Filtros da realidade

terça-feira, 24 de março de 2015

Nossos “eus” filtram a realidade em nossa volta.

Alguns “eus” são muito difíceis de observar, devido ao poder hipnótico que exercem sobre nós.

Cada “eu” forma um pequeno mundo momentâneo no qual penetramos quando nos identificamos com ele.

Cada “eu” forma um pequeno mundo momentâneo no qual penetramos quando nos identificamos com ele.

Cada “eu” forma um pequeno mundo momentâneo no qual penetramos quando nos identificamos com ele.

Alguns dos egos que estão em nós são muito perigosos e nunca deveríamos permitir que falassem por nosso intermédio ou que se denominassem “Eu”. Contudo, isso é fácil de dizer e muito difícil de fazer. Uns são “eus” receosos, sua ação consiste em transformar as coisas ou, mais bem conectá-las de outro modo. Estão representados no Centro Intelectual de um modo muito sutil. Transpõem os fatos para que se conformem com sua teoria principal, isto é, com a natureza de sua suspeita.

Sua atividade, e de fato, o deleite desses “eus”, radica em diferentes formas de fala mecânica. Tente observar-se quando está caluniando, tanto mentalmente como em palavra, e trate de entender que são certos “eus” em você, os que fazem isso, reparemos no que dizem e no que lhes produz prazer e como costumam aflorar em nós e entrar em atividade, dependendo da situação e predominância de determinado centro.

Entender que não há necessidade de acompanhar a esses diversos “eus” habituais é a aurora de uma nova vida.

É o começo da compreensão do que significa o trabalho pessoal.

É necessário estar observando, nós mesmos, para perceber os “eus” da preocupação, os “eus” que gostam de complicar e fazer tudo difícil, os “eus” sensacionalistas, os “eus” que gostam de estar doentes e atraem a doença, os “eus” que adoram se fazer de vítima.

Os “eus” estão especializados, os eus mais ou menos similares formam grupos, e estes costumam formar “personalidades” dentro da personalidade geral. Um simples “eu”, pode chamar uma legião de outros “eus” por associações automáticas redirecionando a energia dos centros para a execução de determinado condicionamento onde a consciência não participa.

A detenção dos pensamentos e o relaxamento, cuja prática cotidiana é tão importante, é uma forma de auto-recordação. A auto-observação sem a auto-recordação é simplesmente uma prática sem valor. Quando estamos identificados com nossos pensamentos, sentimentos, emoções, com nossos monólogos interiores, com nossas auto-justificativas, etc., estamos impossibilitados de recordar-nos a nós mesmos. Estamos no meio do ruído, no meio da multidão. Um ato de auto-recordação é a tentativa de fazer-nos regressar ao interior de nós mesmos, ao nosso verdadeiro centro de gravidade.

Flávio

Simulacron 3 - Livro de base de 13º andar

domingo, 15 de março de 2015

Você ainda lê livros?

SIMULACRON – 3 (Livro que deu origem à 13º andar e uma das fontes de inspiração de Matrix), escrito em 1963.

O brilhante disco lunar rebrilhava por trás do plexidomo do carro, realçando as
curvas da bela moça sentada ao pé de Doug Hall. Ele sabia que aquele mundo do
seu SIMULACRON-3 estava à beira da desordem. Perguntou a ela:

- Jinx, que é que há com você?

Ela chegou-se mais e encostou a cabeça no ombro dele

- A vida tem tanta coisa, não é mesmo, Doug?

E quando ela adormeceu, as lágrimas rolavam-lhe lentamente pela face. Hall
engrenou o automático e pôs o braço em volta da moça. Devagar lá se foram ladeira acima, em direção ao desconhecido lado de lá do morro. Um frio arrepio de terror assaltou Hall. Freou com violência. A estrada acabava, subitamente, a cem metros de distância! Acabava, mesmo. E de cada lado da pista terra caía, ela própria acabava também na escuridão impenetrável do nada... Nem estrelas, nem Lua no espaço escuro; apenas o nada, o nada que só se encontra para além do infinito mais negro...

http://minhateca.com.br/celiogcruz/Livros/pdf/Daniel_F._Galouye_-_SIMULACRON-3,14058351.pdf

Simulacron-3 de Daniel F. Galouye - http://www.rederpg.com.br/wp/2011/09/arquivo-rederpg-simulacron-3-resenha/

Após alguns fatos estranhos, um especialista em computação começa a sentir que o mundo ao seu redor não é bem o que parece ser, ao mesmo tempo que uma mulher misteriosa parece saber bem mais do que aparenta… até que suas investigações desvendam uma verdade terrivel sobre a realidade em que vive…
A Trilogia “Matrix”? Ou uma historia de Philip K. Dick?

Nenhum dos dois. É “SIMULACRON-3″, escrito por Daniel F. Galouye em 1963 e que inspirou o filme “O Décimo-Terceiro Andar” – uma história clássica, muito a frente de seu tempo, sobre Realidade Virtual e Questionamentos Filosoficos sobre a Natureza da Realidade bem antes de Matrix), escrito quando as técnicas de simulação por computador apenas engatinhavam…

Em “SIMULACRON-3″, a sociedade da decada de 2030 não quer correr riscos de nenhum tipo, por isso empresas, instituções e governos baseam suas politicas em pesquisas de opinião publica – simplesmente não se atrevem a decidir qualquer coisa em saber como as pessoas poderão reagir… E esse fato dá um grande poder aos Institutos de Pesquisa e para a Associação de Monitores de Reação, para o desespero para população que não aguenta mais esses perguntadores implacaveis em cada esquina! Mas talvez haja uma solução: os especialistas em computação Hannon J. Fuller e Doug Hall criam Simulacron-3, um simulador que gera uma versão virtual perfeita da comunidade em que vivem, completa até o ultimo detalhe, incluindo os elementos individuais de sua população – pessoas virtuais (unidades reativas, no jargão do livro) que pensam e reagem como pessoas do mundo real, sem saber que vivem em um mundo virtual – que são apenas dados em um computador. Esse sistema promete revolucionar o estudo das relações humanas e mudar a cara da sociedade, ao mesmo tempo que pode predizer a reação da população melhor que as lentas pesquisas de opinião publica… isto é, se Hall puder impedir que seu patrão, Horace P. Siskin use o sistema para seus próprios propositos…

Mas parece que alguém ou alguma coisa *não* quer que Simulacron-3 entre em funcionamento…

A trama começa quando Hall, em uma festa de Siskin para promover o sistema Simulacron-3, vê seu colega de trabalho, Morton Lynch, simplesmente sumir de um momento para o outro diante de seu nariz, logo depois de dizer que a morte de Fuller, o criador de Simulacron-3, *não* foi um acidente e que ele tinha feito uma “descoberta basica” sobre a realidade em que viviam… e agora ninguém mais se lembra dele… alias, para os outros, nunca *existiu* um Morton Lynch… o que está acontecendo? Será que alguém fez Lynch desaparecer… ou será que ele é apenas um fragmento da imaginação de Hall? Não ajuda o fato dele estar tendo ataques de mal estar e amnesia…

Só que as coisas começam a ficar complicadas: uma pista que Fuller teria deixado, um desenho de Aquiles e uma tartaruga, desaparece bem na frente de seu nariz… um acidente de carro misterioso… um pesquisador de opinião publica que do nada diz para Hall esquecer daquele assunto… as estranhas reações de Jinx Fuller, a filha de seu falecido amigo e mentor, por quem começa a se interessar… Cada vez mais curioso e intrigado, Hall começa a investigar o que seria a “descoberta basica” de Fuller, tendo que enfrentar várias portas sendo fechadas e pistas falsas, que conduzem a um clima de paranoia e duvida que deixaria Philip K. Dick orgulhoso.

Será que Hall está sofrendo de pseudoparanoia devido a natureza de seu trabalho com Simulacron-3, como seu colega de trabalho Avery Collingsworth suspeita, ou será que ele realmente é, assim como seu mundo, uma simulação em um simulador muito maior, como afirma Phil Ashton, uma unidade reativa que *sabe* que é uma ficção criada para o funcionamento de Simulacron-3, e que quer ser apagado or ir para o Mundo Real, em que Hall vive? Será que a integridade de sua mente está se acabando, ou seu mundo está sofrendo as interferências de uma entidade bem mais poderosa? Se suas suspeitas estiverem corretas, quem seria a Unidade de Contato, o espião da Realidade Suprema, em seu mundo? Siskin? Seu colega Whitney? Sua nova secretária Dorothy Ford? Jinx Fuller? *Quem?*

E mesmo que consiga encontra-la (se é que ela existe!), o que ele, uma sombra digital – e sem os poderes de um Neo, de “Matrix”, -poderá fazer contra o maior oponente possivel dele e de seu mundo, o onipotente e megalomaniaco Operador da Realidade Suprema…?

Isso se tudo não for apenas loucura sua…

“SIMULACRON-3″ é um daqueles raros livros, com seu estilo direto e simples, que você pode ler da várias maneiras: uma excelente história que mescla ficção cientifica e mistério, um questionamento da realidade e de como nós a encaramos, a busca para atingir uma verdade mais elevada… Jogando Berkeley contra Descartes, “SIMULACRON-3″ faz com que ao final olhemos em volta e imaginemos: o nosso mundo é real? *Você* é real?

Aí você ri e pensa que é claro que você é real…

Mas você pode ter *certeza* disso?

Pense sobre isso…

Jocimar Oliani
Cedido à REDE RPG

A sujeira na unha do pé de Buda

Meditação é o paraíso do presente. Se a mente está no presente não percebemos a mente ordinária, sentimos uma outra mente, a mente de Buda, a mente iluminada. A antevisão dessa outra mente causa um temor estranho na mente ordinária. A meditação é a entrada na mente verdadeira do ser humano. A meditação é o acesso à natureza real e divina do homem. Na meditação estamos focados no agora, no presente, não oscilamos nem para o futuro, nem para o passado, importa apenas este momento, o agora, o presente, a ocupação real. Não há futuro, nem preocupação. Não há passado, nem pós-ocupação.

