Presente de Natal

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Resultado de imagem para ovo dali"A perfeição gera a perfeição" foi a única memória, em forma de frase, que trouxe de um sonho que não era deste mundo, e nem poderia ser, afinal este mundo não é propriamente um modelo de perfeição. Mas rapidamente, por livre associação, me lembrei da estória de Mulla Nasrudin, sábio sufi, sobre a perfeição possível. E me perguntei de que forma poderia eu avaliar o que é perfeito.

A perfeição gera a perfeição surgiu como um eco novamente. E foi acrescentado um outro pensamento intuitivo. "O mal destrói a si mesmo". Este pensamento me fez lembrar de uma estória de Shiva a respeito de um asura que desejava sua esposa.

Eu estava cheio de estórias, pensamentos e sonhos sem estar confuso, naturalmente os pensamentos se apresentavam deixando intervalos, como nuvens contra um céu azul refletindo a manhã na Serra dos Órgãos, onde o dedo de Deus indica o caminho. Mesmo o som dos aviões que passavam maculando o espaço com seus rastros químicos não me perturbavam, pois o mal destrói a si mesmo.

Antes minha mente estava intrigada, queria perceber o significado por trás daquela frase de sonho: a perfeição gera a perfeição. Talvez a chave estivesse na outra frase, pois se o mal destrói a si mesmo a perfeição talvez seja justo aquilo que não pode ser destruído, que possui na impermanência do mundo a qualidade oposta.

O que permanece, perdura, dura para sempre, resiste ao tempo inclemente, não sofre destruição e, portanto, não pode ser atingido pelo mal? Que bem supremo não sofre desgaste e desafia a tudo e a todos? Essas não são perguntas novas. Filósofos diversos, homens geniais já refletiram sobre elas: Heráclito, Hegel, Buda. Mas eu não queria recorrer a estas mentes brilhantes, por mim mesmo gostaria de aprofundar-me na questão sem usar nenhuma bengala intelectual.

Sei que a solução estava na própria questão, na verdade uma afirmação simples e direta que me surgiu em sonho como se fosse a voz de um mestre esquecido, envolto na bruma de uma outra realidade. Talvez eu devesse deixar a afirmação ecoar dentro de mim como um mantra ou um problema zen, um koan.

Mas não era tão somente a frase que me intrigava, ela veio a mim envolta numa vibração própria, num sentimento de algo que eu sabia de alguma forma, algo bom e significativo que precisava resgatar para mim mesmo, algo que eu estava perto de descobrir, como um segredo sempre guardado dentro de mim e este segredo, talvez, fosse justo o bem supremo que perdura e permanece dentro de cada um de nós. Talvez fosse isso uma espécie de presente de natal ou  tão somente a nostalgia de um outro tempo.

F.

Sobre a atenção - 5ª parte

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016


"Os feiticeiros espreitam a si mesmos constantemente - comentou com uma voz reconfortadora, como se tentando acalmar-me com o tom de sua voz.

Desejei dizer que meu nevorsismo tinha passado e que provavelmente havia sido causado pela falta de sono, mas ele não me permitiu dizer coisa alguma.

Assegurou-me de que já havia me ensinado tudo o que tinha para saber sobre espreitar, mas eu ainda não recuperara meu reconhecimento da profundeza da consciência intensificada, onde o tinha armazenado. Disse-lhe que seria a desagradável sensação de estar arrolhado. Parecia haver algo trancado em mim, algo que me fazia bater portas e chutar mesas, algo que me frustrava e me tornava irascível .

- Essa sensação de estar arrolhado é experimentada por todo o ser humano. É um lembrete da existência de nossa conexão com o intento. Para os feiticeiros essa sensação é ainda mais aguda, precisamente porque seu objetivo é sensibilizar seu elo de conexão até que possam fazê-lo funcionar à vontade.

Quando a pressão do seu elo de conexão é grande demais, os feiticeiros aliviam-na espreitando a si mesmos.

- Ainda acho que não compreendo o que quer dizer por espreitar - falei. - Mas em certo nível penso que sei exatamente o que quer dizer.

- Tentarei ajudar você a esclarecer o que sabe, então. Espreitar é um procedimento, um procedimento muito simples. Espreita é um comportamento especial que segue certos princípios. É um comportamento secreto, furtivo, enganoso, designado a provocar um choque. E quando você espreita a si mesmo, você choca a si mesmo, usando seu próprio comportamento de um modo implacável, astucioso.

Explicou que quando a consciência de um feiticeiro ficava enredada pelo peso de suas aquisições perceptivas, o que estava acontecendo comigo, o melhor, ou talvez nosso único remédio, era usar a idéia da morte para proporcionar esse choque de espreita.

