A bela e os fascistas

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Entrevista excelente com a bela Naomi Wolf sobre o processo de implantação do despotismo nos EUA fazendo um paralelo com a Alemanha Nazista e a Itália Fascista dos anos 30. Imperdível para se entender didaticamente o processo de implantação da NOM ou da neo VOM (Velha Ordem Mundial) em seu intento de criar um império único, unificado, global.



Zeitgeist 3: estréia prevista para 15 de janeiro

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Trailer do Documentário Zeitgeist 3, cujo lançamento está previsto para dia 15 de Janeiro em todo o mundo.


Transmutação da Energia Sexual - 3ª parte

Transmutar é mudar uma coisa em outra, no caso, a transmutação da energia sexual é transformar o esperma em um substância diferente, mais sutil, mais forte e mais potente, conferindo ao homem que realiza essa transmutação mais energia, mais longevidade e potência, mais saúde e mais controle sobre si mesmo e seus processos vitais.

A Transmutação pode ter a mesma finalidade da Vasectomia: o controle da natalidade, ou melhor dizendo, o controle da fecundidade, com uma vantagem adicional, ela não requer nenhuma intervenção cirúrgica no corpo do homem. Ela, a transmutação sexual, é um processo natural. Natural no sentido de não agredir o corpo, mas que precisa ser aprendido e apreendido, porque fomos levados a acreditar que a energia sexual tem como única finalidade a reprodução e aqueles breves e intensos segundos de prazer que se seguem à ejaculação. Atenção que aqui estou escrevendo mais para os meninos, ok?

Por outro lado requer uma disciplina com relação ao controle da ejaculação e a reabsorção da energia do esperma pelo próprio corpo do homem. Essa reabsorção envolve uma mudança na natureza da energia sexual. Essa mudança é chamada de transmutação da energia sexual. Essa mudança é feita através de técnicas ecológicas, naturais, que não agridem o corpo do homem, e que envolvem respiração adequada, posturas adequadas, concentrações e visualizações adequadas.

Exemplo, tudo o que você come é metabolizado pelo seu corpo em sangue, sêmen e resíduos.

O sêmen é a substância mais sutil e preciosa produzida pelo corpo do homem. Nele está a semente de uma nova vida, em diversos sentidos, tanto no sentido da reprodução física quanto no sentido da evolução espiritual.

Os taoístas, mestres chineses na arte da transmutação da energia sexual, dizem que cada ejaculação representa em termos vitais e energéticos um dia a menos de vida.

Transmutar a energia sexual é metabolizar essa substância do esperma no próprio corpo, através de uma série de técnicas de respiração, concentração e posturas. Essa Alquimia da energia sexual pode ser feita por via solitária ou dual (homem-mulher). Os alquimistas eram antigos mestres da transmutação da energia sexual. O sêmen era chamado de mercúrio filosófico pelos alquimistas. Sabemos que Mercúrio (ou Hermes) é a mítica divindade grega capaz de levar uma coisa de um lugar para o outro, de um plano para o outro, de um nível para o outro. No caso da energia sexual, ela, ao ser transmutada, pode ser levada de nosso centro sexual para outros centros vitais de nosso corpo, ativando-os, energizando-os e curando-os. Por isso o termo mercúrio filosófico ou alquímico, uma referência ao fato de o mercúrio deles não ser o mercúrio vulgar.

Enquanto a Química moderna visa tão somente transformar substâncias, a antiga Alquimia visava (e visa) transmutar o homem num homem diferente.

A Alquimia é uma realidade no que tange a capacidade de transmutar os metais.

Em 1975, na Espanha, diante das câmeras de tv, diante da platéia e de uma série de cientistas e especialistas (inclusive de um ilusionista), um homem que dizia ser o mítico Conde Saint Germain e que depois revelou ser apenas um mensageiro, realizou uma prova pública da Alquimia, transformou um pedaço de chumbo em ouro, provando para o mundo que a Alquimia era (e é) uma ciência real. Eis o que os especialistas disseram quando analisaram o metal transmutado:

- É impossível, mas aconteceu.

Isso foi filmado e se encontra gravado.

Supreso? Bem, eu fiquei estupefacto, mesmo acreditando na possibilidade.

Assim como é em baixo, é em cima. Assim como pode ser feito fora do corpo, a Alquimia também pode ser realizada dentro do corpo, através de nossa semente, emoções e pensamentos.

Veja, através do esperma, nossa semente, nós temos condições de dar forma ao corpo de um espírito, a chamada encarnação.

O nosso corpo é um laboratório alquímico fantástico que renova o pâncreas, a nível celular, completamente a cada 24 horas.

Assim, através da transmutação do esperma nós podemos dar uma forma mais sutil a nós mesmos, um corpo cheio de energia, impregnado de força e potência, capaz de irradiar vitalidade e magnetismo.

E ainda volto a perguntar, por que motivo a substância mais fina e preciosa produzida pelo corpo é vista com tanta vulgaridade?

F.A.

Orwell estava certo. Huxley, também

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

2011: A Brave New Dystopia

by Chris Hedges

As duas grandiosas visões sobre uma futura distopia foram as de George Orwell em 1984 e de Aldous Huxley em Brave New World. O debate entre aqueles que assistiram nossa decadência em direção ao totalitarismo corporativo era sobre quem, afinal, estava certo. Seria, como Orwell escreveu, dominado pela vigilância repressiva e pelo estado de segurança que usaria formas cruas e violentas de controle? Ou seria, como Huxley anteviu, um futuro em que abraçariamos nossa opressão embalados pelo entretenimento e pelo espetáculo, cativados pela tecnologia e seduzidos pelo consumismo desenfreado? No fim, Orwell e Huxley estavam ambos certos. Huxley viu o primeiro estágio de nossa escravidão. Orwell anteviu o segundo.

Temos sido gradualmente desempoderados por um estado corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Brave New World para 1984. O estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.

[...]

Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão. Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.

“O partido busca todo o poder pelo poder”, Orwell escreveu em 1984. “Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura. O objeto da perseguição é perseguir. O objeto de torturar é a tortura. O objeto do poder é o poder”.

O filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever nosso sistema político. É um termo que não faria sentido para Huxley. No totalitarismo invertido, as sofisticadas tecnologias de controle corporativo, intimidação e manipulação de massas, que superam em muito as empregadas por estados totalitários prévios, são eficazmente mascaradas pelo brilho, barulho e abundância da sociedade de consumo. Participação política e liberdades civis são gradualmente solapadas. O estado corporativo, escondido sob a fumaça da indústria de relações públicas, da indústria do entretenimento e do materialismo da sociedade de consumo, nos devora de dentro para fora. Não deve nada a nós ou à Nação. Faz a festa em nossa carcaça.

O estado corporativo não encontra a sua expressão em um líder demagogo ou carismático. É definido pelo anonimato e pela ausência de rosto de uma corporação. As corporações, que contratam porta-vozes atraentes como Barack Obama, controlam o uso da ciência, da tecnologia, da educação e dos meios de comunicação de massa. Elas controlam as mensagens do cinema e da televisão. E, como no Brave New World, elas usam as ferramentas da comunicação para aumentar a tirania. Nosso sistema de comunicação de massas, como Wolin escreveu, “bloqueia, elimina o que quer que proponha qualificação, ambiguidade ou diálogo, qualquer coisa que esfraqueça ou complique a força holística de sua criação, a sua completa capacidade de influenciar”.

O resultado é um sistema monocromático de informação. Cortejadores das celebridades, mascarados de jornalistas, experts e especialistas, identificam nossos problemas e pacientemente explicam seus parâmetros. Todos os que argumentam fora dos parâmetros são desprezados como chatos irrelevantes, extremistas ou membros da extrema esquerda. Críticos sociais prescientes, como Ralph Nader e Noam Chomsky, são banidos. Opiniões aceitáveis cabem, mas apenas de A a B. A cultura, sob a tutela dos cortesãos corporativos, se torna, como Huxley notou, um mundo de conformismo festivo, de otimismo sem fim e fatal.

Nós nos ocupamos comprando produtos que prometem mudar nossas vidas, tornar-nos mais bonitos, confiantes e bem sucedidos — enquanto perdemos direitos, dinheiro e influência. Todas as mensagens que recebemos pelos meios de comunicação , seja no noticiário noturno ou nos programas como “Oprah”, nos prometem um amanhã mais feliz e brilhante. E isso, como Wolin apontou, é “a mesma ideologia que convida os executivos de corporações a exagerar lucros e esconder prejuízos, sempre com um rosto feliz”. Estamos hipnotizados, Wolin escreve, “pelo contínuo avanço tecnológico” que encoraja “fantasias elaboradas de poder individual, juventude eterna, beleza através de cirurgia, ações medidas em nanosegundos: uma cultura dos sonhos, de cada vez maior controle e possibilidade, cujos integrantes estão sujeitos à fantasia porque a grande maioria tem imaginação, mas pouco conhecimento científico”.

Nossa base manufatureira foi desmantelada. Especuladores e golpistas atacaram o Tesouro dos Estados Unidos e roubaram bilhões de pequenos acionistas que tinham poupado para a aposentadoria ou o estudo. As liberdades civis, inclusive o habeas corpus e a proteção contra a escuta telefônica sem mandado, foram enfraquecidas. Serviços básicos, inclusive de educação pública e saúde, foram entregues a corporações para explorar em busca do lucro. As poucas vozes dissidentes, que se recusam a se engajar no papo feliz das corporações, são desprezadas como freaks.

[...]

