Kumaré: o anti-guru (filme)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Quando um falso profeta torna-se verdadeiro?

Dica de filme para o fim de semana!

Kumaré a seu próprio modo é uma versão atualizada e bem-humorada da pregação anti-guru de Krishnamurti. Assumindo o papel de um guru o próprio diretor do filme se coloca numa posição paradoxal e levanta uma série de questionamentos. Sendo um falso guru, Kumaré, se torna mais verdadeiro que muitos pretensos mestres espirituais e revela como a fé é o efeito placebo das religiões, onde a verdade de cada um é moldada por aquilo em que ela acredita. Aquilo em que acreditamos torna-se real para nós mesmos. E por que precisamos nos enganar a ponto de acreditar em falsos gurus e mestres? Talvez por que, como diz Kumaré, por não confiarmos em nós mesmos e descobrirmos o guru interior, o mestre presente em cada um de nós.

Em nossa carência por mestres, guias, gurus, professores podemos facilmente ser enganados e cair em ridículo em nome de uma fantasia, a fantasia do guru. Kumaré revela isto de forma crua, engraçada e emocionante. Ao final, a revelação de Kumaré revela toda a farsa com um desfecho surpreendente! Excelente filme!

São, saúde

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Saúde é o silêncio dos órgãos.

Iluminação é o silêncio da mente.

A saúde do espírito é a iluminação, o êxtase.

Escolas, linhagens, tradição.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O que é exatamente uma linhagem, o que é uma escola iniciática, o que é uma sociedade secreta?

Quais semelhanças e diferenças entre elas?

Este artigo tem como objetivo apresentar algumas considerações sobre esse tema.

Nossa civilização é fruto de um processo histórico, onde grupos em guerra pelo poder não tiveram receio de invadir, saquear e destruir outras culturas, assim como de destruir os grupos dissidentes dentro de seu próprio seio.

Vejam por exemplo a Igreja Católica Apostólica Romana, condenando a morte os Cátaros e Templários, entre muitos outros, porque essas irmandades, até então parte da Igreja, ameaçavam com seu modo de ser os grupos que pretendiam manter seu poder dentro da instituição.

Isto é algo que não pode ser esquecido, dentro das instituições religiosas que se tornaram meios de poder existe uma guerra entre diversas facções em busca do controle da Instituição.

Até o Budhismo, com sua filosofia ímpar em equilíbrio e paz não escapou destas contradições, como as lutas internas entre facções diferentes que aconteceram no Tibete antes deste ser cruelmente invadido pela China, que aliás está neste momento aumentando a repressão sobre os poucos mosteiros que ali ainda restam.

Para entender isso podemos usar um exemplo bem chão. Dentro de uma empresa um diretor e seu grupo pretendem manter uma determinada política gerencial. Para alcançarem isso vão arregimentar aliados e tentarão colocar para fora todos que não se adaptem a suas políticas. Este jogo político dentro das instituições, bem humano, esconde outra guerra, mais séria e mais danosa, pois quando nestas lutas grupos como os Templários são destruídos, em sua manifestação tangível, levam com eles a chance de uma interferência saudável e evoluída na sociedade.

São muitos os que sabem que os Templários já mantinham contato com o "novo mundo" que hoje chamamos América e que havia um grande plano de fusão das culturas européia e nativa, que foi destruído com a destruição dos Templários, sobrevivendo apenas a lenda dos amigos brancos e barbados que voltariam um dia, terrível equívoco, pois os índios ao abrirem os braços aos que retornavam, tendo roubado o conhecimento dos herdeiros dos templários, receberam sabre e tiros.

E a ignorância, a limitação e a sanha dominadora dos destruidores continua a manter a humanidade em séculos de obscurantismo. Portanto, estamos presos a uma história mentirosa, falsa, escrita pelos vencedores, que ainda comemoram os 500 anos do descobrimento do Brasil, quando deveríamos estar reavaliando estes séculos em que nos roubaram, em que saquearam, mataram a população nativa e ainda nos mantém como um povo sem base, a viver gravitando e alimentando interesses internacionais. Uma história que ainda chama os matadores e escravizadores de índios e destruidores de sua cultura, os Bandeirantes, de heróis.

