O estigma das drogas e a raiz do proibicionismo

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Os três tipos

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

- Os espreitadores que praticam a loucura controlada acreditam que, em questão de personalidade, a raça humana inteira entra em três categorias - disse ele, e sorriu da maneira que sempre fazia quando estava preparando algo.


- Isso é absurdo - protestei. - O comportamento humano é complexo demais para ser categorizado tão simplesmente.


- Os espreitadores acham que não somos tão complexos como pensamos ser e que todos pertencemos a uma das três categorias.


Ri de puro nervosismo. Em geral, eu teria tomado tal declaração como uma piada, mas desta vez, porque minha mente estava muito clara e meus pensamentos eram pungentes, senti que ele realmente falava sério.


- Está falando sério? - perguntei, com tanta polidez quanto pude.


- Completamente sério - replicou, e começou a rir.


Seu riso relaxou-me um pouco. Ele continuou explicando o sistema de classificação dos espreitadores. Disse que as pessoas de primeira classe (também conhecidas por mijos) são secretários perfeitos, assistentes, companheiros. Têm uma personalidade muito fluida, mas sua fluidez não é nutritiva. São, entretanto, serviçais, preocupados, totalmente domésticos, dispõem de recursos dentro de certos limites, são bem-humorados, têm boas maneiras, são doces e delicados. Em outras palavras, são as pessoas mais simpáticas que alguém pode encontrar, mas têm uma enorme falha: não conseguem funcionar sozinhas. Estão sempre necessitadas de alguém para dirigi-las. Com direção, são perfeitas, não importando quão difícil ou antagônica seja essa direção possa ser. Entregues a si mesmas, perecem.


As pessoas de segunda classe (os peidos) não são nem um pouco simpáticas. São mesquinhas, vingativas, invejosas, ciumentas, autocentradas. Falam exclusivamente sobre si mesmas e em geral esperam que as pessoas se enquadrem em seus padrões. Sempre tomam a iniciativa mesmo quando não se sentem confortáveis com ela. Ficam profundamente desconfortáveis em qualquer situação e nunca relaxam. São inseguras e nunca conseguem ser agradadas; quanto mais inseguras se tornam, mais desagradáveis ficam. Sua falha fatal é que matariam para ser líderes.


Na terceira categoria (os vômitos) estão as pessoas que não são simpáticas, nem desagradáveis. Não servem e não se impõem a ninguém. Antes, são indiferentes. Têm uma idéia exaltada acerca de si mesmas derivada unicamente de divagações de pensamento desejoso. Se são extraordinárias em alguma coisa, é em especial esperar que as coisas aconteçam. Estão esperando serem descobertas e conquistadas e têm uma maravilhosa facilidade para criar a ilusão de que têm grandes coisas em suspenso, que sempre prometem liberar mas nunca fazem porque, na verdade, não dispõem de tais recursos.


Don Juan afirmou que ele próprio definitivamente pertencia à segunda classe. Então pediu-me para classificar a mim mesmo, e fiquei chocado. Don Juan estava praticamente no chão, curvando-se de tanto rir. Sugeriu-me outra vez que eu classificasse a mim mesmo, e relutantemente sugeri que poderia ser uma combinação dos três.


- Não me dê essa bobagem de combinação - disse ele, ainda rindo. - Somos seres simples, cada um de nós é um dos três tipos. E no que me concerne, você pertence à segunda classe. Os espreitadores chamam-nos peidos.


Começei a protestar que esse esquema de classificação era humilhante, mas detive-me exatamente quando ia começar uma longa discussão. Em vez disso, comentei que, se fosse verdade que há apenas três tipos de personalidades, todos nós estamos aprisionados numa dessas três categorias para a vida toda, sem esperanças de mudança ou de redenção.


Ele concordou que esse era exatamente o caso, exceto que permanecia um caminho para a redenção. Os xamãs haviam há muito tempo aprendido que apenas nossa auto-reflexão pessoal caía numa das três categorias.


- O problema conosco é que nos tomamos a sério - disse ele. - Independente da categoria na qual se encaixa a nossa auto-imagem, isto só importa por causa de nossa auto-estima. Se não fôssemos tão auto-importantes, não importaria nem um pouco em qual categoria entraríamos.


"Sempre serei um peido. E você também. Mas agora sou um peido que não se leva a sério, enquanto você ainda o faz.


Carlos Castaneda em O Poder do Silêncio, baixe-o aqui!


Expressões do Sagrado Feminino: Néftis

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

NÉFTIS, A REVELADORA


A Néftis egípcia, cujo nome significa "fim" e "vitória" era conhecida como a Senhora do Palácios, Dama da Casa e A Reveladora. Era irmã de Ísis e a esposa de deus Seth. Enquanto Ísis representava a força da vida e do renascimento. Nephtys era a deusa do pôr-do-sol, dos túmulos e da morte. Seus respectivos cônjuges também representavam energias opostas. Osíris, o consorte de Ísis, era o deus da fertilidade; Seth, o cônjuge de Néftis, representava a aridez, a esterilidade e a maldade. O deus Seth é também conhecido como o assassino de Osíris. Néftis é uma deusa guardiã e ajudou Ísis a colher os pedaços de Osíris quando Seth o destroçou. Também ajudou Ísis a reanimar o corpo de Osíris por tempo o bastante para que ela concebesse um filho. Por isso é muito freqüente ver juntas ambas as deusas, uma na cabeça e outra nos pés do sarcófago. A Néftis é representada junto sua irmã, chorando e velando Osíris.

Aliás, a sua associação com Ísis no ciclo osiriano, bem documentada em inúmeras pinturas, esculturas e representações, nesse papel de divina carpideira de Osíris, é um dos seus traços dominantes. Tal como Ísis, apóia Osíris no seu Tribunal do Mundo Inferior, sendo freqüentemente representada assistindo à cerimônia de psicostasia, atrás do trono onde majestaticamente, Osíris se senta.

Como divindade relacionada com o mundo funerário e pelo seu papel na mumificação, as faixas que envolviam o defunto eram consideradas como madeixas do seu cabelo.

A morte para os egípcios antigos era uma passagem muito perigosa, pois quando a alma abandona o corpo, tudo se desune e todos os elementos corriam o risco de se manter dissociados do outro lado do espelho. Portanto a morte implicava necessariamente em uma ação mágica: a preservação da coerência do ser durante a passagem deste mundo para o outro, para poder fazê-lo reviver do outro lado na sua plenitude. Para tal feito, se realizava o embalsamento. Segundo o esoterismo egípcio, o ser é composto de diversas qualidades, sendo mais conhecidas o "akh", a irradiação, o "ba", o poder de encarnação, e o "ka", a potência vital. Cada elemento tem uma existência independente. É através da arte mágica do embalsamento que todas as partes passavam pelas aberturas do céu, permitindo que o ser completo pudesse ir e vir. O sarcófago não era um túmulo ou um lugar vazio. Era considerado como um navio e como um ventre do céu. O espírito do "morto' entra e sai do sarcófago.

Apesar de ser representada como uma bela mulher de olhos verdes, Néftis era chamada de a irmã obscura de Ísis. Ela se encontrou clandestinamente com Osíris e dele concebeu Anúbis, que conduzia os mortos. Por vezes, era representada com longos braços alados estendidos em proteção; em outras vezes, ela carregava uma cesta em sua cabeça. Plutarco nos deu uma explicação bastante esotérica sobre estas duas irmãs:

"Neftis designa o que está embaixo da terra e que não se vê (isto é, seu poder é de desintegração e reprodução), e Ísis representa o que está sobre a terra e é visível (a Natureza física). O círculo do horizonte que divide estes dois hemisférios e é comum a ambos é Anúbis.

Como uma deusa da Lua Nova, Néftis se compadece e compreende as fraquezas humanas. Seu aconselhamento é justo e sábio. Ela rege as artes mágicas, os conhecimentos secretos, os oráculos e as profecias. Animais como serpentes, cavalos, cães brancos, e dragões eram seus, assim como aves como a coruja e o corvo. No Egitos, o pentagrama (estrela de cinco pontas) era conhecido como a estrela de Ísis e Néftis.

