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terça-feira, 28 de julho de 2026

A Lua do Guru - Guru Purnima - e a confiança no Naual

Imagem gerada por IA baseada no texto a seguir.



Guru Purnima

Na Índia, sempre se reverencia a relação de conhecimento entre o Guru (professor) e o Discípulo (aluno). Esta ocasião do Gurupurnima é celebrada no dia da Lua Cheia (Poornima) entre os meses de junho e julho. Neste ano de 2026 será no dia 29 de julho, amanhã, Lua Cheia em Aquário, que ocorre as 11h37m, horário de Brasília. Também é conhecido como Vyasa Poornima e comemorado como aniversário de Veda Vyasa, autor e personagem da sagrada epopeia do Mahabharata. 

O significado do Guru Purnima é que os buscadores espirituais, discípulos e estudantes oferecem adoração e mostram sua gratidão e respeito ao seu Guru (professor espiritual) neste dia. Budistas de todo o mundo também celebram o Guru Purnima para honrar e expressar seu compromisso e fé em seguir os ensinamentos do Senhor Buda. Acredita-se também que o Senhor Buda fez seu primeiro sermão neste dia auspicioso em Sarnath, em Uttar Pradesh. 

Em resumo, hoje é o dia de mostrarmos e expressarmos nossa gratidão àqueles com quem tivemos a bênção de aprender algo de valioso para nossas vidas, seja no campo espiritual, seja no campo secular.

Uma passagem do livro Arte do Sonhar, do naual e Dr. Carlos Castaneda:

- É apenas questão de energia, pode acreditar. A parte difícil é se convencer de que pode ser feito. Para isso você precisa de confiar no “ Nagual”. A maravilha da feitiçaria é que todo feiticeiro tem de prova tudo dentro de sua própria experiência. Estou falando sobre os princípios da feitiçaria não com a esperança de que você os memorize, mas com a esperança de que você os pratique.

Sem dúvida Dom Juan estava certo sobre a necessidade de confiar. Nos primeiros estágios dos meus treze longos anos de aprendizado com ele, a coisa mais difícil para mim foi me afiliar ao seu mundo e à sua pessoa. Para mim essa afiliação significava aprender a confiar nele implicitamente e aceitá-lo sem preconceitos como o "Nagual".

O papel de Dom Juan no mundo dos feiticeiros era sintetizado no título que lhe foi concedido pelos seus pares. Ele era chamado de o “Nagual”. Foi-me explicado que esse conceito refere-se a qualquer pessoa, homem ou mulher, que possua um tipo especifico de configuração energética, que para um vidente aparece como uma bola luminosa dupla. Os videntes acredita que quando uma dessas pessoas entra no mundo dos feiticeiros aquela carga extra de energia transforma-se numa medida da força e da capacidade de liderança. Assim, o Nagual é o guia natural, o líder de um grupo de feiticeiros.

A princípio, sentir essa confiança por Dom Juan era algo bastante perturbador para mim, quando não completamente odioso. Quando discuti isso com ele, ele me assegurou que para ele também fora igualmente difícil confiar em seu professor.     

- Eu disse ao meu professor a mesma coisa que você está me dizendo agora. Ele respondeu que sem confiar no Nagual não há possibilidade de alivio e, portanto, não há possibilidade de tirar os escombros de nossas vidas para sermos livres.

Dom Juan reiterou o quanto seu professor estivera certo. E eu reiterei meu profundo desacordo. Falei que o fato de ter sido criado num ambiente religioso opressor resultara em efeitos pavorosos em mim. Que as afirmações de seu professor e sua própria concordância me fizeram lembrar do dogma que tive de aprender quando criança, e que eu abominava. 

- Parece que você está exprimindo uma crença religiosa quando fala do Nagual - eu disse.

- Você pode acreditar no que quiser - Dom Juan respondeu impávido. - O fato é que sem o Nagual não há jogo. Sei disso, e é o que digo. O mesmo fizeram todos os Naguais que vieram antes de mim. Mas eles não o dizem do ponto de vista da auto-importância, nem eu. Dizer que não existe caminho sem o Nagual refere-se totalmente ao fato de que o homem é um Nagual porque pode refletir o abstrato, o espírito, melhor do que os outros. Mas isso é tudo. Nosso elo é com o próprio espírito, e apenas incidentalmente com o homem que nos traz sua mensagem.

Eu aprendi a confiar implicitamente em Dom Juan como o Nagual, e isso, como ele afirmara, trouxe-me uma imensa sensação de alívio, e uma capacidade maior de aceitar o que ele lutava para me ensinar.

Sobre o Silêncio e a Relação com os Santos - 03/09/1946
(Do livro Dia à Dia com Bhagavan)

O Dr. Masalavala, o Chefe Médico aposentado de Bhopal, que tem administrado temporariamente o Hospital Ashrama por mais de um mês na ausência do Dr. Shiva Rao, fez as seguintes perguntas a Bhagavan:

Bhagavan diz que a influência do jnani penetra silenciosamente o devoto. Ele também afirma que o contato (sat sanga) com grandes homens, com almas elevadas, é um meio muito eficaz de realizar nosso verdadeiro eu.

Bhagavan: Sim. Você vê alguma contradição nisso? Você encontra alguma diferença entre os termos jnani, grande homem ou alma elevada (mahatma)? O contato com todos eles é bom. Eles agem através do silêncio. Quando falam, seu poder é muito diminuído. Seu silêncio é muito mais eficaz. A fala é sempre menos poderosa que o silêncio. A melhor união (sanga) é o contato mental.

Dr.: Esse contato ainda é benéfico após a dissolução do corpo físico do jnani, ou é eficaz apenas enquanto ele está fisicamente presente diante de nós? Bhaghan: O guru não tem forma física. Portanto, o relacionamento pode ser mantido mesmo após o desaparecimento da forma física.

Dr.: O contato do devoto com seu guru continua após a morte do guru, ou termina nesse ponto? É possível que uma alma madura tenha o Si Mesmo como seu guru após a morte do guru, mas o que uma alma imatura deve fazer? Bhagavan sempre diz que um guru externo também é necessário para guiar a mente dos devotos em direção ao Si Mesmo. Deve-se entrar em contato com outro adepto? Esse contato deve ser físico ou mental? Qual é melhor?

Sobre a Forma do Guru

Bhaghan: Como já disse, o guru não tem forma física e, portanto, o contato com ele pode ser mantido mesmo após o desaparecimento de sua forma. Se um jnani existe no mundo, sua influência pode ser sentida por todas as pessoas, não apenas por seus discípulos mais próximos. As pessoas são divididas em diferentes classes: seus discípulos ou devotos, aqueles que lhe são indiferentes e até mesmo aqueles que lhe são hostis. Mas todos eles se beneficiam da presença do jnani, como afirmam os seguintes versos do Viveka Shuda Mani: “Os libertadores da consciência (Jivan muktas) beneficiam quatro classes de pessoas. Os discípulos alcançam a libertação (mukti) por meio de sua fé no jnani; aqueles que adoram o guru ganham mérito; os indiferentes, tendo testemunhado a vida sagrada do jnani, desenvolvem o desejo de viver uma vida justa; e até mesmo os pecadores são libertados de seus pecados simplesmente por estarem na presença (darshan) dos santos.”

