“Uma vez atingido o silêncio interior, tudo é possível. A maneira de parar de falar para nós mesmos é exatamente o mesmo método usado para nos ensinar a falar para nós mesmos; somos ensinados compulsiva e inflexivelmente, e esta é a maneira de parar: compulsiva e inflexivelmente” — O Fogo Interior, de Carlos Castaneda.
Tão paradoxal e tão igual como paz selvagem, uma paz natural, não uma pacificação, uma paz inerente, própria de quem está em sintonia com sua natureza autêntica, mas deixemos de brincar com as palavras, pelo menos por ora, pois a paz. assim como a quietude. as supera.
Como podemos estar quietos, relaxados e ao mesmo tempo totalmente alertas, plenamente atentos?
Pode-se perguntar como alguém pode estar quieto e alerta, pois a nossa cultura associa o estado de alerta à inquietude e ao barulho. Vem a nós, talvez, a imagem de uma ambulância, de um carro de polícia ou de um veículo do bombeiro com a sirene de alerta ligada, num ritmo frenético de socorro diante de uma emergência.
Vem a nós a imagem do robô da antiga série Perdidos no Espaço gritando com os braços em balbúrdia: “Perigo! Perigo! Perigo!”
Diante do perigo temos que ficar alertas. Diante do risco, diante da guerra, em estado de prontidão. Os discípulos de um certo mestre eram treinados no silêncio interior em meio ao combate. Numa luta de vida e morte, pensar, cogitar, pode ser fatal.
Mas alerta não é necessariamente um estado de frenesi, pode ser um estado de atenção, de presença, de estarmos ancorados no aqui e no agora, um estado de clareza e de não distração, um estado de prontidão, a mente calma e o corpo vibrante de energia, ao mesmo tempo.
Como um verdadeiro mestre de artes marciais que irradia de si paz e poder.
No caminho do guerreiro temos que estar sempre atentos, por isso se chama caminho, é um processo, um caminhar, numa trilha cheia de desafios na qual se compreende que viver é perigoso, tal como Caetano nos indicou em Divino Maravilhoso:
"Atenção, precisa ter olhos firmes
Pra este Sol, para esta escuridão
Atenção
Tudo é perigoso
Tudo é divino maravilhoso".
Não era à toa que o velho naual Don Juan sabia do profundo elo de ligação dos poetas com o espírito, com o abstrato.
E devemos estar atentos para não transformar essa questão num debate intelectual.
Ela se resolve através de uma prática de corpo inteiro. Não é uma questão puramente mental, antes é uma percepção completa do nosso ser.
E é justamente nesse estado que a quietude pode se dar, pois, ao não estarmos distraídos com nenhum objeto mental, com nada nos preocupando, destituídos de expectativas ou de nostalgias, sem o barulho interno, é que podemos nos encontrar estabelecidos na presença serena e atenta de nossos seres.
Um guerreiro completamente alerta diante do seu desafio está perfeitamente sintonizado com o aqui e o agora, como, mais uma vez, cantou o poeta Veloso: “tranquilo e infalível como Bruce Lee”.
A guerra do guerreiro é outra: não se dá no mundo; antes, o guerreiro usa o mundo como uma arena, um campo de treinamento, um ginásio psicológico. O guerreiro sabe que sua batalha é travada dentro do peito, é uma luta interior.
Um guerreiro é como “um caçador imaculado que caça o poder”.
Guerreiro porque sabe pelo que está lutando. Sabe que está lutando pelo poder sobre si mesmo, não sobre os outros.
Autodomínio.
Governar a si mesmo.
Autocontrole.
Se o guerreiro ou a guerreira tivesse uma oração própria, ela talvez fosse assim:
Não desejo cargos, nem posições, nem reconhecimento, nem gratidão.
Não desejo justiça; não pretendo ser visto pelos humanos como alguém especial.
Meu intento é o domínio da mente, sem nenhuma esperança ou expectativa de alcançá-lo.
Não dependo de nada nem de ninguém para realizar esse domínio mental;
antes, toda adversidade é bênção e presente.
Nesse sentido, este mundo é perfeito tal como é.
O guerreiro interior sabe que um homem que vence a si mesmo trava uma luta maior do que aquele que derrota mil homens em campo de batalha.
A luta é pelo reino interior.
A luta é por coroar a si mesmo, por deixar que o fogo interior ascenda ao centro mais alto de si.
Ele é um caçador, mas caça a si mesmo, espreita a si mesmo, observa a si mesmo, identifica as suas fraquezas, lista-as na prática do cotidiano e as elimina implacavelmente com doçura, paciência e astúcia.
Ele é imaculado, pois tem claro o seu propósito. Ele é imaculado, pois purifica-se no fogo do propósito. Ele sabe que não pode voltar atrás, já queimou seu barco, só pode seguir em frente, não pode mais cometer erros reconhecidos e superados, pois isso seria como morrer ou ser derrotado diante de si. Ele é imaculado porque impecável, aprendeu a economizar a própria energia.
“Quando um homem entra no caminho dos guerreiros, fica consciente, aos poucos, de que a vida comum ficou para trás para sempre. Isso significa que o mundo comum não é mais um escudo para ele; e que ele deve adotar uma nova maneira de viver, para poder sobreviver” — Don Juan Matus.
Ele caça o poder, pois não há caçada igual a essa; ela o distingue e faz dele o que é.
E tudo começa por um primeiro ato.