Ocupação de verdade só é possível no presente. Todas as outras ocupações fora do presente não são ocupações reais, são fantasias da mente fragmentada no passado ou no futuro, são atos mecânicos. Em meditação há apenas ocupação do ser. Há apenas foco no agora. Não há passado ressentido, nem futuro ansioso. Há apenas ISTO, o presente, a Vida pulsante, a respiração e tudo o que está acontecendo neste preciso e desprendido momento.


Meditação – ocupação, agora, presente, realidade, paraíso, foco, postura, elegância, calma, agilidade sem pressa. O pensamento assemelha-se a um rio caudaloso e sereno ou a um lago que parece o espelho do céu.

Distração – quase sempre estamos distraídos com pensamentos que nos levam ao passado ou ao futuro. Há falatório interior, há turbulência dispersiva na mente. O fluxo dual do diálogo interior incessante e obsessivo opera entre passado e futuro em ondas emocionais negativas.

Passado: ressentimento, mágoa, saudade que dói, apego, raiva, culpa.

Futuro: expectativa ansiosa, planejamento excessivo, preocupação incessante, tentativa de controle do que não pode ser controlado.

Na meditação somos um, somos inteiros.

Na distração somos muitos, somos legião, somos dispersos.

Simbolicamente, na meditação somos como os santos, pois a aureola dos santos é um símbolo da integração com o divino, com a totalidade.

Por analogia de contrários, na dispersão mental feita de um diálogo interno incessante somos demônios, torturados pela dualidade dos chifres, símbolo da dicotomia da mente que alterna entre passado e futuro.

É claro que isso é apenas uma metáfora. A meditação transcende o santo e o profano, categorias próprias de uma teologia não iluminada. Aliás, só há teologias não iluminadas, pois a meditação, a iluminação é a sua própria teologia, o conhecimento da divindade em nós mesmos de forma direta, a realização da enteogenia do próprio homem.

Teologias e escritos sagrados são, como dizem os mestres zen, dedos apontando para a Lua.

Esse texto é apenas a sujeira na unha do pé de Buda.

O décimo terceiro andar (filme)

Eis outra fonte preciosa do filme Matrix, basta ver o iniciozinho do filme, quando do final da apresentação, com as indicações de ator e os créditos relativos ao filme, surge onde o filme se baseou, num livro, cujo título é Simulacron 3, de Daniel Galouye.

O título do livro foi traduzido como "Falsificação do Mundo". Tal livro, que é de 1963, é um dos primeiros a fazer literatura sobre realidade virtual.

Ora, Simulacro e Simulação é o nome do livro de fundo falso onde Neo guardava os programas que "traficava". A cor verde-claro que a máquina de "sonhar" ou simulador, mostrada no 13th floor, gera é outro elemento muito usado em Matrix. Detalhe, o filme foi lançado um ano depois de Cidade das Sombras e no mesmo ano de Matrix. Um filme de ficção que vale a pena ver para quem curtiu Matrix como algo mais do que um mero filme.

Baixe o filme pelo Torrent AQUI.


seta3.gif (99 bytes) Ficha Técnica
Título Original: The Thirteenth Floor
Gênero: Ficção Científica
Tempo de Duração: 125 minutos
Ano de Lançamento (EUA):
1999
Site Oficial: www.the13thfloor.com
Estúdio: Centropolis Film Productions
Distribuição: Columbia Pictures / Sony Entertainment Pictures
Direção: Josef Rusnak
Roteiro: Josef Rusnak e Ravel Ceteno-Rodriguez, baseado em livro de Daniel F. Galouye
Produção: Roland Emmerich, Ute Emmerich e Marco Weber
Música: Harald Kloser
Direção de Fotografia: Wedigo von Schultzendorff
Desenho de Produção: Kirk M. Petrucelli
Direção de Arte: Frank Bollinger e Barry Chusid
Figurino: Joseph A. Porro
Edição: Henry Richardson
Efeitos Especiais: MagicMove / Centropolis Effects


seta3.gif (99 bytes) Elenco
Craig Bierko (Douglas Hall/John Ferguson/David)
Armin Mueller-Stahl (Hannon Fuller/Grierson)
Gretchen Mol (Jane Fuller/Natasha Molinaro)
Vincent D'Onofrio (Whitney/Ashton)
Dennis Haysbert (Detetive Larry McBain)
Steve Schub (Zev Bernstein)
Jeremy Roberts (Tom Jones)
Alison Lohman


seta3.gif (99 bytes) Sinopse
Douglas Hall e seu sócio, Hannon Fuller, dois pesquisadores da área de informática, estão prestes a colher resultados positivos em seu último projeto: desenvolver um mundo simulado utilizando realidade virtual. Porém, Fuller é misteriosamente assassinado, antes de passar informações importantes sobre o projeto para Douglas, que agora é o principal suspeito de ter efetuado o crime. Desorientado e em busca da verdade em torno dos acontecimentos, Douglas decide por entrar no mundo simulado para investigar a morte de Fuller.



Seja seu próprio terapeuta

sábado, 14 de março de 2015

Interessante entrevista com a monja budista Robina Courtin que com uma fala rápida e uma inteligência afiada corta rapidamente nossas ilusões a respeito de uma visão de mundo que perdura no sofrimento, na neurose e na culpa.



A Venerável Robina Courtin, ou Ven. Rob., é uma professora do dharma que o transmite de forma dinâmica e franca. Desde a sua ordenação no final de 1970, a ex-cantora australiana tem trabalhado em tempo integral com a "Fundação pela Preservação da Tradição Mahayana" de Lama Thubten Yeshe e Lama Zopa Rinpoche. Ela atuou como diretora editorial da Wisdom Publications, editora da Mandala Magazine, e diretora-executiva do Liberation Prison Project. E viaja incansavelmente para ensinar o dharma ao redor do mundo. Sua vida e trabalho com os presos foi destaque nos documentários Chasing Buddha e Key to Freedom.

Ela é descrita como engraçada, dinâmica, carinhosa, amável e ultrajante, com sua fala freqüentemente pontilhada com palavras fortes. Tudo isso, falando a mil por hora, provando que você não necessariamente tem que ser sereno e passivo para ser budista. Ven. Robina diz: "Eu estou trabalhando radicalmente na minha própria mente. Não acreditando na forma como as coisas aparecem para nós: Você não consegue ser mais radical do que isso. Eu quero olhar para o componente interno, e não o externo. Quero desenraizar as causas de todo o sofrimento, que são mentais. Quanto a isso, estou mais radical do que nunca, mais radical do que quando era ativista feminista ou brigava pelo meu ideal político quando jovem."

A natureza do poder pessoal mascarada

sexta-feira, 13 de março de 2015

Acreditar em algo pode ser tão ou mais forte que este mesmo algo, mesmo sendo este algo uma substância neuro-ativa. Pelo poder da mente podemos criar uma determinada realidade em nosso cérebro.

"Nosso grupo de pesquisa começou a mostrar que as crenças são uma influência física tão poderosa sobre o cérebro quanto as drogas neuroativas,..."

Precisamos refletir profundamente no poder por trás da crença.

Além do placebo - http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=placebo-psicologico&id=10426&nl=nlds

O efeito placebo é bem conhecido e documentado, mas parece que esse mecanismo pode ser muito mais forte do que se acreditava.

O novo fenômeno - uma espécie de placebo psicológico - foi documentado quando Read Montague e seus colegas da Universidade da Virgínia (EUA) pediram que grupos de voluntários experimentassem dois cigarros que, sem que os voluntários soubessem, eram idênticos - eles não tinham nicotina.

Os participantes inalaram os dois cigarros, mas a atividade cerebral do grupo que foi levado a pensar que o cigarro tinha nicotina foi significativamente diferente.

"Nosso grupo de pesquisa começou a mostrar que as crenças são uma influência física tão poderosa sobre o cérebro quanto as drogas neuroativas," disse Montague.

Enganando a fisiologia do cérebro

A nicotina tem efeitos em todo o cérebro, especialmente nas chamadas "rotas de recompensa". Uma vez que o cérebro tenha aprendido a correlação entre a substância e a sensação, o ciclo de dependência química torna-se difícil de quebrar.

Descoberto como nicotina de cigarros alivia ansiedade de fumantes
Usando exames de ressonância magnética funcional, os pesquisadores conseguiram ver os sinais neurais gerados com base apenas na crença dos voluntários de que estavam ingerindo a substância - as rotas neurais foram ativadas como se eles estivessem realmente inalando a nicotina.

A equipe também constatou que os voluntários que acreditavam ter fumado nicotina apresentaram uma atividade significativamente maior em suas rotas de recompensa. Aqueles que acreditavam - com razão - estar fumando um cigarro sem nicotina, não apresentaram os mesmos sinais.

"Foi apenas a crença que modulou sozinha a atividade no percurso de aprendizagem," disse Montague. "Isso vai além do efeito placebo."

http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=placebo-psicologico&id=10426&nl=nlds

Conceito e Realidade

quarta-feira, 11 de março de 2015

Quem ou o quê pode garantir que conceito e realidade são absolutamente iguais?

O conceito é uma coisa e a realidade é outra e existe a tendência de superestimar nossos próprios conceitos.

É interessante como vivemos numa civilização que acredita que rotular é entender. Basta dar um conceito para algo e passamos a lidar com este algo como se o conhecêssemos.

Veja por exemplo o elétron, um dos maiores mistérios da física. É algo complexo, dual, antagônico e paradoxal. Toda vez que vejo alguém questionando algo por ser paradoxal sempre me lembro que uma das estruturas fundamentais da realidade é em si pleno paradoxo. Mas aí se dá o conceito e pronto, usamos o termo elétron como se o compreendêssemos.

Creio que isto é interessante. Rotular, conceituar algo pode nos ajudar, mostra que há algo lá, mas não nos revela, ao contrário, muitas vezes nos afasta da realidade que queremos encontrar.

