O que eu não faço para ser notado...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Falar em humildade é muito difícil, é uma qualidade rara, extinta.

Falar em vaidade é muito fácil, por sua vez, é como uma planta luxuriosa, uma praga que dá em todo lugar, erva daninha que enfeita todo o jardim, como erva de passarinho, quer sempre ocupar a copa das árvores e extrair a seiva a custa dos outros.

A humildade seria o oposto da vaidade, mas como ela está praticamente extinta,  pelo menos não conheço ninguém humilde(a vaidade quem sabe me cega), a não ser na terra dos pés juntos, onde todos estão rentes ao chão, menos a Dercy Gonçalves, enterrada em pé, ninguém mais sabe o que é a tal humildade e se alguém sabe não fala, pois teme, talvez, que ela seja logo presa da erva daninha da vaidade, falemos, então, de outro algo raro mas que ainda se vê por aí: a discrição.

Digamos, então, que a vaidade é o oposto da discrição. Não há vaidade discreta, o diabo sempre quer aparecer, devido ao rabo, mas o anjo também, devido as asas. Diabo e anjo são duas faces da mesma vaidade, não? Já viram as imagens pintadas de anjos com cabelos feitos em salão, pele alva e olhos azuis reluzentes com o céu do meio-dia?

Olha, mas mesmo o monge com sua brilhante careca e seus longos mantos manifesta outra vaidade... já dizia Sócrates sobre a vaidade dos supostos renunciantes: Eu vejo a tua vaidade através dos buracos do teu manto!

Quanto paradoxo, quanta dissonância cognitiva, a vaidade escorre aqui, acolá e mais além...

Fica a questão, podemos dizer, em completo paradoxo, que a discrição é a vaidade de quem deseja passar despercebido? É isto um exemplo de uma boa vaidade?

F.A.

O dia da caça

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O caminho do guerreiro é assim chamado por uma razão específica: estamos em guerra contra um predador que se alimenta e se reproduz através de nós, assim, podemos dizer que o caminho do guerreiro é "o dia da caça".

Só a nossa vaidade nos fez pensar que somos o topo da cadeia alimentar.

Guerra aqui não é no sentido de derrotar os predadores, isto não é possível, mas simplesmente deixar de ser alimento para eles.

Palavras impecáveis

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A Deusa sem intermediários

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Existe um estudo muito sério a respeito do Messianismo. Vivemos isso não só nas religiões, mas também na política. É um vício existencial terrível ficar esperando que o Messias salvador venha resolver todos os problemas. A questão desse personagem central passa justamente por essa armadilha.

No Cristianismo o caso é mais sério. Se você provar que Jesus não existiu, acabou o Cristianismo. Todos os preceitos morais, toda a ideologia cristã depende terrivelmente dessa figura central. Para os católicos e cristãos fundamentalistas a dependência é ainda maior: Jesus morreu para salvá-los, assim qualquer alteração na história de Jesus, como as tradições que dizem que ele não morreu na cruz, que foi tirado antes e foi morar na Índia, onde tem até um túmulo que alegam ser dele, destrói completamente a base dessas religiões.

O Budhismo é um caso mais complexo. Como o Cristianismo, o Budhismo se desenvolveu em muitas e diferentes seitas. Temos desde escolas filosóficas como o Zen até Escolas que acreditam que basta você ficar cantando uns mantras e chamando um certo Budha ( existiram vários além do histórico Sidarta Gautama) e vc está "salvo". O Espiritismo Kardecista quando surgiu não tinha linha filosófica clara. Existem uns escritos de Madame Blavatsky nos quais ela comenta que o espiritismo é tão confuso que iria acabar adotando o Cristianismo como base religiosa... E foi o que aconteceu.

Esse papel torna Kardec um codificador, mas não o coloca numa perspectiva histórica, no mesmo patamar de Jesus ou Gautama Budha, ou Maomé, ou Krishna. Esses seres que cito foram seres semi divinos, seres cercados de uma aura que os colocava num nível muito particular. Jesus é o filho de um Deus tribal, o Deus dos Judeus, que foi imposto como Deus universal. É engraçado notar esse equívoco tremendo, quando colocam um deus tribal no lugar do conceito de Divindade Cósmica e chamam esse deus tribal de deus único e consideram esse arremedo de monoteísmo uma evolução, em relação ao panteísmo que sente a divindade em todas as manifestações da natureza ou ao politeísmo que cultua várias divindades.