Deus, o Guru e o Eu são um só. Quando seu amor (bhakti) por Deus amadurece adequadamente, Deus se manifesta na forma de um guru e atrai sua mente para dentro. Ao mesmo tempo, permanecendo dentro de você como o Eu, Ele a atrai de dentro. A maioria das pessoas precisa de um guru externo, embora esse não seja o caso de algumas almas raras e altamente evoluídas. Quando nosso guru morre, podemos buscar outro, mas todos os gurus são iguais porque o guru não tem uma forma fixa. O contato mental é o melhor.


segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Revelação nunca será bem-vinda entre os ditos poderosos



"A revolução nunca será televisionada".

A revelação nunca se dará pelos canais oficiais do poder institucional.

Revelação é igual à verdade. 

Por que pessoas tidas como poderosas fariam revelações que colocariam seu poder em xeque?

Quem quer a verdade seja revelada, a quem ela interessa? 

De que verdade estamos falando? - diriam alguns. Da verdade que incomoda os ditos poderosos de plantão, que ameaçam o status quo e que mantém a humanidade escrava de uma agenda que lhe é estranha, alienígena na acepção da palavra.

Mas devemos dizer que de uma certa forma as pessoas em geral temem a verdade, amam a mentira e na maioria esmagadora dos casos escolhem a ilusão, postergando ou mascarando apenas a dor inevitável. Assim sendo vamos apresentar a resposta na forma de fábula, a face encantadora da Verdade, pois até mesmo os ditos poderosos quando querem produzem através do cinema, por exemplo, obras que apresentam algo sem que isso os comprometa, até por que a capacidade para perceber do público é bastante reduzida. como na cena emblemática do pianista cego do filme De Olhos Bem Fechados.

A fábula da verdade ou a verdade fabulosa ou quem quer a verdade nua e crua(?)

Allahur Akbar! Allahur Akbar! (Deus é grande! Deus é grande!).

Quando Deus criou a mulher criou também a fantasia. Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.

Envolta em lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, o Cheique do Islã! O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:

- Senhor, - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.- Como se chama?

- Chama-se a Verdade!

- A Verdade! - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. - A Verdade quer

penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!

Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:

- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso Califa. Com esses ares impúdicos não poderás ir à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, pelos caminhos de Allah! Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harun Al-Raschid, cujas portas se lhe fecharam à diáfana formosura!

Mas...

Allahur Akbar! Allahur Akbar!

Quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação. E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid...

Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Acusação! - respondeu ela, em tom severo. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Comendador dos Crentes!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se como o grão-vizir.

- Senhor - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid.

- Como se chama?

- A Acusação!

- A Acusação? - repetiu o grão-vizir, aterrorizado. - A Acusação quer entrar nesse palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que não, que não pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor!

Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade.

- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah!

Vendo quem não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harun Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.

Mas...

Allahur Akbar! Allahur Akbar! Quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho.

E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.

Vestiu-se com riquíssimos trajos, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.

Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês de Ramadã, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Fábula - respondeu ela, em tom meigo e mavioso. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Árabes! O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:

- Senhor, - disse, inclinando-se, humilde - uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa,

solicita audiência de nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Crentes.

- Como se chama?

- Chama-se a Fábula!

- A Fábula! - exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. - A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Benvinda seja a encantadora Fábula: Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes! Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!

E abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou.

E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harun Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do grande império mulçumano!

***


sábado, 18 de julho de 2026

O naualismo como revelação.



Imagine uma vida na qual não há mistério, encantamento, revelação, descoberta, uma vida perfeitamente segura, presa das rotinas, previsível, sem nenhuma surpresa ou fator inesperado, um disco arranhado que toca sem parar a mesma canção, eis a roda do samsara e seus infindáveis giros. Um verdadeiro saco! Uma prisão, de segurança máxima, por certo, mas de morte em vida também. Isso nos indica que a vida propriamente dita para ter graça tem que ter a marca do que é misterioso, do que é miraculoso, do inesperado

A essência da vida é um processo de revelação?

Dar à luz, fiat lux, faça-se a Luz e a luz foi feita. Tais expressões sugerem que a luz é gerada, fabricada, produzida a partir dos mistério da escuridão, do véu oculto do Espírito, do Ser, dessa enigma fundamental do olho que não pode ser visto. Nos deparamos então com o primeiro cerne abstrato do naualismo:

As manifestações do espírito (extraído do Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda):

— A primeira história de feitiçaria que vou lhe contar é chamada “As manifestações do espírito” — começou Don Juan —, mas não deixe que o título o mistifique. As manifestações do espírito são apenas o primeiro cerne abstrato ao redor do qual a primeira história de feitiçaria está construída.

“Esse primeiro cerne abstrato é uma história em si mesma. A história diz que tempos atrás houve um homem, um homem comum sem quaisquer atributos especiais. Era, como todos os demais, um conduto para o espírito. E em virtude disso, como todos os demais, era parte do espírito, parte do abstrato. Mas não sabia disso. O mundo mantinha-o tão ocupado que ele realmente não tinha o tempo nem a inclinação para examinar o assunto.

“O espírito tentou, sem sucesso, revelar sua conexão. Usando uma voz interior, o espírito revelou seus segredos, mas o homem era incapaz de compreender as revelações. Naturalmente, ouvia a voz interior, mas acreditava que fossem seus próprios sentimentos que estava sentindo e seus próprios pensamentos que estava pensando.

“O espírito, para sacudi-lo de sua modorra, deu-lhe três sinais, três manifestações sucessivas. O espírito cruzou fisicamente o caminho do homem da maneira mais óbvia. Mas o homem estava alheio a qualquer coisa a não ser a preocupação consigo mesmo.

Até aqui a citação do livro O Poder do Silêncio, do naual Dr. Carlos Castaneda.

Pelo que lemos nos é mostrado que a história é um processo de revelação, uma relação entre o Espírito e o ser humano, uma relação na qual o Espírito é a parte ativa, pois tenta revelar sua conexão, e o humano a parte passiva e até mesmo reativa, pois incapaz de perceber a conexão devido a sua preocupação consigo mesmo.

Aqui também o naual Carlos Castaneda nos revela que todos indiscriminadamente, e não apenas os nauais, são condutos do Espírito, todo homem e toda a mulher possuem uma conexão direta com o Poder e, portanto, são expressões do Abstrato.

