Sobre deuses, pássaros e gaiolas

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Eu não tenho religião. Não vou a igrejas, não participo de rituais, não acredito nos seus dogmas. Preciso não ter religião para amar a Deus sem medo, com alegria e, principalmente, sem nada pedir. Não tenho religião porque não concordo com as coisas que elas dizem de Deus. Deus é um Grande Mistério. Está além das palavras. Diante do Grande Mistério a gente emudece. Fica em silêncio. Discordo a partir do pronome “ele”.

Deus “ele”, masculino? Onde foi que aprenderam sobre o sexo de Deus? Deus tem sexo? Se tem sexo, por que não ela, Deus mulher? Como a mulher do Cântico dos Cânticos? A Igreja Católica não conhece a mulher. Conhece apenas a “mãe” que foi mãe sem ter sido mulher. Deus: por que não uma flor, a mais perfumada? Por que não um mar sem fim onde a vida navega? Místicos houve que disseram que Deus é uma criança que nos convida a brincar... Mas pode ser também que Deus seja música, como pensaram os místicos pitagóricos.

Ter uma religião é falar as palavras sagradas daquela religião e acreditar nelas. As religiões se distinguem e se separam: pelas diferenças das palavras que usam para se referir ao sagrado. Se elas nada falassem, se houvesse apenas o silêncio diante do Grande Mistério, a Babel das religiões não existiria. Diante do Grande Mistério apenas uma palavra é permitida, a palavra poética, porque a poesia não o diz mas apenas aponta para ele. O Grande Mistério está além das palavras.

Se tenho uma religião ela se chama poesia. Por isso, amo a Cecília Meireles, sacerdotisa profana, que quando queria se referir a Deus falava sobre um mar sem fim, misterioso e selvagem. Quem em silêncio contempla o mar sem fim ouve vozes em meio ao barulho das ondas. Também Fernando Pessoa sabia disso. Mas, prestando bem atenção, é possível ver, a voar sobre o mar sem fim, um pequeno pássaro que canta: “Leve é o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve. E a cascata aérea de sua garganta: mais leve. E o que lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve...”

Os poetas escrevem em transe: não sabem sobre que estão escrevendo. Faz muitos anos, escrevi um livro para minha filha. Ela tinha 4 anos. Eu iria fazer uma demorada viagem pelo exterior e ela ficou com medo de que eu morresse e não voltasse. Apareceu-me, então, uma estória, A menina e o pássaro encantado. Resumida, era assim: era uma vez uma menina que amava um pássaro encantado que sempre a visitava e lhe contava estórias, o pássaro a fazia imensamente feliz. Mas sempre chegava um momento quando o pássaro dizia: “Tenho de ir”. A menina chorava porque amava o pássaro e não queria que ele partisse. “Menina”, disse-lhe o pássaro, “aprenda o que vou lhe ensinar: eu só sou encantado por causa da ausência. É na ausência que a saudade vive. E a saudade é um perfume que torna encantados a todos os que o sentem. Quem tem saudades está amando. Tenho de partir para que a saudade exista e para que eu continue a amá-la, e você continue a me amar...” E partia. A menina, sofrendo a dor da saudade, maquinou um plano: quando o pássaro voltou e lhe contou estórias e foi dormir, ela o prendeu numa gaiola de prata dizendo: “Agora ele será meu para sempre”.

Mas não foi isso que aconteceu. O pássaro, sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria, não mais tinha estórias para contar. E o amor acabou. Levou tempo para que a menina percebesse que ela não amava aquele pássaro engaiolado. O pássaro que ela amava era o pássaro que voava livre e voltava quando queria. E ela soltou o pássaro que voou para longe. A estória termina na ausência do pássaro e a menina se enfeitando para a sua volta.