A fachada está desabando. Quanto mais gente se der conta de que fomos usados e roubados, mais rapidamente nos moveremos do Brave New World de Huxley para o 1984 de Orwell. O público, a certa altura, terá de enfrentar algumas verdades doloridas. Os empregos com bons salários não vão voltar. Os maiores déficits da história humana significam que estamos presos num sistema escravocrata de dívida que será usado pelo estado corporativo para erradicar os últimos vestígios de proteção social dos cidadãos, inclusive a Previdência Social.

O estado passou de uma democracia capitalista para o neo-feudalismo. E quando essas verdades se tornarem aparentes, a raiva vai substituir o conformismo feliz imposto pelas corporações. O vazio de nossos bolsões pós-industriais, onde 40 milhões de norte-americanos vivem em estado de pobreza e dezenas de milhões na categoria chamada “perto da pobreza”, junto com a falta de crédito para salvar as famílias do despejo, das hipotecas e da falência por causa dos gastos médicos, significam que o totalitarismo invertido não vai mais funcionar.

Nós crescentemente vivemos na Oceania de Orwell, não mais no Estado Mundial de Huxley. Osama bin Laden faz o papel de Emmanuel Goldstein em 1984. Goldstein, na novela, é a face pública do terror. Suas maquinações diabólicas e seus atos de violência clandestina dominam o noticiário noturno. A imagem de Goldstein aparece diariamente nas telas de TV da Oceania como parte do ritual diário da nação, os “Dois Minutos de Ódio”. E, sem a intervenção do estado, Goldstein, assim como bin Laden, vai te matar. Todos os excessos são justificáveis na luta titânica contra o diabo personificado.

A tortura psicológica do cabo Bradley Manning — que está preso há sete meses sem condenação por qualquer crime — espelha o dissidente Winston Smith de 1984. Manning é um “detido de segurança máxima” na cadeia da base dos Fuzileiros Navais de Quantico, na Virginia. Eles passa 23 das 24 horas do dia sozinho. Não pode se exercitar. Não pode usar travesseiro ou roupa de cama. Médicos do Exército enchem Manning de antidepressivos. As formas cruas de tortura da Gestapo foram substituídas pelas técnicas refinadas de Orwell, desenvolvidas por psicólogos do governo, para tornar dissidentes como Manning em vegetais. Quebramos almas e corpos. É mais eficaz. Agora todos podemos ir ao temido quarto 101 de Orwell para nos tornarmos obedientes e mansos.

Essas “medidas administrativas especiais” são regularmente impostas em nossos dissidentes, inclusive em Syed Fahad Hasmi, que ficou preso sob condições similares durante três anos antes do julgamento. As técnicas feriram psicologicamente milhares de detidos em nossas cadeias secretas em todo o mundo. Elas são o exemplo da forma de controle em nossas prisões de segurança máxima, onde o estado corporativo promove a guerra contra nossa sub-classe política – os afro-americanos. É o presságio da mudança de Huxley para Orwell.

“Nunca mais você será capaz de ter um sentimento humano”, o torturador de Winston Smith diz a ele em 1984.”Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais você será capaz de amar, de ter amigos, do prazer de viver, do riso, da curiosidade, da coragem ou integridade. Você será raso. Vamos te apertar até esvaziá-lo e vamos encher você de nós”.

O laço está apertando. A era do divertimento está sendo substituída pela era da repressão. Dezenas de milhões de cidadãos tiveram seus dados de e-mail e de telefone entregues ao governo. Somos a cidadania mais monitorada e espionada da história humana. Muitos de nós temos nossa rotina diária registrada por câmeras de segurança. Nossos hábitos ficam gravados na internet. Nossas fichas são geradas eletronicamente. Nossos corpos são revistados em aeroportos e filmados por scanners. Anúncios públicos, selos de inspeção e posters no transporte público constantemente pedem que relatemos atividade suspeita. O inimigo está em toda parte.

Aqueles que não cumprem com os ditames da guerra contra o terror, uma guerra que, como Orwell notou, não tem fim, são silenciados brutalmente. Medidas draconianas de segurança foram usadas contra protestos no G-20 em Pittsburgh e Toronto de forma desproporcional às manifestações de rua. Mas elas mandaram uma mensagem clara — NÃO TENTE PROTESTAR. A investigação do FBI contra ativistas palestinos e que se opõem à guerra, que em setembro resultou em buscas em casas de Minneapolis e Chicago, é uma demonstração do que espera aqueles que desafiam o Newspeak oficial. Os agentes — ou a Polícia do Pensamento — apreenderam telefones, computadores, documentos e outros bens pessoais. Intimações para aparecer no tribunal já foram enviadas a 26 pessoas. As intimações citam leis federais que proíbem “dar apoio material ou recursos para organizações terroristas estrangeiras”. O Terror, mesmo para aqueles que não tem nada a ver com terror, se torna o instrumento usado pelo Big Brother para nos proteger de nós mesmos.

“Você está começando a entender o mundo que estamos criando?”, Orwell escreveu. “É exatamente o oposto daquelas Utopias estúpidas que os velhos reformistas imaginaram. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo em que se atropela e se é atropelado, um mundo que, ao se sofisticar, vai se tornar cada vez mais cruel”.

Pathwork - Entrevista com Eva Pierrakos

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

“Esta é uma entrevista na íntegra de Eva Pierrakos conduzida por Charles Rotmil, reproduzida com sua autorização. Charles Rotmil participa do Pathwork desde 1963 e esteve com Eva de 1963 ate seu falecimento. Atualmente reside em Maine.”

CHARLES: Poderia descrever o ambiente no qual cresceu?

EVA: Meu pai era um escritor muito famoso, nessa época. Mesmo depois de tanto tempo, ele ainda é relativamente famoso na Europa. Tínhamos um ambiente fantástico. Havia todos esses escritores, Thomas Mann, Bruno Walter, Herman Hesse, Arthur Schnitzler...que eram a elite intelectual de Viena. Eu desenvolvi um tipo de atitude anti-intelectual como protesto, que provavelmente foi minha forma de rebelião. De certa maneira, esse era ao mesmo tempo, um ambiente muito bonito. Muito culto ... tínhamos dinheiro sem sermos ricos, mesmo assim tínhamos uma vida muito luxuosa. Tínhamos uma propriedade no campo, onde meu pai vivia com sua segunda esposa, e uma linda mansão, e eu cresci nessas duas casas.

CHARLES: Que idade tinha então?

EVA: Meus pais se divorciaram quando eu ainda era muito pequena e quase não tenho lembranças de quando eles viviam juntos. Desde quando posso me lembrar, eles estavam em litígio judicial e havia um ódio absoluto entre eles, apesar de que naturalmente, eu não tinha consciência disso na época. Eu fui uma criança muito feliz --- eu somente sentia uma extrema inquietação quando via meus pais juntos. Isso era uma agonia. Por outro lado, minha madrasta e eu convivíamos bem. Ela era uma mulher dura e fria e eu não gostava dela; mas eu acreditava que gostava. Era uma mulher muito elegante. No verão, eu vivia três meses com meu pai, bem como no Natal e na Páscoa, o tempo restante eu passava, em Viena com minha mãe.

CHARLES: Como era o ambiente religioso nessa época?

EVA: Nenhum. Não havia nenhum. Meus pais, nem um nem o outro eram ateus; eles acreditavam em Deus, mas não falavam sobre isso. Havia uma orientação cristã, mas não havia uma educação religiosa.

CHARLES: Naquele tempo, qual era a sua concepção de Deus?

EVA: Não tinha nenhuma. Eu não pensava sobre isso.

CHARLES: Teve algum pressentimento ou aviso antecipado de algo excepcional acontecendo.

EVA: De maneira alguma! (rindo) Isso, dizendo muito pouco. Eu era, ao contrário, muito mundana. Nada espiritual. Estava completamente voltada para o exterior. Eu ria disfarçadamente, quando qualquer um falava sobre fenômenos psíquicos. De certa modo eu era muito superficial.

CHARLES: Quais eram, suas primeiras aspirações então?

EVA: Eu queria ser bailarina e comecei dançar ballet em criança. No inicio, ainda muito jovem, comecei a representar na escola. Meu pai era muito perfeccionista nessas coisas. Ele disse que, se eu não fosse uma bailarina ou artista qualquer de primeira classe, era melhor não ser nada... Desista durante dois anos. Se seu caminho é o de ser uma grande bailarina, você vai reiniciar o ballet. Não fiz isso, portanto penso que não era essa a minha vocação.

CHARLES: Com certeza dança hoje em dia. Lembra-se de ter tido, com pouca idade, algum sonho marcante?
EVA: Sim, mas não era nenhum prenúncio de tarefa ou algo assim. Isso veio depois.

CHARLES: Lembra-se de algum acontecimento de maior importância em sua infância que lhe causou impacto? O divórcio poderia ser um deles.

EVA: Realmente, o impacto era o constante clima de ódio entre meus pais, o processo judicial, a pensão alimentícia e a absoluta alienação entre meu pai e minha mãe. Esse era o clima constante, mas de alguma maneira consegui me acostumar a isso. Me adaptei a isto. Não podia nem mesmo imaginar um outro tipo de vida Em certo sentido, eu era como meus irmãos mais velhos e minha irmã. Havia uma considerável diferença de idade entre nós. Eles eram mais velhos do que eu e sofreram muito mais. Sabe, eles ainda se lembravam de quando meu pai e mãe viviam juntos, e isso foi muito dolorido para eles. Eles tiveram um trauma maior do que eu. Eu nem mesmo me lembrava deles (juntos). Por isso digo, que é melhor ter pais divorciados quando esses não se entendem, do que ficarem juntos por causa da criança. É um clichê tão bobo ficarem juntos por causa dos filhos. Isso não faz sentido.


