Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda: Jacobo Grinberg

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Havíamos tido a oportunidade de participar de conferências que Carlos Castaneda dava em diferentes lugares da Cidade do México (incluindo nossa casa) e se havia estabelecido uma relação estreita e pessoal com ele. Dias depois de nosso matrimônio, Terita falou com ele por telefone em Los Angeles e externou seu desejo de ir visitá-lo comigo; o nagual aceitou, incluindo em sua lista Carlos Hidalgo, com quem se comunicou no dia seguinte.


A partir dessa conversa ficou decidido que iríamos um total de seis pessoas do México.

Como presente, levei para ele uma coleção de meus livros, que recebeu com zombeteira alegria dizendo que eu escrevia livros a quilo. Aquela era sua forma usual de reagir cada vez que alguém, em seu grupo, manifestava sinais de ego. Obviamente, eu estava orgulhoso de meus livros, identificava-me com eles e sua enorme quantidade era para mim um sinal de meu valor.

Ao nagual havia custado suor e lágrimas se desprender de sua história pessoal e de seu ego para agora reforçar o de outro. Ao entregar-lhe meus livros, eu supunha implicitamente que ele se interessaria pelo seu conteúdo e até apoiaria sua publicação. Terita, igualmente ingênua, porém mais corajosa, disse a ele que meus livros diziam a mesma coisa que os dele, só que utilizando uma linguagem científica. Depois percebemos que tudo aquilo era sinal de imaturidade e que o nagual reagira a isso com desprezo. De fato, muitas vezes nos disse que nossa amizade não lhe importava nada, e que jamais fôssemos pensar que nossa relação se baseava em afeto e carinho. O mundo cotidiano, repleto de estruturas, convencionalismos e hipocrisias era, para o nagual, desprezível e não merecia maior atenção. Realmente, a maioria das pessoas vivia ali, dentro de seus cárceres psicológicos e seus convencionalismos e sua importância pessoal, mas não ele nem ninguém de seu grupo íntimo. Repetia constantemente:

“O mundo cotidiano é manejável com o dedo mindinho; a energia deve ser utilizada para alcançar a liberdade.”

O mundo cotidiano incluía todos os desejos de fama, dinheiro, posição e todas as relações de estrutura. Todo desejo mundano baseado na vida de necessidades devia sua existência ao acordo e à convenção e devia ser rechaçado totalmente. Tanto Terita quanto eu acreditávamos estar fora de estruturas e pertencer a um estrato de buscadores da liberdade. Entretanto, as palavras do nagual nos deprimiam e muitas vezes chegamos a perceber o mundo e a nós mesmos nele como algo sombrio e triste, frio e sem esperança. O nagual parecia incentivar tal visão como preparação para chegar a um estado magnífico de vitalidade e otimismo no qual ele parecia viver incansavelmente o tempo todo. A verdade é que demorávamos meses para nos recuperar do terrível impacto que nos causava cada uma de suas visitas e, por fim, o temor de vê-lo era maior que o desejo de encontrá-lo. Suas palavras confirmavam nosso estado:

“Um contato com o nagual é um evento terrível do qual custa muito recuperar-se. A força da personalidade do nagual é maiúscula e indefinível.”

Fomos apresentados às pessoas do grupo do nagual e passamos com eles uma semana cheia de aprendizagens, provas e aventuras que relatarei mais tarde. Ao nos despedirmos, o nagual disse que seu grupo desejava receber cartas nossas. Eu levei isso muito a sério e, já no México, me dediquei a escrever cinco volumosas missivas que entreguei a um amigo comum que visitaria o nagual em Los Angeles no dia seguinte.

Passaram-se várias semanas sem que tivéssemos notícias do nagual e seu grupo, até que uma tarde Carlos Ortiz falou por telefone com Terita anunciando-lhe que, no dia seguinte, o nagual viria ao México, mas sem dizer a hora e o vôo em que o faria.

Ficamos entusiasmados com a perspectiva de vê-lo novamente e esperamos o dia todo a notificação do seu número de vôo, mas esta nunca chegou. À noite, Terita e eu decidimos sair em sua busca pela Cidade do México sem ter idéia de onde encontrá-lo. Fomos a um hotel e depois de perguntar, em vão, por seu quarto, de repente soubemos que se encontrava no Zócalo.