Assim a história de cada um e de todos nós é a história das revelações do Espírito, estejamos ou não conscientes desse processo histórico. 

As manifestações do espírito se dão através:

Da voz interior, ou seja, não precisamos necessariamente que alguém o faça por nós, tais revelações podem se dar em nosso próprio interior, em nosso espaço íntimo, sagrado, em nosso coração.

O espírito pode manifestar-se fisicamente, como um acontecimento ou evento concreto, material, que cruza o caminho do ser, ou seja, as manifestações do espírito podem ser subjetivas (no interior do humano) ou objetivas (no espaço físico).

Não limites para as manifestações do espírito. Nós somos parte do espírito, do naual, do abstrato, então, nós somos também ilimitados em nossas manifestações. Eis aí o que precisamos compreender. Eis aí também por que as histórias de feitiçaria, do naualismo, dos xamãs-guerreiros são importantes, pois elas são indicadoras do processo pelo qual o Espírito se revela ao ser humano.

Daí falar-se em uma Era da Revelação específica é muito estranho, tem um cheiro de falácia no ar, pois não há Era na História humana na qual o Espírito não se manifeste para revelar de fato os segredos mais profundos ao ser humano. A questão é ele estar atento a isto e não enredado em distrações ou preocupações cotidianas que o impeçam de vislumbrar e compreender o verdadeiramente o miraculoso, o milagroso e o mágico na vida.

A ignorância fundamental aqui é desconhecermos a nossa origem, que todos nós somos condutos do espírito, tenhamos ou não a configuração energética própria de um naual. Assim todo esforço de revelação torna-se um processo de auto-revelação ou auto-investigação na qual a pergunta fundamental é: quem sou eu? Que não se busque aqui uma resposta intelectual, no campo da mente, mas uma vivência direta no âmbito do ser que percebe em si mesmo o abstrato, o infinito, o naual.

Manifestação vem de mão (manus) e segurar (festus), mas o que segura a mão que manifesta? O levantamento do véu, do mistério, do segredo, um processo que é íntimo, pessoal, pois se dá no interior de cada ser que está suficientemente preparado para percebê-lo. Assim se a revelação é um processo dialético entre o Espírito e o ser humano, é preciso que nessa re(ve)lação, em algum momento o humano se dê conta de que ele mesmo é o Espírito. Então nos deparamos com o que poderíamos chamar de "advaita naual", só para brincar com o conceito da filosofia da não-dualidade:

Advaita Naual


Naual não é um espírito familiar, ancestral ou animal, mas pode usar de toda e qualquer aparência e parecer-se como tal. É simples_mente o Espírito, algo indefinível, indescritível, absoluto, abstrato. É abstrato não em oposição ao que é concreto, mas por ser aquilo que sustenta toda a manifestação, o substrato de tudo, a essência, aquilo que subsiste de forma irredutível depois de tudo ter sido extraído, aquilo que resta após a dissolução, aquilo que coagula após o solve alquímico, o pó, o vibhuti, o ser. Nenhuma palavra O descreverá, pode ser experimentado, pode ser conhecido além de todo conceito. Nenhuma visão poderá revelá-lo, poderá ser um dedo apontando para a lua ou o indicador levantado para o vasto céu, ou ainda, o dedo sobre o lábios: "summa iru", apenas seja.
 

O INTENTO - O ESPÍRITO - O ABSTRATO - O NAUAL - A ÁGUIA - O PODER - O INFINITO - O MAR ESCURO DA CONSCIÊNCIA  

Extraído do Poder do Silêncio, do Dr. Carlos Castaneda

A história diz que tempos atrás houve um homem, um homem comum sem quaisquer atributos especiais. Era, como todos os demais, um conduto para o espírito. E em virtude disso, como todos os demais, era parte do espírito, parte do abstrato. Mas não sabia disso. O mundo mantinha-o tão ocupado que ele realmente não tinha o tempo nem a inclinação para examinar o assunto.

***

A única maneira de conhecer o intento — replicou — é conhecê-lo diretamente através de uma conexão viva que existe entre o intento e todos os seres sencientes. Os feiticeiros chamam de intento o indescritível, o espírito, o abstrato, o naual. Eu preferiria chamá-lo naual, mas isto se sobrepõe com o nome para o líder, o benfeitor, que também é chamado naual, portanto optei por chamá-lo espírito, intento, o abstrato.

***

Ele estava dizendo que a primeira história de feitiçaria concernente às manifestações do espírito era um relato do relacionamento entre o intento e o naual.

***

O espírito manifesta-se a um feiticeiro, em especial a um naual, a todo momento. Entretanto, esta não é a verdade completa. A verdade completa é que o espírito se revela a todos com a mesma intensidade e consistência, mas apenas os feiticeiros, e os nauais em particular, estão sintonizados a tais revelações.

***

Reconheceu o vôo do falcão assim como a aparência do homem como manifestações óbvias do espírito que não podia desdenhar. 

***

— Já lhe expliquei que não há maneira de falar sobre o espírito — continuou — porque espírito pode apenas ser experimentado. Os feiticeiros tentam explicar essa condição quando afirmam que o espírito não é nada que você possa ver ou sentir. Mas está pairando sobre nós o tempo todo. Às vezes vem para algum de nós. Durante a maior parte do tempo parece indiferente.

Fiquei quieto. E Don Juan continuou a explicar. Disse que de muitas maneiras o espírito era uma espécie de animal selvagem. Mantinha distância de nós até o momento em que algo atraía-o. Era então que o espírito se manifestava.

***

— O seu problema — disse ele — é que você considera apenas a sua própria ideia do que é abstrato. Por exemplo, a essência interior do homem, ou o princípio fundamental, são abstratos para você. Ou talvez algo um pouco menos vago, tal como caráter, volição, coragem, dignidade, honra. O espírito, naturalmente, pode ser descrito em termos de todas essas coisas. E é isso que é tão confuso, é que é todas essas coisas e nenhuma delas.

Acrescentou que o que eu considerava abstrações eram ou os opostos de todas as praticidades sobre os quais eu podia pensar ou coisas que eu decidira não ter existência concreta.

— E no entanto, para um feiticeiro um abstrato é algo sem paralelo na condição humana.

— Mas são a mesma coisa — gritei. — Não vê que estamos ambos falando sobre a mesma coisa?

— Não estamos — insistiu. — Para um feiticeiro, o espírito é um abstrato simplesmente porque ele o conhece sem palavras ou mesmo pensamentos. E um abstrato porque não pode conceber o que seja o espírito. E no entanto, sem a menor chance ou desejo de compreendê-lo, um feiticeiro manipula o espírito. Reconhece-o, acena-lhe, convida-o, familiariza-se com ele, e expressa-o através de seus atos.

Sacudi a cabeça em desespero. Não podia ver a diferença.