Charles: Quantos anos você tinha quando teve o primeiro sinal de mudança ou de alguma coisa acontecendo?

Eva: Não foi uma mudança. Eu ainda era muito jovem, final da adolescência talvez. A mãe de uma amiga minha era espírita e fazia o jogo do copo. E nós fizemos. Foi no sul da França. Fizemos para nos divertir, e o copo começou mesmo a se mexer e a dar respostas. Eu não entendia, na época. Era "brincadeira de criança" e nós não sabíamos mesmo que estávamos brincando com fogo! No meio do dia estávamos na cabana de uma das garotas. A mesa se jogou contra mim e quase me bateu no estômago. Eu sei, não havia como ser um truque; fiquei muito desconfiada. Olhamos embaixo da mesa, mas havia somente estas duas outras garotas e eu. Este é o único fenômeno que eu lembro. E aí, eu não fazia idéia do que pudesse ter causado aquilo. Eu realmente não acreditava em espíritos. Eu não fazia idéia do que pudesse ter causado aquilo. Perguntava para as pessoas que sabiam mais a respeito e contava a eles o ocorrido. Perguntava para eles: "O que é isto? O que fez com que a mesa se movesse?" Ninguém conseguiu me dar uma resposta inteligente. Isto foi durante a guerra e eu não pensei mais a respeito. Então aquilo voltou bem mais tarde. Na primeira vez em que estive na Suiça, depois de ter estado nos Estados Unidos. Foi em 1952.

CHARLES: Aconteceu depois que veio para a América? Como veio aos Estados Unidos?

EVA: O pai de meu primeiro marido, Herman Broch, também era um escritor famoso. Ele nos deu um "visto por perigo", porque estávamos na França durante a ocupação*. Foi antes de casarmos. Casamos quando viemos para cá. Assim cheguei na América. Isso foi em 1941...em seguida casamos. E eu me tornei cidadã* durante a ocupação**.
*cidadã - refere-se a tornar-se cidadã americana
**refere-se a ocupação alemã da França.

Charles: OK. E quando você voltou para a Suíça o que aconteceu? Você diz ter tido escrita-automática.

Eva: Em 1951, que foi mais ou menos um ano antes, eu estava em Zurique com a minha mãe, a minha irmã e o homem com quem eu vivia, o André, um príncipe russo com quem eu tive uma relação intensa, embora nós não tenhamos nos casado porque ele não conseguiu obter o divórcio. Minha mãe nos disse que tinha uma amiga, era médium, e talvez nós quiséssemos ir vê-la. Eu disse: "OK. Vamos lá. Vai ser divertido... como ir ao cinema." Então ela disse: "Você tem que prometer levar a sério e não rir!" E foi assim que eu fui! (risadas) Estava toda preparada para rir. Foi muito interessante, me afetou, e eu percebi que não se tratava de uma coisa para rir. Havia algo em mim que me dizia para levar aquilo a sério. E eu escutei; e aí começaram estas palestras em transe. Acontecia de vez em quando, mas eu nunca tinha a menor idéia do acontecido. Era a última coisa que eu queria, mas era interessante. Comecei a ler livros sobre Fenômenos Psíquicos e Comunicação Espiritual. Abri a minha mente para estas possibilidades e me interessei. Aí esta mulher que nos levou até lá falou a respeito de reencarnação. Isto fazia sentido para mim, eu acreditava. Aí, esta mulher falou sobre a escrita automática e coisas do gênero. Ela tinha feito escrita automática uma vez, o que tinha se tornado muito perigoso porque ela não conseguira controlar. Agora, ela estava pronta para fazê-la de novo. Disse que eu poderia começar com ela. Eu disse: "Está bem, eu não tenho nada melhor para fazer!" Sentei-me com ela e ela começou a escrever automaticamente por um tempo. Então comecei a meditar a primeira vez na minha vida. Aí tive uma experiência interessante... Quase que me esqueço disso. Eu estava sentada, meditando, era verão, perto havia uma janela aberta. De repente, pela primeira vez, houve algum tipo de sinal. Isto foi em Zurique, na véspera de ano novo em 1950. Na Suíça, eles tocam todos os sinos de igreja. Foi então que eu senti alguma coisa, um poder incrível, como o poder de Cristo... como se os anjos estivessem lá. Eu não tinha nenhum conceito de tais coisas, mas foi alguma coisa tão forte que me forçou a ajoelhar. Foi incrível! Aí eu deixei isto de lado e esqueci completamente. Aquilo foi como um anúncio das coisas por virem. Este foi o mesmo ano em que eu fui levada à médium, sem saber o significado disto. Então, veio tudo muito rápido. Foi em 1951, início de 1952.

Novamente eu estava sentada perto da janela, meditando, no verão. Aconteceram muitas vezes, não apenas aquela. Senti um aroma incrível. Não era nenhum aroma que viesse de nada real. Olhei em volta do lado de fora. Não conseguia nem descrever este aroma. Era um aroma espiritual, mas ao mesmo tempo muito real e terreno. Provocou-me um sentimento tão inacreditável que não consigo descrever. Se for aproximado, era uma combinação de essências de madeira e metal. Era inacreditável. Imagino que os anjos tenham este cheiro. Quando isto me aconteceu, eu fiquei tão confusa. Junto com aquele aroma eu sabia que havia algum significado espiritual e eu deixei o assunto de lado. Aquilo foi muito forte. E então, talvez poucos meses depois daquilo, no verão de 1952, em agosto, eu ainda estava na Suíça, um dia eu estava sentada em casa e a minha mão ficou muito pesada, a minha mão direita. Eu estava sentada com os cotovelos sobre a mesa. Minha mão foi meio que puxada para baixo e começou a mover-se por conta própria. Peguei um lápis e ela se moveu. Fiquei muito entusiasmada. Eu não queria fazer escrita automática, e, ao mesmo tempo, estava fascinada. Não fiz muito, somente algumas linhas na diagonal atravessadas no papel. O fato de alguma coisa mover-se além da minha vontade era entusiasmante, assustador, fascinante, muito intrigante. No dia seguinte eu fui até a mulher que sabia a respeito disto e ela reagiu como se fosse algo trivial. Disse: "OK, você faz escrita automática." Passei a sentar-me para isto duas ou três vezes por semana.

Charles: Você estava recebendo algum tipo de mensagem?

Eva: Vieram muitas escritas diferentes, mensagens. Era apenas um passatempo muito interessante. Jamais me ocorreu que aquilo se tornaria no que se tornou... Jamais me ocorreria em um milhão de anos.

Charles: Quando o Guia começou a se manifestar, houve um período em que ele lhe disse que você teria que passar por sua própria purificação antes que pudesse aceitar isto.

Eva: No começo da escrita automática houve muitos testes, muitas entidades diferentes vindo, uma mistura total de níveis... espíritos muito baixos. Tive que aprender a não acreditar no que diziam, que existem muitos perigos, comunicação errada, e a não engolir tudo o que diziam. Com muita freqüência eu era tentada a jogar tudo para o lado. "Talvez a Igreja esteja certa, você não deve ter nada a ver com isso - é muito confuso."

Aí surgiram mensagens intermediárias que eram a tal ponto fenomenais, que foram incríveis - coisas que eu não tinha como saber, e que se verificou serem verdadeiras. Eram realmente impossíveis, coisas que eu nunca acreditaria que pudessem ser daquele modo. E elas eram verdadeiras. E coisas que eram falsas. Previsões! Embora eu não soubesse, na época, que não se deve preocupar-se com previsões... muitas coisas. Então, aos poucos, eu aprendi a lidar com estas coisas, a questionar estes espíritos, a aprender que muitos deles são simplesmente espíritos baixos e que precisam de ajuda. Mentem como seres humanos, fingem ser o que não são. Levei muito tempo para descobrir isto.

Muito gradualmente, aos poucos, uma vez ou outra, vinha uma escrita que era muito diferente. Mais tarde, fiquei sabendo que era o Guia: aconselhamento fantástico sobre desenvolvimento pessoal. Não vinha muito freqüentemente, mas realmente me testava pois estava misturado com estas outras coisas. Foi para mim, neste estágio precoce, um treinamento inacreditável lidar com isto. E havia tanta confusão. Chegou um ponto em que eu decidi que era demais, que não dava para mim. Desisti. Mas quando desisti tive um sentimento ruim, inacreditável, com se a vida tivesse ido embora de mim... como um frio em mim... escuridão em mim... Um sentimento de ter feito alguma coisa errada. Então, depois de dois dias eu retomei e me senti bem com isto. Mais ou menos ao mesmo tempo, a mediunidade auditiva se desenvolveu... não ouvir vozes, como vocês ouvem vozes, mas como se a falação estivesse dentro de mim, não no meu cérebro. Mais tarde isto acabou sendo o meu canal. O primeiro sinal da abertura do canal. Muitas coisas aconteceram em poucos meses. Nestes poucos meses, este aconselhamento incrível, lúcido, sábio, forte - eu acho que era o Guia, ele não se identificou - disse: "Sim, você tem uma tarefa!" E não me disse nada mais a respeito. O importante é o seu desenvolvimento pessoal. Então, mais tarde, na palestra falou-me diretamente o que eu tinha que fazer para enfrentar os meus problemas, dando-me guiança sobre como trabalhar comigo mesma.

Charles: Então você meio que tinha as palestras em microcosmos antes de chegarem... dentro de você!

Eva: Uma revisão diária... meu próprio canal escrevendo todas as noites... revisão diária. E sobre o que eu escrevia, as respostas vinham - escrita automática - e que direção tomar a respeito. Outra coisa: fui logo informada de que eu saberia mais do que esta outra mulher e que não precisava mais dela, embora precisasse porque eu não deveria fazer isto sozinha. "Você não deve fazer isto sozinha. É uma lei... uma lei Espiritual!"

