Pistas do Caminho

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Completamente diferente do estado normal em que vivia, na agitada grande cidade, ele rememorava antigas sensações, sensações esquecidas da infância, odores, texturas, percepçoes de um passado presente e submerso, pronto para emergir caso uma chance lhe fosse dada, caso a ansiedade fosse afastada.

Agora, ao adentrar a floresta, percorria a trilha que o levava ao antigo templo. Muito relaxado ele caminhava, o corpo tinha uma pulsação de pura satisfação, o coração vibrava com sintomas de felicidade, não havia o menor traço de ansiedade, em sintonia com tudo. O vento lhe acarinhava a pele, ondas de prazer percorriam-no, o sol da manhã o acalentava como se fosse um abraço sutil.

Então uma dúvida o sacudiu: psicose?

Sorriu, o leve assalto da mente foi percebido sem conflito.

Trafegando entre realidades, a sua mente percebia a viagem entre mundos, o mundo cotidiano dos homens, a realidade do consenso social e aquele outro mundo, natural, onde a felicidade resultava apenas da consciência do aqui e do agora permitida pelos  raios de sol que penetravam a folhagem da floresta formando um jogo de luz e sombra.

Ele precisava viver entre esses mundos, entre a neurose coletiva e a consciência da paz, entre a psicose do homem atual e a psicose do xamã, num misto de compaixão estranha abraçava a dor dos outros para não se perder naquela estranha felicidade.

Nirvana?

Esta dualidade percebida revelou dentro dele uma síntese sentida no corpo todo, aquilo que poderia parecer loucura fazia todo o sentido e, então, o mistério da cruz lhe foi revelado de uma só vez, como uma onda transversal entre o humano e o divino, entre o céu e o inferno, entre o samsara e o nirvana.

Estremeceu por completo, tremor de prazer pela compreensão e de dor pela partilha inevitável e ao mesmo tempo impossível.

F.

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