— A raiz de sua concepção errônea é que usei o termo “abstrato” para descrever o espírito — explicou. — Para você, abstratos são palavras que descrevem status da intuição. Um exemplo é a palavra “espírito”,  que não descreve a razão ou a experiência pragmática, e a qual, naturalmente, não tem utilidade para você senão a de estimular  sua imaginação.

Eu estava furioso com Don Juan. Chamei-o de obstinado, e riu de mim. Sugeri que se eu pensasse sobre a proposição de que o conhecimento podia ser independente da linguagem, sem preocupar-me em compreendê-la, talvez pudesse ver a luz.

— Considerei isto — afirmou. — Não foi o ato de encontrar-me que importou para você. No dia em que o encontrei, você descobriu o abstrato. Mas uma vez que não podia falar a respeito, você não o percebeu. Os feiticeiros encontram o abstrato sem pensar a respeito, sem vê-lo, tocá-lo ou sentir sua presença.

***

Então lembrou-me de que eu já havia ouvido o seu relato detalhado sobre a primeira vez em que o espírito havia batido à sua porta. Por um momento não pude deduzir sobre o que estava falando.

— Não foi simplesmente o meu benfeitor quem tropeçou em mim quando eu estava morrendo do tiro — explicou. — O espírito também me encontrou e bateu à minha porta naquele dia. Meu benfeitor compreendeu que estava ali para ser um conduto para o espírito. Sem a intervenção do espírito, encontrar meu benfeitor não teria significado coisa alguma.

Explicou que um naual pode ser um conduto apenas depois que o espírito tenha manifestado sua intenção de ser usado — seja quase imperceptivelmente ou através de comandos diretos. Dessa maneira, não era possível para um naual escolher seus aprendizes de acordo com sua própria volição ou seus próprios cálculos. Mas, uma vez que a disposição do espírito era revelada através de presságios, o naual não poupava esforços para satisfazê-lo.

***

— Um aprendiz é alguém que está lutando para limpar e reviver seu elo de conexão com o espírito — explicou. — Uma vez que o elo é revivido, ele não é mais um aprendiz, mas até esse momento, para manter-se em movimento, necessita de um propósito ferrenho, o qual, naturalmente, não possui. Assim, permite ao naual que proporcione o propósito de que faça o que é necessário para renunciar à sua individualidade. Esta é a parte difícil.

***

Sentamo-nos ali e Don Juan retornou nossa conversação às histórias de feitiçaria. Avisou que agora eu sabia a história do intento manifestando-se ao naual Elias e a história do espírito assaltando a porta do naual Julian. E eu sabia como ele havia encontrado o espírito, e decerto não podia esquecer como eu o havia encontrado. Todas essas histórias, declarou, apresentavam a mesma estrutura; apenas os caracteres diferiam. Cada história era uma tragicomédia abstrata com um participante abstrato, o intento e dois atores humanos, o naual e seu aprendiz. O texto era o cerne abstrato.

***

— Os feiticeiros dizem que o quarto cerne abstrato ocorre quando o espírito corta nossas cadeias de auto-reflexão. Cortar nossas cadeias é maravilhoso, mas também muito indesejável, pois ninguém deseja ser livre.

***

— Uma vez que nossas correntes são cortadas — continuou Don Juan —, não estamos mais presos pelas preocupações do mundo cotidiano. Permanecemos no mundo cotidiano, mas não pertencemos mais a ele. Para isso ocorrer, devemos partilhar das preocupações das pessoas, e sem correntes não conseguimos.

Don Juan contou que o naual Elias explicara-lhe que o que distingue pessoas normais é que partilhamos de um punhal metafórico. As preocupações de nossa auto-reflexão. Com esse punhal, cortamo-nos e sangramos; e o trabalho de nossas cadeias de auto-reflexão é proporcionar-nos a sensação de que estamos sangrando juntos, que estamos partilhando de algo maravilhoso: nossa humanidade. Mas se fôssemos examiná-lo, iríamos descobrir que sangramos sozinhos; que não estamos partilhando nada; que tudo o que estamos fazendo é brincar com nossa reflexão, manipulável e irreal, feita pelo homem.

***

Numa voz calma, Don Juan disse-me que pela primeira vez em minha vida eu havia visto o espírito, a força que sustenta o universo. Enfatizou que intento não é algo que alguém possa usar ou comandar ou mover de algum modo — não obstante, podia-se usá-lo, comandá-lo ou movê-lo como se desejasse. Essa contradição, explicou, é a essência da feitiçaria. A falha de compreendê-lo havia levado gerações de feiticeiros à dor e à pena inimagináveis. Os nauais dos dias modernos, num esforço para evitar pagar esse preço em dor, haviam desenvolvido um código de comportamento chamado o caminho do guerreiro, ou a ação impecável, o qual preparava os feiticeiros realçando sua sobriedade e prudência.

 ***

Examinada dessa maneira, a feitiçaria torna-se uma tentativa de restabelecer nosso conhecimento do intento e recuperar seu uso sem sucumbir a ele. E os cernes abstratos das histórias de feitiçarias são sombras de realização, graus de nossa consciência do intento.
 

***

Disse que, misterioso como era o movimento para a consciência intensificada, tudo o que alguém necessitava para realizá-lo era a presença do espírito.
 

***

...saiba é que realmente não há procedimento envolvido em fazer o ponto de aglutinação mover-se. O espírito toca o aprendiz, e seu ponto de aglutinação se move. É simples como isso.

***

Os feiticeiros acreditam que, quando o homem tornou-se consciente de que sabia, e quis ficar consciente do que sabia, perdeu a visão deste saber. Esse conhecimento silencioso, que você não consegue descrever, é, naturalmente, o intento — o espírito, o abstrato. O erro do homem foi querer conhecê-lo diretamente, da maneira como conhecia a vida cotidiana. Quanto mais o desejava, tanto mais efêmero este se tornava.

— Mas o que significa isso em palavras simples, Don Juan?

— Significa que o homem renunciou ao conhecimento silencioso pelo mundo da razão. Quanto mais se agarra ao mundo da razão, tanto mais efêmero se torna o intento.

***

Transforme tudo naquilo que realmente é; o abstrato, o espírito, o naual. Não há bruxaria, nem mal, nem diabo. Existe apenas percepção.

*** 

— Não é sobre isto que estou falando — disse ele, rindo. — A ideia do abstrato, do espírito, é o único fator importante. A ideia do eu pessoal não tem valor algum. Você continua a colocar a si mesmo e seus próprios sentimentos na frente. Toda vez que tive oportunidade, agi consciente da necessidade de abstrair. Você sempre acreditou que eu pensava de modo abstrato. Não. Abstrair significa fazer você mesmo disponível ao espírito, estando consciente dele.

domingo, 20 de julho de 2025

Citações do livro "Encontros com o Nagual", de Armando Torres



Conversações com Carlos Castaneda


"A intensidade é a única coisa que pode nos salvar do aborrecimento"




1 - A Revolução dos Bruxos

Um dos presentes quis saber qual era a posição dos bruxos diante da guerra. Seu rosto refletiu aborrecimento.