Charles: Aterramento?

Eva: Sim, e o fato de que há decepções às vezes. É muito envolvente e você pode ser completamente pego nisto. Aí esta mesma voz, esta guiança, me disse que quando eu tivesse feito um aterramento suficiente na minha purificação, algumas outras pessoas seriam guiadas até mim, que também poderiam receber ajuda através deste canal e que me ajudariam me dando apoio e ficando comigo durante os transes e coisas do gênero. Naquela época - foi em 1952- o André e eu íamos voltar para os Estados Unidos. Ele tinha perdido o emprego com uma exportadora e não havia nenhuma razão lógica para presumir que voltaríamos para a Suíça porque ele precisava de um emprego e não se conseguia emprego para cidadãos americanos na Europa. Então o único jeito era voltar para os Estados Unidos. No que eu escrevia, vieram estas previsões incríveis. Naquele tempo eu ficava desconfiada com previsões. "Você voltará num futuro próximo porque precisa de treinamento. Haverá certas fases em que você precisará voltar." Foi uma daquelas coisas. Eu a rejeitei completamente. Deixei de lado. Bem, no outono de 1952 nós voltamos para os Estados Unidos. Eu queria retomar porque tinha tido o estúdio de dança antes o qual tivera de abandonar quando fomos para a Europa.

Charles: Quer dizer que você estava dando aulas?

Eva: Não havia motivo pelo qual eu não devesse me sustentar, mas aí eu recebi esta mensagem: "Agora é hora de esquecer completamente - a escrita automática - qualquer tipo de fenômenos; você tem que se concentrar completamente no seu próprio desenvolvimento e não fazer nada mais. Você não deve nem trabalhar por este curto período de tempo." Eu disse: "Como? Não é justo!" E o André foi muito bom a este respeito, ele aceitou. Então eu me concentrei realmente por um ano e meio mais ou menos; totalmente concentrada no meu próprio caminho. O canal só funcionava para isto. Somente me dizia tudo o que eu precisava a meu respeito. É por isto que quando eu ouço falar de pessoas que recebem mensagens fabulosas, como a Ann White, mas que não se trabalham, fico muito desconfiada.

Então, depois de um ano e meio de treinamento muito intensivo, pela primeira vez eu recebi o sinal verde: "O primeiro sinal verde vai ser dado a você agora. Você não tem que sair procurando ninguém... ele virá." Eis que eu e uma velha amiga nos encontramos e falamos sobre estas coisas. Eu não recebi um convite, eu não fazia idéia. Ela me disse: "O quê? Você pode fazer isto? Poderia escrever isto para mim?"

Isto foi na cidade de Nova Iorque entre 1952 e 1954. No início de 1954, ela teve algumas sessões com o seu pai. Ela veio e eu fiz a escrita automática e nenhuma da coisas que vieram tinha nada a ver com fenômenos. Cada vez mais o que eu escrevia se direcionava a ajudar as pessoas com o seu próprio caminho. Este foi o início do canal.

O André estava procurando emprego. Um dia ele conseguiu uma oferta do Marquis de Cuevas Ballet. Sendo originalmente o Ballet de Monte Carlo, eram muito famosos em Paris. O Marquis era o marido da Margaret Rockfeller. Eram bons amigos do André que tinha este nível de "alta sociedade" em sua casa. O Cuevas o convidou para ser gerente deste ballet em Paris. Por toda a minha vida eu sempre estive a margem de dançar, primeiro com o Harkness Ballet e agora com o Marquis de Cuevas Ballet. Era tão engraçado, como se tivesse talvez um dia sido o meu caminho, mas não nesta vida. De qualquer forma, o André recebeu esta proposta muito interessante para ir para Paris como gerente do Cuevas. De um dia para o outro, nos vimos de volta à Europa. Eu havia esquecido completamente que isto era o que tinha sido previsto. Ficávamos um pouco em Paris, indo e vindo de Zurique. Então o André começou a viajar muito com eles e eu me vi, de alguma forma, de volta a Zurique, onde eu havia estado antes. Foi lá que o meu treinamento, a minha mediunidade continuou. Fui guiada a uma outra moça, que também era uma amiga, que passou a fazer as sessões comigo. Ela também canalizava e nós nos encontrávamos com regularidade; entramos nisto.

Então um dia veio a mensagem: "Esta é a hora certa para você começar a treinar para o transe." "Eu não consigo entrar em transe, nunca consegui... é impossível!" "Sim, sim, você tem que fazer uma sessão." Deram-me instruções sobre o que fazer. Falaram-me sobre como abrir mão dos pensamentos, como não pensar, como deixar a minha mente fluir completamente. Disseram-me que eu devia fazer isto duas vezes por semana na presença da outra moça. E depois que fizéssemos isto, haveria sessões em que viria a escrita automática. Cada vez menos estes outros espíritos vinham pois eu realmente tinha aprendido a controlar e a discriminar. A guiança - ou o Guia - vinham na escrita automática. Eu nunca tinha pensado que entraria num transe; eu estava tão "lá". Acho que eu apenas perseverei. Aí, depois de um ano e meio de sessões, consegui entrar em transe. Profundo relaxamento.

De qualquer forma, a primeira vez que entrei em transe, nenhuma voz veio e eu apenas fiquei em transe. Foi um sentimento incrível, e daquela vez em diante eu consegui fazê-lo sem dificuldade. Então, na segunda vez que entrei em transe, veio a voz. Desde então, ela veio. Isto foi por volta do fim do outono de 1956.

Charles: Quem eram as pessoas do seu meio que deram suporte, que escutaram?

Eva: Naquela época, havia se formado um pequeno grupo em Zurique. Esta moça que mencionei aos poucos trouxe os outros seis, oito a dez pessoas e estes vinham com regularidade. Nos encontrávamos mais ou menos uma vez por semana para uma sessão com o Guia e ele lhes dava instruções. Foi por volta do fim da primavera de 1956 e início do outono. Uma das mensagens do Guia foi: "Quando você voltar para os Estados Unidos um grupo se formará. Mais tarde, outras pessoas virão e elas serão o núcleo do grupo que se formará em definitivo para a tarefa que você cumprirá." Não dava nem para começar a inventar a coisa, é tão forçado. Logicamente a voz não me disse nada sobre a vastidão da coisa. Eu pensei que o faria como um passatempo... para amigos, sabe. Por diversão, por interesse - não achava que isto seria a minha vocação. Aí, voltamos aos Estados Unidos em 1956 e este grupo realmente se formou. Lembro-me muito bem quem eram as pessoas.

Charles: Quem eram?

Eva: Bem, você não os conhece. Havia entre seis e oito pessoas que se reuniam e eu lhes dava uma sessão de transe a cada duas semanas. Foi isto, sabe. Foi assim que começou.

Charles: Obrigado. Agora eu posso passar para perguntas recentes. Por exemplo, o que você pode dizer sobre a energia que você sente agora do Guia em comparação à energia que sentia na época?

Eva: Energia inacreditavelmente mais forte... Inacreditável. Não há comparação. Fica sempre mais forte, cada vez mais pura.

Charles: Deve haver um sentimento tremendo quando você entra em transe. Tem alguma maneira de você descrevê-lo?

Eva: É muito difícil colocar este sentimento em palavras. Sabe, as pessoas geralmente pensam em transe como sendo alguma coisa inconsciente e isto não é verdade. Pode haver estados de transe em que se fica realmente adormecido. Não é o caso. Não é que eu não fique consciente, fico super-consciente. Não sei se isto faz algum sentido: é uma super-focalização da consciência. Esta super-consciência é o canal. A minha mente fica fora disto. O que o transe realmente significa é o permitir que outra consciência venha, o que é uma super-focalização - uma intensificação da consciência - o que soa muito contraditório.

Por um tempo muito longo antes de entrar em transe, havia sempre uma pequena ansiedade que tinha a ver com o tempo em que eu recebia coisas sem sentido - ou não recebia nada - o que criava dúvidas a meu próprio respeito. No momento em que eu consegui entregar, entregar para a vontade de Deus, perdi aquela ansiedade e agora me sinto muito confiante. O que é realmente prazeroso é quando saio do transe. O sentimento é de uma tremenda realização e existe um tremendo fluxo de energia nova.

Charles: Só para mudar de assunto um pouquinho. Alguém me contou que, a única vez que você cancelou uma palestra do Guia foi quando um dos gatos morreu. Você poderia falar sobre isto? Também sobre a sua relação com a Psyque. Existe um significado para isto.

Eva: Isto é engraçado. É verdade.

Charles: É surpreendente: aconteça o que acontecer, você está lá.

Eva: Sim. Bem, no dia em que o gato morreu eu estava muito aborrecida. Eu adoro os meus gatos e tenho uma relação muito especial com eles e deduzi pelos meus sonhos que os meus gatos têm uma representação simbólica muito forte para mim. Os meus antigos gatos: o Patsy era o macho e a Micky a fêmea; e o Patsy morreu. De alguma forma aquilo foi o aviso do fim da minha relação com o André, que foi muito doloroso. Mas é claro que eu não sabia disso, quando aconteceu. Eu apenas vivi o luto pelo Patsy! Se você me perguntar sobre a relação entre os meus gatos e os meus sonhos... Bem, o Patsy era o princípio masculino e a Micky era o princípio feminino em mim. Foi muito interessante. Logo depois que eu conheci o John, a Micky morreu. E aí eu ganhei a Psyque. Quando a Micky morreu eu sabia que simbolicamente era a minha feminilidade antiga que já estava doente, e então morreu. A minha nova feminilidade e renascimento vieram com a Psyque. Ela era muito mais bonita e vibrante do que a Micky. Você tirou uma foto dela.