Essa deusa regia a morte, a magia escura, coisas ocultas, conhecimentos místicos, proteção, invisibilidade ou anonimidade, intuição, sonhos e paz. Néftis, apesar de seu aspecto obscuro, oculta toda a força do feminino em sua mais abnegada e sedutora expressão e representa ainda, a compreensão que nasceu do amor sem fronteiras.

Néftis pode nos apresentar a nossa porção sombra aquela parte de nossa psique que está sempre conosco e nos influenciando. A sombra engloba tudo aquilo que temos medo, vergonha, que consideramos inadequado ou que simplesmente não apreciamos em nós mesmos. Tentamos reprimir e nos livrar dessas coisas, sem perceber que, se celebrarmos um armistício para que possamos utilizar suas forças, podemos nos tornar pessoas mais poderosas e completas.

A porção de sombra pode também ser mensageira do subconsciente e dos deuses. Ao utilizar sonhos e visões, eles podem nos revelar o que é necessário para nossa proteção, sabedoria e expansão, tanto na vida física como na espiritual.


RITUAL EM BUSCA DE SONHOS REVELADORES

(deve ser realizado na Lua Nova ou Lua Cheia)


De pé, perante o altar, erga os braços em saudação e diga:

Eu chamo por Néftis para me proteger e instruir!

Néftis, Dama da Vida, Senhora dos Deuses,

Deusa Obscura das poderosas palavras de poder,

Eu clamo sua presença,

Que sua força eterna esteja sempre

Atrás de mim,

À minha frente,

Sob mim,

Acima de mim

Proteja-me, Mãe Obscura!

Antiga Mãe, a Sagrada de muitos nomes,

Mostre-me os segredos dos sonhos.

Ensina-me a Magia Lunar e o conhecimento das ervas.

Dê-me sabedoria para lidar com meu lado de sombra,

Usando suas forças e superando suas fraquezas.

Eu lhe agradeço, Grande Senhora.

Prepare-se então e coloque um caderno perto de sua cama para que possa documentar todos seus sonhos até a próxima fase da Lua, pois Néftis se comunica primariamente através de sonhos, usando o poder da Lua. Você logo perceberá um padrão nos seus sonhos. Sonhos sob influência da Lua Cheia podem lidar com eventos de natureza psíquica, enquanto aqueles sob influência da Lua Nova são de natureza mais espiritual.

Um grupo de antropólogos egípcios encontrou um curioso papiro escrito há cerca de 4.000 anos. Nele se explica o significado de um sonho que havia tido um parente do faraó. O homem sonhara que um abutre devorava-lhe o fígado e que isso lhe proporcionava uma grande alegria. O sacerdote consultado disse que era anúncio de que, em breve, essa pessoa se libertaria de um grande peso que a impedia de ser feliz. Parece difícil entender por que essa pessoa, durante o sono, tinha uma sensação de alívio em vez de dor e angústia. O sacerdote, porém, não teve dúvidas. Ainda que a história tenha ficado inacabada para sempre, pois o resto do papiro não foi achado, tudo fica mais claro quando se sabe que os egípcios acreditavam, assim como os gregos, que a alma das pessoas estava alojada no fígado. Dessa forma, fica claro que o sonho mostra o desejo daquele homem de livrar-se de algum peso que atormentava sua vida. Um tratado egípcio da XII Dinastia (1.800 a.C.) detalha a forma em que os sonhos devem ser analisados e qual o conteúdo dos símbolos mais comuns.

Você não tem posse deste tratado nem conhecimento muito grande da religiosidade egípicia, mas fique atenta, pois cada vez que sonhamos estamos recebendo uma mensagem secreta proveniente da nossa consciência. Seu significado é sempre misterioso e pode ser interpretado de modos diferentes.

Texto pesquisado e desenvolvido por

Rosane Volpatto

A moral é animal

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Por Marcelo Marthe
Revista Veja - 22/08/2007

{txtalt} O holandês Frans de Waal, de 59 anos, é a maior autoridade mundial no estudo dos primatas - a ordem do reino animal à qual pertencem o homem e os macacos. Desde 1977, ele se devota à observação da psicologia e das relações sociais de espécies como os chimpanzés.

Com suas pesquisas, De Waal demonstra que a distância entre o ser humano e os animais é infinitamente menor do que muitos cientistas e filósofos sempre supuseram - o que reafirma as idéias do inglês Charles Darwin sobre a evolução.

No livro Eu, Primata (recém-lançado no Brasil pela Companhia das Letras), ele revela como os padrões de conduta na política e até a noção de solidariedade são verificados nos parentes do homem - e têm, portanto, uma raiz biológica comum.

Em seu lançamento mais recente, Primates and Philosophers (Primatas e Filósofos, inédito no país), De Waal vai ainda mais longe: defende que a moralidade, atributo que por muito tempo se acreditou ser, por excelência, humano, também está presente em outros primatas.

De seu laboratório na Universidade Emory, na cidade americana de Atlanta, o pesquisador concedeu entrevista por telefone a VEJA em que fala das semelhanças do homem com uma espécie considerada agressiva como os chimpanzés - mas também com os dóceis e libidinosos macacos bonobos.

Para muitas pessoas, sobretudo religiosas, a idéia de que homens e macacos têm parentesco é ofensiva. Quão próximos estamos dos outros primatas, segundo a ciência mais recente?

Até cinqüenta anos atrás, a ciência ainda achava que o homem era o único animal com inteligência para usar e fabricar ferramentas. Imaginava-se também que somente nós éramos capazes de autoconhecimento e de antecipar situações. Ou ainda de nos comunicar com os demais da espécie por meio de símbolos.

Todas essas proposições foram condenadas ao ocaso graças ao estudo aprofundado dos primatas. Há diferenças, é óbvio, entre o homem e seus parentes. Mas elas são muito menores do que se pensava e só foram impressas ao nosso comportamento de forma lenta e gradual.

Para ter uma compreensão completa sobre nossa espécie, é preciso analisá-la dentro de um panorama de evolução biológica que precede sua existência. A observação científica demonstra que, para além das semelhanças anatômicas, também comungamos nossos traços comportamentais com outros primatas. Conhecê-los é também um exercício de autodescoberta.

O senhor afirma que nem mesmo a moral é um atributo exclusivo dos humanos. Por que se pode dizer isso?

Porque em outros primatas já se encontram os alicerces da moralidade, como a capacidade de empatia, a reciprocidade e mesmo o senso de justiça. Não digo que esses outros animais sejam seres morais como nós.

Mas não há dúvida de que eles possuem as ferramentas fundamentais com que se constrói um sistema moral. É um erro, portanto, julgar que a moralidade do homem surgiu do nada ou que é somente um produto da religião e da cultura.

Ela tem raízes em nossa psicologia, que é muito similar à psicologia dos primatas em geral. Podemos rastrear sua origem até um ancestral em comum com chimpanzés e bonobos, 6 milhões de anos atrás.

O que muda com a descoberta de que a moral é um produto da seleção natural?

Isso põe em xeque, por exemplo, a teoria sobre as sociedades humanas elaborada pelo inglês Thomas Hobbes no século XVII. Ele acreditava que, no estado natural, todos os homens estavam em guerra entre si e que a moral foi inventada com o intuito de permitir a convivência pacífica.

A ciência hoje mostra que isso é um mito. Viemos de uma longa linhagem de animais que eram altamente sociáveis. Foi a natureza que criou as bases para a vida em sociedade tal e qual conhecemos, e não o homem. Mesmo o modelo econômico capitalista tem uma explicação darwinista.

Experiências com os macacos já mostraram que entre eles também vigora um sistema de incentivo aos indivíduos que se aplicam em suas tarefas. O homem só aperfeiçoou algo que já constava em sua natureza.

