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quinta-feira, 27 de março de 2025

A auto-importância

Pessoal, esse é um capítulo de um livro sobre Nagualismo, no final disponho o link para download, refere-se portanto a uma linhagem xamânica que tinha um propósito muito próprio e que para ser devidamente compreendido precisa ser vivenciado, o que nos fará entender o significado da frase famosa de Matrix: "Há uma diferença entre conhecer o caminho e percorrer o caminho". Escolhi a Torre, arcano 16 do Tarot, como imagem porque ele ilustra bem para onde a auto-importânica nos leva.

A Importância Pessoal
Justificar
Cheguei ao átrio do hotel na hora combinada. Não esperei nem um minuto e o vi descendo as escadas que davam acesso aos quartos. Nós nos cumprimentamos e então nos dirigimos ao restaurante onde nos serviram um delicioso café da manhã. Em dado momento quis perguntar-lhe algo, mas ele me fez sinais para ficar calado. Comemos em silêncio.

Ao terminarmos, saímos para caminhar pela rua Donceles, rumo ao Zócalo. Enquanto passeávamos pelos sebos, ele me confessou que, geralmente, não falava em particular com as pessoas, mas que no meu caso era diferente porque ele tinha recebido uma indicação a respeito. Como eu não sabia a que se referia, preferi permanecer calado, já que qualquer comentário meu nada mais faria que sublinhar minha ignorância.

Acrescentou que de forma alguma eu deveria confundir sua deferência com um interesse pessoal.

"Eu disse muitas vezes que minha condição energética me impede de receber discípulos.

Por isso, as pessoas se desapontam comigo. Mas eu não posso fazer nada!"

Conversamos sobre diversos temas. E eles fez muitas perguntas sobre minha vida, pediu o número de meu telefone e me avisou que na noite seguinte ele daria uma palestra na casa de uma amiga. Eu estava convidado a assistir, mas que a nossa relação deveria permanecer em segredo.

Eu lhe respondi que adoraria estar presente e então ele me deu o endereço e o horário.

Em um dos sebos que visitamos, encontramos um exemplar de um dos seus livros intitulado - "Uma estranha realidade". Estava na estante das obras de ficção, o qual lhe aborreceu muitíssimo. Comentou que as pessoas estão tão comprometidas com o cotidiano que nem sequer podem conceber o mistério que nos cerca. Quando algo sai do conhecido, automaticamente nós o classificamos em uma cômoda categoria e então nos esquecemos disso.

Percebi que folheava os livros com interesse e que, às vezes, passava a mão neles com carinho, com um sentimento de respeito. Ele disse que aqueles, mais que livros, eram depósitos de conhecimento não se importando com a forma em que este se apresentasse. Acrescentou que a informação de que precisamos para ampliarmos a consciência se esconde nos lugares mais improváveis e que se não fôssemos tão rígidos como normalmente somos, tudo à nossa volta nos contaria segredos incríveis.

"Somente precisamos nos abrir ao conhecimento e este chegará a nós como uma avalanche".

Vendo uma mesa que exibia livros a um preço quase de graça, ficou admirado com o baixo custo que têm os livros já lidos comparados com os novos. Na opinião dele, isso provava que as pessoas não estão realmente procurando informação. O que procuram é o "status" do comprador.

Eu lhe perguntei que tipo de leitura ele preferia e me respondeu que gostava de saber sobre tudo. Porém, nessa ocasião, estava procurando um livro de poesia em particular; certa edição antiga que nunca havia sido reimpressa. Pediu-me que lhe ajudasse a encontrá-lo.

Durante um longo tempo, nós revolvemos muitos livros. Finalmente, saiu com um pacote deles, mas não com o qual procurava. Com um sorriso culpado, admitiu:

"Sempre me acontece a mesma coisa!"

Próximo ao meio-dia nos sentamos para descansar num banco de uma praça onde estavam os impressores oferecendo seus serviços. Aproveitei a oportunidade para lhe dizer que suas declarações da noite anterior tinham me deixado perplexo. Então lhe pedi que me explicasse com mais detalhes no que consistia a guerra dos bruxos.

Com muita cortesia, ele me explicou que era natural que esse tema me afetasse, já que eu, como o resto dos seres humanos, fui preparado desde meu nascimento para perceber o mundo do ponto de vista do bando das ovelhas. Ele me contou histórias de seus companheiros e como eles tinham conseguido, depois de muitos anos de luta tenaz contra suas fraquezas, superar à coerção coletiva. E me aconselhou a ser paciente, pois a seu devido tempo as coisas se explicariam.

Depois de um momento de conversa agradável, ele me deu a mão num gesto de adeus. Eu não pude conter minha curiosidade e lhe perguntei o que ele tinha desejado dizer com isso de que havia tido "uma indicação" sobre mim.

Em vez de me responder, ele olhou com atenção sobre meu ombro esquerdo. Imediatamente minha orelha ficou quente e começou a zumbir. Depois de um tempo, disse que ele mesmo não sabia, porque não pôde ler a natureza do sinal. Mas tinha sido algo tão claro, que tinha sido forçado a prestar atenção.

Acrescentou:

"Eu não posso guiá-lo, mas posso colocá-lo diante de um abismo que colocará à prova todas as suas habilidades. Dependerá de você se se lança ao voo ou se corre para se esconder na segurança de suas rotinas".

Suas palavras despertaram minha curiosidade. Eu lhe perguntei a que abismo se referia.

Ele me disse que se referia ao meu próprio sonho.

Essa resposta me estremeceu. De alguma maneira, Carlos tinha notado meu dilema interior.

Faltando quinze para às sete, cheguei a uma bonita casinha em Coyoacán. Uma moça agradável, que parecia ser a dona da casa, veio me receber. Eu lhe expliquei que tinha sido convidado à conferência de Carlos e ela me convidou a entrar. Nós nos apresentamos e ela disse que se chamava Martha.

Na sala havia outras oito pessoas. Logo chegaram mais dois convidados e em seguida apareceu Carlos que, como sempre, saudou a todos efusivamente. Desta vez apareceu trajado de um modo muito formal, de terno e gravata, e trazia na mão uma pasta que lhe dava um ar intelectual. Começou a conversar sobre diversos assuntos e, quase sem que notássemos, entrou no tema: como apagar a importância pessoal.

Como preâmbulo, afirmou que o papel relevante que nos concedemos a nós mesmos em cada uma das coisas que fazemos, dizemos ou pensamos, consiste numa espécie de "dissonância cognitiva" que nubla nossos sentidos e nos impede de ver as coisas clara e objetivamente.

"Somos como pássaros atrofiados. Nascemos com todo o necessário para voar, porem, estamos permanentemente obrigados a dar voltas em torno de nosso ego. A corrente que nos aprisiona é a importância pessoal”.

"O caminho para converter um ser humano normal num guerreiro é muito árduo. Sempre intervém nossa sensação de estar no centro de tudo, de sermos necessários e termos a última palavra. Nós nos sentimos importantes. E quando a pessoa é importante, qualquer intento de mudança se converte em um processo lento, complicado e doloroso”.

"Esse sentimento nos segrega. Se não fosse por ele, todos nós fluiríamos no mar da consciência e saberíamos que nosso eu pessoal não existe para si mesmo: seu destino é alimentar a Águia”.

A importância cresce na criança à medida em que ela aperfeiçoa sua interpretação da realidade. Fomos forçados a aprender a construir um mundo de concordâncias ao qual nos referir, para que possamos nos comunicar. Mas esse dom incluiu uma embaraçosa sequela: nossa ideia do 'eu'. O eu é uma construção mental, veio de fora e está na hora de nos desfazermos dele".

Carlos afirmou que as falhas em que nós incorremos ao nos comunicarmos são uma prova de que a concordância que nós recebemos é absolutamente artificial.

"Depois de experimentar durante milênios situações que alteram nossos modos de perceber o mundo, os bruxos do México antigo descobriram um fato prodigioso: que nós não estamos obrigados a viver em uma única realidade, porque o universo está construído com princípios muito maleáveis que podem se acomodar em formas quase infinitas, produzindo incontáveis gamas de percepção”.

"A partir desta constatação, eles deduziram que o que nós seres humanos recebemos de fora, foi a capacidade para fixar nossa atenção em um desses níveis para explorá-lo e reconhecê-lo, moldando-nos a ele e aprendendo a senti-lo como se fosse único. Assim surgiu a ideia de que nós vivemos em um mundo exclusivo e, consequentemente, gerou-se o sentimento de ser um 'eu' individual.

"Não há dúvidas de que a descrição que nos deram é uma possessão valiosa, semelhante a uma estaca à qual se amarra uma plantinha tenra para fortalecê-la e conduzi-la. E isso tem permitido que cresçamos como pessoas normais numa sociedade modelada para essa fixação.

Para isso, nós tivemos que aprender a 'desnatar', quer dizer, fazer leituras seletivas do enorme volume de informações que chegam a nossos sentidos. Mas, uma vez que essas leituras se tornam 'a realidade', a fixação da atenção funciona como uma âncora, pois nos impede de tomar consciência de nossas incríveis possibilidades”.

"Don Juan sustentava que o limite da percepção humana é a timidez. Para poder manipular o mundo que nos cerca, nós tivemos que renunciar ao nosso patrimônio perceptivo que é a possibilidade para testemunhar tudo. Desse modo, nós sacrificamos o voo da consciência pela segurança do conhecido. Nós podemos viver vidas fortes, audazes, saudáveis, podemos ser guerreiros impecáveis, mas não ousamos!

"Nossa herança é uma casa estável onde viver, mas nós a transformamos em uma fortaleza para a defesa do eu, melhor dizendo, em um cárcere onde condenamos nossa energia a consumir-se em prisão perpétua. Nossos melhores anos, sentimentos e forças se vão no conserto e na sustentação daquela casa porque nós acabamos nos identificando com ela”.

"Quando uma criança se torna um ser social, ela adquire uma falsa convicção de sua própria importância. E aquilo que no princípio era um sentimento saudável de autopreservação, acaba se transformando em uma exigência ególatra por atenção”.

"De todos os presentes que recebemos, a importância pessoal é o mais cruel. Converte uma criatura mágica e cheia de vida em um pobre diabo arrogante e sem graça".

Apontando para seus pés, falou que nos sentir importantes nos força a fazer coisas absurdas.