Minha intenção, ao escrever esta estória, era simples: consolar a minha filha. Mas quando foi publicada ganhou um sentido que não estava nas minhas intenções: começou a ser usada em terapia, com casais possuídos pela ilusão de que, engaiolado, o amor seria posse eterna... Desde então passei a presentear noivos com uma gaiola da qual eu arrancava a porta. Mas, passado algum tempo, uma pessoa me disse: “Que linda estória você escreveu sobre Deus!” “Sobre Deus?”, eu perguntei sem entender. “Sim”, ela me respondeu. “O Pássaro Encantado não é Deus? E as gaiolas não são as religiões nas quais os homens tentam aprisioná-lo?” Aprendi, então, da minha própria estória, algo que não sabia: Deus como um Pássaro Encantado que me conta estórias. Amo o Pássaro. Odeio as gaiolas. O Pássaro Encantado: não pousa em galhos para cantar. Não é possível fotografá-lo. Canta enquanto voa. Dele, o que temos é apenas a sua leve sombra voante e a cascata aérea de sua garganta... Quando ouço o seu canto, ele já passou. Só é possível vê-lo em seu vôo, por trás. Vai-se o Pássaro. Fica a memória do seu canto.

Um pássaro voando é um pássaro livre. Não serve para nada. Impossível manipulá-lo, usá-lo, controlá-lo. Pássaro inútil. E esse é, precisamente, o seu segredo: a sua inutilidade: ele está além das maquinações dos homens. Sua única dádiva é o seu canto. Só faz um milagre, um único milagre: quando, chorando, lhe peço “Passa de mim esse cálice”, ele canta e o seu canto transforma a minha tristeza em beleza. Por isso eu nada lhe peço. Sei que ele não atende a pedidos. O seu canto me basta: ao ouvi-lo transformo-me em pássaro. E vôo com ele...

Mas aí vêm os homens com as suas arapucas e gaiolas chamadas religiões. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cada uma delas afirma que o seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro...

Por que prenderam o Pássaro? Porque o seu canto não lhes bastava. Não lhes bastava a beleza. Na verdade, não o amavam. O que os homens desejam não é a beleza de Deus. O que eles desejam é manipular o seu poder. O que eles querem é o milagre. O canto do pássaro poderia lhes dar asas para voar. Mas não é isso que querem. O que desejam é o poder do pássaro para continuar a rastejar: Deus, transformado em ferramenta. Ferramenta é um objeto que se usa para se atingir um fim desejado. Assim são os martelos, as tesouras, as panelas... O que as religiões desejam é transformar Deus em uma ferramenta a mais. A mais poderosa de todas. A ferramenta que realiza os desejos. Como o gênio da garrafa. Pois não é isso que é o milagre, a realização de um desejo por meio da manipulação do sagrado? Só é canonizada santa uma pessoa que realizou milagres: o milagre é o atestado do seu poder para manipular o divino.

E é assim que as religiões se multiplicam, porque os desejos dos homens não têm fim, e os seus santuários se enchem de santos de todos os tipos, os santos milagreiros são nossos despachantes espirituais, todos eles a serviço dos nossos desejos, atenderão nossos desejos a preço módico, se rezarmos a reza certa e prometermos publicar o milagre em jornal, e pela televisão se anunciam fórmulas, sessões de descarrego, águas bentas milagrosas, exorcismo de demônios, os DJs de cada religião têm uma música na fala que lhes é própria... Assim, a poesia do canto do Pássaro Encantado se transforma em manipulação do pássaro engaiolado. E não percebem que aquele pássaro que têm dentro de suas gaiolas não é o Pássaro Encantado, que não se deixa engaiolar, porque é como o vento, e voa como quer, e tem uma única dádiva a oferecer aos homens: a beleza do seu canto. À transformação da poesia em manipulação milagreira ? Os profetas deram o nome de idolatria.
Rubem Alves

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Quando a fé é questionada as reações dos crentes demonstram a qualidade da fé.

Amor, casamento e paixão por um monge

domingo, 10 de agosto de 2014

"Quando o vento cármico sopra..."

O que um monge tibetano sabe sobre o amor, o casamento e a paixão? Qual a visão do Budismo sobre estes temas?

Bem, se até os brutos amam, os monges não menos, apesar de não existir nenhuma referência ao casamento (institucional) nas escrituras budistas, aliás, não há cerimônia de casamento no Budismo.

O humor, a descontração e a inteligência do palestrante fazem valer a pena o tempo.

obs: o pessoal que aprecia Castaneda deveria ler o capítulo de Viagem a Ixtlan intitulado SER INACESSÍVEL.


Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda: Arturo Gutiérrez

sábado, 9 de agosto de 2014

Los testigos del nagual


Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda

Texto de Arturo Gutiérrez

Um duplo é o próprio bruxo, desenvolvido através de seu sonhar. Um duplo é um ato de poder para um bruxo, mas somente um conto de poder para você.

Porta para o Infinito

O único que não tem remédio é a morte. Assim recordo as palavras de meu pai. Assim recordo minha vida antes que o Espírito batesse à minha porta. Eu não sabia que existia outra opção, não sabia que existia a liberdade, a viagem definitiva.

Em uma conferência da qual tive a oportunidade de participar, Carlos disse:

“Os bruxos não morrem, se vão em consciência, levam tudo o que são e não deixam nada. Façam como Dom Juan; ele se foi de sandália e tudo.”

Em algum momento de minha vida pensei em encontrar os mistérios da vida no longínquo Tibete; como estava equivocado! Esperava incentivo de Alberto, um velho conhecido que havia estado naquele inacessível lugar; uma vez mais, esse parecia não ser meu destino; em lugar disso, e por alguma estranha razão que escapou ao meu entendimento, Alberto chamou minha atenção para Carlos Castaneda e um grupo de pessoas que o haviam conhecido. Não pude evitar. Estava enganchado. Este grupo se reunia para executar uns poderosos movimentos outrora ensinados por ele.

Agora eu sei, o Espírito havia batido à minha porta.

***

O contato começou com Martha e sua filha Sandra; ela me confessaria ter conhecido Castaneda desde pequena, a quem ela se referia como o nagual, e como este havia expressado seu desejo de ser apresentado à sua filha; esta proposta Carlos lhe havia feito em diversas ocasiões; parece que o nagual havia visto algo nela.

Eu comecei a me interessar; comecei a ler os livros de Carlos Castaneda; Sandra me incentivava muito, tanto é assim que em uma ocasião me compartilhou o sentir do nagual com respeito ao compromisso do guerreiro:

“Trabalhem e me terão batendo às portas da sua casa.”

***

Meu corpo ainda se recorda dos passes mágicos; ainda recordo o intento do grupo; anos depois os movimentos sairiam de seu hermetismo e se tornariam acessíveis ao mundo. Por Martha e Sandra conheci o grupo e Mariví; era ela que marcava a pauta a seguir com os passes mágicos; ela os havia aprendido diretamente do nagual Carlos.

Mariví nos compartilhava a sabedoria do nagual, assim como também nos deixava tarefas a executar por semana; eu a essas alturas me encontrava lendo “O Fogo Interior”, até então o penúltimo livro do nagual, meu intento estava aí, assim como também, uma vez mais, as palavras do nagual:

“Trabalhem e me terão batendo às portas da sua casa.”

***

Minha atenção de ensonho estava no profundo laranja do crepúsculo; uma longa estrada se perdia no horizonte; meu tio ia dirigindo, e somente o insistente chamado do telefone, e a voz que escutei ao atender, romperia com a aparente hipnose do momento:

“Alô, aqui fala o nagual.”

Como esquecer essa voz? Havia começado a me dirigir ao meu tio, disse a ele que tinha que vê-lo. Foi então que minha atenção se desviou para encontrar a maneira de estar com meu tio quando viesse o nagual. As únicas palavras que meu último resquício de atenção resgatou foram “Castelo” e “5 horas da tarde”.

Acordei, sentia-me surpreendido; de alguma maneira tinha a certeza de que este não havia sido um sonho comum.

Não tinha conseguido despertar completamente quando nisso me assaltou a dúvida, raciocinei que não havia maneira de vê-lo nesse mesmo dia, os únicos castelos para mim nesse momento eram os da Europa, e eu vivia na Cidade do México. Era ilógico. Não tinha a mais mínima oportunidade; certamente só havia sido um sonho, de modo que voltei a dormir.

Passaria o resto do dia inquieto por causa do estranho sonho; entretanto, qual seria minha surpresa e profunda desilusão quando, já passado o dia, tive o que agora acredito ser um genuíno e fugaz momento de sensatez ao me dar conta de que sim, havia um castelo no qual eu poderia estar às 5 da tarde: o Castelo de Chapultepec da Cidade do México.

