Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda: Francisco Plata

segunda-feira, 27 de abril de 2015

_ Quando você conheceu Carlos Castaneda?


_ Meu primeiro contato físico não foi com Carlos, e sim com Dom Juan. Tudo começou no ano de 73, graças a uma amiga minha chamada Zuleica. Em certa ocasião, estivemos conversando sobre a técnica de T’ai Chi Chuan, pois eu dava aulas dessa arte. Ela gostou muito do que eu lhe disse, e, em reciprocidade, me falou do primeiro livro de Carlos – a quem afetuosamente chamava Carlitos – que acabava de sair em inglês. O tema me interessou, ela me emprestou o livro, eu o li de uma vez só e assim conheci as idéias do nagual.

Naquela época, eu havia percorrido sociedades, grupos esotéricos e escolas de todo tipo; havia lido um bom número de livros sobre ocultismo e magia, mas em nenhum deles encontrava um paralelo com o que eu estava vivendo. Então conheci o livro de Carlos, e este sim se ajustava a minhas experiências pessoais! Fascinou-me de imediato.

Zuleica era amiga de uma curandeira, a mestra Magdalena, que era uma vidente extraordinária; assim que o via, sabia tudo sobre você e suas curas eram quase milagrosas. Por exemplo, cada vez que morria sua mãe, que já era muito idosa, ela ia para o outro lado e a trazia de volta. Assim fez umas cinco ou seis vezes, até que um dia a mãe lhe pediu:

“Deixe-me ir, minha filha, porque quero seguir meu caminho.”

Só então a deixou partir.

Segundo soube, a mestra Magdalena era muito amiga de Dom Juan Matus; já ouvi dizer até que era sua comadre.

Três anos mais tarde, em 73 ou 74, Carlos deu uma série de conferências na casa de Milosh. Este homem, de sobrenome Trnka, era um acupunturista de origem checa que se interessava muito pela cultura pré-hispânica e o mundo mágico. Como já era seu amigo, ele me ligou e me disse, com seu sotaque checo:

“Mestrrrre, venha parrra cá, porrrque Carrrlitos vai virrr.”

Assim o conheci. No total, foram seis reuniões de três ou quatro horas cada uma.

_ O que você se lembra desses encontros?

_ O primeiro que salta à memória é a facilidade com que Carlitos prendia sua atenção em uma conversa muito interessante, ao mesmo tempo amena e divertida. Por outro lado, transparecia a enorme profundidade do ensinamento do qual ele era herdeiro.

Na realidade, os ensinamentos de Dom Juan não podem se separar da tradição atualmente representada pelos concheros do México. Os concheros são a sobrevivência da religião asteca; chamam-se assim porque tocam a concha, um alaúde cuja caixa de ressonância é feita de uma concha de tatu. Em seus cantos, eles falam de como nasceu sua tradição; afirmam que a “pedra fundamental” foi levantada na cidade de Tlaxcala. Isso se refere à adaptação que fizeram no início do século XVI das tradições pré-hispânicas. Não significa que trocaram uma religião por outra, e sim que se adaptaram estrategicamente à realidade da colônia.

Os sábios e sacerdotes indígenas foram tão inteligentes que desde o primeiro momento encontraram na religião cristã os elementos que eram comuns à sua própria tradição, e mudaram os símbolos. Em grande parte, o que Carlos fez foi tomar esses símbolos e decodificar o conhecimento que protegiam, dando-lhe uma forma abstrata, de acordo com a nossa época. Entretanto, você deve levar em consideração que o que ele maneja não é o saber cultural pré-hispânico, mas o conhecimento dos bruxos de sua linhagem. A cultura é uma coisa, a sabedoria dos naguais, outra. É o mesmo que acontece entre nós. Imagine se todo mundo conhecesse a obra de Einstein! Não, em todas as culturas, só uns poucos são capazes de compreender o saber esotérico. Os naguais sempre foram uma elite, e, além de tudo, escondida.

Com este assunto ocorre o mesmo que com os aprendizes: a técnica dos naguais é transmitir a informação em dois níveis de consciência, dos quais um permanece oculto e o outro se faz público. Depende do aprendiz recuperar a totalidade do ensinamento mediante exercícios de introspecção e alinhamento.