"Vejam eu! Uma vez eu comprei sapatos muito bons, que pesavam quase um quilo cada um. Gastei uns quinhentos dólares para andar arrastando meus sapatões por aí!

"Por causa de nossa importância, nós estamos cheios até as bordas de rancores, invejas e frustrações. Nós nos deixamos guiar pelos sentimentos de indulgência e fugimos da tarefa de nos conhecer a nós mesmos com pretextos como: 'me dá preguiça' ou 'que cansaço!'. Por trás de tudo isso há uma ansiedade que tentamos silenciar com um diálogo interno cada vez mais denso e menos natural".

Neste ponto da conversa, Carlos fez um intervalo para responder algumas perguntas e aproveitou para nos contar diversas histórias exemplares sobre como a auto-importância deforma os seres humanos, transformando-os em couraças rígidas diante das quais um guerreiro não sabe se ri ou se chora.

"Depois de estudar durante alguns anos com don Juan, eu me senti tão perplexo com suas práticas que fui embora durante algum tempo. Não podia aceitar o que ele e meu benfeitor me faziam. Parecia desumano, desnecessário e ansiava por um tratamento mais doce. Eu aproveitei para visitar diversos guias espirituais do mundo inteiro a fim de achar nas doutrinas deles algum ensino que justificasse minha deserção”.

"Em certa ocasião conheci um guru californiano que se achava grande coisa. Ele me admitiu como seu discípulo e me deu a tarefa de pedir esmolas em uma praça pública. Considerando que era uma experiência nova para mim e que provavelmente tiraria uma lição importante de tudo isso, eu me encorajei e cumpri o proposto. Quando voltei para vê-lo, disse a ele: 'agora faça isso você!'. Ele ficou furioso comigo e me expulsou da turma”.

"Em outra de minhas viagens, fui ver um conhecido mestre hindu. Eu me apresentei em sua casa bem cedo e formei fila com outros curiosos. Mas o cavalheiro nos deixou esperando durante horas. Quando apareceu, no alto de uma escada, ele tinha um aspecto condescendente, como se nos estivesse fazendo um grande favor em nos admitir. Começou a descer os degraus muito meritoriamente, mas seus pés se emaranharam em sua grande túnica, caiu no chão e quebrou a cabeça. Morreu ali mesmo, diante de nós".

Em outra ocasião, Carlos nos falou que o demônio da auto-importância não afeta somente aqueles que se acreditam mestres, mas que é um problema geral. Um dos seus estandartes mais firmes é a aparência pessoal.

"Esse era um ponto pelo qual eu sempre me senti incomodado. Don Juan costumava atiçar meu ressentimento zombando de minha estatura. Ele me dizia: 'Quanto mais baixinho, mais egomaníaco! Você é pequeno e ruim como um percevejo, não pode fazer outra coisa senão ser famoso, porque do contrário você não existe!' Afirmava que o mero fato de me ver lhe dava vontade de vomitar, pelo que estava infinitamente agradecido comigo: 'cada vez que você vem eu me renovo!'

"Eu me ofendia com seus comentários, porque tinha a certeza de que exagerava meus defeitos. Mas um dia eu entrei em uma loja de Los Angeles e pude entender que ele tinha toda a razão. Ouvi um indivíduo que dizia ao meu lado: 'Shorty!' (pequeno). Eu me senti tão irritado que, sem pensar duas vezes, virei e lhe dei um forte soco na cara. Depois eu soube que o homem não tinha dito isso para mim, mas porque tinha recebido um troco menor”.

"Um dos conselhos que nos deu Don Juan foi que durante nossa formação como guerreiros nos abstivéssemos de empregar o que ele chamava 'ferramentas para a perpetuação do eu.'

Incluía nessa categoria objetos tais como os espelhos, exibição de títulos acadêmicos e os álbuns de fotos com história pessoal. Os bruxos do seu grupo tomavam esse conselho literalmente, mas os aprendizes não se importavam. Porém, por alguma razão, eu interpretei seu comando de forma extrema desde então eu nem permito ser fotografado”.

"Certa vez, enquanto eu proferia uma conferência, expliquei que as fotos são uma perpetuação do auto-reflexo e que minha relutância tinha como objetivo manter uma cômoda incógnita ao redor de minha pessoa. Depois eu descobri que certa senhora que estava entre os assistentes e que se dava ar de guia espiritual, havia comentado que, se ela tivesse a minha cara de garçom mexicano, ela tampouco se deixaria fotografar”.

"Ao observar as manhas da importância pessoal e o modo homogêneo com que contamina todo o mundo, os videntes dividiram aos seres humanos em três categorias, para as quais don Juan pôs os nomes mais ridículos que pôde achar: os mijos, os peidos e os vômitos. Todos nós nos ajustamos em um deles”.

"Os mijos se caracterizam por seu servilismo; eles são aduladores, pegajosos e enjoados. É o tipo de gente que sempre quer lhe fazer um favor; cuidam de você, o previnem, paparicam.

Eles têm tanta compaixão na alma! Mas desse modo eles mascaram um fato real: eles não têm iniciativa própria e por si só nunca chegam a nada. Eles precisam de um comando alheio para sentir que estão fazendo algo. E, para sua desgraça, eles dão por certo que os outros são tão amáveis quanto eles; por isso sempre são feridos, decepcionados e chorosos.

"Os peidos, por outro lado, são o extremo oposto. Irritantes, mesquinhos e auto-suficientes, constantemente se impõem e interferem. Uma vez que agarram você, não o deixam em paz. Eles são as pessoas mais desagradáveis com quem você pode se encontrar. Se você está tranquilo, chega o peido e o enrola em seus jogos, usando-o de toda forma possível. Eles têm um dom natural para serem os manda-chuvas e os líderes da humanidade. São os que chegam a matar para conservarem o poder.

"Entre essas categorias estão os vômitos. Neutros, nem se impõem nem se deixam guiar. São presunçosos, ostentosos e exibicionistas. Dão a impressão de que são grande coisa, mas não são nada. Tudo é alarde. São caricaturas de pessoas que pensam ser muito, mas, se você não lhes presta atenção, eles se desfazem em sua insignificância".

Alguém da plateia lhe perguntou se pertencer a uma dessas categorias é uma característica obrigatória, quer dizer, uma formação concreta em nossa luminosidade.

Respondeu:

"Ninguém nasce assim, nós nos fazemos assim! Caímos em um ou outra dessas classificações por causa de algum incidente mínimo que nos marcou quando éramos crianças, como pode ser a pressão de nossos pais ou outros fatores imponderáveis. A partir daí, e conforme crescemos, vamos nos envolvendo de tal modo na defesa do eu, que chega um momento em que nós já não nos lembramos do dia em que deixamos de ser autênticos e começamos a atuar.

Assim, quando um aprendiz entra no mundo dos bruxos, sua personalidade básica está tão formada que já nada pode fazer para desfazê-la e só lhe resta rir de tudo isso”.

"Mas, apesar de não ser nossa condição congênita, os bruxos podem perceber o tipo de importância que nós nos concedemos através de seu ver. E isso é possível porque modelar nosso caráter durante anos produz deformações permanentes no campo energético que nos cerca".

Carlos continuou explicando que a auto-importância se alimenta da mesma classe de energia que nos permite "ensonhar". Portanto, perdê-la é a condição básica do nawalismo, porque libera para nosso uso um excedente de energia, porque sem essa precaução, o caminho do guerreiro poderia nos converter em umas aberrações.

"Isso é o que aconteceu a muitos aprendizes. Eles começaram bem, acumulando sua energia e desenvolvendo suas potencialidades. Mas eles não perceberam que, à medida em que conseguiam poder, eles também nutriam em seu interior um parasita. Se nós vamos ceder às pressões do ego, é preferível que o façamos como homens comuns e normais, porque um bruxo que se considera importante é a coisa mais triste que há.

"Considerem que a importância pessoal é traiçoeira; pode se disfarçar debaixo de uma fachada de humildade quase impecável porque não tem pressa. Depois de uma vida inteira de práticas, basta um mínimo descuido, um pequeno deslize e ali está ela, novamente, como um vírus que foi incubado em silêncio ou como essas rãs que esperam durante anos debaixo da areia do deserto e com as primeiras gotas de chuva despertam de sua letargia e se reproduzem”.

"Tendo em conta sua natureza, é o dever de um benfeitor esporear a importância do aprendiz até que esta exploda. Não pode ter piedade. O guerreiro deve aprender a ser humilde pelo caminho mais árduo ou não terá a menor oportunidade frente aos dardos do desconhecido”.

"Dom Juan fustigava seus discípulos até a crueldade. Ele nos recomendava uma vigilância de vinte e quatro horas diárias para manter distância dos tentáculos do eu. Claro que não lhe dávamos a devida atenção! Salvo Eligio, o mais adiantado dos aprendizes, todos os outros se entregavam de um modo vergonhoso às nossas tendências. No caso da Gorda isso foi fatal".

Contou a história de Maria Helena, uma discípula adiantada de don Juan que havia desenvolvido um grande poder como guerreira, mas que não soubera controlar os maus hábitos de sua etapa humana.

"Ela pensou que tinha tudo sob controle e não era assim. Ainda lhe restava um interesse muito egoísta, um apego pessoal, esperava coisas do grupo de guerreiros e isso acabou com ela”. "A Gorda se sentia ofendida comigo porque me considerava incapaz de dirigir os aprendizes até a liberdade e nunca me aceitou como o novo nagual. Uma vez que a força diretiva de DJ desaparecera, ela começou a reprovar minha insuficiência, ou melhor, minha anomalia energética, sem levar em consideração que isso era um comando do espírito. Pouco depois, ela se aliou com os genaros e as irmãzinhas e começou a se comportar como se ela fosse a líder do grupo. Mas o que terminou de exasperá-la foi o sucesso público de meus livros”.

"Certo dia, em uma explosão de auto-suficiência, reuniu a todos, prostrou-se diante de nós e gritou: 'Bando de idiotas! Eu me vou!”.

"Ela conhecia o exercício do fogo interior, por meio do qual podia mover seu ponto de aglutinação até o mundo do nagual para se reunir com don Juan e don Genaro. Mas naquela tarde ela estava muito agitada. Alguns dos aprendizes tentaram acalmá-la e isso a enfureceu ainda mais. Eu não podia fazer nada. A situação havia sobrepujado meu poder. Depois de um esforço brutal e nada impecável, acometeu-a uma embolia cerebral e caiu morta. O que a matou foi sua egomania".

