O olho do predador

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Em uma clara, ensolarada tarde em Los Angeles, os quatro estudantes de dom Juan compartilhavam uma refeição no pátio da casa dos videntes.

Todos estavam sentados em uma espaçosa mesa em forma de U encoberta por um tecido de linho, e os talheres e cálices reluziam no sol do entardecer.

Todos comeram e conversaram amigavelmente - contando piadas e estórias, ouvindo um ao outro falar sobre seus filmes favoritos - todos menos um aprendiz. Ela, logo que se sentou, percebeu que não estava sentada perto nem de Taisha Abelar, Florinda Donner-Grau, Carol Tiggs, ou do nagual Carlos Castaneda, e então começou a se remexer na sua cadeira, tensionando seu estômago, e pressionando sua mandíbula.

Ao invés de aproveitar a companhia de seus companheiros e do jardim ao redor, esta jovem aprendiz vigiava a cena continuamente, prestando atenção a quem estava sentado próximo de quem, e quando ela notou uma colega aprendiz se levantar ao lado de Taisha, ela rapidamente correu ao seu assento para se assegurar de que este seria agora seu.

Taisha nem piscou nem se mexeu, mas começou a rir da nova mudança. Quando a outra aprendiz retornou para pedir seu assento, a recente posicionada aprendiz não se moveu e disse a ela: "Tome minha cadeira até que eu termine".

A outra aprendiz fez isso, e enquanto Taisha se virou para encarar sua convidada mais completamente, ambas ouviram um zumbido atrás de seus ouvidos: um par de beija-flores chegando para beber néctar das flores de uma árvore próxima.

"Observe esses beija-flores." Taisha mencionou com um leve gesto de sua mão." Observe o que eles fazem."

A jovem aprendiz virou seu olhar para um árvore em completo desabrochar e observou enquanto um dos pássaros mergulhava seu longo bico dentro de uma flor. O segundo beija-flor se aproximou, e o primeiro fisicamente o afastou. Então, aparentemente satisfeito por um momento após sua longa bebida, o primeiro beija-flor sobrevoou um pouco acima e mais distante da flor, enquanto o segundo beija-flor pausou no ar como se tentasse sua sorte ao acessar a flor novamente. O primeiro beija-flor novamente não queria nada com ele; ele mergulhou repetidamente em direção ao segundo beija-flor o afastando como que dizendo: "Ei, nem pense em se aproximar; nem pense em olhar para minha flor!"

O aprendiz observou com admiração.

"Você está assistindo ao "olho do predador" em ação, Taisha disse calmamente. "Nós nos esquecemos, mas como seres vivos nós fazemos o mesmo."

"O olho do predador?" questionou o aprendiz. "O que é isso?"

"Um reino no qual os videntes do México antigo fizeram o máximo para ir além. Ele se manifesta num olhar, um olhar onde tudo o mais se dissolve no objeto que eles estão à procura... Diga-me, tudo e todos não desapareceram exceto sua visão dessa cadeira que você perseguiu?"

"Bem, sim," a aprendiz concordou com a cabeça depois de pensar por um momento. Ela tinha de admitir que por segundos tudo saiu de foco exceto aquele simples assento.

"Nossos olhos são os possuidores de nosso intento," então disse Taisha. "Seja para onde vamos, este é o lugar que colocamos nosso intento, e seu intento estava nessa cadeira. De fato, ao segurá-la, você viu sua companheira somente como uma competidora que você tinha de expulsar para fora do caminho; na realidade, você olhou para esta cadeira como se ela fosse sua última batalha na Terra; como se a possur fosse a coisa mais importante na sua vida. Este é o olho do predador."

"Que podemos fazer a respeito?" perguntou a aprendiz.

"Primeiro temos que admitir que somos capazes de fazer isso, que a maioria de nossos atos são atos atos de predador; então podemos colocar nosso intento em algo maior que nós mesmos. Podemos ter a discliplina de intentar além do universo do self."

"Olhe para aquele lagarto ali, se banhando no sol," Taisha continuou, apontando na direção de umas largas plantas de cactus que estavam à margem do pátio de tijolos. "Mas não se mova muito rapidamente ou ele irá fugir. Como nós, ele pode sentir o intento dos olhos de outros sobre ele e não gosta de ser observado diretamente. Então, gire sua cabeça vagarosamente e o observe de sua periferia... Você pode observar sua barriga subir e descer, suas laterias se moverem para cima e para baixa enquanto ele respira?… Porque você não tenta copiá-lo? Ele parece estar apreciando estar dessa maneira."

Se acomodando em sua cadeira, com o lagarto na sua visão periférica, o aprendiz vagarosamente sentou o subir e descer se dua barriga após cada respiração. Após várias respirações, ela liberou seu estômago e sua mandíbula de seu intenso aperto.

"O que você vê agora?" perguntou Taisha.

"Eu vejo todo mundo nessa mesa," o aprendiz começou. O quanto que eles estão apreciando uns aos outros, e realmente apoiando uns aos outros, com seus sorrisos e garagalhadas."

"Algo mais?" perguntou Taisha.

"Eu estou quase embaraçada de dizer," sussurrou a aprendiz. "Mas eu de repente sinto o apoio de cada um... talvez pela primeira vez, Eu sinto o gentil afeto de minha companheira em deixar-me sentar aqui como ela deixou. Eu sinto os raios de sol, a árvore emprestando sua sombra para todos nós; o lagarto, sua respiração; os beija-flores mostrando sua luta; o verde dos cactus, as flores compartilhando sua fragrância."

"Excelente! E o que você quer fazer agora?"

"Eu quero dizer obrigada a você, Taisha, e dar o me assento de volta à minha companheira."

A jovem aprendiz se levantou graciosamente do lado de Taisha e foi em direção à sua companheira, se desculpou, e a agradeceu por ter emprestado sua cadeira.

Agora, em sua própria cadeira, a aprendiz tomou deliberadamente um olhar varredor ao redor do jardim e da mesa. Então ela sentiu uma vibração de afeto, um arco de intento onde todos estavam tomando conta de todos ao mesmo tempo.

http://www.cleargreen.com/mirrors/portuguese/seminars/2006_palmsprings.html

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