O senhor afirma que Maquiavel poderia ter escrito seu tratado sobre o poder mirando-se nos chimpanzés. Somos mesmo tão iguais a eles nesse aspecto?

Sim, os chimpanzés fazem política de maneira muito semelhante à nossa. Num grupo de galinhas ou entre boa parte dos outros animais, cada um alcança seu lugar no ranking do poder de acordo com sua força, destreza ou outra qualidade decisiva.

Pode-se chamar isso de hierarquia - mas não de um sistema político. Já entre homens e chimpanzés as disputas não são ditadas puramente pela capacidade física dos indivíduos, mas também - e principalmente - por sua habilidade em formar coalizões.

Alguém terá mais chance de alcançar uma posição dominante dentro do grupo quanto mais numerosos e importantes forem seus amigos. E também, é claro, quanto maior for seu poder de convencimento para levar esses simpatizantes a defendê-lo.

Para obter o poder, não é suficiente ser bom de briga: é preciso cultivar relações. E, ainda, ter algo a oferecer em troca aos aliados. Esse tipo de transação é mais claro nos chimpanzés do que em qualquer outro animal. Bem antes de Maquiavel eles já sabiam que dividir os inimigos é a melhor forma de conquistar o poder.

Como isso se dá na prática?

Eles formam parcerias (ainda que possam se voltar uns contra os outros ao sabor das conveniências), traçam estratégias de longo prazo e minam as coalizões dos adversários.

Em minhas experiências, coloco chimpanzés na frente do computador e, por meio de um joystick igual aos dos videogames, testo suas reações diante de imagens de semelhantes.

Eles demonstram ser tão bons no reconhecimento facial quanto os homens (ao contrário do que se pensou por muito tempo). Mas o mais surpreendente é que têm reações diferentes de acordo com o grau de ascendência política dentro do grupo do indivíduo que lhes é apresentado.

Não raro, suas disputas de poder envolvem altas doses de drama. É comum ver coalizões sólidas entre dois machos ruir em razão da atração de ambos pela mesma fêmea. Ou então fêmeas se valendo de seu favoritismo e poder de sedução para fazer intriga e incitar o ciúme.

No livro Eu, Primata, o senhor comenta que a reação do ex-presidente americano Richard Nixon ao renunciar foi igual à de um chimpanzé destronado da posição de macho alfa. O que os políticos humanos herdaram de seus parentes primatas?

A política é uma das áreas em que as semelhanças de comportamento entre o homem e os macacos são mais evidentes. Nossa linguagem corporal é basicamente a mesma dos macacos - e os políticos expressam essa verdade como poucas categorias.

Isso é flagrante no jeito como eles inflam o peito e empostam a voz para falar em público. Também não é à toa que muitos políticos revelam a obsessão de nunca parecer pequenos. O ex-premiê italiano Silvio Berlusconi é um sujeito baixo e, por isso, não dispensava um banquinho nas ocasiões em que precisava ser fotografado ao lado de outros líderes.

Isso vem de nossa raiz primata. Para ser poderoso e intimidante, é preciso parecer poderoso e intimidante. Há ainda outro traço inconfundível. Em tese, as disputas políticas deveriam ser travadas com base nos argumentos e na habilidade retórica.

Mas, do Japão aos Estados Unidos (e imagino que também no Brasil), não é raro que discussões acaloradas nos parlamentos descambem para a agressão física. Embora acreditemos que nossas democracias são sofisticadas o suficiente para resolver as diferenças no campo dos argumentos, o instinto primata volta e meia nos trai.

Esse instinto também se faz sentir no ambiente de trabalho?

De forma muito cristalina. Tempos atrás, o CEO da Microsoft, Steve Ballmer, teve a reação esperada de um macho dominante acuado diante das investidas do Google para tirar profissionais talentosos dos quadros da empresa.

Ele atirou uma cadeira no chão e disse que daria uma lição nos "garotos" que são donos da rival. Acessos de fúria como esse não são diferentes dos que ocorrem entre os chimpanzés. Por mais que vejamos esse tipo de comportamento como algo negativo, ele de fato produz um efeito intimidante que nos afeta, da mesma maneira que acontece com qualquer primata.

Por que a descoberta dos macacos bonobos revolucionou o estudo dos primatas?

Os pesquisadores travaram contato com os bonobos pela primeira vez nos anos 20, mas, na época, acharam que estavam diante apenas de uma variação nanica do chimpanzé. Ninguém imaginava quão especiais são esses macacos.

Os bonobos, como se sabe hoje, são a antítese dos chimpanzés: em vez de se basearem na força, suas relações sociais se lastreiam na contenção dos conflitos e no uso do sexo como uma ferramenta de distensão acionada a todo instante.

Só se começou a perceber isso nos anos 50 e não faz mais que quinze anos que os estudos mais profundos de seu comportamento trouxeram à tona os primeiros frutos. O resultado foi uma guinada espetacular naquilo que se sabia sobre os primatas, incluindo aí nossa espécie.

Até então, todas as comparações entre os homens e seus parentes se baseavam nos chimpanzés. O fato de haver outra espécie tão distinta com o mesmo grau de parentesco mudou esse prisma.

O que temos em comum com os bonobos?


Gosto de brincar dizendo que, à maneira do Dr. Jekyll e do Mr. Hyde, a personalidade de chimpanzés e a de bonobos estão introjetadas no homem. Com os primeiros, comungamos a agressividade, o comportamento territorial, o gosto pelo poder e a dominância dos indivíduos do sexo masculino.

Com os bonobos, compartilhamos traços como o alto nível de empatia e a tendência à resolução dos conflitos por outras vias que não a da força. É por esse contraste que gosto de dizer que o homem é um animal bipolar.

Quando somos maus, conseguimos cometer barbaridades piores que as praticadas por qualquer outro ser já observado. Mas, ao exercitarmos nosso lado bom, também vamos além de todas as demais espécies.

Os bonobos têm uma vida sexual incrivelmente movimentada. O que eles revelam a respeito do papel do sexo na vida social?

Entre os bonobos, qualquer disputa séria é deixada de lado para dar vazão à libido. O desprendimento e a liberalidade deles nesse campo são capazes de fazer a maioria das pessoas corar, mas há uma semelhança crucial: tanto nós quanto eles fazemos amor por prazer.

Eles constituem a prova biológica de que, ao contrário do que querem fazer crer tantas religiões, manter relações sem fins reprodutivos é, sim, uma característica inerente ao homem.

Mais que um instrumento de prazer, o sexo funciona como uma moeda de troca social. A liberdade com que os bonobos praticam sexo dá às fêmeas desses macacos um poder de influência enorme. Isso talvez ajude a explicar a repressão da sexualidade em tantas culturas humanas - e o fato de o matriarcado ser uma exceção entre nós.

O poder e a violência são as melhores armas para vencer na evolução?

Não necessariamente. Tome-se o caso dos bonobos. Eles são animais muito bem-sucedidos, embora possam ser considerados os hippies primatas. Levam uma vida folgada e sem rusgas. As sociedades humanas, assim como as dos chimpanzés, se baseiam na luta pelo poder e nos embates masculinos.

Mas, ainda assim, em ambas as espécies os machos não são apenas brigões. A capacidade de cooperação entre eles é um traço não menos importante. Tanto quanto os traços que possam ser considerados negativos, o lado bom do ser humano é uma vantagem adaptativa depurada no decorrer de milhões de anos.

As guerras humanas encontram paralelo em outras sociedades de primatas?

Entre os chimpanzés, é comum que grupos de machos se unam para defender suas posses ou invadir outros territórios. São investidas que não raro terminam em banhos de sangue.

Mas a guerra como uma atividade organizada é algo que não se verifica em nenhum de nossos parentes. Ainda assim, não se trata de uma marca exclusiva dos homens, é preciso esclarecer.

As formigas são os bichos que mais se devotam à guerra no planeta. Possuem exércitos regulares, com tarefas bem definidas para cada pelotão, e promovem matanças de grupos rivais.