O Budhismo tem uma perspectiva inicial diferente: Sidarta Gautama é um homem comum, como nós, que realiza o despertar e DESPERTANDO se torna o BUDHA, que quer dizer desperto. Ele não é diferente de nenhum outro ser humano e seu caminho pode ser trilhado por qualquer um. Enquanto Jesus "morre para salvar seus fiéis", mantendo antigas práticas mágicas do "cordeiro sacrificial", Gautama ensina um caminho para que qualquer um que se dedique também desperte.

Quando nos aproximamos da Wicca não vamos encontrar nenhum conceito de "salvação por procuração" fixado em um ser humano. Se notarmos com atenção a Religião da Deusa nunca desapareceu completamente. Esteve hibernando, esperando que o inverno árido espiritual que caiu sobre esta parte do mundo passasse, com toda sua terrível perseguição, principalmente às mulheres, que se dedicavam à ARTE.

Gardner tem acesso a uma antiga linhagem que sobrevive de forma discreta e pode então lançar as bases do que vai ser um "renascimento" público da Wicca e, por tabela, de várias outras formas de paganismo.

O que mais caracteriza o paganismo em geral? A sintonia com a natureza, o reconhecimento da divindade em cada momento da natureza, o reconhecimento desse elo profundo e intransferível que temos para com a natureza e a percepção que a Divindade, a Eternidade que nos envolve é feminina. Este aspecto é muito interessante e traz de volta uma questão muito séria. Não se trata de um simbolismo, não se trata, como querem alguns, que os "primitivos" consideravam a mulher um símbolo melhor para a Divindade. Aliás, é mesmo um símbolo mais rico, pois a mulher gera, assim a Deusa "emana" a criação de si, ao contrário das divindades patriarcais que precisam "criar", "modelar em argila" e outros subterfúgios mais para quem não tem útero. Não é mero símbolo, é muito mais que isso, de fato a Eternidade que nos envolve É FEMININA.

E isso não é apenas na Wicca, não. O Xamanismo em várias versões coloca isso da mesma forma. Vivemos num universo feminino e num planeta feminino. Isso não desmerece o homem e o masculino. Até pelo contrário, explica porque ficamos nesta condição de "reis da cocada preta", pois sendo uma energia mais rara na existência ganhamos uma proeminência que podia ter sido usada de forma bem mais inteligente e criativa que o criar dessa civilização doentia de valores pseudo-patriarcais na qual estamos inseridos.

Assim sendo, na Wicca não temos "avatares" de destaque que representam "guias" no caminho. Nosso contato é direto com a Deusa e suas várias faces, nosso trabalho é direto com a Fonte. Gardner e tantos outros são "expoentes" da ARTE, pessoas sérias que ao dedicarem-se ao estudo profundo da ARTE nos auxiliam a compreender melhor sua complexa simplicidade.

A Deusa tem várias faces e também é a SEM FACE, pura essência, que está em nós e em cada fenômeno e evento com o qual interagimos. Há uma tradição interessante, hoje quase perdida, que conta que na senda iniciática o(a) aprendiz começa por conhecer as 3 faces da Deusa: A menina, a Mulher e a Anciã. As 3 fiandeiras que tecem o destino de todos. Então, quando está pronto(a) o(a) aprendiz é levado a conhecer a face escura e secreta da Deusa, sua face negra.

Após esse momento o(a) aprendiz compreende os Quatro Cantos do Mundo e seu desafio agora é ser o Quinto ponto, o centro, após conhecer as quatro faces da Deusa é momento de ser a Quinta Essência, a Quinta face, manifestar a Deusa em SI. Quando realiza este quinto momento, quando sente e "É" a Deusa em si olha para Cima e para BAixo e encontra a Deusa nos Céus e na Terra que pisa. Realizou o Sexto e o Sétimo passo em seu caminho. É então que encontra o Oito, o infinito e todas as barreiras caem, descobre que todas as imagens que usava para representar a Deusa eram ainda pálidas aproximações da realidade, caem as máscaras e podemos então SENTIR a Deusa em SI mesma, em toda a plenitude de seu poder.