Fomos até lá e, numa ruazinha a uma quadra do mesmo, topamos com ele e todo um grupo de pessoas que o acompanhava.

Aquela era uma verdadeira façanha de poder que Terita e eu havíamos conseguido fazer; encontrar o nagual na gigantesca Cidade do México em um local preciso e a uma determinada hora sem indicações externas. Eu, de pura satisfação, plantei-me em frente ao nagual e dei um enorme grito de saudação, diante do que ele brincou dizendo que, depois de tudo o que havia visto, já não distinguia o que pertencia a este ou a outros mundos e que minha súbita presença acompanhada do poderoso grito o haviam surpreendido. Ao nos abraçarmos, disse-me que encontrá-lo dessa maneira havia sido um ato de poder.

Alegres e festejando o encontro, fomos até o Café Tacuba e nos sentamos a uma mesa. O nagual conversou sobre suas experiências e eu lhe perguntei se havia recebido minhas cartas. Olhou-me com um gesto de malícia e disse:

“Suas cartas se perderam; nunca as recebemos.”

Minha reação ao ouvir isso foi de fúria contra o amigo comum a quem encomendei entregá-las e assim o externei, enquanto ele me perfurava com seu olhar. Quando chegamos em casa disse a Terita que a perda das cartas era tão dolorosa que teria de reproduzi-las de memória e assim o fiz durante boa parte da noite. No dia seguinte, Terita tinha um encontro com o nagual e por isso ela era a indicada para entregar-lhe as cartas. Depois soube que, no ato de entrega e ao saber que eu havia reproduzido as cartas, o nagual se escangalhara de rir, zombando de mim por minha obsessiva compulsão para escrever e por meu enorme ego. Meses mais tarde, meu amigo me disse que as cartas originais tinham sido entregues tal como havíamos combinado e que, em uma sessão memorável, foram lidas para deboche e zombaria de todos.

Não consegui escrever uma linha por seis meses depois desses acontecimentos e levei outros seis para entender e elaborar seu significado.

O dia em que chegamos a Los Angeles coincidiu com dois acontecimentos: o final da Guerra do Golfo Pérsico e o término de uma estiagem mortal que havia submetido a Califórnia a um inferno de calor e seca. Parados na recepção do aeroporto nos esperavam o nagual e as integrantes de seu grupo mais próximo.

Cumprimentaram-nos com um carinho claro e direto e depois nos convidaram para almoçar em um restaurante italiano. Éramos cerca de doze pessoas e todos nos sentamos juntos em uma mesa grande.

Comentamos sobre o fim da guerra e da seca e o nagual os considerou sinais auspiciosos de nossa chegada.

Depois nos levaram a um hotel modesto e velho no qual nos surpreendeu a familiaridade do encarregado, que nos recebeu como se fôssemos velhos amigos e conhecidos.

Depois de acomodar nossos pertences nos quartos, o nagual convidou os homens do grupo a acompanhá-lo e juntos fomos pegar sua filha Nuri, uma garota magra, extraordinariamente sensitiva e vestida como homem, que me surpreendeu pela forma como entendeu a teoria sintérgica. Ela havia me perguntado qual era minha ocupação e eu contei sobre meu trabalho na Universidade e a pesquisa acerca das hipóteses da Teoria Sintérgica. Sua compreensão foi direta e total como se minha explicação houvesse assentado perfeitamente dentro de sua mente.

Depois o nagual nos levou para ver os jardins da Universidade da Califórnia, a casa em que vivia quando iniciou sua aprendizagem e um enorme centro comercial no qual, tomando-me pelo braço, disse-me que se interessava muito pela cabala e que seus antepassados haviam sido judeus. Eu disse a ele que a cabala para mim era um ensinamento precioso. Por fim, o tema da conversa derivou para os xamãs do México em geral e os graniceros em particular, com sua capacidade de fazer chover e seu interesse em detectar sinais e augúrios a partir de eventos da natureza. Mencionei que Dom Lucio era um expert em “ler” o vulcão Popocatépetl. Percebi que o tema lhe interessava profundamente e em dado momento esteve a ponto de me perguntar algo a respeito, mas por alguma razão não o fez.