Mesmo esta civilização tem seus centros de conhecimento e busca da verdade, conhecidos como Universidades, onde se estuda e se investiga a natureza e seus mistérios. Mas tais investigações sofrem muitas limitações, por exemplo, muitas universidades tem sérias restrições a realizarem pesquisas na área da terapia natural, pois recebem suas verbas de laboratórios farmacêuticos que discreta ou acintosamente ameaçam cortar verbas se tais tipos de pesquisas forem desenvolvidas. E quanto saber não é deixado de lado por ameaçar as visões pré-estabelecidas, ameaçar o poder de certos grupos? Essa ânsia do ser humano em conhecer e aprender mais sobre si e o meio no qual está inserido é antiga. Assim como as forças que em busca do poder mundano e temporal lutam para que a ignorância não perca terreno.

Para compreendermos o que são as escolas de sabedoria temos que rever o conceito de história que nos foi passado. Estamos impregnados de um neodarwinismo social. Acreditamos que o mundo tal qual está aí é o ápice do desenvolvimento. Confundimos o desenvolvimento tecnológico realmente espantoso e nos deixamos empolgar pelas táticas marketeiras dos atuais donos do poder.

Mas vamos aos fatos.

Nem mesmo a gripe conseguimos controlar, vejam o fiasco das vacinações anti-gripe. Olhem a AIDS, o Câncer, a volta de doenças tidas como controladas como a Tuberculose, devido a resistência gerada pelo excesso no uso de antibióticos, assim como a cólera, por falta de saneamento básico nas populações carentes. Vejam o caos social dos nossos dias, a violência nas ruas, o alcoolismo e as drogas tomando o mundo. O caos ecológico, efetivo e aumentando, o buraco na camada de ozônio e o risco de entrarmos em guerra ainda neste século que vai chegar, por causa de água potável.

Não se trata de pessimismo, apenas uma localização sem "maquiagem" da realidade que nos circunda. Vivemos mais que os antepassados históricos, vivemos melhor em termos de alimentação e controle de muitas doenças, mas não somos a maravilhosa civilização. Temos muito o que aprender ainda.

Outras civilizações já existiram no passado. Que atingiram um desenvolvimento surpreendente. Pirâmides, monumentos Mayas, Astecas, Incas, em Angkor e tantos outros lugares aí estão como mudos sobreviventes destes períodos. Estas civilizações, por causas que não cabem aqui avaliar, tiveram seu declínio. E outra civilização surgiu. Quantas vezes isso terá ocorrido?

O fato é que o saber dessas antigas civilizações não pereceu com elas. Por via oral, em manuscritos secretos, por vias que desconhecemos, homens e mulheres mantiveram o elo do saber e vieram trazendo o conhecimento para a nova era que nascia.

Na misteriosa Suméria, na Babilônia, onde no reinado de Cambises, Pitágoras esteve aprendendo e ensinando, na terra dos Vedas, nas ilhas dos Druídas onde herdeiros dos Atlantes continuavam seu saber mágico, como nas terras de Ken e suas pirâmides, nas alturas do Tibete, no Himalaia, onde os Hsien, alquimistas taoístas por vezes aceitavam aprendizes em seus eremitérios, nos mosteiros de Shao Lin, entre os misteriosos Sarmouns, nas terras da África onde magistas aprendiam a arte do transe e da recepção de seus orixás, na antiga Tula, onde Toltecas há mais de 7.000 anos atrás já possuíam uma civilização complexa, enfim, em todo o mundo vamos encontrar grupos que mantém uma linha de conhecimento que segue a margem da sociedade oficial.