Se isto é realizado, estamos prontos para entrar na nona esfera de iniciação e então conhecer o Mistério além do Tempo, além do Espaço. E então voltamos a ser unidade ao lado do Zero, 10. Nós, a unidade, fortalecidos e "potencializados pela Orubós sem fim, a Deusa que nutre de si mesma, a Existência cíclica. Na Wicca, como em outros ramos profundos do paganismo, não precisamos acreditar em avatares dos Deuses ou da Deusa, em pessoas que criaram dogmas e regras, que tem seu papel sim, no começo do caminho, para evitar confusões, mas como aquelas rodinhas que usamos para aprender a andar de bicicleta, podem virar uma dependência limitante se não temos a coragem de quando estamos prontos, tirar tais rodinhas e andar sem as mesmas, com a certeza que se não estivermos de fato prontos, o tombo vem.

Nosso elo é direto com a DEUSA e seu Consorte, com a VIDA, e a Vida só se revela sendo vivida. Qualquer teorização excessiva é sempre sinal de fuga da vida em si, real e efetiva, para ficar justificando com elaborações racionais.

Por: Nuvem que Passa em Domingo, 04 de Agosto de 2002 - 21:17:59 (Brasília)


Premissas do Caminho do Guerreiro

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Conferência de Taisha Abelar (Janeiro de 1994)

A conferência desta noite é sobre "parar". 

Para "parar" necessitamos fazer apenas uma coisa: decidir ser um guerreiro ou não.

O ponto de aglutinação flutua naturalmente ao dormir. Também se move sob a influência de drogas, meditação profunda, fome, privação sensorial.

O ponto de aglutinação situa-se atrás de vocês, na altura das omoplatas.

Os feiticeiros usam a disciplina para mover seus pontos de aglutinação.

Qualquer um de nós pode ver a energia, inclusive agora, porém podemos não estar imediatamente conscientes disso. As crianças pequenas, por outro lado, percebem energia diretamente. De todas as formas quando são maiores, os "acomodadores" (adultos) os introduzem no mundo da realidade ordinária. Em lugar de ver energia sem forma, uma criança um dia perceberá a configuração energética na forma de uma mesa, um cão, uma árvore, etc.

Assim a percepção pura da criança é moldada pelos "acomodadores"(adultos).

Primeiro e antes de mais nada vivemos num mundo de energia. Apenas secundariamente vivemos em um mundo de objetos. A posição do ponto de aglutinação determina a realidade que perceberemos.

Os bruxos (presumivelmente de forma diferente dos artistas da fome ou da privação sensorial - faquires) buscam fixar o ponto de aglutinação em uma nova posição (e não apenas movê-lo) para aglutinar energia outra vez em uma nova série de "objetos" e , portanto, em uma nova realidade.

Este mundo não é tão importante como pensamos que é. Nossa linguagem é parcial; chamamos de realidade quando é apenas uma das tantas posições do ponto de aglutinação. Para a nossa conveniência vamos nos referir a ela como realidade ordinária.

Geralmente, assim que os acomodadores façam seu trabalho de ajudar-nos a perceber as variadas configurações de energia como objetos, o ponto de aglutinação fica fixo e não move-se mais depois.
Estamos obrigados a ficar identificados com o mundo da vida diária até a nossa morte.

E quanto a morte, do ponto de vista dos bruxos, não é o rápido processo que parece ser. O brilho do ponto de aglutinação diminui rapidamente, porém todas as fibras energéticas que compõe o ovo energético do ser humano podem levar um bom tempo para dispersar-se. O processo também pode ser demorado, por exemplo, se alguém é enterrado em um ataúde de chumbo logo após morrer.

A alternativa a estar preso por toda a vida em uma posição do ponto de aglutinação é move-lo mediante a prática da disciplina e logo fixá-lo em uma nova posição enquanto estamos conscientes.

Um fundamento firme no caminho do guerreiro é o que se requer para a difícil tarefa de "parar" e "sonhar".

Disciplina não é a mesma coisa que a praticada por mulheres católicas em um convento. Nem a mesma coisa que a que é usada como prática pelas monjas. Não é levantar-se cedo para fazer aeróbica antes de ir para o trabalho ou comer prudentemente. Isso são apenas rotinas, hábitos, não a disciplina do guerreiro.

Desde o ponto de vista de um guerreiro, espreitador ou sonhador, a disciplina é algo abstrato. É estar vinculado inquebrantavelmente a um propósito. Assim que a atual implementação da disciplina é muito flexível e fluida. Requer coragem de aço. Não há lugar para dúvidas e vacilação, os quais de outro lado nos colocam atrás, no mundo de todos os dias de justificativas e autopiedade.

