"Há muito pouco valor na instrução"

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

“A única ajuda concreta que você obteve de mim é o fato de que ataco sua auto-reflexão. Não fosse por isso, você estaria desperdiçando o seu tempo.

— Você me ensinou, Don Juan, mais do que qualquer outra pessoa em minha vida inteira — protestei.

— Ensinei-lhe todos os tipos de coisa para prender sua atenção. Você irá jurar, entretanto, que esse ensinamento foi a parte importante. Há muito pouco valor na instrução. Os feiticeiros afirmam que mover o ponto de aglutinação é tudo que importa. E esse movimento, como você bem sabe, depende de acúmulo de energia e não de instrução.

Então ele fez uma afirmação contraditória. Disse que qualquer ser humano que seguisse uma seqüência específica e simples de ações poderia aprender a mover seu ponto de aglutinação.

Retruquei que ele estava contradizendo a si mesmo. Para mim, uma seqüência de ações significa instruções; significa procedimentos.

— No mundo dos feiticeiros há apenas contradições de termos — replicou.

— Na prática não há contradições. A seqüência de ações sobre a que estou falando é uma que se origina de estar consciente. Para tornar-se consciente dessas seqüências você necessita de um nagual. É por isso que falei que o nagual proporciona uma chance mínima, mas essa chance mínima não é instrução, como a que você necessita para aprender a operar uma máquina. A chance mínima consiste em se tornar consciente do espírito.

Don Juan explicou que a seqüência específica que tinha em mente exigia estar consciente de que a auto-estima é a força que mantém o ponto de aglutinação fíxo. Quando a auto-estima é podada, a energia que requer não é mais gasta. Essa energia aumentada serve então como o trampolim que lança o ponto de aglutinação, automaticamente e sem premeditação, para uma viagem inconcebível.

Uma vez que o ponto de aglutinação se moveu, o próprio movimento implica afastar-se da auto-reflexão, e isto, por sua vez, assegura um elo de conexão limpo com o espírito. Comentou que, afinal, era a auto-reflexão que havia desconectado o homem do espírito em primeiro lugar.

— Como já lhe expliquei — continuou Don Juan —, a feitiçaria é uma viagem de retorno. Voltamos vitoriosos ao espírito, tendo descido ao inferno. E do inferno trazemos troféus. O entendimento é um de nossos troféus.

O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda.

                      

Mestres(as) e caminho solitário

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Este tema de mestres e solitude do caminho é interessante.

A questão que vejo aqui é que flutuamos entre dois extremos.

Por um lado existem os que se tornam dependentes de mestres e de outro os que negam totalmente isso. Todo extremo é danoso e é sempre útil buscar o saudável caminho do meio. Usaria o exemplo da Arte Marcial para deixar claro como vejo o processo. Não existe arte marcial sem mestre. A essência da Arte Marcial não é essa pancadaria glorificada pelos filmes modernos, é outra coisa. Arte Marcial é um estilo de trabalhar as energias corporais que resultam inclusive em uma habilidade de se defender, mas não é esse seu objetivo focal. Shao Lin, em seus muitos mosteiros e tantos outros centros de aprendizado não tinham na formação de combatentes seu objetivo, isto só acontece mais tarde, quando condições históricas assim obrigam e ainda assim a luta é uma forma de expressão de algo mais amplo.

Taoistas buscam algo mais que lutar, os movimentos, tidos por "experts" ocidentais como excessivos e desnecessários, na realidade tem a função de harmonizar a energia que flui pelos meridianos do corpo, harmonizar e vitalizar os centros orgânicos , é um aprendizado acumulado por gerações e para transmitir na integra tais conhecimentos há a figura de quem ensina. Um conhecimento que durante milhares de anos foi acumulado pode ser transmitido, se fossemos seguir sós no caminho teríamos que ter uma vida de milhares de anos para aprender tudo.

Isso é o "mestre" ou "mestra" embora estes termos sejam tão deturpados que gosto mais do termo que alguns xamãs como o Doutor Carlos Castaneda usa: Benfeitor. Alguém que te ajuda no trabalho, te transmite o conhecimento acumulado por gerações.

Quando Vc aprende matemática não precisa investigar todos os teoremas matemáticos e leis da física. Se o fizesse poderia por exemplo ficar preso no paradigma newtoniano. Mas tem alguém prá te contar que tal paradigma já foi superado e hoje temos a abordagem quântico relativística. Precisamos de alguém para nos contar que o senso comum da abordagem da física clássica foi superado e que a realidade é paradoxal e complexa.