A um processo psicológico qualquer, corretamente estruturado mediante uma lógica exata, opõe-se outro diferente, rigidamente formado com lógica similar ou superior; e então?

Duas mentes severamente disciplinadas dentro de férreas estruturas intelectuais, discutindo entre si, polemizando sobre tal ou qual realidade, crêem, cada uma, na exatidão de seu próprio conceito e na falsidade do conceito alheio; mas, qual delas tem a razão?

Interessante como apesar de tudo ainda estamos presos à concepção, eu chamaria de jesuítica, do confronto. Um quer demonstrar que a idéia do outro está errada. Será que vamos sempre limitar toda troca de informações nisso? Em converter? Será que ninguém se aproxima de um debate com uma proposta muito mais ampla e sensata, a meu ver, que é uma troca de informações, uma troca de pontos de vista, considerando que cada um pode permanecer com suas próprias concepções?

Quem poderia, honestamente, inclinar-se por um ou outro dos polemizadores? Como poderíamos, honestamente, garantir um ou outro lado? Em qual deles conceito e realidade são iguais?

Se o conceito é uma elaboração mental creio que o conceito nunca vai ser igual a realidade, ele é sempre uma aproximação, um falar sobre, um indicar algo.

Indiscutivelmente, cada cabeça é um mundo e em todos e em cada um de nós existe uma espécie de dogmatismo pontifício e ditatorial que quer nos fazer crer na igualdade absoluta de conceito e realidade.

Desfazer esse equívoco e perceber que o conceito alude a realidade mas não é a realidade e, mais, não pode ser a realidade, parece uma proposta comum a muitas linhagens.

Tudo que temos é uma descrição da realidade, criada por conjunturas históricas, adequadas a esse tempo e lugar no qual estamos. Cada época tem uma forma de lidar com a realidade.

Abrir-se ao novo é a difícil facilidade do clássico.

Infelizmente, as pessoas querem descobrir, ver em todo fenômeno natural seus próprios dogmas/pré-julgamentos, conceitos, preconceitos, opiniões e teorias; ninguém sabe ser receptivo, ver o novo com mente limpa e espontânea.

Creio que aqui há o desejo de continuidade e o medo que todo novo traz consigo pois ameaça o frágil edifício da personalidade que domina as pessoas. Mudar é sempre morrer um pouco e como teme a morte a personalidade que sabe ter seu poder apenas na ilusão da permanência, mantida através da construção de uma falsa continuidade, conceitual, pois na realidade nada há que a apóie. O que é a personalidade, ou ego, em última instância? Um conceito que tenta fazer-se real. Assim nota-se que vai procurar desesperadamente "provar" que o conceito é real, para provar-se a si mesma como existente, quando mais não é que conceito, descrição, resultante inexistente em si.

Que os fenômenos falassem ao sábio seria o indicado. Desafortunadamente, os sábios desses tempos não sabem escutar, não sabem ver os fenômenos, só querem ver nos mesmos a confirmação de todos os seus preconceitos.

Poderíamos mudar o termo sábio aqui, só para garantir um cuidado com os termos, este tempo tem seus sábios, que obviamente percebem a diferença que estamos debatendo, mas estes sábios não estão exatamente no centro das pesquisas científicas nem nas cátedras da filosofia. Estas estão tomadas em grande parte por indivíduos que tem grande intelecto, o que não quer dizer de forma alguma sabedoria e estes se usam da ciência para provar sua própria superioridade, suas certezas e assim não tem a premissa fundamental do cientista: Duvidar sempre e estar pronto a substituir todas suas hipóteses frente a novas evidências.

Ainda que pareça incrível, os cientistas modernos nada sabem sobre os fenômenos naturais.

Eu não diria exatamente assim, creio que sabem muito, mas equivocam-se quando pretendem saber tudo. Sabem de muitas coisas mas não conseguem fazer disso algo associado a suas próprias vidas, continuam gerando essa ciência que se especializou em produzir conforto e armas.

Quando vemos nos fenômenos da natureza exclusivamente nossos próprios conceitos, certamente não estamos vendo os fenômenos, mas os conceitos.

Contudo, os tontos cientistas alucinados por seu fascinante intelecto, crêem, de forma estúpida, que cada um de seus conceitos é absolutamente igual a tal ou qual fenômeno observado, quando a realidade é diferente.

É interessante, nas chamadas leis da natureza, os cientistas realizaram interpretações fenomênicas e declararam que descobriram as leis fundamentais da natureza, e consideram agora que a natureza está presa a estas leis. E negam certas descobertas afirmando: "Isto vai contra as leis da natureza".

Que leis?

Percebem que é a mesma mente que no passado criou as "leis de Deus" e que também perseguia quem ia contra estas "leis divinas" como se a própria divindade tivesse vindo ditar as leis em pessoa, da mesma forma que hoje usam suas observações, ainda tão frágeis, para já determinar os limites da natureza.

Creio que aqui há uma generalização perigosa, todos os cientistas não, uma parte deles sim, uma parte significativa, mas se ler os que estão trabalhando com teorias arrojadas, como a Bootstrap vai notar que eles pensam já de forma bem menos dogmática e justamente estão profundamente cientes que conceito é uma aproximação da realidade , não a realidade em si.

Tão logo a mente observe tal ou qual fenômeno através dos sentidos, apressa-se de imediato a rotulá-lo com tal ou qual termo científico que, indiscutivelmente, só vem a servir como remendo para tapar a própria ignorância.

Creio que a mente mecânica, que é a que o ser humano via de regra usa, não é mesmo capaz de ir além e por isso disfarça seus limites, rotulando, limitando a seus próprios limites, tudo o que não pode compreender em essência. Temos que entrar em outro nível da mente para investigarmos diretamente a natureza e seus mistérios, do contrário ficamos apenas a rotular, sem chegar a lugar nenhum.

Nuvem que passa

Vídeos de Tensegridade ou Passes Mágicos

terça-feira, 10 de março de 2015

Tensegridade é um sistema de movimentos que visa a redistribuição de nossa energia. Promove saúde, bem-estar e silêncio interior. Tem origem no ensinamento dos xamãs do México Antigo e foi apresentada ao mundo pelo nagual e antropólogo Carlos Castaneda. Tensegridade é a forma genérica dos Passes Mágicos, movimentos capazes de criar um estado de bem-estar e uma intensificação da consciência, foram descobertos pelos antigos xamãs do México.

Tensegridade é a expressão corporal da sintaxe dos xamãs do México Antigo.

Download dos vídeos via Torrent - aqui ou aqui

(download do arquivo Torrent - necessário ter o programa Torrent. Veja AQUI como fazer para baixar)

obs: Fitas 1, 2 e 3 de Tensegridade.

Entrevista para a Revista Psychology Today, 1972.

segunda-feira, 9 de março de 2015

Tradução: Miguel Duclós

Esta entrevista saiu logo depois da publicação do terceiro livro do autor, Viagem a Ixtlan. Ele estava procurando desvencilhar-se da alcunha de guru das drogas psicodélicas que havia recebido com a publicação dos primeiros livros. Este entrevistador, Sam Keen, talvez tenha sido o mais competente na formulação de perguntas. Sua formação em filosofia e teologia em Harvard e Princeton o fazem buscar paralelos entre os ensinamentos e as tradições ocidentais e orientais já conhecidas. Aparece aqui até uma curiosa afirmação de Don Juan a respeito do filósofo austríaco Wittgenstein. Leia a seguir.