A disciplina conduz a harmonia, ao bem-estar e ao equilíbrio. A vida diária, por outro lado, é feita de negligência e indulgência.

Um propósito inquebrantável e inflexível é o que se requer para a disciplina em nossa busca pela liberdade.

Na conferência recente da livraria Fênix alguns de vocês estiveram ali - Carlos Castaneda deu uma palestra sobre o caminho do guerreiro.

Não podem aprender a ser guerreiros!

É apenas uma decisão que tem que tomar um dia vocês mesmos e por conta própria. Pedir a alguém que lhes ensine como ser um guerreiro é uma abordagem errônea . É a abordagem de "eu sou um pobre coitado".

Carlos Castaneda disse que primeiro e antes de mais nada, o evento transformante na vida de um guerreiro, a base para chegar a ser um guerreiro, é aceitar a responsabilidade da própria morte. Esta é a linha de partida. Não assumam que são imortais.

Encarem o infinito e a morte no espelho através da noite!

Apenas fazendo isto, tomando a morte como uma conselheira desta maneira, muitas coisas cairão por terra, muitas coisas desaparecerão em vocês.

Assumam a responsabilidade de sua percepção do mundo. Não apenas a simples percepção na qual nasceram . Em lugar de intentar o movimento de seus pontos de aglutinação a outras áreas do ovo luminoso, se ajustam o seu próprio cinto (!), se cortam o supérfluo em suas vidas, o ponto de aglutinação se deslocará por conta própria sem ajuda de rotinas ou exercícios por parte de vocês. A lâmpada da consciência, brilhará forte quando cortarmos o excesso de bagagem que carregamos (preocupações, autopiedade, etc), brilhará sobre todas as outras possíveis posições do ponto de aglutinação.

A segunda regra para ser um guerreiro é pagar suas dívidas. Um guerreiro é muito generoso. Ele ou ela não olha o mundo em termos do que as outras pessoas lhe devem. O guerreiro olha o mundo em termos de oportunidades para saldar suas dívidas com outras pessoas e assim não estar completamente atado para sempre.

Isto de pagar as dívidas conduz a um afeto imparcial por todas as coisas. Muito do que consideramos afeto é comércio de favores com outras pessoas. O guerreiro, por outro lado, dá afeto sem esperança de devolução. Não que o guerreiro esteja tratando de eliminar o afeto ou ser uma pessoa insensível. O afeto do guerreiro é tão imparcial que se libera das relações de todos os dias. O afeto do guerreiro é tão imparcial que se o guerreiro vai a outra realidade completamente diferente desta, seu afeto estende-se à todos os outros novos seres que existam nessa realidade.

Se alguém realmente nos feriu, isto também necessita ser devolvido. O conceito de pagar as dívidas não é uma idéia sentimental, limitado a corresponder as boas relações. O ponto é liberar-se de todas as relações. Se estão apegados a alguém que os feriu, podem necessitar desligar-se dessa relação devolvendo o dano. Assim não é uma questão moral; é uma via de mão dupla.

O sendeiro do guerreiro é uma escotilha de escape, um lugar onde se pode ir depois de ter desmantelado sua vida diária. Não há lugar para o medo, para a indulgência, pena de si , para a culpa ou a nostalgia quando se está rumando para o desconhecido.

Uma determinação inquebrantável é o único caminho que podem tomar ou lhes acontecerão coisas terríveis uma vez que tenham acumulado suficiente energia (mediante o uso da morte como conselheira para cortar o excesso de bagagem).

Não podem estar meio dispostos ou com apenas parte de sua energia pois lhes acontecerá coisas piores (antes não tivessem enveredado por esse caminho).

Recuperem a energia usada para sustentar o mundo da vida diária. O mundo da vida diária é um edifício gigantesco, porém apóia-se apenas sobre três pilares:

1 - Como nos apresentamos ao mundo. Como nos encaixamos na estrutura da ordem social. A recapitulação nos permite pensar em tudo isto; como nos encaixamos é um espelho de como os outros nos vêem em suas esperanças e temores. Tudo isto requer ENERGIA. O guerreiro em transformação nota que ele ou ela está de cara com a morte e então percebe que conduta e que intensidade é apropriada sob esta luz.