Na Magia ocorre o mesmo. A abordagem pelo senso comum pode levar a erros sem fim. Quantas civilizações ancestrais caíram pelo uso equivocado da magia. Magia não é alguma bobeira mística que podemos "intuir" se formos bons, ou algo assim. É Arte, mas é também ciência. E alguém entraria num laboratório cheio de ácidos e venenos e ficaria buscando por intuição uma mistura entre tais substâncias?

Aliás, a própria intuição é uma habilidade que precisa ser desenvolvida, pois a cultura dominante a bitola profundamente. Mas o mestre real numa linhagem marcial não fica se arrogando títulos ou posições. Ele ou ela, apenas já dominam o suficiente o espirito da Arte para transmitir a outros de forma sistematizada e eficiente.

Aliás, num grupo de arte marcial tradicional quando um aluno novo chega ele não começa já tendo aula com os Mestres da casa. Começa com instrutores que estão mais próximos da realidade de quem chega. Passa por um período de adaptação, um noviciado até ser iniciado formalmente na "família" como chamamos.

Isto ajuda quem chega, que encontra apoio em alguém que está mais próximo de seu estágio, que vai compreender suas dificuldades por ter recentemente passado por elas e ajuda quem faz o papel de instrutor que tem de rever todos o seu próprio aprendizado para poder ensinar com eficiência. Aprender alguma arte marcial depende totalmente de Vc, de sua dedicação, de sua força de vontade, de sua disciplina e ninguém pode te dar a técnica, podem te ensinar, ninguém pode te levar a se desenvolver, podem te mostrar como. Assim também é na Arte Mágica.

Pessoas a mais tempo na arte podem servir de instrutores, pessoas que já aprenderam nuances da Arte, a contornar suas armadilhas e que podem auxiliar no desabrochar de quem está aprendendo. Ninguém pode aprender por Vc, ninguém pode te desenvolver. Podem te auxiliar dando-lhe subsídios.

Qualquer sinal de arrogância porém, de pretensa superioridade indica apenas que temos um ego inflado, uma pessoa que incapaz de se colocar no mundo cotidiano usa da magia para satisfazer suas fantasias de prepotência e poder. Títulos pomposos, "senhor" , "senhora" , "cavaleiro" do tal grau, tudo isso é resquício de um tempo que já se foi. Senhor, domine, está ligado a um arquétipo que nada tem a ver com o paganismo, é profundamente judaico-cristão e só ocorre nas sociedades que decaíram profundamente.

A humildade de quem conhece o mistério vem naturalmente, sabe que somos nada perto da eternidade, que somos efêmeros demais, que temos um longo caminho até para nos considerarmos existentes de fato e frente a imensidão da eternidade como considerar-nos "importantes", "onipotentes"?

Eu tenho um critério pessoal para notar quem já presenciou o mistério. Quem já presenciou o mistério brinca com ele. Sim, brinca, tem uma postura leve, pois o mistério é em si tão complexo, tão avassalador em sua transcendência que a única forma de lidar com ele é de uma forma leve, tranqüila, para apaziguar o assombro que a enormidade da questão nos causa.


Já quem nunca presenciou o mistério, nunca se sensibilizou a ele, precisa de ares, de caras e bocas, de aparências, precisa "fazer" mistério para substituir a ausência do verdadeiro contato com a Eternidade.

São essas pessoas que se arrogam títulos e posições, conhecimentos que dizem secretos e ares mil a protegê-las de que percebam sua ignorância. Temos que tomar muito cuidado quando vamos avaliar as antigas culturas pagãs pois muito de sua história foi terrivelmente deturpada.

Os Incas e Astecas, por exemplo, eram povos conquistadores, como os Romanos. Eram imitadores, copiaram os ritos e a magia dos povos conquistados mas copiaram a forma sem entender a essência. Eles invadiram outros povos, escravizaram e deturparam os sagrados ritos e conhecimentos para seus próprios fins.

É um equívoco acreditar que os Incas construíram lugares como Machu Pichu. Outros povos, como os Aymarás, construíram tais lugares para eles, Incas, aliás, como já disse, Inca é a elite governante do império. Chamar de Inca a complexa cultura que se desenvolveu naquela área dos Andes é como chamar todo o povo egípcio de faraós.