Enquanto na sociedade oficial reis e rainhas conspiram para manter seu poder, com apoio de seus "nobres", declaram guerra a outros povos, escravizam, são escravizados, matam, são mortos, traem e são traídos, homens e mulheres de forma discreta e intensa mantém ancestral tradição, ampliando seu saber sobre si e sobre o mundo que os circunda.

Uma linhagem é a continuidade no tempo e no espaço desse saber acumulado. Posso exemplificar com o exemplo das linhagens xamânicas.

A Irmandade dos Escudos que congrega mulheres no norte do Canadá, a linhagem Tolteca na qual o Doutor Carlos Castaneda e suas companheiras foram iniciados, representam essa perpetuação de um conhecimento, que geração após geração é mantido, e passado de iniciador(a) pra iniciado(a).

Temos a linhagem sufi no médio oriente, a linhagem taoísta, a linhagem lamaísta e tantas outras. Elas perpetuam no tempo e no espaço uma tradição. Estas linhagens podem atuar de duas formas. Podem apenas buscar sua manutenção, sua continuidade. É o caso da linhagem Tolteca a qual o Doutor Carlos Castaneda teve acesso.

Creio que não compreender esta idéia é a causa de tanta gente cometer profundos equívocos quando tenta pregar o "Castanedismo" como um novo credo universal. Como o próprio Doutor Carlos Castaneda deixou claro em suas palestras realizadas quando da apresentação dos seminários de Tensegridade por todo o mundo que ocorreram até o começo de 99, D. Juan Matus nunca pretendeu criar uma escola, ou um trabalho aberto as massas.

A proposta dele era apenas manter sua linhagem, para isso "caçou" um grupo de homens e mulheres que tinham o tipo energético adequado e transmitiu todo seu saber, no contexto que o xamanismo considera transmitir, ampliou a consciência de seus aprendizes e os ensinou a comprovar em si e por si o que lhes era ensinado.

Quando o Doutor Carlos Castañeda descobriu que ele não era capaz de continuar a linhagem, por razões de sua morfologia energética, foi que resolveu revelar plenamente o saber que tinha recebido, para que fosse usado por quem soubesse usar.

Outro caso, bem diferente é quando alguém é treinado por uma linhagem com o objetivo de abrir uma Escola. Hoje acreditamos que esse é o caso de Gurdjieff e de Rene Guenon entre outros, foram iniciados como Sheiks em irmandades sufis e mandados ao ocidente para criarem escolas, adequadas ao tempo e ao lugar.

Uma Escola iniciática é uma manifestação no tempo e no espaço da ação de uma Linhagem ancestral.

Uma Escola tem propósitos claros, existem dentro de um contexto e quando as condições desaparecem ou se tornam inviáveis a Escola também some.

Uma Escola é formada por homens e mulheres que tendo atingido certo grau de auto-realização operam em grupo com objetivos claros e específicos.

A ligação de uma escola com a linhagem da qual emana pode ser direta, quando há uma ligação efetiva com os "pilares" da tradição, ou indireta, isto é, houve o contato, houve o transmitir de certo papel a ser desempenhado mas o elo não se manteve.

Muitas Escolas surgem dentro de um tempo e espaço específico, com um trabalho específico por realizar e quando cumprem a tarefa a Escola se dissolve. As pessoas que estavam na origem do trabalho se vão. O elo com a linhagem, com a tradição não mais existe. As pessoas que aprenderam o suficiente para ter a possibilidade de continuar no caminho de maneira independente prosseguem. Mas alguns que estiveram em contato com o trabalho, que participaram das atividades, podem continuar a repetir o que foi ensinado, os exercícios e alguns conhecimentos. Entretanto eles estarão tomando a parte que tiveram acesso pelo todo do trabalho.

Quando uma escola está em atividade, em contato com a Fonte dizemos que é uma escola estrutural, quando está apenas continuando o que já foi ensinado, é uma escola linear.

Ela repete o que foi dito, mas tem um limite, isto é, só é capaz de auxiliar alguém até certo ponto e, mais sério, após um certo tempo, dentro de outras condições energéticas, de uma nova era, a mesma escola pode se tornar contraproducente, por tentar ensinar coisas que não pertencem a aquele momento.

