Predadores e a hipótese gótica

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sabemos que na Natureza, desde os mais minúsculos seres até os mais volumosos, todos devoram a todos. É a chamada cadeia alimentar. Toda espécie possui um predador específico que se alimenta daquela espécie. O ser humano cometeu o erro de se julgar o predador universal, a espécie que devora todas as demais espécies, pois a casuística ufológica nos alertou para o fato de que existiria um predador situado num patamar superior do que o da espécie humana, um predador específico da espécie humana. Eu enquadro esse predador na categoria dos seres góticos, que além de hematófagos seriam também biotróficos, isto é, devoradores de energia. O Prestes, por exemplo, sofreu uma ação biotrófica, toda a biovitalidade dele foi sugada ao extremo, de modo que só restaram tecidos mortos. Enquanto morria, ele dizia categoricamente que não sentia nenhuma dor, apesar de pedaços de carne estarem se desgrudando do seu corpo. Já em outros casos, a intensidade da ação foi suficiente para matar, mas não queimar ou descarnar, como no das Máscaras de Chumbo. Na Ilha dos Caranguejos, houve descarnamento apenas parcial.

Fernando Grossman, criptozoólogo e ufólogo, em entrevista

Eu vi algumas sombra pretas passageiras projetadas na folhagem das árvores. Eram ou uma sombra indo de um lado para outro ou várias sombras passageiras movendo-se da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, ou diretamente para cima no ar. Elas me pareciam um peixe preto gordo e enorme. Era como se um peixe-espada gigantesco estivesse voando no ar. Eu fui passado a limpo na visão. Então, finalmente, aquilo me assustou. Ficou muito escuro para ver a folhagem, contudo eu ainda podia ver as sombras pretas passageiras.

“O que é isso, don Juan?” eu perguntei. “Vejo sombras pretas em movimento por toda parte”.

“Ah, isso é o universo imenso lá fora”, ele disse, “incomensurável, não-linear, fora do reino de sintaxe. Os feiticeiros do México antigo foram os primeiros a ver essas sombras, assim eles estudaram seus movimentos. Eles as viram como você as está vendo, e eles as viram como energia que flui no universo. E eles descobriram algo transcendental”.

Ele parou de falar e olhou para mim. Suas pausas eram perfeitamente colocadas.

Ele sempre parava de falar quando eu estava preso por um fio.

“O que eles descobriram, Don Juan?” eu perguntei.

“Eles descobriram que nós temos companhia na vida,” ele disse, tão claramente quanto pôde. “Nós temos um predador que veio das profundezas do cosmos e assumiu o controle de nossas vidas. Os seres humanos são seus prisioneiros. O predador é nosso senhor e mestre. Nos faz dóceis e desamparados. Se queremos protestar, suprime nosso protesto. Se queremos agir independentemente, exige que não o façamos.”

Estava muito escuro ao nosso redor, e isso parecia restringir qualquer reação de minha parte. Se fosse dia, eu teria rido até cair. Na escuridão, eu me sentia totalmente inibido.

“Está um breu aqui”, don Juan disse, “mas se você olhar pelo canto do olho, você ainda verá sombras em movimento, saltando ao seu redor.”

Ele estava certo. Eu ainda podia vê-las. Seu movimento me deixou atordoado.

Dom Juan acendeu a luz, e isso pareceu dissipar tudo.

“Você chegou, por seu próprio esforço, ao que os xamãs do México antigo chamavam ‘o tópico de tópicos’”, don Juan disse. “Eu tenho usado de evasivas a esse respeito até agora, insinuando a você que algo está nos mantendo prisioneiros.

Realmente nós somos prisioneiros! Este era um fato energético para os feiticeiros de México antigo”.

“Por que este predador assumiu o controle do modo que você está descrevendo, don Juan?” eu perguntei. “Deve haver uma explicação lógica”.

“Há uma explicação”, don Juan respondeu, “que é a explicação mais simples no mundo. Eles nos dominam porque somos comida para eles, e nos apertam impiedosamente porque somos seu sustento. Da mesma maneira que nós criamos galinhas em galinheiros, gallineros, os predadores nos criam em gaiolas humanas, humaneros. Então, sua comida está sempre disponível para eles.”

Eu sentia que minha cabeça estava sacudindo violentamente de um lado para o outro. Não podia expressar meu profundo senso de desconforto e descontentamento, mas meu corpo se moveu para trazê-lo à superfície. Eu tremi da cabeça aos pés sem qualquer volição de minha parte.