Assim que houve oportunidade comentei meu sonho com Martha e Sandra; finquei pé no detalhe que mais havia chamado minha atenção e havia ficado profundamente impregnado em minha memória: a voz.

Uma parte de mim queria considerar impossível a possibilidade do contato com o nagual; no entanto, o mais curioso foi que tanto Martha quanto Sandra me disseram que a descrição da voz que eu escutei coincidia com o timbre que caracterizava o nagual Carlos.

Por fim, quando conheci pessoalmente o nagual pude corroborar que ele era o mesmo que me visitou em inumeráveis ocasiões em meu sonho.

***

Se alguma vez a magia e o Espírito bateram à minha porta foi aquele dia. Entretanto, nessa ocasião, a razão impôs suas leis e ganhou a batalha. Hoje, mais de dez anos depois, sinto que de alguma maneira reuni o poder para conectar-me com o mundo do nagual, mas não o suficiente para resistir aos implacáveis embates da razão e atender ao que, agora creio, era um encontro de poder; um encontro com o Espírito.

Uma semana mais de intento, mais relatos e mais passes mágicos. Uma nova faceta do trabalho estava na alimentação; segui certos conselhos que Mariví havia recebido do nagual; finalmente havia um princípio a seguir para poder aspirar às verdadeiras possibilidades do caminho do guerreiro:

Limpa-se o corpo, limpa-se o vínculo com o intento.

***

Recordo que íamos caminhando com um pequeno grupo de pessoas; estávamos com o nagual e o seguíamos. Caminhávamos pelo bosque, até que chegamos à borda de um precipício.

Depois de um momento, chegou a ocasião de saltar; recebemos instruções do nagual com respeito a mover o ponto de encaixe (manipular a atenção e percepção) no sonho. Só lembro de me haver lançado ao abismo e sentir o vazio de ir caindo, toda a minha energia e atenção estavam em manipular minha percepção à vontade e evitar chegar ao fundo do abismo.

Finalmente só recordo obscuridade, após o que recordo haver perdido velocidade na queda até um ponto em que descia suave e estavelmente, cada vez mais devagar, até que finalmente toquei a terra; estava em um novo lugar, e não estava sozinho; parece que havíamos mudado de realidade, havíamos mudado de sonho dentro do sonho.

O último relato que Sandra me deixou foi talvez sem grande significado, mas que sem dúvida teve o suficiente poder para deixar uma profunda marca em minha memória: o penetrante olhar do nagual; o olhar de uns olhos que na verdade diziam ter testemunhado mundos impossíveis de nomear.

***

Estava no bosque, era de dia, e o nagual estava comigo; lembro das sombras das árvores, os troncos e sua folhagem projetados sobre o solo; o contraste entre a luz do sol e as sombras era muito marcante, algo que chamaria a atenção de qualquer um.

Nunca esquecerei essas sombras, assim como tampouco esquecerei como o nagual começou a dizer que fixasse minha atenção nelas; assim o fiz. Nisso aconteceu algo completamente inesperado, as sombras começaram a oscilar de um lado para outro!

“Não perca de vista as sombras”, exigiu, “não perca a atenção!”

Comecei a perder o controle.

“Fixe sua atenção!”, insistiu.

Eu as estava perdendo, havia um extremo sentido de urgência no nagual para que mantivesse essa percepção.

Eu não estava conseguindo executar a simples, mas aparentemente importante manobra perceptiva que o nagual me estava pedindo. Não tive a energia nem o poder suficiente; o nagual se impacientou, e já desesperado me disse que o esquecesse, que esquecesse tudo, que se não conseguia fixar minha atenção que o esquecesse.

Pedi-lhe paciência, disse-lhe que ele poderia entender, que Dom Juan devia ter tido paciência com ele no princípio também. Aparentemente, não foi suficiente meu questionamento.

Naquele momento já havia perdido a atenção.  Havia perdido a batalha.

***

Continuei envolvido com a mesma intensidade no caminho do guerreiro, continuei trabalhando sem cessar, no entanto, não importa o que fizesse, o nagual Carlos nunca mais voltou a aparecer em meus sonhos.