Muitas vezes esta imitação externa mantém apenas o formalismo exterior e encontramos casos de escolas neste caso, mantidas por décadas, vem brigar como "dona da verdade", com outra manifestação, mais atual, da mesma fonte.

Mas esses sistemas também tem seu valor, pois servem de intermediários entre a humanidade, imersa no materialismo robotizante e entre as tradições de fato esotéricas.

Toda Escola esotérica ao mesmo tempo que trabalha por sua continuidade está imersa em fluxos cósmicos que determinam seus trabalhos. É importante compreender que tais escolas estão em atividade, assim para nelas ingressarmos não basta "boa vontade" mas temos que nos colocar ao seu alcance e temos que ter utilidade para o projeto dessa escola.

Cada Escola de acordo com o caminho ao qual estiver ligada vai atrair pessoas diferentes e assim como um arquiteto não vai ver interesse numa escola de comunicação social, o adepto de uma escola pode não encontrar nada em outra.

Por razões históricas certos momentos tornam a ação aberta das Escolas impossível.

Se no Egito houveram dinastias onde as escolas estavam abertas a todos, isto é, qualquer um podia chegar e se propor a passar pelas provas iniciáticas que selecionavam quem podia ou não mergulhar no saber da Escola, outros momentos levavam as Escolas a serem perseguidas.

O mesmo ocorreu na Grécia e ainda mais em Roma.

Aí surgem as Sociedades Secretas Iniciáticas.

Sociedades Secretas existem muitas, de cunho político, militar e tantos outros. Uma sociedade secreta iniciática é uma escola que em virtude do obscurantismo de uma época tem que fugir da história para continuar existindo.

Uma sociedade secreta vai se reunir em local secreto, tem seus ritos em segredo e seus membros não divulgam dela fazer parte, só sendo reconhecidos por seus pares.

Ordens como a maçonaria moderna e muitas linhas rosa-cruzes são escolas de sabedoria que por terem um sistema iniciático em graus tem seu saber restrito a seus membros. No rigor do termo não são mais sociedades secretas, pois podemos encontrar o endereço em listas telefônicas e seus membros não tem nenhum problema em alardear sua filiação as mesmas.

As Sociedades Secretas são agudamente conscientes que os perigos que criaram a Inquisição e outros momentos de obscurantismo não estão ausentes dessa sociedade, vejam a praga fundamentalista evangélica se desenvolvendo.

Assim elas se mantém a margem, como guardiãs invisíveis prontas para recolher o saber das idades frente a uma nova era de ignorância e perseguição e salvaguardar tal saber até que surjam novamente condições de tal saber vir a tona.

Onde menos esperamos estão os guardiães desse saber.

Vivi uma experiência há algum tempo que reforçou essa certeza. Na minha última viagem à Cuzco, estava com um grupo numa Van. Meu hotel ficava fora da cidade, assim era o último "a ser entregue". Um dia, voltando de um passeio a Sacsayhuaman ouvi de um dos turistas a tradicional história dos ETs terem vindo construir aquele monumento. Como de praxe, discordei, colocando a ressalva de que creio em visitantes de outros mundos, hoje e ontem na história, mas creio que dizer que foram ETs os que construíram tais lugares é uma forma de negar a existência de uma complexa cultura que existiu antes, da qual os Incas e outros povos descenderam, mesmo tendo perdido a Arte, como a Europa Medieval, supersticiosa e grosseira, nada aparentava da fabulosa cultura greco-romana que a antecedera.