"O que você quer que eu diga? - perguntou - Que são pacifistas? Pois não são! A eles não interessa nosso destino como homens comuns e normais! Entendam de uma vez por todas! Um guerreiro é feito para o combate, seu descanso é a guerra".

***

...a guerra do bruxo não está dirigida contra os outros, mas contra suas próprias fraquezas.

***

O guerreiro sabe que vive em um universo predatório. Não pode baixar a guarda. Por onde quer que olhe, ele vê uma luta incessante, e sabe que é merecedora de respeito, porque é uma luta mortal.

***

Seu adversário não é seu semelhante, mas seus próprios apegos e fraquezas.

***

Afirmava que a situação da humanidade em geral é horrenda, e que enfatizar certos grupos é uma forma disfarçada de racismo.

***

Quando eu lhe expunha minha preocupação pelas pessoas, ele indicava minha incipiente papada e me dizia: 'não se engane, Carlitos, pois se você se interessasse de verdade pela condição humana, não trataria a si mesmo como a um porco'.

***

"Quando sentir que a mente coletiva o pressiona, tentando convencê-lo de que se concentre nas aparências do mundo, repita para seu interior esta tremenda verdade: 'eu vou morrer, não sou importante, ninguém o é!' Saber isso é a única coisa que importa".

***

A tragédia do homem atual não é sua condição social, senão a falta de vontade de mudar a si mesmo. 

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Ele me ensinou que a ordem do mundo não tem que ser como nos dizem, que eu posso deixá-lo de lado quando eu quiser. Eu não estou obrigado a manter uma imagem para os outros, a viver um inventário que não me convém. Meu campo de batalha é o caminho do guerreiro!

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2 - A Importância Pessoal

Acrescentou que a informação de que precisamos para ampliarmos a consciência se esconde nos lugares mais improváveis; e que se não fôssemos tão rígidos como normalmente somos, tudo à nossa volta nos contaria segredos incríveis.

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"O caminho para converter um ser humano normal num guerreiro é muito árduo. Sempre intervém nossa sensação de estar no centro de tudo, de sermos necessários e termos a última palavra. Nós nos sentimos importantes. E quando a pessoa é importante, qualquer intento de mudança se converte em um processo lento, complicado e doloroso”.

"Esse sentimento nos segrega. Se não fosse por ele, todos nós fluiríamos no mar da consciência e saberíamos que nosso eu pessoal não existe para si mesmo: seu destino é alimentar a Águia”.

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...nós não estamos obrigados a viver em uma única realidade, porque o universo está construído com princípios muito maleáveis que podem se acomodar em formas quase infinitas, produzindo incontáveis gamas de percepção.

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"Nossa herança é uma casa estável onde viver, mas nós a transformamos em uma fortaleza para a defesa do eu, melhor dizendo, em um cárcere onde condenamos nossa energia a consumir-se em prisão perpétua. Nossos melhores anos, sentimentos e forças se vão no conserto e na sustentação daquela casa porque nós acabamos nos identificando com ela”.

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"Por causa de nossa importância, nós estamos cheios até as bordas de rancores, invejas e frustrações. Nós nos deixamos guiar pelos sentimentos de indulgência e fugimos da tarefa de nos conhecer a nós mesmos com pretextos como: 'me dá preguiça' ou 'que cansaço!'. Por trás de tudo isso há uma ansiedade que tentamos silenciar com um diálogo interno cada vez mais denso e menos natural".

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Carlos continuou explicando que a auto-importância se alimenta da mesma classe de energia que nos permite "ensonhar". Portanto, perdê-la é a condição básica do nagualismo, porque libera para nosso uso um excedente de energia; porque sem essa precaução, o caminho do guerreiro poderia nos converter em umas aberrações.

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"Assim, antes de mais nada, deem-se conta disso. Peguem uma cartolina e escrevam nela: 'A importância pessoal mata', e pendurem-na no lugar mais visível da casa. Leia essa frase diariamente, tente se lembrar dela no seu trabalho, medite sobre ela. Talvez chegue o momento em que seu significado penetre em seu interior e você decida fazer algo. O dar-se conta é por si mesmo uma grande ajuda porque a luta contra o eu gera seu próprio impulso.

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"Percebam que a importância pessoal é um veneno implacável. Nós não temos tempo e o antídoto é a urgência. É agora ou nunca!”.

"Uma vez que vocês tenham dissecado seus sentimentos, devem aprender como canalizar seus esforços mais além da faixa do interesse humano, até o lugar da não piedade. Para os videntes, esse lugar é uma área de nossa luminosidade tão funcional como é a área da racionalidade. Nós podemos aprender a avaliar o mundo de um ponto de vista desapegado, da mesma que nós aprendemos, quando crianças, a avaliá-lo a partir da razão. Só que o desapego, como ponto de enfoque da atenção, está muito mais próximo da realidade energética das coisas”.

"Sem essa precaução, a convulsão emocional resultante do exercício de espreitar a nossa autoimportância pode ser tão dolorosa que o aprendiz pode ficar louco ou ser levado ao suicídio. Quando ele aprender a contemplar o mundo a partir da não compaixão, intuindo que por trás de toda a situação que implique um desgaste energético há um universo impessoal, o aprendiz deixa de ser um nó de sentimentos e se torna um ser fluido”.

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"Um modo de definir a importância pessoal, é entendendo-a como a projeção de nossas fraquezas através da interação social. É como os gritos e atitudes prepotentes que adotam alguns animais pequenos para dissimular o fato de que na realidade eles não têm defesas. Somos importantes porque nós temos medo, e quanto mais medo, mais ego.

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"Ao não termos compaixão, podemos enfrentar com elegância o impacto de nossa extinção pessoal. A morte é a força que dá ao guerreiro valor e moderação. Só olhando através de seus olhos nos damos conta de que nós não somos importantes. Então ela vem viver ao nosso lado e começa a nos transmitir seus segredos”.

3 - O Caminho do Guerreiro

"...a ousadia do guerreiro nasce do contato com sua morte iminente".

"Narrou a história de uma moça que chegou um dia no escritório de seu editor, pôs uma esteira no chão, sentou-se sobre ela e disse: "Daqui eu não saio até falar com Carlos Castaneda!" Todas as tentativas com o fim de desencorajá-la desse propósito foram inúteis, pois ela permaneceu inflexível. Então o editor chamou a Carlos pelo telefone e o avisou que uma louca exigia sua presença".

