A realidade é uma construção

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Esta realidade não é dada, ela é construída. E ela é construída de maneira tal para não percebermos que ela é uma construção, para parecer que ela é dada, determinada, criada por forças supremas.

As coisas não são como Deus quer mas como nós queremos que sejam.

"Nós" inclui a toda a humanidade.

Quando um homem e uma mulher aceitam que a realidade é algo dado por Deus ou pelo destino ou pelo carma está aceitando uma ideologia que foi construída por alguém, por um grupo ou por um sistema religioso (ideológico).

Neste sentido a realidade é dada, dada por alguém para outrem como um presente de grego ou como uma cavalo de tróia, uma armadilha para que se ganhe uma batalha de ordem ideológica e mental, onde a realidade supostamente dada é na verdade uma imposição ou uma dominação ideológica.

A ideologia dominante é a mente coletiva de um grupo de obsessores abstratos, formados por conceitos vampiros que alienam o ser de sua liberdade e autonomia fundamental: deuses capazes de criar a própria realidade, responsáveis pelo próprio destino, senhores de seu próprio carma.

O consenso sobre a realidade é uma guerra onde há vencedores e vencidos.

A realidade do consenso é uma construção vitoriosa de uma elite sobre a massa.

Esta elite transformou a humanidade num recurso, recursos humanos e teu corpo num produto manufaturado e numa corpo_ração.

Deus, Destino e Carma são palavras possuídas pela elite vitoriosa na guerra ideológica que estabeleceu a realidade do consenso e o consenso sobre a realidade.

Todos aqueles que defendem que Deus está dentro de cada um, que o destino é mutável e que o Carma é flexível e negociável foram derrotados na guerra ideológica da realidade consensual, mas ainda podem, como rebeldes, criar o seu próprio sonho lutando contra os conceitos vitoriosos dentro da mente coletiva. Obviamente serão perseguidos, discriminados e marginalizados.

"Seja o que Deus quiser" é uma afirmativa dos derrotados, uma conformidade com a ordem imposta ao mundo por forças que nada tem de divinas.

Mas a guerra continua, cada um tem uma luta individual para afirmar-se perante a ordem estabelecida e cada um dá ou deve dar o seu melhor, inclusive porque apesar da possibilidade de uma vitória pessoal há sempre aquela outra possibilidade que só os grandes jinas são capazes de executar, que é renunciar a própria liberdade por amor e compaixão para lutar por seus irmãos e irmãs. E isto não deixa de ser uma outra espécie de loucura controlada, como dizem os xamãs do clã guerreiro.

F.A.


A natureza do conhecimento ou a pílula vermelha - 7ª parte

domingo, 28 de dezembro de 2014

A Obra do Nagual - 2ª parte - por Nuvem que passa

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O nagualismo trazido ao nosso conhecimento pela obra do antropólogo doutor Carlos Castaneda apresenta temas dos mais interessantes.

C.C. após passar por experiências intensas, como o ataque que sofre nas mãos da feiticeira Soledad que poderia tê-lo matado, começa a resgatar outra dimensão do seu aprendizado, que havia estado guardada em outra freqüência de seu ser. Como se fosse um aparelho de rádio, C.C. descobre que além das ondas AM onde vive, mundo que chama de real, há outro mundo operando em ondas de FM. Ele vai percebendo, a principio desordenadamente depois, pouco a pouco com mais coerência que tudo que pensava compreender de seu treinamento é apenas a ponta de um iceberg de algo muito mais complexo.

Começo por aqui este tema para deixar claro que a obra do Doutor Carlos Castañeda não pode ser lida pela metade. Só a leitura completa da obra , todos os volumes, permitem uma abordagem mais adequada do que ele pretende transmitir. Ele esteve exposto a magistrais manipuladores dos estados de consciência que um ser humano pode alcançar e cuidaram para que a parte mais profunda e complexa de seu aprendizado acontecesse neste outro nível, em FM.

Com o auxilio de "La Gorda" ele relembra fragmentos deste mundo paralelo no qual esteve vivendo, essa vida paralela onde aprendia com todo o "grupo do Nagual" composto por 16 pessoas cada uma depositária de um aspecto do antigo saber Tolteca, herdado e mantido por todos esses milhares de anos, bem nas barbas da orgulhosa e prepotente civilização que pretendia escravizar corpos e almas para seus fins. Cada um dos 16 integrantes do grupo era expert num aspecto do saber dos antigos Toltecas, eram elementos vivos e dinâmicos de um mito, de uma tradição. Isto é um ponto dos mais importantes para quem estuda o caminho Tolteca. Ele não pode ser criado como nós entendemos criação, ele não pode ser forjado em nossas frágeis forjas.

Embora a herança dos Toltecas, a Liberdade Total, possa ser requerida por muitos, embora não seja necessário estar num grupo nagualístico para reinvidicar acesso a herança Tolteca, um grupo Tolteca tradicional está dentro de parâmetros próprios, não aleatórios e não acessíveis a uma manipulação artificial. Embora os conquistadores houvessem tentado exterminar a antiga tradição eles falharam. Os quatro ventos, as quatro direções do mundo, os quatro pilares, enfim, o cerne do poder dos antigos nativos permanecia, sendo transmitido em palavras e atos de poder.

C.C. se lembra de como foi apresentado a cada uma dessas pessoas, como foi testado e trabalhado para abandonar seu falso eu, essa multidão criada pelo Sistema. Abandonar o que acreditava ser para de fato mergulhar na essência perceptiva que era e que poderia desenvolver a tal ponto que poderia ao final, transcender o apelo de morrer e entrar num estado alternativo de continuidade.

D. Juan Matus , Genaro, Sílvio Manuel, Vicente.

Quatro homens que herdam aspectos do saber Tolteca e o ensinam a C.C. Silvio Manoel, mestre do Intento, poderoso e assustador feiticeiro no princípio para o ainda imaturo C.C. mas que vai se revelar um excelente dançarino, verdadeiro pé de valsa que ensina as companheiras de C.C. já de um grupo diferente do que é citado nos livros até então, a dançarem "a dança do intento" onde os passes mágicos da Tensegridade, exercícios de movimento para liberar e fluir a energia em nós, são associados a dança gerando movimentos de grande poder.

O mundo onde C.C. se vê inserido é complexo e não podemos querer encontrar aí uma textura comum a nossa "realidade" pois, embora material , este mundo está noutra camada da cebola, muito perto desta é verdade, ainda assim distinto. Os conceitos que C.C. recebe de seus iniciadores e iniciadoras vem da ancestral civilização que existiu na região onde hoje estende-se o estado mexicano e algumas outras repúblicas sul americanas, mais um pedaço que hoje está nas mãos dos EUA. Esta civilização atingiu seu ápice em algum momento que situa-se há aproximadamente 4000 anos de nosso tempo. Então algo ocorreu e eles e elas se foram, para alhures.

Os que ficaram reorganizaram o que restou desse saber e surgiu um segundo ciclo civilizatório com o saber herdado, uma Era de Prata, se chamarmos a Era do auge deste poder de Era de Ouro. Mas então chegaram os primeiros povos conquistadores. Outros povos nativos que vinham com algo diferente em sua mente. Eles só captavam AM não eram mais capaz de sintonizar em FM. Este limite era também uma proteção. Quando poderosos feiticeiros convocavam seus "aliados" e "animais de poder" muitas vezes nada conseguiam, apenas uma flechada ou bordunada e eram mortos. Muitos foram mortos e a civilização mágica caiu. Alguns poucos sobreviveram e em seu refúgio começaram a estudar porque eles haviam conseguido sobreviver e outros não. Por que a magia deles funcionara e a de tantos outros não.

A primeira coisa que descobriram é que o que consideravam ser o plano "espiritual" , um plano superior e mais forte que este era na realidade outra face da moeda, mais vasto é verdade, mas não superior. E que a maioria dos sobreviventes era do clã guerreiro, que ainda se dedicava as práticas físicas e trabalhos corporais, revelando que o poder a mais que tinham, o fator determinante para a sua sobrevivência, foi o poder do corpo.

Este ponto foi fundamental para seus novos estudos, começaram a trabalhar algumas questões antigas e descobriram que resolver este mundo antes de mergulhar na eternidade é gerar condições de energia para evitar se diluir na amplitude da eternidade. Aí começaram um novo caminho, com uma profunda crítica aos hábitos de seus antepassados, que não foram suficientes para mantê-los vivos, algo fundamental. Quando estavam no auge desse processo, duzentos anos aproximadamente após a queda de uma porção significativa das aldeias ainda resistentes ao domínio dos Astecas chegaram os invasores iberos, estes sim bárbaros e tirânicos. Sob esta condição de profunda opressão os sobreviventes forjaram seu conhecimento, exigente, disciplinado, guerreiro.


Continua...

A Obra do Nagual - 1ª parte - por Nuvem que passa

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A obra de Carlos Castaneda poder ser considerada como uma das obras mais interessantes e revolucionárias de nosso século. Ali conceitos completamente novos são apresentados, abordagens realmente novas da realidade e da nossa percepção das mesmas, são apresentadas lado a lado com conhecimentos similares a encontrados no Taoísmo, certas linhas de Budismo, Islamismo, Hinduísmo, Cristianismo, Judaísmo chamadas de "esotéricas".

Existe um livro que tenta provar que Castaneda não viveu nenhuma das experiências que narra, o background espaço-temporal que ele usa como contexto para expor os conhecimentos ali liberados pela primeira vez fora dos fechadíssimos, discretos e ciosos grupos que exploram há milênios esse mesmo saber.O Doutor Carlos Castaneda tenta mostrar ser a América possuidora de civilizações tão complexas como as que deixaram seus sinais em outras partes do Globo. Perguntas fundamentais que resultaram como resposta à Arte, à Magia ou à Ciência oficial, em outras partes do mundo, aqui geraram formas de magia e ciência muito complexas e a dizimação quase completa dos povos nativos, ainda em curso diga-se de passagem, não quebrou esse elo de transmissão.Para alguém que ensina a ausência de história pessoal nada mais coerente que ter um livro publicado por um estudioso sério desmentindo o fundo "pessoal" dos conhecimentos apresentados. Uma leitura atenta dos 3 primeiros livros onde este relato é mais intenso, revela que as informações chave, como os 4 inimigos daquele(a) que busca o conhecimento, tem valor intrínseco, independente do contexto que foram apresentadas. O valor do conhecimento expresso vai muito além do contexto onde ele está inserido. Se o Doutor Carlos Castaneda estava aprendendo com o velho índio no deserto mexicano ou no parque de sua cidade ou em seu quintal em Los Angeles não é este o ponto focal.

Mas o que me interessa bastante é que numa era de "paparazis" que são de uma forma ou de outra, co-responsáveis pela morte de uma princesa do Império Britânico, num mundo onde ninguém passa totalmente despercebido, num mundo cheio de recursos alguém que passou os últimos anos de sua vida dando seminários para mais de 300 pessoas em cada um deles, nos EUA e na Europa, não tenha mais que algumas poucas e contraditórias fotos suas. Nesta era de total invasão da privacidade em nome dessa imprensa marrom que sustenta o esporte preferido, mexericos, desde que os hábitos das cortes parecem ter contaminado nossas vidas, nesta era da imagem, quase nenhuma foto.

E depois que ele "morreu" de câncer de fígado, como Krishnamurti antes dele, em prometéica herança, o seu livro, mais vendido por meses, foi um livro chamado "Passes mágicos" - Um livro de posturas de poder, em fotos, para longevidade e bem estar, saúde e harmonia.

Contradição, paradoxo, os que lêem Castaneda são birutas mesmo, derreteram o cérebro brincando com plantas de poder?