Acalorados debates mas cada um chegava no seu hotel e iam embora. Quando estava só com o motorista da Van ele me perguntou porque eu dissera aquilo. Falei-lhe do meu interesse pelas antigas culturas dali e pelo xamanismo. Ele me disse que no outro dia não fosse ao City Tour, estava viajando com um grupo com o qual faria a trilha inca alguns dias depois e eles tinham me convidado a fazer o City Tour com eles a fim de almoçarmos juntos. Ele pediu que ficasse no hotel e o esperasse que ele ia me levar num lugar pouco conhecido. Fiz isso e no meio da manhã apareceu o motorista com seu carro. Me levou pra um lugar no centro de Cuzco. Um portão do lado de uma casa, nada diferente de outras, dava para um lance de escada que levava a uma grande sala, uma espécie de porão, cheio de engradados de bebida e caixas, como um depósito de um supermercado. Havia outro lance de escadas e alguns pavimentos abaixo havia uma área imensa, iluminada com aquelas lâmpadas de óleo animal que eles usam. Era um templo antigo mantido intacto. Fui recebido por dois outros índios que me contaram coisas muito interessantes sobre seus antepassados e sobre como, de fato, embora em íntimo contato com seres de outros mundos, foram estes antepassados que construíram os monumentos que visitávamos.

Falaram sobre os Incas, que como devem saber é o nome da elite governante que erroneamente usamos pra todo o povo, sua ascensão e a escravização de outros povos, herdeiros estes da Tradição dos antigos.

Afirmaram que os antigos foram para outros mundos e que ainda hoje visitam este mundo. Afirmaram que o tempo dos Incas é história recente e já decadente. Uma das coisas que guardei foi quando ainda na Van, indo para esse lugar, que fica dentro da cidade mesmo, o motorista me disse que embora os espanhóis e os Incas antes deles (isso chamou minha atenção) tivessem tentado roubar-lhes sua herança espiritual eles haviam resistido e continuaram resistindo até o momento de revelarem de novo ao mundo seu saber.

Ele se dizia parte de um grupo de guardiães de um saber ancestral. Sou cético por natureza e treinamento, assim quando entrei no templo subterrâneo, quando ouvi o que me disseram e participei do rito minhas resistências cederam. Participei de um rito com eles que um dia escrevo sobre, ainda hoje não tenho total lembrança do mesmo. Só sei que saí dali já de noite, não era nem meio dia quando entrei, com uma fome de leão e encontrei meus amigos preocupados com meu paradeiro. Tal vivência me deixou convencido que disfarçados no cotidiano, os (as) guardiães (ãs) do saber das Idades permanecem em seu trabalho.

No outro dia o mesmo motorista nos levou até a estação de Trem onde íamos pegar o trem até um ponto a partir do qual íamos pela trilha. (dessa vez não íamos fazer a trilha inteira , mas parte dela).

Na hora de despedir ele pegou minhas duas mãos, olhou firme nos meus olhos e disse que estava me passando uma energia especial que ia me permitir entrar em sintonia com os do povo dele que ainda habitavam aquelas montanhas. De fato tive sonhos incríveis durante a trilha, esclarecedores. Assim percebo que as linhagens continuam a existir guardadas pelos seus pilares, que estão por aí, nunca se proclamando desnecessariamente.

Espero ter ajudado a esclarecer esta diferença entre uma Escola Iniciática, uma tradição, uma linhagem e uma sociedade secreta.

Resumindo: Uma linhagem é a manifestação de uma tradição através dos tempos.

Uma escola é a ação direta ou indireta de uma linhagem dentro de um momento e lugar com objetivos específicos.

Paz Profunda

Nuvem que passa


O caminho do conhecimento

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O caminho do conhecimento é uma guerra, uma luta contínua, é difícil, pois só se aprende as custas do que se julga sabido.

Isto faz de todo sábio um guerreiro, mas o inverso não é absolutamente verdadeiro.

Há quem entre em guerra apenas para defender e manter o conhecimento estabelecido.

Por isto o trabalho do professor não é tanto ensinar, mas combater o ego do aprendiz.

"Eu não vim à Terra trazer paz, antes espada".

Meditação e LSD

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Pergunta: o LSD pode ser de auxílio, na meditação?

