A Tarefa do Nagual

sexta-feira, 29 de julho de 2011


"Poderia me dizer qual é a tarefa que lhe deixou encomendada o nagual Juan Matus?"

Olhou-me com um ar de surpresa.

O habitual era que Carlos escondesse suas respostas entre palavras, ou que nos fosse dando, pouco a pouco, nas conversas dele. Mas desta vez mudou de tática.

Falou que minha pergunta era tão extraordinária, que não lhe restava mais remédio que tomá-la como um augúrio. Mas a resposta o comprometia de um modo tão pessoal, que só poderia transmití-la em um lugar apropriado. Por conseguinte, combinamos de nos ver no dia seguinte no Café Tacuba, um dos restaurantes favoritos de don Juan.

Depois do café da manhã, falou em tom solene que eu deveria silenciar meu diálogo interno, porque estávamos a ponto de visitar um lugar sagrado onde estava enterrado um famoso guerreiro da antiguidade. Acrescentou que o dia era perfeito para isto, porque desde o amanhecer tinha caído sobre a cidade uma escura névoa.

"E como tudo se tornou sinistro, hoje nossos sinais virão pela esquerda".

No princípio me causou graça o esforço dele para me impressionar. Mas, enquanto avançávamos em direção ao Zocalo, eu ia ficando mais e mais apreensivo.

Entramos pela bonita porta lateral da Catedral de México e ingressamos no gigantesco salão principal. Imediatamente, Carlos se aproximou da pia de água benta, molhou seus dedos e fez o sinal da cruz. Chamou minha atenção a familiaridade de seus movimentos, como se ele estivesse acostumado a assistir à missa.

Observando minha curiosidade, explicou que um guerreiro deve respeitar todas as convenções, particularmente a de uma instituição como a Igreja Católica que durante séculos serviu como santuário para os bruxos.

Sentamos nos bancos da nave central e permanecemos durante algum tempo em silêncio.

A atmosfera era muito calma, havia poucas pessoas naquele momento. Eu notei que a postura dele era muito direita e que seus olhos, nem abertos nem fechados, pareciam perdidos no emaranhado de decorações do altar principal. O suave cheiro de velas chegava até nosso banco e também o rumor de algumas vozes infantis que ensaiavam um coro; ou talvez fosse um gravador.

Pouco a pouco fui ensimesmando, até que perdi a noção do meio. A voz dele me sobressaltou:

"A tarefa que meu mestre me encomendou e minha missão como nagual para a era que começa, é mover o ponto de aglutinação da Terra".

Eu esperava qualquer coisa menos isso. Durante alguns segundos, minha mente não reagiu; simplesmente não tinha a menor idéia do que Carlos estava dizendo. Mas, de repente, a monstruosidade de sua tarefa me bateu no centro da razão e me descobri pensando que Carlos, ou estava louco, ou estava falando de algo do qual eu não tinha nem a mínima idéia.

Para aumentar minha confusão, ele parecia estar consciente de meus pensamentos, porque concordou ligeiramente com a cabeça e murmurou:

"É assim. Tem que estar louco para se deixar comprometer desse modo, e mais louco ainda para acreditar que seja possível cumprir".

Perguntei como era possível que um homem se propusesse uma semelhante façanha.

Respondeu:

"Assim como o outro mundo tem sua unidade móvel - os seres inorgânicos -, a Terra também a tem, e somos nós. Nós somos os filhos da Terra. O movimento do ponto de aglutinação de um número suficiente de guerreiros pode mover a modalidade de uma época, e isso é algo no que eu estou trabalhando agora".

Explicou que o ponto de aglutinação da Terra mudou muitas vezes no passado e o fará no futuro. Nos últimos tempos tem derivado de um modo contínuo para a área da razão.

“Isso é magnífico, porque, uma vez que se fixe lá, a humanidade terá uma oportunidade para mover-se ao outro lado e muitos homens e mulheres ficarão conscientes. O desafio para os videntes do futuro consistirá em manter esse enfoque durante o tempo que seja necessário para que se fixe, tornando-se uma posição permanente do planeta, um novo centro ao qual se poderá recorrer em qualquer momento e com inteira naturalidade”.

"O reenfoque da atenção da Terra é produto da ação combinada de muitas gerações de naguais. Os novos videntes o conceberam como uma possibilidade e descobriram que fazia parte da regra. Eles o incubaram com seu intento e determinaram que já chegou o momento".

"Qual é o resultado desse movimento?”.

“Mover a fixação do planeta é a única saída ao dramático estado de escravidão ao qual fomos reduzidos. O leito de nossa civilização não tem saída, porque estamos isolados em um ponto remoto do Cosmos. Se não aprendermos a viajar pelas avenidas da consciência, chegaremos a um estado tal de frustração e desespero que a humanidade terminará destruindo-se a si mesma. Nossa opção atual é o caminho do guerreiro ou a extinção”.

“Porém, eu mesmo não posso atestar os efeitos totais de minha tarefa. O ponto de aglutinação da Terra é muito grande, tem uma inércia enorme. Minha missão é acender o pavio, mas levará seu tempo armar a fogueira. Na realidade, essa tarefa não é só minha, mas da totalidade dos videntes que chegarão”.

“O conhecimento do ponto de aglutinação é um presente maravilhoso que o espírito deu ao homem moderno, e é o catalisador para a mudança da modalidade desta época. Não é uma utopia, mas uma possibilidade real que espera ali, ao dobrar da esquina”.

"Não quero especular sobre as possibilidades que tenho de sair vitorioso em minha tarefa, mas insisto, porque isso é tudo o que me resta fazer. No íntimo, não tenho dúvidas. Considero que o futuro é luminoso, porque pertence à consciência; o que, para os bruxos, significa que pertence ao nagualismo".

Encontros com o Nagual, baixe o livro aqui

Um comentário:

Martyn disse...

[..]O mistério do ponto de aglutinação é tudo na feitiçaria. Ou melhor, tudo na feitiçaria depende da manipulação do ponto de aglutinação.[..]

Você sabe disso, mas precisa repetir.

A Arte do Sonhar.
http://www.viagemastral.com/gva/viewtopic.php?f=9&t=9684