- A idéia da morte é de importância fundamental na vida de um feiticeiro - continuou D. Juan. - Mostrei-lhe coisas inumeráveis a respeito da morte para convencê-lo de que o conhecimento de nosso fim pendente e inevitável é o que nos dá sobriedade. Nosso engano mais caro como homens comuns é não se importar com o senso de imortalidade. É como se acreditássemos que , se não pensássemos a respeito da morte, nos pudéssemos proteger dela.

- Precisa concordar D. Juan que não pensar sobre a morte protege-nos de nos preocuparmos a respeito.

- Sim, isto serve a tal propósito, mas tal propósito não tem valor para homens comuns e representa uma caricatura para os feiticeiros. Sem uma visão clara da morte, não há ordem, nem sobriedade, nem beleza. Os feiticeiros lutam para ganhar essa percepção crucial de modo a ajudá-los a perceber no nível mais profundo possível que não tem segurança sequer de que suas vidas continuarão além do momento. Essa percepção dá aos feiticeiros a coragem de serem pacientes e no entanto entrarem em ação, coragem de aquiescer sem serem estúpidos. Don Juan fixou seu olhar em mim, sorriu e balançou a cabeça.

- Sim - continuou -, a idéia da morte é a única coisa que pode dar coragem aos feiticeiros. Estranho, não é ? Dá aos feiticeiros coragem de serem atenciosos sem serem vaidosos, e acima de tudo dá-lhes coragem de serem implacáveis sem serem convencidos.

Sorriu outra vez e cutucou-me. Disse-lhe que estava absolutamente aterrorizado pela idéia de minha morte, que pensava a respeito com freqüência, mas que certamente isso não me dava a coragem ou me incentivava a entrar em ação. Apenas me tornava cínico ou fazia com que eu caísse em estado de profunda melancolia.

- Seu problema é muito simples - disse ele. - Você fica facilmente obcecado.

Estive lhe dizendo que os feiticeiros espreitam a si mesmos para quebrar o poder de suas objeções. Há muitas maneiras de espreitar a si mesmo. Se não deseja usar a idéia de sua morte, use os poemas que lê para mim para espreitar a si mesmo.

- Como disse ?

- Disse-lhe que há muitas razões pelas quais gosto de poema - retrucou ele. - O que eu faço é espreitar a mim mesmo com ele. Provoco um choque em mim mesmo com eles.

Escuto, e enquanto você lê, calo meu diálogo interno e deixo meu silêncio interior ganhar impulso. Então a combinação do poema e do silêncio desfecha o choque.

Explicou que os poetas anseiam inconscientemente pelo mundo dos feiticeiros. Por não serem feiticeiros no caminho do conhecimento, os anseios são tudo o que tem.

(...)

...este incessante morrer obstinado,

esta morte vivente,

que te retalha, oh Deus,

em tua rigorosa obra

nas rosas, nas pedras,

nos astros indomáveis e na carne que se queima,

como uma fogueira acesa por uma música,

um sonho,

um matiz que atinge o olho.

...e tu, tu próprio, talvez tenha morrido eternidades de eras aí fora,

sem que saibamos a respeito, nos refúgios , migalhas , cinzas de ti;

tu que ainda estás presente,

como um astro imitado por sua própria luz,

uma luz vazia sem astros

que nos alcança,

escondendo sua infinita catástrofe.

" Quando ouço as palavras - manifestou-se D. Juan quando terminei de ler -, sinto que aquele homem está vendo a essência das coisas e posso ver com ele. Não me importo sobre o que seja o poema. Importo-me apenas sobre o sentimento que os anseios do poeta (filósofo) trazem até mim. Empresto seus anseios, e com eles empresto a beleza. E me maravilho diante do fato de que ele, como um verdadeiro guerreiro, derrame-o sobre os receptores, os espectadores, retendo para si mesmo apenas sua ansiedade. Esse impuxo, esse choque de beleza, é espreitar."


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A arte de espreitar é aprender todas as peculiaridades de teu disfarce, e aprende-las tão bem que ninguém saiba que estás disfarçado. Para consegui-lo, necessitas ser desapiedado, astuto, paciente e gentil . Ser implacável não significa aspereza, a astúcia não significa crueldade, ser paciente não significa negligência e ser gentil não significa ser estúpido. Os guerreiros atuam com um propósito ulterior, que não tem nada a ver com o interesse pessoal. O homem comum atua apenas se há possibilida de de ganância. Os guerreiros não atuam por ganância e sim pelo espírito.

Citações extraídas do livro O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda

As duas formas de amar

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016


Há duas espécies de amor.

Um é o amor de escravo.

O outro deve ser adquirido pelo trabalho.

