Morte, mudança, transitoriedade e outros sinônimos

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Um guerreiro pensa em sua morte quando as coisas se turvam. A idéia da morte é a única coisa que modera nosso espírito.

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A morte está em toda parte. Pode ser as luzes de um carro, no topo de uma colina, a certa distância para trás. Ficam visíveis por um tempo e desaparecem na escuridão, como se tivessem sido arrastadas; apenas para reaparecerem no topo de outra colina e aí desaparecerem de novo.
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Aquelas são as luzes na cabeça da morte. A morte as coloca assim, como um chapéu, e depois parte a galope, se aproximando de nós, se aproximando cada vez mais. Às vezes apaga suas luzes. Mas a morte nunca pára.
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Cada pedaço de conhecimento que se torna poder tem a morte como sua força central A morte dá o último toque, e o que for tocado pela morte torna-se realmente poder.
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Somente a idéia da morte torna o guerreiro suficientemente desprendido para ser capaz de se entregar a qualquer coisa. Ele sabe que a morte o espreita e não lhe dará tempo de se agarrar a nada, de modo que ele experimenta, sem ansiedade, tudo de todas as coisas.
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A morte é um turbilhão; a morte é uma nuvem brilhante no horizonte; a morte sou eu falando para você; a morte é você e seu bloco de notas; a morte é nada. Nada! Está aqui e contudo não está absolutamente aqui.
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E, contudo, eu cobiçava a direção, a paz, a eficiência do guerreiro. Um dos grandes auxílios que os xamãs do México antigo usaram ao estabelecer o conceito de guerreiro era a idéia de tomar a morte como uma companheira, uma testemunha de nossos atos. Dom Juan disse que, uma vez aceita essa premissa, mesmo numa forma mitigada, se forma uma ponte que se estende sobre o vazio entre o mundo de nossos afazeres mundanos e alguma coisa que está diante de nós, embora não tenha nome; alguma coisa que está perdida na neblina e não parece existir; alguma coisa tão terrivelmente obscura que não pode ser usada como ponto de referência e, no entanto, está aí, inegavelmente presente.

Dom Juan argumentava que o único ser na terra capaz de cruzar essa ponte era o guerreiro: silencioso em sua luta, ele é um homem que não pode ser detido porque não tem nada a perder; e um homem funcional e eficiente porque tem tudo a ganhar.
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A morte é nossa eterna companheira. Está sempre à nossa esquerda, à distância de um braço atrás de nós. A morte é a única conselheira sábia que um guerreiro tem. Toda vez que ele sente que tudo está errado e que ele está prestes a ser aniquilado, pode virar-se para sua morte e perguntar se é assim mesmo. A morte lhe dirá que ele está errado; que nada realmente importa, além do toque dela. Sua morte dirá a ele: "Ainda não o toquei."
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Em um mundo em que a morte é o caçador, não há tempo para remorsos ou dúvidas. Só há tempo para decisões. Não importa quais decisões. Nada pode ser mais ou menos sério do que qualquer outra coisa. Em um mundo em que a morte é o caçador, não há decisões pequenas ou grandes. Só há decisões que um guerreiro toma em face de sua morte inevitável.
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Um guerreiro deve focalizar sua atenção no elo entre ele e sua morte. Sem remorso nem tristeza nem preocupação, ele deve focalizar sua atenção no fato de que ele não tem tempo e deixar que seus atos fluam de acordo. Ele deve deixar que cada um de seus atos seja sua última batalha sobre a terra. Só nessas condições é que seus atos terão o devido poder. Senão eles serão, enquanto ele viver, os atos de um tolo.
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Um guerreiro-caçador sabe que sua morte o está esperando e o próprio ato que ele está executando agora pode muito bem ser sua última batalha sobre a terra. Ele o chama de uma batalha porque é uma luta. A maioria das pessoas passa de um ato para outro sem qualquer luta ou pensamento. Um guerreiro-caçador, ao contrário, avalia cada ato; e como tem um conhecimento íntimo de sua morte, procede judiciosamente, como se cada ato fosse sua última batalha. Só um tolo deixaria de perceber a vantagem que um guerreiro-caçador leva sobre seus semelhantes. Um guerreiro-caçador dá à sua última batalha o devido respeito. É natural que seu último ato sobre a terra seja o melhor dele. E agradável assim. Amortece o seu medo.
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Se o seu espírito está distorcido, ele deve simplesmente endireitá-lo — purificá-lo, torná-lo perfeito —, pois não há nenhum outro trabalho, em todas as nossas vidas, que valha mais a pena. Não endireitar o espírito é procurar a morte, e isso é o mesmo que não procurar nada, pois a morte nos apanhará, de qualquer maneira. Buscar a perfeição do espírito do guerreiro é a única tarefa digna de nosso tempo limitado e de nossa virilidade.
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Um guerreiro é apenas um homem. Um homem humilde. Ele não pode mudar os desígnios de sua morte. Mas seu espírito impecável, que armazenou poder depois de privações tremendas, certamente pode deter a sua morte por um momento, um momento suficientemente longo para deixá-lo regozijar-se pela última vez ao recordar seu poder. Podemos dizer que é um gesto que a morte tem com aqueles que possuem um espírito impecável.

Roda do Tempo, de Carlos Castaneda

Um comentário:

Martyn disse...

Poema de São Raul sobre a Morte...

CANTO PARA MINHA MORTE
http://youtu.be/XDPh7duYiqM