e individual. Desta interação surge o Princípio da Conciência, ele é quem governa a existência.