O LSD pode ser usado como auxílio, mas é um auxílio muito perigoso. Não é assim tão fácil. Se usares um mantra, mesmo isso se torna difícil de abandonar, mas se usares ácido (LSD) será ainda mais difícil esse abandono.

No momento em que estás numa viagem provocada pelo LSD, não tens controle. A química toma o controle e já não és o senhor. E desde que não és o senhor, será difícil reaver essa posição. A química já não é a escrava, agora: tu és o escravo. E como
controlar tal coisa, não é mais dependente de tua escolha.

Desde que tomes LSD como auxílio estás fazendo do mestre um escravo, e toda a química de teu corpo será afetada por isso. Teu corpo começará a ansiar pelo LSD.

Agora, a ânsia não será apenas da mente como acontece quando te apegas a um mantra. Quando usas o ácido como auxílio, a ânsia se torna parte do teu corpo; o LSD invade todas as células do corpo, modifica-se, e tua estrutura química interna se torna diferente. Então, todas as células do corpo passam a desejar o ácido, e será difícil abandoná-lo.

O LSD pode ser usado para levar-te a meditação, apenas se teu corpo tiver sido preparado para isso. Portanto, se me perguntas se ele pode ser usado no Ocidente, direi que ele não é absolutamente para o Ocidente. Pode ser usado apenas no Oriente, se o corpo está
totalmente preparado para tanto.

Aioga usou-o, há escolas de tantra e de ioga que têm usado o LSD como auxílio mas primeiro preparam o corpo dos que vão usá-lo. Teu corpo se torna tão puro e tu te fazes de tal forma dono dele, que mesmo a química não pode tornar-se tua senhora. Por isso a ioga o permite, mas de uma forma muito específica.

Antes, teu corpo deve ser quimicamente purificado. Então, terás tamanho controle do corpo que até mesmo a química, desse teu corpo, pode ser controlada. Há por exemplo certos exercícios de ioga. Se tomas veneno podes ordenar ao teu sangue, através desses exercícios de ioga que não se misture com ele, e o veneno passará através do teu corpo sem, de forma alguma, se misturar ao sangue, sendo expelido com a urina.

Se podes fazer isso, se podes controlar a química do teu corpo, então podes usar qualquer coisa, porque te conservaste o senhor.

No tantra, usam álcool para auxiliar a meditação.

Parece absurdo, mas não é. O investigador tomará álcool em certa quantidade e então tentará conservar-se alerta.

A consciência não deve ser perdida. Aos poucos a quantidade de álcool vai sendo aumentada, mas a consciência deve permanecer alerta. A pessoa bebeu álcool, ele foi absorvido pelo corpo, mas a mente se mantém acima disso. A consciência não foi perdida. Então a quantidade de álcool cada vez mais é aumentada.

Através dessa prática chega-se a um ponto em que qualquer quantidade de álcool pode ser dada e a mente mantém-se alerta. Só então o LSD pode ser de auxílio. No Ocidente não há práticas para purificar o corpo ou para aumentar a consciência através das modificações da química do corpo.

O ácido é tomado, no Ocidente, sem qualquer preparação. Isso não vai ajudar.Bem ao contrário, isso pode destruir por inteiro a mente. Há muitos problemas. Desde que estiveste numa viagem de LSD, tiveste um relance de algo que jamais conheceste, de algo que jamais sentiste. Se começares a praticar a meditação, isto é um longo processo, mas o LSD não é um processo, tu o tomas e o processo está terminado. Então o corpo começa a funcionar.

A meditação é um longo processo tens de fazê-la durante anos, e só então os resultados vão aparecendo e, quando experimentaste um atalho será difícil aceitares um longo processo. A mente ansiará pela volta ao uso da droga. Por isso é difícil meditar, desde que tiveste um relance através da química. Empreender algo que é um longo processo será difícil. Ameditação requer mais resistência, mais fé, mais espera, e será difícil, porque, agora, podes fazer comparações.

Em segundo lugar, qualquer método é mau se não tens o controle dele todo o tempo. Quando estás meditando, podes parar a qualquer momento. Podes sair daquilo.