O grupo estava por se dissolver. A partir desse momento, a luta seria solitária. Entretanto, houve um último relato que conseguiu sobreviver: a morte de “La Gorda”, guerreira impecável, aprendiz de Dom Juan. Havia decidido separar-se do grupo do nagual Carlos. Havia intentado levar todo o seu corpo para o outro mundo; sofreu uma embolia após o esforço. “La Gorda” havia tido um ataque de egomania antes do intento, diante do que Martha fez um sincero questionamento:

“Se ‘La Gorda’ sucumbiu à importância pessoal e morreu, o que pode nos esperar?”

***

Finalmente, um dia, anos depois, voltaria a saber do nagual Carlos. Fui convidado a uma conferência que daria em um teatro do centro da Cidade do México.

São muitas as coisas de que falou nessa ocasião, mas foram dois os aspectos que mais chamaram minha atenção:

1)      a extraordinária vitalidade do nagual;
2)      a ênfase que colocou em uma situação que nunca plasmaria em seus livros:

Dom Juan, ao partir com seu grupo, havia ficado preso na segunda atenção; a falta de abstração do grupo o havia puxado, e não lhes havia permitido consolidar a viagem definitiva.

Carlos expressou seu profundo desejo de ajudar Dom Juan quando fosse a sua vez de partir. Um dos presentes lhe perguntou se podíamos ajudar Dom Juan, ao que Carlos respondeu:

“Primeiro ajudem-se vocês, salvem-se vocês.”

Como esquecer esse dia? Um belo dia, soube por uma pessoa de uma notícia impossível de ignorar. Disseram-me que a haviam tirado das notícias e do jornal, busquei e só o que encontrei foi um inevitável sentimento de desconcerto:

O famoso e renomado escritor Carlos Castaneda morreu em 27 de abril de 1998 em estranhas circunstâncias.

Imediatamente, busquei refúgio em uma explicação com sentido; quis esclarecer se havia ido em consciência, se havia podido partir na viagem definitiva, ao que me disseram que não, que realmente havia morrido. A partir daqui não posso dizer mais; um profundo e arrasador sentimento inundou todo o meu ser.

Uma noite, tempos depois de meu último sonho com o nagual Carlos, decidi continuar com meu intento. Nessa noite, terminei de executar os passes mágicos, recapitulei e me dispus a dormir.

***

Estava no deserto, sozinho, era uma espécie de chaparral, parecia ser de noite; de repente percebi que em frente a mim se encontrava uma figura sentada com as pernas cruzadas, a uns cinco metros; por sua forma de vestir parecia um índio e usava um sombrero, não dava para ver seu rosto porque tinha a cabeça baixa, mas quando a levantou recebi um enorme impacto, não havia rosto algum!

Só a escuridão ocupava o espaço onde supostamente devia haver um rosto, enquanto todo o resto era visível de maneira normal; parecia que não queria ser reconhecido.

Tinha esta cena à minha frente quando nisso escutei como se dirigiu a mim:

“Eu sou o ser que o mundo conheceu como Dom Juan.”

Apenas me havia dado conta disso quando ele levantou seu braço direito e o estendeu até mim como se fosse elástico, aproximou-se tanto que sua mão ficou a cerca de um metro, mostrando-me o dorso desta com os dedos esticados; foi nesse instante que minha atenção se fixou em pequenas plantas e ervas que trazia em sua mão, como se as houvesse distribuído entre seus cinco dedos.

Em seguida começou a me dizer o seguinte:

“Esta planta serve para isso, esta para aquilo, esta para isso, esta para aquilo, e esta para isso.”

Havia me indicado e apontado com a outra mão as plantas e ervas conforme falava delas.  Depois continuou dizendo:

“Tudo isso é o que no mundo ocidental equivale e se conhece como a estrela de cinco pontas.”

Isso foi tudo. A partir dessas enigmáticas palavras minha atenção começaria a minguar até perder-se completamente no reino da inconsciência.