Gurdjieff tem uma abordagem muito interessante desse processo. Ele diz que quando duas pessoas que estão no caminho do trabalho sobre si mesmo se encontram elas primeiro conversam e se observam longamente para descobrir quem entre as duas é a mais desperta. Esta tomará o papel de guia, ou seja alguém que pode auxiliar o despertar. Mas o aprendizado não é nunca uma rua de mão única, há sempre troca e tal troca é rica. Acontece que o ser humano está doente. Entre outras coisas, perdeu a capacidade de tomar decisões.

E aí entra a confusão quando se acredita que um (a) mestre (a) vai ser aquela pessoa que tomará todas as decisões morais e intelectuais pelo aprendiz, vai dizer o que ele deve e não deve fazer. Muito pelo contrário. Os (as) mestres (as) da arte que tive a sorte de conhecer agem de forma oposta. Criam ou te expõe a situações onde você terá que por em prática tudo o que te ensinaram e "somem" enquanto dura a prova, justamente para que Vc aprenda a ser autônomo, a tomar suas próprias decisões morais e intelectuais por si.

Pois é esse o sentido de educar: Ajudar o ser a desabrochar, a revelar seu interior. A escola tradicional nos bitolou em decorar fórmulas e regras, chegar no horário certo e obedecer o professor e muitos levam esses vícios para a vida cotidiana e pior, para o mundo mágico acreditando que magia é também decorar fórmulas, obedecer formalidades e ficar submisso a vontade de outrem.

A questão do caminho ser solitário é outro ponto que questiono. Em certo sentido ele é solitário, tudo importante na vida é solitário. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos e se nestes dois momentos mais significativos estamos sós o que não dizer em outros. Mas a existência de grupos de trabalho é possível e até mesmo recomendável. Pois trabalhar sozinho pode ser uma boa desculpa para justamente não se trabalhar, pois nada mais difícil que o convívio humano.

É muito fácil chegar em resoluções irreais quando se está só, em acreditar que atingimos tal ou qual estado, mas quando em contato com outros que nos colocam em xeque constantemente é outra coisa. Um grupo deve ser harmônico e não surge da noite para o dia. Um grupo é formado por laços de respeito e afinidade e é no buscar desses laços que muito se aprende. Todas as escolas iniciáticas consideram que o ser humano no seu estado "normal" está dormindo, robotizado, num sono hipnótico que precisa acordar. Aprender rituais não é acordar, pelo contrário, você pode dormir mais ainda sonhando com os rituais. Acordar é estar presente aqui e agora, consciente e com foco. E nisso um grupo pode te ajudar a não deixar que vc faça joguinhos, que se iluda. É muito difícil o convívio humano, é uma verdadeira arte.

E vejo aí o fato que muitas pessoas preferem o caminho solitário, para evitar o desgaste do convívio, mas aí fogem também do aprendizado. Ficar em torres de marfins, isolado de tudo e todos é fácil, mas qual o valor disso?

Só no contato efetivo com a realidade e com outras pessoas podemos ter certeza que nosso aprendizado é real e não apenas mais uma das muitas ilusões que desenvolvemos durante a vida. Para essa questão do grupo repito a frase de um mestre que muito me ensinou:

Um grupo é como bambus crescendo, crescem juntos mas cada um tem sua raiz.

Nuvem que passa

Vaidade sob a ótica do 4C - 1ª parte

terça-feira, 14 de outubro de 2014


O tema vaidade realmente é muito procedente em nosso trabalho.

Como a vaidade nos faz vulneráveis.

Tenho notado que nos sistemas religiosos dominantes as pessoas fazem as coisas para ganhar recompensas e para agradar a Deus ou a seus anjos e santos.

É todo um jogo de busca de recompensas, uma troca e um jogo de "agradar" , mera repetição de relações que já tivemos com os adultos a nossa volta.

Fomos condicionados a crer que se formos "bonzinhos" ganhamos a mesada, o doce, o presente, papai noel atende nossos pedidos, enfim, fomos condicionados a agir para agradar.

E muitos entram neste tipo de clima mesmo aqui.

Agir, responder a lista, escrever para a lista para agradar.

Agradar quem?

Alguém que insistimos em colocar como juiz em nossas vidas.

Sempre elegemos alguém fora de nós para agradarmos e aqui a questão fica complexa pois "nós" é alguém que não existe ainda.