O que sinto após tornar a ler a obra inteira de uma vez em duas semanas, é que estamos diante de um tratado, algo que supera grande parte dos tratados de magia escrito no século passado, embora integre harmonicamente os conceitos apresentados por muitas escolas competentes.

De alguma forma, nunca saberemos exatamente como, C. C., também conhecido como Joe, ou como Isidoro Baltazar ou outros nomes , entrou em contato com um saber ancestral. Por anos ele conviveu com homens e mulheres que eram herdeiros diretos desse saber.

Ponto um: Nenhum desses homens ou mulheres tinham a menor intenção de criar uma seita, uma religião ou fazer proselitismo de seu saber. Eles estavam apenas perpetuando uma linhagem. Estavam dando continuidade a uma magia antiga, a uma linhagem de poder e Ser que começara em tempo indeterminado na Era mítica. Cada um desses homens e mulheres afirmaram que só como mito poder-se - ia viver plenamente o caminho que eles apontavam ao relutante aprendiz. E por ser relutante, por ser difícil ele era bastante apreciado.

um caminho onde voluntários são vistos com reservas, pois voluntários costumam acreditar que sabem o que estão procurando e deturpam o conhecimento para adaptar-se a seus padrões pré concebidos. Pois para aqueles homens e mulheres, ao menos foram homens e mulheres um dia, voluntários raramente eram bem vindos. Voluntários tem idéias muito preconcebidas e raramente aceitam mudar realmente, não aceitam a morte que toda iniciação propõe.

E aprendendo de uma forma muito complexa começou Carlos Castaneda a aprender com aquele grupo. E nesse aprendizado se viu ludibriado várias vezes pelo velho índio que era estranhamente inteligente e sofisticado, coisas que o preconceito acadêmico raramente permite a um "nativo". Ludibriado, pois enquanto sua atenção estava fixa em algum aspecto que lhe era colocado a frente, a verdadeira ação de D. Juan Matus, também conhecido como John Michael Abelar e Mariano Aureliano entre outros, enquanto o verdadeiro aprendizado acontecia disfarçadamente, evitando que sua mente racional e condicionada lutasse contra tal saber, deixando que ele sedimentasse como ganho efetivo. Aprendizado complexo, pois lidava também com um outro estado de consciência que antes dele nenhuma escola esotérica explicitou com tanta clareza. Todos sabemos que estar dentro de uma escola, estar ligado a um mestre ou mestra cria uma atmosfera psíquica própria, a energia de quem ensina, quando é real, permite um catalisar do processo de aprendizagem, baixa a energia de ativação necessária para se alcançar certos resultados.

O método proposto pela escola Tolteca é muito sutil. Num nível alterado de consciência, num nível especifico, onde a lembrança do dia a dia fica mais fraca, um nível que não é lembrado no dia a dia, neste nível ocorre outra parte do treinamento do aprendiz. Aqui ele recebe conhecimentos de grande poder, conhecimentos que estarão protegidos pelo esquecimento até que o aprendiz tenha energia suficiente para acessar tal nível por si. Por isso ler a obra de C.C. implica em compreender que tudo que é apresentado tem uma complexidade muito maior.

C.C. começa seu caminho público quando aparece na mídia e vira guru alternativo, padrinho da nova Era, pela exaltação dos alucinógenos como caminho para se tornar "um homem de conhecimento". Quando chega em Viagem a Ixtlan ele muda suas colocações revelando que os aspectos mais importantes do saber que estava recebendo não eram de forma alguma as viagens que tivera sob efeito das plantas de poder.

E coloca que partes que havia anotado e deixado de lado se revelavam agora a espinha dorsal do sistema que começava a vislumbrar atrás dos atos aparentemente malucos de seu informante índio. Um velho, que exceto por um companheiro ainda mais louco, D. Genaro que representava ser realmente demente e capaz de fazer coisas que estarreciam a mente linear, parecia viver isolado e fora do mundo em algum ponto do México, na região de Sonora.

Quando C.C. lançou Viagem a Ixtlan, seu trabalho de mestrado, obteve uma resposta diferente da mídia. Pouco a pouco os meios de comunicação passaram a desgostar de sua mensagem, o governo mexicano, conhecido por uma política sistemática de extermínio dos povos nativos, ainda hoje em andamento, vide Chiapas, ficou preocupado. Os povos nativos de todo o continente pela primeira vez tinham suas reais tradições trazidas a tona, quando digo reais digo suas tradições esotéricas, não o arremedo exterior que ficou reproduzido pelos sobreviventes, exilados de si mesmos, como os africanos vieram exilados de sua terra. E neste continente, por estarem exilados de si mesmos, não puderam levar nada, nada sobrou e o mito da puerilidade dos ritos e crenças dos nativos dessas terras ganhou força.

Mas um grupo continuou ensinando seu aprendiz sem se ocupar disso. Escrever os livros era uma tarefa que C.C. recebera de seu mestre iniciador e cumpri-la era sua missão. Viagem a Ixtlan é um livro de acesso ao Xamanismo guerreiro. E é importante notar que estamos falando de Xamanismo Guerreiro. O Xamanismo que sobreviveu graças aos iniciados dos clãs guerreiros que sobreviveram aos massacres, primeiro de outras tribos em guerras várias, como os Astecas já um século antes da Conquista, depois dos invasores de além do oceano, que vinham para dizimar e apagar da história da ancestral civilização que se manifestava em muitas formas por todo o continente.

O fato é que aquele grupo vem da linhagem guerreira por isso nada mais ilusório que querer fazer proselitismo das idéias de Carlos Castaneda. A obra é o relato de uma linhagem, um partilhar de conhecimentos úteis a quem segue um determinado caminho. Como todo caminho rumo ao despertar tem muitas idéias que servem a todos que desejam um vida mais plena e forte, mas as nuances mais importantes do processo é algo específico para quem busca o despertar na forma que os(as) xamãs guerreiros(as) consideram a mais adequada para se tornar um ser pleno quando adentrarmos outros mundos. Entrar em outros mundos, atingir outros estados de consciência com autonomia e liberdade não como servos de criaturas ancestrais que já vivem nestas outras esferas e tem a terrível mania de nos tomar sob sua tutela, a um pesado preço: Nossa liberdade.

É nesse contexto que C.C. aprende e certo dia caminhando numa cidade do interior do México tem outro "assalto a sua razão". O caipira , o índio eremita estava na cidade grande, de terno e gravata, meias combinando como D. Juan mesmo chama a atenção. E começa uma nova fse do aprendizado. Um conceito complexo é apresentado: Tonal e Nagual. E a obra ganha nova profundidade, conhecimentos complexos são aprensetados e o inusitado também entra em cena. D. Juan". D. Juan Matus e D. Genaro desaparecem.

Antes disso criam um drama inciático catártico e como ato final Carlos Castaneda vai pular num precipício voluntariamente junto com outros aprendizes, corroborando em si e por si, os ensinamentos que havia recebido. O interessante é que em toda a história subseqüente a trajetória iniciática fica mais forte e os conhecimentos que acompanham a narrativa são dos mais interessantes. Carlos Castaneda justifica a publicação de sua obra como resultado de um "acidente". D. Juan quando o encontrou pensou que ele, C.C. fosse um nagual, um homem dividido, alguém com um tipo de energia suficientemente elaborada para não apenas aprender a complexa arte da magia tolteca mas também ser um guia de um grupo de xamãs.

No Xamanismo Tolteca não há mestres, gurus ou nada disso, existem apenas homens e mulheres que tem suas posições no grupo, de acordo com seus "ventos" ou conformações energéticas. O líder do grupo é um homem ou mulher que tenha uma energia extra, chamados de Naguais. Um homem ou mulher nagual, graças a sua energia extra pode ajudar o grupo a ir além da vastidão da Eternidade, rumo aos reais objetivos dos "Nuevos Videntes": Liberdade Total! Mas com o passar do tempo descobriu que C.C.não tinha energia para continuar a linhagem. Daí que C.C. e suas companheiras, só citadas nos últimos livros, resolvem publicar relatos de toda sua busca e uma parte dos ensinamentos recebidos, já que fechavam a porta dessa linhagem não queriam que tal saber simplesmente deixasse esse mundo. Se isto é exato, se de fato ocorreu assim ou é apenas uma esperta manobra do espreitador C.C. para apresentar sua obra ao mundo e escapar da condição de messias e guru que ainda assim lhe foi imputada, fica em segundo plano. O fato é que tivemos acesso a essa linhagem de conhecimento que apresenta conceitos complexos e diferentes, ancestrais em sua origem, originais em sua forma de colocar.

Continua

A natureza do conhecimento ou a pílula vermelha - 6ª parte

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014



Filme excelente, estilo 12 homens e uma sentença, baseado no desempenho dos atores e com um tema polêmico envolvendo o controvertido deus tribal dos judeus, Jeová, ao permitir a injustiça no mundo, ainda mais com relação ao chamado povo escolhido.

Quem teria coragem de colocar Deus no banco dos réus? Um grupo de judeus num campo de concentração alemão tem esta coragem e realiza o inusitado: o julgamento do deus tribal Jeová, o deus do antigo testamento. O julgamento se dá diante da iminência da morte e os diálogos expressam todas as questões de um crente diante de um deus que prometeu proteger o povo escolhido. 

Deus é culpado ou inocente?

Um questionamento da fé, pois como ter fé em quem não cumpre um pacto realizado, ainda mais em se tratando do deus tribal de Israel?

Samsara: filme

domingo, 14 de dezembro de 2014

A arte do guerreiro é equilibrar o terror de ser um homem com a maravilha de ser um homem - Carlos Castaneda.

(EUA, 2011, 102 min. - Direção Ron Fricke) - Samsara, filme do mesmo diretor de Baraka, usa apenas imagens e sons para mostrar um quadro ao mesmo tempo fascinante e terrível de nossa sociedade, o poder das imagens e da música nos conduz numa viagem perceptiva por várias partes do mundo mostrando toda a diversidade cultural e os efeitos da globalização em nosso planeta, onde o ser humano inserido na matrix torna-se mais um produto, completamente coisificado e alienado de si, um item no balcão do mercado mundial. Em pouco mais de 1 hora e meia fazemos um tour por todo o planeta, maravilhados e aterrorizados com a condição humana.

Samsara, o mundo da ilusão, o reino de maya, é o local onde o desafio proposto é justo percebendo a ilusão descobrir a verdadeira natureza humana, o buda interior, em meio à beleza e ao terror de nossa condição.

Sinopse Oficial: "Filmado por quase 5 anos em 25 países em 5 continentes, e filmando em filme de 70mm, Samsara nos leva a uma variedade de mundos de solos sagrados, zonas de desastre, complexos industrial e maravilhas naturais."

Para os que buscam a liberdade total

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida o mínimo que se poderia dizer era que era segura e tranqüila, como seguras e tranqüilas são as vidas das pessoas bem casadas e dos funcionários públicos.

Era monótona, é verdade. Mas a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para baterem suas asas. Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim, restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era o aluguel que pagava ao seu dono pelo gozo da segurança da gaiola.

Bem se lembrava do dia em que, enganado pelo alpiste, entrou no alçapão. Alçapões são assim; têm sempre uma coisa apetitosa dentro. Do alçapão para a gaiola o caminho foi curto, através da Ponte dos Suspiros.

Há aquele famoso poema do Guerra Junqueiro, sobre o melro, o pássaro das risadas de cristal. O velho cura, rancoroso, encontrara seu ninho e prendera os seus filhotes na gaiola. A mãe, desesperada com o destino dos filhos, e incapaz de abrir a portinha de ferro, lhes traz no bico um galho de veneno. Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei. Prende-se a asa, mas a alma voa... Ó filhos, voemos pelo azul!... Comei!