Ao regressar ao hotel encontrei uma Terita furiosa, reclamando de por que motivo as mulheres haviam sido excluídas do encontro. Expliquei que a decisão não tinha sido minha e, quando se acalmou, fomos dormir.

A noite foi cheia de presenças estranhas dentro do nosso quarto e (depois viemos a saber) também no de nossos companheiros. Era como se olhos e ouvidos sutis estivessem nos observando, incluindo o conteúdo de nossos sonhos. Soubemos que era o nagual e sua gente que assim nos vigiavam.

No dia seguinte, voltamos a nos separar em um grupo de homens e de mulheres, e nós acompanhamos o nagual. Fomos comer e no resto da semana engordei vários quilos de tanto fazê-lo.

O nagual dizia que o desgaste energético que fazíamos era tão grande que devíamos compensá-lo comendo muito.

À tarde assistimos a uma cena na qual Florinda Donner, uma das pessoas mais próximas ao nagual, reclamou sobre a separação que este fazia entre gêneros. O nagual explicou que éramos muitos e sua forma de interagir com as mulheres era muito diferente de com os homens, mas que a partir daquele momento já não nos separaria. Disse-nos que no passado ele concebia a mulher como inferior, mas que isso já não existia em sua mente:

“A mulher é um ser com conhecimento direto, à diferença do homem, tão apegado à linguagem”, disse-nos com convicção e depois continuou: “A mulher é um ser de ação e possui um órgão extra, a vagina, que lhe permite façanhas de percepção que o homem nem imagina”.

Convidaram-nos para a casa de Margarita, uma amiga do nagual, que parecia pertencer a seu grupo íntimo, mas de forma diferente da do resto das mulheres. Margarita era terrena e cuidava do nagual com uma ternura e delicadeza mundanas. Sua casa de tipo clássico californiano parecia um lugar fora do tempo ou retido no passado. Sentamos ao redor de uma mesa redonda, enorme, e depois de uma refeição também enorme passamos a uma sala e o nagual se sentou em uma poltrona de encosto alto com Carol, a mulher nagual, a seu lado.

Terita e eu dissemos que acabávamos de nos casar em Totolapan e, quando escutaram o nome do lugar, nos disseram, assombrados, que eles também haviam se casado ali cumprindo uma ordem de Dom Juan.

“Fizemos isso”, afirmou o nagual com segurança, “como uma estratégia perante este mundo.”

Para o nagual e seu grupo, existiam dois mundos claramente separados, o deles e o do resto. Ou se pertencia a seu mundo ou ao outro. Seu mundo era fechado e não admitia visitantes; nós, o grupo do México, éramos uma exceção, as portas de seu mundo se haviam aberto para que penetrássemos nele. Este evento era algo totalmente novo e só o Espírito decidiria se ficaríamos dentro ou se as portas voltariam a se fechar deixando-nos fora.

“O pássaro da liberdade”, disse o nagual com extrema seriedade, “está voando sobre suas cabeças. Depende de vocês se o deixam passar ou se vão com ele. Se o deixam passar, jamais aparecerá de novo e terão perdido uma oportunidade que nunca se repetirá.”

A explicação de nosso estado privilegiado era que existia uma dívida para com o México e nós, mexicanos, havíamos sido depositários do pagamento.

O nagual e sua mulher haviam tido uma filha e esta era a garota magra que havíamos conhecido no primeiro dia.

O grupo mais próximo ao nagual estava formado integralmente por mulheres. Algumas que eu conheci eram Carol, a mulher nagual, Nuri, sua filha, Florinda Donner e Ana. Todas tinham em comum algo que as diferenciava do resto das mulheres que eu havia conhecido antes, excetuando algumas mulheres de Tepoztlán, um anseio pela liberdade e uma força livre de sentimentos mundanos. Ana era a mais notória por essas qualidades. Florinda era forte e direta e a que mais se parecia com o nagual. Carol parecia ser de outro mundo, distante e etéreo.

Nuri era inteligente e certeira como uma lâmina de aço, no entanto havia algo nela que ainda não estava definido, algo por amadurecer. Todas eram magras e masculinizadas.