Agir para agradar nos leva a tomarmos por base de atuação a aceitação coletiva para nossa forma de estar no mundo.

E assim ficamos terrivelmente vulneráveis as opiniões e pontos de vista dos outros a nossa volta.

A auto piedade, a piedade que o ser humano tem de si mesmo me parece a raiz de toda a vaidade.

Só quando caí na piedade de si mesmo, quando o reconhecimento do nada que somos, da efemeridade de tudo que representamos frente a Eternidade, quando esta constatação de nossa solitude fundamental e efemeridade enquanto ente singular, é mal resolvida temos o florescer da vaidade, da importância pessoal.

E a pessoa que tem a importância pessoal exacerbada pode até se matar para chamar atenção, para que "reconheçam seu valor".

Me lembro uma das palavras chaves que certa vez li.

Dizia que se não nos importamos de sermos bobos, de fazermos papel de bobos frente a todos realmente podemos nos considerar aptos para ir muito longe em direção a nossa meta.

A necessidade de assegurar nossa posição no bando, de que todos reconheçam nossa "seriedade" nos torna uma verdadeira piada.

A morte como conselheira nos permite purgar todas as bobeiras e nos deixa sóbrios para encararmos ativamente o desafio que estar vivo representa.

Gastar nossa preciosa energia para defender uma imagem falseada que temos de nós mesmos é não só anti estratégico como danoso ao caminho do despertar e da liberdade.

Acreditamos que somos unidade, que somos imortais, que temos um corpo de energia pronto e assim crendo não trabalhamos para desenvolver estes talentos.

Aqui é por pura vaidade que acreditamos já ter uma alma imortal, já sermos capazes de agir, quando tudo que fazemos é reagir, sermos capazes de sentir quando tudo que fazemos é nos emocionar e sermos capazes de pensar quando tudo que fazemos é raciocinar.

A vaidade cria teorias espantosas em ilusão e auto engano, em fórmulas prontas para manter quem dorme no sono.

O que incomoda em disciplinas como o Quarto Caminho e similares é que são implacáveis em remover toda essa fantasia.

Bem trabalhadas tais trilhas de auto conhecimento levam a constatação dura mas necessária do nada que somos e ainda assim somos maravilhas, fragmentos de estrelas que precisam recuperar seu brilho.

Temos que lembrar de nós para deixar de ser essa máquina que nos tornaram e recuperarmos a liberdade que existe em nós, trancada por preconceitos e formas limitadas de inserção na realidade.

E tudo isso só é possível se nos observamos com atenção, com serenidade, se reconhecemos factualmente em nós como nos alteramos, como reagimos a coisas sem importância, como lutamos para defender uma imagem tola que temos de nós mesmos.

Quanto mais reativa é uma pessoa a qualquer comentário que façam dela, quanto mais fica pensando e remoendo aquilo que lhe dizem, aquilo que a ameaça, mais presa é esta pessoa da vaidade.

Vaidade é algo sutil e se a considerarmos enquanto importância pessoal encontramos mesmo a base sobre a qual a falsa personalidade mantém seu domínio e se alimenta.

Não é algo simples, é mesmo uma das maiores travas no nosso caminho ao despertar.

A vaidade nos faz reagir sem raciocinar, nos faz ficar lamurientos e chatos, arrogantes e empafiados querendo a todo custo defender a imagem que fazemos de nós mesmos.

Este tipo de atitude é uma clara prisão as possibilidades que temos de ir rumo a liberdade.

Paz e Luz
Guerrero - 22/10/2000

A perfeição é a monotonia suprema

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

A perfeição é a monotonia suprema.

Um pensamento perfurou minha mente por um momento na madrugada, como uma estrela cadente, um pensamento que deriva de minha percepção antiga e pré-adolescente, como se eu fosse uma espécie de Neo, personagem de Matrix:

- Há alguma coisa terrivelmente errada com este mundo.

Mas foi mais que isto, é como se eu detivesse parte da resposta, é como se mais um pedaço do quebra-cabeças se encaixasse.

Há alguma coisa terrivelmente errada com o mundo e este erro é estrutural, vem de fábrica, como se diz, um erro de projeto. Considero isto a maior das heresias, e por ser a maior poucos humanos se atreveriam a pensar nisto porque estão envolvidos no paradigma seguinte:

Se Deus(a) existe, Ele(a) é perfeito(a).