É certo que a mãe do passarinho nunca lera o poeta, pois o que ela disse ao seu filho foi: Finalmente minhas orações foram respondidas. Você esta seguro, pelo resto de sua vida. Nada há a temer. Não é preciso se preocupar. Acostuma-se. Cante bonito. Agora posso morrer em paz!

Do seu pequeno espaço ele olhava os outros passarinhos. Os bem-te-vis, atrás dos bichinhos; os sanhaços, entrando mamões adentro; os beija-flores, com seu mágico bater de asas; os urubus, nos seus vôos tranqüilos da fundura do céu; as rolinhas, arrulhando, fazendo amor; as pombas, voando como flechas. Ah! Os prudentes conselhos maternos não o tranqüilizavam. Ele queria ser como os outros pássaros, livres... Ah! Se aquela maldita porta se abrisse.

Pois não é que, para surpresa sua, um dia o seu dono a esqueceu aberta? Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre!

Saiu. Voou para o galho mais próximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava acostumado com o chão da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra árvore mais distante. Teve vontade de ir até lá. Perguntou-se se suas asas agüentariam. Elas não estavam acostumadas.

O melhor seria não abusar, logo no primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um insetinho passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o mais que pôde, mas o insetinho não era bobo. Sumiu mostrando a língua.

-- Ei, você! - era uma passarinha. - Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar atenção no gato, que anda por lá... Só o nome gato lhe deu um arrepio. Disse para a passarinha que não gostava de pimentas. A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com ele a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore, sem proteção. Gatos sobem em árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não esquecer os gambás. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia seguinte.

Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm coragem. Ele não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta ainda estava aberta.

Neste momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse:

-- Passarinho bobo. Não viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego. Pois passarinho de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar...

O passarinho engaiolado, de Rubem Alves.

A natureza do conhecimento ou a pílula vermelha - 5ª parte

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O poder da fé ou da crença não está naquilo que se crê, está na própria fé vista como um poder interior. O conceito dominante de fé é o conceito de fé em algo ou em alguém, mas o poder real está dentro daquele que crê, assim o que importa é tornar-se consciente deste poder. Chamá-lo de fé ou crença o distorce devido a associação alienante que projeta o poder interior para algo ou alguém. O efeito placebo já demonstrou isto e o próprio Jesus disse: a TUA fé te curou e isto está em várias passagens, exemplo Lucas 8:48. As religiões dominantes projetam o poder interior para algo fora do indivíduo e assim manipulam o poder interior em nome da fé em algo ou em alguém. Desta forma um ateu pode ter mais fé que um crente se reconhece o seu poder interior.

Fé não é uma palavra adequada para este poder interior porque ela, a fé, tornou-se uma referência de coisas exteriores: deus, jesus, um dogma, uma religião, etc. É assim que Paulo define fé em Romanos 10:17: Logo a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo.

Entre a fé expressa em Lucas 8:48 e a fé expressa por Paulo em Romanos 10:17 há grande diferença. O conceito dominante de fé está em Paulo, muito citado, isto fica claro em Hebreus 11:6: Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam.

Se a fé é para agradar Deus então o poder interior não pode usar a palavra fé, precisa de outro termo, inclusive para expressar outra idéia de Jesus sobre o poder interior: o reino de Deus está dentro de vós.

Por que não se consegue acessar este reino interior?

Justamente por causa da fé projetada para fora, para coisas ou seres externos.

F.A.

A espada de duplo fio da inveja

domingo, 7 de dezembro de 2014

“Não sejamos ávidos da vanglória. Nada de provocações, nada de invejas entre nós” (Gal 5, 26).

A inveja é alegria e tristeza ao mesmo tempo, alegria pela tristeza do outro e tristeza pela alegria do próximo, é o pecado oculto, ninguém o admite e isto ocorre por que há um outro pecado que esconde a inveja. A inveja como pecado é tão humilhante, mais tão humilhante que seu sujeito não quer se ver e faz tudo para não se ver, e isto mesmo é a inveja, in_veja, um não ver. Ninguém que ver em si algo tão dilacerante para um outro pecado, pecado capital: o orgulho. É o orgulho que não pode admitir a inveja, pois este reconhecimento implica em olhar a nossa derrota, a nossa inferioridade, a nossa incapacidade. O orgulhoso só quer sair sempre vitorioso e ter a última palavra. O invejoso quer ver apenas a derrocada do outro, mas não a própria, por isto Dante Alighieri apresentou o invejoso com os olhos costurados por arame em seu Purgatório.

Naturalmente, a inveja é um pecado óbice para aqueles que buscam se auto-conhecer, pois nos impede de ver a nós mesmos, assim como a ira que cega e o orgulho que ofusca, a inveja nos impede de ver antes de tudo a nossa própria singularidade, pois sobrevive apenas num desejo de comparação entre pessoas que não podem ser na verdade comparadas, pois todos somos únicos. Se reconheço em cada um a sua própria singularidade como a inveja pode subsistir? Mas vivemos numa sociedade que estimula a comparação constantemente apesar de sermos incomparáveis.

A inveja possui dois servos fiéis e usa destes dois servos fiéis para secretar o seu veneno, são servos poderosos e operam através da língua humana como se fossem dois demônios ou dois obsessores, para usar a linguagem mais moderna, a versão atualizada da palavra demônio: obsessor.

Se a inveja for vista como uma espada pontiaguda estes dois obsessores compõe a espada de duplo fio da inveja: a crítica e a fofoca.

A crítica e a fofoca compõe a assessoria de imprensa da inveja, uma assessoria de bastidores e esgotos.

Reparem que tanto um como o outro seguem o mesmo estilo de sua senhora inveja, nunca se apresentam, sempre se dão pelas costas, as escondidas, agem de forma astuta, velada, secreta, de forma indireta pois não podem revelar a sua senhora sempre envolta em trevas, em cantos escuros e mentiras. Como o invejoso, o crítico da vida alheia e o fofoqueiro sempre realiza suas falas pelas costas daquele que é o objeto de sua língua ele revela uma outra qualidade terrível que o próprio Dante Alighieri coloca no último círculo dantesco. Imagine alguém que por trás fala mal e pela frente lhe trata bem, lhe cumprimenta abraça e até beija. Isto nos lembra Judas que traiu Jesus com um beijo e nos faz perguntar: quem não tem inveja?

Quem não tiver apresente-se, trata-se de uma raridade, tão rara que dá até para desconfiar.

Já a inveja é legião.

E horrorizados vemos aquilo que não consegue olhar com alegria pelo bem que o outro é.

E vemos que nos fizemos tal como somos pela própria inveja não admitida.

Porque admiti-la destrói o nosso ser no mundo, por isso está escondida de ti por trás da ira, da crítica , do sacrifício ou da falsa rebeldia, com seus rebentos disformes da reclamação, da fofoca e do despacho de língua ferina.

Inveja. Veja in, olhe dentro, expurgue-a pelo olhar compreensivo, na figa da auto-observação, pois cada qual possui um dom divino para benefício de todos.

Oh, auto-estima minada!
Ó mediocridade de si!
Ó maldita e mal-olhada, escondes em ti teu próprio bem.

F.A.

Por que falamos tanto?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Por Eliane Brum

"É a escuta que nos leva ao mundo. E é a escuta que nos leva ao outro. Quando não escutamos, nos tornamos solitários, mesmo que estejamos no meio de uma festa, falando sem parar para um monte de gente.”

Uma vez passei dez dias num retiro de meditação vipassana, no interior do Rio de Janeiro, para fazer uma reportagem para ÉPOCA. Havia muitas regras. Uma delas era o silêncio. Por dez dias era proibido falar. Também devíamos evitar olhar para as outras pessoas. O objetivo era silenciar a mente até que não houvesse nenhum ruído também dentro de nós. Foi uma experiência fantástica, que me mudou para sempre. Nunca antes estive tão em mim. E nunca depois voltei a estar.

O silêncio e um progressivo mergulho interno, em vez de me alienar do mundo, me conectaram a ele de um modo até então inédito para mim. Eu sentia cada segundo, por que eles demoravam a passar. Percebia o vento e as nuances das cores do céu e das folhas das árvores em detalhes. Olhava, cheirava, ouvia e tocava o mundo como se tudo fosse novo. Cada centímetro de terra era capaz de me ocupar por minutos. Sem palavras, a realidade me alcançava com mais força. Finalmente eu não apenas compreendia, mas vivia a poesia de Alberto Caeiro: “Sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo”.

Antes que alguém tenha ideias, experimentei tudo isso sem nenhuma droga. Nenhuma mesmo. Não podíamos tomar álcool, fumar ou ingerir qualquer medicamento, nem mesmo aspirina. Minha droga era a lucidez. Naqueles dez dias, ouvi com mais clareza a mim mesma. E passei a escutar melhor o mundo em que vivia. Senti que finalmente estava no mundo. Eu era.

No décimo dia, voltamos a falar. O retiro acabaria no dia seguinte e precisávamos nos preparar para retornar a uma realidade cotidiana de ruídos e demandas excessivas. Lembro que eu não queria falar. Fiquei assustada quando todo mundo começou a falar ao mesmo tempo. Percebi que a maioria do que se dizia nunca deveria ter sido dito. Sobrava.

Uma parte eram fofocas que haviam sido guardadas por dias. E que poderiam ter ficado impronunciadas para sempre. Percebi, principalmente, que depois de dez dias de silêncio muitas de nós não queriam ouvir. Só falar. Poucas eram aquelas que realmente desejavam escutar a experiência da outra, a voz da outra. A maioria só queria contar da sua. Não tinham sentido falta de outras vozes, apenas do som da sua. Dez dias de silêncio não tinham sido suficientes para acabar com nossa surdez à voz alheia.

A reportagem foi publicada, com o título de “O inimigo sou eu”. Eu segui, guardando em parte o que aprendi lá. E tenho sentido falta daqueles dez dias de silêncio, agora que aumenta em níveis quase insuportáveis a poluição sonora dentro e fora de mim.

Acho que nunca escutamos tão pouco. E talvez por isso nunca fomos tão solitários. Quando faço palestras sobre reportagem, os estudantes de jornalismo costumam perguntar o que devem fazer para se tornarem bons repórteres. Minha resposta é sempre a mesma: escutem. Acredito que mais importante do que saber perguntar é saber escutar a resposta. Não apenas para ser um bom jornalista, mas para ser uma boa pessoa. Escutar é mais do que ouvir. Como repórter e como gente esforço-me para ser uma boa “escutadeira”.

É a escuta que nos leva ao mundo. E é a escuta que nos leva ao outro. Quando não escutamos, nos tornamos solitários, mesmo que estejamos no meio de uma festa, falando sem parar para um monte de gente. Condenamo-nos não à solidão necessária para elaborar a vida, mas à solidão que massacra, por que não faz conexão com nada. Não escutamos nem somos escutados. Somos planetas fechados em si mesmos. Suspeito que essa é uma época de tantos solitários em grande parte pela dificuldade de escutar.

Basta observar. As pessoas não querem escutar, só querem falar. Depois de muita observação, classifiquei cinco tipos básicos de surdos. Há aqueles que só falam e pronto. Emendam um assunto no outro. Fico prestando atenção para detectar quando respiram e não consigo. Acho que inventaram um jeito de falar sem respirar. E ganhariam mais dinheiro se entrassem em algum concurso de tempo sem oxigênio embaixo d’água. Aí, pelo menos, ficariam quietas.

Existem aqueles que falam e falam e, de repente, percebem que deveriam perguntar alguma coisa a você, por educação. Perguntam. Mas quando você está abrindo a boca para responder, já enveredaram para mais algum aspecto sobre o único tema fascinante que conhecem: eles mesmos.

