O primeiro cerne abstrato no Xamanismo

domingo, 7 de agosto de 2011


O espírito manifesta-se ao guerreiro a cada momento.
Entretanto, essa não é a verdade total.
A verdade total é que o espírito revela-se para todos
com a mesma intensidade e consistência,
mas só os guerreiros estão sintonizados,
de maneira consistente, com tais revelações.

— A primeira história de feitiçaria que vou lhe contar é chamada “As manifestações do espírito”— começou Don Juan —, mas não deixe que o título o mistifique. As manifestações do espírito são apenas o primeiro cerne abstrato ao redor do qual a primeira história de feitiçaria está construída.

“Esse primeiro cerne abstrato é uma história em si mesma. A história diz que tempos atrás houve um homem, um homem comum sem quaisquer atributos especiais. Era, como todos os demais, um conduto para o espírito. E em virtude disso, como todos os demais, era parte do espírito, parte do abstrato. Mas não sabia disso. O mundo mantinha-o tão ocupado que ele real¬mente não tinha o tempo nem a inclinação para examinar o assunto.

“O espírito tentou, sem sucesso, revelar sua conexão. Usando uma voz interior, o espírito revelou seus segredos, mas o homem era incapaz de compreender as revelações. Naturalmente, ouvia a voz interior, mas acreditava que fossem seus próprios sentimentos que estava sentindo e seus próprios pensamentos que estava pensando.

“O espírito, para sacudi-lo de sua modorra, deu-lhe três sinais, três manifestações sucessivas. O espírito cruzou fisicamente o caminho do homem da maneira mais óbvia. Mas o homem estava alheio a qualquer coisa a não ser a preocupação consigo mesmo.

Don Juan parou e olhou para mim, como fazia sempre que estava à espera de meus comentários e perguntas. Eu não tinha nada a dizer. Não compreendia o ponto que estava tentando demonstrar.

— Acabei de contar-lhe o primeiro cerne abstrato — continuou. — A única outra coisa que poderia acrescentar é que por causa da absoluta relutância do homem em compreender, o espírito foi forçado a usar de artimanhas. E as artimanhas tornaram-se a essência do caminho dos feiticeiros. Mas isso é outra história.

Don Juan explicou que os feiticeiros compreendiam este cerne abstrato como uma planta dos acontecimentos, ou um padrão recorrente que aparecia todas as vezes em que o intento estivesse dando uma indicação de algo significativo. Cernes abstratos, assim, eram plantas de cadeias completas de eventos.

Assegurou-me que, por meios além da compreensão, cada detalhe de cada cerne abstrato recorria para cada aprendiz de nagual. Assegurou-me, mais, que havia ajudado o intento a envolver-me em todos os cernes abstratos da feitiçaria da mesma maneira como seu benfeitor, o nagual Julian, e todos os naguais antes dele haviam envolvido seus aprendizes. O processo pelo qual cada aprendiz de nagual encontrava os cernes abstratos criava uma série de histórias tecidas ao redor desses cernes abs¬tratos, incorporando os detalhes particulares da personalidade de cada aprendiz e das circunstâncias.

Falou, por exemplo, que eu tinha minha própria história sobre as manifestações do espírito, ele tinha a dele, seu benfeitor tinha suas próprias, assim como o nagual que o precedera, e assim por diante.

— Qual é a minha história sobre as manifestações do espírito? — perguntei, algo incrédulo.

— Se algum guerreiro está consciente de suas histórias, é você — replicou ele. — Afinal, você tem escrito a respeito de¬las durante anos. Mas não percebeu os cernes abstratos porque é um homem prático. Você faz tudo apenas com o propósito de aumentar sua praticabilidade. Embora tenha manipulado suas histórias à exaustão, não fazia idéia de que havia um cerne abstrato nelas. Tudo o que fiz lhe parece, portanto, como uma atividade prática freqüentemente extravagante: ensinar feitiçaria a um aprendiz relutante e, na maior parte do tempo, estúpido. Enquanto os vê nesses termos, os cernes abstratos irão escapar-lhe.

— Deve perdoar-me, Don Juan, mas suas afirmações são muito confusas. O que está dizendo?

— Estou tentando introduzir as histórias de feitiçaria como tema — replicou. — Nunca falei a você de modo específico sobre esse tópico porque tradicionalmente é deixado oculto. É o último artifício do espírito. Disse que quando o aprendiz compreende os cernes abstratos é como colocar a pedra que encima e sela uma pirâmide.

O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda

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