Mas temos aí a teoria da evolução e naturalmente um Universo ou um Multiverso sujeito à evolução não é perfeito. O perfeito não evolui. Dai a briga entre criacionistas e evolucionistas.

Mas a maior das heresias pode, incrivelmente, conciliar estas duas facções.

Nietzche disse que Deus está morto. Ateus dizem que Deus não existe. Crentes acreditam piamente em Deus e em sua perfeição.

A perfeição não é a suprema monotonia?

Tradições diversas falam que existem Deuses criadores (Elohim) e o Deus supremo, que não se envolve no processo de criação dos Multiversos e que é a Fonte de Tudo.

Falamos aqui dos Deuses Criadores, Eles mesmos emanados da Fonte, Eles mesmos sujeitos à evolução, ao processo de aperfeiçoamento e, portanto, ao erro.
Portanto, um Deus criador pode errar. E se Ele pode errar, Ele pode ser responsável pelo seu erro, eis o carma dos Deuses, a chamada Lei de Katância, dentro da Gnose.

Na tradição judaico-cristã há a árvore do conhecimento do bem e do mal, só o fato desta árvore existir mostra que os Elohim, os Deuses, conhecem o mal, o erro, a doença e suas consequências. E se eles conhecem o erro o sabem por si mesmos, por experiência própria.

Eis então a heresia: os deuses erram, falham e adoecem. Mas não pensemos nisto como heresia, pensemos isto como hipótese. Se há algo de estruturalmente errado com o nosso Universo, que é apenas uma das faixas de realidade do Multiverso, onde podemos identificar a falha ou as falhas? Já ouviram falar que o nosso Universo está se expandindo a uma velocidade cada vez maior, num ritmo cada vez mais acelerado? Isto faz sentido dentro das leis conhecidas da Física? Não.

Foi dito pelo rabi Jesus que a árvore se conhece pelos seus frutos.

Quais são os frutos das religiões como o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo? A História nos mostra.

Quem é o autor divino destas religiões? Certamente o Deus bíblico.

Qual é a reputação atual dos evangélicos especialmente dentro do campo político e do respeito a outras tradições? Eis os frutos.

E se o Deus criador deste Universo estiver doente e este Universo criado for o fruto de sua doença?

Mas não vamos nos eximir de nossa responsabilidade nesta situação toda, pois pode ser que não seja Deus que irá nos salvar, antes nós mesmos teremos que o fazê-lo e assim redimir o Deus criador.

Pai, afasta de mim este cálice...

Na tradição hindu a trindade é formada por:

Brahma, Vishnu e Shiva.

Brahma é o criador. Já se perguntaram por que existe Shiva com a função de destruidor?

Quem começa uma obra, supostamente perfeita, em parceria com uma empresa de demolição?

Fica a questão para a reflexão.

Sexualidade e Budismo

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Ao redor de todo o mundo, especialmente no mundo ocidental, o Budismo está entre as religiões que mais conquistam adeptos e simpatizantes. Seu grande embaixador é o Dalai Lama, admirado e respeitado por causa de sua sabedoria e seu carisma, sua forma clara de expor os princípios do ensinamento budista e sua abertura para o diálogo com a ciência e outras formas religiosas.

Mas o Budismo é uma tradição espiritual bastante complexa, que não trata apenas de meditação, mantras, rosários e compaixão. Além destes elementos mais populares, ele oferece práticas que podem conduzir a níveis bastante elevados de iluminação e vacuidade. Entre estas práticas, há técnicas tântricas que empregam o sexo como uma poderosa ferramenta de elevação espiritual.

A mentalidade ocidental encontra certa dificuldade para compreender como o sexo pode se tornar um caminho de desenvolvimento espiritual. O entendimento parcial da tradição cristã sugere que o corpo é a porta de entrada do pecado, e que o sexo deve servir apenas para fins de procriação.

Contudo, isso não impediu que certos ensinamentos orientais – incluindo budistas – sobre a sexualidade sejam tratados de maneira licenciosa no ocidente, como uma ferramenta capaz de atrair o sucesso financeiro ou um treinamento que promete transformar o indivíduo num atleta ninfomaníaco.

Há muitos budistas que por diversos motivos ainda não se aprofundaram nos chamados Três Giros da Roda do Dharma, o que significa dizer que também acharão estranho à primeira vista que o próprio ato sexual, quando realizado sob certas condições, possa ser considerado um elemento mais avançado da busca pela realização da vacuidade.