Há aqueles que fingem ouvir o que você está dizendo. Você consegue responder. Mas, quando coloca o primeiro ponto final, percebe que não escutaram uma palavra. De imediato, eles retomam do ponto em que haviam parado. E não há nenhuma conexão entre o que você acabou de dizer e o que eles começaram a falar.

Existem aqueles que ouvem o que você diz, mas apenas para mostrar em seguida que já haviam pensado nisso ou que sabem mais do que você, o que é só mais um jeito de não escutar.

Há ainda os que só ouvem o que você está dizendo para rapidamente reagir. Enquanto você fala, eles estão vasculhando o cérebro em busca de argumentos para demolir os seus e vencer a discussão. Gostam de ganhar. Para eles, qualquer conversa é um jogo em que devem sempre sair vitoriosos. E o outro, de preferência, massacrado. Só conhecem uma verdade, a sua. E não aprendem nada, por acreditarem que ninguém está à altura de lhes ensinar algo.

É claro que há um mix das várias espécies de surdos. E devem existir outras modalidades que você deve ter detectado, e eu não. O fato é que vivemos num mundo de surdos sem deficiência auditiva. E uma boa parte deles se queixa de solidão.

É um mundo de faladores compulsivos o nosso. Compulsivos e auto-referentes. Não conheço estatísticas sobre isso, mas eu chutaria, por baixo, que mais da metade das pessoas só falam sobre si mesmas. Seu mundo torna-se, portanto, muito restrito. E muito chato. Por mais fascinantes que possamos ser, não é o suficiente para preencher o assunto de uma vida inteira.

Num ótimo artigo, intitulado Escutatória, o escritor Rubem Alves diz: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”.
Quando não escutamos o mundo do outro, não aprendemos nada. Acontece com o chefe que não consegue escutar de verdade o que seu subordinado tem a dizer. A priori ele já sabe – e já sabe mais. Assim como acontece com a mulher que não consegue escutar o companheiro. Ou o amigo que não é capaz de escutar você. E vice-versa.

Tornamo-nos muito sozinhos no gesto de não escutar. Em Revolutionary Road (Sam Mendes, 2008), traduzido para as telas de cinema do Brasil como “Foi apenas um sonho”, a cena final é a síntese dessa relação simbiótica entre surdez e solidão. Não a surdez causada pela deficiência auditiva, mas essa outra de que falamos, esta que é mais triste por ser escolha. Quem viu, não esqueceu. Quem não viu, pode pegar o dvd em qualquer locadora. Essa cena final vale por alguns milhares de palavras.

Sempre pensei muito sobre por que as pessoas falam tanto – e por que têm tanta dificuldade de escutar. Qual é a ameaça contida no silêncio? O que temem tanto ouvir se calarem a sua voz por um momento? Por que precisamos preencher nosso mundo – inclusive o interior – com tantos ruídos?

Acho que cada um de nós poderia parar alguns minutos e fazer a si mesmo estas perguntas.

Percebo também que há uma pressão para que nos tornemos falantes. Ser falante supostamente seria uma vantagem no mundo, especialmente no mundo do trabalho. Mesmo que você não diga nada de novo, mesmo que você repita o que o chefe disse com outras palavras. Mas falar, qualquer coisa, é marcar presença, é uma tentativa de garantir-se necessário. E ser quieto, calado, é visto como um tipo invisível de deficiência. Como se lhe faltasse algo, palavras. Mas será que as palavras estão ali, nessa falação desenfreada? Ou melhor, será que quem fala está realmente naquele discurso? Tenho dúvidas.

Por qualquer caminho que se possa pensar, me parece que o silêncio soa ameaçador. Em parte, pelo que ele pode dizer sobre nós. Enchemos nossa vida de barulho, da mesma forma que atulhamos nossos dias de tarefas, com medo do vazio. Tarefas em uma agenda cheia constituem outro tipo de ruído. E o vazio também é uma forma de silêncio.

Em rasgos de intolerância, achava que os falantes compulsivos eram apenas muito chatos e muito egocêntricos. Que as pessoas não escutavam – o silêncio e o outro – por prepotência. Mas acredito que é bem mais complicado que isso.
Há dois livros muito interessantes que pensam sobre a escuta. A Hermenêutica do Sujeito, de Michel Foucault (Martins Fontes), e Como Ouvir (Martins Fontes), um livrinho pequeno e precioso de Plutarco. Eles mostram que escutar é se arriscar ao novo, ao desconhecido. Na audição, mais do que em qualquer outro sentido, a alma encontra-se passiva em relação ao mundo exterior e exposta a todos os acontecimentos que dele lhe advêm e que podem surpreendê-la. Ao ouvir, nos arriscamos a sermos surpreendidos e abalados pelo que ouvimos, muito mais do que por qualquer objeto que possa nos ser apresentado pela visão e pelo tato.

Faz muito sentido. As pessoas não escutam porque escutar é se arriscar. É se abrir para a possibilidade do espanto. Escancarar-se para o mundo do outro – e também para o outro de si mesmo.

Escutar é talvez a capacidade mais fascinante do humano, por que nos dá a possibilidade de conexão. Não há conhecimento nem aprendizado sem escuta real. Fechar-se à escuta é condenar-se à solidão, é bater a porta ao novo, ao inesperado.

Escutar é também um profundo ato de amor. Em todas as suas encarnações. Amor de amigos, de pais e de filhos, de amantes. Nesse mundo em que o sexo está tão banalizado, como me disse um amigo, escutar o homem ou mulher que se ama pode ser um ato muito erótico. Quem sabe a gente não experimenta?
Escutar de verdade implica despir-se de todos os seus preconceitos, de suas verdades de pedra, de suas tantas certezas, para se colocar no lugar do outro. Seja o filho, o pai, o amigo, o amante. E até o chefe ou o subordinado. O que ele realmente está me dizendo?

Observe algumas conversas entre casais, famílias. Cada um está paralisado em suas certezas, convicto de sua visão de mundo. Não entendo por que se espantam que ao final não exista encontro, só mais desencontro. Quem só tem certezas não dialoga. Não precisa. Conversas são para quem duvida de suas certezas, para quem realmente está aberto para ouvir – e não para fingir que ouve. Diálogos honestos têm mais pontos de interrogação que pontos finais. E “não sei” é sempre uma boa resposta.

Escutar de verdade é se entregar. É esvaziar-se para se deixar preencher pelo mundo do outro. E vice-versa. Nesta troca, aprendemos, nos transformamos, exercemos esse ato purificador da reinvenção constante. E, o melhor de tudo, alcançamos o outro. Acredite: não há nada mais extraordinário do que alcançar um outro ser humano. Se conseguirmos essa proeza em uma vida, já terá valido a pena.

Escutar é fazer a intersecção dos mundos. Conectar-se ao mundo do outro com toda a generosidade do mundo que é você. Algo que mesmo deficientes auditivos são capazes de fazer.

http://www.budavirtual.com.br/por-que-pessoas-falam-tanto/

A essência mais íntima

domingo, 30 de novembro de 2014

Para superar os nossos próprios pensamentos precisamos afiar a mente por inteiro.

Para afiar a mente por inteiro precisamos amolar o duplo fio da espada da mente: o pensar e o não pensar.

Assim conquista-se uma clareza sem igual, onde não há conflito, nem luta, paz perfeita, alegria serena, vitória sobre si mesmo.

"Quando os pensamentos estão ausentes, o meditar está imerso no espaço do chamado ‘não pensamento’, que é a ausência de pensamentos. Ausência de pensamentos não significa inconsciência, nem sono, nem recuo dos sentidos; significa simplesmente não se deixar influenciar pelo conflito. Os três sinais de meditação (claridade, alegria e ausência de pensamentos) podem ocorrer naturalmente quando se está meditando, mas se o meditador fizer algum esforço para criá-los, permanece na experiência cíclica do samsara".

ATI: A essência mais íntima, por Jigme Lingpa

[Junto com o Mahamudra, o Ati é considerado pelos budistas tibetanos o ensinanento supremo, a culminação do caminho espiritual. Este "yana imperial", conhecido no Tibete como dzogchen, "a grande perfeição", foi levado para o Tibete no século VIII por dois grandes mestres indianos, o Siddha Padmasambhava e o pandita Vimalamitra. No século XIV os múltiplos aspectos e níveis da doutrina do Ati foram reformulados por Longchen Rabjam, cuja percepção se dizia igualar-se à de Buda. O grande vidhyadhara (‘detentor da visão’) Jigme Lingpa (1730-1798) foi a figura principal da linhagem Ati destes últimos séculos. Ele teve três visões nas quais recebeu a transmissão do Ati diretamente do próprio Longchen Rabjam. Depois disso escreveu muitos comentários dos principais textos de Longchen Rabjam, nos quais condensou e tornou a sistematizar a tradição do Ati, dando-lhe a forma que tem hoje.

Na visão do Ati tudo é completo e impecável como está. Tudo que acontece é demonstração da mente de sabedoria primordial e não se separa dela. Essa percepção primordial é o terreno de onde surgem tanto a confusão quanto o esclarecimento e no qual ambos se desvanecem.

A natureza dessa percepção é o vazio profundo e brilhante e é ainda mais fundamental do que a condição de Buda, tendo em vista que não tem propensão nem mesmo para a iluminação. Ati é considerado o "veículo sem esforço", porque o que a mente faz naturalmente (desde que não seja desviada para nenhuma particularidade) reside na visão profunda do Ati, que não é diferente da iluminação propriamente dita. Mas o leitor não deve pensar que isso significa que o caminho espiritual, com todas as suas disciplinas, é supérfluo, e que basta descansar e ficar esperando pela iluminação. A inércia do Ati é um exercício perfeito de simplicidade, de ver constantemente dentro das complexidades da mente a essência da própria percepção, radiante e desvinculada. No trecho introdutório curto que apresentamos abaixo, Jigme Lingpa nos dá uma impressão vigorosa do Ati, aqui chamado Maha-Ati (‘Grande Ati’), além de indicar algumas das inúmeras ciladas que o cercam.]

ESTE É O RUGIDO DO LEÃO que domina as extravagantes confusões e equívocos dos meditadores que abandonaram os vínculos materialistas para meditar na Essência Mais Íntima.

O Maha-Ati está além das concepções e transcende tanto apego quanto desapego; é a própria essência da visão intuitiva transcendental. Este é o estado imutável de ausência de meditação, no qual existe atenção, mas não existe apego. Entendendo isto, presto uma homenagem eterna ao Maha-Ati, com grande simplicidade:

"Aqui está a essência profunda do tantra do Maha-Ati, O núcleo mais profundo dos ensinamentos de Padmakara a força vital das dakinis.

É o ensinamento supremo dos nove veículos.1 Só pode ser transmitido por um guru da linhagem da mente, e não através de meras palavras.

Apesar disso, escrevi isto em proveito dos grandes meditadores que devotam-se ao ensinamento supremo.

Este ensinamento foi retirado do tesouro do Dharmadhatu e não surge de apego a teorias e abstrações filosóficas."

Primeiro o discípulo tem de encontrar um guru completo com o qual teve uma boa ligação cármica. O mestre precisa ser detentor da transmissão da linhagem da mente. O discípulo precisa ter devoção e fé sinceras, que possibilitam a transmissão do mestre.

O Maha-Ati é da maior simplicidade. É o que é. Não consegue ser demonstrado por analogia; nada pode obstruí-lo. Não tem limitação e transcende todos os extremos. É a realidade nítida, que não muda de forma ou coloração. Quando nos identificamos com este estado, até o desejo de meditar se dissolve; somos libertados das cadeias de meditação e das filosofias e teorias de mundo e surge em nosso íntimo plena convicção. O pensador desertou. Já não existe nenhuma vantagem a ser adquirida com pensamentos ‘bons’, nem nenhum prejuízo a sofrer com pensamentos ‘maus’. Os pensamentos neutros já não nos conseguem enganar. Nos unificamos com o insight transcendental e com o espaço infinito. Então encontramos sinais de progresso no caminho. Já não existe questão alguma de confusões ou equívocos acontecendo ao redor.