Mas nem entre elas existe algo equivalente ao genocídio, o assassinato maciço de outro grupo da mesma espécie. Só mesmo o homem é capaz disso em todo o mundo animal.

Filme sobre Aleister Crowley - Chemical Wedding

Tamanho: 500MB

Idioma: Inglês
Legendas: português
Formato: LiMiTED DVDRiP XViD

Sinopses:

-> "Chemical Wedding" conta a história de um tímido professor que consegue trazer de volta à vida o famoso e controverso ocultista britânico Alesteir Crowley, que já serviu de inspiração e fascinou diversos artistas e grupos como Ozzy Osbourne, Raul Seixas, Beatles e Jimmy Page.

-> Bruce Dickinson assinou o roteiro de um filme que leva o nome do seu quinto álbum solo e que é também o nome de uma de suas músicas, Chemical Wedding. O filme conta a história de um mago inglês, Aleister Crowley que reencarna em um tímido professor universitário, Haddo, interpretado por Simon Callow. O longa é dirigido por Julian Doyle.

Link [opções]:

http://www.2shared.com/file/4056087/6491d433/chemical.html
ou
http://www.megaupload.com/?d=7JM1N03C
ou
http://www.megaupload.com/pt/?d=A6J0C0W0

Official Trailer - "The chemical wedding" written by Bruce Dickinson and Julian Doyle: http://youtube.com/watch?v=r9rVv483BTA "O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz", terceiro manifesto Rosacruz que relatou uma viagem iniciática, representando a busca da Iluminação. Essa viagem de sete dias se desenrolava em grande parte num misterioso castelo onde deviam ser celebradas as bodas de um rei e de uma rainha. Em termos simbólicos, o Casamento Alquímico descrevia a jornada espiritual que leva todo Iniciado a realizar a união entre sua alma (a esposa) e Deus (o esposo)."

http://en.wikipedia.org/wiki/Chymical_Wedding_of_Christian_Rosenkreutz
SINOPSE DO FILME EM INGLÊS: http://imdb.com/title/tt0974536/synopsis Jack Parsons was a brilliant chemist and inventor of the rocket fuel used for the US space flight to the moon. He was also a fanatical believer in the Magic of Aleister Crowley the aging occultist who considered himself 'The Beast' incarnate.

In 1947 Jack Parsons and L. Ron Hubbard were performing Crowley's mystic rituals in a house in Pasadena, California. Parsons wrote excitedly to his occult leader, Crowley.

'I have had the most devastating experience of my life. I have been in direct touch with One who is most Holy and Beautiful as mentioned in your 'Book of the Law'. First instructions were received through Lafayette Ron Hubbard the seer. I have followed them to the letter. There was a desire for incarnation. I am to act as an instructor, guardian, guide for nine months; then it will be loosed on the world...'

Crowley wrote despairingly to a disciple about Parsons:

It appears that he has given away both his girl and his money to this writer of science fiction and is now invoking the ritual to produce a MOONCHILD. I am fairly frantic...'

Nine months later while being visited by two students from Cambridge, Crowley died of cardiac degeneration. Missing from his personal possessions was his pocket-watch. His funeral took place in the Chapel of the Brighton Crematorium. The final rites were performed by the novelist Louis Marlowe reading extracts from Crowley's 'Book of the Law'. The Brighton Echo denounced the whole ceremony as a Black Mass. In 1952 Jack Parsons was blown up in his laboratory in Pasadena. L. Ron Hubbard died on his yacht as leader of the controversial Church of Scientology.
But did the issue end with these three deaths? Would Crowley, as he claimed, ever return from death to rule the world? Why did US astronauts name a crater on the moon after Jack Parsons? Is L. Ron Hubbard really dead? What had been generated by the ceremony in California that seemed to signal Crowley's demise? And what happened to the missing pocket-watch?

Unanswered questions till, late in the twentieth century, when Dr. Joshua Mathers brought a 'state of the art' interactive suit from Cal Tech California to Cambridge in England to be hitched up to the Z93, the biggest super-cooled, super-conductive computer in the world.


A ciência como tirania, por Terence Mckenna (vários)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009










Razão e Intuição no caminho do guerreiro

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Saudações a todos os Ventos!


Aproveito para retomar um rito que usávamos na Ventania, o rito do cocar, sintonizando-me através desse ato ritual com o intento dos xamãs ancestrais.

Vamos conversar um pouco sobre razão e intuição, a partir da minha perspectiva pessoal como praticante de meditação.

Na minha perspectiva razão e intuição estão desconectados em nós quando não deveriam estar. Não possuímos de fato nem uma, nem outra. Não podemos dizer que a nossa sociedade é racional e não podemos também dizer que temos a intuição desenvolvida. Nosso estado mental é de confusão, de muitos e desnecessários pensamentos. Não sabemos pensar e não sabemos não-pensar. Não nos ensinaram a pensar, nos ensinaram a acreditar. Não nos ensinaram a não-pensar, nos ensinaram a obedecer. Toda a religião, qualquer filosofia, uma tradição ou instituição ou ciência que nos submeta pela fé, pela obediência ou por uma autoridade que se baseia em títulos deve ser considerada como lesiva a humanidade, lesiva e deletéria a inteligência e a consciência verdadeiramente humana porque formadora de uma raça de escravos psíquicos.

Antes uma observação.

Não é meu intento ofender alguém ou mesmo a religião, filosofia ou doutrina que alguém possa professar. Respeito todos os credos, todas as filosofias místicas e todas as religiões. Na fonte a maior parte delas nasceu pura para depois ser "poluída". Quero simplesmente expor um ponto de vista, de forma objetiva, clara, tranqüila e se, por vezes, a palavra parece incisiva ela não tem a intenção agressiva, antes é apenas um estilo com a pretensão de produzir um efeito literário e perceptivo. A comunicação virtual tem certos limites que dão margem a certos erros de interpretação. É preciso ler sem julgamentos a priori. Escrevo dentro da paz e de coração repleto de alegria por poder partilhar esse espaço mágico com vocês nesse momento.


Claro que tudo aqui escrito são palavras bonitas (ou não) para alguns, para outros será a beleza da experiência que se compartilha além das palavras. Com uns e outros estamos dialogando, então, seja através das palavras ou não, vamos margeando entre a razão e o silêncio pelo rio da gnosis até desaguarmos no oceano infinito da consciência. Estamos aqui lendo palavras mas o importante, a meu ver, é, ao lermos, estarmos conscientes de nós mesmos. A palavra é um veículo, carrega uma mensagem prenhe do intento do seu autor. Sei que a sensibilidade de alguns aqui pode ler além das palavras. E isso é importante.


Escrito isso, continuemos.

A razão, assim como a fé, pode servir a uma ideologia. Ambas podem se submeter aos interesses da egolatria humana. Podem manipular ou serem manipuladas. Ela, a razão, é um atributo do tonal, da persona social, apenas estrutura e organiza o mundo ou a percepção que temos do mundo.

A intuição não, é livre, adentra direto ao salão da verdade, dispensando qualquer instituto, é como uma mulher desnuda e despudorada, mas diferente da razão que pode vir a ser prostituta e corrupta, Ela não se submete, descobre sempre um jeito de escapar de uma razão desarrazoada. Por isso pode-se dizer que ela é uma qualidade do feminino, da água que encontra por onde fluir, da mulher, da guerreira e da bruxa que acessa o conhecimento diretamente com o útero, que sonha e percebe a realidade através de seu corpo, por meio de seu útero.

Pode parecer estranho falar em percepção a partir do útero, mas é igualmente estranho dizer que o ser humano possui 21 tipos de órgãos do sentido (ver palestra do Dr. Felipe de Oliveira). É isso que a medicina nos diz, sabiam? Estranho é tudo aquilo que foge ao limitado conhecimento do mundo do eu. A mulher possui sentidos que o homem não possui, falar em sexto sentido é apenas uma forma de expressão.