Sam Keen:
Como eu acompanhei Don Juan através de seus três livros, suspeitei, às vezes, que ele era uma criação de Carlos Castaneda. Ele é quase bom demais para ser verdade . Um índio velho e sábio cujo conhecimento da natureza humana é superior ao de quase todo mundo.
Carlos Castaneda:
A idéia de que eu forjei uma pessoa como Don Juan não é convincente. Ele dificilmente seria o tipo de figura que minha tradição intelectual européia levaria a conceber. A verdade é sempre algo muito estranho. Eu não estava sequer preparado para fazer as mudanças na minha vida que a minha associação com Don Juan requisitou.
Sam Keen:
Como e quando você encontrou Don Juan e tornou-se seu aprendiz?
Carlos Castaneda:
Eu estava terminando meu trabalho de conclusão de curso na UCLA e planejando ir para a graduação em antropologia. Estava interessado em me tornar professor e pensei que poderia começar de maneira apropriada publicando um ensaio curto sobre plantas medicinais. Não podia ter me importado menos por encontrar um esquisitão como Don Juan. Eu estava em uma estação de ônibus no Arizona com um amigo do tempo do colégio. Ele apontou um velho índio yaqui e disse que ele tinha conhecimento sobre peiote e plantas medicinais. Fiz a melhor cara que pude e me apresentei a Don Juan dizendo: Entendo que você sabe muito acerca do peiote. Eu sou um especialista em peiote (Eu havia lido o livro de Weston La Barre's, O ritual do peiote) e pode ser gratificante para você almoçar e passar um tempo comigo. Bem, ele apenas me lançou um olhar e minha audácia dissolveu-se.
Fiquei completamente tímido e paralizado. Eu normalmente era muito vigoroso e falante, então foi um negócio sério ser silenciado com um olhar. Depois disso, comecei a visitá-lo e cerca de um ano depois ele disse-me que gostaria de me repassar o conhecimento da feitiçaria que havia obtido com seu mestre.
Sam Keen:
Então Don Juan não é um fenômeno isolado, mas faz parte de um grupo de feiticeiros que compartilham um conhecimento secreto?
Carlos Castaneda:
Certamente. Conheço três feiticeiros e sete aprendizes e existem muitos mais. Se você pesquisar a história da conquista espanhola no México, encontrará que os inquisidores católicos tentaram acabar com a feitiçaria porque a consideraram como uma coisa do demônio. Ela tem estado por aí há muitos milhares de anos. A maioria das técnicas que Don Juan me ensinou é muito antiga.
Sam Keen:
Algumas das técnicas que os feiticeiros usam é amplamente usada também por outros grupos secretos. As pessoas às vezes usam os sonhos para encontrar objetos perdidos, e vão para jornadas fora-do-corpo durante seu sono. Mas quando você diz como Don Juan e seu amigo Don Genaro fizeram o carro desaparecer durante a plena luz do dia, eu poderia apenas coçar a cabeça. Eu sei que um hipnotista pode criar a ilusão de presença ou ausência de um objeto. Você acredita que foi hipnotizado?
Carlos Castaneda:
Talvez, alguma coisa deste tipo. Mas temos que começar por perceber, como diz Don Juan, que existe muito mais no universo do que normalmente confessamos conhecer. Nossas expectativas usuais acerca da realidade são criadas por um consenso social. Nos ensinam como ver e perceber o mundo. O truque da socialização consiste em nos convencer que as descrições que estamos de acordo definem os limites do mundo real. O que chamamos de realidade é apenas um modo de ver o mundo, um modo que é sustentando pelo consenso social.
Sam Keen:
Então um feiticeiro, como um hipnólogo, cria um mundo alternativo construindo diferentes expectativas e fornecendo pistas premeditadas para produzir um consenso social.
Carlos Castaneda:
Exatamente. Eu comecei a entender feitiçaria nos termos da idéia de .interpretação. [glosses] de Talcott Parsons. Uma interpretação [gloss] é um sistema completo de percepção e linguagem. Por exemplo, esta sala é uma interpretação. Nós reunimos juntos uma série de percepções isoladas: chão, teto, janela, luzes, tapete, etc para compor uma totalidade. Mas nós temos que ser ensinados a dispor o mundo junto desta forma. Uma criança experimenta o mundo com poucos pré-conceitos até que é ensinada a vê-lo de uma forma que corresponde à descrição que todos compartilham. O sistema de interpretações parece um pouco com caminhar. Nós temos que aprender a caminhar, mas uma vez que aprendemos ficamos sujeitos à sintaxe da linguagem e ao modo de percepção que ela contém.
Sam Keen:
Então a feitiçaria, assim como a arte, ensina um novo sistema de anotações. Quando, por exemplo, Van Gogh rompe com a tradição artística e pinta .O Céu Estrelado. [The Starry Night], ele estava efetivamente dizendo: aqui está uma nova maneira de ver as coisas. As estrelas estão vivas e rodam em volta de seus campos energéticos.
Carlos Castaneda:
De uma certa forma. Mas existe uma diferença. Um artista normalmente apenas rearranja as velhas anotações que são apropriadas para seu grupo.
Sam Keen:
Don Juan estava lhe dessocializando ou ressocializando? Ele estava lhe ensinando um novo sistema de significados ou apenas um método para esvaziar o antigo sistema para que assim você pudesse ver o mundo como uma criança fascinada?
Carlos Castaneda:
Don Juan e eu discordamos quanto a isto. Eu digo que ele está me .reinterpretando. [reglossing]. Ensinando-me feitiçaria me deu um novo conjunto de interpretações, uma nova linguagem e uma nova maneira de ver o mundo. Uma vez eu li um pouco da filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein e ele riu e disse. Seu amigo Wittgenstein amarrou o nó com muita força em torno do próprio pescoço, assim ele não pode ir muito longe.
Sam Keen:
Wittgenstein é um dos poucos filósofos que poderia ter entendido Don Juan. Sua noção de que existem muitos tipos diferentes de jogos de linguagem: ciência, política, poesia, religião, metafísica, cada um com sua própria sintaxe e regras, poderia ter permitido a ele entender a feitiçaria como um sistema alternativo de percepção e entendimento.
Carlos Castaneda:
Mas Don Juan pensa que o que ele chama de .ver. é apreender o mundo sem nenhuma interpretação. Este é o fim almejado pela feitiçaria. Para quebrar a certeza do mundo que sempre lhe foi ensinado, você deve aprender uma nova descrição do mundo: feitiçaria e, então, manter a velha e a nova juntas. Então você percebe que nenhuma das duas é final. No momento que você desliza entre as descrições; você para o mundo e vê. Você é deixado com o assombro, o verdadeiro assombro de ver o mundo sem nenhuma interpretação.
Sam Keen:
Você pensa que é possível ultrapassar as interpretações usando drogas psicodélicas?
Carlos Castaneda:
Eu penso que não. Está é minha briga com gente como Timothy Leary. Eu penso que ele estava improvisando dentro da sociedade européia e rearrumando meramente velhos sistemas de interpretação. Eu nunca tomei LSD, mas o que entendi dos ensinamentos de Don Juan é que os psicotrópicos são usados para interromper o fluxo das interpretações ordinárias, para aumentar as contradições dentro das interpretações e para romper as certezas. Mas somente as drogas não possibilitam você parar o mundo. Por isso que Don Juan teve de me ensinar feitiçaria.
Sam Keen:
Existe uma realidade normal que nós, ocidentais, pensamos que é .o. único mundo, e existe também a realidade a parte do feiticeiro. Quais as diferenças essenciais entre elas?
Carlos Castaneda:
Na sociedade européia o mundo é construído em grande parte pelo que os olhos informam à mente. Na feitiçaria o corpo todo é usado como percipiente. Como europeus vemos o mundo ao redor de nós e falamos sobre ele. Nós estamos aqui e o mundo está lá. Os nossos olhos alimentam a razão e não temos conhecimento direto das coisas. De acordo com a feitiçaria esta sobrecarga dos olhos é desnecessária.
Nós percebemos com o corpo total.
Sam Keen:
Ocidentais partem do pressuposto que sujeito e objeto são separados. Nós existimos a parte do mundo e temos de cruzar o vácuo para chegar até ele. Para Don Juan e a tradição dos feiticeiros, o corpo já está no mundo. Nós estamos unidos ao mundo, e não alienados dele.
Carlos Castaneda:
Isso mesmo. A feitiçaria tem uma teoria diferente de personificação. O problema da feitiçaria é o de harmonizar e arrumar seu corpo para ser um bom receptor. Os europeus lidam com seus corpos como se eles fossem um objeto. Nós os enchemos de álcool, comida ruim e inquietações. Se alguma coisa está errada nós pensamos que germes de fora invadiram o corpo e então importamos algum medicamento para curá-lo. A doença não é parte de nós. Don Juan não acreditava nisso. Para ele a doença é a desarmonia entre um homem e seu mundo. O corpo é consciente e deve ser tratado impecavelmente.
Sam Keen:
Isto parece similar à idéia de Norman O. Brown's onde as crianças, esquizofrênicos e aqueles com loucura divina da consciência dionisíaca estão cientes das coisas e das outras pessoas como extensões de seu corpo. Don Juan sugere algo do tipo quando diz que os homens de conhecimento têm fibras de luz que conectam seu plexo solar ao mundo.
Carlos Castaneda:
Minha conversa com o coiote é um bom exemplo das diferentes teorias de personificação. Quando ele chegou para mim eu disse: .Olá, pequeno coiote. Como você está? E ele respondeu de volta: Estou bem. E você?. Aqui eu não escutei as palavras da forma normal.
Mas meu corpo sabia que o coiote estava dizendo alguma coisa e eu traduzi isto em um diálogo. Como um intelectual, minha relação com o diálogo é tão profunda que meu corpo automaticamente transpôs para palavras o sentimento que o animal estava comunicando a mim. Nós sempre vemos o desconhecido nos termos do conhecido.
Sam Keen:
Quando você estava no modo mágico de consciência onde os coiotes falam e tudo é adequado e entendido parece que o mundo todo está vivo e o ser humano está em comunicações que incluem animais e plantas. Se abandonarmos nossas concepções arrogantes de que somos a única forma de vida que conhece e comunica talvez conseguíssemos perceber toda a sorte de coisas se comunicando conosco. John Lilly falava com os golfinhos. Talvez nos sentíssemos menos alienados se pudéssemos acreditar que não somos a única forma inteligente de vida.
Carlos Castaneda:
Nós podemos nos tornar capazes de falar com qualquer animal. Para Don Juan e os outros feiticeiros não havia nada de estranho na minha conversa com o coiote. Na verdade eles disseram que eu deveria ter pegado um animal mais confiável para amigo. Coiotes são trapaceiros e não pode se confiar neles.
Sam Keen:
Quais animais são os melhores para serem amigos?
Carlos Castaneda:
Cobras são amigos estupendos.
Sam Keen:
Uma vez conversei com uma cobra. Uma noite sonhei que havia uma cobra no sótão da casa onde eu vivia quando era criança. Peguei um pau e tentei matá-la. De manhã falei sobre o sonho a um amigo e ela me disse que não era uma coisa boa matar cobras, mesmo se elas estivessem no sótão em um sonho. Ela me sugeriu que na próxima vez que aparecesse uma cobra em sonho eu deveria alimentá-la ou fazer alguma coisa para atrair sua amizade. Cerca de uma hora depois eu estava dirigindo meu patinete motorizado numa estrada pouco usada e lá, esperando por mim, estava uma cobra de quatro pés, estirada no seu banho de sol. Eu a contornei e ela não se mexeu Depois de nos olharmos um nos outros por um tempo eu pensei que deveria fazer algum gesto para mostrar que estava arrependido de ter matado seu irmão em meu sonho. Eu cheguei perto e toquei sua cauda. Ela se enrolou mostrando que eu havia invadido sua intimidade. Então eu voltei e fiquei apenas olhando. Cinco minutos depois lá se foi ela atrás dos arbustos.
Carlos Castaneda:
Você não a espetou?
Sam Keen:
Não.
Carlos Castaneda:
Era uma amiga muito boa. Um homem pode aprender a chamar as serpentes. Mas você precisa estar em excelente forma, calmo, controlado, com um humor amigável, sem nenhuma dúvida ou assuntos pendentes.
Sam Keen:
A cobra me ensinou que eu sempre tinha pensamentos paranóicos em relação à natureza. Eu considerava animais e cobras perigosos. Após meu encontro jamais mataria outra cobra e começou a ser mais plausível para mim que nós possamos ter uma espécie de conexão viva. Nosso ecossistema pode muito bem incluir comunicações com outras formas de vida.
Carlos Castaneda:
Don Juan tinha uma teoria muito interessante acerca disso. As plantas, assim como os animais, sempre afetam você. Ele dizia que se você não pedisse desculpas para as plantas por colhê-las você provavelmente ficaria doente ou sofreria um acidente.
Sam Keen:
Os índios americanos tem crenças similares sobre os animais que eles matam. Se você não agradece o animal por dar a vida para que você possa viver, seu espírito pode lhe causar problemas.
Carlos Castaneda:
Nós temos uma associação com toda forma de vida. Alguma coisa se altera toda vez que machucamos a vida vegetal ou animal. Nós tiramos a vida para sobreviver mas devemos querer abrir mão de nossa própria vida sem ressentimentos quando chegar nossa vez. Nós somos tão importantes e nos levamos tão a sério que esquecemos que o mundo é um grande mistério que pode nos ensinar se escutarmos.
Sam Keen:
Talvez as drogas psicodélicas momentaneamente limpem o ego isolado e permitam uma fusão mítica com a natureza. A maior parte das culturas que conservam um senso de união entre o homem e a natureza também fez uso cerimonial das drogas psicodélicas. Você estava usando peiote quando falou com o coiote?
Carlos Castaneda:
Não, de maneira alguma.
Sam Keen:
Esta experiência foi mais intensa das que teve quando Don Juan lhe ministrou plantas psicotrópicas?
Carlos Castaneda:
Muito mais intensa. Todas as vezes que eu tomei plantas psicotrópicas eu sabia que havia ingerido algo e sempre podia questionar-me acerca da validade das minhas experiências. Mas quando o coiote falou comigo eu não tinha desculpas. Não podia explicar isso. Eu realmente parei o mundo e, saí completamente do meu sistema de interpretações europeu.
Sam Keen:
Você acredita que Don Juan vive neste estado de atenção a maior parte do tempo?
Carlos Castaneda:
Sim, ele vive num tempo mágico e ocasionalmente volta para o tempo normal. Eu vivo no tempo normal e ocasionalmente entro no tempo mágico.
Sam Keen:
Qualquer um que tenha viajado tão longe além do desgastado consenso deve ser alguém muito solitário.
Carlos Castaneda:
Penso que sim. Don Juan vive num mundo impressionante e deixou as pessoas rotineiras bem longe. Uma vez eu estava junto com Don Juan e seu amigo Don Genaro e vi a solidão que eles dividiam e sua tristeza em deixar para trás os enfeites e pontos de referência da sociedade normal. Penso que Don Juan transformou sua solidão em arte. Ele contém e controla seu poder, mistério e solidão e os transforma em arte. Sua arte é o caminho metafórico em que ele vive. É por causa disso que seus ensinamentos tem tanta carga dramática e unidade. Ele deliberadamente constrói sua arte e sua maneira de ensinar.
Sam Keen:
Por exemplo, quando Don Juan levou-o às montanhas para caçar animais estava conscientemente encenando uma alegoria?
Carlos Castaneda:
Sim. Ele não estava interessado em caçar por esporte ou por comida. Há 10 anos que o conheço, e o vi matar apenas quatro animais, e apenas nas vezes em que ele viu que suas mortes eram um presente para ele, assim como sua própria morte um dia será um presente para alguma coisa. Uma vez apanhamos um coelho numa armadilha, ficamos imóveis e Don Juan achou que eu devia matá-lo, pois seu tempo havia acabado. Fiquei desesperado porque eu tinha a sensação de que eu mesmo era o coelho. Eu tentei libertá-lo mas não conseguia abrir a armadilha. Então eu pisei na armadilha e quebrei acidentalmente o pescoço do coelho. Don Juan estava tentando me ensinar a assumir a responsabilidade por estar neste mundo maravilhoso. Ele inclinou-se e sussurrou no meu ouvido: Eu lhe disse que este coelho não tinha mais tempo para vagar por este lindo deserto. Ele conscientemente construiu a metáfora para me ensinar sobre os caminhos de um guerreiro. Um guerreiro é alguém que caça e acumula poder pessoal. Para fazer isto ele deve desenvolver a paciência e se mover deliberadamente sobre o mundo. Don Juan usou a situação dramática da caçada para me ensinar porque estava se dirigindo diretamente ao meu corpo.
Sam Keen:
Em seu livro mais recente, Viagem a Ixtlan, você revê a impressão dada nos primeiros livros de que o uso de plantas psicotrópicas era o método principal usado por Don Juan no intuito de ensiná-lo sobre a feitiçaria. Como você vê agora o lugar dos psicotrópicos em seus ensinamentos?
Carlos Castaneda:
Don Juan usou plantas psicotrópicas no período intermediário do meu aprendizado porque eu era muito estúpido, sofisticado e arrogante. Eu me agarrava à minha descrição do mundo como se ela fosse a única verdade. Os psicotrópicos criaram um vácuo no meu sistema de interpretações. Eles destruíram minha certeza dogmática. Mas eu paguei um enorme preço. Quando a cola que segurava meu mundo unido foi dissolvida, meu corpo estava fraco e eu demorei meses para me recuperar. Eu fiquei ansioso e funcionava a um nível muito baixo.
Sam Keen:
Don Juan usa drogas psicotrópicas regularmente para parar o mundo?
Carlos Castaneda:
Não. Ele pode agora mesmo pará-lo com a sua vontade. Ele me disse que para mim a tentativa de ver sem a ajuda das plantas seria inútil. Mas se eu me comportasse como um guerreiro e assumisse a responsabilidade não precisaria delas; elas apenas enfraqueceriam meu corpo.
Sam Keen:
Isso pode soar um pouco chocante para vários admiradores seus. Você é uma espécie de santo patrono da revolução psicodélica.
Carlos Castaneda:
Eu tenho seguidores e eles têm idéias estranhas a respeito de mim. Eu estava andando para dar uma palestra no Califórnia State, em Long Beach, outro dia e um rapaz que me conhecia me apontou para uma garota e disse: Ei, esse é o Castaneda.. Ela não acreditou nele porque tinha a idéia de que eu deveria parecer muito sobrenatural. Um amigo estava reunindo algumas das histórias que circulavam sobre mim. O consenso era que eu havia feito uma façanha mística.
Sam Keen:
Façanha mística?
Carlos Castaneda:
Sim, que eu andava de pés descalços como Jesus e não tinha calos. As pessoas acham que devo estar doidão a maior parte do tempo. Eu também cometi suicídio e morri em vários lugares diferentes. Um colega de departamento quase fez um escândalo quando eu comecei a falar sobre fenomenologia e sociedade e explorar o conceito de percepção e socialização. Eles queriam que eu falasse pausadamente, os deixasse altos e fizesse suas cabeças. Mas para mim o entendimento é importante.
Sam Keen:
Os rumores voam no vácuo de informações. Sabemos alguma coisa de Don Juan e muito pouco de Castaneda.
Carlos Castaneda:
Isto é uma parte proposital da vida do guerreiro. Para escapulir dentro e fora de diferentes mundos você deve permanecer discreto. Quanto mais você ser conhecido e identificado, mais sua liberdade vai ser reduzida. Quando as pessoas tiverem idéias definitivas sobre quem é você e como você vai agir, você não poderá mais se mexer. Uma das primeiras coisas que Don Juan me ensinou foi que eu tinha que apagar minha história pessoal. Se aos poucos você criar uma névoa em torno de si então você não vai ser tomado como garantia e você tem mais espaço para se mexer. É por causa disso que eu impeço gravações de áudio e fotografias quando dou palestras.
Sam Keen:
Talvez possamos ser pessoais sem sermos históricos. Você agora minimizou a importância da experiência psicodélica em relação ao seu aprendizado. E você não parece sair por aí fazendo o tipo de truques disponíveis no estoque dos feiticeiros. Que elementos dos ensinamentos de Don Juan são importantes para você? Você foi mudado por eles?
Carlos Castaneda:
Para mim as idéias de ser um guerreiro e um homem de conhecimento, com a esperança de eventualmente parar o mundo e ver, têm sido as mais adequadas. Elas tem me dado paz e confiança na minha capacidade de controlar minha vida. Na época que encontrei Don Juan eu tinha muito pouco poder pessoal. Minha vida havia sido muito errática. Eu percorri um longo caminho desde o local do meu nascimento no Brasil. Exteriormente eu era agressivo e arrogante, mas interiormente era indeciso e incerto acerca de mim. Estava sempre forjando desculpas para mim mesmo. Don Juan uma vez me acusou de ser uma criança profissional porque eu estava cheio de auto-piedade. Eu me sentia como uma folha ao vento. Como com a maioria dos intelectuais, minhas costas estavam contra o muro. Eu não tinha lugar para ir. Eu não podia perceber nenhuma forma de vida que realmente me excitasse. Eu pensei que tudo o que poderia fazer era uma acomodação amadurecida para uma vida de tédio ou encontrar formas mais complexas de entretenimento como usar drogas psicodélicas, maconha e ter aventuras sexuais. Tudo isso era aumentado pelo meu hábito de ser introspectivo. Eu estava sempre olhando para dentro de mim e falando comigo mesmo. O diálogo interno raramente parava.
Don Juan abriu meus olhos para o exterior e ensinou-me a acumular poder pessoal.
Não creio que haja outro modo de vida para alguém que queira estar cheio de energia.
Sam Keen:
Parece que ele fisgou você com o velho truque dos filósofos de segurar a morte diante dos seus olhos. Eu estava impressionado em perceber quão clássica a abordagem de Don Juan é. Eu ouvia ecos da idéia de Platão de que um filósofo deve estudar a morte antes que possa ganhar acesso ao mundo real e da definição de Martin Heidegger de um homem como um ser-para-a-morte.
Carlos Castaneda:
Sim, mas a abordagem de Don Juan tem um aspecto diferente, que vem da tradição da feitiçaria, que é o de considerar a morte como uma presença física que pode ser sentida e vista. Uma das interpretações da feitiçaria é: a morte está à sua esquerda. A morte é um juiz imparcial que lhe dirá a verdade e lhe dará conselhos precisos. Afinal, a morte não está com pressa. Ela lhe pegará em um dia, uma semana, ou 50 anos. Não faz diferença para ela. No momento que você pensa que eventualmente deve morrer está reduzindo o lado direito.