Como moral desta história estranha, Carlos acrescentou que um guerreiro nunca se deixa levar até a loucura, porque morrer de um ataque de ego é o modo mais estúpido para se morrer.

"A importância pessoal é homicida, trunca o livre fluxo da energia e isso é fatal. Ela é a responsável pelo nosso fim como indivíduos e chegará o dia em que nos elimine como espécie.

Quando um guerreiro aprende a deixar sua auto-importância de lado, seu espírito se abre, jubiloso, como um animal selvagem que é liberado de sua jaula e posto em liberdade”.

"A importância pessoal se pode combater de diversos modos, mas primeiro é necessário saber que está aí. Se você tem um defeito e o reconhece, já é meio caminho andado!”.

"Assim, antes de mais nada, deem-se conta disso. Peguem uma cartolina e escrevam nela:

'A importância pessoal mata', e pendurem-na no lugar mais visível da casa. Leia essa frase diariamente, tente se lembrar dela no seu trabalho, medite sobre ela. Talvez chegue o momento em que seu significado penetre em seu interior e você decida fazer algo. O dar-se conta é por si mesmo uma grande ajuda porque a luta contra o eu gera seu próprio impulso.

"Ordinariamente, a importância pessoal se alimenta de nossos sentimentos, que podem ir do desejo de estar bem e ser aceito pelos outros, até a arrogância e o sarcasmo. Mas sua área de ação favorita é a compaixão por si mesmo e pelos demais. De forma que para espreitá-la, temos, acima de tudo, que decompor nossos sentimentos em suas mínimas partículas, descobrindo as fontes das quais se nutrem”.

"Os sentimentos raramente se apresentam em uma forma pura. Eles se disfarçam. Para os caçar como coelhos, nós temos que proceder sutilmente, com estratégias, porque eles são rápidos e não se pode entrar em acordo com eles”.

"Podemos começar com as coisas mais evidentes, como por exemplo: por que me levo tão a sério? Quão apegado estou? A que dedico meu tempo? Estas são coisas que nós podemos começar a mudar, acumulando energia suficiente para liberar um pouquinho de atenção. E isso, por sua vez, permitirá que entremos mais no exercício”.

"Por exemplo, em vez de passar horas a fio vendo televisão, indo fazer compras ou conversando com nossos amigos sobre coisas transcendentais, nós poderíamos dedicar uma pequena parte desse tempo para fazermos exercícios físicos, recapitular nossa história ou então ir sozinhos a um parque, tirar os sapatos e caminhar descalços na grama. Parece algo simples, mas com essas práticas nosso panorama sensorial se redimensiona. Recuperamos algo que sempre esteve aí e que tínhamos dado por perdido”.

"A partir dessas pequenas mudanças, podemos analisar elementos mais difíceis de detectar, nos quais nossa vaidade se projeta até a demência. Por exemplo: quais são minhas convicções? Eu me considero imortal? Sou especial? Mereço que me considerem? Este tipo de análise entra no campo das crenças, a mera fortaleza dos sentimentos. Assim devem empreender essa análise através do silêncio interno, estabelecendo um fervoroso compromisso com a honestidade. Caso contrário, a mente fará uso de todo tipo de justificativas".

Carlos acrescentou que estes exercícios devem ser feitos com um sentido de alarme, porque, verdadeiramente, trata-se de sobreviver a um poderoso ataque.

"Percebam que a importância pessoal é um veneno implacável. Nós não temos tempo e o antídoto é a urgência. É agora ou nunca!”.

"Uma vez que vocês tenham dissecado seus sentimentos, devem aprender como canalizar seus esforços mais além da faixa do interesse humano, até o lugar da não piedade. Para os videntes, esse lugar é uma área de nossa luminosidade tão funcional como é a área da racionalidade. Nós podemos aprender a avaliar o mundo de um ponto de vista desapegado, da mesma que nós aprendemos, quando crianças, a avaliá-lo a partir da razão. Só que o desapego, como ponto de enfoque da atenção, está muito mais próximo da realidade energética das coisas”.

"Sem essa precaução, a convulsão emocional resultante do exercício de espreitar a nossa auto-importância pode ser tão dolorosa que o aprendiz pode ficar louco ou ser levado ao suicídio. Quando ele aprender a contemplar o mundo a partir da não compaixão, intuindo que por trás de toda a situação que implique um desgaste energético há um universo impessoal, o aprendiz deixa de ser um nó de sentimentos e se torna um ser fluido”.

"O problema da compaixão é que nos obriga a ver o mundo através da auto-indulgência.

Um guerreiro sem compaixão é uma pessoa que conseguiu se colocar no centro da frieza e ele já não se compadece no "pobrezinho de mim". É um indivíduo normal, só que, como não tem piedade por suas fraquezas nem pelas das demais pessoas, conseguiu aprender a rir de si mesmo.

"Um modo de definir a importância pessoal, é entendendo-a como a projeção de nossas fraquezas através da interação social. É como os gritos e atitudes prepotentes que adotam alguns animais pequenos para dissimular o fato de que na realidade eles não têm defesas. Somos importantes porque nós temos medo, e quanto mais medo, mais ego.

"Porém, e afortunadamente para os guerreiros, a importância pessoal tem um ponto fraco:

ela depende do reconhecimento para subsistir.

Como a pipa, ela precisa de uma corrente de ar para ascender e ficar no alto, caso contrário, cai feito pedra e se quebra. Se nós não damos importância à importância, esta se acaba.

"Sabendo isto, um aprendiz renova suas relações. Aprende a escapar daqueles que o consentem e frequenta a esses a que nada humano lhes importa. Busca a crítica, não a lisonja. De vez em quando começa uma vida nova, apaga sua história, muda nome, explora novas personalidades, anula a sufocante persistência de seu ego e leva a si mesmo a situações limite nas quais o autêntico é forçado a assumir o controle. Um caçador de poder não tem piedade, não busca o reconhecimento ante os olhos de ninguém”.

"A não compaixão chega de surpresa. A ela se intenta pouco a pouco, durante anos de pressão contínua. Mas acontece de repente, como uma vibração instantânea que quebra nosso molde e nos permite olhar para o mundo a partir de um sorriso sereno. E pela primeira vez em muitos anos, sentimo-nos livres do terrível peso de sermos nós mesmos e vemos a realidade que nos cerca. Uma vez aí já não estamos sozinhos, um incrível empurrão nos espera, uma ajuda que vem das entranhas da Águia e nos transporta por um milissegundo a universos de sobriedade e sensatez”.

"Ao não termos compaixão, podemos enfrentar com elegância o impacto de nossa extinção pessoal. A morte é a força que dá ao guerreiro valor e moderação. Só olhando através de seus olhos nos damos conta de que nós não somos importantes. Então ela vem viver ao nosso lado e começa a nos transmitir seus segredos”.

"O contato com sua transcendência deixa uma marca indelével no caráter do aprendiz.

Este entende de uma vez por todas que toda energia do Universo está conectada. 

Não há um mundo de objetos que se relacionam entre si através de leis físicas. O que existe é um panorama de emanações luminosas inextricavelmente ligadas, no qual nós podemos fazer interpretações na medida em que o poder de nossa percepção o permita. Todas as nossas ações contam, porque elas desencadeiam avalanches no infinito. Por isso nenhuma vale mais que outra, nenhuma é mais importante que outra”.

"Essa visão corta de uma vez só a tendência que nós temos de ser indulgentes com a gente mesmo. Ao ser testemunha do vínculo universal, o guerreiro cai presa de sentimentos desencontrados. 

Por um lado, júbilo indescritível e uma reverência suprema e impessoal por tudo que existe. Por outro, um sentido de fim inevitável e tristeza profunda que nada tem que a ver com a auto-compaixão, uma tristeza que vem do seio do infinito, uma rajada de solidão que nunca desaparece”.

"Esse sentimento depurado dá para o guerreiro a sobriedade, a fineza, o silêncio de que ele precisa para intentar aí onde todas as razões humanas fracassam. Em tais condições, a importância pessoal fenece por si mesma".

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sábado, 22 de março de 2025

Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda: Juan Yoliliztli


As Testemunhas do Nagual

Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda

_ Por que você usa o nome de Yoliliztli?

_ O nome que uma pessoa recebe dos seus pais nem sempre tem poder, a maioria das vezes é totalmente arbitrário. Em mim, por exemplo, puseram o nome do doutor que atendeu minha mãe. Portanto, Juan Yoliliztli tem muito mais poder e é para mim mais o meu nome, já que me foi dado por um ancião da tradição Nahua, como consequência de um evento de poder. Mas essa é uma história que contarei em outra ocasião.

_ Como foi que você conheceu Castaneda?

_ Eu havia lido todos os seus livros no Brasil, minha terra de origem. O que li me convenceu, porque era diferente de tudo quanto havia lido antes. a liberdade era uma meta real. Um dia, tomei a decisão de abandonar tudo e vir ao México em busca do conhecimento. E aqui estou. Não esperava conhecer pessoalmente Castaneda, pois o considerava um guerreiro inacessível. Mas, já no México, descobri que ele costumava dar conferências públicas, de modo que busquei uma oportunidade por todos os meios ao meu alcance.

Um dia, meu amigo Carlos Ortiz convidou-me a participar de uma conferência que o nawal ia dar no apartamento do pesquisador Jacobo Grinberg. Compareci ao encontro com Heiko, um alemão que tinha vindo ao México pelas mesmas razões que eu. Entramos no carro de Heiko e fomos para a casa de Jacobo.

Heiko teve uma idéia. Disse: “Vamos espreitar o nawal!”

Então, lá chegando, ficamos esperando na rua em frente, dentro do carro, durante longo tempo, para parecer que nossa chegada coincidia com a de Carlos. Porém, enquanto observávamos outros convidados que chegavam, passou junto a nós um carro. De repente senti a pressão de um olhar, virei a cabeça e lá estava Carlos, dentro do seu carro, olhando-me! Não sei como, mas soube de imediato que era ele. Ficou me olhando fixamente e depois estacionou o carro uns metros adiante. Corremos a nos reunir a ele.

Nesse primeiro contato aconteceu algo embaraçoso, que para mim foi um augúrio. Carlos vinha carregando uma cadeira. Eu, muito emocionado, quis cumprimentá-lo ali mesmo, na entrada do edifício, e Ortiz me sugeriu: “Ajude-o com a cadeira!”