Por isso a mulher teve que ser, historicamente, submetida ao homem, para que o sistema que está aí, de base (pseudo) patriarcal, machista, dominador e baseado na idéia do deus único, domini, o senhor (baal), pudesse ser instaurado, através de uma razão que desconectada da intuição submeteu-se a uma ideologia altamente manipuladora e limitadora. Uma razão, uma mente desconectada e assentada em 5 sentidos que por isso perdeu a si mesma (o que há de racional na sociedade que vivemos?).

Ideologia que defende um único deus, uma única verdade, uma única realidade, um único caminho ao qual todos devem se submeter. Ao mesmo tempo assenta-se numa teologia absurda baseada no pai, no filho e no espírito santo, uma trindade totalmente masculina, e que, portanto, é contrária a Natureza, pois não pode ser criativa. Na religião egípcia, na tradição hindu e mesmo na Cabala Judaica, que vem da Cabala Egípcia, o feminino tem um papel a cumprir altamente relevante. A tradição católica deu um corte terrível nesse sentido, amputou o sagrado feminino de si, a ponto de terem transformado Maria Madalena em prostituta quando nem o evangelho assim o faz, buscando assim diminuir o papel da mulher.

Porque será que tal tradição assumiu o lado masculino em detrimento do sagrado feminino?

Sabemos que predadores, como seres inorgânicos que são, não se interessam pela energia feminina, buscam apenas a energia masculina. Criar uma religião onde o masculino assume papel relevante é criar uma matriz mística e religiosa que permite o fornecimento e a produção do único tipo de energia que eles estão interessados: a do homem. Agregue-se a isso a instituição do celibato, regras hierárquicas, a diminuição da mulher, o ritualismo desconectado da natureza, um deus punitivo, dominador e a valorização de uma teologia absurda para termos uma instituição que alimenta o interesse dos predadores de todas as maneiras possíveis. Certas ordens esotéricas que se assentam nessa base machista, como certas ordens thelêmicas e macônicas, feitas só de homens, possuem em seu grau mais alto de segredo, o grau 11, ritos de magia sexual apolar ou homossexual, com a finalidade de adentrar em reinos de escuridão, em reinos qliphóticos e promover a associação energética de seus adeptos com tais forças sombrias, os predadores (OTO e os espermo-gnósticos).

Não é a toa que abundam na história da Igreja Católica os escândalos sexuais de homossexualismo e pedofilia, associados ao sadismo persecutório da inquisição e o masoquismo de certas regras monásticas. O mais interessante é que tais práticas são consideradas abomináveis e devem ser punidas com a morte, segundo a Bíblia (Levítico 20;13). Isso é o ápice da contradição, reflexo da própria morbidez, medo e contradição da mente do predador. Se a Bíblia fosse cumprida pela Igreja esta não mais existiria. Assim é que a "casa de deus" (arcano 16) também tornou-se o palco histórico de uma série de correntes místicas: templários, maçons, priorado de sion, bruxos, naguais, opus dei, companhia de jesus, etc, uma verdadeira casa da mãe joana (referência a história de uma mulher no trono de pedro, a papisa Joana). Ao longo da história humana nenhuma instituição religiosa rivaliza com a católica em termos de seu caráter predatório da alma e do corpo humano. Ficaram com o poder secular e se aproveitaram do poder espirtual de alguns de seus místicos. Ficaram com a letra que mata, a razão a serviço de uma ideologia escravizante, e alijaram-se do espírito que vivifica, o conhecimento direto pela intuição. E há esse espírito, essa força crística, que opera a despeito de toda a distorção institucional da Igreja, pois "o vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito" - João 3;8.

No mito do éden, os falsos deuses submetem Eva a Adão porque ela ousou provar do fruto conhecimento. Ora, algo que se come torna-se parte de nós, o conhecimento verdadeiro é tornado carne em nós, (em especial na mulher o conhecimento se faz corporalmente, via útero. Assim é na mulher que o verbo se faz carne e não no homem.) "um ser só conhece quando ele próprio é esse conhecimento", assim o fruto do conhecimento era proibido para que ficássemos apenas com um conhecimento ditado de 2ª mão pelos falsos deuses, um conhecimento imposto, teórico e manipulado, interpretado pelos sacerdotes intermediários de falsos deuses (predadores) que não podia ser acessado diretamente por nós mesmos. Assim nos foram dados mandamentos, um livro dito sagrado e palavras ditas sagradas, mas o fruto do conhecimento direto nos foi proibido, incluindo aí o "fruto" das plantas de poder, estigmatizadas ainda hoje e base da maior parte do conhecimento xamânico. O homem se tornou um escravo teórico e a mulher considerada uma insana pecadora. A razão foi dominada e a intuição quase submetida, pois a palavra do livro dito sagrado tornou-se a lei espiritual do povos. Eis a letra que mata, literalmente até. A tradição nativa sabe-o bem.

Pessoalmente nada tenho contra a Igreja, fui formado em colégio de padres e o máximo que um padre fazia era estalar as juntas do meu dedo, mas a Igreja sim possui graves problemas com relação a humanidade.

Assim podemos compreender a cisão histórico-cultural ocorrida entre razão e intuição como um meio de dominação. Só a interpretação de determinado(s) grupo(s) deveria ser colocada como a verdade, para tal o acesso ao conhecimento direto teve que ser bloqueado e a razão manipulada pela fé e por um livro, a mulher precisaria ser alijada do processo mágico-religioso-espiritual e o homem assumiria como amo, senhor e sacerdote. E foi o que aconteceu. Até hoje o conhecimento mágico do feminino precisa ser resgatado. E será resgatado. Há sinais claros de uma nova percepção de base intuitiva surgindo. O que aconteceu com a neurocientista Jill Taylor não aponta para isso? Vejam aqui o vídeo onde ela relata como acessou um estado de conhecimento silencioso através de um acidente vascular no cérebro esquerdo. Espero que não tenhamos que passar por isso...

A intuição é como o fruto do conhecimento direto, que se prova por si. A razão dominada pede explicações insossas e acaba sempre faminta, morre de inanição espiritual.

A intuição também pode se tornar uma qualidade perceptiva do homem que transformou sua mente num útero, que é capaz de deixar sua mente num estado de silêncio e receptividade. A intuição é um atributo do nagual, ela é criativa.

Podemos nos servir da razão para ir além, porque para qualquer argumento montado com perfeita lógica outro oposto e rigorosamente estruturado pode ser feito. Assim a razão anula a si mesma. Assim as discussões e debates se cancelam e revelam a inutilidade do intelecto em questões que transcendem ao mesmo. Por exemplo, não se pode saber através do intelecto o que é o estado desperto ou iluminado, mas pode-se usar o intelecto como uma ferramenta para cancelar a ele mesmo, para anular o diálogo interno e nos permitir ir além. Por exemplo, numa situação onde nos observamos e nos pegamos num diálogo incessante com nós mesmos podemos nos perguntar: se eu estou sozinho com quem eu estou falando? Como posso falar comigo mesmo se estou só? Isso por si só dá uma parada na mente discursiva, a coloca em xeque a partir dela própria.

Há um caminho da Ioga, por exemplo, Jnana Ioga, onde o intelecto é usado como uma ferramenta para a transcedência da mente discursiva a partir da pergunta "quem eu sou?".

Através da fisiologia do corpo energético, pela perspectiva da Ioga, localizamos a razão e a intuição, em íntima harmonia, como qualidades associadas ao chacra frontal, simbolicamente representado por duas pétalas. Não podemos ver nessas pétalas a razão e a intuição em íntima harmonia?




Pode-se ir além da mente através da mente. Esse é o modo da Jnana Ioga.

Pode-se ir além da mente através do coração. Esse é o modo da Bhakti Ioga.

Pode-se ir além da mente através do corpo. Esse é o método da Hatha Ioga.

O caminho do guerreiro nos permite ir além da mente da através da mente, via Recapitulação.

O caminho do guerreiro nos permite ir além da mente através do corpo, via Tensegridade.

O caminho do guerreiro nos permite ir além da mente através do coração, isso é a Arte da Espreita.