Acordei completamente sobressaltado, sem dúvida podia ter sido outro produto de meu inconsciente; entretanto, havia um detalhe: a informação parecia ser muito específica, e eu até aquele momento de minha vida não tinha conhecimento algum do que era a estrela de cinco pontas. Nesse mesmo dia e o mais rápido que pude decidi averiguar o que pudesse acerca de, até aquele momento, tão misterioso símbolo.

Após a busca pude encontrar algo, um folheto explicativo do pentagrama, mas qual não seria minha surpresa quando li que o pentagrama é conhecido como a estrela de cinco pontas, e que seu significado é o homem auto-realizado, assim como o domínio do homem sobre as forças da natureza!

***

O segredo de um guerreiro é que ele crê sem crer. Mas obviamente um guerreiro não pode só dizer que crê e deixar assim. Isso seria muito fácil. Somente crer o exoneraria de examinar sua situação. Um guerreiro, quando tem que envolver-se com o crer, o faz como uma escolha, como uma expressão de sua mais íntima predileção. Um guerreiro não crê, um guerreiro tem que crer.

Porta para o Infinito

Hoje, mais de dez anos depois, tenho que crer que o nagual Carlos e Dom Juan mantiveram a consciência de si ao partir. Hoje, mais de dez anos depois, tenho que crer que algo extraordinário me sucedeu.

Se alguma vez minha vida se modificou, foi naquela época. Se alguma vez a magia e o Espírito bateram à minha porta, foi naqueles dias. Assim que hoje, anos depois, só posso intentar unir-me em Espírito à idéia e ao propósito que o nagual Carlos e seu grupo compartilhavam:

Explicar o mundo que Dom Juan nos fez herdar é nossa expressão final de gratidão para com ele, e de nosso propósito de continuar buscando o que ele buscava: a Liberdade.

***

Você está em um ponto terrível. É tarde demais para se retirar, mas cedo demais para agir. Tudo o que pode fazer é testemunhar. Está na miserável posição de uma criatura que não pode regressar ao ventre da mãe, mas tampouco pode sair e agir. Tudo o que uma criatura pode fazer é testemunhar e escutar os estupendos relatos de ação que lhe contam. Você está agora nesse ponto preciso. Não pode regressar ao ventre de seu velho mundo, mas tampouco pode agir com poder. Para você só há testemunhar atos de poder e escutar contos, contos de poder.

Não somos o topo da cadeia alimentar

domingo, 3 de agosto de 2014

"Todo este mundo quotidiano e visível, toda esta gente que boia à superfície da vida, todas estas coisas que constituem os nomes e os feitos da história não são mais que erro e ilusão. Somos todos, não agentes, senão agidos-títeres de maiores que nós. Todo o nosso orgulho de conscientes e a nossa soberba de racionais são o títere que se orgulha de seus gestos. Na verdade o combate é aqui, mas não é nosso; não é connosco, somos nós. Não somos actores de um drama: somos o próprio drama, a antestreia, os gestos, os cenários. Nada se passa connosco: nós é que somos o que se passa."

Fernando Pessoa

Dica de filme: A Fonte da Vida

Via Torrent
(download do arquivo Torrent - necessário ter o programa Torrent. Veja AQUI como fazer para baixar)

Via Dreamule
(download do filme; é preciso ter o programa Dreamule)

Legenda PT-BR
(clique acima para baixar a legenda. Recomendamos assistir no programa BS Player)

O filme revela uma magia impressionante. Mistura, com maestria e arte, romance, estados alterados de consciência, plantas de poder, iluminação, Ioga, Tai Chi, mito, lenda, questões de relacionamento e muito mais, tudo isso entrelaçado para recontar o mito maia da criação.

Imperdível!

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A Fonte – para quem viu e não entendeu.
Um projeto de explicação.

Citação inicial do filme: 24 “E havendo lançado fora o homem, pôs ao oriente do jardim do Éden os querubins, e uma espada flamejante que se volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida” - Genêsis 3.

O homem foi expulso, pelo deus da igreja católica e da sinagoga judaica, do Éden, mas retorna através da árvore da vida contida no mito maia. Descobrimos isso ao longo do filme. Temos assim uma crítica artística e indireta a religião patriarcal, teísta e que proíbe o sacramento vivo da Natureza, pois a fonte se encontra no seio de uma floresta da América e não no tribunal da inquisição espanhola. A fonte se encontra na Natureza e não em um livro.