"O que eu podia fazer? Fui para lá e me coloquei diante dela. Quando eu lhe perguntei a razão de seu estranho comportamento, ela me falou que, estando mortalmente doente, tinha ido ao deserto para morrer. Mas, enquanto meditava em solidão, entendeu que ainda não tinha esgotado tudo e decidiu jogar sua última carta. Que, para ela, significava conhecer pessoalmente o nagual”.

"Impressionado por sua história eu lhe fiz uma proposta sem igual: 'Deixe tudo e venha para o mundo dos bruxos. E ela respondeu imediatamente: 'Jogo!' Quando eu escutei sua resposta me eriçaram os pelos, porque isso mesmo era o que me falava don Juan: 'Se vamos jogar, ora, joguemos! Mas joguemos a morte”.

"Assim é o sentimento do bruxo diante do seu destino: 'Aposto minha vida neste intento, nada menos. Eu sei que o meu fim me espera em qualquer parte e não há nada que eu possa fazer para evitá-lo. Portanto, estando definido o meu caminho, aceito a responsabilidade de viver plenamente e arriscar tudo numa única jogada”.

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"...para quem já morreu, cada segundo de vida é um presente".

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"O aspecto da impecabilidade que mais concerne à nossa vida diária, é saber até onde o exercício de nossa liberdade afeta a outros e evitar os esbarrões a todo custo. Ocasionalmente, nossas relações com os demais geram fricções e expectativas. Um bruxo em pé de guerra se previne contra tais esbarrões e se converte em um caçador de sinais. Se não há sinais, ele não interage com as pessoas; limita-se a esperar, porque, assim como não tem tempo, tem toda a paciência do mundo. Sabe que há muito em jogo e não está disposto a arruinar tudo por um passo em falso”.

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"Como não se desespera por relacionar-se com ninguém, o guerreiro pode escolher seus afetos com sobriedade e desprendimento, tomando cuidado a todo momento para que as pessoas com as quais consente em ter relações sejam compatíveis com sua energia. O segredo para ter tal claridade de visão consiste em se identificar e não se identificar. O bruxo se identifica com o abstrato, não com o mundo. Isso lhe permite ser independente e cuidar-se sozinho".

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"Percebam que, diante do destino, cada um de nós está sozinho. Assim, que tomem o comando da sua própria vida. Um guerreiro lapida os detalhes, desenvolve sua imaginação e põe à prova seu engenho para resolver as situações. É inconcebível que se sinta inválido, porque tem autodomínio e não necessita nada de ninguém. Ao se concentrar nos detalhes, aprende a cultivar a fineza, a sutileza e a elegância".

"Don Vicente Medrano dizia que a beleza desta guerra reside nos pontos que não se veem. Essa é a marca registrada do bruxo,

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4 - A Consciência da Morte

"A premissa dos bruxos para tratar com este tipo de prática é o silêncio mental. E a qualidade de silêncio requerido para algo tão descomunal quanto parar o mundo, só pode vir de um contato direto com a grande verdade de nossa existência: que todos nós vamos morrer".

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"Se vocês querem conhecer a si mesmos, sejam conscientes de sua morte pessoal. Ela não é negociável e é a única coisa que vocês realmente têm. Todo o resto poderá falhar, mas a morte não, a ela podem dar por certo. Aprendam a usá-la para produzir efeitos verdadeiros em suas vidas".

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"Uma vez alinhados com a morte, estarão em condições de dar o seguinte passo: reduzir ao mínimo a bagagem. Este é um mundo prisão e é necessário sair como fugitivos, sem levar nada”.

“Os seres humanos são viajantes por natureza. Voar e conhecer outros horizontes é nosso destino. Por acaso você sai de viagem com sua cama ou com a mesa em que come? Sintetiza sua vida!".

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"O poder que nos rege nos deu escolhas. Ou nós passamos a vida dando voltas ao redor de nossos hábitos, ou nos animamos a conhecer outros mundos. Só a consciência da morte pode nos dar a sacudidela necessária”.

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"A pessoa comum passa a existência inteira sem parar para meditar, porque ela pensa que a morte está ao término da vida; afinal de contas, nós sempre teremos tempo para ela! Mas um guerreiro sabe que isso não é certo. A morte vive a seu lado, a um braço de distância, permanentemente alerta, olhando-nos disposta a saltar à menor provocação. O guerreiro transforma seu medo animal à extinção em uma oportunidade de prazer, porque ele sabe que tudo aquilo que ele tem é este momento. Pensem como guerreiros, todos vamos morrer!"

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"Ao contrário do homem comum, os bruxos estão ávidos de qualquer situação que os leve além da interpretação social. Que melhor oportunidade que a própria extinção? Graças às suas frequentes incursões pelo desconhecido, eles sabem que a morte não é natural, é mágica. As coisas naturais estão sujeitas a leis, a morte não. Morrer é sempre um evento pessoal, e por essa única causa, é um ato de poder”.

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"A morte não é brincadeira não, é de verdade! Se não fosse por ela não haveria força alguma no que os bruxos fazem. Ela o envolve pessoalmente, queira ou não. Você pode ser tão cínico a ponto de descartar outros tópicos dos ensinamentos, mas você não pode debochar de seu fim, porque está além de sua decisão e é implacável”

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"Quando um guerreiro põe em xeque suas rotinas, quando já não lhe importa estar acompanhado ou estar só, porque tem escutado o sussurro silencioso do espírito, então a pessoa pode dizer que, verdadeiramente, está morto. A partir dali, as coisas mais simples da vida se tornam para ele extraordinárias”.

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"Se vocês querem dar espaço ao desconhecido, deem entrada à sua extinção pessoal. Aceitem seu destino como o fato inevitável que é. Purifiquem esse sentimento, fazendo-se responsáveis pelo incrível evento de estarem vivos. Não implorem à morte; ela não é condescendente com os que hesitam. Invoquem-na conscientes de que vieram à este mundo para conhecê-la. Desafiem-na, ainda sabendo que, façamos o que façamos, não temos a menor possibilidade de vencê-la. Ela é tão gentil com o guerreiro como é impiedosa com o homem comum".

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"É inventariar seus entes queridos e todo mundo que lhes interesse. Uma vez que os classifiquem, de acordo com o grau de sentimentos que vocês têm por eles, vão pegar um por um e passá-los pela morte".

Eu pude notar um murmúrio de consternação que sacudiu seus ouvintes.

Fazendo um gesto tranquilizador, Carlos acrescentou:

“Não se assustem! A morte não tem nada de macabro. O macabro é que não possamos enfrentá-la com deliberação”.

"Vocês devem levar a cabo o exercício à meia noite, quando a fixação de nosso ponto de aglutinação se move e estamos dispostos a acreditar em fantasmas. É muito fácil, vocês evocarão os seus entes queridos através de seu fim inevitável. Não pensem em como ou quando eles morrerão. Simplesmente, tomem consciência de que algum dia eles já não estarão aqui. Um por um eles partirão, só Deus sabe em que ordem, e não importará o que você possa fazer para evitá-lo”.