Ioga e Nagualismo são sistemas diferentes com pontos de contato.

Aqui vemos corpo, coração e mente. O caminho que a energia percorre pelo meio de nosso corpo passa pelo próprio corpo-sexo, corpo-coração, corpo-mente. Tudo é corpo, nele está a nossa totalidade. Não há despertar sem sexo, coração e mente. Não há iluminação plena sem a energia sexual transmutada, sem um afeto desapegado e sem uma mente silenciosa.

As duas pétalas do Ajna chacra formam um síntese harmônica. Eis aí o famoso 3º olho. Eis o casamento perfeito do masculino e do feminino na mente humana, razão e intuição.

Penso, logo existo - razão - cérebro esquerdo.


Intuo, logo sou - intuição - cérebro direito.

"Há em nós duas mentes cognitivas que formam aquilo que somos: a força da vida auto-consciente do Universo".

Há em nosso cérebro a capacidade de navegarmos entre o conhecimento silencioso e o conhecimento racional ao transferirmos a consciência de um lado para outro do cérebro forjando assim um conhecimento síntese e uma flexibilidade perceptual.

O hiperfuncionamento do cérebro esquerdo (muitos pensamentos) provoca um hipofuncionamento do direito. Se aprendermos a focar a mente o número de pensamentos diminui, proporcionando maior clareza e abrindo espaço para que a intuição possa aflorar.

O zen também usa uma técnica que passa pelo intelecto, o koan. Trata-se de uma caminho direto que Buda revelou aos seus discípulos, mas apenas um o compreendeu, essa é a flor de Kashyapa, a transmissão da mente zen.

Num dia chuvoso, quando estava sentado com um discípulo no salão do templo e ouvindo as gotas d'água batendo suavemente no telhado e no pátio, o mestre Jing-qing perguntou ao outro monge:


"Que som é aquele lá fora?"

"É a chuva," respondeu o monge. O mestre disse:

"Ao buscar fora de si mesmos alguma coisa, todos os seres se confundem com os significados."

"Então," replicou o discípulo, "como deveria eu me sentir em relação ao que percebo, Mestre?"

O sábio apenas disse:

"Eu sou o barulho da chuva."


Atribuir significados ao que se percebe é uma função da mente discursiva, racional. Discutimos em torno de palavras porque atribuimos significados diferentes ao que percebemos e por causa do ego valorizamos em demasia a nossa interpretação daquilo que percebemos. O ego é a mente formatada num conjunto de valores ao quais se está fortemente apegado. Um outro nome para isso é dado pelo nagual: inventário. Apego nada mais é que a fixação exagerada do ponto de aglutinação na percepção do mundo como objetos. O mundo do "meu", "eu". Definimos o que percebemos e nos prendemos em demasia as nossas definições. Essa prisão não é tanto devida a razão, mas ao fato de nos apegarmos as nossas interpretações. E nos apegamos aos nossos conceitos porque não somos capazes de silenciar. A mente quer por que quer tornar aquilo que está além dela num conceito, num objeto mental, é como um cão correndo atrás do próprio rabo.


Perceber pura e simplesmente é um atributo da mente silenciosa. Nela não apegos, nem definições. Ela não precisa provar nada para ninguém porque ela própria experimentou o conhecimento.


Quando focamos a mente, seja através do estudo ou através da concentração, usando o intelecto, chegamos por vezes a um estado bem próximo do silêncio ou ao próprio silêncio. São "momentos", estágios diferentes.


Quando, ao usar uma técnica de concentração, estamos na fronteira da mente divisando aquele estado silencioso ainda pode surgir um medo, um receio, um último apego e o pensamento parece resvalar para trás na beira do abismo, o medo de saltar para o desconhecido se apresenta, é como o rio que quer refluir ao divisar a vastidão do mar.


Quando adentramos ao silêncio não há mais um eu a perceber o silêncio, nos tornamos o próprio silêncio e aí divisamos a nós mesmos como um paradoxo auto-consciente, onde somos ao mesmo tempo vazio e plenitude. Esse estado de silêncio é o que os xamãs da linhagem do nagual chamam de a matriz, o útero do conhecimento silencioso ou intuição. Nesse estado o nosso intento de saber algo já nos torna sabedor, realizando a gnose do ser.


O caminho do guerreiro é um dos mais potentes caminhos para a destruição de nosso inventário, ao tomarmos contato com esse caminho ficamos associados energeticamente ao intento dos xamãs ancestrais, por isso ele provoca certas reações naqueles que se apegando em demasia a paradigmas antigos ficam como um inseto preso na teia, a debater-se entre "dois mundos". Não conseguem ir a frente no caminho e não conseguem voltar aos velhos caminhos. Ficam num limbo de auto-engano, num conflito interno mental, racionalizando o que não pode ser racionalizado, ainda mais se já se depararam com alguns eventos ou fatos energéticos. Mas quem não passa por isso?


É preciso entrega e decisão, ficar encastelado em nosso racionalismo defensivo é apenas a nossa vaidade encobrindo o nosso enorme medo.


Na paz e na luz,

F.A.

obs: aproveito para recomendar aos amigos e amigas alguns livros e uma palestra.

  • O que é intuição e como aplicá-la na vida diária.
  • O Poder do Agora.
  • A palestra é do autor do livro acima, Eckhard Tolle, um dos homens despertos de nosso tempo.
  • O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda

Os livros e a palestra estão em nosso blog, pistasdocaminho.blogspot.com


Os livros podem ser acessados através do link Biblioteca Virtual na barra lateral direita e a palestra está no post de hoje, 17/02/2009.

Um derrame da percepção

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Todo cérebro tem sua história, e esta é a do meu. Há dez anos eu estava na Harvard Medical School realizando pesquisas e lecionando para jovens profissionais sobre o cérebro humano. Porém, em 10 de dezembro de 1996, eu mesma recebi uma lição. Naquela manhã, sofri uma forma rara de derrame no hemisfério esquerdo do cérebro. Uma hemorragia importante, devido à má-formação congênita dos vasos sanguíneos em minha cabeça, aconteceu inesperadamente. No breve espaço de quatro horas, sob um olhar de curiosa neuroanatomista, vi meu cérebro deteriorar-se por completo em sua capacidade de processar informação. No final daquela manhã, eu não conseguia andar, falar, ler, escrever ou lembrar nenhum dado da minha vida. Encolhida, como se voltasse a ser um feto, senti meu espírito render-se à morte, e é certo que em nenhum momento imaginei que seria capaz de dividir minha história com alguém.

A cientista que curou seu próprio cérebro é uma documentação cronológica da jornada que realizei para o abismo amorfo de uma mente silenciosa, em que a essência de meu ser existia envolvida numa profunda paz interior. Este livro é uma trama composta pelo alinhavo de meu treinamento acadêmico, experiência pessoal e insights. Até onde tenho conhecimento, este é o primeiro relato documentado de uma neuroanatomista que se recuperou por completo de uma severa hemorragia cerebral. Estou eufórica por estas palavras finalmente ganharem o mundo, onde poderão ser bastante úteis.










Ao longo dos anos, mantive-me fiel a esse projeto devido à jovem que me procurou movida pelo desespero, querendo entender por que a mãe dela, que morrera vítima de um derrame, não havia ligado para a emergência. Também por causa do cavalheiro idoso, que estava sobrecarregado pela apreensão de que a esposa houvesse sofrido muito durante o coma antes de sua morte. Fui praticamente mantida presa ao computador (com meu fiel cachorro Nia no colo) devido a muitos indivíduos que cuidavam de seus doentes e me procuravam em busca de orientação e esperança. Persisti nesse trabalho pelas 700 mil pessoas da nossa sociedade (e suas famílias) que ainda sofrerão um derrame. Se uma única pessoa ler “Manhã do derrame”, reconhecer os sintomas e pedir ajuda — antes tarde do que nunca —, então meu esforço estará mais do que recompensado.

