A realidade é uma interpretação

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Consciência não é mero saber, é estar ciente de si e da relatividade de seu próprio olhar sobre a realidade.

A realidade é uma interpretação que se faz de acordo com o conteúdo mental e emocional de cada um.

Cada um vê a si mesmo, é preciso ir além disto, se não ficamos como a Mariângela, a seriema aqui de casa que ataca os vidros da janelas pois não se reconhece no próprio reflexo.

Não se reconhecer (no outro) é a fonte de boa parte de nossos sofrimentos. Dá origem a fanatismos, intransigências, brigas, violências e carma.

A consciência de si é a percepção da própria interpretação e da interpretação do outro a respeito da realidade.

A realidade do consenso é tão somente a interpretação dominante, pode ser chamada de matrix. Cada um tem uma matrix dentro de si, um sistema de interpretação.

A comunicação entre duas pessoas que possuem sistemas de interpretação diferentes (religiões, ideologias, filosofias diferentes) se dá quando ambas tem consciência de si, quando possuem uma percepção mais ampla que  permite trafegar entre diferentes sistemas interpretativos e, portanto, são capazes de perceber uma situação de forma mais aberta, com uma percepção mais flexível.

Assim é muito importante cultivar mente e coração com uma diversidade de sistemas de interpretação, perceber sua relatividade e, sobretudo, ser capaz de observar, espreitar, olhar para si mesmo através da meditação e do silêncio interior, pois esta é a chave principal para ir além da matrix pessoal e coletiva.

Os três monges

É uma velha tradição dos mosteiros budistas do Japão.

Sempre que um monge viajante deseja passar a noite num mosteiro, deve passar numa prova. Deve vencer um debate sobre budismo com um dos monges residentes. Mesmo que vença o debate, poderá passar apenas uma noite. Isso é simbólico e muito bonito, num debate intelectual pode-se gerar muito fogo sem nenhuma luz. Pois a "mente" discursiva, mesmo que seja brilhante, não é capaz de compreender a Verdade, assim o monge deve, após o pernoite, seguir em sua viagem em busca do Conhecimento.

Certa feita, um monge viajante chegou a um mosteiro onde haviam dois irmãos. Um mais velho e sábio e outro mais moço, caolha e um verdadeiro idiota.

O mais velho e sábio dos irmãos naquele dia estava muito cansado para debater, tinha estudado muito, e quis colocar o irmão mais novo frente à frente com o monge viajante. Contudo, o monge viajante devia ser um homem muito vivido e experiente, devido as suas inúmeras viagens e o irmão mais velho pensou se não existiria alguma maneira de equilibrar as condições do debate, já que seu irmão caolha não passava de um idiota.

Até que teve uma brilhante idéia . O debate seria efetuado em silêncio.

Ao terminar o debate o monge viajante sai para cumprimentar o irmão sábio.

Seu irmão é um homem maravilhoso ! Venceu o debate brilhantemente! - disse o viajante.

Mas como? Ele não passa de um idiota! - pensou o estudioso consigo mesmo.

- Diga-me, como foi o debate - perguntou o estudioso monge.

Bem, - disse o viajante - assim que vi seu irmão, levantei um dedo, para simbolizar Buda. Seu irmão levantou dois dedos para simbolizar Buda e seus discípulos. Então eu levantei três dedos para simbolizar Buda, seus discípulos e seus ensinamentos. Seu irmão levantou o punho fechado em minha face para simbolizar que os três vêm de uma única realização. Então, vencido, retirei-me da sala de debates.

O monge viajante teve, então, que dormir ao relento.

Sai logo depois o monge caolha e idiota em altos brados.

- Parabéns, irmão ! Soube que venceu o debate brilhantemente ! - disse o irmão estudioso.

- Qual que nada! Aquele monge era um grosseirão!!! Imagine que assim que me viu, levantou um dedo para acusar-me de possuir apenas um olho. Ora, como eu sou muito educado, levantei dois dedos cumprimentando-o pôr ter dois olhos. Imagine que ele teve a petulância de me mostrar os três dedos, como que dizendo que os dois olhos perfeitos que possuía e mais o meu único olho formam três ! Então, sem mais agüentar a humilhação, levantei meu punho fechado em sua face para dar-lhe um soco e ele saiu espavorido ! - disse o idiota.

O irmão mais velho apenas sorriu.

Extraído de memória do excelente livro: "Dez Contos Zen - Nem Água, nem Lua" - Osho

F.A.

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