Ao Guerreiro Perfeito

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O campo de batalha sou eu
Foi isto que Deus me deu
No coração, meu escudo
Na mente, a lâmina
No corpo, o templo
No olhar, a chama
No sorriso, o brilho
Do Dragão e do Anjo

Entre o pecado e a virtude,
vou seguindo, nem anjo, nem demônio,
apenas humano, sobretudo divino,
pois julgar não é amar, e num justo equilibrar
perceber a luz e a sombra, mas quem em mim percebe?
Nesta balança do Ser
O brilho da espada a resplandecer,
"Mil cairão ao lado, e dez mil à direita; mas tu não serás atingido", mas quem é este?
A espada, a balança, o trono e a luz que não pode ser vista.
Assim brilha o sol da eterna justiça.
Senhor da Luz, Senhor das Trevas
Senhor da Guerra, Senhor da Paz
Por isto Ele é o Senhor,
Domina sobre os opostos
Reconciliado em mim, em nós
Para a glória infinita de ser.
Deus em mim, Deus em nós.
O Exército da Voz
Eu sou, sou eu, somos Nós.


Nagualismo e Budismo: as manifestações do espírito

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Asanga e as manifestações do espírito

— A primeira história de feitiçaria que vou lhe contar é chamada “As manifestações do espírito” — começou Don Juan —, mas não deixe que o título o mistifique. As manifestações do espírito são apenas o primeiro cerne abstrato ao redor do qual a primeira história de feitiçaria está construída.

“Esse primeiro cerne abstrato é uma história em si mesma. A história diz que tempos atrás houve um homem, um homem comum sem quaisquer atributos especiais. Era, como todos os demais, um conduto para o espírito. E em virtude disso, como todos os demais, era parte do espírito, parte do abstrato. Mas não sabia disso. O mundo mantinha-o tão ocupado que ele realmente não tinha o tempo nem a inclinação para examinar o assunto.

“O espírito tentou, sem sucesso, revelar sua conexão. Usando uma voz interior, o espírito revelou seus segredos, mas o homem era incapaz de compreender as revelações.

 Natural¬mente, ouvia a voz interior, mas acreditava que fossem seus próprios sentimentos que estava sentindo e seus próprios pensamentos que estava pensando.

“O espírito, para sacudi-lo de sua modorra, deu-lhe três sinais, três manifestações sucessivas. O espírito cruzou fisicamente o caminho do homem da maneira mais óbvia.

Mas o homem estava alheio a qualquer coisa a não ser a preocupação consigo mesmo.

Don Juan parou e olhou para mim, como fazia sempre que estava à espera de meus comentários e perguntas. Eu não tinha nada a dizer. Não compreendia o ponto que estava tentando demonstrar.

— Acabei de contar-lhe o primeiro cerne abstrato — continuou. — A única outra coisa que poderia acrescentar é que por causa da absoluta relutância do homem em compreender, o espírito foi forçado a usar de artimanhas. E as artimanhas tornaram-se a essência do caminho dos feiticeiros. Mas isso é outra história.

O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda

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Asanga, um grande praticante buddhista indiano, retirou-se em uma caverna para meditar dia e noite no Buddha Maitreya. Depois de seis anos, não tinha tido um único sonho auspicioso, uma única visão — nenhum sinal de realização. Então, concluiu que sua meditação era inútil. Deixou a caverna e, ao seguir pela estrada, passou por um homem que esfregava um lenço de seda numa coluna de ferro. Asanga perguntou ao homem, "O que o senhor está fazendo?"

"Estou fazendo uma agulha", respondeu o homem.

Asanga pensou, "Mas que perseverança! Ele está esfregando uma coluna de ferro com um lenço de seda para fazer uma agulha, e eu sequer tenho paciência suficiente para permanecer em retiro." Caminhou de volta para sua caverna e começou a meditar, dia e noite, sobre o Buddha Maitreya.

Depois de mais três anos de meditação, ela ainda não havia recebido sinal algum de realização. Nenhum sonho, nenhuma visão, nada. Novamente, muito desanimado, deixou o retiro. Ao seguir pela estrada, viu um homem que mergulhava uma pena num balde d'água e a passava sobre a superfície de um enorme rochedo. Asanga perguntou ao homem o que fazia.