A cientista que curou seu próprio cérebro tem quatro divisões naturais. A primeira parte, “A vida de Jill antes do derrame”, apresenta ao leitor quem eu era antes de meu cérebro ficar “desconectado”. Descrevo por que me tornei neurocientista, um pouco da minha jornada acadêmica, meus interesses por Direito e minha jornada pessoal. Eu vivia de maneira grandiosa. Era neurocientista em Harvard, integrava o comitê nacional da Nami (National Alliance on Mental Illness — Aliança Nacional de Doenças Mentais) e viajava pelo país como a cientista cantora. Relato essa breve sinopse pessoal em termos científicos simples, cujo propósito é ajudar o leitor a entender o que ocorria biologicamente no meu cérebro na manhã do derrame.

Se você já se perguntou qual deve ser a sensação de ter um derrame, então o capítulo “Manhã do derrame” é para você. Nele, conduzo o leitor numa jornada muito incomum pelo passo-a-passo da deterioração das minhas habilidades cognitivas, sob o olhar de um cientista. Na medida em que a hemorragia em meu cérebro vai se tornando cada vez maior, relaciono os déficits cognitivos que estava experimentando à biologia subjacente. Como neuroanatomista, devo dizer que aprendi muito durante aquele derrame sobre meu cérebro e como ele funciona, tanto quanto havia aprendido em todos os meus anos acadêmicos. No final daquela manhã, minha consciência em estado alterado percebeu que eu estava unificada ao Universo. Desde aquele momento, passei a entender como somos capazes de ter uma experiência “mística” ou “metafísica” em relação à anatomia cerebral.

Se você conhece alguém que sofreu um derrame ou algum outro tipo de trauma cerebral, os capítulos sobre recuperação podem ser um recurso valioso. Neles, compartilho a jornada cronológica da minha recuperação, incluindo mais de 50 dicas sobre coisas de que eu precisava (ou não precisava) para recuperar-me completamente. Minhas “Recomendações para recuperação” estão relacionadas no Apêndice para sua conveniência. Espero que compartilhem essa informação com quem dela puder se beneficiar.

Finalmente, “Meu derrame de sabedoria” define o que o derrame me ensinou sobre meu cérebro. Nesse ponto, você vai perceber que este livro não é realmente sobre derrame. Mais precisamente, o derrame foi o evento traumático pelo qual me chegou o conhecimento. Este livro é sobre a beleza e a resistência do cérebro humano graças a sua capacidade inata de se adaptar constantemente à mudança e recuperar suas funções. Em última análise, é sobre a jornada do meu cérebro a caminho da consciência do meu hemisfério direito, onde me vi envolvida numa profunda paz interior. Ressuscitei a consciência do meu hemisfério esquerdo com a finalidade de ajudar outras pessoas a alcançar aquela mesma paz interior — sem precisar sofrer um derrame!

Espero que apreciem a jornada.

A Vida de Jill Antes do Derrame

Sou uma neuroanatomista experiente e tenho vários artigos publicados. Cresci em Terre Haute, Indiana. Um de meus irmãos, que é só 18 meses mais velho que eu, é portador de uma desordem mental chamada esquizofrenia. Ele recebeu o diagnóstico oficial aos 31 anos, mas exibiu sinais óbvios da psicose muitos anos antes disso. Durante nossa infância, ele era muito diferente de mim no modo como experimentava a realidade e se comportava. O resultado é que fiquei fascinada pelo cérebro humano ainda muito jovem. Eu me perguntava como era possível que meu irmão e eu vivêssemos a mesma experiência, mas saíssemos da situação com interpretações completamente diferentes sobre o que havia acontecido. Essa diferença na percepção, no processamento de informação e no resultado final me motivou a ser uma cientista do cérebro.

Minha jornada acadêmica começou na Indiana University, em Bloomington, Indiana, no final da década de 1970. Por causa da interação com meu irmão, eu estava ávida por entender o que era o “normal” em nível neurológico. Naquele tempo, o assunto da neurociência era ainda tão novo que não existia nenhum campus da universidade como área formal de especialização. Estudando psicologia fisiológica e biologia humana, aprendi tanto quanto possível sobre o cérebro humano.

Meu primeiro trabalho de verdade no mundo da ciência médica acabou se tornando uma enorme bênção em minha vida. Fui contratada como técnica de laboratório no Terre Haute Center for Medical Education (THCME), que é um braço da escola de medicina da Indiana University e funciona no campus da Indiana State University (ISU). Meu tempo era igualmente dividido entre o laboratório médico de anatomia humana e o laboratório de pesquisa em neuroanatomia. Por dois anos, vivi mergulhada no estudo da medicina e, tendo por mentor o Dr. Robert C. Murphy, apaixonei-me pela dissecação do corpo humano.

Depois da graduação como mestre, passei os seis anos seguintes envolvida oficialmente no programa de doutorado do Departamento de Ciência da Vida da ISU. Minha carga horária era consumida pelo currículo do primeiro ano da faculdade de medicina e pela especialização em neuroanatomia, sob a orientação do Dr. William J. Anderson. Em 1991, tornei-me doutora e me senti competente para lecionar Anatomia Geral Humana, Neuroanatomia Humana e Histologia no nível de graduação em medicina.

Em 1988, durante meu período no THCME e na ISU, meu irmão recebeu o diagnóstico oficial de esquizofrenia. Biologicamente, ele é o ser mais próximo de mim no Universo. Eu queria entender por que eu conseguia conectar meus sonhos à realidade e torná-los verdadeiros. O que havia de tão diferente no cérebro de meu irmão que ele não conseguia conectar os seus com uma realidade comum, de maneira que eles se tornavam, então, ilusões? Estava ansiosa para me dedicar à pesquisa em esquizofrenia.

Depois do começo na ISU, fui convidada a ocupar uma posição em pesquisa de pós-doutorado na Harvard Medical School, no Departamento de Neurociência. Passei dois anos trabalhando com o Dr. Roger Tootell sobre a localização da área MT, que se localiza na parte do córtex visual do cérebro que acompanha o movimento. Interessei-me por esse projeto porque uma elevada porcentagem de indivíduos com diagnóstico de esquizofrenia exibia comportamento ocular anormal quando observava objetos em movimento. Depois de ajudar Roger a identificar anatomicamente a área MT no cérebro humano, segui meu coração e me transferi para o Departamento de Psiquiatria da Harvard Medical School. Meu objetivo era trabalhar no laboratório da Dra. Francine M. Benes no McLean Hospital. A Dra. Benes é uma especialista mundialmente renomada na investigação pós-morte do cérebro humano em relação à esquizofrenia. Eu acreditava que por esse caminho poderia dar minha contribuição e ajudar as pessoas portadoras da mesma desordem mental de que sofria meu irmão.

Uma semana antes de começar em minha nova posição no McLean Hospital, meu pai, Hal, e eu fomos a Miami a fim de participar da conferência anual de 1993 da Nami. Hal, ministro episcopal aposentado com um doutorado em aconselhamento psicológico, sempre defendera a causa da justiça social. Nós dois queríamos participar daquela convenção para aprender mais sobre a Nami e o que poderíamos fazer para unir nossa energia à deles. A Nami é a maior organização civil dedicada a melhorar a vida de pessoas portadoras de sérias enfermidades mentais. Naquela época, a Nami tinha aproximadamente 40 mil famílias associadas, todas com um membro que havia recebido algum tipo de diagnóstico psiquiátrico. Agora a Nami tem um número de aproximadamente 220 mil famílias associadas. A organização nacional Nami age em nível de estado. Além disso, há mais de 1.100 afiliadas locais da Nami espalhadas pelo país que oferecem apoio e educação, e promovem oportunidades para famílias no âmbito da comunidade.

