Paranóia

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Qual a sua paranóia predileta?

Se formos levar em conta a etimologia da palavra paranóia todos o são, varia apenas a intensidade e o tipo.

Do Grego paranoia, “loucura, doença mental”, de PARA-, “ao lado, além”, mais NOOS, “mente”.

Ou seja a mente fora do seu lugar.

Mas o que significa este lugar. Qual o lugar da mente?

Talvez a palavra paranóia nos revele mais sobre isto.

Paranóia é um tipo de ansiedade, ansiedade persecutória, a pessoa sente-se perseguida. A ansiedade projeta a mente sempre para o futuro, portanto, tira a mente do presente e daquilo que é. Coloca a mente num outro "lugar", num outro tempo: o futuro.

A mente fixada no futuro movida pela ansiedade estaria fora do seu "lugar" pois fora do seu tempo? A alienação do presente para viver uma fantasia mental, uma projeção delirante, uma imaginação negativa estruturada, coerente e lógica, apesar de mentirosa. Temos uma convincente e convicta farsa crônica.

Quantas coisas não são capazes de tirar a mente do seu lugar? Muitíssimas.

Paranóia, medo, ansiedade persecutória é apenas uma delas, contudo é a palavra paranóia que carrega em sua origem esta noção de bagunça mental, de desalinhamento, de mente fora do seu lugar, então é ela que nos permite uma análise da nossa própria loucura através de um raciocínio específico.

Faço parte da chamada tribo dos conspiranóicos e e noto que as pessoas que compõem esta tribo são capazes de ver numa cedilha o rabo do próprio Satanás.

Há vários tipos de paranóia. Um tipo bem popular e comum é o ciúme. Ciúme é paranóia. Não é à toa que se brinca dizendo: chifre é uma coisa que colocaram na sua cabeça. Talvez por isto o Diabo tenha chifres pois ele é o fomentador da paranóia e o alvo predileto de paranóicos religiosos. O Diabo é uma metáfora para o nosso querido ego. O ego é diabólico, pois ele é um projetor poderoso de forças do inconsciente sob o filtro de uma aparente racionalidade, o ego é um lacaio da sombra, ele não se sabe escravo e age de forma tal que expressa a idéia de Sartre: o inferno são os outros.

Temos então o tipo ciúme e o tipo persecutório. Mas há um outro tipo, relativamente comum, é o tipo grandeza, com ares de mitomania, sente-se a encarnação de um grande personagem ou deus, julgando ter poderes especiais, é aquele que se sente capaz de fazer chover. Conheço alguns, o que me preocupas deveras, considerando-se a lei da atração. Normalmente vejo estes tipos associados de alguma maneira a parte espiritual, são misticóides, relatam suas grandes experiências, fascinados por si mesmos e alimentam um poderoso medo da morte, lutam a todo custo para afirmar ou justificar sua suposta grandeza, deste tipo o Diabo representado pelo ator Al Pacino no filme Advogado do Diabo disse:

- A vaidade é o meu pecado predileto.


Este tipo ainda pode ver, sentir, perceber que estão lhe fazendo mal através de magias, feitiços e outras artes mágicas, mas seu suposto poder sempre o protege, sente-se atacado mas se acredita invencível, é capaz de tornar-se iniciado em tradições místicas para justificar sua suposta condição de grande hierarca. Pode tornar-se assassino, psicopata mesmo, justificando tal coisa por ser um enviado da Justiça Divina, um executor da lei espiritual.

Outro tipo interessante que já encontramos é o tipo somático, ele manifesta em seu corpo ou em sua percepção fantasiosa uma série de impressões olfativas, gustativas, visuais ou auditivas que justificam a sua paranoia, um clássico exemplo de efeito nocebo, o lado negativo do efeito placebo.

Por fim temos o paranoico amoroso, ele idealiza uma pessoa a coloca num pedestal e acredita firmente que esta pessoa o ama, de um ponto de vista espiritual e fantástico.

Em geral os paranóicos tornam-se muitos refratários ao contato social, são anti-sociais, quase sociopatas, fecham-se em suas cavernas, isolam-se e são extremamente introspectivos e seletivos em suas relações. Julgam-se de alguma formas especiais, distintos do mundo, alguns se acreditamu encarnações de seres alienígenas e justificam isto de uma maneira bastante lógica pelo seu próprio comportamento estranho.

Como paranoico contumaz me vejo ou já me vi em alguns tipos e o melhor antídoto contra esta tendência psíquica é basear-nos em evidências concretas e orientamos a nossa razão e imaginação dentro de um contexto onde a mente se encontre em seu “lugar”, assentada no presente, sem as elocubrações fantásticas típicas da paranoia, usando a meditação e a própria razão de uma forma implacável para questionar as nossas próprias projeções psíquicas.

Sejamos paranóicos, mas com moderação, afinal há um prazer secreto em crer-se capaz de perceber os segredos e conspirações deste mundo sejam elas reais ou não. Evitemos toda a viagem na Hellman´s Airline, se possível.

Certamente a paranóia interessa aos podres poderes que regem esta era de ferro - Kali Yuga - pois ela nos impede de ver e de agir de uma maneira positiva para mudarmos a nossa própria realidade.

F.A.

2 comentários:

quartofora disse...

Penso se às vezes é pouca vontade de assimilar papo furado, impessoalidades em festas, encontros etc, ou se essa seletividade é mesmo paran´øia, vaidade, orgulho, desdém. Fuga. Qual o caminho que percebe? Obrigado

Fernando Augusto disse...

A seletividade é uma atitude onde procuramos estabelecer relações compatíveis com a nossa energia, então vamos buscar relações que aumentem a nossa energia e a nossa consciência, estamos abertos ao mundo, ao outro e ao aprendizado. A seletividade exige que eu tenha foco em algo importante para mim mesmo: o incremento da minha energia, consciência e bem-estar. Aqui estou buscando a impecabilidade do meu próprio ser.

O paranóico não é seletivo neste sentido, ele busca confirmações de sua visão de mundo no outro a partir de uma base que não é impecável por uma simples razão: ele está contra o mundo, o mundo conspira contra ele, em vez dele usar o mundo a seu favor para lograr um aumento da própria consciência ele entra em conflito com ele.

O paranóico está em guerra com tudo.

Quando somos impecáveis usamos o mundo como um local de treinamento para lograr aumentos de energia e consciência, não nos colocamos contra o mundo, não o julgamos, sabemos que não iremos mudar o mundo nem o outro, antes temos que mudar a nós mesmos.

A paranóia representa um dos aspectos do primeiro inimigo para quem trilha o caminho do (auto) conhecimento: o medo.

Eu que agradeço _/\_