Procrastinação

segunda-feira, 26 de março de 2012

Quando começou a escurecer, um vento frio e cortante começou a soprar nas encostas. Juntamente com as frias rajadas, vinham nevascas e cortantes cristais de gelo. Já não se via mais o quente sol da tarde e as encostas das montanhas estavam escuras e geladas, na verdade, perigosas.

Perdidas no ruído do vento uivante, duas pequenas vozes se ouviam:

- P... P... P... Puxa, está realmente frio h... hoje!

- Se ficar mais frio podemos até morrer. Podemos morrer congelados neste mesmo lugar!

- Sinto que minhas unhas estão congeladas nos meus pés. Se tivéssemos feito um ninho, à tarde, em vez de brincar o dia todo... Oh! está tão f... frio!

Essas vozes eram de dois passarinhos que, como duas bolas de penugem, aconchegavam-se no galho de uma velha árvore curtida pelo tempo, no alto da cordilheira do Himalaia.

Na altitude em que viviam, a neve dificilmente deixava a terra, mesmo em pleno verão. E durante o dia, quando o sol aparecia, esquentava tão pouco que quase não se percebia. Esse era o problema deles. Eles juraram fazer um ninho para afastar o terrível frio da noite, mas esqueciam as promessas durante o dia e esvoaçavam à procura de comida, cochilavam um pouco e brincavam sob a luz e o calor do sol. Agora, estavam amargamente arrependidos da tolice que fizeram.

- A.. Acho que v... vamos morrer desta vez. O f... frio é demais. Vamos m... morrer...

- Quando o sol vier, vamos fazer um ninho. Está bem? D... Desta vez não vamos esquecer, p... pela nossa vida.

Na realidade, era tão grande o frio naquela noite, que eles não conseguiram nem dormir. Durante a noite toda, choraram e se queixaram, prometendo fazer um ninho logo que o sol nascesse. A noite parecia durar séculos e séculos, enquanto o frio penetrava em seus ossos.

Não faltava muito para darem o último suspiro. Suas vozes enfraqueceram e os corpos caíram, ficando dependurados pelos pés que se congelaram no galho.

- Oh!... Estamos... m... morrendo!

- Logo... que... o... s... sol...

Exatamente quando parecia tarde demais, um raio dourado refletiu-se na face congelada de um penhasco e atingiu uma agulha de gelo dependurada do bico do pássaro macho. O cortante frio deve ter feito seus olhos lacrimejarem e congelado a lágrima antes que pudesse cair.

No começo não se mexeu, mas depois abriu lentamente os olhos para uma última visão neste mundo. Quando avistou o feixe dourado da luz do sol, gritou repentinamente e sacudiu-se para tirar o gelo preso nas penas.

- É o sol! Acorde! É o sol!...
- É verdade? Então não vamos morrer!
- Oh! Como é maravilhoso sentir a vida!

Seguramente, o sol subiu aos poucos pelos picos gelados das montanhas e lentamente os dois pássaros começaram a sentir o calor aquecer suas penas congeladas.

- Ah!... O sol está tão bom. Acho que vou dormir um pouco. Não conseguimos dormir a noite inteira.

- Mas... e o ninho? Conseguiremos terminá-lo se dormirmos?

- Não se preocupe com isso. Teremos muito tempo depois de dormirmos e comermos um pouco.

Assim, eles dormiram e comeram, apreciando o calor do dia. Voando pelos céus, o pássaro macho cantava:

- No conforto dos céus, nas minhas asas e canção. Quando se cansar pode sempre repousar. A vida é tão curta e o dia é longo. Quem precisa ter pressa para fazer o ninho?

Eles continuaram a brincar por várias horas até perceberem que estava começando a ficar frio. Eles olharam para o sol e perceberam horrorizados que ele estava começando a se pôr no oeste. Perceberam repentinamente que não havia mais tempo para construir o ninho antes de escurecer. Com olhares preocupados, desceram do céu e pousaram num galho.

Depois de uma pausa, o pássaro olhou para a esposa e disse com um sorriso disfarçado:

- Bem, o sol está baixando e, mesmo que comecemos, não há tempo para terminar o ninho. Vamos aproveitar o resto do sol.

Assim, eles esbanjaram o resto do dia. Não demorou muito para ficar frio outra vez.

- P... P... P... Puxa, está realmente frio h... hoje...!

- Está ainda mais f... frio que ontem!

- Se esfriar mais não v... vamos v... viver até amanhã. Oh!... está tão f... frio!

E assim, caros amigos, os dois pássaros viveram o resto de suas vidas, desperdiçando totalmente os dias e sofrendo durante as noites.

2 comentários:

Bryte disse...

Boa Tarde Tio Fê.
Desta vez o senhor "Pesado", ou melhor me "Cutucou com Vara Curta"
Durante a Tarde ou quem sabe a Noite, ou Talvez Amanhã.
Prometo que vou pensar "SERIAMENTE" no Assunto para mim tão Delicado.
Um Abraço Fraterno.
Clara.

KALI, desesperadamente humana. disse...

Forte. Um tapa na (minha) cara.
Obrigada.