Charles: Sim, eu tenho a foto. Eu gostaria de perguntar: Parece-me que você teve três encruzilhadas na sua vida. Uma: a vinda do Guia. Segunda: a operação, e a terceira, a sua recente mudança de voz, o que abriu a sua receptividade. Se você pudesse falar sobre estes três pontos.

Eva: O Guia já falou sobre isto. Houve um outro ponto importante por volta da época da operação. Esta foi a crise mais importante da minha vida, e foi uma encruzilhada incrível no meu Caminho. Os místicos falam sobre "a noite escura da alma". Foi o fim da relação com o André, que foi muito doloroso. Aí eu tive muitos problemas com as pessoas ao meu redor naquele momento... o Walter Heller, a Anne Heller, a Rose... pessoas que você não conhece.

Charles: Lembro deles.

Eva: Alguns deles você conhece. Tive muita discórdia com eles e muitas coisas negativas aconteceram. Eles eram realmente os pilares que haviam me sustentado! E a discórdia foi muito, muito dolorosa. De repente, me vi sozinha!

Charles: Isto parece a Queda.

Eva: Aí, foi quando o Patsy morreu, tudo aconteceu junto: um incrível enfrentamento das minhas próprias dúvidas sobre o meu canal e o seu significado. Enfrentei muitas dúvidas que eu tinha sobre a Fé. Foi muito difícil para mim enfrentar isto. Eu fiz; tive que enfrentar. Sabe, a Jane Roberts descreve isto também. De onde vem isto... Testes! Foi muito doloroso. Depois, a minha operação. É claro que eu pensei que era o fim da minha vida como mulher. Aconteceu tudo ao mesmo tempo. Eu tive sonhos premonitórios a respeito, na ocasião: sonhos tremendos, grandes, o que foi um período de total inquietação, de testes na minha vida. Digo que se eu não tivesse passado por testes, o Caminho nunca teria se desenvolvido.

Charles: Isto parece o teste final!

Eva: Sim. Primeiro o canal começou e as pessoas vieram e foi bom, e palestras adoráveis iniciaram e a ajuda foi dada. Embora num primeiro momento a ajuda tenha sido dada numa sessão de transe pois eu não tinha o conhecimento de uma helper. Aprendi a ser uma helper nas sessões de transe, quando recebia o Guia. Isto aconteceu durante um tempo, então vieram estes testes! A enorme revolução... A noite escura. Aí eu saí daquilo e foi isso.

Charles: E agora? A voz é uma nova mudança.

Eva: Começou na primavera, em maio do ano passado. Eu tive uma vivência incrível de Cristo no Centro. Eu contei para você. Depois disso, a energia ficou incrível. Aí, eu peguei o vírus e o carreguei durante meses; não conseguia me livrar dele. A laringite aconteceu há dois meses e está realmente entrando em um nível de uma nova energia. Mas não está horrível como da outra vez.

Charles: Está mais suave. Como é que o John entra nisso tudo?

Eva: O John entra através dos Alpert. O Bert Alpert era paciente do John. Ele veio um dia até o John. Trouxe vinte palestras e disse: "conheço uma médium que tem um canal fantástico." E quando o John ouviu a palavra médium ele quis ficar fora disto. Ele tinha muitas dúvidas. Mas o Bert disse: "Leia estas palestras." Aí o John disse: "OK." Então ele leu as palestras e ficou totalmente entusiasmado e disse que era incrível: era o que ele vinha procurando durante toda a sua vida. Disse: "Era tudo carne e não tinha batatas!"- foi esta a expressão que usou. Aí pediu o meu endereço para o Bert. Escreveu para mim; lembro-me com clareza. Voltei de Harkness no dia 4 de julho de 1966 e encontrei a carta do John Pierrakos: "Sou um psiquiatra de Nova Iorque e o material é muito incrível e eu gostaria de comprar todas as palestras e gostaria de falar com você." Foi assim que o conheci.

Charles: Foi assim que ele veio às palestras.

Eva: Sim.

Charles: E aí, posso perguntar quando foi que começou o romance?

Eva: Pode perguntar, não é nenhum segredo. Ele escreveu a carta e eu respondi e dei a informação de que as palestras estavam disponíveis e que, se ele quisesse me ligar, seria um prazer falar com ele. Então ele me ligou e nós marcamos um horário. E eu lembro que José me ajudou a reunir todas as palestras; não sei quantas palestras havia, talvez cento e cinqüenta. Preparamos todas as palestras e o John apareceu lá. De imediato eu tive uma incrível simpatia por ele. E começamos a conversar e ele me falou da sua vida. Aí falou que sentia que tinha traído Reich. Era o tipo da coisa que se diria no Caminho. Eu disse: "Meu Deus!" Eu gostara tanto dele. Disse: "Este homem é incrível." Depois eu soube que ele era casado e disse para mim mesma: "Esqueça isto, é ridículo." Foi como uma vivência subliminar. Havia um tipo de familiaridade a respeito, uma sensação de que era isto! E ainda assim, o meu consciente dizia: "esqueça!".

Charles: Parece uma tremenda reciprocidade.

Eva: Havia tanta identificação, tanto entendimento. Ele era exatamente como o homem que eu estava procurando, com a restrição de que era casado. Eu estava indo embora para Watchhill. E ele disse: "Vamos nos encontrar quando você voltar, eu gostaria de falar mais um pouco com você. E eu também gostaria muito de participar de uma sessão com o Guia e quero perguntar muitas coisas."

Ah, esqueci, houve uma outra coisa muito interessante. Mais ou menos um ano antes eu conheci uma mulher inglesa que lia mãos (geralmente eu não me interesso nem um pouco por isso) cujo nome era Diane Elliot. Ela me foi recomendada pela Rebecca Harkness. Ela me falou: "Vai nesta mulher, ela é fantástica." Ela tinha um pequeno apartamento no Carnegie Hall onde, mais tarde, recebemos as palestras durante um tempo. Fui até ela. Isto foi um ano ou dois antes de eu conhecer o John. Ela era uma mulher linda, muito espiritualizada. Assim que Diane entrou na sala - ela não me conhecia de Adam - me falou a respeito do meu canal espiritual. Disse: "Você tem uma energia fantástica." Depois disso ela leu as palestras. Aí ela olhou as minhas mãos e me falou coisas fantásticas sobre o meu passado, absolutamente tudo. Então, disse: "Você vai conhecer um psiquiatra neste verão que está muito envolvido com campos de energia e é muito científico. Ele não está só praticando a psiquiatria, mas está muito envolvido com os aspectos científicos da energia. E ele é viúvo e vocês vão se casar e ter uma relação fantástica, um casamento muito bonito. Quando você voltar deste verão você vai conhecer este homem e terá uma conversa com ele." (Isto foi em 1962-63) "e você vai achar a conversa com ele a mais estimulante que já teve."

E, é claro, eu tinha esperado este homem, e ele não tinha aparecido: 1963 nada, 1964 nada, 1965 nada. Eu disse: "Esqueça isto, não faz sentido." Desisti; esqueci completamente o assunto. Disse: "Você não pode acreditar nestas previsões." Ela era ótima no que se referia ao passado, mas não ao futuro. Eu ainda não acredito em previsões do futuro, mas uma vez que outra acontece. Então, de qualquer forma, eu tirei isto da minha cabeça. Aí, quando eu vi o John a Segunda vez, passamos uma tarde juntos e conversamos. No final da conversa ele disse: "Bem, esta foi a conversa mais estimulante que já tive!" E eu disse: "Ai, meu Deus, o que foi que você disse?" E ele: "Qual é o problema? Você não concorda?" Eu disse: "Sim." Eu não queria dizer nada a ele: eu ficava pensando o tempo todo: ele é casado! Esqueça!

Assim, conversamos e jantamos juntos e marcamos um horário para uma sessão com o Guia. Ele perguntou: "Quanto você cobra? Eu quero trabalhar com você. Preciso desta ajuda." Minha voz interior me disse: "Se você se envolver com ele como profissional, nunca poderá haver nada entre nós." E aí eu disse: "Não quero isto. Não cobro nada. Eu também quero aprender com você." Era isto mesmo que eu queria dizer, mas era uma voz interior: "Se ele vier como profissional vai ser o fim, eu sei disso! O meu sentimento era tão forte, e ainda assim o meu mental dizia: "ele é casado, esqueça isto!" Então ele participou de uma sessão com o Guia e, na sessão com o Guia foi informado de que um dos seus problemas era ser muito infeliz em seu casamento que não tinha saída. Esta foi a primeira vez que eu me abri para ele. E foi assim que começou.

Charles: Que bonito! Mais uma coisa que eu gostaria de perguntar: Arosa. Sei que tem um significado especial, imagino a palavra "arising" do inglês. ( N.T.: arising= que surge, emergente) Qual é o significado para você? E para todos nós em Arosa? Você não costumava ir lá quando jovem?

Eva: Eu não ia à Arosa quando era jovem. Em 1963 a minha mãe morreu. Enquanto ela ainda era viva, de 1961 a 1963, eu ia à Arosa todos os verões com a minha irmã para visitá-la. Combinávamos a visita com as férias. E em 1963 ela morreu. E aí, de alguma forma eu tive a idéia de, ao invés de irmos lá no verão, poderíamos ir nas férias de inverno esquiar. Então, em 1965, fomos à Arosa no inverno. Gostei tanto de lá que não consigo comparar a nenhum outro lugar. É cheia de paz, é bonita, é ensolarada e tem mil vantagens que outros lugares não têm. Eu fui fisgada. Naquele tempo, para mim, era um tempo de férias necessário para descanso, reabastecimento e regeneração.