Esse ensinamento é o rei dos yanas, mas podemos classificar seus meditadores; há os que são muito receptivos a ele, os que são menos receptivos e os que a ele são avessos. Os discípulos mais receptivos são difíceis de encontrar e às vezes acontece do aluno e o mestre não serem capazes de manter um verdadeiro ponto de encontro. Neste caso, nada se concretiza e podem surgir equívocos no que se refere à natureza do Maha-Ati.

Os menos receptivos começam estudando a teoria e gradualmente desenvolvem a sensibilidade e o verdadeiro entendimento. Hoje em dia muitas pessoas consideram a teoria como se fosse a meditação. A meditação dessas pessoas pode ser clara e desprovida de pensamentos e talvez seja relaxante e agradável, mas é apenas a vivência temporária do êxtase. Estas pessoas acreditam que isso é meditação e que ninguém sabe mais do que elas, e pensam: "Cheguei a este entendimento" e ficam orgulhosas de si mesmas. Assim, se não há nenhum mestre competente, o que vivenciam é apenas teórico. Como é dito nos textos do Maha-Ati, "a teoria é como um remendo num casaco: um dia vai cair". Geralmente as pessoas procuram fazer distinção entre ‘bons’ e ‘maus’ pensamentos, como se tentassem separar leite de água. É bastante difícil aceitar as experiências negativas da vida, mas ainda mais difícil é encarar as experiências positivas como parte do caminho. Até as pessoas que afirmam ter chegado ao estágio mais elevado de realização estão completamente envolvidas com a fama e com preocupações mundanas. São atacadas pelo devaputra, a força maligna que provoca a atração para os objetos dos sentidos. Isso significa que ainda não realizaram a liberação do Eu dos seis sentidos. Essas pessoas consideram a fama uma coisa muito extraordinária e miraculosa. Isso é como afirmar que um corvo é branco. Mas aquele que se dedica inteiramente à prática do Dharma sem se preocupar com a fama e com a glória mundanas não deve ficar satisfeito demais consigo mesmo por ter chegado a um certo desenvolvimento na meditação. Deve praticar a ioga do guru nos quatro períodos do dia a fim de receber as bênçãos do guru e fundir a própria mente com a dele, abrindo o olho do insight. Tendo passado por essa experiência, não convém descartá-la. Daí por diante o iogue deve, ele próprio, se dedicar a essa prática com perseverança infatigável. Subseqüentemente ele sentirá o vazio de forma mais tranqüila ou vivenciará uma clareza e um insight maiores. Ou ainda, talvez comece a perceber os defeitos dos pensamentos discursivos e com isso desenvolver a sabedoria da discriminação. Alguns indivíduos são capazes de usar tanto os pensamentos como a ausência de pensamentos como meditação, mas é preciso ter em mente que o que percebe o que está acontecendo é sempre o pulso firme do ego.

Cuidado com o obstáculo sutil que é tentar analisar o que vinvenciamos. Isso é um grande perigo. É muito cedo para colocar o rótulo de dharmakaya em todos os pensamentos. O remédio é a sabedoria atemporal, que é imutável e infalível. Uma vez libertado da servidão da especulação filosófica, o meditador desenvolve uma consciência penetrante em sua prática. Se analisar o que vivenciou na meditação e na pós-meditação, perde-se e comete muitos erros. Se deixar de entender essas deficiências, nunca conseguirá atingir o estado desperto atemporal, que está além de qualquer conceitualização desse ou de outro tipo. Terá apenas uma visão conceitual e niilista de vazio, que é a característica dos yanas menos importantes.

Também é um erro considerar o vazio uma miragem, como se fosse apenas uma combinação de percepções vívidas com o nada. Isso é que vivenciamos com os tantras menos importantes, o que poderia ser induzido pela prática do mantra svobhava. E é um erro também, analogamente, tento aquietado os pensamentos discursivos, descuidar da lucidez e considerar a mente apenas um espaço em branco. Vivenciar o verdadeiro insight é perceber simultaneamente a quietude e os pensamentos ativos. Segundo o ensinamento do Maha-Ati, a meditação consiste em ver tudo o que surge na mente, seja o que for, e simplesmente permanecer no estado desperto atemporal. Permanecer neste estado após a meditação chama-se "experiência pós-meditativa".

É um erro tentar concentrar-se no vazio e depois de meditar considerar intelectualmente tudo como uma miragem. Insight primordial é o estado que não é influenciado pela vegetação rasteira dos pensamentos, por assim dizer. É um erro permanecer prevenido contra a mente que divaga, bem como tentar aprisionar a mente na prática ascética de suprimir pensamentos.

Talvez algumas pessoas interpretem mal a palavra "atemporal" e suponham que se refere a todo e qualquer pensamento que esteja na mente no momento. É preciso entender "atemporal" como o insight primordial que já descrevemos.

O estado de ausência de meditação nasce no coração quando já não se distingue mais meditação de ausência de meditação e não se sente mais necessidade de mudar ou prolongar o estado de meditação. Há uma alegria que invade tudo e está isenta de todo tipo de dúvidas. Isso é muito diferente da mera alegria dos prazeres sensuais e da mera felicidade.

Quando falamos em ‘lucidez’ ou ‘claridade’ estamos nos referindo ao estado isento de indolência ou lentidão. Essa claridade é inseparável da energia pura e brilha desimpedida. É um erro igualar claridade com percepção de pensamentos e com as cores e formas dos fenômenos externos.

Quando os pensamentos estão ausentes, o meditar está imerso no espaço do chamado ‘não pensamento’, que é a ausência de pensamentos. Ausência de pensamentos não significa inconsciência, nem sono, nem recuo dos sentidos; significa simplesmente não se deixar influenciar pelo conflito. Os três sinais de meditação (claridade, alegria e ausência de pensamentos) podem ocorrer naturalmente quando se está meditando, mas se o meditador fizer algum esforço para criá-los, permanece na experiência cíclica do samsara.

Existem quatro visões errôneas do vazio. É um erro imaginar que o vazio seja meramente a ausência de conteúdos sem perceber o amplo espaço da atemporalidade. É um erro buscar a natureza de Buda em fontes externas sem perceber que a atemporalidade não conhece nenhum caminho e nenhum resultado. É um erro tentar introduzir algum remédio para os pensamentos sem perceber que os pensamentos são vazios por natureza e que sempre é possível libertar-se, como uma cobra se desenrolando. Também é um erro manter uma visão niilista dizendo que não há mais nada senão o vácuo, nenhuma causa e efeito do carma e nenhum meditador nem meditação, e ao mesmo tempo deixando de vivenciar o vazio além das concepções. Quem já obteve lampejos de percepção deve conhecer estes perigos e precisa conhecê-los detalhadamente. É fácil teorizar e falar com eloqüência a respeito do vazio, mas o meditador pode ainda não ser capaz de lidar com certas situações. Um texto do Maha-Ati diz, "A percepção temporária é como uma névoa que com certeza desaparecerá". Os meditadores que não estudam esses perigos jamais obtém coisa alguma ao fazer um retiro rigoroso, ou refrear a mente à força, ao fazer visualizações, ao recitar mantras ou praticar hatha ioga. Como está dito no Phagpa Düdpa Sutra, "O bodisatva que não conhece o verdadeiro significado da solidão, mesmo que medite durante muitos anos num vale remoto cheio de cobras venenosas, a mil quilômetros da habitação mais próxima, desenvolverá um orgulho arrogante".

Se o meditador é capaz de usar como caminho tudo que lhe acontece na vida, seja o que for, seu corpo passa a ser uma cabana de retiro. Ele não precisa aumentar o número de anos que passou meditando e não entra em pânico quando surgem pensamentos ‘chocantes’. Sua consciência continua firme como a de um velho observando uma criança brincar. Como diz um texto do Maha-Ati, "a realização absoluta é como o espaço imutável".

O iogue do Maha-Ati pode parecer uma pessoa comum, mas sempre mantém sua atenção no estado desperto atemporal. Não tem necessidade de livros porque encara os fenômenos aparentes e toda a existência como se fossem a mandala do guru. Para ele não existe especulação em relação aos estágios do caminho. Seus atos são espontâneos, por isso beneficiam todos os seres sencientes. Quando sai do corpo físico, sua consciência se identifica com o dharmakaya do mesmo modo que o ar dentro de um vaso se funde com o ambiente quando o vaso quebra.

1 - Este texto de Jigme Lingpa é muito profundo e especial pela concisão e introdução direta aos ensinamentos mais elevados. Foi encontrado em um livro comprado em um shopping center em Porto Alegre, mais uma prova de sua capacidade de manifestar-se no nirmanakaya para beneficiar os seres. A prática de Guru Ioga é essencial para obter benefício do texto.

Não envergonhe o Buda

sábado, 29 de novembro de 2014

As pessoas olharão para os filhos para ver seus pais e olharão para os discípulos para ver o guru ou o mestre.

Por favor, não envergonhem seus pais, o guru ou o mestre.

A natureza do conhecimento ou a pílula vermelha - 4ª parte

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Se não questiono, não gero o atrito do qual nasce o fogo (desejo de saber) e a luz (o próprio saber). 

Eis a função "prometaica".

A fé não questiona, acredita de forma absoluta, pois esta é a sua natureza, natureza estática, que não permite nenhum crescimento do ser e do saber, apenas fanatismo, seitas, disputas religiosas e dogmas das quais a História é testemunha e que conduz, inevitavelmente, o crente ciumento de sua pretensa verdade ao batismo de fogo da decepção mais cedo ou mais tarde.



A natureza do conhecimento ou a pílula vermelha - 3ª parte

Ver para crer ou crer para ver?

Se vejo não preciso crer, não preciso crer no sol que vejo, eu o vejo.
Se creio para ver, então, minha visão é condicionada pela minha crença, na verdade não vejo, vejo apenas aquilo que quero crer e minha visão não é real, é moldada pela crença e é por isto que cada crente luta pela sua verdade, que é apenas a sua própria crença, mas não a Verdade.

Precisamos ir além da crença, da fé.

A natureza do conhecimento ou a pílula vermelha - 2ª parte

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Se tenho fé em Deus, então, eu e Deus não somos um.

Se tenho fé em mim não sou um com a Vida.

Se não tenho fé resta ainda a palavra.

Se não sou nada, não tenho nada, nem mesmo fé.

Se sou tudo, para que a fé?

Só tenho fé por que me julgo crente em algo ou alguém que não sei mesmo se existe, um sintoma da minha ignorância - avidya -, um sintoma de minha doença, a doença do eu, da separatividade.

Documentário excelente sobre alimentação prânica ou viver de luz

domingo, 23 de novembro de 2014

O mais interessante deste documentário, que passou no canal GNT, para mim, é verificar como cientistas não se comportam como cientistas diante das evidências e assumem posturas fanáticas de negação, provando mais uma vez o axioma de Einstein: é mais fácil fender um átomo do que romper um preconceito.

Ir além do paradigma vigente deveria ser algo próprio daqueles que desejam ampliar seus conhecimentos, mas o conservadorismo, ceticismo e preconceito venha de onde venha transforma o ser humano num fanático, apegado a si, as suas idéias, quando um outro homem já disse: conhecereis a verdade e ela vos libertará.

Download do documentário AQUI, via torrent. Legendas AQUI.