O segundo pilar é nossa necessidade biológica de encontrar um par e nos reproduzirmos. Somos animais sociais. Os bruxos dizem "deixem que outros o façam". Os bruxos necessitam da energia para parar com a dança social e a necessidade biológica para alcançar a Liberdade. Nós não queremos ser a flor que floresce e morre para propagar a espécie. A segurança da família é uma das mais fortes atrações da ordem social. Existe um tremendo medo a estar só, a morrer só. Os bruxos tem que aprender a estar sós, por longos períodos. Esse é o motivo pelo qual Don Juan sempre nos provou deixando-nos sós, por nossa conta, para ver como manejamos a solidão. Porque temos tanto medo de não ver filmes, não ter amigos? É também muito importante aprender a ter silêncio mental, solidão mental, por longos períodos. O mundo então irá colapsar por si mesmo sem o diálogo interno! Sonhar também é muito solitário, encarando os perigos no mundo dos sonhos sozinhos.

Estamos falando acerca de "parar" esta noite e de ter que usar a solidão. Como mulheres, nós não queremos ser uma solteirona, uma amarga solteirona, com um lunar(?) e costeletas nas bochechas(?). Nós aprendemos essas coisas, a necessidade de ser formosas para apanhar um bom marido e temos fundado a indústria cosmética inteira com nossos medos e preocupações. Na recapitulação temos uma chance para ver isto e buscar alternativas.

O caminho do guerreiro (é não ser apanhado no imperativo biológico de formar um par e na dança social motivada pela solidão) é uma transformação que envolve uma afeto sem limites. Não contar o número de romances que temos ou estar em uma relação e sonhar com alternativas que seriam inclusive melhores para nós. O afeto do guerreiro transcende tanto a ordem social que o guerreiro pode mover-se a outra posição do ponto de aglutinação, inclusive um universo desconhecido, e estar todavia cheio de afeto. Assim não tenham medo de fazer em pedaços esse segundo pilar da realidade diária, pois se o fazem não vão deixar afeto ou sentimento algum.

3 - O terceiro pilar da realidade diária é muito sutil; é a importância pessoal. Nós brincamos a respeito de colar um adesivo(?): "a importância pessoal mata", por que o falso sentido de importância pessoal nos mina, é uma grande causa de suicídio, sem mencionar que nos tira o prazer de viver. Qualquer um manifesta a importância pessoal de uma maneira ou de outra, seja querendo ser o melhor em algo ou querendo se fazer de mártir ou sendo o pior - a síndrome do "usa meus ossos como degraus para tua própria glória". Não substituam a falsa humildade ou a falsa modéstia pelo orgulho de sua importância pessoal.

Uma coisa importante para dar-se conta é que vocês não são mais nem menos importantes que qualquer coisa viva. Para dizer de outra forma, somos como formigas em um formigueiro, levando sua carga especialmente grande e pensando que é a mais importante, a melhor, quando em um momento alguém pode pisar nessas formiga e suas companheiras e todas elas serão iguais em sua morte. Algo vai pisar em todos nós algum dia da mesma maneira. Todos somos iguais e a importância pessoal não é nada, exceto um prêmio da ordem social da realidade diária, como droga destilada dentro de seus cérebros para mantê-los escravos da ordem social. É melhor mudar, tomem sua energia agora mesmo e rumem em direção a Liberdade.
O "seletor" (o espírito) é um simples modelo mecânico de uma agulha apontando em uma certa direção e nós alinhamos nossa configuração energética em uma nova posição do ponto de aglutinação. O seletor faz tudo por vocês se tiverem energia suficiente, traz certas coisas do universo para vocês. Uma vez que tenham restaurado sua energia mediante a recapitulação não há necessidade de cânticos ou rituais especiais para mover o ponto de aglutinação. Para onde, como ou porque o seletor move o ponto de aglutinação nós não sabemos; tudo o que podemos fazer é acompanhar o movimento e atuar impecavelmente sob a pressão do "seletor".

