Os poderes medicinais da Ayahuasca

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Por: Marcelo Rigotti.
Eng. Agrônomo, Dsc. Agronomia.
rigottims@yahoo.com.br

A ayahuasca é uma bebida preparada através da fervura de caules de mariri (B. caapi) com outras plantas, particularmente a chacrona (P. viridis), as folhas contem alcalóides responsáveis pelo efeito psicoativo. A atividade farmacológica depende da interação sinergística entre os alcalóides dessas duas espécies de plantas. O alcalóide psicoativo da planta chacrona, chamado tecnicamente de DMT possui efeito alucinogênico, que quando é ingerido isoladamente, não expressa seu efeito por ser absorvido pela enzima monoamino oxidase (MAO), que metaboliza a DMT e a digere muito antes que possa chegar ao cérebro, transformando a DMT em metabólitos inativos.

Porém quando ingerido em conjunto com a planta mariri que possui o composto β-carbolina que é um inibidor da MAO, o seu metabolismo é mais tardio, permitindo que o mesmo chegue ao cérebro. A bebida produz estimulação cardiovascular, aumentos na freqüência cardíaca e pressão arterial, sensações de estimulação visual ou auditiva, introspecção psicológica e forte sentimentos emocionais. A bebida tem gosto amargo e pode provocar vômitos.

Alguns pesquisadores têm sugerido a utilização em aplicações terapêuticas como um complemento ao tratamento para vícios da cocaína, alcoolismo e depressão.

Etnobotânica.
Banisteriopsis caapi (Spruce ex. Griseb.) C.V. Morton.
Outras espécies: Banisteriopsis muricata, Banisteriopsis inebrians, Banisteriopsis rusbyana (Diplopterys cabrerana).

Família: Malpighiaceae.
Nomes comuns: mariri, ayawaska, ayawaska negra, ayawaska amarilla, purgawaska. Usos etnofarmacológicos: Depurativa, emética, laxativa, dores de estomago, anti-reumática, tônica e usada contra lumbago.

Psychotria viridis Ruiz. et Pav.
Outras espécies: Psychotria psychotriaefolia (Seem.) Standl., Psychotria carthagenensis Jacq., Psychotria alba Ruiz et Pav., Psychotria ernestii K. Krause.

Família: Rubiaceae.
Nomes comuns: chacrona, chakruna, chakruna negra.

Usos etnofarmacológicos: Depurativa, dores de estomago, anti-reumática, tônica e usada contra lumbago.

O que é Ayahuasca.

Ayahuasca é uma infusão de plantas psicotrópicas utilizadas em rituais de xamanismo como uma bebida preparada a partir de caules de B. caapi, uma trepadeira encontrada na zona ocidental da bacia amazônica, juntamente com as folhas de P. viridis planta da família do café. Ayahuasca contem princípios psicoativos usada por mais de 70 grupos indígenas espalhados pelo Brasil, Colômbia, Peru, Venezuela, Bolívia e Equador (Goulart, 2005). Outros grupos como o Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal (UDV) usam a ayahuasca como instrumento para elevação do espírito, esses grupos possuem influencia do Catolicismo (Santos et al., 2007).

Os compostos psicoativos.

P. viridis contém DMT (N, N-dimetil – triptamina), um potente alucinógeno que é ativo quando tomado parenteralmente, mas não por via oral (Shulgin, 1976). Isto porque o trato gastrintestinal também contém a enzima monoamino oxidase (MAO), que metaboliza a DMT digerida muito antes que ela possa chegar ao cérebro, transformado em metabólitos inativos (Riba et al., 2003). No entanto, quando DMT é ingerida em conjunto com um inibidor da MAO – como é o caso do composto β-carbolina – o seu metabolismo é mais tardio, permitindo que o mesmo chegue ao cérebro (Ott, 1999). No entanto, DMT não é ativa em doses até 1000 mg (Shulgin, 1997). Após administração parenteral de mais de 25 mg, DMT mostra efeitos psicoativos (Shulgin, 1997). A sinergia entre os compostos psicoactivos em B. caapi e em P. viridis é uma notável interação farmacocinética. Inibidores da MAO são uma classe farmacológica de compostos com propriedades antidepressivas, impedindo a desagregação dos neurotransmissores da monoamino no cérebro (Julien, 1998). A DMT é comumente encontrada em tecidos de mamíferos, outros pesquisadores propõem que os níveis de DMT aumentem no cérebro de mamíferos durante o estresse, a permanência da DMT pode atuar como um ansiolítico endógeno (Jacob & Presti, 2005).

Os caules e cascas de B. caapi contém β-carbolinas tais como harmine e harmaline (Callaway, 2005) e 1,2,3,4-tetrahydroharmine. Estes compostos β-carbolinas possuem propriedades sedativas e alucinogênicas e pode também agir como inibidores da monoamina oxidase (IMAO). Porque a MAO decompõe DMT, sua inibição permite que a DMT seja absorvida e fique biodisponível oralmente. A β-carbolina frequentemente causam náuseas e vômitos (Haroz & Greenberg, 2006). As β-carbolinas não são psicoactivas, mas são inibidores da enzima MAO (Riba, 2003). A combinação das plantas conduz a efeitos psicoativos porque a distribuição da substancia DMT não é inibida (Riba et al., 2003).

Os efeitos.