Sobre a inocência

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O mundo atual desconhece a inocência. Ela não é nem mais uma presunção na justiça dos homens, é uma culpa ou um erro.

O pecado original foi a inocência, Eva não foi considerada inimputável, a culpa verdadeira dificilmente será reconhecida por se tratar de Deus.

O mundo não é feito de inocentes e culpados mas sim de espertos e otários, daí compreende-se o dito: meu reino não é deste mundo.

F.A.

A natureza do conhecimento ou a pílula vermelha

domingo, 16 de novembro de 2014

O conhecimento possui uma natureza que incomoda, uma natureza revolucionária, desde que Prometeu roubou o fogo dos deuses para oferecer aos homens e desde que a serpente ofereceu o fruto da árvore do conhecimento à Eva. Assim eu não sou uma boa companhia para aqueles que vivem do que está estabelecido, para o dogma e para a fé.

Amor incondicional e vaidade

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Amor incondicional tem como condições iniciais não esperar nada, não ter nenhuma esperança, nem querer nenhum tipo de reconhecimento. Eis um caminho para a superação da vaidade. Vai encarar?

Conveniências egóicas

domingo, 2 de novembro de 2014

É  muito conveniente para o nosso querido ego ter suas próprias crenças confirmadas através de mirações ou visões espirituais, o que torna tais percepções questionáveis para o próprio buscador da verdade.

Pergunta sobre plantas de poder

Quando você desencarnar e não tiver mais acesso a uma planta de poder como fará para alcançar os altos níveis de conscientização propiciados por estes naguais vegetais se não cultivar uma disciplina interior?

"Há muito pouco valor na instrução"

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

“A única ajuda concreta que você obteve de mim é o fato de que ataco sua auto-reflexão. Não fosse por isso, você estaria desperdiçando o seu tempo.

— Você me ensinou, Don Juan, mais do que qualquer outra pessoa em minha vida inteira — protestei.

— Ensinei-lhe todos os tipos de coisa para prender sua atenção. Você irá jurar, entretanto, que esse ensinamento foi a parte importante. Há muito pouco valor na instrução. Os feiticeiros afirmam que mover o ponto de aglutinação é tudo que importa. E esse movimento, como você bem sabe, depende de acúmulo de energia e não de instrução.

Então ele fez uma afirmação contraditória. Disse que qualquer ser humano que seguisse uma seqüência específica e simples de ações poderia aprender a mover seu ponto de aglutinação.

Retruquei que ele estava contradizendo a si mesmo. Para mim, uma seqüência de ações significa instruções; significa procedimentos.

— No mundo dos feiticeiros há apenas contradições de termos — replicou.

— Na prática não há contradições. A seqüência de ações sobre a que estou falando é uma que se origina de estar consciente. Para tornar-se consciente dessas seqüências você necessita de um nagual. É por isso que falei que o nagual proporciona uma chance mínima, mas essa chance mínima não é instrução, como a que você necessita para aprender a operar uma máquina. A chance mínima consiste em se tornar consciente do espírito.

Don Juan explicou que a seqüência específica que tinha em mente exigia estar consciente de que a auto-estima é a força que mantém o ponto de aglutinação fíxo. Quando a auto-estima é podada, a energia que requer não é mais gasta. Essa energia aumentada serve então como o trampolim que lança o ponto de aglutinação, automaticamente e sem premeditação, para uma viagem inconcebível.

Uma vez que o ponto de aglutinação se moveu, o próprio movimento implica afastar-se da auto-reflexão, e isto, por sua vez, assegura um elo de conexão limpo com o espírito. Comentou que, afinal, era a auto-reflexão que havia desconectado o homem do espírito em primeiro lugar.

— Como já lhe expliquei — continuou Don Juan —, a feitiçaria é uma viagem de retorno. Voltamos vitoriosos ao espírito, tendo descido ao inferno. E do inferno trazemos troféus. O entendimento é um de nossos troféus.

O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda.

                      

Mestres(as) e caminho solitário

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Este tema de mestres e solitude do caminho é interessante.

A questão que vejo aqui é que flutuamos entre dois extremos.

Por um lado existem os que se tornam dependentes de mestres e de outro os que negam totalmente isso. Todo extremo é danoso e é sempre útil buscar o saudável caminho do meio. Usaria o exemplo da Arte Marcial para deixar claro como vejo o processo. Não existe arte marcial sem mestre. A essência da Arte Marcial não é essa pancadaria glorificada pelos filmes modernos, é outra coisa. Arte Marcial é um estilo de trabalhar as energias corporais que resultam inclusive em uma habilidade de se defender, mas não é esse seu objetivo focal. Shao Lin, em seus muitos mosteiros e tantos outros centros de aprendizado não tinham na formação de combatentes seu objetivo, isto só acontece mais tarde, quando condições históricas assim obrigam e ainda assim a luta é uma forma de expressão de algo mais amplo.

Taoistas buscam algo mais que lutar, os movimentos, tidos por "experts" ocidentais como excessivos e desnecessários, na realidade tem a função de harmonizar a energia que flui pelos meridianos do corpo, harmonizar e vitalizar os centros orgânicos , é um aprendizado acumulado por gerações e para transmitir na integra tais conhecimentos há a figura de quem ensina. Um conhecimento que durante milhares de anos foi acumulado pode ser transmitido, se fossemos seguir sós no caminho teríamos que ter uma vida de milhares de anos para aprender tudo.

Isso é o "mestre" ou "mestra" embora estes termos sejam tão deturpados que gosto mais do termo que alguns xamãs como o Doutor Carlos Castaneda usa: Benfeitor. Alguém que te ajuda no trabalho, te transmite o conhecimento acumulado por gerações.

Quando Vc aprende matemática não precisa investigar todos os teoremas matemáticos e leis da física. Se o fizesse poderia por exemplo ficar preso no paradigma newtoniano. Mas tem alguém prá te contar que tal paradigma já foi superado e hoje temos a abordagem quântico relativística. Precisamos de alguém para nos contar que o senso comum da abordagem da física clássica foi superado e que a realidade é paradoxal e complexa.

Na Magia ocorre o mesmo. A abordagem pelo senso comum pode levar a erros sem fim. Quantas civilizações ancestrais caíram pelo uso equivocado da magia. Magia não é alguma bobeira mística que podemos "intuir" se formos bons, ou algo assim. É Arte, mas é também ciência. E alguém entraria num laboratório cheio de ácidos e venenos e ficaria buscando por intuição uma mistura entre tais substâncias?

Aliás, a própria intuição é uma habilidade que precisa ser desenvolvida, pois a cultura dominante a bitola profundamente. Mas o mestre real numa linhagem marcial não fica se arrogando títulos ou posições. Ele ou ela, apenas já dominam o suficiente o espirito da Arte para transmitir a outros de forma sistematizada e eficiente.

Aliás, num grupo de arte marcial tradicional quando um aluno novo chega ele não começa já tendo aula com os Mestres da casa. Começa com instrutores que estão mais próximos da realidade de quem chega. Passa por um período de adaptação, um noviciado até ser iniciado formalmente na "família" como chamamos.

Isto ajuda quem chega, que encontra apoio em alguém que está mais próximo de seu estágio, que vai compreender suas dificuldades por ter recentemente passado por elas e ajuda quem faz o papel de instrutor que tem de rever todos o seu próprio aprendizado para poder ensinar com eficiência. Aprender alguma arte marcial depende totalmente de Vc, de sua dedicação, de sua força de vontade, de sua disciplina e ninguém pode te dar a técnica, podem te ensinar, ninguém pode te levar a se desenvolver, podem te mostrar como. Assim também é na Arte Mágica.

Pessoas a mais tempo na arte podem servir de instrutores, pessoas que já aprenderam nuances da Arte, a contornar suas armadilhas e que podem auxiliar no desabrochar de quem está aprendendo. Ninguém pode aprender por Vc, ninguém pode te desenvolver. Podem te auxiliar dando-lhe subsídios.

Qualquer sinal de arrogância porém, de pretensa superioridade indica apenas que temos um ego inflado, uma pessoa que incapaz de se colocar no mundo cotidiano usa da magia para satisfazer suas fantasias de prepotência e poder. Títulos pomposos, "senhor" , "senhora" , "cavaleiro" do tal grau, tudo isso é resquício de um tempo que já se foi. Senhor, domine, está ligado a um arquétipo que nada tem a ver com o paganismo, é profundamente judaico-cristão e só ocorre nas sociedades que decaíram profundamente.

A humildade de quem conhece o mistério vem naturalmente, sabe que somos nada perto da eternidade, que somos efêmeros demais, que temos um longo caminho até para nos considerarmos existentes de fato e frente a imensidão da eternidade como considerar-nos "importantes", "onipotentes"?

Eu tenho um critério pessoal para notar quem já presenciou o mistério. Quem já presenciou o mistério brinca com ele. Sim, brinca, tem uma postura leve, pois o mistério é em si tão complexo, tão avassalador em sua transcendência que a única forma de lidar com ele é de uma forma leve, tranqüila, para apaziguar o assombro que a enormidade da questão nos causa.


Já quem nunca presenciou o mistério, nunca se sensibilizou a ele, precisa de ares, de caras e bocas, de aparências, precisa "fazer" mistério para substituir a ausência do verdadeiro contato com a Eternidade.

São essas pessoas que se arrogam títulos e posições, conhecimentos que dizem secretos e ares mil a protegê-las de que percebam sua ignorância. Temos que tomar muito cuidado quando vamos avaliar as antigas culturas pagãs pois muito de sua história foi terrivelmente deturpada.

Os Incas e Astecas, por exemplo, eram povos conquistadores, como os Romanos. Eram imitadores, copiaram os ritos e a magia dos povos conquistados mas copiaram a forma sem entender a essência. Eles invadiram outros povos, escravizaram e deturparam os sagrados ritos e conhecimentos para seus próprios fins.

É um equívoco acreditar que os Incas construíram lugares como Machu Pichu. Outros povos, como os Aymarás, construíram tais lugares para eles, Incas, aliás, como já disse, Inca é a elite governante do império. Chamar de Inca a complexa cultura que se desenvolveu naquela área dos Andes é como chamar todo o povo egípcio de faraós.

Gurdjieff tem uma abordagem muito interessante desse processo. Ele diz que quando duas pessoas que estão no caminho do trabalho sobre si mesmo se encontram elas primeiro conversam e se observam longamente para descobrir quem entre as duas é a mais desperta. Esta tomará o papel de guia, ou seja alguém que pode auxiliar o despertar. Mas o aprendizado não é nunca uma rua de mão única, há sempre troca e tal troca é rica. Acontece que o ser humano está doente. Entre outras coisas, perdeu a capacidade de tomar decisões.

E aí entra a confusão quando se acredita que um (a) mestre (a) vai ser aquela pessoa que tomará todas as decisões morais e intelectuais pelo aprendiz, vai dizer o que ele deve e não deve fazer. Muito pelo contrário. Os (as) mestres (as) da arte que tive a sorte de conhecer agem de forma oposta. Criam ou te expõe a situações onde você terá que por em prática tudo o que te ensinaram e "somem" enquanto dura a prova, justamente para que Vc aprenda a ser autônomo, a tomar suas próprias decisões morais e intelectuais por si.

Pois é esse o sentido de educar: Ajudar o ser a desabrochar, a revelar seu interior. A escola tradicional nos bitolou em decorar fórmulas e regras, chegar no horário certo e obedecer o professor e muitos levam esses vícios para a vida cotidiana e pior, para o mundo mágico acreditando que magia é também decorar fórmulas, obedecer formalidades e ficar submisso a vontade de outrem.