"Ao evocá-los assim, vocês não os prejudicarão, pelo contrário!, estarão os colocando na perspectiva apropriada. O ponto de enfoque da morte é prodigioso, restabelece os verdadeiros valores da vida".

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5 - A Drenagem de Energia

“Os bruxos sustentam que falar de nós mesmos nos faz acessíveis e fracos, enquanto que aprender a estar quieto nos enche de poder. Um princípio do caminho do conhecimento é fazer da própria vida algo tão imprevisto que nem mesmo o próprio sujeito sabe o que vai acontecer”.

“O único modo de sair do inventário coletivo é nos distanciando daqueles que nos conhecem bem. Passado um tempo, as muralhas mentais que nos aprisionam se abrandam um pouco e começam a ceder. É então que se apresentam oportunidades genuínas de mudança e nós podemos tomar o controle de nossas vidas”.


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"Continuou dizendo que a energia se distribui pelo universo na forma de camadas. Todos os seres conscientes pertencem a uma delas e nós podemos sintonizar a energia de outras faixas graças a um fenômeno conhecido como "o alinhamento da percepção".

"Em alguns pontos as camadas se cruzam, gerando vórtices de energia, onde se dão lugar fenômenos da maior importância para os bruxos que Veem. Lá as condições para o alinhamento são ótimas e isto ocorre de um modo espontâneo. Os videntes falam de passagens, pontes e barreiras no espaço onde as coordenadas do tempo se anulam e a consciência do viajante penetra em mundos estranhos. Seres inorgânicos provenientes de todos os cantos do universo aproveitam esses pontos para cruzarem a fronteira para a Terra. E nós também podemos fazer a mesma coisa".


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“Quando duas pessoas entram em relação, o que acontece é um intercâmbio de emanações. Nossas fibras de luz interagem, ainda que nós não queiramos, ou ainda sem que sequer percebamos. É uma lei que a energia flua de onde há mais para onde há menos. Como nós passamos a vida em uma constante interação, o normal é que, ao fim, a pessoa seja muito pouco de si mesmo e muito do que os outros deixaram em nós”.

“Porém, os guerreiros aprendem a violar a lei da troca energética por meio de exercícios como a recapitulação, cujo fim é recuperar a energia. Dessa maneira eles ficam autossuficientes, eles recuperam seu capital e devolvem escrupulosamente tudo o que ‘emprestaram’. Como já não há desgaste, pode ser dito que seus ovos luminosos são térmicos”.


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“O tema dos intercâmbios é da mais séria implicação em nossas vidas e deu lugar ao dito ‘diga-me com quem andas e eu te direi quem és’. Esse ditado que não só descreve um estado de afinidade psicológica entre duas pessoas, mas um efeito energético mensurável que um bruxo pode perceber. Se você quiser ser você mesmo, aprenda a andar sozinho”.

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"O propósito do sexo vai mais além, pois nos conecta com o mistério da origem de todas as coisas, porque o universo surgiu de uma única explosão que dura até hoje e se expressa toda vez que fazemos amor. Se a fonte do que nós somos é o poder germinal, então o centro de nosso trabalho interior é a recanalização da energia sexual".

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Explicou que, geralmente, os novos videntes optam por uma posição de celibato e autossuficiência, porque eles são muito avaros com a energia deles e preferem dedicá-la ao aumento de sua consciência. Os mundos de que são testemunhas em suas viagens pelo infinito fazem com que todas as outras coisas, até mesmo o ato sexual, pareçam pálidas e carentes de atrativos.

"Don Juan dizia que fazer amor é para aqueles que não têm apegos".

Respondendo a outra pergunta, ele disse que não há um "problema sexual" em si, mas indivíduos com seus próprios e muito particulares dilemas para resolver.


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Atendendo a outra pergunta, sustentou que o melhor modo de cortar a drenagem de energia que acontece pela sexualidade é aprendendo a ter expressões magnânimas, que contradigam e recanalizem a fixação de nossa atenção.

“Nós recebemos a vida como um presente cósmico e é nosso privilégio refletir aquele gesto com desprendimento total. Graças a seu desapego, o guerreiro está em posição de fazer do amor dele um cheque em branco, incondicional, um afeto abstrato, porque não parte do desejo. Que maravilha!”.

“Contra tudo que o homem médio possa pensar, a natureza dos bruxos é teluricamente passional. Só que seu objetivo já não é carnal. Eles viram a cola que une todas as coisas, uma onda de paixão que inunda o universo e que não pode ser detida, porque, se fosse, tudo seria reduzido a nada”.


“Através de seu ver, eles estabeleceram sua base na pedra angular da consciência: o mais poderoso estado da atenção individual. O amor deles é uma realidade demolidora que vibra em cada respiração, intenta em cada gesto e adquire sentido em cada palavra; uma força que os impelem a explorar, a correr riscos e a evoluir, dando o melhor de si a cada momento”.

"Os bruxos descobriram a forma mais refinada de amor, porque eles amam a si mesmos. Eles sabem que tudo aquilo que nós damos para fora é um reflexo do que nós temos dentro. Eles puseram o poder da paixão ao serviço do ser, e isto lhes dá o impulso necessário para empreender a única busca que conta: a de si mesmo".


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6 - A Recapitulação

“Afortunadamente, no âmbito da energia não existem coisas como o tempo e o espaço. Dessa forma, é possível voltar ao lugar e ao momento mesmo onde aconteceram os eventos a serem revividos. Não é muito difícil, já que todos sabemos muito bem onde nos dói”.

“Recapitular é espreitar nossas rotinas, submetendo-a a um escrutínio sistemático e impiedoso. É a atividade que nos permite visualizar nossa vida como totalidade e não como uma sucessão eventual de momentos. Porém, e ainda que isto possa parecer estranho, só os bruxos recapitulam como norma; o resto das pessoas apenas o faz por casualidade”.


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"A recapitulação é a herança dos antigos videntes, a prática básica, a essência da bruxaria. Sem ela não há nenhum caminho".

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 "Uma forma muito rentável do exercício, acessível a todos nós, é a recapitulação fortuita. Se vocês perceberem, nós estamos constantemente recapitulando. Todas as recordações que conformam nosso diálogo interno podem ser classificadas como tal. Porém, nós os evocamos de forma involuntária. Em vez de os observar em silêncio, nós os julgamos, interagimos visceralmente com eles. Isso é lamentável. Um guerreiro tira proveito da oportunidade, porque essas recordações, aparentemente ao acaso, são avisos de nosso lado silencioso".

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“A recapitulação parte de dentro e se sustenta sozinha. É uma questão de silenciar a mente e então nosso corpo energético toma o controle, fazendo o que para ele é uma delícia fazer. Você se sente bem, confortado; longe de dar trabalho, o deixa descansado. Seu corpo percebe isso como uma ducha inefável de energia”.