Carlos assegurou que, depois daquele famoso salto no abismo, ele não se lembrava de grandes porções do que lhe havia ensinado Dom Juan; as partes mais importantes se apagaram de sua memória. Nem sequer tinha certeza de que o que havia acontecido com ele era verdade ou somente imaginação. Acrescentou que ele vinha ao México precisamente para recuperar o ensinamento.

Um exemplo de sua relação com a tradição é a regra. A regra é o aspecto central do nagualismo; pode-se definir como o mapa das ações dos grupos de bruxos.

Em uma das reuniões, Carlos nos confessou como havia conseguido recordar esse tema. Aconteceu que ele teve que vir para tramitar a publicação de seu primeiro livro em espanhol. Aproveitou para dar uma entrevista coletiva, na qual grudou nele um repórter que queria aprender tudo, e ia para todo lado com ele. Este o levou para conhecer os dançarinos concheros, que estavam ensaiando. Nesse momento, o Espírito se manifestou:

Um dos louvores dizia: “Que viva, que viva o senhor Santiago, porque ele é o mensageiro dos quatro ventos!” Carlos conta que, quando ouviu isso, teve um choque, sua memória profunda se abriu e começou a recordar: veio-lhe o ditado completo da regra.

Sentindo-se muito emocionado e sumamente agradecido, decidiu dar várias palestras, e assim o propôs a Andrés Segura.

_ Pode nos explicar um pouco mais sobre a regra?

_ Os bruxos afirmam que tudo o que ocorre no Universo tem regras; é assim que as coisas funcionam. Aplicadas às atividades que eles fazem, essas regras formam a teoria do grupo do nagual – um grupo de práticas xamânicas – cujo propósito é dar um salto coletivo para a liberdade.

Mas há muitas outras aplicações da regra, milhares. Por exemplo, na medicina tradicional vemos que as pessoas se afetam mais facilmente segundo a direção de sua energia: os homens de ação ficam doentes do coração e do intestino delgado; os eruditos, do estômago e do baço, e por aí vai. A regra é a base de todas as artes tradicionais, a acupuntura, o Feng Shui, as artes marciais... Podemos encontrá-la em todos os livros oraculares do mundo, tais como o Tarot, o I Ching, as runas, o Tonalámatl (calendário pré-hispânico)... De modo que a regra não é algo exclusivo dos naguais nem do México: é um assunto universal.

A regra do nagual afirma que os bruxos se organizam em grupos, em múltiplos de quatro, orientados para as quatro direções. É a organização mais natural para que a energia flua. Eu tive conhecimento dessa ordem muito antes de saber de Carlos. Através de uma investigação “histórica” (digo histórica entre aspas, porque melhor dizendo é mítica), percebi que os mestres orientais trabalhavam em grupos estruturados. Por exemplo, você tem aí os dezesseis Arhan do budismo, as quatro bestas de quádruplo rosto na visão de Ezequiel, os quatro grupos de quatro cavalos com as cores das quatro direções que viu o xamã norte-americano Alce Negro quando foi iniciado. A lei do quatro aparece uma e outra vez em todas as tradições.

Naquela época, eu aplicava a regra de forma intuitiva. Agora que tenho os livros de Carlos, então digo, ah, pois é o grupo (partida)! O ensinamento do nagual, ainda que não tenha modificado essencialmente o curso de minha vida, me serviu de modelo. Seus livros vieram colocar a nota final em uma série de investigações que eu havia empreendido de forma muito pessoal.

Mas é um erro conversar sobre este assunto. A regra é algo que tem que se experimentar. E não estou certo de que alguém que não seja um nagual possa entendê-la totalmente. Isto não minimiza a importância dos guerreiros dentro de um grupo. Tal como indica o texto de Armando Torres, cada um dos participantes é tão valioso como qualquer outro para conseguir o objetivo final, que é o passo para a liberdade. O valor de cada guerreiro consiste em reconhecer-se e aceitar-se tal como é, segundo sua forma energética, e ao mesmo tempo reconhecer e aceitar os demais. Só assim podemos funcionar como indivíduos e como conjunto.

A importância da regra está em vivê-la, não em como é recebida. Há muitas tradições no mundo. Carlos a recebeu em forma oral, segundo a tradição de sua linhagem. Outros a recebem através de um sonho, experimentando com os aliados das plantas ou lendo-a em um livro. Qualquer um que estude a fundo e seriamente as artes tradicionais da terra (chamadas “o caminho com coração”) cedo ou tarde encontrará as diretrizes da energia e começará a viver de acordo com elas.