Numa viagem de LSD não podes parar; desde que tomaste, tens de completar o círculo.

Agora, não és o senhor.

Seja o que for que faça de ti um escravo não vai, definitivamente, ajudar-te espiritualmente, porque a espiritualidade, em sua forma básica, significa ser senhor de si mesmo.

Assim, eu não sugiro atalhos.

Não sou contra o LSD, e posso ser, às vezes, a favor dele, mas nesse caso, uma longa preparação preliminar é necessária.

Então, serás o senhor.

Mas a essa altura o LSD não é um atalho. Levará ainda mais longe do que a meditação.

Hatha-ioga leva anos para preparar o corpo. Vinte anos, vinte e cinco anos, e então o corpo está pronto. Agora, podes usar qualquer auxílio químico e ele não será destruidor do teu ser.

Mas o processo é muitíssimo mais longo.

Então o LSD pode ser usado; então, sou favorável a ele.

Se estás disposto a passar vinte anos preparando teu corpo a fim de tomar o LSD, então ele não será destrutivo, mas a mesma coisa pode ser feita em dois anos, com a meditação.

Porque o corpo é mais maciço, o domínio é mais difícil. A mente é mais sutil, então o domínio é mais fácil. O corpo está mais afastado do teu ser, assim há um intervalo maior; com a mente o intervalo é menor.

Na Índia, o método primitivo de preparar o corpo, a fim de que ele fique pronto para a meditação, era a Hatha-ioga. Levava tanto tempo essa preparação do corpo, que às vezes hatha-ioga tinha de inventar métodos para prolongar a vida, de forma que Hatha-ioga
pudesse ser continuada.

Era um processo de tal modo longo que sessenta ou setenta anos podiam não ser suficientes.


E há um problema: se o domínio não é obtido nessa vida, na próxima terás de começar pelo ABC, porque tens um novo corpo. Todo esforço estará perdido.

Não terás de ter uma nova mente em tua próxima vida (a antiga mente continua), de forma que aquilo que alcançaste com a mente permanece contigo, mas o que quer que tenhas obtido com o corpo, perde-se com a morte, com cada morte. Assim, Hatha-ioga teve de inventar métodos para prolongar a vida, durante duzentos ou trezentos anos, de forma que o domínio pudesse ser obtido.

Se o domínio é da mente, então podes modificar o corpo, mas a preparação do corpo pertence, exclusivamente ao corpo.

Hatha ioga inventou muitos métodos de forma que o processo pudesse ser completado, mas métodos ainda maiores foram descobertos: como controlar a mente diretamente (raja-ioga).

Com esses métodos o corpo pode ser um tanto auxiliador, mas não há
necessidade de nos preocuparmos com ele. Assim, os adeptos da hatha-ioga disseram que o LSD pode ser usado, mas a raja-ioga não pode dizer que LSD pode ser usado, porque raja-ioga não tem metodologia para preparar o corpo.

Ela usa a meditação direta.

Às vezes acontece apenas às vezes, raramente que tens um relance através do LSD e não te apegas a ele; aquele relance pode tornar-se uma sede, que te incite a buscar um pouco mais além. Portanto, tentar uma vez é bom, mas torna-se difícil saber onde parar e
como parar.

A primeira viagem é boa, estar nela uma vez é bom tu te tornas ciente de um mundo diferente, e então começas a procurar, começas a tua busca; mas, então, torna-se difícil parar.

Esse é o problema. Se podes parar, então tomar LSD uma vez é bom. Mas esse “se” é muito grande.

Começar, seja o que for, é fácil porque tu és o senhor, mas terminar seja o que for é difícil, porque não és o senhor.

Portanto, não sou contra o LSD... e se sou contra ele, será condicionalmente.

Esta é a condição: se podes permanecer senhor, está bem.

Usa qualquer coisa, mas permanece senhor.

(* Extraído do Livro “Meditação: a arte do êxtase” OSHO)