Os ensinamentos de Buda são tão vastos e foram entregues em um intervalo tão grande de tempo, que costumam ser divididos de acordo com o momento em que foram transmitidos. Estes momentos são agrupados em três, os tais Três Giros mencionados acima, em que os princípios do ensinamento budista são explicados em diferentes níveis de profundidade, para que sirvam às também diferentes necessidades de todos os seres humanos.

Mesmo assim, o Budismo Tibetano, que é representado pelo Dalai Lama, considera que a compreensão da doutrina como um todo depende do conhecimento dos chamados Veículos ou métodos de prática espiritual realizados pelas diferentes escolas budistas. Em uma das classificações existentes, estes veículos são conhecidos como Hinayana, Mahayana e Tantrayana.

De alguma forma, os Três Giros e os Três Veículos possuem correspondência. O primeiro veículo, Hinayana, compreende sutras ou ensinamentos bastante objetivos e que devem ser realizados de maneira literal. O segundo veículo, o Mahayana, mostra que os mesmos sutras podem ser interpretados em diversos níveis de profundidade.

Já o terceiro veículo, o Tantrayana, está relacionado a diferentes meios de potencializar, ampliar e catalisar a sabedoria que conduz à vacuidade. E isso se realiza mediante diversas práticas, entre as quais o karmamudra, a união sexual em que os consortes buscam fechar hermeticamente suas mentes e seus corpos, permitindo concentrar as múltiplas expressões da energia sexual e usá-la para o desenvolvimento espiritual.

Portanto, é dentro deste último veículo, o Tantrayana, que podem ser encontrados ensinamentos diretos e práticos sobre como a sexualidade pode ser um caminho de desenvolvimento das faculdades espirituais. Tais ensinamentos são similares ao que propõe Samael Aun Weor, quando apresenta os fundamentos do Nascimento Espiritual, o segundo dos Três Fatores de Revolução da Consciência.

Samael Aun Weor propõe que a ideia do sexo como via de iluminação não é um ensinamento novo, mas constitui um dos fundamentos de todas as formas religiosas. Ele afirma que a sexualidade sagrada faz parte daquela classe de ensinamentos mais avançados e mais reservados das grandes tradições espirituais, e se isso é verdadeiro em relação ao Budismo, certamente o Dalai Lama deveria possuir algum conhecimento a este respeito.

E de fato ele possui, como atestam as suas próprias palavras:
“Para os budistas, o ato sexual pode ser utilizado no caminho espiritual porque pode causar uma centralização poderosa na consciência se o praticante possui compaixão e sabedoria consistentes. O propósito desta utilização é a manifestação prolongada de níveis mentais mais profundos, de modo que seu poder possa ser usado no fortalecimento da realização da vacuidade.” (How to Practice, Way to a Meaningful Life, His Holiness the Dalai Lama, Translated by Jeffrey Hopkins)
A manifestação prolongada de níveis mentais mais profundos corresponde exatamente ao sentido da palavra Tantra, que significa continuidade. Os diferentes tratados tântricos afirmam que Tantra significa a continuidade da consciência que permite a realização de melhoramentos mentais e a experimentação de realizações mais profundas.

Além disso, esta continuidade da consciência é o que permite alcançar o estado definitivo da onisciência. Neste momento, esta continuidade está sempre presente, e este é também um dos significados do Tantra.

Devido ao apelo que exerce em toda a natureza e no ser humano, o sexo é o grande elemento de distração da consciência. Manter a continuidade da consciência em meio à estimulação sexual serve como elemento capaz de potencializar este contínuo e catalisar o surgimento da onisciência.

O praticante da sexualidade tântrica não procura simplesmente a extensão de sua capacidade de sentir prazer, mas sim utilizar o potencial de distração do erotismo como arena para o desenvolvimento completo de sua consciência contínua. É mais ou menos isso o que o Dalai Lama explica no parágrafo seguinte:
“Não sendo desta maneira, o ato sexual ordinário e convencional não possui qualquer relação com o cultivo da espiritualidade. Quando uma pessoa atingiu um nível alto na prática da meditação e da sabedoria, então nem mesmo a junção dos dois órgãos sexuais, o chamado intercurso sexual, é capaz de prejudicar a manutenção de seu comportamento puro…” (How to Practice, Way to a Meaningful Life, His Holiness the Dalai Lama, Translated by Jeffrey Hopkins)