O objetivo da regra, a longo prazo, é formar um supergrupo (superpartida) e disseminar novas linhagens, para impedir que o conhecimento se extinga. Isto significa que esse desenho não só descreve um diagrama da energia, como também um processo, ou seja, um caminho de evolução. Não basta saber como se organizam os dezesseis modelos luminosos do grupo e que relações têm entre si; também é preciso entender como se sucedem os grupos, porque este é o único modo de enlaçar o tonal dos guerreiros com o tonal dos tempos.

Para isso existem os naguais de três pontas, como foi o caso de Carlos. No livro de Armando é muito clara a função destes naguais; eles não vêm para trabalhar com guerreiros diretamente, e sim para ser sementeiros de novos naguais, semeadores de grupos.

Quando Carlos afirmou: “Eu não sou um nagual tradicional de quatro pontas, só tenho três pontas”, o que significa isso? Para qualquer um que tenha uma formação em simbolismo numérico, a implicação é óbvia. Um nagual de quatro pontas está submetido à sua própria estrutura, pois o quatro é um número muito estável. Temos as quatro paredes de uma casa, os quatro lados de um terreno, as quatro pernas de uma mesa... O quatro delimita e define, e por isso mesmo, põe fim. Então, não é um número dinâmico, não se presta à transmissão a longo prazo.

Um nagual de quatro pontas pode trabalhar com guerreiros em múltiplos de quatro, porque os galhos de sua energia se orientam para as quatro direções. Mas um nagual de três pontas se complica, já que o três é um número muito dinâmico, de mudança. Os chineses o chamam san cai, “os três poderes”, e afirmam que está presente quando vai acontecer algum fenômeno. As coisas precisam de três passos para dar resultados; então, o três é um número de resultados, não tem estabilidade.

Eu me inteirei há anos da regra para os naguais de três pontas, tanto do que foi publicado quanto de outras partes. Em 1994 fui convidado a participar de uma reunião na qual se tocou nesses assuntos. Propunha-se que Carlos trabalhasse exclusivamente com líderes de grupos, naguais, e estes por sua vez com seus guerreiros. Entretanto, depois não se falou mais nesse assunto.

_ Como se formam os grupos de guerreiros?

_ Ser Guerreiro é sempre uma escolha pessoal. O primeiro é acumular energia. A viagem para o infinito exige inteireza, em sentido literal e metafórico. Inteireza do corpo físico, da energia e do caráter. Para poder funcionar no mundo mágico, devemos ter completo e forte o ovo luminoso, e isto só se consegue recompondo a energia que foi dissipada durante anos de trato com o mundo.

_ Como remendar os buracos da nossa luminosidade?

_ Fazendo-nos conscientes dessa necessidade. Se você não percebe que tem um problema, não o supera.

O passo seguinte é recapitular. A recapitulação é um instrumento maravilhoso, que lhe ensina a recuperar parte do que perdeu e a não permitir que continue perdendo.

A primeira vez que ouvi falar desta técnica foi no âmbito das artes marciais. Nessa ocasião, ensinaram-me a fazê-la respirando em forma vertical, quer dizer, movendo a cabeça lenta e suavemente para cima ao inalar, tendo o propósito interior de recuperar a energia investida nos eventos passados. Ao exalar, ao contrário, a cabeça desce, enquanto você solta o que não é seu.

A princípio, é bom recapitular com disciplina; eu o fiz à moda antiga, dentro de uma cova. Mas uma vez que você pega o jeito, pode fazer até quando está ocupado em outra atividade. Começa com lembranças imperfeitas, mas com o tempo se tornam mais claras e precisas.

_ Como se sabe que o exercício está funcionando?

_ Bem, você se recorda do evento como uma vivência, sente alegria, tristeza, rancor, vergonha, chora, ri, fica vermelho, conforme a situação. Finalmente, nada; a situação se torna totalmente alheia, como se tivesse acontecido com outra pessoa e não com você. Desvanecem-se culpas, ódios e apegos. Resta somente você.

Isso é o começo do que Carlos chama “perder a forma humana”. Há aprendizes que pensam que, ao chegar a esse ponto, se tornarão uns monstros insensíveis, mas não é assim. Pelo contrário, ficamos terrivelmente sensíveis; a diferença é que agora não nos envolvemos.