Sinceramente, a mim não tinha ocorrido oferecer-lhe ajuda, já que, segundo o que havia entendido de minhas leituras, um bruxo não deve oferecer-se assim sem mais nem menos. Essa foi a primeira de uma longa lista de mal-entendidos que se deram entre o nawal e eu.

Depois disso, subimos pelas escadas até o segundo andar e chegamos a um aposento que já estava preparado para a conferência. Grinberg havia posto uma música de fundo ao estilo New Age. Chamou-me a atenção que Carlos, fazendo um gesto de desagrado, pediu-lhe que a tirasse. Procurei sentar-me bem junto dele, já que é uma premissa dos bruxos que, se duas energias estão suficientemente próximas uma da outra, ambas interagem e podemos aprender coisas mesmo sem palavras.

Para mim, essa primeira conferência foi algo extraordinário. Pela primeira vez o ouvi falar sobre o ponto de encaixe e vi os desenhos que Carlos fez em um quadro-negro, tentando nos explicar sobre o alongamento do ovo luminoso, uma manobra que os bruxos antigos faziam para serem imortais.

Falou da importância pessoal, e de como ela nos obriga a agir de formas alheias aos nossos interesses. Também se referiu à recapitulação.

Grinberg comentou que ele já estava recapitulando por escrito e que poderia talvez publicar suas anotações algum dia. Carlos fez uma série de comentários, dando-nos a entender que a recapitulação não tinha nada a ver com isso.

No meio da conversa, chegou uma moça loura muito simpática e sorridente que usava um penteado estilo punk. Carlos nos apresentou como Florinda Donner Grau, uma de suas companheiras, discípula de Dom Juan Matus. Por aquela época eu havia lido um livro de Florinda sobre questões antropológicas, mas ainda não sabia que ela havia conhecido pessoalmente Dom Juan. Junto com Florinda chegou outra senhora que se apresentou como Dona Soledad, bruxa curandeira, discípula da mestra Magdalena.

Terminada a reunião, ficamos conversando um pouco. Quando se apresentou a oportunidade, me aproximei de Carlos, dei-lhe a mão e, olhando-o nos olhos, disse: “Quero agradecer-lhe sinceramente por haver escrito seus livros, porque me serviram muito.”

Ele ficou me olhando fixamente, mas não disse nada.

Quando tive oportunidade pedi a Florinda que me dissesse, como vidente, qual era minha classificação luminosa dentro do esquema do nawalismo. Ela ficou nervosa, desculpou-se e disse que ver tomava muita energia, que não era assim que se faziam as coisas entre os bruxos. Perguntou-me quem eu era e o que fazia. Contei-lhe que tinha vindo do Brasil e que fazia cinco anos que esperava uma oportunidade de conhecer Castaneda. Ela pareceu saber do que eu falava, pois exclamou: “Ah! É você?”

Disse-lhe que, enquanto esperava minha oportunidade, pus em prática as técnicas de espreita aprendidas nos livros de Carlos e me estabeleci no México como empresário do setor turístico. Ela comentou: “Oh! Um homem de ação, verdade?”

Ao sair do edifício, Carlos me puxou para um canto e me perguntou meu nome. Respondi: “Sou Eddy Martinelli, às suas ordens.”

Mas ele exigiu: “Não! Seu verdadeiro nome.”

Isto me surpreendeu, pois não havia dito a ninguém como me chamava na realidade. Senti-me um pouco incomodado, mas lhe disse meu nome de nascimento. Logo quis saber de onde eu era. Disse, e ele me perguntou: “Conhece essa canção?”

E em seguida cantou em português uma toada que, desditosamente, eu não conhecia. Tive que admiti-lo: “Sinto muito, mas não a conheço.”

Segundo creio, este foi outro augúrio. Conforme eu for lhe contando, você vai ver como, pouco a pouco, meu caminho se afastava do de Carlos.

A vez seguinte que o vi foi quando me ligou Fausto Rosales, o editor dos livros do nawal no México, e me comunicou que ia celebrar uma reunião na Casa Amatlán, um centro esotérico dirigido por Carlos Ortiz e Mariví de Teresa. Não vou me estender sobre o tema da Casa Amatlán, porque seguramente outros de meus companheiros têm mais e melhores histórias a respeito.

Saí voando do escritório e corri para o encontro. Encontrei o nawal sentado em uma mesa da cafeteria no térreo, comendo um pastel e tomando seu capuccino. Saudou-me com um aperto de mãos, mas quando retribuí fez um gesto de dor, como se eu tivesse apertado muito forte.

Enquanto comia, contou histórias para os que ali estavam reunidos, que não éramos muitos. Em certo momento, Georgina Silva, uma amiga pintora que nessa época morava num quarto ali, no fundo da Casa Amatlán, disse-me que Fausto me chamava ao telefone.

Corri para atender, perguntei por que ele não vinha e me respondeu que se mantinha à parte dos demais discípulos, e me pediu que avisasse ao nawal que tinha algo para dizer-lhe.

Desci rapidamente para cumprir minha tarefa, e levei Carlos ao quarto de Georgina, onde estava o telefone. Recordo-me de ter perguntado, em proveito de Geo, o que podia nos dizer sobre o Mescalito. É que ela era conhecida como “a filha de Mescalito”, e muitos a consideravam sacerdotisa do peyote. Aparentemente, Carlos pensou que eu estava pedindo permissão para me dopar, porque, de forma cortante, respondeu que esse não era o caminho, e que Dom Juan só lhe deu plantas porque ele era muito rígido. Acrescentou que nós não necessitávamos disso.

Olhei para Georgina como que dizendo: “Ouviu?” Mas, ao observar meu gesto, Carlos pareceu interpretar que eu estava zombando dele, ou pior ainda, que pretendia apresentá-lo a Georgina como um tronado que usava drogas.

Depois de o nawal atender Fausto rapidamente, Georgina mostrou-lhe alguns de seus quadros. Ele gostou muito de suas pinturas. Em seguida, teve uma curta conversa conosco e se justificou, dizendo que tinha um encontro em outro local, e logo iam buscá-lo.

Há tempos que discutia com Ortiz sobre a interpretação da obra de Castaneda. No meu entender, tudo o que ele dizia em seus livros era literal, mas Carlos replicava: “Não, Eddy, são metáforas.”

Pareceu-me que aquele era um bom momento para perguntar isso ao nawal, já que Ortiz estava lá, e assim o fiz, em voz alta para que ele ouvisse:

“Ouça, Carlos, o que você escreve é literal ou são metáforas?”

Notei, pela expressão de seu rosto, que de novo havia interpretado mal minha pergunta. Lançou-me um olhar fulminante e replicou em tom mal humorado:

“Claro que é literal! O que eu escrevo é o que é!”

Ao ir embora, despediu-se de todos nós. Estendi-lhe minha mão e ele a sua, mas me olhou com medo, como se eu fosse esmagá-la. Por brincadeira, toquei-lhe só as pontas dos dedos, fazendo de conta que o cumprimentava. Já na saída, disse-lhe que gostaria muito de poder falar a sós com ele. Assentiu e me respondeu:

“Com você quero conversar durante longo tempo.”

Depois entrou em um automóvel e uma pessoa que me era desconhecida o levou.

A ocasião seguinte também foi na Casa Amatlán. Dessa vez nos ensinou algo dos passes mágicos. Foi quando conheci Carol Tiggs, a mulher nagual. Nosso encontro foi muito interessante, pois, ao cumprimentá-la, ela me perguntou como eu me chamava. Disse-lhe e ela virou o rosto. Pensei que o fazia para que eu lhe desse um beijo, e o dei em sua bochecha. Mas ela me explicou que seu gesto tinha sido porque não escutara direito meu nome. Envergonhado, mas com um sorriso, repeti.

Depois quis saber como era o outro mundo. É que, segundo contava Carlos, ela havia permanecido lá durante dez anos. Ao escutar minha pergunta, Carol ficou nervosa e me disse, em mau espanhol, com forte sotaque americano, que era um lugar difícil de descrever, e que a única coisa que podia dizer é que lá as consciências se deslocam através de linhas de energia.

Quando ia saindo, convidei Carlos para dar uma palestra em meu escritório de turismo. Minha surpresa foi enorme quando aceitou e disse:

“Amanhã nos vemos lá às quatro da tarde.”

Quis explicar-lhe onde era, mas ele me disse que só desse o endereço que ele chegaria.

No outro dia estávamos todos ali, esperando-o. Heiko havia ido comprar umas folhas para o rotafólio, com a esperança de que o nawal escrevesse algo que ele pudesse guardar. Enquanto aguardávamos, não sei como ele apareceu do outro lado da rua, bem em frente a nós, acenando com a mão. Olhamo-nos atônitos, perguntando-nos: “Como ele chegou ali?”

Atravessou a rua e cumprimentou cada um de nós. Logo entrou em meu escritório e pediu permissão para usar o banheiro. Eu tive que dizer-lhe onde estava o interruptor de luz, pois ele não conseguia achar. Depois foi com Alex até a cozinha para buscar algo, quando alguém perguntou o que buscava, respondeu: “Alejandro e eu estamos aqui buscando um passo para a liberdade.”

Só haviam sido convidadas umas dez pessoas, mas logo chegaram outras, entre elas Marcela Gálvez, conhecida como Malini.

Foi então que nos contou a história do bacharel, que era um famoso locutor de rádio do México e de como lhe dizia:

“Mas, Carlos, se tudo isso fosse verdade, nós já o saberíamos.”

Aconteceu que depois de sua morte ele se apresentou a Carlos em seu corpo de energia implorando-lhe que desse uma oportunidade aos seus filhos.

Também se apresentou nessa ocasião Amy Wallace, a filha do famoso escritor, amigo de Carlos.

Pouco depois apareceu Manuel Zurita. Fausto havia me advertido que não o convidasse, já que o nawal não se dava bem com ele. Quando Manuel chegou, Carlos se virou para mim e me perguntou em voz baixa: “Você o conhece?”

Eu o conhecia, mas respondi que não. Não era minha intenção mentir, e sim explicar que eu não o havia convidado, mas as coisas saíram assim.