A questão do caminho ser solitário é outro ponto que questiono. Em certo sentido ele é solitário, tudo importante na vida é solitário. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos e se nestes dois momentos mais significativos estamos sós o que não dizer em outros. Mas a existência de grupos de trabalho é possível e até mesmo recomendável. Pois trabalhar sozinho pode ser uma boa desculpa para justamente não se trabalhar, pois nada mais difícil que o convívio humano.

É muito fácil chegar em resoluções irreais quando se está só, em acreditar que atingimos tal ou qual estado, mas quando em contato com outros que nos colocam em xeque constantemente é outra coisa. Um grupo deve ser harmônico e não surge da noite para o dia. Um grupo é formado por laços de respeito e afinidade e é no buscar desses laços que muito se aprende. Todas as escolas iniciáticas consideram que o ser humano no seu estado "normal" está dormindo, robotizado, num sono hipnótico que precisa acordar. Aprender rituais não é acordar, pelo contrário, você pode dormir mais ainda sonhando com os rituais. Acordar é estar presente aqui e agora, consciente e com foco. E nisso um grupo pode te ajudar a não deixar que vc faça joguinhos, que se iluda. É muito difícil o convívio humano, é uma verdadeira arte.

E vejo aí o fato que muitas pessoas preferem o caminho solitário, para evitar o desgaste do convívio, mas aí fogem também do aprendizado. Ficar em torres de marfins, isolado de tudo e todos é fácil, mas qual o valor disso?

Só no contato efetivo com a realidade e com outras pessoas podemos ter certeza que nosso aprendizado é real e não apenas mais uma das muitas ilusões que desenvolvemos durante a vida. Para essa questão do grupo repito a frase de um mestre que muito me ensinou:

Um grupo é como bambus crescendo, crescem juntos mas cada um tem sua raiz.

Nuvem que passa

Vaidade sob a ótica do 4C - 1ª parte

terça-feira, 14 de outubro de 2014


O tema vaidade realmente é muito procedente em nosso trabalho.

Como a vaidade nos faz vulneráveis.

Tenho notado que nos sistemas religiosos dominantes as pessoas fazem as coisas para ganhar recompensas e para agradar a Deus ou a seus anjos e santos.

É todo um jogo de busca de recompensas, uma troca e um jogo de "agradar" , mera repetição de relações que já tivemos com os adultos a nossa volta.

Fomos condicionados a crer que se formos "bonzinhos" ganhamos a mesada, o doce, o presente, papai noel atende nossos pedidos, enfim, fomos condicionados a agir para agradar.

E muitos entram neste tipo de clima mesmo aqui.

Agir, responder a lista, escrever para a lista para agradar.

Agradar quem?

Alguém que insistimos em colocar como juiz em nossas vidas.

Sempre elegemos alguém fora de nós para agradarmos e aqui a questão fica complexa pois "nós" é alguém que não existe ainda.

Agir para agradar nos leva a tomarmos por base de atuação a aceitação coletiva para nossa forma de estar no mundo.

E assim ficamos terrivelmente vulneráveis as opiniões e pontos de vista dos outros a nossa volta.

A auto piedade, a piedade que o ser humano tem de si mesmo me parece a raiz de toda a vaidade.

Só quando caí na piedade de si mesmo, quando o reconhecimento do nada que somos, da efemeridade de tudo que representamos frente a Eternidade, quando esta constatação de nossa solitude fundamental e efemeridade enquanto ente singular, é mal resolvida temos o florescer da vaidade, da importância pessoal.

E a pessoa que tem a importância pessoal exacerbada pode até se matar para chamar atenção, para que "reconheçam seu valor".

Me lembro uma das palavras chaves que certa vez li.

Dizia que se não nos importamos de sermos bobos, de fazermos papel de bobos frente a todos realmente podemos nos considerar aptos para ir muito longe em direção a nossa meta.

A necessidade de assegurar nossa posição no bando, de que todos reconheçam nossa "seriedade" nos torna uma verdadeira piada.

A morte como conselheira nos permite purgar todas as bobeiras e nos deixa sóbrios para encararmos ativamente o desafio que estar vivo representa.

Gastar nossa preciosa energia para defender uma imagem falseada que temos de nós mesmos é não só anti estratégico como danoso ao caminho do despertar e da liberdade.

Acreditamos que somos unidade, que somos imortais, que temos um corpo de energia pronto e assim crendo não trabalhamos para desenvolver estes talentos.

Aqui é por pura vaidade que acreditamos já ter uma alma imortal, já sermos capazes de agir, quando tudo que fazemos é reagir, sermos capazes de sentir quando tudo que fazemos é nos emocionar e sermos capazes de pensar quando tudo que fazemos é raciocinar.

A vaidade cria teorias espantosas em ilusão e auto engano, em fórmulas prontas para manter quem dorme no sono.

O que incomoda em disciplinas como o Quarto Caminho e similares é que são implacáveis em remover toda essa fantasia.

Bem trabalhadas tais trilhas de auto conhecimento levam a constatação dura mas necessária do nada que somos e ainda assim somos maravilhas, fragmentos de estrelas que precisam recuperar seu brilho.

Temos que lembrar de nós para deixar de ser essa máquina que nos tornaram e recuperarmos a liberdade que existe em nós, trancada por preconceitos e formas limitadas de inserção na realidade.

E tudo isso só é possível se nos observamos com atenção, com serenidade, se reconhecemos factualmente em nós como nos alteramos, como reagimos a coisas sem importância, como lutamos para defender uma imagem tola que temos de nós mesmos.

Quanto mais reativa é uma pessoa a qualquer comentário que façam dela, quanto mais fica pensando e remoendo aquilo que lhe dizem, aquilo que a ameaça, mais presa é esta pessoa da vaidade.

Vaidade é algo sutil e se a considerarmos enquanto importância pessoal encontramos mesmo a base sobre a qual a falsa personalidade mantém seu domínio e se alimenta.

Não é algo simples, é mesmo uma das maiores travas no nosso caminho ao despertar.

A vaidade nos faz reagir sem raciocinar, nos faz ficar lamurientos e chatos, arrogantes e empafiados querendo a todo custo defender a imagem que fazemos de nós mesmos.

Este tipo de atitude é uma clara prisão as possibilidades que temos de ir rumo a liberdade.

Paz e Luz
Guerrero - 22/10/2000

A perfeição é a monotonia suprema

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A perfeição é a monotonia suprema.

Um pensamento perfurou minha mente por um momento na madrugada, como uma estrela cadente, um pensamento que deriva de minha percepção antiga e pré-adolescente, como se eu fosse uma espécie de Neo, personagem de Matrix:

- Há alguma coisa terrivelmente errada com este mundo.

Mas foi mais que isto, é como se eu detivesse parte da resposta, é como se mais um pedaço do quebra-cabeças se encaixasse.

Há alguma coisa terrivelmente errada com o mundo e este erro é estrutural, vem de fábrica, como se diz, um erro de projeto. Considero isto a maior das heresias, e por ser a maior poucos humanos se atreveriam a pensar nisto porque estão envolvidos no paradigma seguinte:

Se Deus(a) existe, Ele(a) é perfeito(a).

Mas temos aí a teoria da evolução e naturalmente um Universo ou um Multiverso sujeito à evolução não é perfeito. O perfeito não evolui. Dai a briga entre criacionistas e evolucionistas.

Mas a maior das heresias pode, incrivelmente, conciliar estas duas facções.

Nietzche disse que Deus está morto. Ateus dizem que Deus não existe. Crentes acreditam piamente em Deus e em sua perfeição.

A perfeição não é a suprema monotonia?

Tradições diversas falam que existem Deuses criadores (Elohim) e o Deus supremo, que não se envolve no processo de criação dos Multiversos e que é a Fonte de Tudo.

Falamos aqui dos Deuses Criadores, Eles mesmos emanados da Fonte, Eles mesmos sujeitos à evolução, ao processo de aperfeiçoamento e, portanto, ao erro.
Portanto, um Deus criador pode errar. E se Ele pode errar, Ele pode ser responsável pelo seu erro, eis o carma dos Deuses, a chamada Lei de Katância, dentro da Gnose.

Na tradição judaico-cristã há a árvore do conhecimento do bem e do mal, só o fato desta árvore existir mostra que os Elohim, os Deuses, conhecem o mal, o erro, a doença e suas consequências. E se eles conhecem o erro o sabem por si mesmos, por experiência própria.

Eis então a heresia: os deuses erram, falham e adoecem. Mas não pensemos nisto como heresia, pensemos isto como hipótese. Se há algo de estruturalmente errado com o nosso Universo, que é apenas uma das faixas de realidade do Multiverso, onde podemos identificar a falha ou as falhas? Já ouviram falar que o nosso Universo está se expandindo a uma velocidade cada vez maior, num ritmo cada vez mais acelerado? Isto faz sentido dentro das leis conhecidas da Física? Não.

Foi dito pelo rabi Jesus que a árvore se conhece pelos seus frutos.

Quais são os frutos das religiões como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo? A História nos mostra.

Quem é o autor divino destas religiões? Certamente o Deus bíblico.

Qual é a reputação atual dos evangélicos especialmente dentro do campo político e do respeito a outras tradições? Eis os frutos.

E se o Deus criador deste Universo estiver doente e este Universo criado for o fruto de sua doença?

Mas não vamos nos eximir de nossa responsabilidade nesta situação toda, pois pode ser que não seja Deus que irá nos salvar, antes nós mesmos teremos que o fazê-lo e assim redimir o Deus criador.

Pai, afasta de mim este cálice...

Na tradição hindu a trindade é formada por:

Brahma, Vishnu e Shiva.

Brahma é o criador. Já se perguntaram por que existe Shiva com a função de destruidor?

Quem começa uma obra, supostamente perfeita, em parceria com uma empresa de demolição?

Fica a questão para a reflexão.

Sexualidade e Budismo

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Ao redor de todo o mundo, especialmente no mundo ocidental, o Budismo está entre as religiões que mais conquistam adeptos e simpatizantes. Seu grande embaixador é o Dalai Lama, admirado e respeitado por causa de sua sabedoria e seu carisma, sua forma clara de expor os princípios do ensinamento budista e sua abertura para o diálogo com a ciência e outras formas religiosas.

Mas o Budismo é uma tradição espiritual bastante complexa, que não trata apenas de meditação, mantras, rosários e compaixão. Além destes elementos mais populares, ele oferece práticas que podem conduzir a níveis bastante elevados de iluminação e vacuidade. Entre estas práticas, há técnicas tântricas que empregam o sexo como uma poderosa ferramenta de elevação espiritual.

A mentalidade ocidental encontra certa dificuldade para compreender como o sexo pode se tornar um caminho de desenvolvimento espiritual. O entendimento parcial da tradição cristã sugere que o corpo é a porta de entrada do pecado, e que o sexo deve servir apenas para fins de procriação.

Contudo, isso não impediu que certos ensinamentos orientais – incluindo budistas – sobre a sexualidade sejam tratados de maneira licenciosa no ocidente, como uma ferramenta capaz de atrair o sucesso financeiro ou um treinamento que promete transformar o indivíduo num atleta ninfomaníaco.

Há muitos budistas que por diversos motivos ainda não se aprofundaram nos chamados Três Giros da Roda do Dharma, o que significa dizer que também acharão estranho à primeira vista que o próprio ato sexual, quando realizado sob certas condições, possa ser considerado um elemento mais avançado da busca pela realização da vacuidade.

Os ensinamentos de Buda são tão vastos e foram entregues em um intervalo tão grande de tempo, que costumam ser divididos de acordo com o momento em que foram transmitidos. Estes momentos são agrupados em três, os tais Três Giros mencionados acima, em que os princípios do ensinamento budista são explicados em diferentes níveis de profundidade, para que sirvam às também diferentes necessidades de todos os seres humanos.