Uma coisa que descobri enquanto recapitulava é que esta técnica nos ajuda a recuperar a vida no ensonho. Sim, há uma vida paralela da qual nos esquecemos por completo quando despertamos. Uma das tarefas do bruxo é recuperar essa outra vida. A recapitulação se faz perfeita quando aprendemos a recordar dentro do ensonho, porque, desse modo, a outra vida se faz contínua e manipulável.

O exercício da recapitulação tem que ser complementado com outros, que têm o propósito de dar flexibilidade e movimento à energia. Para isso existem os exercícios de T’ai Chi Chuan ou Chi Kung. Por exemplo, veja Milosh; ele tomou como apostolado curar utilizando a acupuntura: costumava sair aos sábados para ir a povoados próximos e colocar suas agulhas nas pessoas. Depois voltava para casa, ia dormir à noite, e acordava na terça-feira! É que estava tendo um desgaste energético enorme. Então, o doutor Kim, mestre em acupuntura, recomendou a ele e a seus companheiros, discípulos da mestra Magdalena, a prática do T’ai Chi Chuan. Eles se dedicaram a buscar alguém que lhes pudesse ensinar esta arte e foi assim que se depararam comigo.

Quando conheci Carlos, fui apresentado como mestre de T’ai Chi. Passaram-se os anos e apareceu seu sétimo livro, “O Fogo Interior”. Ao abri-lo, vejo que começa com um agradecimento – algo que não era de seu costume – a um mestre que lhe deu um caminho alternativo de exercícios para recuperar sua energia. Recordo que, ao ler isso, comentei com meus alunos:

“Que acham? Carlitos está fazendo T’ai Chi.”

Eles zombaram de mim. Mas em pouco tempo – coisa de três semanas ou um mês depois – Carlos deu uma palestra no Palácio de Minería. Chegou, sentou-se e anunciou que responderia perguntas. Sabendo que esse era seu costume, já tinha a mão levantada e lhe fiz a primeira:

“Ouça, Carlos, por que tem essa dedicatória no seu último livro?”

Respondeu-me: “Boa pergunta!”

Disse que Dom Juan deixou-lhe uma série de tarefas que exigem uma enorme quantidade de energia e, para cumpri-las, ele consumiu toda a energia de que dispunha. O pior é que não encontrava maneiras para repô-la, porque Dom Juan só lhe havia ensinado a economizar, não a ganhar. Então, dedicou-se a buscar um método que o ajudasse a resolver seu problema; praticou yoga, meditação, lamaísmo, quarto caminho, buscou por todos os lados até que encontrou um mestre que lhe ensinou uns velhos exercícios orientais, com os quais se recuperou.

E mais não disse, mas no decorrer da palestra, cada vez que se virava e me via, fazia um sutil movimento de T’ai Chi. Isso foi tão evidente para meus alunos, que todos perceberam e admitiram: “É verdade, ele está fazendo T’ai Chi!”

Nesse encontro aconteceu um fato que gostaria de contar. A maioria dos presentes era fanática por Carlos. Depois de duas horas de estar contando suas aventuras com Dom Juan, levanta-se uma senhora na primeira fila e pergunta, com sotaque espanhol:

“Diga, Carlos, quem é esse Dom Juan de que você tanto fala?”

_ E a dança conchera, tem os mesmos efeitos que o T’ai Chi?

_ Não. A dança foi delineada com uma função específica. Dá uma grande energia, mas não do mesmo tipo. A dança é um complicado ritual que lhe abre as portas do mundo mágico e o leva à segunda atenção, ao ensonho. Nós ríamos muito porque Andrés, capitão de concheros, passava o tempo todo dormindo pelos cantos. Quando havia uma reunião ou conferência, ele adotava “a pose” – uma posição de poder – e fechava os olhos; quem não o conhecia achava que ele estava dormindo. Havia inclusive os que se aborreciam com ele; Milosh sempre lhe dizia: “Andrrrés, não vou lhe convidarrr mais, porrrque você fica dorrrmindo pelos cantos!”

Mas não era assim. Ele era um grande mestre dessa arte e conseguia mover seu ponto de encaixe para o ensonho, participando das reuniões nesse outro estado de consciência. A prova disso é que, quando diziam algo com o qual não concordava, pulava e se punha a defender seu ponto de vista, como se o tempo todo houvesse estado muito consciente da conversa.