Durante essa semana o nagual também nos apresentou aos membros do seu grupo periférico, estudantes, homens e mulheres que assistiam a suas aulas de Tensegridade, exercícios físicos que o nagual mesmo desenvolvia e transmitia em um salão enorme perto do centro de Los Angeles. O grupo periférico se distinguia do íntimo por não haver alunos diretos de Dom Juan e não possuir as características que descrevi antes para o grupo íntimo.

Eram pessoas de diferentes idades e nacionalidades com o objetivo comum de querer conhecer mais sobre os ensinamentos dos bruxos.

O nagual conhecia muita gente e gostava de nos contar anedotas sobre os notáveis que lhe haviam sido apresentados: presidentes, ministros, atores e atrizes e grandes mestres espirituais. De todos se expressava de forma similar, debochada e cruel.

Dizia-nos que não tinham energia suficiente, que eram uns idiotas com um ego exagerado e no fim sempre recordava Dom Juan como o único ser verdadeiramente livre que havia conhecido.

Várias afirmações do nagual me pareceram incongruentes; dizia que o fato de nos apresentar ao seu grupo íntimo serviria para nos convencer de que seu estilo de vida e seus livros eram reais.

Posto que eu nunca havia duvidado disso, a afirmação me pareceu estranha. Também falava de outros membros do grupo que nos apresentaria a seu devido tempo, em particular uma mulher que somente apareceria se conseguíssemos dar o “salto” para a liberdade total:

“Aparecerá”, dizia em tom misterioso, “no momento preciso.”

Fazia referência contínua ao fato excepcional de estarmos juntos e a seu significado. Dizia-nos que em parte as portas se haviam aberto para nós como uma homenagem ao México e um pagamento por tudo o que Dom Juan, um mexicano, havia feito por ele. Depois se queixava da ausência de Dom Juan: "Velho fdp que se foi e me deixou sozinho”.

Dizia-o com tristeza, e sentimento similar expressava sobre Florinda, a velha, que havia desaparecido na frente de todos em uma tarde memorável. Florinda Donner tentara impedir e o nagual, ao detê-la com um braço, recebeu um impacto energético tão atroz que tiveram que interná-lo em um hospital para salvá-lo de uma peritonite fulminante. Florinda, a velha, havia sido sua mestra e guia depois do desaparecimento de Dom Juan e, quando ela também se foi, no mesmo dia do terremoto da Cidade do México de 1985, o grupo caiu em uma desesperança sem fundo. Decidiram então alugar um jatinho em Costa Rica e lançá-lo de bico sobre um vulcão, com o objetivo de desaparecer deste mundo, coisa que obviamente não fizeram.

De Florinda, a velha, o nagual contava anedotas incríveis.

Dizia que era expert em mudar a posição do ponto de encaixe para posições inverossímeis, tais como a de uma mosca. Ao fazê-lo, transformava-se nesse inseto, o que lhe agradava, já que as moscas vivem eternamente dedicadas a fazer amor sentindo orgasmos sem fim.

“Mas existe um preço gigantesco para essas mudanças”, dizia-nos com seriedade, “e é que já não se regressa igual como se foi.”

Florinda, a velha, o havia obrigado, como um antídoto para sua súbita notoriedade, a servir como cozinheiro em um restaurante de beira de estrada. Durante um ano, o nagual se dedicou a fazer hambúrgueres, acompanhado de uma mulher que era leitora fanática dos livros que ele havia escrito. Essa mulher desejava conhecer Carlos Castaneda sem saber que o tinha a seu lado. Em uma ocasião, um grande Cadillac estacionou na frente do restaurante tendo dentro um homem que escrevia algo em um caderno de notas. A mulher estava certa que se tratava de seu ídolo, e disse isso ao cozinheiro, que a acompanhou morrendo de rir por dentro.

Em outra ocasião, um amigo o convidou para uma reunião secreta em que Carlos Castaneda daria autógrafos. Ao fundo de um corredor, em um pequeno quarto, o impostor havia autografado um de seus livros.

Também nos contou sobre um congresso de antropologia no qual sua obra foi duramente criticada. No centro do auditório havia um senhor com uma máscara indígena que o cobria. Todos supuseram que se tratava de Castaneda e, ao criticá-lo, apontavam-no com o dedo em um gesto acusatório. Na realidade não se tratava do nagual.