Durante a reunião, Carlos falou mal de Grinberg. Disse que era um egomaníaco incurável, que queria comer a Carol Tiggs e lhe havia enviado uma carta de amor de doze páginas de extensão. Carol rasgou a carta, e quando ele lhe perguntou, ela respondeu que não a havia recebido. Fez isso para ser delicada com ele, mas Grinberg havia tirado cópias de sua carta, e tornou a enviar!

Enquanto Carlos nos contava essas barbaridades, entrou na sala Jacobo Grinberg. Todos ficamos em suspense, mas o nawal, levantando-se da sua cadeira, deu-lhe um caloroso abraço e o convidou a sentar-se.

Nessa ocasião, nos contou que Dom Juan e seu grupo haviam ido à cúpula dos nawais, como quase todos os da sua linhagem, (mas) o único que havia conseguido saltar à terceira atenção foi o nagual Julian. Para que entendêssemos melhor sua explicação, fez uma comparação usando a tábua de uma mesa oval de conferência que havia na sala. Disse, assinalando o ponto central da mesa:

“Dom Juan chegou até aqui, eu estive além das bordas desta mesa.”

Terminada a conferência, observei que Heiko estava triste, pois o nawal não havia anotado nada nos papéis que ele havia preparado.

Em outra ocasião em que Carlos veio nos ensinar os passes mágicos, alguém me disse que se havia hospedado no Hotel Maria Cristina. Tomei nota do endereço e fui com Alejandro na hora do café da manhã. Nós o encontramos reunido com vários companheiros e companheiras. Eu só queria entregar-lhe alguns presentes que havia trazido de minha última viagem ao Brasil, e os reparti. Ao nawal dei um chaveiro com uma cabeça de piranha. Depois saímos tão rápido quanto chegamos.

No fim de semana regressei ao hotel, sozinho e sem ser convidado, pois sentia urgência de falar com ele para tomar uma decisão. Calculei o horário no qual Carlos descia para tomar seu café da manhã, de modo que me apressei e cheguei justamente quando faltavam três minutos para as nove. Ele foi exato como um relógio; não esperei nem um minuto e o vi descendo as escadas. Ao ver-me contorceu o rosto em claro gesto de desagrado, e me dei conta de que estava sendo inoportuno. Depois de nos cumprimentarmos, pedi desculpas por incomodá-lo e disse:

“Nawal, estou desesperado. Não sinto avanço nenhum no meu caminho e quero fazer algo, porque minha vida está se indo.”

Ele comentou:

“Calma, Eddy, calminha! De fato, você está melhor que todos os outros.”

Pensei que ele estava zombando de mim, pois eu me considerava o mais idiota do grupo. Insisti em afirmar que não me sentia nada bem. Nesse instante se aproximou Carol e Carlos perguntou-lhe, apontando para mim:

“Não é verdade que Eddy está com a energia muito boa?”

Ela me observou por um instante e depois disse:

“Sim, tem as fibras muito esticadas.”

De novo pedi desculpas por irromper em seu ambiente e comecei a caminhar em direção à saída. Carlos correu atrás de mim, me alcançou e me disse:

“Recapitule, Eddy, recapitule!”

Eu disse que o faria e me despedi. Na verdade, sentia-me algo ofendido pelo gesto de desagrado com que ele me havia recebido. Tive a impressão de que ele havia se aborrecido por ter sido pego em meio a uma de suas rotinas, já que a fortaleza de um nawal consiste em não ser previsível.

Daí em diante, tive que chegar aos encontros sem ser convidado. Estava consciente de que não era bem-vindo, mas ainda assim continuei indo às práticas e conferências.

Foi por essa época que ele começou a cobrar por suas palestras. Lembro-me que, como desculpa, disse que seu contador o havia feito assinar alguns papéis que ele assinou sem prestar atenção, e logo o sujeito sumiu, roubando-lhe tudo o que tinha. Por isso estava cobrando pelos seminários. Eu, que sempre fui um buscador desconfiado, comentei com meus companheiros: “Mas ele não é um vidente? Como não viu que o enganavam?”

O tempo mais longo que passei com Carlos foi no seu primeiro seminário em Culver City High School, um lugar próximo a Los Angeles, onde passamos quinze dias escutando-o manhã, tarde e noite. Cada um que assistiu ao seminário pagou dois mil dólares, e como éramos mais de mil pessoas, para todos ficou claro que se tratava de um muito bom negócio. Creio que foi a partir dali que realmente comecei a analisar o que estava acontecendo: mais do que entrar em um caminho de conhecimento e nawalismo, me deu a impressão de que estávamos sendo explorados como qualquer crente.

No seminário tentei cumprimentar Florinda, mas ela fez um gesto de negação, ainda que tenha me dado brevemente a mão. Mais tarde, no meio dos exercícios, decidi ir ao banheiro e passei perto dela. Chamou-me e me perguntou: “Que aconteceu com você, Eddy?”

Referia-se a um terrível acidente que eu havia sofrido pouco antes, mas preferi fingir que não entendia e repliquei: “Está tudo bem, obrigado!”

Perguntou se eu estava praticando a Tensegridade e respondi que sim, todos os dias. Ela repetiu, em tom de assombro: “Todos os dias?”

Tornei a repetir: “Todos os dias!”, e sem esperar que ela continuasse falando, dei-lhe a mão em sinal de despedida e fui para o banheiro.

O que lhe disse era verdade, por aquela época eu dedicava muito tempo e esforço a praticar os exercícios. Queria corroborar com total sinceridade o que havia lido e escutado.

Em determinado momento do encontro, Carlos nos contou que a mulher nawal havia recebido de presente um chicote e o havia transformado em um objeto de poder. Depois anunciou que ela ia nos envolver a todos com seu Intento, e nos pediu que baixássemos a cabeça e fechássemos os olhos, advertindo que, depois disso, já não seríamos os mesmos. Como então eu já me sentia meio incrédulo, nem baixei a cabeça nem fechei os olhos. Pude ver como Carol passeava pelo palco, açoitando a palma da mão com o chicote. Não aconteceu nada! Escutei alguns comentários de decepção em torno de mim, mas eu mesmo não me decepcionei, porque já não esperava nada do assunto.

Entretanto, tenho que confessar que também ocorreram coisas estranhas. Por exemplo, uma das palestras foi dedicada somente às mulheres. Aproveitei o dia para visitar um amigo que vivia um pouco distante dali, numa cidade em que existem cassinos. Quando cheguei, fui jogar em um cassino. Depois peguei o avião e voltei rapidinho para a conferência do outro dia. Assim que entrei, Carlos começou a falar sobre aqueles “guerreiros” que vão a cassinos. Senti que esfriava por dentro e fiquei bem quietinho.

Ele tinha esses momentos de intuição. Recordo que, em outra ocasião, antes de ir à conferência comprei um sorvete como os que eu gosto, de baunilha por dentro e chocolate por cima. Pelo caminho, fui saboreando com total desfrute o sorvete e o terminei antes de chegar. Não sei como o nawal percebeu, mas pôs-se a dizer:

“Tem gente que vem com sua merda de sorvete grandototote... e se põe a lamber assim!”, fez uma mímica exagerada, como um cachorro lambendo um osso. “O sorvete cai em cima deles e eles continuam lambendo, lambendo... até lamberem a si mesmos!”

O sinal definitivo de nossa ruptura teve a ver com uma reunião a que eu, por questões de trabalho, não pude assistir. No entanto, os dirigentes da Cleargreen debitaram a conta no meu cartão de crédito. Fui reclamar por essa irregularidade e me devolveram a metade do dinheiro, mas com má vontade.

Algum tempo depois, Carlos deu uma série de conferências no Pawley Pavillion de Westwood, a um custo de mil e quinhentos dólares a entrada. Dessa vez sim, poderia assistir, mas, quando ia pagar o boleto, as pessoas que estavam cobrando se afastaram um instante e voltaram com a resposta: “Você não é bem-vindo aqui”. Em seguida chamaram dois seguranças e me puseram para fora.

Este incidente me doeu muitíssimo. Passei uma época muito amargurado, com a mesma sensação que se eu houvesse rompido um noivado e muitas coisas tivessem ficado mal resolvidas. Eu só pensava e falava sobre o mesmo tema, porque para mim era impossível negar as experiências pessoais que havia tido a partir da obra do nawal. Mas, ao mesmo tempo, era claro que havia algo nas atividades e no desenho dos grupos que não funcionava bem.

Foi por esse tempo que recebi um dos maiores presentes que jamais me deram. Um dia, encontrei um companheiro de práticas chamado Armando Torres, e ele notou de imediato meu estado de abatimento. Contei a ele, e me sugeriu: 

“Por que não se faz responsável você mesmo por sua busca?”

Essa pergunta foi como uma ducha de água fria para mim, pois era verdade que eu havia posto todas as minhas expectativas em Carlos, como se ele fosse me salvar, em consequência, me sentia defraudado. Armando me fez ver que o nawalismo não tem nada a ver com um grupo de fiéis reunidos, esperando com a boca aberta que lhes lancem alguma migalha de conhecimento, que eu podia seguir adiante sozinho e sem a ajuda de ninguém.

Assegurou-me que nas ações dos bruxos não há nada pessoal, porque quem toma a decisão final é o Espírito, e me aconselhou a não julgar o nawal a partir do ser humano Carlos, já que isso era injusto tanto para Carlos quanto para o nawal.

Essas palavras me foram difíceis de aceitar, mas finalmente compreendi. Desde então me tornei mais livre. Em meio ao caos, encontrei uma base surpreendentemente sólida, onde o Eu é somente uma parte de algo infinitamente maior. Minha busca deixou de ser pelo pessoal e se transformou em um intento abstrato de bruxos.

_ O que pode nos dizer sobre o ensinamento de Castaneda?

_ Veja, Carlos é um nawal da liberdade. Sua obra está além dos juízos cotidianos. Não podemos chegar até ele como quem se acerca desses mestres que tanto abundam em nossa época. Se alguém não vai ao nawalismo como guerreiro, o mais certo é que saia ofendido.

Todo ser humano em algum momento pensa: “Qual é o significado de minha existência?” O que fez Carlos foi nos dar uma resposta a essa pergunta, que é tão antiga quanto o homem mesmo. E sua resposta foi: 

“O significado de sua vida é que você seja livre.”