A espreita: Eu e os espreitadores em geral usamos a conduta para mover o ponto de aglutinação, para criar um máximo de dissonância cognitiva. Não se pode eleger para onde mover o ponto quando se está vivendo como espreitador, porque se elegem não vão ter suficiente dissonância cognitiva entre a velha e a nova posição. Este é o motivo pelo qual os guerreiros estão sob tremendas pressões, porque o "seletor"- ou o Espírito - elege difíceis novas posições, que são tão atemorizantes ou diferentes que as vezes o ponto de aglutinação de um guerreiro, quando está sujeito a pressão para mover-se, começa a vibrar no lugar devido; isto se pode ver energeticamente. Se o guerreiro cai em lapsos de diálogo interno sobre o que deve fazer então o ponto de aglutinação acaba voltando a posição usual.

Toma uma tremenda pressão mover o ponto de aglutinação e o que necessitamos é manter a pressão alta; porém deverá ser uma pressão harmoniosa ou poderemos ficar loucos. Uma vez que tenham energia suficiente e intento inflexível o ponto se deslocará muito facilmente e sem problemas, e depois que tenham feito a recapitulação, o ponto de aglutinação se moverá sem que nos demos conta disso.

Eu tive certas tarefas eleitas para mim pelo seletor. Tive que viver completamente como diferentes pessoas. Isto não era apenas atuar durante o dia ou sendo consciente de que estava atuando. Era uma completa imersão em um novo ser, as 24 horas do dia. Torna-se uma nova pessoa.

Deixe-me ser Sheila Waters para vocês (ela pôs uma peruca e lentes). Tenho que usar lentes quando sou Sheila Waters.

Sheila Waters foi apontada para mim pelo seletor (o Espírito ou como queiram chamá-lo). Tive que chegar a ser uma mulher de negócios, obter um MBA, licença legal do Estado, investimentos, manter relações de negócios com empresários, contadores e todo tipo de gente do mundo dos negócios. Tive que fazer muitas coisas, fiz e perdi fortunas. Porque quando estamos nessa posição existe uma natural tendência a buscar o êxito, não fracassar, tão natural é a tendência a fazer montanhas de dinheiro, e não penas manter ou perder dinheiro. Se alguém não atua impecavelmente é fácil perder dinheiro por não escutar a própria voz interna. Decidi que tinha que possuir uma madeireira muito grande no norte e foi realmente uma grande empresa, perfeita em todos os aspectos, exceto por estar perto de MT. St. Helena e quando o vulcão entrou em erupção tudo perdeu-se.

Outras pessoas (tirou a lente e a peruca): no México estive sob a supervisão de Emilito. Ele foi mais um espectador ou um guardião que um mestre. Não interferia para nada nos cenários que o seletor elegia para mim.

Foi Ricky, a primeira posição eleita para mim, um gringo americano machão, fazendo-se passar por um mexicano. Vesti roupas de homem, passei por homem e tive romances com uma dama e até cheguei a usar banheiros masculinos. Não me peçam para que lhes conte o que tive que fazer para usar banheiros masculinos. Vou relatar em meu próximo livro: "A Espreita e o duplo".

A segunda posição eleita por mim foi uma mulher ingênua do Texas, sobrinha de umas mulheres mexicanas, que em realidade eram supostamente feiticeiras do grupo de Don Juan. Tinha o cabelo rubro e me encontrava nas esquinas esperando atrair aos homens à essa condição virginal, pois eu atuava como uma virgem e meu cabelo chamava muito a atenção.

É essencial ser absolutamente fluido. Esse é o ponto de todos os exercícios de não-fazer, assim podemos ser absolutamente fluidos e quando o seletor mover seus pontos de aglutinação terão a disciplina necessária para poder fixa-lo na nova posição.

Não podem agir como cínicos manipuladores da conduta. Tem que ser real para vocês, absolutamente real.

Depois fui uma mendiga louca, sentada nas escadarias das igrejas, atacadas por pulgas e mosquitos o dia inteiro. E mesmo sendo alérgica a picaduras em meu papel de mendiga louca não me cuidava e ninguém me incomodava. Eu era uma mendiga louca e desleixada. Ficava ali todo o tempo, vendo o mundo passar e ninguém me notava.

Para concluir, nada é real, apenas uma manipulação da conduta, apenas um resultado da fixação acidental do ponto de aglutinação no nascimento. Isto é o que os espreitadores aprendem ao serem tantas pessoas diferentes. Cada posição é igualmente real e, portanto, igualmente fantasma Nós apreciamos nossas posições presentes, porém mesmo as mais reais são apenas fantasmas quando se movem o ponto de aglutinação.