A semana foi repleta dessas histórias que o nagual contava sem parar durante horas inteiras. Todas elas tinham como tema central os costumes estúpidos do mundo. Falou de seu aprendizado ao lado de seu mestre e de uma série de eventos fantásticos relacionados com ele mesmo, com Carol e com Nuri.

Já que ele publicou essas histórias em seu último livro, “A Arte do Sonhar”, não as repetirei aqui. O nagual tinha dúvidas sobre publicá-lo, mas Florinda Donner o convenceu a fazê-lo. A razão da dúvida eram os eventos extraordinários relatados no livro e se seriam compreendidos. O que eu realmente gostaria de relatar é o que concerne ao grupo de indígenas que Dom Juan legou a ele e Las Gordas.

Uma manhã, Florinda nos ligou para informar que o nagual precisara viajar em busca dos índios de seu grupo, os quais estavam incomodados e com ciúmes da nossa presença. Quando o nagual voltou dessa viagem, disse-nos que Nuri havia sido seqüestrada e que ele tivera que viajar centenas de quilômetros para resgatá-la. Os índios haviam percebido nossa presença e todos os ensinamentos que recebemos e desejavam vingar-se. Nuri foi resgatada depois de uma luta feroz, mas os índios haviam cortado seu cabelo como advertência. Quando a vimos na casa de Margarita seu cabelo estava muito curto e com um penteado diferente do da véspera. Advertiram-nos para ter cuidado na rua, porque nos vigiavam e a qualquer momento poderíamos sofrer uma agressão. O nagual se referia aos índios de seu grupo como um bando de imbecis que não haviam aprendido nada e só constituíam um peso morto que ele tinha que sustentar.

“Comparado com vocês”, nos dizia, “são uns imbecis que não entendem nada e dos quais devo me afastar.”

Aquelas afirmações nos faziam sentir muito bem e fortaleciam nosso ego. Somente Carlos Hidalgo percebia que era uma estratégia utilizada pelo nagual. A verdade é que depois de reforçar nossa importância pessoal nos atacava, fazendo-nos sentir uns imbecis. Esses vaivéns entre reforçar nosso ego e depois despedaçá-lo se repetiram durante toda a semana.

Também nos falou de Las Gordas: duas mulheres do grupo íntimo que se haviam oposto à liderança do nagual. Este havia tido que empregar toda a sua energia para submetê-las, mas em lugar de consegui-lo havia desencadeado nelas uma crise de loucura cujo desenlace havia sido a morte. A história era macabra e me produziu uma sensação muito desagradável.

Uma tarde, fomos convidados à casa de um dos membros do grupo periférico. O nagual não foi mas nos acompanharam as mulheres de seu grupo íntimo. A casa estava localizada nos subúrbios e sua fachada estava adornada com uma enorme bandeira norte-americana que ondulava ao vento. Em Los Angeles abundavam essas manifestações de nacionalismo motivadas pela Guerra do Golfo Pérsico. Vê-la na casa de um dos chegados ao nagual produziu-me uma sensação de confusão. O dono da casa, um homem fornido com trejeitos femininos, recebeu-nos com grandes mostras de afeto e se vangloriou de suas coleções de moedas, relíquias tibetanas e a comida que havia preparado em nossa honra. Senti-me como no México quando uma de minhas tias fazia uma de suas comidas burguesas e, não suportando, saí à rua e me sentei em um banco, esperando que essa reunião absurda terminasse. Pela manhã, o nagual indagou sobre nossas impressões da véspera e eu lhe disse que havia sido insuportável, mas que o resto do grupo não estava de acordo comigo. Deu-me razão, felicitando-me por minha percepção.

Pouco a pouco, ia compreendendo que tudo o que acontecia com o nagual estava premeditado e era resultado de um padrão, o qual estava idealizado para nos pôr à prova. O nagual observava nossas reações, notando o aparecimento de nossos egos, estruturas aprendidas e bloqueios. Além do mais era um expert na medição de nossos níveis energéticos e aberrações.