A grandiosidade da lição de Carlos não é que desse explicações razoáveis ou que fizesse milagres. Ele não fazia aparecer coelhos! Mas punha você em situações nas quais tinha que decidir entre a conduta ordinária ou a conduta impecável. Deu-me elementos concretos para ser livre, e a primeira coisa que fez foi cortar a fascinação que eu sentia por ele.

Em uma ocasião esteve falando do transitório de nossa situação como seres humanos, e nos disse:

A única coisa que conta para mim é poder deixar algo de valor ao meu irmão, o homem. Não me importa quanto tempo leve para vocês entendam o que é que estou fazendo, porque sei que chegará o dia em que o ser humano lançará fora seu jugo perceptual e será livre.”

A mensagem de Castaneda é que sejamos honestos conosco mesmos. Se você está buscando o conhecimento, investigue, experimente. Não espere nada, nem dele, nem de ninguém. Não engula as coisas que lhe dizem assim sem mais nem menos, busque suas próprias respostas. Se lhe dizem que um mais um são dois, vai e verifique-o, porque, de outro modo, você vai se transformar em um crente, e os crentes não têm futuro.

O nawalismo não é uma congregação de crentes, é uma aliança de experimentadores. Em uma ocasião, Carlos nos ordenou que queimássemos seus livros. Isso não significa queimá-los literalmente, como entenderam alguns, significa que devemos aprender a pensar por nós mesmos. A maior mensagem que o nawal nos deixou é: vocês são livres, pensem por si mesmos.

Nesse sentido, as obras de Castaneda são uma fonte incomparável de inspiração para mim. Há uma parte que me toca em particular, e é quando ele nos pergunta por que somos tão frouxos que ficamos esperando que outros venham fazer as coisas por nós. Que grande pergunta essa! Estamos facultados por natureza para ver que o mundo é um mistério: por que temos que esperar que outro nos venha dizê-lo?

O ensinamento de Carlos também tem uma dimensão social, já que a resposta que ele deu para o enigma de nossa existência tem a ver com o conhecimento acumulado durante milhares de anos por grupos de experimentadores da América pré-hispânica. É absurdo pensar que esse conhecimento tão antigo vai se deter só porque Carlos morreu. Não! O plano da consciência ultrapassa seus participantes.

Como nagual, ele nos traçou um caminho, agora depende de nós segui-lo. Tudo o que fez foi para ampliar a consciência, e isso não terminou, está mais ativo que nunca, apesar de algumas pessoas se sentirem ameaçadas por isso.

_ O que pode nos dizer sobre os cíclicos?

_ Esse é um ensinamento que poderíamos considerar “esotérico”. Carlos não o publicou, porque o reservava para o trato pessoal. Segundo o que entendi do assunto, os cíclicos são pessoas que nascem com o mesmo selo energético, com as mesmas configurações em sua luminosidade. Isso não significa que compartilhem a personalidade ou a alma, como supõem os crentes. Por exemplo, um nagual que tem quatro divisões em seu campo energético é cíclico do nagual anterior, do mesmo modo, uma guerreira do sul, que tem a energia um pouco opaca, é cíclica da que a precede, e assim sucessivamente.

Mas os seres humanos estamos normalmente tão misturados, que poucos de nós somos puros, não somos tonais plenos, porque não cultivamos o caminho do guerreiro. Pode-se dizer que não somos “puro sangue”, e sim híbridos. 

O trabalho de um homem comum e corrente é limpar-se de todas as misturas, de todas as contaminações, até que o pessoal diminua ao mínimo e o indivíduo comece a ser o reflexo do seu cíclico.

Os bruxos fazem isso deliberadamente, é a essência de sua preparação. Pode-se observar esse processo em Silvio Manuel, que começou com uma cor âmbar rosado comum e terminou com o âmbar mais puro de todos. A Gorda foi identificada a princípio como uma cíclica das mulheres do sul, mas, quando se purificou, mostrou ser cíclica das mulheres do norte.

À medida que o guerreiro avança em seu treinamento sua massa energética sofre mudanças. Por isso, os organizadores de um grupo têm que ser muito afinados, têm que ser videntes para determinar. É sumamente arriscado dizer a um aprendiz: “Você é uma sul, uma norte, um erudito...”, porque a energia muda com o trabalho. É por isso que Carlos não gostava de falar desses assuntos.

_ O que opina sobre os cíclicos especiais, que vêm a cada certo tempo com um nawal de três pontas?

_ Não tenho muito clara a função desses nawais. Entretanto, de acordo com a regra, para esse tipo de líderes existe um plano muito mais amplo que tem a ver, não com as particularidades de um grupo, mas com o tonal dos tempos. Esse plano inclui a raça humana em sua totalidade, mesmo que sem perceber. Todos nós somos partes da regra, ainda que não o saibamos.

Perguntei aos companheiros que estiveram mais próximos de Carlos, particularmente aqueles que o conheceram na época em que ele se relacionava com a tradição mexicana. E o que entendi foi que os antigos bruxos tinham um calendário que servia para muito mais que somente medir o tempo, era um sistema que abarcava a energia do planeta e do ser humano, e estava em harmonia com os ciclos dos tempos, o que dentro do nawalismo se conhece como a modalidade da época. Dizem que o advento de um nawal de três pontas acontece aproximadamente a cada mil anos. Os pré-hispânicos simbolizavam as mudanças cíclicas apagando seus fogos e reconstruindo suas cidades a cada 52 anos, em sinal de renovação total.

O grupo de um nawal de três pontas, como foi o caso de Carlos, é completamente atípico dentro dos cânones de uma linhagem. De fato, não é um grupo, e sim um intento desesperado de alcançar a liberdade pelos próprios meios. Os guerreiros que se agrupam em torno de um nawal deste tipo também são atípicos e, logicamente, pertencem a uma faixa especial da energia. A maioria deles manifesta características próprias dos nawais.

Nós, que o conhecemos e tratamos com ele, somos um reflexo de Carlos, não podemos evitá-lo. Portanto, nos devemos ao público e por isso estamos falando para todos. Acredito, como disse uma de minhas companheiras, que estamos imbuídos da energia do nawal de três pontas e irradiamos suas maneiras. Somos cíclicos de pessoas que viveram na antiguidade há mil anos.

O nawalismo está iniciando uma nova etapa e de alguma maneira, as coisas começam a tomar forma.

Carlos já o havia previsto: disse-nos que o novo milênio estará dedicado à consciência com uma força nunca antes vista, será uma época em que o homem buscará a si mesmo, afastando-se mais e mais do impulso do rebanho. Afirmou que era uma questão de tempo até as pessoas começarem a se fazer perguntas e a experimentar.

A abertura do conhecimento provocou um giro da energia. Conheço vários grupos bem estruturados, que estão trabalhando com seriedade para aumentar o nível de consciência de seus integrantes e preparando-se para o salto final. Embora deva advertir que a tendência geral é de que a poeira se assente, para que se possa regressar às práticas do nawalismo clássico.

_ A que se deve seu interesse em publicar as memórias de Castaneda?

_ Nós, que participamos de reuniões e conferências dadas pelo nagual Carlos, temos o compromisso, perante outros buscadores que não tiveram essa sorte, de dar a conhecer o que ouvimos. Ele nos ensinou de viva voz seu conhecimento, e nos disse que não poderíamos restringi-lo como se fosse uma propriedade pessoal, porque isso atentaria contra o objetivo da liberdade.

Isso é algo que me custou muitos anos entender, mas, uma vez que o entendi, me senti comprometido.

Meu erro com ele foi ter sonhos, expectativas, tentar interpretar seu ensinamento de acordo com a imagem que fiz dele a partir da leitura de seus livros, idealizei o que devia ser um grupo de nawais. Já me via como parte do grupo, alguém que ia participar do intento coletivo para a liberdade.

E não foi assim!

Agora, com o passar do tempo, vejo que, com efeito, havia um plano para mim, e meu plano é apoiar a divulgação do conhecimento. Por razões que contarei em outra ocasião, estou envolvido com o ramo editorial, fazendo quanto esteja ao meu alcance para manter a memória de Carlos, e aproveitando para expressar-lhe meu eterno agradecimento por me haver ensinado o caminho da liberdade.

Ofereço a todos os discípulos e não discípulos do nawal, e a todos os que tenham alguma história para contar sobre ele, a oportunidade de publicar suas memórias. Eu mesmo penso em escrever algum dia com mais detalhes tudo aquilo que testemunhei.

sexta-feira, 21 de março de 2025

Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda: Soledad Ruiz.

As Testemunhas do Nagual

Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda

Entrevista com a xamã, curandeira, mestra e atriz de cinema Soledad Ruiz. Conta-nos como conheceu Dom Juan Matus anos antes de conhecer Carlos Castaneda, de quem foi amiga íntima desde os anos 70.

A princípio se mostrou reticente, porém, quando ouviu que era um trabalho para preservar a memória de Carlos, concordou, mas fez um estranho comentário: “As histórias não importam, o que importa é o Espírito”.

Seu testemunho começa quando em certa ocasião ela foi, junto com outro discípulo, visitar sua mestra, Magdalena Ortega, que era uma bruxa espetacular, tinha grandes poderes e realizava verdadeiras façanhas, mas essa é outra história.

_ Naquele tempo eu já havia lido o primeiro livro de Carlos que acabava de sair em inglês e comentei a respeito com minha mestra e ela me contou que era comadre de Dom Juan Matus. A princípio não quis acreditar e ela, que era uma tremenda vidente, deve ter percebido, pois replicou: “Algum dia eu a apresentarei a ele.”

Em certa ocasião, fomos visitá-la eu e outro de seus alunos. Ela nos disse que Dom Juan estava para chegar com outras pessoas que, suponho, eram seus aprendizes. Enquanto os esperávamos, disse-nos:

“Vou lhes dar uma tarefa: que reconheçam dentre todos os que chegarem qual deles é Dom Juan. Depois escrevam justificando sua conclusão e voltem amanhã.”

Ordenou que não falássemos entre nós sobre nossas impressões até nos encontrarmos com ela no dia seguinte.

Os visitantes chegaram tarde e se justificaram dizendo que haviam se perdido. Do quarto ao lado escutamos como a mestra lhes dava uma amistosa repreensão. Quando entraram na sala, observamos que eram cinco ou seis pessoas de idade avançada, nos levantamos para sair e ela nos apresentou por nossos nomes: “Ela é Soledad, ele é Milosh”, mas não mencionou os nomes dos visitantes.