_ E a Tensegridade, tem o mesmo efeito que o T’ai Chi?

_ Veja, o ensinamento de Carlos é muito especializado. Supõe-se que, quando você chega a ele, é porque já percorreu boa parte do caminho, incluindo ter aprendido técnicas paralelas para compactar sua vitalidade. Recordo que, certa vez, na Casa Chata do antigo Colégio de Medicina, uma moça lhe perguntou:

“Carlos, como podemos recuperar a energia?”

Ele confirmou o que já nos havia dito em outras ocasiões:

“Dom Juan não me ensinou a recuperá-la. De modo que vocês devem economizá-la.”

Entretanto, depois ele mesmo apareceu com uma série de movimentos que, afirmou, eram a herança da linhagem, e que têm uma função parecida com a do T’ai Chi e outras artes orientais. A princípio lhes chamou simplesmente de passes mágicos, mas, quando a coisa se popularizou, deu-lhes um nome elegante: Tensegridade.

Minha visão pessoal é que a Tensegridade se compõe de movimentos de artes marciais adaptados. Muitos dos passes praticados pelos seguidores de Carlos atualmente são derivações. Mas os primeiros exercícios, aqueles que ele nos ensinou diretamente, são movimentos básicos de Chi Kung.

Não me atrevo a julgar Carlos, não sei se seu objetivo era que a Tensegridade se transformasse nesse exagero de movimentos que estamos vendo nos seminários. Mas me lembro que, em uma de suas últimas intervenções públicas, afirmou que as práticas massivas são somente um passo inicial, antes de enfrentar o verdadeiro desafio dos bruxos.

“A Tensegridade”, disse, “foi delineada para nos dar energia, a fim de enfrentarmos as coisas realmente pesadas. É algo suave, mas é um começo.”

_ O que você opina sobre as plantas de poder?

_ O ser humano é algo muito especial porque, por um lado, tem umas possibilidades assombrosas, mas, por outro, estamos muito mal equipados por natureza. Essa falta de equipamento nos obriga a buscar coisas que nos ajudem. É tão simples como o seguinte: tenho frio e tenho que usar roupas, mas os animais não têm necessidade disso. Nós aprendemos a usar o que nos rodeia, e principalmente as plantas.

Os antigos videntes descobriram que havia três tipos principais de plantas; um deles são as plantas de poder, chamadas assim porque movem o ponto de encaixe, permitindo que se focalize outros mundos de energia. À medida que faziam experimentos, descobriram que as plantas nos põem em contato com o mundo mágico, mas que em nenhum caso podemos controlá-las cem por cento, só o que podemos é fazer uma aliança com elas.

É por isso que os xamãs tradicionais têm uma forma muito peculiar de agir com as plantas de poder, que aparece claramente referida nos livros de Carlos: eles se guiam por augúrios; usam-nas quando há sinais claros, e se não há sinais, não as usam.

O problema gerado ao redor das plantas tem a ver com o movimento da Nova Era, que incentivou o aparecimento de todo tipo de tendências místicas. Uma delas foi o uso de psicotrópicos, o que motivou que o uso xamânico das plantas terminasse sendo uma moda. As modas passam rapidamente, mas a tradição não passa.

Neste momento e lugar, diria a você que as plantas só devem ser usadas com um guia, com um mestre adequado e com um augúrio. Se você chega a elas com o mesmo espírito com que lê um livro, para saber se lhe serve ou não, é provável que não vá longe. A única opção que tem, quando lhe falta um guia, é que você mesmo seja um xamã, mas esses casos são raros.

Creio que a opinião de Carlos, baseada em sua extraordinária experiência, é suficientemente clara nesse assunto. As plantas têm poder, e esse poder tem que ser respeitado. O uso ligeiro pode nos conduzir muito longe de nossa meta, e até pode nos deixar em um âmbito do qual já não tornamos a sair, porque o trabalho com as plantas, ou melhor dizendo, com os aliados das plantas, tem uma conseqüência cara: consome a nossa energia.

_ De qual aspecto da obra de Castaneda você gostou mais?

_ O que sempre me causou impacto e continua causando é a impecabilidade de Dom Juan. Definitivamente, ele é o modelo a seguir. Onde vamos encontrar alguém assim? É muito difícil.