Continuamente nos falava da necessidade de deixar para trás o ego e nos instruía em técnicas para apagar nossa história pessoal. A principal delas era a recapitulação, que consiste em reintegrar eventos e imagens do passado, recuperando todas as cargas energéticas associadas a eles até alcançar uma observação equânime dos mesmos.

Também opinava que o Universo era um lugar em que imperava a violência e a depredação de uns seres sobre outros. Eu me opunha a essa visão defendendo o mundo como um lugar regido pelo amor. O nagual zombava de mim dizendo que o importante era a energia pessoal e o poder. Afirmava que o sexo era a melhor forma de perder energia e que devia ser evitado a qualquer preço.

Alguém do grupo protestou, afirmando que ele e sua namorada alcançavam níveis esplêndidos de consciência durante suas relações sexuais. O nagual pensou um momento e disse que nesse caso não havia objeção. Mas não o disse porque acreditasse e sim para seguir a corrente. Por essa ocasião e depois de ouvi-lo vários dias, comecei a distinguir quando o nagual falava a sério e quando ficava do nosso lado como que dizendo que era inútil tentar nos modificar. O expert nessas detecções era, contudo, Carlos Hidalgo. Quando à noite nos reuníamos para comentar os acontecimentos do dia, ele nos instruía sobre as táticas e estratégias do nagual. Dizia-nos que quase nunca falava a sério e que seus atos, na maioria, eram simples subterfúgios para ativar nossas defesas egóicas e nossos apegos.

Nesse sentido, sua principal tática era nos convidar para ficar com ele e seu grupo, abandonando tudo: trabalho, bens, casa e família. Contava-nos o caso de uma senhora que havia jurado fazer tudo o que ele mandasse sob a condição de permanecer em seu grupo. O nagual lhe pediu que cortasse o cabelo, sabendo que era seu bem mais apreciado. A senhora, histérica, rogou que ele pedisse qualquer outra coisa menos isso. Depois dessas histórias ficava nos olhando e eu sentia que éramos como essa senhora: desejosos de ser livres, mas apegados a nossos cárceres e sem poder deixá-los.

Por fim chegou o dia do retorno ao México. O nagual nos levou ao aeroporto dizendo-nos que não sabia se nos voltaria a ver, posto que, tal como Dom Juan, ele e seu grupo teriam que desaparecer no outro mundo e o momento de fazê-lo já estava muito próximo.

Necessitava de uma massa crítica para consegui-lo e desejava nossa energia. Havia convidado Terita para ficar com Florinda e, para mim, disse que precisava de meu cérebro para ajudá-lo a compreender eventos inexplicáveis. Antes de descer do carro, no aeroporto, disse-me que não me fosse, mas não lhe fiz caso e, com um sentimento de perda, pegamos o avião que nos levaria de volta à Cidade do México.

Poucos dias depois, chegou o aviso de que o nagual vinha ao México, quando ocorreu a façanha relatada antes, de encontrá-lo perto do Zócalo capitalino.

No Café Tacuba combinamos de nos ver no dia seguinte para realizar uma excursão às grutas de Cacahuamilpa, nas quais o nagual nos daria uma iniciação ao xamanismo.

Todos saíram de manhã bem cedo para as grutas, menos eu, que me dirigi a Tepoztlán porque desejava pegar minha filha para que conhecesse o nagual. Não a encontrei e, quando cheguei a Cacahuamilpa, encontrei todo o grupo sentado ao redor de uma mesa depois de comer, preparando-se para entrar nas grutas. Pedi uma refeição ligeira e isso fez com que a entrada se atrasasse por uma hora. O nagual, diante do atraso forçado, manifestou uma conduta estranha; passeava de um lado para o outro impaciente e nervoso e, em certo momento, totalmente desesperado por ter que esperar. Aproximei-me dele e lhe disse que me parecia que sua forma de agir estava determinada pela cultura norte-americana na qual vivia e na qual tudo era previsível.

“Aqui no México”, me atrevi a dizer-lhe, “as coisas nem sempre saem como se planeja.”

Olhou-me assombrado e me respondeu que essa não era a razão de seu estado, e sim o fato de que os augúrios não correspondiam. Nesse momento uma senhora índia vendendo artesanato se aproximou e o nagual praticamente gritou para que ela nos deixasse em paz.