Eu acho que ainda não tornei esta idéia vívida o bastante. A morte está a sua esquerda. não é uma questão intelectual na feitiçaria, é percepção. Quando seu corpo está adequadamente sintonizado com o mundo e você vira os olhos para a esquerda, você pode testemunhar um evento extraordinário, a presença sombria da morte.
Sam Keen:
Na tradição existencial, as discussões sobre responsabilidade geralmente se seguem às discussões sobre a morte.
Carlos Castaneda:
Então Don Juan é um bom existencialista. Se não há como saber se eu tenho apenas mais minuto de vida, devo agir como se cada instante fosse o último. Cada ato é a última batalha do guerreiro. Então tudo deve ser feito impecavelmente. Nada pode ser deixado pendente. Esta idéia foi muito libertadora para mim. Eu estou aqui falando com você e talvez nunca volte para Los Angeles. Mas não importa porque eu cuidei de tudo antes de vir para cá.
Sam Keen:
Este caminho de morte e determinação é distante da utopia psicodélica na qual a percepção do final do tempo destrói a qualidade trágica da escolha.
Carlos Castaneda:
Quando a morte permanece à sua esquerda você deve criar o mundo a partir de uma série de decisões.
Não existem decisões grandes ou pequenas, apenas decisões que devem ser tomadas agora. E não há tempo para dúvidas ou remorsos. Se eu passar o meu tempo lamentando o que fiz ontem eu evito as decisões que tenho de tomar hoje.
Sam Keen:
Como Don Juan lhe ensinou a ser determinado?
Carlos Castaneda:
Ele falou com meu corpo através de atos. Meu modo antigo de ser deixava tudo pendente e nunca decidia nada. Para mim, tomar decisões era algo feio. Parecia injusto para um homem sensível ter de decidir. Um dia Don Juan me perguntou: Você acha que você e eu somos iguais? Eu era um estudante universitário e um intelectual e ele era um velho índio, mas eu fui condescendente e disse: Claro que somos iguais.. Ele disse: .Eu não acho que somos. Eu sou um caçador e um guerreiro e você é um frouxo. Eu estou pronto a abreviar minha vida a qualquer instante. Seu mundo débil de indecisão e tristeza não é igual ao meu.. Eu fiquei muito insultado e teria voltado, mas nós estávamos no meio do nada. Então eu sentei e fiquei absorvido nas armadilhas do meu ego. Eu ia esperar até ele decidir voltar. Após várias horas percebi que Don Juan ficaria ali para sempre se precisasse. Por que não? Para um homem sem assuntos pendentes este é o seu poder. Eu finalmente percebi que este homem não era como meu pai, que podia tomar 20 resoluções de ano-novo e não cumprir nenhuma. As decisões de Don Juan eram irrevogáveis enquanto durasse seu interesse. Elas podiam ser canceladas apenas por outras decisões. Então cheguei perto e o toquei, ele desistiu e voltamos para casa. O impacto deste ato foi tremendo. Ele me convenceu de que o caminho do guerreiro é um modo de vida poderoso e vigoroso.
Sam Keen:
O conteúdo da decisão não é tão importante quanto o ato de ser determinado.
Carlos Castaneda:
Isto é o que Don Juan entende por fazer um gesto. Um gesto é um ato deliberado que é responsável pelo poder que advém de tomar uma decisão. Por exemplo, se um guerreiro encontra uma cobra que está dormente e fria, ele pode esforçar-se por levar a cobra para um lugar quente sem ser mordida. O guerreiro pode decidir fazer um gesto sem nenhum motivo. Mas ele vai fazê-lo perfeitamente.
Sam Keen:
Parecem existir muitos paralelos entre a filosofia existencialista e os ensinamentos de Don Juan.
O que você disse sobre decisões e gestos sugere que Don Juan, como Nietzsche e Sartre, acredita que a vontade, ao invés da razão, é a faculdade mais fundamental do homem.
Carlos Castaneda:
Acho que sim. Deixe-me falar por mim mesmo. O que eu quero fazer, e talvez consiga executar, é superar o controle da minha razão. Minha mente tem estado no controle a minha vida toda e ela preferiria me matar a abandonar este controle. Em um dado ponto de meu aprendizado, eu fiquei profundamente deprimido. Eu estava cheio de medo, obscuridade e pensamento sobre suicídio. Então Don Juan me alertou que este é um dos truques da razão para manter o controle. Ele disse que minha razão estava fazendo meu corpo sentir que não havia sentido na vida. Uma vez que minha mente travou esta última batalha e perdeu, a razão começou a assumir o local apropriado de ser apenas uma ferramenta do corpo.
Sam Keen:
O coração tem razões que a própria razão desconhece, e também o resto do corpo.
Carlos Castaneda:
Este é o ponto. O corpo tem vontade própria. Ou melhor, a vontade é a voz do corpo. Este é o motivo de Don Juan consistentemente colocar suas lições em uma forma dramática. Meu intelecto poderia facilmente descartar o mundo da feitiçaria como sem sentido. Mas meu corpo foi atraído por este mundo e este modo de vida.
E quando o corpo toma o controle, um reino novo e mais saudável se estabelece.
Sam Keen:
As técnicas de Don Juan para lidar com os sonhos me interessam porque ele sugeste a possibilidade de voluntariamente controlar as imagens do sonho. Dessa forma ele propõe estabelecer um observatório estável e permanente dentro do espaço interior. Fale-me sobre o treinamento de sonhos de Don Juan.
Carlos Castaneda:
O truque nos sonhos é sustentar as imagens tempo o bastante para que possamos examiná-las cuidadosamente. Para adquirir este controle você deve escolher uma coisa antes e aprender a encontrá-la nos seus sonhos. Don Juan sugeriu que eu usasse minhas mãos como ponto fixo e alternasse entre elas e as imagens. Após alguns meses eu aprendi a usar minhas mãos e parar o sonho. Fiquei tão fascinado por esta técnica que espero ansioso pela hora de dormir.
Sam Keen:
Parar as imagens nos sonhos é parecido com parar o mundo?
Carlos Castaneda:
É similar. Mas existem diferenças. Uma vez que você se torna capaz de achar suas mãos quando quiser, você percebe que isto é apenas uma técnica. O que você quer na verdade é o controle. Um homem de conhecimento deve acumular poder pessoal. Mas isto não é suficiente para parar o mundo. É necessário algum abandono. Você precisa parar a conversa que está ocorrendo internamente e render-se ao mundo exterior.
Sam Keen:
Das várias técnicas que Don Juan lhe ensinou para parar o mundo, qual você ainda pratica?
Carlos Castaneda:
Minha maior técnica no momento está em romper as rotinas. Eu sempre fui uma pessoa muito rotineira. Eu comia e dormia sempre nos mesmos horários. Em 1965 comecei a mudar meus hábitos. Eu escrevia nas horas quietas da noite e dormia quando sentia necessidade. Agora eu desmantelei tanto meus hábitos usuais que posso me tornar imprevisível e surpreendente até mesmo para mim.
Sam Keen:
Sua disciplina me lembrou de uma história Zen de dois discípulos vangloriando-se de feitos milagrosos. Um dos discípulos alegava que o fundador da seita a que pertencia podia ficar em uma das margens do rio e escrever Buda num pedaço de papel segurado por seu assistente do outro lado do rio. Um outro discípulo alegava que esse milagre não era muito impressionante. .Meu milagre., disse ele, é que quando tenho fome, eu como, e quando tenho sede, eu bebo.
Carlos Castaneda:
É este elemento de compromisso com o mundo que me mantém seguindo o caminho que Don Juan me mostrou. Não há necessidade de transcender o mundo. Tudo o que você precisa saber está aqui defronte de nós, se prestarmos atenção. Se você entrar num estado de realidade extraordinária, como faz quando usa plantas psicotrópicas, está apenas usando a força que precisa para ver o caráter milagroso da realidade ordinária. Para mim o modo se viver o caminho com coração não é introspectivo ou de transcendência mística, mas a presença no mundo. Este mundo é o campo de caçada do guerreiro.
Sam Keen:
O mundo que você e Don Juan pintaram é cheio de coiotes mágicos, corvos encantados, e magníficos guerreiros. É fácil de ver como ele pode lhe atrair. Mas, e em relação ao mundo de uma pessoa urbana moderna? Onde está a mágica nele? Se todos nós pudéssemos viver em montanhas talvez conseguíssemos manter o mistério vivo. Mas como poderemos fazer isso se estamos perto de uma estrada?
Carlos Castaneda:
Uma vez formulei a mesma questão para Don Juan. Nós estávamos sentados em um café em Yuma e eu insinuei que eu poderia me tornar apto a parar o mundo e ver se pudesse viver no ermo junto com ele. Ele olhou para a janela, viu os carros passando e disse: Ali, lá fora, é o seu mundo.. Eu vivo em Los Angeles agora e sinto que posso usar o mundo para favorecer minhas necessidades. É um desafio viver sem rotinas em um mundo rotineiro. Mas é possível.
Sam Keen:
O nível do barulho e a pressão constante de massas de pessoas parecem destruir o silêncio e a solidão que poderiam ser essenciais para parar o mundo.
Carlos Castaneda:
Não de todo. Na verdade, o barulho pode ser usado. Você pode usar o barulho da buzina para treinar a si mesmo ouvir o mundo exterior. Quando paramos o mundo, o mundo que paramos geralmente é o que é mantido pelo diálogo interno. Uma vez que você para o blá-blá-blá interno você para de manter este mundo. A descrição entra em colapso. É quando começa nossa mudança de personalidade.
Quando você se concentra nos sons, percebe que é difícil para o cérebro categorizar todos os sons, e em pouco tempo você para de tentar. Não é como a percepção visual que nos mantém formando categorias e pensando. É tão revigorante quando você consegue parar de falar, categorizar e julgar.
Sam Keen:
O mundo interno muda, mas e em relação ao externo? Nós podemos revolucionar a consciência individual, mas ainda assim não conseguir tocar as estruturas sociais que criam nossa alienação. Existe um lugar para a reforma social e política no seu pensamento?
Carlos Castaneda:
Eu vim da América Latina onde os intelectuais estão sempre falando sobre revolução política e social e onde  muitas bombas são lançadas. Mas a revolução não mudou muita coisa. Requer pouca coragem bombardear um prédio, mas para desistir de cigarros, parar de ser ansioso ou parar a tagarelice interna, você tem que reconstruir-se. É aí que começa a verdadeira reforma. Don Juan e eu estávamos em Tucson não muito tempo atrás quando estava tendo a Semana da Terra. Alguns homens estavam palestrando sobre ecologia e os males da guerra do Vietnã. Enquanto isto, eles fumavam. Don Juan disse: .Não posso imaginar como eles podem se preocupar com os outros se eles não se gostam de si. Nossa primeira preocupação deve ser com nós mesmos. Eu posso gostar dos meus semelhantes apenas quando estiver no auge do meu vigor e sem depressão. Para estar nesta condição devo manter meu corpo preparado. Toda revolução deve começar aqui, neste corpo. Eu posso mudar minha cultura mas apenas através de um corpo impecavelmente sintonizado com este mundo estranho. Para mim, a verdadeira realização é a arte de ser um guerreiro, a qual, como diz Don Juan, é o único meio de balancear o terror de ser um homem com a maravilha de ser um homem.

