Punhal metafórico

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Don Juan olhou na direção do céu com desalento e balançou a cabeça num gesto brincalhão de desespero. Continuei com minha argumentação, não para discordar dele, mas para esclarecer as coisas em minha mente. No entanto, rapidamente perdi o ímpeto. De repente tinha a sensação de estar escorregando através de um túnel.

— Os feiticeiros dizem que o quarto cerne abstrato ocorre quando o espírito corta nossas cadeias de auto-reflexão. Cortar nossas cadeias é maravilhoso, mas também muito indesejável, pois ninguém deseja ser livre.

A sensação de deslizar através de um túnel persistiu por um momento mais, então tudo ficou claro para mim. E comecei a rir.

Estranhas noções acumuladas dentro de mim estavam explodindo em forma de riso.

Don Juan pareceu estar lendo minha mente como se ela fosse um livro.

— Que sensação estranha: perceber que tudo que pensamos, tudo que dizemos depende da posição do ponto de aglutinação — comentou.

E aquilo era exatamente o que eu estivera pensando e rindo a respeito.

— Sei que nesse momento seu ponto de aglutinação moveu-se e que você compreendeu o segredo de nossas correntes. Elas nos aprisionam, mas mantendo-nos pregados em nosso confortável ponto de auto-reflexão, defendem-nos dos assaltos do desconhecido.

Eu estava tendo um daqueles extraordinários momentos nos quais tudo a respeito do mundo dos feiticeiros estava claro como cristal. Compreendia tudo.

— Uma vez que nossas correntes são cortadas — continuou Don Juan —, não estamos mais presos pelas preocupações do mundo cotidiano. Permanecemos num mundo cotidiano, mas não pertencemos mais a ele. Para isso ocorrer, devemos partilhar das preocupações das pessoas, e sem correntes não conseguimos.

Don Juan contou que o nagual Elias explicara-lhe que o que nos distingue como pessoas normais é que partilhamos de um punhal metafórico. As preocupações de nossa auto-reflexão. Com esse punhal, cortamo-nos e sangramos; e o trabalho de nossas cadeias de auto-reflexão é proporcionar-nos a sensação de que estamos sangrando juntos, que estamos partilhando de algo maravilhoso: nossa humanidade. Mas se fôssemos examiná-lo, iríamos descobrir que sangramos sozinhos; que não estamos partilhando nada; que tudo o que estamos fazendo é brincar com nossa reflexão, manipulável e irreal, feita pelo homem.

— Os feiticeiros não se encontram mais no mundo dos afazeres diários — continuou Don Juan — porque não são mais presa de sua auto-reflexão.

O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda

2 comentários:

Yuri disse...

Saudações FA,
Gostaria de ter acesso aos escritos do Nuvem que Passa.
Você os teria?
Caso sim, seria possível mandar para esse e-mail: yuridevulsky@hotmail.com
Ou responder por esse post mesmo.
Abraços!

Fernando Augusto disse...

Saudações, Yuri!

No Pistas do Caminho vc encontra os textos do Nuvem, basta digitar Nuvem que passa no campo de busca que existe no lado direito do próprio blog ;-)

Há braços!

F.A.