Toma anos de recapitulação solapar o sentido da realidade. Ao mesmo tempo tive que substituir a realidade com o caminho do guerreiro para evitar a armadilha do cinismo. Mudar nossa forma de responder, reagir ao mundo dentro da arte da loucura controlada, a delícia do guerreiro.

Se temos energia, todas as coisas que o Espírito põe ao seu redor tornam-se eventos de beleza e força. No mais alto sentido suas vidas tornam-se prenhes da arte de viver.

Recordem que vocês já estão mortos, são fantasmas como qualquer outra coisa . Percam o sentido da importância pessoal.
Saibam, mas além da sombra da dúvida, que nada é real.

- - - - - - - - - o - - - - - - - - - - 

Perguntas e respostas (as perguntas eram inaudíveis no jardim):
Depois da recapitulação e do não-fazer, então, poderão Ver.

Mover-se dentro de outra banda (alinhamento) do ovo luminoso é como morrer, porque o brilho da consciência do mundo diário terá ido embora. A consciência estará todavia com vocês, porém estarão percebendo uma realidade diferente. Para a realidade ordinária vocês já encontrar-se-ão mortos.

Existem semelhanças entre as teorias de acupuntura chinesa e as descrições dos bruxos quanto ao corpo energético. Se desenham os principais meridianos, eles formam um ovo igual ao que os bruxos descrevem. Também a teoria chinesa diz que nascemos com uma quantidade limitada de energia intrínseca, a mesma visão dos bruxos.

Também algumas pessoas nascem energeticamente mais poderosas que outras. Por exemplo, se os pais são fortes energeticamente e o bebê é criado com leite materno. Porém não se preocupem se não nasceram com uma especial abundância de energia, se formos cuidadosos com nossa energia teremos tudo o que é preciso. 

Também podem receber sacudidas extras quando movem o ponto de aglutinação. Precisamos apenas ser disciplinados na guarda de nossa energia.

Nietzsche dizia que qualquer coisa que não nos mata me fortalece. Esta é a forma que os bruxos pensam. Por outro lado cuidem-se dos filósofos, pois são famosos loucos auto-indulgentes.

Sobre a recapitulação não há um método, Existe um método, porém não é importante se movem a cabeça num sentido ou no outro ou se estabelecem um tempo regular ou um montão de tempo. O importante é o intento inflexível para recapitular, depois o Espírito os guiará dentro da forma correta tanto com relação a forma correra quanto ao tempo ou a quantidade de práticas . Com o intento o tempo se estabelece por si mesmo. Quando tenham o intento correto vão ter 27 gerações de bruxos por trás de vocês.

1 - Intentem.

2 - Façam com integridade. Não se vangloriem ou comparem-se com outros . A competição é a pior coisa do mundo. É o suporte primário para terceiro pilar da realidade diária, o sentido de auto-importância pessoal.

3 - Disciplina, ordem, harmonia. Não deixem tudo à sorte, ao menos intentem. A maioria das pessoas faz uma lista e seguem atrás.
Respirem. A direção não é importante, o importante é usar a recapitulação para trazer a energia.

Uma carta enviada a Carlos Castaneda dizia: Recapitulei durante a noite, posso unir-me a seu grupo agora?

A recapitulação toma toda uma vida. Não se faz em uma noite.

A Obra do Nagual - 3ª parte - por Nuvem que passa

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A partir de agora o texto só vai interessar ou mesmo ser realmente compreendido aos que estudam a obra do novo nagual. O trabalho que C.C. tem em sistematizar a experiência pela qual passou e colocá-la em palavras é em si mesmo uma das mais complexas abordagens antropológicas de uma civilização em tudo e por tudo alienígena à atual.

Culturalmente alienígena, vejam bem.

C.C. se torna praticante, mas não deixa de ser um homem racional do ocidente, que busca explicar, que busca sistematizar o saber que lhe está sendo apresentado. Ele aplica as ferramentas cognitivas e os novos modelos de realidade que lhe são demonstrados junto com a nova "descrição de mundo" que lhe é apresentada nas questões mais fortes de nosso tempo e trás uma sutileza de abordagem da realidade na qual estamos inseridos, que distingue sua obra.