É interessante notar que uma das autoridades máximas do Budismo Tibetano afirma indiretamente que a sexualidade pode ser um grande obstáculo para as práticas iniciais da tradição budista compreendidas no Primeiro Giro da Roda do Dharma, o qual compreende os princípios básicos para o desenvolvimento da Ética e da Moralidade, bases para o cultivo da concentração e da sabedoria.
Se a princípio o ensinamento budista referente ao sexo pode ser sintetizado na abstenção de condutas sexuais equivocadas, preceito que faz parte da Ação Reta, que é o quarto item da Nobre Senda Óctupla, capaz de levar à extinção do sofrimento, a quarta das Nobres Verdades, nos demais Giros da Roda do Dharma ele passa a assumir grande importância.

Contudo, é preciso que antes o praticante tenha sido capaz de levar adiante uma mudança prática de paradigma em relação à sexualidade. Para que essa mudança ocorra, o Budismo oferece a instrução de uma vida sexual que não produza consequências contaminadas por atitudes negativas, mas em seguida destaca a importância do celibato para os monges que assumem votos visando ao aprofundamento de sua prática.

É neste momento que os adeptos experimentam a continência das energias e dos fluidos sexuais, preparando seu corpo e sua mente para as práticas mais avançadas oferecidas pelo Tantrayana. O Dalai Lama continua destacando os benefícios do emprego da sexualidade na prática espiritual:

“Através de técnicas especiais de concentração durante o sexo, praticantes competentes podem prolongar estados muito profundos, sutis e poderosos, e colocá-los a serviço da realização da vacuidade. Contudo, se você vai ao ato sexual dentro do mesmo contexto mental ordinário, não existe nenhum benefício.” (How to Practice, Way to a Meaningful Life, His Holiness the Dalai Lama, Translated by Jeffrey Hopkins)

Sua Santidade insiste na diferenciação entre o ato sexual ordinário e comum, realizado por pessoas que não possuem os conhecimentos a respeito da natureza do corpo, da emoção, da mente e dos propósitos da alma nesta existência, e o ato realizado por indivíduos instruídos nos Três Giros da Roda do Dharma. Abaixo ele chega a indicar a condição primária para que o ato sexual possa servir como instrumento de elevação espiritual:

“Ainda que eu esteja usando o termo comum clímax sexual, ele não corresponde ao ato sexual ordinário. A referência aqui é à experiência do estabelecimento da união com um consorte do sexo oposto, através do qual os elementos da coroa são derretidos, e através do processo de meditação o processo ainda é revertido. Um pressuposto desta prática é que você deveria ser capaz de se proteger do erro da emissão seminal.” (A Survey of the Paths of Tibetan Buddhism, A teaching given in London, 1988. Translated by Geshe Thupten Jinpa and edited by Jeremy Russell. It was originally published in Chö-Yang (No.5) which was a magazine published by the Department of Religion and Culture of the Central Tibetan Administration, Dharamsala.)

Fica claro que para alcançar os objetivos que o Tantrayana propõe, o ato sexual é necessário e a continência seminal é um elemento indispensável. Sob a ótica desta antiga tradição, e mediante uma compreensão mais abrangente que engloba ensinamentos de outras correntes, os fluidos sexuais e suas contrapartes são produzidos no alto da cabeça, quer seja pelo comando das glândulas localizadas nesta região, quer seja pelo chakra coronário, ou ainda, na linguagem do cristianismo esotérico, pela interferência do Espírito Santo.

Uma vez produzidos nas alturas do organismo, os chamados fluidos regenerativos e seus análogos energéticos atravessam o organismo conferindo vitalidade e sendo transformados nas demais energias, como o pensamento e o sentimento. Ao fim, são acumulados nos depósitos orgânicos e energéticos.

A retenção e a manipulação destes fluidos são o que distingue o ato sexual convencional do coito que visa à transcendência. Esta diferença é explicada em maiores detalhes pelo Dalai Lama:
“Existe uma grande diferença entre o movimento dos fluidos regenerativos no caso de dois indivíduos que realizam um ato sexual ordinário e o movimento no caso de um iogue e uma ioguina que realizam o intercurso sexual… No início, a diferença majoritária entre os dois tipos de ato sexual está no controle do fluxo dos fluidos regenerativos. Os praticantes do Tantra devem ter controle sobre o fluxo de seus fluidos, e aqueles que possuem grande experiência são capazes de reverter a direção deste fluxo, mesmo quando ele tenha atingido a extremidade dos genitais. Os praticantes menos experientes devem reverter a direção do fluxo em um ponto anterior. Se os fluidos descerem demais, será mais difícil de controlá-los.” (Sleeping, Dreaming, and Dying, by The Dalai Lama, 1997, Wisdom Publications)