“Não, não, não, não”, eu me ouvi dizendo. “Isto é absurdo, don Juan. O que você está dizendo é algo monstruoso. Simplesmente não pode ser verdade, para feiticeiros ou para homens comuns, ou para qualquer um”.

“Por que não?” don Juan calmamente perguntou. “Por que não? Porque o enfurece?”

“Sim, me enfurece,” eu repliquei. “Essas afirmações são monstruosas!”

“Bem,” ele disse, “você não ouviu todas as afirmações ainda. Espere um pouco mais e veja como você se sente. Eu vou sujeitá-lo a um ataque relâmpago. Aliás, eu vou sujeitar sua mente a tremendos assaltos, e você não pode levantar e partir porque você está preso. Não porque eu o estou prendendo, mas porque algo em você o impedirá de partir, enquanto outra parte de você ficará totalmente desarvorada. Então prepare-se!”

Havia algo em mim que estava, eu sentia, com desejo de ser castigado. Ele tinha razão.

Eu não teria ido embora por nada neste mundo. E ainda assim eu não gostava nem um pouco das coisas que ele estava dizendo.

“Eu quero atrair a sua mente analítica”, don Juan disse. “Pense por um momento, e me diga como você explica a contradição entre a inteligência do homem engenheiro e a estupidez de seus sistemas de convicções, ou a estupidez de seu comportamento contraditório. Os feiticeiros acreditam que os predadores nos deram nosso sistema de crenças, nossas idéias de bem e mal, nossos costumes sociais. Foram eles que programaram nossas esperanças e expectativas e sonhos de sucesso ou fracasso. Eles nos deram ambição, ganância, e covardia. São os predadores que nos fazem complacentes, rotineiros, e egomaníacos”.

“Mas como eles podem fazer isto, don Juan?” eu perguntei, de alguma maneira mais irritado com o que ele estava dizendo. “Eles sussurram tudo isso em nossos ouvidos enquanto estamos adormecidos?”

“Não, eles não fazem assim. Isso é idiota!” Don Juan disse, sorrindo. “Eles são infinitamente mais eficientes e organizados que isso. Para nos manter obedientes, submissos e fracos, os predadores empreenderam uma manobra estupenda — estupenda, claro, do ponto de vista de um combatente estrategista. Uma manobra horrenda do ponto de vista dos que a sofrem. Eles nos deram sua mente! Entende? Os predadores nos dão a mente deles que se torna a nossa mente. A mente dos predadores é grotesca, contraditória, taciturna e cheia de medo de ser descoberta a qualquer momento.”

“Eu sei que embora nunca tenha passado fome,” ele continuou, “você tem ansiedade por comida que não é diferente da ansiedade do predador que teme que a qualquer momento sua manobra vai ser descoberta e sua comida vai ser negada. Pela nossa mente que, afinal de contas, é a mente deles, os predadores injetam nas vidas dos seres humanos tudo que é conveniente para eles. E eles asseguram, desta maneira, um grau de segurança para agir como um pára-choque contra o medo deles.”

“Não é que eu não possa aceitar tudo isso desta forma, don Juan,” eu disse. “Eu posso, mas há algo tão odioso nisso que na verdade me repele. Me força a assumir um ponto de vista contraditório. Se é verdade que eles se alimentam de nós, como eles fazem isso?”

Don Juan deu um largo sorriso. Ele estava tão contente quanto um saltimbanco.

Ele explicou que os feiticeiros vêem as crianças como estranhas e luminosas bolas de energia, cobertas de cima a baixo com uma capa brilhante, algo como uma cobertura de plástico que é ajustada firmemente em cima de seu casulo de energia. Ele disse que aquela capa brilhante de consciência era o que os predadores consumiam, e que quando um ser humano alcançava a idade adulta, tudo que sobrava daquela capa brilhante de consciência era uma franja estreita que ia do chão ao topo dos dedos do pé. Aquela franja permitia ao gênero humano continuar vivendo, mas só de forma precária.

Como em um sonho, eu ouvi Don Juan Matus explicando que, ao que ele sabia, o homem era a única espécie que tinha a capa brilhante de consciência fora de seu casulo luminoso. Portanto, ele se tornou presa fácil para uma consciência de uma ordem diferente, como a consciência pesada do predador.

Ele fez então a declaração mais prejudicial que tinha feito até então. Ele disse que esta faixa estreita de consciência era o epicentro da auto-reflexão, onde o homem era irremediavelmente preso. Manipulando nossa auto-reflexão, que é o único ponto de consciência que nos restou, os predadores criam lampejos de consciência que eles em seguida consomem de forma cruel e predatória. Eles nos dão problemas frívolos que forçam esses lampejos de consciência a aumentar, e desta maneira nos mantêm vivos para que eles possam ser alimentados com o brilho energético de nossas pseudopreocupações.