Ele mostra que tudo é trabalho, que nada vem de graça. Vai concordar com Gurdjieff e outros que já haviam dito que os planos da Eternidade para o ser humano nada tem que o permita se considerar "eleito", "favorecido". O ser humano tem uma função cósmica. Ao nascer ganha a consciência. Durante a vida desenvolve e matura essa consciência. Para ao final, a força motriz e original da existência, chamada Águia ou mar escuro da consciência, receba de volta essa consciência enriquecida, imediatamente após a morte ou algum tempo depois, pois a consciência pode sobreviver em várias formas nos muitos mundos que existem paralelos a esse.

O forte das descobertas dos Toltecas é que existe um caminho alternativo. Que existe uma chance que é apresentada de tal forma que não vamos ler abordagem equivalente em nenhuma outra obra apresentada no ocidente como reveladora da sabedoria ancestral.

O ser humano pode, à partir da certas práticas no decorrer de sua vida, escapar dessa dissolução e entrar num estado alternativo de consciência que é quase uma eternidade, embora ainda aqui fique claro que há um limite.

Esta abordagem muda toda uma concepção muito em voga nos meios esotéricos. Vidas após vidas para evoluir, para chegar a algum lugar. O xamanismo guerreiro dos Toltecas afasta toda essa idéia e coloca essa vida como única, como a mais importante e o campo onde a batalha contra nossos oponentes devem ser travadas.

Quem são esses oponentes?

Demônios, seres perigosos de outros mundos?

Os mais perigosos estão em nós, são eles que podem abrir a porta da fortaleza quando o exterior tenta atacar. Se eles forem vencidos os exteriores perdem seu poder. Aos que buscam o conhecimento quatro já foram apresentados: O medo, que paralisa, a clareza que cega, que gera a arrogância de tudo saber, esquecendo que num mundo em expansão o aprendizado é constante, o Poder que fascina e aprisiona criando marionetes que se julgam entes poderosos quando na realidade servem os que julgam dominar e a velhice, compreendida como a incapacidade de por em atos o que sabemos. São inimigos constantes, nunca totalmente vencidos, sempre prontos a voltar e tomar o controle da situação. A importância pessoal é apontada como sua principal arma.

Há uma estratégia fundamental nesta luta: Desmontar as rotinas da vida, para estar atento a cada momento, sem entrar no "piloto automático". Apagar pouco a pouco a história pessoal. Essas são as práticas mágicas ensinadas ao aprendiz. E embora pareçam a alguns tolas, quem ousa realizá-las compreenderá que esteve tecendo sua capa mágica, que esteve forjando sua arma mágica, que se chamará Implacabilidade e também esteve trabalhando seu escudo, a ausência de importância pessoal, que tem sua chave na ausência de piedade por si mesmo. Quando a estratégia da ação abrange o ser implacável, paciente, astuto e gentil sabe o aprendiz que chegou num ponto decisivo. Sua energia acumulada expulsa sua percepção da condição "normal" que até então era mantida.

Surge um desassossego. O mundo não é o mesmo, não é mais satisfatório, há algo que te chama além. O chamado do infinito tem vários nomes em cada cultura , mas o fato é que quem já o ouviu nunca mais irá ficar tranqüilo se ceder a mediocridade de uma vida conformada ao cotidiano. O chamado do infinito tem a estranha habilidade de despertar em nós um senso crítico interior que sempre nos dirá, quer queiramos saber ou não, se continuamos fazendo do dom da vida um caminho para a liberdade ou se voltamos e cedemos e nos vendemos por algum preço ou conforto, ao sistema, à "Matrix".

C.C. percebe que foi isso que aprendeu e aprende que seu campo de batalha era o mundo das cidades, os lugares onde ia, onde estudava, era ali que deveria aprender a aplicar tudo que aprendeu e atingir a condição singular, onde tudo que havia herdado lhe ajudaria a ser ele mesmo, um evento conectado ao infinito, mas único.

Como um vetor resultante que subitamente deixasse de ser apenas o resultado de todas as forças exercidas sobre o móvel, mas se torna uma força ele mesmo, uma força nascida de si mesmo, uma vontade plena. C.C. experimenta muitas possibilidades de aglutinar mundos. Vai a muitos lugares diferentes e explora o mistério do ponto de aglutinação, conhecimento de um ineditismo ímpar. Não há conceito similar a esse em outras obras e cito isso aqui para que todos percebam que estamos diante de um conceito "novo", algo raro nessa era de reedições e releituras.

O ponto de aglutinação será nosso próximo tema.