A Mente-Grupo

sábado, 7 de março de 2015

O termo Mente-Grupo às vezes é usado incorretamente entre os ocultistas, como se fosse intermutável com Alma-Grupo. Os dois conceitos, porém, são inteiramente distintos. A Alma-Grupo é o material bruto da matéria-mente, do qual a consciência é diferenciada por meio da experiência; a Mente-Grupo é construída por meio da contribuição de muitas consciências individualizadas, concentrando-se sobre a mesma idéia.

Para tomar isto mais claro, tomemos um exemplo concreto. Durante o clímax da sua popularidade, o Marechal Joffre visitou a Inglaterra e recebeu uma grande ovação. Enquanto estava se dirigindo do seu hotel para Mansion House, para ser recebido pelo Prefeito, seu carro circulou por muitas ruas. Indivíduos o reconheceram a pararam para olhá-lo, mas não foi feita nenhuma demonstração. Todavia, quando ele chegou no movimentado cruzamento da Mansion House, os policiais pararam o tráfego e fizeram continência; a multidão viu que alguma coisa estava acontecendo; ele foi reconhecido, seu nome passou de boca em boca a num instante formou-se uma onda de ardente entusiasmo. Pessoas pacatas a controladas foram levantadas a arrebatadas pela onda de excitação a se viram gritando e agitando seus chapéus como se fossem loucas. Note a diferença entre o comportamento da multidão, quando agiu como uma multidão, e o comportamento dos indivíduos isolados, muito embora numerosos, que simplesmente pararam para olhar com interesse mas não demonstraram qualquer emoção.

Este incidente nos faz recordar um outro incidente também ocorrido em Mansion House, que ilustra muito bem a psicologia da multidão e a mente-grupo. Há muitos anos, Abdul Hamed, o detestado sultão da Turquia,visitou a Inglaterra. Ele também foi recebido pelo Prefeito a se dirigiu, de carro, para a Mansion House. Repetiram-se exatamente as mesmas cenas, porém com um conteúdo emocional diferente. 0 seu carro passou tranqüilamente por ruas cheias de gente, indivíduos pararam para encarar, boquiabertos, o visitante notório, mas sem fazer a menor demonstração; todavia, quando o tráfego foi paralisado para dar-lhe passagem no cruzamento da Mansion House, e a multidão o reconheceu, daqueles tranqüilos a sóbrios cidadãos maduros elevou-se um uivo de execração igual ao grito de uma matilha de lobos. A multidão arremeteu para a frente como um só homem e foi com grande dificuldade que ele foi salvo de ser arrancado da carruagem.

Considerados individualinente, qual destes homens citadinos, empregados de escritório satisfeitos com as suas escrivaninhas, teria assaltado, sozinho, o idoso a augusto Sultão? Não obstante, quando apanhados no frenesi da multidão, foram capazes de fazer um ataque selvagem em meio a uma babel de rosnidos animalescos.

Durante aquele momento, alguma coisa como uma entidade obsessora tomou posse da alma de todos eles, uma imensa Alguma Coisa, de um caráter que não era a soma da massa de almas individuais, porém algo mais vasto, mais potente, mais feroz a mais intensamente vivo a consciente dos seus impulsos. Todavia, em momentos comuns as multidões que se acotovelavam em Mansion House passavam pelo cruzamento a depois cada indivíduo tomava o seu próprio caminho, absorvido em seus próprios pensamentos, indiferente, sem dar atenção aos seus vizinhos. O que foi que transformou essa massa de unidades indiferentes e apressadas em um bando unido a arrebatado pelo entusiasmo de um ideal, ou em um organismo capaz de perigosa violência?

A chave para a situação toda está na direção da atenção de um grupo de pessoas para um objeto comum, a respeito do qual todas elas nutrem, fortemente, o mesmo sentimento. A direção da atenção, sem emoção, para um objeto comum, não tem o mesmo efeito. Embora a multidão pare e fique olhando para os semáforos de Picadilly Circus, eles não determinam a formação de uma mente-grupo.

Com o auxilio de todos esses dados, consideremos o problema nas suas aplicações ocultas. O que é esta estranha super-alma, que se forma a se dispersa tão rapidamente quando um grande número de pessoas tem o mesmo pensamento em um mesmo lugar? Para uma explicação, devemos analisar a teoria dos Elementais Artificiais.

Um Elemental Artificial é uma forma de pensamento que tem por alma uma essência Elemental. Esta essência poderá ser extraída diretamente dos reinos Elementais ou poderá provir da própria aura do mago. Uma forma-pensamento construída por meio de contínua visualização a concentração, a com relação à qual é sentida uma emoção forte, fica carregada com essa emoção e é capaz de ter uma existência independente, fora da consciência do seu criador. Este é um fator muito importante no ocultismo prático, e é a explicação de muitos dos seus fenômenos.

Exatamente o mesmo processo, que conduz à formação de um Elemental Artificial por um mago, tem lugar quando um grande número de pessoas se concentra, com emoção, sobre um único objeto. Essas pessoas criam um Elemental Artificial, vasto e potente, relativamente proporcional ao tamanho e à intensidade dos sentimentos da multidão. Este Elemental tem uma atmosfera mental própria, muito marcante, a esta atmosfera influencia, com poderosa intensidade, os sentimentos pessoais de cada integrante da multidão emocionada.

Dá a ela sugestões telepáticas, faz soar a nota do seu próprio ser nos ouvidos de cada um, reforçando, desse modo, a vibração emocional que originalnente o fez nascer; há ação a reação, estímulo mútuo a intensificação, entre o Elemental a seus criadores. Quanto mais a multidão se concentra sobre o objeto da sua emoção, mais vasto se torna o Elemental; quanto mais vasto ele se torna, mais forte é a sugestão em massa que ele envia aos indivíduos componentes da multidão que o criou; a estes, recebendo esta sugestão, percebem que os seus sentimentos vão se intensificando. E desse modo que as multidões são capazes de atos de paixão, dos quais cada membro individual se esquivaria com horror.

Um aglomerado Elemental, porém, dispersa-se com a mesma rapidez com que se formou, porque uma multidão não tem continuidade de existência; no instante em que o estímulo da emoção é removido, a turba deixa de ser uma unidade a reverte à heterogeneidade. É por isso que os exércitos indisciplinados, embora cheios de entusiasmo, são máquinas de lutar indignas de confiança, pois o entusiasmo se evapora se não for continuamente estimulado. Ele se fraciona em partículas componentes de muitas unidades com interesses diversificados, cada uma ativada pelo instinto de auto-preservação.

Para construir uma mente-grupo que tenha qualquer durabilidade, é essencial que haja algum método para assegurar a continuidade da atenção e do sentimento.

Sempre que uma tal continuidade da atenção a do sentimento é formada, também é formada uma mente-grupo ou um Elemental-grupo que, com a passagem do tempo, desenvolve uma individualidade própria a deixa de depender, para a sua existência, da atenção a da emoção da multidão que o fez nascer. Tão logo isto acontece, a multidão já não tem poder para retirar a sua atenção ou para dispersar-se; o Elemental-grupo a tem sob seu controle. A atenção de cada indivíduo é atraída a mantida a despeito dele próprio; os sentimentos são espicaçados dentro dele, mesmo à sua revelia.

Cada recém-chegado que se aproxima do grupo entra nesta atmosfera potente, aceita-a e é absorvido pelo grupo, ou então a rejeita a ele próprio é rejeitado. Nenhum membro de um grupo que tem uma atmosfera forte, de uma mente-grupo ou de um Elemental-grupo (de acordo com o termo que preferirmos), tem liberdade para pensar sem predisposição sobre os objetos da concentração a da emoção do grupo. E por essa razão que as reformas são tão difíceis de realizar.