"Este rochedo está fazendo sombra sobre a minha casa," respondeu, "então eu o estou removendo."

Asanga pensou, "Eis aqui alguém que, para ter apenas um pouco de Sol sobre seu telhado, se dispõe a ficar em pé interminavelmente, removendo um rochedo com uma pena. E eu não consigo sequer meditar até que obtenha um sinal." Então, voltou para a caverna e sentou-se em meditação.

Após um total de doze anos em retiro, ele ainda não havia recebido sinal algum. De novo, desencorajado e decepcionado, partiu. Ao seguir pela estrada, desta vez encontrou um cachorro muito doente. A parte inferior de seu corpo estava apodrecida por gangrena e cheia de larvas de moscas varejeiras. Sem as duas pernas de trás, ele conseguia apenas se arrastar pela estrada. Ainda assim, voltava-se para todos os lados, tentando morder quem estivesse em volta. O coração de Asanga se comoveu. "Este pobre cachorro", pensou, "O que posso fazer para ajudá-lo? Tenho que limpar a ferida, mas com isso posso matar as larvas. Não posso tirar a vida de um para preservar a de outro; toda vida tem valor."

Por fim, decidiu que, se usasse sua língua com cuidado para retirar as larvas da ferida, poderia salvar tanto os insetos quanto o cachorro. A idéia era repugnante, mas fechou os olhos e se abaixou. Quando abriu sua boca, sua língua tocou não o animal, mas o chão. Abriu os olhos. O cão havia sumido e ali estava o Buddha Maitreya.

"Faz anos e anos que estou rezando a você", exclamou Asanga, "e esta é a primeira vez que você aparece!"

O Buddha respondeu muito suave, "Desde o primeiro em dia que você começou sua meditação, tenho estado a seu lado. Mas, por causa do dos venenos da sua mente e dos enganos e ilusões criados por sua não-virtude, você não conseguia me ver. Era eu o homem que esfregava a coluna, era eu o homem que passava a pena no rochedo. Somente quando apareci como esse cachorro apodrecido é que você teve compaixão e altruísmo suficientes para purificar o karma que o impedia de me ver".

(Chagdud Tulku Rinpoche. Portões da Prática Budista.
Traduzido por Manoel Vidal, revisado por Cinthia Sabbado, Marta Rocha e Maurício Sabaddo.
Três Coroas: Rigdzin, 2000. Pág. 85-87.

O que define o humano

terça-feira, 6 de setembro de 2016

O problema da mentira está na desfiguração do humano.

O que define o humano é o sentir em equilíbrio.

Sinto, logo sou.

Se fosse a razão o psicopata seria o ápice da evolução humana, pois é 100% razão e 0% emoção.

Penso para descobrir os limites da razão.

Sem o sentimento não há compaixão, humanidade ou empatia.

Quando mentimos falseamos o sentimento e assim falseamos a nós mesmos.

O sentimento é a expressão da alma verdadeira e do coração, diferente da reatividade emocional que é própria da legião (os diferentes eus dentro da máquina humana ou do animal intelectual).

Quando você promete e não cumpre trai, sobretudo, a si mesmo, torna-se débil, fraco, complacente. Não pode haver força em si mesmo.

Trair a si mesmo é manifestar a legião, os muitos em nós mesmos, é revelar a terrível verdade da ausência da individualidade.

A máxima "Faz o que Tu queres será o todo da Lei" só pode ser entendida por aqueles e aquelas que possuem individualidade verdadeira e realizaram a paciência e a perserverança dita em outro ensino: Com paciência possuireis vossas almas.

Mas o mentiroso não possui alma.

Por isso a mentira tornou-se a essência do mal e a marca do psicopata, do político, do estelionatário e do capitalista.

"Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio e não se apegou à verdade, pois não há verdade nele. Quando mente, fala a sua própria língua, pois é mentiroso e pai da mentira.

Ouspensky chamou a psicologia do homem-máquina de a psicologia da mentira pois temos que começar por investigar nossas ilusões, descobri-las, reconhecê-las, mas o animal intelectual pensa que sabe e ignora que ignora.

"O mais importante não é sobreviver, mas manter-se humano" - 1984.