Os efeitos geralmente começam após 30-40min da ingestão, o pico dura cerca de 2 h, e pode chegar a 6h (Riba et al., 2003). A bebida produz moderada estimulação cardiovascular, incluindo aumentos na freqüência cardíaca e pressão arterial diastólica (Riba et al., 2003). Usuários relataram sensações de estimulação visual ou auditiva, sinastesia, introspecção psicológica e forte sentimentos emocionais que vão desde tristeza ocasional ou medo até a exaltação e conforto espiritual (Shanon, 2002). O chá tem um gosto amargo e não pode ser descrito como agradável para beber. A ocorrência da emese, ou vômito, não é incomum durante a experiência, um efeito que é geralmente considerado como uma purificação espiritual ou física.

Estudos recentes tem revelado que a ingestão da ayahuasca diminuiu os sintomas do mal de Parkinson em pacientes com esta doença (Serrano-Duenas et al., 2001). Em outro estudo, Grob et al. (1996), entrevistou 15 praticantes da União do Vegetal, 11 deles eram usuários do álcool de moderados a severos antes de engajar na nova religião, 5 deles relataram comportamento violento associado ao uso do álcool, 4 tinham envolvimento com outras drogas que incluíam cocaína e anfetamina, 8 eram fumantes compulsivos. Todos eles largaram seus vícios após o inicio da ingestão da ayahuasca, sem danos na personalidade ou na cognição.

Prova de dependência Ayahuasca é inexistente, na verdade, alguns têm sugerido a utilização em aplicações terapêuticas como um complemento ao tratamento para vícios (McKenna, 2004). Mabit (1996) propôs o uso medicinal da ayahuasca no tratamento do vicio da cocaína. Labigalini (1998) descreveu o uso da bebida por ex alcoólicos em um contexto religioso.


Referências

CALLAWAY, J.C. 2005. Various alkaloid profiles in decoctions of Banisteriopsis caapi. J. Psychoactive Drugs 37: 151–155.

GOULART, S. L. 2005. Contrastes e continuidades em uma tradição religiosa amazônica: os casos do Santo Daime, da Barquinha e UDV. In: Labate, B.C., Goulart, S.L. (Orgs.), O uso ritual das plantas de poder. Mercado de Letras, Campinas, pp. 355–396.

GROB, C. S.; MCKENNA, D. J.; CALLAWAY, J. C.; BRITO, G. S.; NEVES, E. S.; OBERLAENDER, G. 1996. Human psychopharmacology of hoasca, a plant hallucinogen used in ritual context in Brazil. J Nerv Ment Dis, 184: 86–94.

HAROZ, R.; GREENBERG, M. I. 2006. New Drugs of Abuse in North America. Clin Lab Med 26: 147–164.

JACOB, M. S.; PRESTI, D. E. 2005. Endogenous psychoactive tryptamines reconsidered: an anxiolytic role for dimethyltryptamine. Med. Hypoth. 64: 930–937.

JULIEN, R. M. 1998. A primer of drug action: A concise, non-technical guide to the actions, uses, and side effects of psychoactive drugs (8th ed.). Portland, OR: W.H. Freeman & Company.

LABIGALINI, E. J. O uso de ayhuasca em um contexto religioso por ex-dependentes de álcool – um estudo qualitativo. Tese de Mestrado, Universidade Federal de São Paulo; 1998. p. 1 – 67.

MABIT, M. 1996. Takiwasi: ayahuasca and shamanism in addiction therapy. MAPS Newslett. 6, 24–27.

MCKENNA, D. J. 2004. Clinical investigations of the therapeutic potential of ayahuasca: Rationale and regulatory challenges. Pharmacology & Therapeutics, 102: 111–129.

OTT, J. 1999. Pharmahuasca: Human pharmacology of oral DMT plus harmine. Journal of Psychoactive Drugs, 31 : 171–177.
RIBA, M. J.; VALLE, G.; URBANO, M.; YRITIA, A.; MORTE, M. J. 2003. Human pharmacology of ayahuasca: subjective and cardiovascular effects, monoamine metaboliteexcretion, and pharmacokinetics, J. Pharmacol. Exp. Ther. 306: 73–83.

SANTOS, R. G.; LANDEIRA-FERNANDEZ, J.; STRASSMAN, R. J.; MOTTA, V.; CRUZ, A. P. M. 2007. Effects of ayahuasca on psychometric measures of anxiety, panic-like and hopelessness in Santo Daime members. Journal of Ethnopharmacology, 112: 507–513

SCHWARZ, M. J.; HOUGHTON, P. J.; ROSE, S.; JENNER, P.; LEES, A. D. 2003. Activities of extract and constituents of Banisteriopsis caapi relevant to Parkinsonism. Pharmacology, Biochemistry and Behavior, 75: 627– 633.

SERRANO-DUENAS, M.; CARDOZO-PELAEZ, F.; SANCHEZ-RAMOS, J. R. 2001. Scientific Review of Alternative Medicine, 5: 127– 132.
SHANON, B. 2002. The antipodes of the mind: Charting the phenomenology of the ayahuasca experience. Oxford: Oxford University Press.

SHULGIN, A. 1976. Profiles of psychedelic drugs. I. DMT. Journal of Psychedelic Drugs, 8: 167–168.

SHULGIN, T. A: The Continuation, Transform Press, 1997.

RETIRADO DO SITE : http://www.curaplantas.xpg.com.br

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