Todas as férias eram sempre uma preparação para uma nova fase no Pathwork e em mim mesma. Então eu fui lá em 1965 e 1966 com a Miana. Em 1967 eu já conhecia o John, mas é claro que ele não foi - ele nunca tinha esquiado na sua vida. Durante os anos que eu o conheci, fui lá sem ele. Eu tinha uma coisa que eu queria mostrar aquilo para ele, queria compartilhar com ele. Mas quando eu falava para ele, ele não se interessava. Sendo da Grécia, serra e neve não tinham nenhum significado para ele. Mas eu sabia que seria incrível se ele visse aquilo. Em 1969 foi a primeira vez que ele foi. Foi também nesta época que ele deixou a sua primeira esposa e veio morar comigo. Aí ele viu, começou a esquiar, teve aulas. Depois de umas dez aulas ele começou a gostar. O tédio inicial tinha acabado. Depois, em 1970, fomos lá juntos sozinhos. Acho que a Miana estava lá também e depois apareceu o meu irmão para nos visitar. Foi uma experiência incrivelmente profunda para mim em todos os níveis: a beleza - externa e interna- a regeneração interior espiritual e a preparação para coisas novas. Então desejamos poder dividir isto com amigos. Assim, o Bill e a Clare, o Bert e a Moira foram os primeiros a ir. Foi assim que começou. Acho que eles foram a primeira vez em 1971 ou 1972, não tenho muita certeza.
Todos os anos tem uma abertura. E todos os anos alguma coisa nasce lá, como o Centro.

Charles: Eu poderia dizer que quando ouço a estória fico estupefato, pasmo com os potenciais de cada um de nós. É uma estória realmente inspiradora e me enche de poder.

Eva: Eu lhe digo que não conseguiria nem ser justa porque é tão difícil de explicar. O começo, e o tatear, e o quanto eu não sabia nada na época. Na verdade, muitas destas coisas eu tive que aprender de maneira árdua, por tentativa e erro. Eu acho que quando as pessoas sentem ciúme de mim porque eu tenho o Guia e acham que eles poderiam sentar e fazer o mesmo eles não fazem a mínima idéia. Muito embora, com certeza, é muito mais fácil para eles agora do que foi para mim então, porque o Caminho está esboçado e eles têm a ajuda. No início, no entanto, houve muitos testes e muitas coisas pelas quais passar. Mas valeu a pena mil vezes. Eu faria tudo de novo - até as coisas mais difíceis. Pelo que é.

Charles: O que me impressiona é a idéia de dar pequenos passos. É impressionante como você deu passos muito pequenos sem fazer idéia da distância a que chegaria.

Eva: Nenhuma!

Charles: Mas você levou tudo a cabo. Eu lembro quando eu comecei no Pathwork, há treze ou quatorze anos atrás, senti que ele tinha atingido o seu apogeu, sabe. A cada palestra eu dizia: "É isso! É isso!"

Eva: Depois de cinco anos eu disse: agora nós temos tudo. Eu não sabia o que mais o Guia poderia dizer. Não conseguia imaginar o que mais poderia ser dito.

Charles: Há uma citação famosa de um poeta que não lembro o nome. Ele disse: "Pessoas como você deveriam viver mil anos."

Eva: Que amor! Obrigada.

David Icke na TV, o retorno

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010



(subtitulado por Fabiocomplejo)

David Icke regresa al programa de Terry Wogan 15 años después de haber sido invitado por primera vez al show que cambió su vida para ése entonces, debido al gran ridículo que le hicieron pasar. Ésta vez David Icke invierte los papeles haciéndole saber a Terry y a su audiencia cuan equivocados estaban la primera vez que lo invitaron. Es una pieza clásica que cualquier seguidor del trabajo de Icke debe ver.

A Outra Face

Marcelo Bolshaw Gomes[1]

O trabalho conhecido como Método Pachwork para a Transformação do Eu Inferior é formado pela canalização das mensagens do Guia do Caminho pela médium Eva Pierrakos em um total de 258 palestras. Em português, as palestras foram compiladas nos livros: “O Caminho da Transformação” (2007) – com seus fundamentos teóricos, organizado por Judith Saly; e “Não temas o mal” (1993) organizada por Donovan Thesenga, com a parte mais prática do trabalho, que resumimos a seguir.

A primeira parte trata dos parâmetros de auto-observação, ensinando a reconhecer a criança irracional e infeliz que vive dentro de cada um de nós, a perceber as máscaras e as falsas soluções que adotamos na tentativa de vencer a vida; a segunda parte concentra-se no mal pessoal como origem da infelicidade.

A maioria das doutrinas e ensinamentos esotéricos incentiva o florescimento das virtudes e qualidades humanas. O Pathwork, no entanto, opta pelo caminho contrário, enfatizando a questão negatividade e incentivando seus usuários a expor o que eles têm de pior. O mal coletivo – que as religiões dualistas polarizam com o bem, enquanto outros afirmam não existir, sendo apenas uma ilusão – é para metodologia pathwork resultante da soma de todos os males pessoais. Se cada indivíduo ‘desse conta’ da própria negatividade, não haveriam guerras ou conflitos sociais em grande escala.

O mal é o elo perdido entre psicologia e religião. Enquanto a religião encara os erros humanos como falhas morais e pecados, decorrentes do caráter, a psicologia as vê defeitos resultantes dos conflitos com os pais e com a sociedade, eximindo seus portadores de responsabilidade. “A mudança pessoal então ocorre quando compreendemos a origem da programação negativa que os outros nos infligiram, vivenciamos todos os sentimentos envolvidos (fundamentalmente, a raiva e o pesar) e então perdoamos a fonte externa de nossa negatividade, da qual ainda sofremos. E isso é uma parte crucial do processo de transformação” (1993, 13). Para psicologia, não somos mais responsáveis pela própria negatividade; e, para religião, somos ‘culpados’.

Então, o ponto de partida do Pathwork é o seguinte: A felicidade não advém da satisfação externa dos desejos, ao contrário, é preciso ser feliz antes, “dentro”, e depois a vida externa se tornará satisfatória. “Se posso admitir que não sou apenas uma vítima do mal que há no mundo, mas sim o responsável pela negatividade – então, o que fazer a respeito?” Resolvendo meu problema de infelicidade pessoal, estarei resolvendo o problema da violência do mundo.

E como vencer a negatividade? a) localizar, aceitar e observar as próprias atitudes negativas; b) reconhecer que gosta da negatividade, que se está viciado nela; e c) perceber o preço (pessoal e social) que se paga pelo prazer negativo, suas causas e efeitos, seus resultados e conexões. Esse processo teria quatro estágios de percepção (1993, 190-191): 1) o semi-adormecido, no qual você não sabe quem é e lutar contra o que odeia em si (consciente e inconscientemente); 2) o primeiro despertar, quando você reconhece que não é aquilo que odeia e identifica seus aspectos negativos; 3) a percepção da consciência como você, que identifica, cria e articula os aspectos negativos; e, finalmente, 4) a compreensão, a dissolução e a integração dos aspectos negativos pela consciência.

Para a metodologia do Pathwork não há uma negatividade pura. Há uma única corrente com dois pólos. O mal é resultante das resistências em relação ao fluxo dos acontecimentos da vida. Por isso, é preciso tomar consciência tanto do desejo de saúde como do desejo de ficar doente é que produz a cura. Esse é o significado da frase: “Não resistas ao mal”. O negativo é sempre desejado por uma parte da personalidade e não por ela toda. É preciso saber que se quer as duas coisas – o positivo e o negativo – para se superar o conflito. O medo do positivo gera a negação. É preciso observar e aceitar o medo positivo para dissolver o negativo. (1993, 153) Por outro lado, se negadas, as emoções negativas tornam-se inconscientes. O medo de ter medo, negado, cria submissão. A raiva de ter raiva, negada, gera o ódio. A frustração repetida das expectativas produz a ansiedade permanente (1993, 201-202).

A identificação/negação da consciência com as formas estrutura o que chamamos de Ego. Há duas formas de compreender o ego: a oriental e a psicanalítica. A oriental deseja que ele seja transcendido pela consciência. Um belo exemplo atual dessa forma é a de Eckhart Tolle: “O ego é um conglomerado de formas de pensamento recorrentes e de padrões emocionais e mentais condicionados que estão investidos de uma percepção do Eu” (2007, 52-53).

Para Tolle, o Ego é o eixo do tempo/horizontal (uma sucessão de momentos – mas o passado só existe quando nos lembramos e o futuro só existe quando nós o imaginamos); a consciência (ou a presença, a sensação pessoal imediata) é o eixo místico agora/vertical.

A metodologia do Pathwork optou por outro modelo da noção de Ego:

FREUD

PATHWORK

XAMANISMO HAVAIANO

ID

Eu Inferior (corpo instintivo ou criança ferida).

Unihipili (criança/subconsciente)

EGO

Ego, Máscara ou Auto-imagem idealizada

Uhane (mãe/ consciente)

SUPERGO

Eu Superior (Centelha Divina)

Aumakua (pai/superconsciente).



Nesse modelo, o Ego ou máscara é uma mediação entre os dois Eus, inferior (sede dos impulsos instintivos) e superior (ou Centelha Divina): “Ocultando o Eu Inferior existe uma máscara, uma autoimagem idealizada, uma representação glorificada de quem achamos que deveríamos ser e que tentamos fingir que somos” (…) “são essas duas camadas da personalidade que escondem o Eu Superior”. (1993, 20).