Assim que os vi, pensei: “Dom Juan deve ser o que está sentado na poltrona”. Nós os cumprimentamos com movimentos de cabeça e ficamos parados, enquanto eles comentavam o engraçado da situação, pois haviam caminhado longo tempo de um lado para outro sem encontrar a casa. Isso aconteceu porque a mestra vivia em Amsterdam, uma rua circular que em outros tempos tinha sido o Jockey Club da Cidade do México.

Nós os observamos durante um breve momento, depois nos despedimos e fomos embora. No dia seguinte regressamos à casa da mestra para comentar nossa dedução.

Eu descobri Dom Juan por uma só razão: o olhar. Seu olho esquerdo estava desviado, e afirma-se que essa é uma característica dos xamãs, mas é óbvio que o fato de não a ter não significa que a pessoa não seja xamã. É só uma convenção. Disse a mim mesma: que vou escrever? De modo que não levei a minha tarefa. Em compensação, Milosh preencheu três páginas completas com suas razões chegando à mesma conclusão que eu.

Ao escutar nossas deduções, a mestra me disse: “Sim, você atinou, esse era Dom Juan. Você também, Milosh.”

Depois nos perguntou como o vimos vestido. Eu lhe respondi: “Tinha um estilo camponês, com calças de gabardine, uma camisa comum e uma chamarrita.”

Nesse momento Milosh e eu nos demos conta de algo extraordinário: ele o havia visto de outro modo, com um terno elegante. Ficamos assombrados, perguntando-nos como podia ser isso.

Afirma-se que um dos poderes que pode ter um xamã é deixar-se ver como quer que o vejam.

Foi somente anos depois que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Castaneda.

Carlos se interessava muito pela tradição indígena do México. Eu o conheci por esse motivo. A primeira vez que me encontrei com ele foi em 1974, em um estúdio de dança na colônia Del Valle compartilhado por uma bailarina de dança moderna e um capitão de dança conchera tradicional chamado Andrés Segura.

Andrés tinha uma mesa de tradição chamada Santo Niño de Atocha. Um dia me convidou para uma sessão de cantos, e ficamos tocando a concha e cantando louvores, como é habitual nas cerimônias dos dançarinos. Nisso chegou Carlos Castaneda, que se integrou à atividade e ficou escutando muito atento os louvores. Depois conversamos com ele e ele fez muitas perguntas sobre aspectos da tradição, e finalmente nos convidou para comer no restaurante chinês da Zona Rosa.

Em determinado momento, contei a Carlos que havia conhecido Dom Juan um par de anos antes, graças à mestra Magdalena. Ao escutar isso, seus cabelos se eriçaram, olhou-me com um interesse extremo e me disse: “Olhe, posso lhe fazer uma visita em sua casa?”

Eu, que estava enfeitiçada por seu livro que acabava de sair em espanhol, respondi: “Encantadíssima!”

Ao observar meu entusiasmo, ele acrescentou: “Pois, se você quiser, vou esta noite mesmo!”

Eu lhe perguntei: “Você se importa se eu convidar três amigos que estão muito interessados nos assuntos da tradição?”

Ele concordou com a ideia, de modo que liguei rapidamente para meus amigos e os avisei. À esposa de um deles eu disse: “Fulana, em troca do convite, faça as tortas, porque acredito que vamos ficar até tarde e pode nos dar fome. Eu faço os refrescos.”

Assim fizemos.

Carlos chegou cerca de 9 horas da noite e foi-se às 2 da madrugada. Ficou fascinado com as tortas e comeu o quanto pôde.

Na noite seguinte voltou, não sei se para conversar ou pelas saborosíssimas tortas. Durante três dias seguidos veio cada noite e nos falou de coisas incríveis. Quando teve que regressar a Los Angeles, combinamos de nos ver de novo quando ele retornasse.

Assim começou nossa relação. Ele vinha ao México, dava suas conferências, e ao terminar, à hora que fosse, ia para minha casa. Ele era um grande conversador, suas histórias eram infinitas, de durar a noite toda. Às 2 ou 3 da manhã comíamos um pão com iogurte, mudava o tema por um instante e conversávamos sobre coisas triviais. Logo voltávamos ao assunto. Quando o dia clareava, ele olhava seu relógio e exclamava: “Oh! Já me vou!”

Às vezes me avisava de Los Angeles: “Soledad, vou ao México e busco você para nos vermos à tal hora.”

Entre nós se desenvolveu uma relação sumamente fraternal, inclusive, me fez uma dedicatória em um de seus livros – creio que “O Presente da Águia”: “À única irmã que o poder me deu.”

Contou-me seus antecedentes, disse que era brasileiro. Por alguma razão que não quis contar, seus pais não o criaram, seu avô o recolheu sendo ainda muito criança e o levou para a Argentina. Dali foi para Los Angeles.

Contou-me anedotas do avô, de como, quando tinha 12 anos, ele o incitou a conhecer mulheres, dizendo-lhe que já estava na idade, embora fosse ainda um garoto.

Um dia, ao voltar de uma aventura com uma mulher, se queixou: “Ai, vovô, aquilo das mulheres cheira muito mal!”

O avô gritou: “Idiota, esse é o odor da vida!”

Confessou que primeiro as mulheres lhe davam nojo, mas depois se tornou o mais mulherengo. Contou-me uma enorme quantidade de aventuras que havia tido com mulheres. Um dia começou até a me galantear. Eu lhe disse: “Cuidado, Carlos, que entre nós isso seria um incesto!”

É que nos tratávamos como irmãos. Na verdade eu o amava muito, com um amor fraternal.

Um dos nossos locais de encontro eram os caríssimos restaurantes aos quais me convidava. Ele gostava de comer muito bem. Pedíamos não sabe quantas coisas, e comíamos tudo! Depois, nos entretínhamos tentando adivinhar que mensagem nos diziam os objetos que estavam sobre a mesa.

Algo que tenho que destacar é que jamais, em nenhuma das tantas conversas que tivemos, ele adotou uma atitude de superioridade. Não se sentia nada excepcional, apesar de sê-lo. Nunca se fez de sábio, de audaz. Ao contrário, sempre exclamava: “Rechórcholis! Mas... em que é que eu fui me meter?”

Contava-me como, no início de seu aprendizado, fazia papel ridículo constantemente, devido à sua importância pessoal, e de como Dom Juan lhe baixava a crista. Uma das histórias que sempre repetia com prazer, morrendo de rir de sua própria estupidez, é aquela de quando se atreveu a comparar-se com Dom Juan:

“Tive a audácia de lhe dizer que éramos iguais, mas no fundo eu me sentia superior. Imagina: um chaparro (baixinho e rechonchudo) horroroso pretendendo que não era igual a Dom Juan porque tinha um título acadêmico! Como me ocorreu dizer-lhe isso? Ele me respondeu: ‘Não, não somos iguais em nada, eu sou um homem de conhecimento e você é um idiota.’ Não sabe a vergonha que senti!”

Como recurso para controlar sua importância, Carlos zombava de si mesmo, de sua estatura e aparência. Ríamos durante horas com ele, observando as maneiras cômicas como fazia sua própria caricatura.

Outra coisa que se notava nele é que sentia uma enorme responsabilidade por ser o transmissor de todo um sistema de ideias, estava preocupadíssimo com isso.

O que mais me causa impacto no ensinamento de Carlos não é sua descrição do Universo, porque cada um tem a sua, segundo suas próprias faculdades de percepção. O que eu considero de grande efeito social e religioso é o tema dos temores, de como o homem se impõe limites a partir do medo do fracasso, da morte, da solidão ou da pobreza. Estes são nossos verdadeiros inimigos, limpar a vida dos medos é um avanço extraordinário.

Carlos constantemente me falava de suas dificuldades, do enorme desafio que significava para ele aceitar plenamente o sistema de pensamento que lhe propôs Dom Juan. Uma vez me disse que os medos sociais, sobretudo o de não ser reconhecido e querido pelos outros, são algo de verdadeiramente demolidor, porque nos impedem de nos reconhecermos como infinito: “Quando você deixa de ter esses medos, pode lançar-se no abismo, se for necessário, porque já nada lhe importa.”

Por essa época, ele acabara de passar por uma experiência na qual foi empurrado por seu mestre para um abismo. Falava muito desse tema, de perder o medo e lançar-se ao infinito, notava-se que tinha ficado realmente muito abalado.

Contou-me que ele só se lembrava do momento em que o empurraram, mas não do que se passou depois. De repente, se vê em seu apartamento em Los Angeles, começa a olhar para todos os lados e pensa: “Sei que cheguei, mas... como cheguei?”

Repara que tem um papel no bolso da camisa, pega-o, e é o bilhete não utilizado do avião! Na época em que me contou essa história assegurou-me que não se lembrava de nada do que tinha acontecido com ele durante a viagem entre Oaxaca e Los Angeles.

Outra das coisas que me impressionavam nele era seu sentimento de orfandade. Em suas conversas pessoais deixava sair muito esse assunto, me contava que sofria muitíssimo por não ter mais Dom Juan vivo. Na realidade, ele nunca pôde superar sua partida, me disse isso até o final.

Sou testemunha de sua fascinação pela tradição pré-hispânica. Tínhamos vários pontos de afinidade, mas o principal é que eu era conchera. Ele sabia que eu tinha fontes sobre o conhecimento antigo diferentes das dos antropólogos. Creio que encontrava inspiração em minha atividade como dançarina, ou talvez buscasse corroboração na tradição sobre o conhecimento que lhe transmitiu Dom Juan.

Com frequência me perguntava o que era que sabiam os concheros sobre a tradição tolteca. Eu lhe dizia o que me haviam contado: que os toltecas foram os civilizadores originais, e que não foram uma raça, e sim um grupo de sábios que chegaram a certas descobertas sobre o homem, seu destino e a natureza da percepção.

Carlos me interrogava, extraía os detalhes da tradição como com lupa, não me perguntava qualquer coisa, só os detalhes finos. Uma vez me perguntou como é que os dançarinos de agora sabemos sobre os toltecas. Respondi que toda essa informação foi recebida através da tradição oral.

Certo dia chegou em minha casa e me contou uma história verdadeiramente fantástica: que ia até a Guatemala com outros companheiros, e que fariam a viagem a pé e não levariam dinheiro.