Por fim, pudemos entrar na gruta e o nagual anunciou que devíamos nos separar do resto das pessoas, dos turistas e visitantes casuais que nos rodeavam.

“Nossa missão aqui é transcendente”, disse com solenidade, “eu lhes mostrarei a estátua do guerreiro da mesma forma que Dom Juan fez comigo.”

Começamos a caminhar e meu corpo a protestar pelo ambiente sufocante e o ar rarefeito que não me bastava para respirar.

Além do mais, minha mente começou a se queixar; me dizia que aquilo era uma cerimônia pagã da qual não devia participar. Sentia que me asfixiava, que o nagual era um farsante por sua impaciência e que estava me obrigando a adorar uma pedra, traindo com isso todo o meu judaísmo. Por fim, não suportando mais, regressei à saída e fui para casa. Esperei metade da noite pela volta do grupo, que havia decidido que nos reuniríamos ali e, enquanto o fazia, observei uma andorinha que se acercava de um ninho ocupado por outras andorinhas, que a rechaçavam uma e outra vez até que esta se afastava. Era exatamente assim que me sentia; havia me separado do grupo e agora desejava unir-me a ele mas era rechaçado. O grupo não apareceu em toda a noite, confirmando meu sentimento de ser como a andorinha rechaçada, e fui dormir.

No dia seguinte fui buscar o nagual em seu hotel e o encontrei tomando café da manhã em companhia de vários do seu grupo. Olhou-me com uma indiferença e um desprezo óbvios que me fizeram sentir terrivelmente mal. Pedi desculpas por haver saído das grutas contando a anedota das andorinhas, mas sentindo-me um perfeito estranho. Nesse momento, tentei me lembrar de quando havia aceitado Carlos Castaneda como nagual, mas não pude.

Também disse que meu atraso havia sido motivado pelo desejo de apresentar o nagual à minha filha. O nagual me olhou com um reflexo estranho em seus olhos e riu às gargalhadas:

“Quer me apresentar à sua filha!”, exclamou entre risadas.

Isso me abalou por completo. Para mim, o desejo de apresentá-lo à minha filha estava motivado pela idéia inocente de apoiar seu crescimento ao conhecer uma pessoa como o nagual. Seu deboche e sua expressão escondiam, por outro lado, algo totalmente alheio à inocência. Nesse momento, algo se rompeu dentro de mim e comecei a ver o nagual com outros olhos.

Entretanto, não fui embora dali. Havíamos sido convidados para ir a Tula e no meio da agitação da saída me esqueci do meu mal-estar.

Como sempre, o nagual começou a falar e não parou um segundo em todo o trajeto. Ao entrar no carro havia me proibido de pôr música. Disse-nos que ele já não possuía um “eu”, que tudo o que restava nele eram histórias de naguais que saíam de sua boca como por si mesmas. Contou-nos que Dom Juan o havia obrigado a separar-se de todos os seus amigos e que durante meses permaneceu encerrado em um quarto de hotel sem ver ninguém e ficando maluco, até que algo se reacomodou em seu interior e deixou de precisar de companhia. Quando chegamos a Tula, nos levou à praça central e à igreja na qual havia tido um encontro com o Desafiante da Morte.

“Achei que tinha sido em Oaxaca”, disse alguém do grupo.

“Foi aqui”, respondeu o nagual, “e aqui também desapareci durante nove dias no outro mundo.”

Entramos na igreja na qual o nagual havia se encontrado com o Desafiante e me pareceu o lugar mais triste do mundo. Depois demos voltas pela praça e o nagual nos apontou o banco favorito de Dom Juan e recordou ter visto dali a morte de uma pessoa.

“Com Dom Juan todo acontecimento era um ensinamento”, disse com seriedade. “Antes de conhecê-lo, ver a morte de alguém era um evento cotidiano, mas com Dom Juan vi a morte se aproximando e todo o evento adquiriu um matiz mágico e fantástico.”

Depois nos disse que o Desafiante da Morte se havia fundido com a mulher nagual e que Carol continha ambos em um. Todos nos voltamos para olhar Carol e ela assentiu com a cabeça.

“Com esta mulher”, disse o nagual, “viajei para onde ninguém pode viajar.”