Algumas pessoas poderiam interpretar tais orientações como sendo direcionadas apenas ao composto energético de cada indivíduo. Apesar da clareza com que Sua Santidade aborda a questão, poderia ser insistido que se trata de uma concepção meramente simbólica, sem conotação física, o que acaba se provando falso mediante as seguintes observações:

“Na verdade, [..] o órgão sexual é utilizado, mas o movimento da energia que está presente é, no final das contas, totalmente controlado. A energia não deveria nunca ser liberada. Esta energia deve ser controlada e finalmente redirecionada a outras partes do corpo. E aqui é possível observar a existência de um tipo de conexão especial com o celibato.” (Quoted from “The Good Heart,” H.H. the Dalai Lama)

De qualquer maneira, o conjunto de ensinamentos budistas apresenta esta submissão dos fluidos sexuais ao poder da vontade como uma alternativa espiritual somente aos indivíduos que possuem preparo adequado. No que diz respeito aos leigos que praticam os ensinamentos expressos pelo Primeiro Giro da Roda do Dharma, o Dalai Lama não opina se devem ou não submeter seus fluidos à continência.

Existem inúmeras passagens do próprio líder budista que sugerem ser as práticas sexuais ritualísticas do Tantrayana reservadas apenas aos indivíduos que já avançaram nos aspectos do controle da mente e da capacidade de selar seu organismo, o que significa haver conseguido certa habilidade na retenção seminal.

“A capacidade de entrar em contato sexual sem liberar o sêmen é algo necessário quando você pratica os estágios avançados do estágio da perfeição.” – The 14th Dalai Lama (Berzin Archives)

Certamente, parece ser adequado aos praticantes dos ensinamentos de Buda segundo a estrutura do Budismo e inseridos em uma Sangha budista, que sigam tais orientações. Isso significa dizer que, no paradigma budista iniciado há mais de dois milênios, a retenção seminal só tem sentido quando existe comprometimento com o avanço na compreensão dos ensinamentos do Segundo e do Terceiro Giro da Roda do Dharma.

Em se tratando do Gnosticismo Contemporâneo, as coisas mudam de figura. A proposta lançada por Samael Aun Weor pode ser entendida como uma Doutrina da Síntese, que expõe de maneira bastante clara os ensinamentos mais avançados das tradições espirituais de todos os tempos numa linguagem mais simples e objetiva.

Isso porque esta proposta está configurada de uma maneira diferente, trazendo os ensinamentos reservados e mais avançados das antigas tradições espirituais para fora de suas estruturas didáticas e pedagógicas, assim facilitando uma prática mais individual de tais elementos doutrinários, permitindo ao indivíduo a vivência gnóstica destes ensinamentos.

Não pretende o Gnosticismo Contemporâneo ser um caminho melhor que os demais, mas uma exposição de certos princípios que mostram claramente que todos os caminhos levam ao mesmo lugar e, portanto, são o mesmo caminho, mesmo que as guias que os definam sejam mais retas ou tortas, amplas ou estreitas. Enfim, a Gnosis não é um caminho diferente, mas a própria caminhada que se realiza através de todos eles.

http://www.sgi.org.br/budismo/o-dalai-lama-e-a-sexualidade-sagrada/

Nostalgia

Há um nostalgia na espiritualidade, um sentimento que atinge todo o buscador, uma saudade indizível que o faz caminhar na direção de seu próprio ser, na direção da totalidade de si mesmo, a despeito de tudo e por causa de tudo.

Nada pode aplacar esta nostalgia pois ela é mais forte do que tudo, pois é a lembrança intermitente de um tempo sem tempo, onde a essência se revelava plena. Ela parece uma sombra de angústia no rosto do buscador, mas não é.

O desejo de morrer entendido como desejo de transformação pessoal é a marca desta nostalgia.

"Um guerreiro não pode mais chorar, e a sua única expressão de angústia é um tremor que vem das próprias profundezas do universo. É como se uma das emanações da Águia fosse feita de pura angústia, e quando ela atinge o guerreiro, o tremor do guerreiro é infinito" - Roda do Tempo, de Carlos Castaneda.