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“No princípio, recapitular pode nos dar algum trabalho, porque nossa mente não está acostumada à disciplina. Mas, depois de fechar as feridas mais dolorosas, a energia se reconhece a si mesma e nós vamos ficando viciados no exercício. Dessa maneira, cada partícula de luz que recuperamos nos ajuda a ganhar mais”.

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“De imediato, corta nosso diálogo interno. Quando um guerreiro consegue parar seu diálogo está estreitando relações com sua energia. Isso o libera da obrigação da memória e da carga dos sentimentos, e deixa um resíduo energético que pode ser investido no aumento das fronteiras da percepção. O guerreiro começa a apreciar a coisa genuína, não a interpretação. Pela primeira vez, faz contato com o consenso dos bruxos que é a descrição de uma realidade inconcebivelmente integrada”.

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7 - O Umbral do Silêncio

Enfatizando as palavras, especificou que a bruxaria é a arte do silêncio.

“O silêncio é uma passagem entre os mundos. Ao calar nossa mente, emergem aspectos incríveis de nosso ser. A partir desse momento, a pessoa se torna um veículo do intento e todos os seus atos começam a emanar poder”.

"Durante minha aprendizagem, meu benfeitor me mostrou prodígios inexplicáveis que me espantavam, mas, ao mesmo tempo, despertavam minha ambição. Eu também queria ser poderoso como ele! Frequentemente lhe perguntava como eu poderia aprender seus truques, mas ele colocava um dedo sobre seus lábios e ficava me vendo. Foi apenas muitos anos mais tarde que eu pude apreciar completamente a magnífica lição de sua resposta. A chave dos bruxos é o silêncio".


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Explicou que o silêncio mental não é só a ausência de pensamentos. Realmente, trata-se de suspender os juízos, de testemunhar sem interpretar. Sustentou que entrar no silêncio pode ser definido, de acordo com o modo contraditório dos bruxos, como "aprender a pensar sem palavras".

“Para muitos de vocês o que eu estou dizendo não faz sentido, porque estão acostumados a consultar tudo com a mente. O irônico é que, para começar, os pensamentos nem mesmo são 
nossos, eles soam através de nós, o que é diferente. E, como nos acossam desde que temos feito uso de razão, nós terminamos nos acostumando com eles”.

“Se perguntam à mente, ela lhes dirá que o propósito dos bruxos é tolice, porque não se pode demonstrá-lo com a razão. Em vez de lhes aconselhar que vão e verifiquem honestamente esse propósito, ela os ordenará que se escondam atrás de um sólido bloco de interpretações. Portanto, se querem ter uma oportunidade, só lhes resta uma saída: desconectem a mente! A liberdade se consegue sem pensar”.


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"Don Juan afirmava que somos animais predadores que, à força de nos amansarmos, acabamos nos transformando em ruminantes. Passamos a vida regurgitando uma lista interminável de opiniões sobre quase tudo. Os pensamentos nos chegam em torrentes e se encaixam um no outro até encher o espaço da mente. Esse barulho não tem nenhuma utilidade porque praticamente em sua totalidade é dirigido ao engrandecimento do ego.

"Devido ao fato de que vai contra tudo o que nos foi ensinado desde crianças, o silêncio deve ser intentado com ânimo de combate. Neste momento, vocês têem uma grande vantagem: a experiência dos espreitadores. Os bruxos de agora pretendem passar pelo mundo sem chamar a atenção, tratando a todos igualmente. Um guerreiro espreitador é o dono da situação, para o bem ou para o mal, porque há algo terrivelmente efetivo em atuar sem a mente".


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“A técnica de observar, quer dizer, de contemplar o mundo sem idéias preconcebidas, funciona muito bem com os elementos. Por exemplo, com as chamas, as quedas de água, as formas das nuvens ou o pôr do sol. Os novos videntes o chamam ‘enganar a máquina’, porque, em essência, consiste em aprender a intentar uma nova descrição”.

“A pessoa tem que lutar corajosamente para conseguir isto, mas, depois que ocorre, o novo estado de consciência se sustenta naturalmente. É como por o pé na porta; já que está aberta, é questão de acumular energia suficiente para passar ao outro lado”.

“O importante é que nosso intento seja inteligente. De nada vale que nos esforcemos para chegar ao silêncio se primeiro não criarmos condições favoráveis para que se sustente. Portanto, além de treinar na observação dos elementos, um guerreiro é obrigado a fazer algo muito simples, mas muito difícil: ordenar sua vida”.


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“Se o que nós queremos é acumular silêncio profundo, de efeitos duradouros, o melhor não fazer é a solidão. Junto com a economia da energia e o abandono desses que nos dão por feitos. Aprender a estar só é o terceiro princípio prático do caminho”.

“O mundo do guerreiro é a coisa mais solitária que há. Até mesmo quando vários aprendizes se unem para viajar pelas rotas do poder, cada um sabe que está sozinho, que não pode esperar nada do outro nem depender de ninguém. O máximo que ele pode fazer é compartilhar o caminho com aqueles que o acompanham”.

"Estar só requer um grande esforço, porque nós ainda não aprendemos a superar o comando genético da socialização. No princípio, o aprendiz deve ser forçado a isto pelo seu mestre, através de armadilhas se for necessário. Mas com o tempo aprende a desfrutá-lo. É normal que os bruxos busquem o silêncio na solidão da montanha ou do deserto e que vivam sozinhos durante longos períodos".


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"Por outro lado, a solidão do guerreiro é como o retiro dos enamorados, desses que procuram um nicho remoto para escrever poemas a seu amor. E seu amor está em todos os lugares, porque é esta terra que por tão pouco tempo veio pisar. Assim, onde quer que vá, o guerreiro se entrega a seu romance. É natural que, às vezes, evite lidar com o mundo; o silêncio interior é solitário".

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"A resistência da descrição do mundo pode ir de uns segundos a uma hora ou mais; contudo, não é eterno. Vencê-la por meio de um intento contínuo é o que os bruxos chamam de "chegar ao limiar do silêncio".

“Essa ruptura se sente fisicamente, como um ruído na base do crânio ou como o som de um sino. A partir daí, é uma questão de quanta força foi acumulada”.


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“Apesar de ser indefinível, podemos medir o silêncio pelos seus resultados. Seu efeito final, o que os bruxos procuram com avidez, é que ele nos sintoniza com uma dimensão magnífica de nosso ser, onde temos acesso a um conhecimento instantâneo e total que não é composto de razões, mas de certezas. As velhas tradições descrevem esse estado como ‘o reino do céu’, mas os bruxos o preferem chamar por um nome menos pessoal: o conhecimento silencioso”.


Citações do livro "Encontros com o Nagual", de Armando Torres










    

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