Para o Pathwork, o Ego faz com que as atitudes das pessoas e as situações se repitam na vida aparentemente sem nenhuma responsabilidade por parte de seu portador-vítima, principalmente os Círculos Viciosos entre o amor egoísta inconsciente e o amor altruísta na consciência. A criança quer amor exclusivo dos pais, o que é humanamente impossível. A frustração deste anseio gera o sentimento de rejeição e … ódio, agressão, hostilidade, ressentimento. Gera-se assim um ciclo de amor e ódio. “Odeio quem eu amo”. Medo do castigo, medo da felicidade: o ódio de quem se ama gera a culpa (“eu mereço ser castigado) e daí o medo (inconsciente) de ser punido. Assim quando está feliz, a pessoa sente que não merece. A culpa por odiar aqueles quem mais ama faz com se evite a felicidade e acaba destruindo o que a pessoa mais deseja. A inadequação e a inferioridade aumentam a necessidade neurótica de ser amado. E mais: todos sofremos da compulsão de criar e superar as feridas infantis. Todo mundo quer ser mais amado do que amar. Escolhemos parceiros para tentar reproduzir e corrigir essa compulsão do “falso amor não correspondido”. “Inconscientemente, você saberá como escolher no parceiro aspectos semelhantes ao daquele dentre os pais que mais deixou a desejar em afeição e amor reais e genuínos”. (1993, 75) Você busca os pais novamente em seus relacionamentos: conjugue, amizades e parcerias. Você tentar reproduzir uma situação passada na tentativa de dominá-la.

(cont.)

PIERRAKOS, Eva; THESENGA, Donovan. Não temas o mal – o método Pachwork para transformação do Eu Inferior. Tradução Sérgio Luiz dos Reis Lasserre. São Paulo: Cultrix, 1993.

TOLLE, Eckhart. Um novo mundo: o despertar de uma nova consciência. Tradução Henrique Monteiro. Rio de Janeiro: Ed. Sextante, 2007.

[1] Professor de Comunicação da UFRN, doutor em Ciências Sociais.

"Seja a mudança que você procura" - Mahatma Gandhi.

Decantação de pensamentos

domingo, 26 de dezembro de 2010

Meditação é um processo de decantação dos pensamentos.

Meditação é o processo de escutar com profunda atenção a palavra de teu próprio Deus interior. Para isso basta decantar os pensamentos da mente.

Na verdade, na meditação, não há um eu e um deus interior. A ilusão da separatividade é desfeita.

A mente torna-se um ente, feito de silêncio e presença. A mente se torna um ente perfeitamente unificado pelo silêncio. Não está mais fragmentada em pensamentos diversos, naquele típico estado esquizóide.

Então aquilo mesmo que chamaram de voz do silêncio brota de dentro de você, vindo de parte alguma e ao mesmo tempo de todas as partes.

F.A.

2010, Apocalipse, Revelação e Wikileaks

26 Portanto, não os temais; porque nada há encoberto que não haja de ser descoberto, nem oculto que não haja de ser conhecido - Mateus, capítulo 10.

Dicionário Houaiss

lat.tar. apocalypsis,is, do gr. apokalúpsis,eós 'ato de descobrir, descoberta; revelação', no Novo Testamento 'revelação divina', de apkalúptó 'desmascarar, forçar a falar; fig. revelar'; f.hist. XIV apocalipsi, sXIV apocalise, sXV apocalipse, sXV apocalisse.

Ano de Imperatriz (2010 = 3, arcano da Imperatriz no Tarô) traz sempre suas revelações. 2001 foi marcado pelo projeto Disclosure, abafado pelo 11/09. 2010 é marcado pelas revelações do Wikileaks, pela identificação de nano-thermite nos escombros do 11/09 e pela afirmação de uma mídia livre que incomoda os poderes estabelecidos da NOM.

O documentário abaixo ilustra o que é o Wikileaks e revela, apesar da contra-informação que explora a paranóia e o medo, a face real desta organização.

"Este vídeo, apresentado pela TV estatal sueca (SVT), relata a criação e revela o modo de agir do Wikileaks, esclarecendo em especial como opera sua rede de colaboradores. É permeado por excelentes entrevistas em que o fundador do site, Julian Assange, expõe o que o animou ao projeto".

F.A.

obs: não deixem de ver a cena revelada aos 29 minutos deste vídeo.


Transmutação da Energia Sexual - 2ª parte

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mas que porra é esta?!?

Desculpem o linguajar chulo, mas se fosse usar uma linguagem mais formal, algo assim hermética-cabalística-gnóstica-thelêmica vocês iriam de novo perguntar:


- Mas que porra é esta?!?

E talvez ainda desse no saco...

Desculpem, desculpem agora não só pelo popular mas também pela dupla mensagem.

E um dos pontos principais aqui é justo a linguagem.

Reparem no termo:

Porra!

Não, não é o capitão Nascimento.

Calma, não quis ofender ninguém, cuidado com essa testosterona aí...

Consultemos o pai dos burros:

n substantivo feminino
1 Diacronismo: antigo.
clava com ponta redonda e reforço de ferro
2 pedaço de pau; porrete, cacete
3 Uso: tabuísmo.
o pênis
4 Uso: tabuísmo.
m.q. esperma
5 Uso: informal.
algo muito ruim; porcaria, merda
Ex.: vou jogar fora esta p. deste telefone celular
n interjeição
6 expressão de surpresa, espanto
Ex.: p.! que carrão você comprou!
7 expressa uma reação de dor ou aborrecimento
Ex.: p.! quem deixou essa pedra no caminho?

prov. de porro, vegetal de talo largo e um bulbo num dos extremos, sugerindo a comparação com um bastão de cabo grosso; Corominas comenta que um lat. *porrèa, de caráter adj., '(maça) semelhante a um porro (alho)', der. do lat. pòrrum ou porrus,i 'porro (alho)' poderia explicar o voc. port.; ver porr-

A palavra "porra" é rica na sua polissemia. Porra é uma palavra porreta e do alho mesmo.

O que nos interessa é o quarto significado.

4 Uso: tabuísmo.
m.q. esperma

Mas que porra é esta de tabuísmo???

Fala o Houaiss:

palavra, locução ou acepção tabus, consideradas chulas, grosseiras ou ofensivas demais na maioria dos contextos [São os chamados palavrões e afins, e referem-se ger. ao metabolismo (cagar, mijar, merda), aos órgãos e funções sexuais (caralho, pica, boceta 'vulva', colhão, cona, foder, pívia, crica, pachoucho etc.), incluem ainda disfemismos pesados como puta, veado, cabrão, paneleiro, expressões tabuizadas (puta que pariu) etc.]

Assim esperma e porra são sinônimos, só que porra é um tabuísmo de esperma.

Então falar: "mas que porra é esta?!?" é como "mas que esperma é este?!?". Convenhamos que a segunda frase perde todo o seu impacto.

Assim transmutação da energia sexual é a ciência e a arte da transformação de nosso esperma, ou ainda, a ciência e a arte da transformação da porra, mas cá entre nós, a segunda definição não cai nada bem.

Já pararam para pensar que em uma única ejaculação um homem saudável expressa a potência para repovoar o Brasil inteiro? Sim, como diz a velha música:

200 milhões em ação, pra frente Brasil, salve a seleção! De repente é aquela corrente pra frente,...

É quase como dizer que em uma única ejaculação, redunde ela num rebento ou não, você está cometendo um genocídio. Não, não se sinta culpado. Apenas reflita na potência vital que você carrega entre as pernas e no fato de toda essa potência ter sido simplesmente vulgarizada através da linguagem, da pseudo-religião e da falsa moral.

Fica a pergunta:

Por que razão ocorre uma espécie de vulgarização de algo que é simplesmente a nossa origem, a fonte formadora de nosso corpo, a fonte de nossa masculinidade e capacidade de criar vidas?

Continuaremos...

F.A.

obs: usei o "Houaiss" para a consulta ao dicionário

A excessiva preocupação com o mundo do dia a dia

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

“Seu mundo está chegando ao fim”, disse ele.
“É o fim de uma era para você.
Você acha que o mundo que sempre conheceu irá deixá-lo levar uma vida tranqüila,
sem nenhuma confusão ou balbúrdia?
Não! Ele irá contorcer-se sob seus pés e chicoteá-lo com sua cauda”.

Fui a Sonora ver don Juan. Tinha que discutir com ele o mais sério acontecimento de minha vida na ocasião. Necessitava de seus conselhos. Quando cheguei em sua casa, eu mal cumprimentei-o. Sentei-me e relatei-lhe apressadamente tudo o que me atormentava.

“Acalme-se, acalme-se”, disse don Juan. “Nada pode ser tão ruim assim”.

“O que está acontecendo comigo, don Juan?” Perguntei-lhe. A minha pergunta foi realmente eloqüente.

“Essas são as ações do infinito”, replicou ele. “Algo aconteceu com o seu modo de perceber as coisas no dia em que nos encontramos. Seu nervosismo é devido à percepção subliminar de que seu tempo terminou. Você percebeu isso, mas não está deliberadamente consciente do fato. Você sente a ausência do tempo, e isso o torna impaciente. Eu sei disso, pois o mesmo aconteceu comigo e com todos os feiticeiros de minha linhagem. Em certo momento, toda uma era em minha vida, ou nas deles, chegou ao seu final. Agora é a sua vez. Seu tempo simplesmente esgotou-se”.

Ele então exigiu um relato completo de tudo o que me acontecera. Disse que deveria ser um relato em que não deveria ser omitido nenhum detalhe. Ele não queria uma descrição superficial. Exigia que eu botasse para fora tudo o que estava causando aquele impacto e complicando toda a minha vida.