Olhamos de novo para Carol e ela tornou a assentir com a cabeça.

Durante o tempo em que o nagual esteve no México, além de Tula fomos a Teotihuacan. Recordo que, ao chegar e ver a pirâmide do Sol, senti um calafrio e uma pressão no ventre. Comentei minhas sensações, interpretando-as como associadas a uma detecção da energia do lugar. O nagual se virou para mim e disse, rindo:

“Bobagem, é um peido que está preso aí.”

Caminhamos pela estrada dos mortos e o nagual debochou de tal nome. Disse-nos que os espanhóis haviam encontrado restos humanos ali e por isso lhe deram esse nome, mas que na verdade o que ocorria ali era fantástico.

Centenas de espreitadores se colocavam em cada lado da avenida e juntos visualizavam a pirâmide da Lua. Quando o faziam à perfeição e em total sincronia, desapareciam deste mundo. Se alguém falhava, ficava então mutilado e seus restos espalhados pelo chão.

Depois de dizer isso, o nagual se colocou em uma esquina e olhou para a pirâmide como se tentasse reproduzir o sentimento daqueles homens capazes de viajar juntos para outros mundos.

Não voltei a ver o nagual e às vezes me pergunto se a Ave da Liberdade passou em cima de mim e eu a deixei passar, ou se tudo o que vivi foi uma peça a mais do enredo da minha vida, peça necessária e valiosa exatamente tal como a vivi. Em algumas ocasiões me recrimino por não ter deixado tudo e me entregado totalmente ao nagual e a seu caminho. Sobretudo quando me sinto preso a meu trabalho ou a este mundo penso que perdi a oportunidade da minha vida e que algo que desejei durante anos se tornou realidade, mas não fui capaz de agarrá-lo. Mas depois me lembro da risada de zombaria do nagual quando lhe mencionei meu desejo de que conhecesse minha filha, minha Estusha amada, e algo me diz que tudo o que aconteceu foi o que devia ter acontecido, nem mais nem menos.

O nagual nos pediu para não divulgar as experiências ocorridas durante nossos encontros. Durante três anos assim o fiz, mas agora sinto que tudo fazia parte de uma estratégia na qual o importante era o impacto sobre nossas consciências e a capacidade de transformá-las. Eu estou muito agradecido ao nagual por tudo o que me mostrou de mim mesmo, minhas dependências e apegos, meu ego e minha obstinação, mas não posso aceitar guardar segredos.

Como uma mostra de seu ensinamento e do valor que deu à liberdade como o maior bem e meta a se conseguir, tomei a liberdade de descrever algumas coisas que me recordo daqueles dias extraordinários nos quais fui testemunha direta das manifestações de uma das personalidades mais valiosas de nosso tempo.

Oxalá isso sirva a quem o leia.

Uma última palavra: o nagual deixou de se comunicar com a maioria de nós, à exceção de uma das mulheres do nosso grupo. Falava-lhe dia e noite, instigando-a a abandonar tudo e unir-se ao seu grupo. O problema é que esse abandono implicava deixar sem proteção um de seus filhos, que dependia emocional e materialmente de sua mãe. Submeteu-a a tal pressão que, em uma ocasião, ela teve que pedir-lhe para não mais entrar em contato. Quando nos contou o que estava acontecendo e a terrível pressão à qual o nagual a submeteu, surpreendi-me profundamente e continuo sem entender o evento.

O nagual nos advertiu, várias vezes, que sua estratégia não era a mesma de Dom Juan e que nunca chegássemos a pensar em vínculos de carinho ou dependência emocional com respeito à sua pessoa. Isso foi difícil de digerir e aceitar, mas afinal de contas se mostrou verdadeiro. O nagual desapareceu e nunca mais o vimos. Não foi um mestre com continuidade e espírito de permanência e proteção para com seus discípulos. Isso nos ensinou a não depender de figuras de poder em nosso caminho e certamente se constituiu em um impulso para a independência e a liberdade. Agradeço-lhe por esse gesto, difícil mas necessário.


Nota do editor: agradecemos a Carlos Ortiz de la Huerta, que amavelmente nos facilitou este artigo, que tinha em seu poder há muitos anos.


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