1ª cena: Ele lembra dela, do anel, da Rainha.

O anel é o símbolo da aliança entre o homem e a mulher, entre o feminino e o masculino. Ambos foram expulsos do Paraíso e podem retornar juntos. É o símbolo não só da união, mas também da completude e da realização. É o símbolo de um pacto pela vida. Tal união encontra-se no sacramento vivo de diferentes tradições xamânicas como da Jurema e da Ayahuasca.

24 Portanto deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á à sua mulher, e serão [uma só carne]. – Gênesis 2; Mateus 19-5; Marcos 10-8; I Coríntios 1-16; Efésios 5-31

2ª cena:

Ele tem que atravessar uma trilha estreita e perigosa, uma armadilha, e sabe que tem que fazê-lo e diz que ainda não irá morrer ali. E luta até o fim para sobreviver. E diz que atravessará pela força.

14 e porque estreita é a porta, e [apertado] o caminho que conduz à vida, e poucos são os que a encontram - Mateus 7

12 E desde os dias de João, o Batista, até agora, o reino dos céus é tomado à força, e os [violentos] o tomam de assalto – Mateus 11.

As citações bíblicas acima são uma alusão metafórica ao caminho do guerreiro, tal como a 2ª cena.

Ele atravessa o caminho e sobe os degraus do templo até a câmara interna para encontrar o sacerdote maia.

A fala do Sacerdote é importante porque fala do sacrifício do primeiro Pai pela árvore da Vida. Essa é uma história recorrente em diversas tradições xamânicas. Ele diz: A morte é o caminho para o sublime! Ver o documentário sobre Máscaras da Eternidade do Joseph Campbell. De fato, a vida surge de transformações de um ser em outro ser, assim a morte é o caminho para o sublime. A cena do filme muda drasticamente e o personagem como um Buda, em lótus, desperta em outra realidade, no meio do espaço infinito, dentro de uma bolha transparente onde há uma enorme árvore viva e ainda assim com um aspecto invernal, a árvore parece ser a mulher amada. Ele fala com ela e retira um pequeno pedaço da casca do tronco e o come. Parece que ele está diante de uma árvore enteógena, sagrada, a Deusa. A cena muda de novo e estamos numa nova realidade, a realidade de nosso tempo, onde surge a mulher amada a lhe convidar para um passeio na neve. As mudanças abruptas de cena sugerem diferentes realidades que se interpenetram na realidade do ser, do personagem, indicando a condição multidimensional do mesmo. Assim as cenas se confundem e confundem quem vê e esse efeito parece ser induzido, pois as mensagens são artísticas, não-lineares, de grande beleza e querem atingir um certo nível de sensibilidade. As cenas parecem querer confundir a mente linear, racional. A cena da prática de Tai Chi por parte do Dr. Creo (nome interessante para um personagem obcecado com a vida. Izzi é o nome da esposa, um nome feminino que remete a Ísis, pela duplicidade de letras invertidas, IZ, um clássico símbolo do feminino.) no meio do espaço é uma mensagem muito óbvia, clara nessa direção.

Mas pode-se compreender esse jogo de cenas que se interpenetram apenas como um recurso técnico e buscarmos um entendimento objetivo, que é o seguinte: o filme se passa em nossa época. As cenas de outras épocas e lugares são apenas parte do livro que a personagem da atriz principal - Izzi - escrevia, chamado A Fonte. A cena final é escrita pelo personagem do ator principal - Dr. Creo, Hugh Jackman -, pois no livro fica faltando o último capítulo, esse último capítulo deveria ser escrito pelo esposo já que a esposa escritora que estava morrendo não teria condições de fazê-lo. Assim a estória do livro se mistura com a estória dos personagens Izzi e Creo sugerindo uma metáfora multidimensional e traduzindo numa linguagem moderna um mito primordial sobre vida, morte e renascimento. Obviamente que o mito da criação maia é um mito panteísta, revelando o sagrado na Natureza e indicando a nossa ligação fundamental com tudo e com o todo vivente.

Se depois disso você continuou a não entender nada e ainda assim curtiu o filme, isso é o que importa.

F.A.