Da última vez que escutei Carlos, ele contou algo a respeito: disse que Dom Juan era um cíclico. Explicou que no mundo há seres que reproduzem a mesma estrutura de outros que existiram anteriormente, porque têm a mesma configuração luminosa, a mesma aparência, como se a história se repetisse. Esclareceu que “eram iguaizinhos, não reencarnações”.

Também nos disse que os cíclicos têm a possibilidade de obter consciência de seus predecessores. Por isso Dom Juan acumulava uma sabedoria imensa, era um clone de sábios da antigüidade. Isso foi a última coisa que o escutei dizer.

_ O que Castaneda queria dizer quando se referia a “antigos” e “novos” videntes?

_ Creio que essa é uma classificação pertinente à linhagem de Carlos e Dom Juan. Nessa linhagem há uma diferença enorme entre o modo como os antigos viam o mundo, e o modo como o vêem na atualidade. Não só mudou a linguagem como também a forma mesma de trabalhar com a energia. Mas não se confunda com os termos. Os antigos videntes ainda existem; eu fui aluno de pessoas assim, pessoas que faziam práticas antigas. Mesmo em plena Cidade do México sobrevive esta casta de bruxos; não é uma questão de época, mas de atitude.

Os velhos videntes, como dizia Dom Juan, estão obcecados com assuntos como extrair poder, viajar para outros mundos, manipular um monte de aliados... São os bruxos dos contos, transformam-se em animais para atacar suas vítimas. Os bruxos modernos percebem que isso é um desperdício de esforço, cálculo e tempo. Eles se perguntam: O que eu busco realmente? Qual é meu objetivo na vida, onde quero chegar? Eles se propõem a ousadia de passar para o infinito, e para isso, não posso estar fazendo bonequinhos de cera ou costurando olhos de lagartixas!

Em contraste com os velhos videntes está o enfoque abstrato de Carlos. E também há xamãs que, como eu, tiraram das diversas tradições – a européia, a oriental, a tolteca – e sintetizaram diversos modos da bruxaria. Eu não posso dar um nome ao que estou fazendo, não posso lhe dizer se pertenço aos antigos ou aos novos videntes. O que realmente percebo é que a humanidade está dando um passo adiante. O fato de que haja existido um Carlos Castaneda, independentemente do modo como tomemos seus ensinamentos, nos indica que é um momento de mudança na história, algo que afeta a humanidade em geral e, obviamente, os bruxos.

_ Esta etapa é comparável com a de Buda, Jesus ou Quetzalcóatl?

_ Eu não me meteria em comparações, cada momento da história é único e irrepetível. Contudo, posso afirmar que houve um momento parecido há mil e poucos anos, na cultura de Teotihuacan; e não somente ali, mas em toda a área mesoamericana. Em torno do ano 900 de nossa era aconteceu uma mudança gigantesca e brutal no ponto de encaixe da sociedade. Teotihuacan foi uma cidade construída com um objetivo muito claro: alcançar a realização total dos seres humanos. O objetivo era que os homens se transformassem em deuses. Por isso se chama Teotihuacan, “a cidade dos que se fazem deuses”. Para chegar a essa meta, foi requerido um longo processo, que frutificou finalmente quando grandes massas da população alcançaram de uma vez a auto-realização, ou a liberdade total, como chamava Dom Juan, e dispararam para outra atenção em um só dia.

Há um signo em Teotihuacan que é muito óbvio: o coração sangrando, emblema da concentração da energia e da passagem entre as dimensões. Mas este símbolo tem um detalhe interessantíssimo: em lugar de estar dividido em quatro lóbulos, tem somente três. A meu ver, é o símbolo do nagual de três pontas, da mudança radical. De algum modo, nossa época reflete as condições daquela. Este é um momento precioso, semelhante ao dos velhos toltecas. É um momento que temos que aproveitar, porque acontece raramente. Estão sendo criadas as condições para que uma enorme quantidade de pessoas possa alcançar a liberdade de uma vez só, de modo que vão preparando as malas!

_ É possível chegar à liberdade como parte de uma massa?