A viagem para Miami mudou minha vida. Um grupo de cerca de 1.500 pessoas, entre elas pais, irmãos, filhos e indivíduos com diagnóstico de severa doença mental, reuniu-se em busca de apoio, educação e representação, e para abordar assuntos relacionados à pesquisa. Até conhecer outros irmãos de indivíduos portadores de doença mental, não havia percebido o profundo impacto que a enfermidade de meu irmão tivera em minha vida. Ao longo daqueles poucos dias, conheci uma família de pessoas que entendiam a angústia que eu sentia por perder meu irmão para sua esquizofrenia. Elas entendiam o esforço da minha família para ajudá-lo a ter acesso a tratamento de qualidade. Lutavam juntas como uma voz organizada contra a injustiça social e o estigma relacionado à doença mental. Tinham como armas programas educacionais para eles mesmos, bem como para o público, sobre a natureza biológica dessas desordens. Também muito importante, aliavam-se aos pesquisadores para ajudar a encontrar uma cura. Tive a sensação de estar no lugar certo na hora certa. Era uma irmã, uma cientista e apaixonada pela idéia de ajudar pessoas como meu irmão. Sentia que havia encontrado não só uma causa digna do meu esforço, mas também uma grande família.

Na semana seguinte à convenção de Miami, cheguei ao McLean Hospital cheia de energia e ansiosa para começar meu novo trabalho no Laboratório para Neurociência Estrutural, domínio da pesquisa da Dra. Francine Benes. Estava eufórica e entusiasmada para começar as investigações pós-morte para as bases biológicas da esquizofrenia. Francine, a quem eu chamava carinhosamente de Rainha da Esquizofrenia, é uma fabulosa cientista pesquisadora. O simples fato de observar como ela pensava, como explorava e como reunia tudo que aprendia com os dados colhidos era um completo fascínio para mim. Era um privilégio testemunhar sua criatividade em projeto experimental e a persistência, precisão e eficiência com que administrava um laboratório de pesquisa. Aquele trabalho era um sonho que se realizava. Estudar o cérebro de indivíduos diagnosticados com esquizofrenia me dava uma sensação de propósito.

No primeiro dia do meu novo trabalho, porém, Francine causou-me o primeiro desapontamento ao revelar que a pouca freqüência de doações de cérebros de famílias cujos indivíduos tinham doença mental provocara em longo prazo uma ampla carência de tecidos para investigação pós-morte. Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo. Havia passado a maior parte da semana anterior na Nami Nacional com centenas de outras famílias cujos indivíduos que a ela pertenciam tinham diagnóstico de severa doença mental. O Dr. Lew Judd, ex-diretor do National Institute of Mental Health, havia moderado o plenário de pesquisa, e vários cientistas de renome tinham apresentado seus trabalhos. As famílias que integram a Nami gostam de divulgar o que sabem e aprender mais sobre a pesquisa neurológica, por isso eu considerava surpreendente que pudesse haver falta de doação de tecido. Decidi que a questão era só de divulgação. Precisávamos despertar a consciência pública. Acreditava que, assim que soubessem que havia carência de tecido para pesquisa, as famílias da Nami promoveriam doações dentro da organização e resolveriam o dilema.

No ano seguinte (1994), fui eleita para o Conselho de Diretores da Nami Nacional. Foi uma grande alegria poder servir àquela maravilhosa organização, uma grande honra e responsabilidade. É claro, a base da minha plataforma era a valorização da doação cerebral mediante a carência de tecido psiquiatricamente diagnosticado para a realização de pesquisa científica. Chamei o problema de Questão de Tecido. Na época, a idade média de um membro da Nami era de 67 anos. Eu tinha apenas 35. Sentia-me orgulhosa por ser a mais jovem eleita para aquele conselho. Tinha muita energia e estava ansiosa para começar.

Com minha nova posição dentro da organização Nami Nacional, passei imediatamente a determinar a política de ação dentro das convenções anuais das Nami Estaduais em todo o país. Antes de começar essa empreitada, o Harvard Brain Tissue Resource Center (Banco de Cérebro), o banco de tecido cerebral que ficava localizado à esquerda do Laboratório Benes, recebia menos de três cérebros por ano de indivíduos psiquiatricamente diagnosticados. Essa quantidade de tecido mal era suficiente para a realização do trabalho no laboratório de Francine, e o Banco de Cérebro não dispunha de material bastante para doar a outros renomados laboratórios que o solicitavam. Poucos meses depois do início do meu trabalho, que incluía viagens e programas educativos para informar as famílias da Nami sobre a Questão do Tecido, o número de doações de cérebro começou a crescer. Atualmente, o número de doações da população psiquiatricamente diagnosticada varia entre 25 e 35 doações anuais. A comunidade científica daria boa utilidade a cem doações anuais.

Percebi que no início das minhas apresentações sobre a Questão do Tecido, o assunto da doação de cérebro fazia alguns membros da platéia reagir com desconforto. Havia aquele momento previsível em que o público deduzia: “Oh, meu Deus, ela quer o meu cérebro!” E eu lhe dizia: “Bem, sim, eu quero, mas não se preocupem, não estou com pressa!” Para combater a evidente apreensão, escrevi um jingle para o Banco de Cérebro e comecei a viajar com meu violão como a cientista cantora. Quando me aproximava do assunto da doação de cérebro e a tensão na sala começava a crescer, pegava o violão e cantava para os que me ouviam. O jingle do Banco de Cérebro parecia ser suficientemente ingênuo para amenizar a tensão, enternecer corações e abrir caminho para que eu comunicasse minha mensagem.

Meus esforços com a Nami deram profundo significado à minha vida, e meu trabalho no laboratório floresceu. Meu projeto primário de pesquisa no laboratório Benes envolvia agir em conjunto com Francine para a criação de um protocolo no qual pudéssemos visualizar três sistemas neurotransmissores na mesma fração de tecido. Neurotransmissores são as substâncias químicas com as quais as células do cérebro se comunicam. Esse trabalho foi importante, uma vez que os mais novos medicamentos antipsicóticos atípicos são formulados para influenciar múltiplos sistemas neurotransmissores, em vez de somente um.

Nossa habilidade de visualizar três diferentes sistemas na mesma fração de tecido elevava a capacidade de entendermos a delicada interação dos sistemas. O objetivo era entender melhor o microcircuito do cérebro — que células em que áreas do cérebro se comunicavam com que substâncias químicas e em que quantidade dessas substâncias. Quanto melhor entendêssemos quais eram as diferenças, em âmbito celular, entre o cérebro de indivíduos com diagnóstico de severa enfermidade mental e controles cerebrais normais, mais próxima a comunidade médica estaria de ajudar os necessitados com medicação apropriada. Na primavera de 1995, esse trabalho foi matéria de capa do BioTechniques Journal, e em 1996 ele me rendeu o prestigiado Mysell Award, um prêmio do Departamento de Psiquiatria da Harvard Medical School. Eu adorava trabalhar no laboratório e amava dividir esse trabalho com minha família Nami.

E, então, o imponderável aconteceu. Estava com trinta e poucos anos, prosperando nos campos profissional e pessoal. Mas, numa descida vertiginosa, meu futuro promissor e minha vida cor-de-rosa evaporaram. Acordei no dia 10 de dezembro de 1996 para descobrir que eu mesma era portadora de uma desordem cerebral. Sofria um derrame. Em quatro horas, vi a deterioração da capacidade de minha mente em processar todos os estímulos que penetravam pelos sentidos. Essa rara forma de hemorragia deixou-me completamente incapacitada, de forma que não podia andar, falar, ler, escrever ou lembrar aspectos de minha vida.

Compreendo que o leitor deve estar ansioso para começar a ler o relato pessoal da manhã do derrame. Porém, para que seja possível entender de maneira mais clara o que ocorria no interior do meu cérebro, decidi apresentar um pouco de ciência simples nos capítulos 19 e 20. Fiz o possível para torná-los acessíveis e úteis, para que você possa entender a anatomia que dá suporte às minhas experiências cognitiva, física e espiritual. Se for absolutamente indispensável que você leia esses capítulos depois, então tenha certeza de que estarão à mão como fonte de referência. No entanto, insisto que é mais aconselhável ler antes estas seções, pois acredito que vão simplificar profundamente seu entendimento.