Fiquei um pouco preocupada, e perguntei-lhe se estavam devidamente equipados para a expedição. Respondeu-me que não necessitavam levar nada com eles, porque a Terra os abrigaria e lhes daria de comer.

Quando regressou da aventura, contou-me que estiveram três meses caminhando até a Guatemala e que tudo correu bem, foi muito emocionante. Efetivamente, a Terra se encarregou deles.

Não sei por que foram, mas acredito que buscassem um contato com a cultura maia, porque a relação entre as tradições do norte do México e os maias é muito profunda. Não me estranha que ele e seus companheiros tenham ido fazer uma oferenda à Terra no mundo maia.

Carlos não se relacionava com a mestra Magdalena diretamente, mas através de Dom Juan e dos velhos. Eu tive a oportunidade de estar onze anos perto dela. Contou-me que os bruxos têm suas hierarquias, que uns estão a cargo de outros, e cada xamã tem seu protetor. Geralmente, esses protetores não pertencem a esta realidade, mas sempre há um benfeitor vivo.

Ela tinha a ver com muitos xamãs que às vezes lhe pediam dinheiro para ajudar aos pobres.

Algo interessante é que tanto Dom Juan como a mestra declaravam que eles eram católicos convictos. Dom Juan era desses que vão à igreja todo domingo.

Carlos me contou que uma vez Dom Juan o levou à igreja e ele ficou esperando no átrio, porque tinha certo preconceito contra a religião. Quando se reuniram novamente, ele lhe perguntou:

“Ouça, Dom Juan, você se confessou?”

“Sim”, ele respondeu, “eu me confesso, comungo e tudo o mais.”

A mestra me explicou um dia essa relação com a igreja. Disse: “Como pessoa social, sou católica, mas como bruxa sou livre, não tenho religião.”

Disse-me que a religião tem uma grande energia, então não há porque rechaçá-la. Quando um bruxo se ajusta aos costumes de seu meio – sempre que esses costumes não sejam contrários à economia de energia – então não se desgasta lutando contra a corrente, não tem remorsos, é tão livre que até pode ir e comungar.

Também me explicou que os bruxos veem Deus como energia, não como um ser antropomórfico que nos vigia dia e noite para ver quando é que a gente vai dar uma mancada. A energia não é castigo. Isso de “Deus me castiga” é uma falsa ideia do Criador.

Na tradição do México se diz que Ometeotl se esparramou a si mesmo e gerou a dualidade, ou seja, o princípio masculino e feminino da criação, e daí veio o Homem. 



Os antigos sabiam da divindade o que sabemos hoje. Temos o conceito de Moyocoyani, “aquele que inventa a si mesmo”; quer uma melhor definição de Deus? Isso é saber como está organizado o Universo!

A mestra me levava à missa frequentemente e me dizia:

“Eu cumpro com a mais alta missão da igreja, que é fazer caridade. Não cobro por curar, portanto, ganhei o direito de comungar sem me confessar.”

Um dia em que eu estava caminhando por Mérida, vi uma igreja que tinha a porta aberta e entrei para ver o que havia. Nesse momento ia saindo um sacerdote. Estávamos sós, não havia ninguém na nave. O sacerdote se aproximou e me perguntou: “Você quer se confessar?”

Respondi: “Francamente, padre, quer que eu diga a verdade? Sou curandeira, não acredito no pecado.”

O padre ficou me olhando um pouco e disse: “Está bem, filha, não é necessário que se confesse.”

No caminho do curandeiro a pessoa deve começar curando-se a si mesma.

Deve começar com a premissa de que está doente e de que é possível curar-se, primeiro de todos os males corporais e depois dos males mentais.

Tem que começar limpando as tripas de tantas porcarias e isso se faz através do uso de sete plantas mágicas com as quais se preparam chás, lavagens intestinais e vomitivos.

Depois vem os temascales, onde se purifica o corpo através de sudoração e banhos de ervas e flores.

Junto com uma gama de exercícios físicos estão as massagens e os alongamentos, que servem para manter o corpo ágil e em boa forma.

A mestra deve ter visto que Carlos precisava de ajuda porque uma vez me disse:

Diga a Carlos que ele deveria aprender a curar. É que a cura é uma porta para o mundo oculto. E no caminho do curandeiro a pessoa deve começar curando-se a si mesma.”

Fui até Carlos e lhe transmiti seu recado. Acrescentei: “Acho que seria muito bom que você se encontrasse com ela para que ela o instrua em sua forma de curar.”

Mas notei que lhe dava medo essa possibilidade, porque tinha obsessão pelo assunto de que as pessoas chupam a nossa energia, e na cura há uma grande transferência de energia do curador para o paciente. Ele estava sempre se precavendo quanto a isso, não gostava de reuniões com muita gente e fugia das fotos, dizia que o sugavam.

Eu lhe respondia: “Sim, é verdade que nos chupam, mas nos renovamos descansando e comendo, não é preciso ter medo disso.”

Apesar da minha insistência, ele não quis ir com a mestra, acho que sentiu medo.

Um dia veio ao México e me disse: “Vou à península escandinava” – não me recordo por qual motivo. “O que querem as bruxas de presente?” Referia-se à mestra e a mim.

Respondi: “Não sei, o que você quiser.”

Ao regressar, trouxe-nos de presente uns perfumes maravilhosos, de uma qualidade verdadeiramente insólita, e umas toalhas. Eu levei à mestra Magdalena a parte que lhe cabia. Ela pegou seus presentes e me disse: “Diga a ele que eu lhe agradeço pelo perfume, mas as toalhas vou preparar para ele.”

Quem sabe o que fez com as toalhas, mas um dia as deu para mim e pediu que as entregasse a Carlos. Mas ele não quis pegá-las de volta, notei em seus olhos que tinha medo. Ainda as tenho aqui.

A velha Florinda e a mestra Magdalena não se davam bem. O motivo era que a mestra queria que Carlos se tornasse curandeiro, e Florinda se aborreceu por isso.

Em minha opinião, ela sentiu ciúme de que a outra se metesse com seu discípulo. Carlos me contava que se sentia sufocado pela forma dominante e dura com que Florinda controlava tudo.

Como fui eu que levei a mensagem da mestra, Florinda também se aborreceu comigo, não me queria para nada. Carlos me disse que ela o havia repreendido muito e me culpou de querer mudá-lo de caminho.

Uma noite sonhei com a velha Florinda e ela me tratou duramente, brigou comigo, recriminando-me por eu ser aprendiz de Magdalena.

Eu lhe respondi: “Olhe, senhora, eu não quero mudar Carlos em nenhum sentido, só dei o recado, nem sequer me atrevo a propor nada. Que culpa tenho eu? Quem tem essas ideias é a mestra Magdalena, então, qualquer assunto, fale com ela.”

No dia seguinte vou ter com a mestra e lhe pergunto: “Ouça, Florinda falou ontem com a senhora? Porque ela veio para cima de mim e eu a mandei falar com a senhora!”

Ela me tranquilizou: “Não se preocupe, essa velha não vai voltar a falar com você. Eu a pus em seu lugar!”

E assim foi, nunca mais me perturbou. Mas Carlos me ligou para dizer que Florinda havia exigido que ele não falasse mais comigo, de modo que durante um tempo teríamos que permanecer separados. Isso me doeu muito.

Anos mais tarde, Florinda, a jovem, veio ao México para dar uma palestra em um salão, lá por Las Lomas. Uma amiga minha soube e me avisou. Quando terminou, Florinda me disse: “Venha cumprimentar Carlos, que está na casa de Grinberg!”

Respondi: “Olhe, Florinda, há algo muito obscuro entre mim e ele”, e contei a história de minha desavença com a velha Florinda.

Mas ela me assegurou: “Por sorte, Soledad, esse problema já passou. Florinda se foi e acabou a bronca. Venha comigo, eu levo você até Carlos.”

Respondi: “Louvado seja Deus! Que bom!”

Assim o fizemos. Eu ia com um pouco de medo, mas quando chegamos à casa de Jacobo, Carlos me deu o abraço mais longo que já recebi em toda a minha vida. Foram uns dez minutos. Ele colocou seu rosto bem junto ao meu e disse aos presentes:

“Vejam minha irmãzinha, não é verdade que somos iguaizinhos?”

A última vez que o vi foi na palestra que deu na Casa Tibet. Cheguei um pouco tarde, ele já havia começado. Sentei-me no fundo da sala para não chamar atenção, mas escutava e via bem.

Quando terminou, o vi sair de braço dado com Carol Tiggs, caminhando com passinhos muito curtos, como um débil ancião. Ela o amparava, porque ele já não podia andar sozinho. Causou-me muito impacto seu estado, porque eu o havia conhecido como um jovem em todo o seu esplendor.

Abracei-o com muito entusiasmo, e senti que se desfazia em meus braços. Perguntei-me como era possível que em tão pouco tempo Carlos houvesse passado de sua plenitude a um nível energético tão baixo.

Como se lesse minha mente, ele respondeu:

“Sabe, tenho um problema muito sério: tenho um pé aqui e outro sabe lá onde. Soledad, fui muito longe e não pude reunir minhas partes. Por isso estou tão mal.”

Explicou-me que sua enfermidade era na realidade um problema energético, pois em um de seus ensonhos se atolou por aí e não pôde juntar de novo sua totalidade. Em tom amargurado, queixou-se:

“Imagine! Eu, que sempre fui tão independente, agora necessito que me ajudem, tem até que me dar banho!”

E acrescentou: “Se conseguir reunir minhas partes novamente, regressarei ao México e ligo para você. Senão, Soledad, nos veremos no além. Lembre-se que eu e você temos um encontro no outro mundo.”

Era verdade, alguns anos antes nós havíamos marcado um encontro em um mundo que não é humano. Selamos o pacto com um pequeno ritual que teve lugar na sala da minha casa.

Nunca mais veio ao México. Diz-se que morreu de câncer do fígado, mas creio que essa explicação foi para cumprir com as formalidades.

Minha conclusão sobre Carlos é que, mais do que contar fatos sobre sua vida privada, vale a pena ressaltar sua monumental importância para o México. Ele é o pesquisador que mais divulgou nossas tradições no mundo inteiro, seus livros foram traduzidos para todos os idiomas importantes e são estudados por suas gigantescas contribuições culturais e espirituais. O México tem uma imperecível dívida de gratidão para com ele.

Tradução: Adriana Northrup

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