O primeiro não tem valor algum; só o segundo, o amor que é fruto de um trabalho , tem valor. É o amor que todas as religiões falam. Se você amar, quando "isso" ama, esse amor não depende de você e não haverá nenhum mérito nisso. É o que chamamos de amor de escravo.

Você ama até mesmo quando não deveria amar. As circunstâncias fazem-no amar mecanicamente.

O verdadeiro amor é o amor cristão (Gurdjieff emprega esse termo em seu sentido original e não no sentido corrente), religioso; ninguém nasceu com esse amor.

Para conhecer esse amor, você deve trabalhar. Algumas pessoas sabem disso desde a infância; outros só o compreendem numa idade avançada. Se alguém conhece o amor verdadeiro, é porque o adquiriu ao longo da vida. Mas é muito difícil aprender isso. É impossível começar a aprendê-lo diretamente com as pessoas. O outro sempre nos toca vivamente, põe-nos em guarda e nos dá pouquíssimas chances de tentar.

O amor pode ser de diferentes espécies. Para compreender de que tipo de amor falamos, é necessário defini-lo.
Neste momento, falamos do amor para a vida. Em toda a parte onde haja vida, a começar pelas plantas e pelos animais, numa palavra, em toda a parte onde exista a vida, há amor. Cada vida é uma representação de Deus. Quem puder ver a representação, verá Aquele que é representado. Cada vida é sensível ao amor. Mesmo as coisas inanimadas, como as flores, que não tem consciência, compreendem se você as ama ou não. Até a vida inconsciente reage de uma maneira diferente diante de cada homem e faz eco as suas reações.



O que você semeia você colhe; e não apenas no sentido de que se você semeia trigo colherá trigo. A questão é como você semeia.


O trigo poderá tornar-se literalmente palha. Na mesma terra, pessoas diferentes podem semear as mesmas sementes e os resultados serão diferentes. Mas estas são apenas sementes. O homem certamente é muito mais sensível ao que é semeado nele. Os animais também são muito sensíveis, embora menos que o homem. Por exemplo, X. tinha sido encarregado de cuidar dos animais. Vários deles adoeceram e morreram, as galinhas punham cada vez menos, e assim por diante. Mesmo uma vaca dará menos leite, se você não gostar dela. A diferença é realmente espantosa. O homem é mais sensível do que uma vaca, mas de modo inconsciente.


E se você experimentar antipatia ou ódio, por uma pessoa, será apenas porque alguém semeou algo de mau em você.

Aquele que deseja aprender a amar o próximo deve começar tentando amar as plantas e os animais.

Quem não ama a vida não ama a Deus.

Começar tentando logo amar um homem é impossível, porque esse homem é como você, e, em resposta, o atacará. Um animal, no entanto, é mudo e se resignará tristemente. Eis porque é mais fácil se exercitar primeiro com os animais.

Para um homem que trabalha sobre si mesmo é muito importante compreender que só se pode operar uma mudança nele se ele mudar de atitude em relação ao mundo exterior. Geralmente você não sabe o que deve ser amado e o que não deve ser amado, porque tudo isso é relativo; em você, uma só e mesma coisa vai ser amada e não amada, enquanto objetivamente há coisas que devemos amar ou não amar. Daí por que, praticamente, é preferível deixar de pensar no que você quer chamar de "bom" ou "mau" e só agir quando tiver aprendido a escolher por si mesmo. Agora, se você quiser trabalhar sobre si mesmo, deve desenvolver em si diferentes atitudes. Não comece pelas coisas grandes, que são inegavelmente reconhecidas como más; exercite-se desse modo :


se amar uma rosa, tente não amá-la; e se não a amar, tente amá-la.

É melhor começar com o mundo das plantas. A partir de amanhã, tente olhar as plantas como nunca as olhou ainda. Cada um de nós é atraído por certas plantas e não por outras. Talvez ainda não tenhamos notado isso. Você deve olhar primeiro a planta, depois trocá-la por outra, observar e tentar compreender por que existe essa atração ou aversão. Estou certo de que cada pessoa experimenta ou sente alguma coisa. É um processo que se passa no subconsciente e a mente não vê. Se você começar, no entanto, a olhar conscientemente, verá muitas coisas, descobrirá muitas "Américas". As plantas, como os homens, tem relações entre si e há também relações entre as plantas e os homens, mas de vez em quando elas mudam.


Todas as coisas vivas estão ligadas umas às outras. Isso se aplica a tudo que vive . Todas as coisas dependem umas das outras.
As plantas agem sobre os humores do homem e o humor deste age sobre o mundo da planta. Durante toda a nossa vida faremos a experiência disso. Até mesmo as flores em vasos viverão ou morrerão em função de nossos humores.

Gurdjieff fala a seus alunos - pg.241 à 243