Mesmo assim, o Budismo Tibetano, que é representado pelo Dalai Lama, considera que a compreensão da doutrina como um todo depende do conhecimento dos chamados Veículos ou métodos de prática espiritual realizados pelas diferentes escolas budistas. Em uma das classificações existentes, estes veículos são conhecidos como Hinayana, Mahayana e Tantrayana.

De alguma forma, os Três Giros e os Três Veículos possuem correspondência. O primeiro veículo, Hinayana, compreende sutras ou ensinamentos bastante objetivos e que devem ser realizados de maneira literal. O segundo veículo, o Mahayana, mostra que os mesmos sutras podem ser interpretados em diversos níveis de profundidade.

Já o terceiro veículo, o Tantrayana, está relacionado a diferentes meios de potencializar, ampliar e catalisar a sabedoria que conduz à vacuidade. E isso se realiza mediante diversas práticas, entre as quais o karmamudra, a união sexual em que os consortes buscam fechar hermeticamente suas mentes e seus corpos, permitindo concentrar as múltiplas expressões da energia sexual e usá-la para o desenvolvimento espiritual.

Portanto, é dentro deste último veículo, o Tantrayana, que podem ser encontrados ensinamentos diretos e práticos sobre como a sexualidade pode ser um caminho de desenvolvimento das faculdades espirituais. Tais ensinamentos são similares ao que propõe Samael Aun Weor, quando apresenta os fundamentos do Nascimento Espiritual, o segundo dos Três Fatores de Revolução da Consciência.

Samael Aun Weor propõe que a ideia do sexo como via de iluminação não é um ensinamento novo, mas constitui um dos fundamentos de todas as formas religiosas. Ele afirma que a sexualidade sagrada faz parte daquela classe de ensinamentos mais avançados e mais reservados das grandes tradições espirituais, e se isso é verdadeiro em relação ao Budismo, certamente o Dalai Lama deveria possuir algum conhecimento a este respeito.

E de fato ele possui, como atestam as suas próprias palavras:
“Para os budistas, o ato sexual pode ser utilizado no caminho espiritual porque pode causar uma centralização poderosa na consciência se o praticante possui compaixão e sabedoria consistentes. O propósito desta utilização é a manifestação prolongada de níveis mentais mais profundos, de modo que seu poder possa ser usado no fortalecimento da realização da vacuidade.” (How to Practice, Way to a Meaningful Life, His Holiness the Dalai Lama, Translated by Jeffrey Hopkins)
A manifestação prolongada de níveis mentais mais profundos corresponde exatamente ao sentido da palavra Tantra, que significa continuidade. Os diferentes tratados tântricos afirmam que Tantra significa a continuidade da consciência que permite a realização de melhoramentos mentais e a experimentação de realizações mais profundas.

Além disso, esta continuidade da consciência é o que permite alcançar o estado definitivo da onisciência. Neste momento, esta continuidade está sempre presente, e este é também um dos significados do Tantra.

Devido ao apelo que exerce em toda a natureza e no ser humano, o sexo é o grande elemento de distração da consciência. Manter a continuidade da consciência em meio à estimulação sexual serve como elemento capaz de potencializar este contínuo e catalisar o surgimento da onisciência.

O praticante da sexualidade tântrica não procura simplesmente a extensão de sua capacidade de sentir prazer, mas sim utilizar o potencial de distração do erotismo como arena para o desenvolvimento completo de sua consciência contínua. É mais ou menos isso o que o Dalai Lama explica no parágrafo seguinte:
“Não sendo desta maneira, o ato sexual ordinário e convencional não possui qualquer relação com o cultivo da espiritualidade. Quando uma pessoa atingiu um nível alto na prática da meditação e da sabedoria, então nem mesmo a junção dos dois órgãos sexuais, o chamado intercurso sexual, é capaz de prejudicar a manutenção de seu comportamento puro…” (How to Practice, Way to a Meaningful Life, His Holiness the Dalai Lama, Translated by Jeffrey Hopkins)

É interessante notar que uma das autoridades máximas do Budismo Tibetano afirma indiretamente que a sexualidade pode ser um grande obstáculo para as práticas iniciais da tradição budista compreendidas no Primeiro Giro da Roda do Dharma, o qual compreende os princípios básicos para o desenvolvimento da Ética e da Moralidade, bases para o cultivo da concentração e da sabedoria.
Se a princípio o ensinamento budista referente ao sexo pode ser sintetizado na abstenção de condutas sexuais equivocadas, preceito que faz parte da Ação Reta, que é o quarto item da Nobre Senda Óctupla, capaz de levar à extinção do sofrimento, a quarta das Nobres Verdades, nos demais Giros da Roda do Dharma ele passa a assumir grande importância.

Contudo, é preciso que antes o praticante tenha sido capaz de levar adiante uma mudança prática de paradigma em relação à sexualidade. Para que essa mudança ocorra, o Budismo oferece a instrução de uma vida sexual que não produza consequências contaminadas por atitudes negativas, mas em seguida destaca a importância do celibato para os monges que assumem votos visando ao aprofundamento de sua prática.

É neste momento que os adeptos experimentam a continência das energias e dos fluidos sexuais, preparando seu corpo e sua mente para as práticas mais avançadas oferecidas pelo Tantrayana. O Dalai Lama continua destacando os benefícios do emprego da sexualidade na prática espiritual:

“Através de técnicas especiais de concentração durante o sexo, praticantes competentes podem prolongar estados muito profundos, sutis e poderosos, e colocá-los a serviço da realização da vacuidade. Contudo, se você vai ao ato sexual dentro do mesmo contexto mental ordinário, não existe nenhum benefício.” (How to Practice, Way to a Meaningful Life, His Holiness the Dalai Lama, Translated by Jeffrey Hopkins)

Sua Santidade insiste na diferenciação entre o ato sexual ordinário e comum, realizado por pessoas que não possuem os conhecimentos a respeito da natureza do corpo, da emoção, da mente e dos propósitos da alma nesta existência, e o ato realizado por indivíduos instruídos nos Três Giros da Roda do Dharma. Abaixo ele chega a indicar a condição primária para que o ato sexual possa servir como instrumento de elevação espiritual:

“Ainda que eu esteja usando o termo comum clímax sexual, ele não corresponde ao ato sexual ordinário. A referência aqui é à experiência do estabelecimento da união com um consorte do sexo oposto, através do qual os elementos da coroa são derretidos, e através do processo de meditação o processo ainda é revertido. Um pressuposto desta prática é que você deveria ser capaz de se proteger do erro da emissão seminal.” (A Survey of the Paths of Tibetan Buddhism, A teaching given in London, 1988. Translated by Geshe Thupten Jinpa and edited by Jeremy Russell. It was originally published in Chö-Yang (No.5) which was a magazine published by the Department of Religion and Culture of the Central Tibetan Administration, Dharamsala.)

Fica claro que para alcançar os objetivos que o Tantrayana propõe, o ato sexual é necessário e a continência seminal é um elemento indispensável. Sob a ótica desta antiga tradição, e mediante uma compreensão mais abrangente que engloba ensinamentos de outras correntes, os fluidos sexuais e suas contrapartes são produzidos no alto da cabeça, quer seja pelo comando das glândulas localizadas nesta região, quer seja pelo chakra coronário, ou ainda, na linguagem do cristianismo esotérico, pela interferência do Espírito Santo.

Uma vez produzidos nas alturas do organismo, os chamados fluidos regenerativos e seus análogos energéticos atravessam o organismo conferindo vitalidade e sendo transformados nas demais energias, como o pensamento e o sentimento. Ao fim, são acumulados nos depósitos orgânicos e energéticos.

A retenção e a manipulação destes fluidos são o que distingue o ato sexual convencional do coito que visa à transcendência. Esta diferença é explicada em maiores detalhes pelo Dalai Lama:
“Existe uma grande diferença entre o movimento dos fluidos regenerativos no caso de dois indivíduos que realizam um ato sexual ordinário e o movimento no caso de um iogue e uma ioguina que realizam o intercurso sexual… No início, a diferença majoritária entre os dois tipos de ato sexual está no controle do fluxo dos fluidos regenerativos. Os praticantes do Tantra devem ter controle sobre o fluxo de seus fluidos, e aqueles que possuem grande experiência são capazes de reverter a direção deste fluxo, mesmo quando ele tenha atingido a extremidade dos genitais. Os praticantes menos experientes devem reverter a direção do fluxo em um ponto anterior. Se os fluidos descerem demais, será mais difícil de controlá-los.” (Sleeping, Dreaming, and Dying, by The Dalai Lama, 1997, Wisdom Publications)

Algumas pessoas poderiam interpretar tais orientações como sendo direcionadas apenas ao composto energético de cada indivíduo. Apesar da clareza com que Sua Santidade aborda a questão, poderia ser insistido que se trata de uma concepção meramente simbólica, sem conotação física, o que acaba se provando falso mediante as seguintes observações:

“Na verdade, [..] o órgão sexual é utilizado, mas o movimento da energia que está presente é, no final das contas, totalmente controlado. A energia não deveria nunca ser liberada. Esta energia deve ser controlada e finalmente redirecionada a outras partes do corpo. E aqui é possível observar a existência de um tipo de conexão especial com o celibato.” (Quoted from “The Good Heart,” H.H. the Dalai Lama)

De qualquer maneira, o conjunto de ensinamentos budistas apresenta esta submissão dos fluidos sexuais ao poder da vontade como uma alternativa espiritual somente aos indivíduos que possuem preparo adequado. No que diz respeito aos leigos que praticam os ensinamentos expressos pelo Primeiro Giro da Roda do Dharma, o Dalai Lama não opina se devem ou não submeter seus fluidos à continência.

Existem inúmeras passagens do próprio líder budista que sugerem ser as práticas sexuais ritualísticas do Tantrayana reservadas apenas aos indivíduos que já avançaram nos aspectos do controle da mente e da capacidade de selar seu organismo, o que significa haver conseguido certa habilidade na retenção seminal.

“A capacidade de entrar em contato sexual sem liberar o sêmen é algo necessário quando você pratica os estágios avançados do estágio da perfeição.” – The 14th Dalai Lama (Berzin Archives)

Certamente, parece ser adequado aos praticantes dos ensinamentos de Buda segundo a estrutura do Budismo e inseridos em uma Sangha budista, que sigam tais orientações. Isso significa dizer que, no paradigma budista iniciado há mais de dois milênios, a retenção seminal só tem sentido quando existe comprometimento com o avanço na compreensão dos ensinamentos do Segundo e do Terceiro Giro da Roda do Dharma.

Em se tratando do Gnosticismo Contemporâneo, as coisas mudam de figura. A proposta lançada por Samael Aun Weor pode ser entendida como uma Doutrina da Síntese, que expõe de maneira bastante clara os ensinamentos mais avançados das tradições espirituais de todos os tempos numa linguagem mais simples e objetiva.

Isso porque esta proposta está configurada de uma maneira diferente, trazendo os ensinamentos reservados e mais avançados das antigas tradições espirituais para fora de suas estruturas didáticas e pedagógicas, assim facilitando uma prática mais individual de tais elementos doutrinários, permitindo ao indivíduo a vivência gnóstica destes ensinamentos.

Não pretende o Gnosticismo Contemporâneo ser um caminho melhor que os demais, mas uma exposição de certos princípios que mostram claramente que todos os caminhos levam ao mesmo lugar e, portanto, são o mesmo caminho, mesmo que as guias que os definam sejam mais retas ou tortas, amplas ou estreitas. Enfim, a Gnosis não é um caminho diferente, mas a própria caminhada que se realiza através de todos eles.

http://www.sgi.org.br/budismo/o-dalai-lama-e-a-sexualidade-sagrada/