Quanto mais vasta é a organização que precisa de reformas, mais difícil é mudar a mais forte deve ser a personalidade que tenta realizar essa tarefa. Contudo, assim que essa personalidade enérgica começa a causar impressão, ela rapidamente descobre que um grupo está se reunindo sob a sua liderança, que este, por sua vez, está desenvolvendo um Elemental e que o impulso que ela originou a está impelindo para diante. Quando ela agita a bandeira da sua liderança, o movimento que criou obriga-a a seguir para a frente. O indivíduo solitário poderá desviar-se a parar nos momentos de dúvida a de desencorajamento, mas isso não acontece com o líder de um grupo fortemente emocionalizado; tão logo retarda o passo, ele sente a pressão da mente-grupo que está atrás, e esta o impele para a frente durante as horas de fraqueza e de escuridão. Se o seu plano foi imprudentemente concebido, esta também poderá arrastá-lo e despedaçá-lo contra as rochas de uma política errônea, uma política cuja imprudência ele teria enxergado se tivesse analisado racionalmente o assunto. Não há meios de fazer parar o impulso de um movimento que se está deslocando ao longo das linhas de evolução. A mente-grupo dos participantes forma um canal para a manifestação das forças de evolução e o impulso desenvolvido é irresistível. Contudo, por mais potente que seja a personalidade, por mais vastos que sejam os recursos, por mais populares que sejam as frases que funcionam como isca, se o movimento é contrário às leis cósmicas, então é apenas uma questão de tempo até que o grupo todo se precipite loucamente por uma rampa íngreme e caia no mar.

Pois, num caso deste tipo, o próprio impulso que foi criado é que é a causa da destruição. Dê corda suficiente a um movimento falso a ele sempre se enforcará sozinho, caindo por causa do seu próprio peso, quando se tomou suficientemente instável para perder o equilíbrio.

Este fator da Mente-Grupo é uma chave extraordinariamente importante para a compreensão dos problemas humanos, e explica a irracionalidade dos homens em massa. Há alguns livros muito interessantes sobre este assunto, destacando-se: The Psychology of the Herd in Peace and War, por Wilfred Trotter, a The Group Mind, por William McDougal. Estes livros recompensarão muito bem a sua leitura pela luz que lançam sobre os problemas da vida cotidiana a da natureza humana. O ocultista leva a aplicação prática da doutrina das mentes-grupo muito mais longe do que o faz o psicólogo a nela encontra a chave para o poder dos Mistérios.

Analisado através de uma compreensão da psicologia das multidões, toma-se óbvio que o método dos Mistérios e das fraternidades secretas de todas as épocas baseia-se na experiência prática dos fatos.

O que poderia ser mais propício à formação de uma poderosa mente-grupo do que o segredo, as roupas especiais, as procissões a os cânticos de um ritual oculto?

Qualquer coisa que diferencia da massa um grupo de indivíduos e os aparta, forma, automaticamente, uma mente-grupo. Quanto mais um grupo fica isolado, maior a diferença entre ele e o resto da humanidade, mais forte é a mente-grupo que assim foi criada. Pense na força da mente-grupo da raça judaica, isolada pelo ritual, pelos costumes, pelo temperamento e pela perseguição. Não há nada igual à perseguição para dar vitalidade a uma mente grupo. E bem verdade que o sangue dos mártires é a semente da Igreja, pois ele é a argamassa da mente-grupo.
`
lr por essa razão que o segredo dos Mistérios nunca será inteiramente abolido. Por mais que seja revelado, alguma coisa sempre deve ser mantida em reserva e em segredo, porque esta alguma coisa, que não é partilhada com outros e que é o centro da atenção do grupo é o núcleo da mente-grupo e o foco da sua atenção; ela é para a mente-grupo aquilo que o grão de areia é para a pérola que se está formando dentro da ostra. Se não existisse o grão de areia não existiria a pérola. Remova aquilo que diferencia o iniciado do resto dos homens e a mente-grupo da qual ele faz parte cairá em pedaços.

A potência do cerimonial fisicamente executado não se limita apenas a um apelo dirigido à entidade invocada, mas também a um apelo dirigido à imaginação dos participantes. Um adepto trabalhando sozinho realizará um ritual em imagens conscientes no astral, sem sair da sua postura de meditação, a este ritual será eficaz para os propósitos da invocação. Mas se ele deseja criar uma atmosfera na qual o desenvolvimento dos seus discípulos avance, como num gerador de força, ou se ele deseja elevar a sua própria consciência além das suas limitações normais, transcendendo o seu próprio poder de vontade a de visão a olho nu, ele fará uso dos poderes do Elemental-grupo desenvolvido por meio do ritual.

Esta mente-grupo, ou Elemental ritual, age sobre aqueles que participam da cerimônia exatamente da mesma maneira como a emoção da turba agiu sobre os cidadãos pacíficos quando viram o Marechal Joffre. Ficam fora de si; durante aquele momento, são mais do que humanos, pois um Elemental-grupo, formado pela emoção apropriada, é tão capaz de elevar a consciência ao nível dos anjos como de rebaixá-la até o nível das bestas.

Quando a nossa emoção é fortemente dirigida para um objeto, nós estamos derramando uma sutil mas não obstante poderosa forma de força. Se essa emoção não é um simples derramamento cego, porém se formula dentro da idéia de fazer alguma coisa, especialmente se essa idéia faz com que surja na mente uma dramática imagem mental, a força derramada é formulada numa forma-pensamento; a imagem mental é animada pela força derramada a se torna uma realidade no astral. Esta forma-pensamento logo começa a emitir vibrações, e estas, pela lei da indução simpática da vibração, tendem a reforçar os sentimentos da pessoa cuja emoção lhes deu origem, e a induzir sentimentos similares em outras pessoas presentes, cuja atenção está dirigida para o mesmo objeto, mesmo que até aquele momento elas tenham sido apenas observadores desinteressados.

Será notado que a teoria da mente-grupo agora está sendo associada à teoria da auto-sugestão, conforme formulada por Baudouin, a estes dois conceitos psicológicos estabelecidos são aumentados, por associação, com o conceito esotérico da telepatia. Junte estes três fatores a teremos a chave não somente para o fenômeno da psicologia da multidão mas também para o pouco compreendido poder do ritual, especialmente o ritual conforme é realizado em uma loja secreta.

Observemos o que acontece quando é realizado um ritual deste tipo. Todos os presentes mantêm a atenção concentrada sobre o drama da apresentação da cerimônia. Cada objeto ao alcance da visão é um símbolo da idéia que está sendo expressa pela cerimônia. Nenhuma circunstância que possa intensificar a concentração e a emoção é negligenciada. Conseqüentemente, é construído um grupo altamente concentrado a altamente energizado.

Conforme já pudemos ver, quando pensamos em qualquer objeto com emoção, derramamos força. Se um grupo de pessoas está pensando no mesmo objeto com emoção, com a atenção concentrada e com os sentimentos exaltados pelo ritual da cerimônia, elas estão derramando, num tanque comum, uma quantidade de força sutil que não tem nada de insignificante. E esta força que forma a base da manifestação de qualquer potência que possa estar sendo invocada.

Nas religiões onde os deuses ou os santos são livremente representados de forma pictórica, a imaginação dos adoradores está acostumada a idealizá-los conforme os viram representados; quer seja o Hórus da cabeça de falcão, quer seja a Virgem Maria. Quando um grupo de adoradores devotos está reunido, com as emoções concentradas a exaltadas pelo ritual e mentalizando todos a mesma imagem, a força derramada por eles é modelada na forma de uma simulacro astral do ser assim intensamente imaginado; e se esse ser é a representação simbólica de uma força natural - que é justamente aquilo que todos os deuses estão destinados a ser - essa força encontrará um canal de manifestação através da forma que foi assim construída; a imagem mental sustentada na imaginação de cada participante da cerimônia subitamente dará a cada um deles a impressão de tornar-se viva a objetiva, e eles sentirão o afluxo da força que foi invocada.

Depois desse processo ter sido repetido regularmente durante consideráveis períodos de tempo, as imagens que foram construídas permanecem no astral, exatamente do mesmo modo como a marca de um hábito é formada na mente pela execução repetida da mesma ação. A força natural fica permanentemente concentrada desta forma. Em conseqüência disso, os adoradores subseqüentes não precisam fazer grandes esforços para formular o simulacro; eles têm apenas que pensar no deus e logo sentem o seu poder. Foi deste modo que foram construídas todas as representações antropomórficas da Divindade. Se pensarmos um instante, veremos que o Espírito Santo não é uma chama e também não é uma pomba; e que o aspecto-terra maternal da Natureza não é Ísis e nem é Ceres ou a Virgem Maria. Estas são as formas das quais a mente humana lança mão para compreender estas coisas; quanto mais inferior a menos evoluída é a mente, tanto mais grosseira é a forma.

Aqueles que têm algum conhecimento dos poucos °aspectos desvendados da mente humana, quer se trate de um sacerdote egípcio, de um hierofante eleusiano ou de um ocultista moderno, fazem uso do seu conhecimento deste raro tipo de psicologia para criar condições nas quais a mente humana possa ser capaz de transcender a si mesma, romper a barreira das suas limitações e alcançar-se num espaço mais vasto.

Dion Fortune

O reconhecimento de um tulku

sexta-feira, 6 de março de 2015

Filme-documentário muito interessante sobre o processo de identificação de uma nova encarnação de um lama (tulku) com destaque especial para a devoção, fidelidade, amor e empenho de um monge-discípulo pela nova encarnação de seu mestre.

É interessante notar com os renascimentos intencionais de verdadeiros budas ocorrem e como esta busca e identificação dos renascimentos são levadas tão à sério que chegam a passar pelo crivo do próprio Dalai Lama.

Outro destaque especial é para o desapego dos pais que entregam o seu filho recém-nascido para o monastério onde ele será preparado para assumir seu papel como mestre e Buda renascido.

Qualquer semelhança com o filme pequeno Buda não é meramente acidental.

"Para quem já é praticante do budismo tibetano ou já esta familiarizado com a cultura Tibetana o documentário abaixo é uma oportunidade única de assistir em vídeo o que nós lemos e ouvimos falar tanto dos grandes mestres: o processo de reconhecimento de um tulku, a devoção e confiança do discípulo com seu mestre, a incrível aceitação e receptividade das famílias tibetanas para com os monges que procuram o tulku e a questão dos sonhos. Emocionante, informativo e real o documentário é realmente incrível."