_ A liberdade é um assunto individual. Mas podemos integrar nossos esforços para chegar ao outro mundo como equipe de bruxos. O que verdadeiramente causa impacto aos guerreiros desta época é o evento em si, a ousadia, o arrojo, a maravilha. É como quando você vê um amanhecer ou um eclipse; não importa se outros vêem contigo ou se você está sozinho. O fenômeno é maravilhoso por si, porque é algo que raramente vemos. O mesmo ocorre com as épocas de mudança. São fantásticas, somente por existir. De alguma maneira foi isso que sentiu Carlos como nagual de três pontas, o assombro de ser testemunha de um evento não visto durante muitas gerações.

_ Como vê o futuro do castanedismo?

_ O boom produzido por Carlos trouxe como conseqüência o “nagualismo” da Nova Era. Muitos se aproveitarão deste rio revolto, especialmente do ponto de vista econômico, para engrandecer seu ego. Como tantas outras correntes ideológicas na história da humanidade, isso terá um auge e irá desaparecendo com o tempo. Mas a tradição dos xamãs continuará exatamente como há milhares de anos.

Paralelamente, ocorrerá outro fenômeno, que já começou e que, este sim, é provável que tenha efeitos a longo prazo: o aparecimento de uma igreja nagualista. Isso não será um evento da bruxaria, mas da história da religião.

Como você sabe, no mundo houve grandes xamãs: Buda, Maomé, Jesus. Nenhum deles pretendeu fundar uma religião, só deram uma série de ensinamentos práticos para a elevação da humanidade, segundo a modalidade da época em que viveram. Porém, com o passar do tempo, seus ensinamentos se converteram em dogmas que deveriam ser aceitos para ser parte de um sistema. Com o sistema de Castaneda está acontecendo o mesmo; tem todos os elementos para formar um culto: o mito, a doutrina, as práticas, e até o lado místico. Tem também um aparelho censor: a sociedade Cleargreen, que se auto-qualifica como a única depositária da verdade castanedista. É inevitável que esta tendência siga o curso normal das crenças; de fato, já se começam a perceber os primeiros elementos.

Temos, por exemplo, o decesso do nagual. Eu não recebi a notícia em primeira mão; Eddy me deu-a, a qual lhe chegou por outro amigo. Ele imediatamente ligou para a Califórnia, e lhe avisaram que ele havia morrido de câncer do fígado, sendo depois cremado e suas cinzas lançadas no deserto. Mas, posteriormente, Cleargreen informou que Carlos não morreu, e sim “passou para o lado ativo do infinito”. Como você pode perceber, este é o dogma nuclear de um fenômeno messiânico. Observe este outro detalhe: quando Eddy ligou para averiguar sobre o decesso, Heiko atendeu o telefone (Heiko sempre se havia destacado por ser um buscador sincero). Quando Eddy o chamou pelo nome, aquele respondeu:

“Já não me chamo Heiko, agora me chamo Gavin, e me proibiram de falar com você.”

Isso é um mau sinal. É questão de tempo – quiçá uns duzentos anos, talvez menos –, mas acontecerá. É um fenômeno natural que temos visto ao longo da história. Os grandes mestres nos trouxeram a opção da liberdade, mas os discípulos a converteram em crenças. Carlos advertiu que todos os “ismos” conduzem à coação ideológica, à questão de fé, e que o nagualismo não é uma exceção.

No entanto, também é inevitável que haja pessoas e grupos que mantenham desperto o sentido da busca, à margem de que os tachem de heterodoxos.

Assim como eu peguei um fio do ensinamento e o estou trabalhando à minha maneira, não sou o único; neste momento deve haver milhares de pessoas fazendo o mesmo em toda a Terra.

Tal como diz Armando, o trabalho conjunto de Dom Juan e de Carlos assinala um momento de expansão do conhecimento que pode nos levar a uma revolução da consciência. A difusão do nagualismo através de livros está permitindo o nascimento de novas linhagens. Não sei o quanto precisam estar unidas essas linhagens ou o quanto podem atuar de forma independente; isso é algo que a prática dirá.

O importante de Carlos não é que tenha feito milagres ou que tenha partido para o infinito envolto em um halo de luz, e sim que nos deixou uma opção. Como Moisés, que nunca pisou na terra prometida, mas levou todo o seu povo até seus limites, ele nos apontou o caminho para a liberdade. O que acontecerá agora depende de cada um de nós, de nosso esforço e abertura, da decisão que assumirmos.

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