“A impecabilidade começa com um único ato, que tem de ser deliberado, preciso e fundamentado. Se esse ato é repetido pelo tempo suficiente, adquire-se o senso de um intento inflexível, que pode ser aplicado a qualquer outra coisa. Se isso é realizado, o caminho é claro. Uma coisa leva à outra até que o guerreiro perceba todo o seu potencial”
— Roda do Tempo, de Carlos Castaneda.
Que primeiro ato seria esse?
Observar a si mesmo.
Ser capaz de olhar para si, sem julgar-se ou justificar-se, imparcialmente. Não identificar-se com os próprios pensamentos. Não identificar-se com as emoções negativas. Observar aqueles comportamentos que drenam a nossa energia.
Esse primeiro ato é fundamental. Ele permeia todo o caminho. É um fundamento do caminhar. Faz parte da disciplina da atenção, disciplina de 25 horas ao dia. Esse primeiro ato pertence à visão do espreitador, mas alcança todos os guerreiros e guerreiras, sejam espreitadores ou sonhadores.
Observar a si mesmo é simples, mas não é fácil, e isso ocorre por uma razão prática: não fomos treinados a olhar para nós mesmos, antes fomos ensinados a olhar para fora, para o mundo exterior, em busca de coisas, objetos e satisfação de desejos. Ignoramos a nós mesmos e temos a ilusão de que nos conhecemos, mas, se assim fosse, teríamos um autodomínio que não se evidencia na prática.
Observar é simples, mas não é fácil, pois vamos nos deparar com uma grande confusão de pensamentos, emoções, memórias, desejos, hábitos que parecem ser nossos, mas é apenas aquilo que fizeram de nós. Nossa essência perceptiva encontra-se envolta nesse caos interno, nessa programação que nos foi imposta pela cultura, nessa hipnose.
Você já se tocou que a mente não para? Você já se deu conta que conversa consigo mesmo quase o tempo todo? Você já percebeu como isso, o diálogo interno incessante, pode ser desgastante? Você já imaginou se todo o seu diálogo interno fosse exteriorizado?
As pessoas se perceberiam umas às outras como loucas ao estarem falando em alto e bom tom consigo mesmas. Mas a loucura fica disfarçada até certo ponto, pois esse diálogo interno se dá dentro de “sua” própria mente.
Mas aqui caberia a pergunta: Como falar que possuímos uma mente se não temos controle sobre ela?
Você é capaz de desligar o diálogo interno à vontade?
Você é capaz de pensar com foco com facilidade?
E mais, você é capaz de simplesmente não pensar e de estabelecer-se num estado de calma, paz e tranquilidade por um ato de vontade?
Diante das situações do dia a dia que nos pressionam, somos capazes de não reagir impulsivamente?
Se não controlamos a nossa própria mente, como poderemos ter sucesso não apenas em nossa vida comum, mas no caminho espiritual?
Se não controlamos a nossa própria mente, outras forças a controlam.
Assenhorarmo-nos de nós mesmos passa por esse controle mental e começa justamente pela observação de si, por nos darmos conta de que o nosso reino interior se encontra num estado de caos.
Se olharmos o próprio mundo, veremos que a confusão aí existente é reflexo do que carregamos em nosso interior. O exterior é reflexo do interior.
Quantas vezes por dia somos capazes de parar e olhar para nós mesmos? Ou será que não paramos e somos engolidos pelas demandas e preocupações do cotidiano?
As frases que mais se ouvem então são: “Não tenho tempo”; “Estou na correria”; “Minha vida é uma loucura”; “Estou correndo atrás do prejuízo”; “Estou vendendo o almoço para comprar o jantar”.
O exterior é reflexo do interior.
Nossa vida é o reflexo de nós mesmos; é um espelho no qual podemos nos olhar e nos descobrir.
Mas muitas vezes não queremos olhar para tal espelho; queremos transferir a responsabilidade para outrem ou para algo.
Observar a si mesmo é ter a coragem de olhar para tal espelho e de ver-se sem racionalizações ou autopiedade.
Dizer que não temos tempo é uma forma de mascarar o medo de enfrentar-se.
Dizer que estamos na correria, no fundo, é uma fuga de si mesmo.
Considerar que a vida é uma loucura é uma maneira de não assumir a responsabilidade pessoal.
Observar a si mesmo é fundamental para sair dessa loucura, mas antes precisamos olhar para ela, para esse estado de loucura em nós mesmos, para a nossa raiva, ressentimento, ansiedade, preocupação, inveja, competição, violência e todo esse desfile interminável do ego.
E aí descobrimos o inimigo. Ele não está fora de nós, está dentro e, como um impostor, tem o atrevimento de passar-se por nós mesmos e proclamar-se como eu.
Daí surge o diálogo interno. Ora, com quem conversamos se somos apenas um eu, um ser? Só pode haver diálogo se há dois ou mais.
O silêncio interior nos remete à nossa verdadeira individualidade. É dito que o caminho do guerreiro só começa de fato quando conquistamos o silêncio, quando vencemos o primeiro inimigo: o medo.
Mas do que temos medo?
Temos medo de olhar para nós mesmos, temos medo da verdade sobre nós mesmos; observar a si mesmo é o primeiro ato para lograrmos o resgate de nós mesmos.
Não devo temer
O medo é o assassino do real
É a pequena morte que oblitera o ser.
Eu enfrentarei o meu medo.
Permitirei que ele passe através de mim.
E, quando ele se for, eu observarei o seu rastro com minha visão interna.
No espaço vazio que ele deixou nada existe, afinal.
Só eu permaneço.
— Frank Herbert, em Duna.