Deve ter havido algo tão devastador no que Don Juan estava dizendo que naquele momento eu comecei a sentir ânsias de vômito.

Depois de uma pausa, longa bastante para eu me recuperar, perguntei a don Juan: “Mas por que é que os feiticeiros de México antigo e todos os feiticeiros de hoje, embora vissem os predadores, não faziam nada a respeito?”

“Não há nada que você ou eu possamos fazer sobre isso,” Don Juan disse em uma voz triste e grave. “Tudo que nós podemos fazer é disciplinar-nos até o ponto onde eles não poderão nos tocar. Como você pode pedir para os seres humanos que passem por esses rigores de disciplina? Eles rirão e farão chacota de você, e os mais agressivos irão até bater-lhe. E nem tanto porque eles não acreditem nisto. Bem fundo, nos recônditos de todo ser humano, há um conhecimento ancestral, visceral sobre a existência dos predadores”.

O Lado Ativo do Infinito, Carlos Castaneda

5 comentários:

Verbenna disse...

Um dos textos mais perturbadores do Castaneda, pra mim. Talvez porque, como até ele mesmo diz, uma parte de nós reconhece a verdade nessas palavras... Foi um divisor de águas pra mim, consegui romper com anos de condicionamento depois que li esse texto pela primeira vez... V.

Fernando Augusto disse...

Em duas oportunidades, Verbenna, pude ver os predadores. São seres inseridos no contexto da Natureza, não são maus, nem bons, cumprem uma função dentro do jogo cósmico e natural.

Creio que a pertubação que sentimos advem do fato de nossa condição de predador supremo ficar em xeque ;-)

No intento,

F.A.

beijamim disse...

"Eles nos dão problemas frívolos que forçam esses lampejos de consciência a aumentar, e desta maneira nos mantêm vivos para que eles possam ser alimentados com o brilho energético de nossas pseudopreocupações."

Nossas pseudopreocupações não são, obviamente, algo que se refira ao centro de nossos interesses, que na maior parte das vezes permanece esquecido. Vivemos anos a fio assim, a vida toda, até ficarmos uns velhos tristes e infantilizados, quando não nos tornarmos coisa pior.

Muito bom esse texto, no meu caso, pra aceitar uma disciplina lúcida e espartana ao mesmo tempo, porque detesto disciplinas, mas não há outro jeito. Não quero ser uma galinha, já deu.

Essa história bate perfeitamente com uma visão de hayahuaska que minha esposa teve.

Há muito tempo, na época formativa da terra, chegaram esses seres do espaço. Eram extremamente fortes, escuros, alados, com a aparência de pterodátilos, postura vertical, muitíssima inteligência, nenhuma emotividade tal qual a conhecemos.
Chegaram cansados, de longa viajem, sentaram nas rochas e observaram tudo.
Talvez minha esposa fosse um deles, porque observava a própria garra escura e a mostrava, sabendo que alguém (ela mesma) num futuro muito distante estaria vendo. Mais tarde, teve outra miração que a mostrava "mudando de lado", entrando no círculo reencarnatório e tornando-se humana.
Eles chegaram aqui numa época em que a terra mal estava formada, era outro planeta. Pareciam civilizadores, ou com uma intenção desse tipo, mas o que ocorreu de fato, não sei. Vou buscar alguma coisa neste sentido da próxima vez que meditar e tomar daime.

beijamim disse...

De uma coisa eu sei. Sempre que um "negativo" é proposto pra alma, seja ele expresso em palavras, atos ou desejos, se você resiste e assimila com sua consciência a verdadeira significação da sugestão, ela passa a te dar energia (combustível) ao invés de retirar e sugar.
O negativo, temperado assim pelo "positivo", por ele é ordenado, e vira força de realização. Até na eletricidade precisa dos dois pólos pra fazer luz.
Então, dá pra drenar os caras, por este princípio.

Martyn disse...

é bom olhar pra uma praia.. uma floresta, um rio.. olhar pra natureza ver e sentir a Liberdade... ter pelo menos uma noção de Liberdade.


[..]O Ser Terra é muito mais poderoso que qualquer egrégora humana criada, é mais antigo, mais pleno, e está em sintonias com certos "planos" que nós humanos sequer intuímos existir.[..]

http://pistasdocaminho.blogspot.com/2008/09/egrgoras-e-energia-natural.html