“Vamos ter a nossa conversa pelo modo como é conhecida em seu mundo, isto é, seguindo todas as regras”, disse ele. “Entremos no reino da conversa formal”.

Don Juan explicou-me que os xamãs do México antigo desenvolveram a idéia de conversas formais versus conversas informais, e que usavam as duas como instrumentos para ensinar e guiar seus discípulos. Conversas formais eram, para eles, sumários que faziam de tempos em tempos de tudo o que haviam ensinado ou dito a seus discípulos. Conversas informais eram elucidações diárias nas quais as coisas eram explicadas sem nenhuma referência a não ser ao próprio fenômeno que estava sendo cuidadosamente examinado.

“Os feiticeiros nada guardam consigo mesmo”, continuou ele. “Esvaziar a si mesmo dessa maneira é uma manobra dos feiticeiros. Isso os conduz a abandonar a fortaleza do ‘self’”.

Comecei minha história dizendo a don Juan que as circunstâncias de minha vida nunca permitiram-me ser introspectivo. Tão distante em meu passado que eu pude lembrar-me, minha vida diária foi sempre cheia até a borda de problemas pragmáticos que reclamavam minha interferência imediata para solucioná-los. Lembro-me de meu tio favorito dizendo-me que ficava abismado pelo fato de eu nunca ter recebido presentes pelo Natal ou pelo meu aniversário. Ele tinha vindo morar na casa da família de meu pai um pouco antes de fazer tal afirmação. Ele solidarizava-se comigo pela injustiça de minha situação. Até mesmo pedia-me desculpas, embora nada tivesse a ver com o meu caso.

“Isso é revoltante, meu rapaz”, disse ele, tremendo de emoção. “Quero que você saiba que estarei cem por cento ao seu lado sempre que for chegada a hora de reparar os malfeitos”.

Ele insistia uma vez atrás da outra que eu deveria perdoar as pessoas que fizeram coisas erradas para comigo. Pelo que ele disse, fiquei com a impressão de que ele queria que eu enfrentasse meu pai apontando-lhe aquelas coisas que ele descobrira e que, primeiro o acusasse de indolência e negligência e depois, é claro, que o perdoasse. Ele falhou por não perceber que eu não me sentia injustiçado de maneira nenhuma. O que ele pedia para que eu fizesse requeria uma natureza introspectiva de minha parte, a qual me faria reagir às farpas de ter sido maltratado psicologicamente, sempre que elas fossem destacadas para mim. Garanti para meu tio que iria pensar no assunto, mas não naquele momento, porque naquele mesmo instante minha namorada, que estava me esperando na sala de visitas, fazia sinais para que eu me apressasse.

Eu nunca tive a oportunidade de pensar sobre o que prometera, mas meu tio deve ter falado com meu pai, porque ele deu-me um presente, um pacote muito bem embrulhado, com fita e tudo, e mais, com um cartão onde estava escrito “Sinto muito”.

Eu, curiosa e ansiosamente, rasquei o papel do embrulho. Era uma caixinha de papelão com um lindo brinquedo dentro, um pequeno barco com uma chavinha de corda junto, colada à chaminé. Poderia ser usado para brincar quando se tomava banho em banheiras. Meu pai esquecera-se totalmente que eu já tinha quinze anos e que, praticamente, já era um homem.

Desde que eu atingira minha idade adulta sem ser capaz de, seriamente, realizar qualquer introspeção foi sem dúvida uma autêntica novidade quando um dia, anos mais tarde, encontrei-me às voltas com uma estranha agitação emocional, que parecia aumentar com o passar do tempo. Descartei-a, atribuindo-a a um processo natural da mente ou do corpo que entra em ação periodicamente, sem nenhuma razão aparente, ou que talvez seja provocada por processo bioquímicos dentro do próprio corpo. Não pensei nada mais sobre aquilo. A agitação, entretanto, cresceu e sua pressão forçou-me a acreditar que eu chegara a um momento de minha vida que requeria uma mudança drástica. Havia algo em mim que exigia uma reorganização de minha vida. Esse impulso para reorganizar tudo me era familiar. Havia sentido-o no passado, mas ele esteve adormecido por um longo tempo.

Estava comprometido com o estudo de antropologia, e esse compromisso era tão forte que deixá-lo de lado não fazia parte de minha proposta de mudança drástica. Não ocorrera-me deixar de lado a escola e fazer outra coisa qualquer, bem longe de LA. Antes que eu empreendesse uma mudança daquela magnitude, queria fazer certo tipo de teste. Envolvi-me inteiramente num curso de verão de uma escola de outra cidade. O curso mais importante para mim era o de antropologia, que seria ministrado por um professor que era a mais famosa autoridade em índios da região andina. Eu acreditava que se focalizasse minha atenção no estudo de uma área que era emocionalmente acessível a mim, teria uma melhor oportunidade em realizar sérias pesquisas antropológicas de campo, quando chegasse a hora certa. Achava que meu conhecimento da América do Sul me facilitaria o contato com qualquer sociedade indígena da região.

Ao mesmo tempo em que me matriculei no curso, consegui um emprego como assistente de pesquisa de um psiquiatra que era o irmão mais velho de um amigo meu. Ele queria fazer uma análise consistente de trechos de algumas fitas velhas onde foram gravadas sessões de perguntas e respostas com rapazes e moças a respeito de seus problemas causados por excesso de trabalho na escola, expectativas não realizadas, desentendimentos domésticos, namoros frustados, etc, etc. As fitas foram gravadas há mais de cinco anos e seriam destruídas, mas antes disso, foram marcadas com números ao acaso, e seguindo uma tabela com tais números, as fitas eram escolhidas a esmo pelo psiquiatra e seu assistente de pesquisa, para exame de alguns trechos.

No primeiro dia de aula na nova escola, o professor de antropologia falou sobre sua boa fé acadêmica e fascinou todos os alunos com o escopo de seu conhecimento e publicações. Ele era um homem alto e magro com seus quarenta e cinco anos e olhos azuis inquietos. O que mais me impressionou em sua aparência física foi o fato de que seus olhos pareciam enormes por causa das grossas lentes de seu óculos de míope, e também pelo fato de que um deles parecia girar em sentido oposto ao do outro quando ele movia a cabeça ao falar. Eu sabia que isso não poderia acontecer; era, entretanto uma imagem muito desconcertante. Ele era extremamente bem vestido para um antropólogo, que no meu tempo era alguém que se distinguia pela vestimenta super comum. Como exemplo, posso citar que os estudantes costumavam dizer que os antropólogos eram criaturas ocupadas em determinar a idade de tudo pelo carbono-14 e que nunca tomavam banho.

Por razões que desconheço, entretanto, o que realmente o distinguia não era sua aparência física, ou sua erudição, mas sim seu modo de falar. Pronunciava cada palavra tão claramente como eu nunca ouvira, e enfatizava algumas delas alongando-as. Tinha uma entonação marcadamente estrangeira, mas eu sabia que aquilo era uma afetação. Ele pronunciava certas frases como um inglês e outras como um pastor protestante. Fascinou-me à primeira vista, apesar de sua enorme pomposidade. Sua auto-importância era tão espalhafatosa que deixava de ser notada depois de cinco minutos do começo de sua aula, que eram sempre mostras bombásticas de conhecimento apoiadas por ousadas afirmações sobre si mesmo. Dominava seus ouvintes de maneira sensacional. Nenhum dos estudantes com quem eu conversei não sentia outra coisa senão suprema admiração por aquele homem extraordinário. Eu ansiosamente pensava que tudo estava correndo muito bem, e que aquela mudança para uma outra escola e outra cidade iria ser não apenas fácil e tranqüila, mas também extremamente positiva. Gostei muito de meu novo ambiente.

No meu trabalho, tornei-me completamente envolvido com a tarefa de ouvir as fitas, a ponto de entrar furtivamente no escritório e ouvir não apenas os trechos, mas toda a fita. O que me fascinava mais que tudo, no início, era o fato de que eu ouvia a mim mesmo falando em cada um das fitas. Com o passar das semanas e ouvir mais e mais fitas, minha fascinação transformou-se em verdadeiro horror. Cada frase que era pronunciada, inclusive as perguntas do psiquiatra, parecia minha. Aquelas pessoas falavam das profundidades do meu próprio ser. A repulsa que experimentei era algo inteiramente novo para mim. Nunca pensara que eu pudesse ser repetido indefinidamente em cada homem ou mulher cuja voz fora gravada nas fitas. Meu senso de individualidade, que foi plantado em mim desde meu nascimento, desmoronou-se sob o impacto dessa descoberta colossal.

Iniciei então um processo odioso de auto restauração. Inconscientemente fiz uma tentativa absurda de introspecção; tentei desvencilhar-me de meu dilema falando sem parar comigo mesmo. Reorganizei em minha mente todas as bases racionais possíveis que poderiam reafirmar meu senso de identidade, e depois expressei-as em voz alta para mim mesmo. Até mesmo experimentei algo bastante revolucionário para mim: acordei a mim mesmo várias vezes falando em voz alta durante meu sono, discursando acerca de meu valor e distinção.

Então, em um dia terrível, sofri outra explosão mortal. Nas horas silentes da noite, fui acordado por umas batidas insistentes em minha porta. Não eram batidas tímidas, educadas mas eram o que os meus amigos chamariam de “batidas da Gestapo”.

A porta estava quase vindo abaixo, depregando-se das dobradiças. Saltei da cama e olhei pelo olho-mágico. A pessoa que batia na porta era meu patrão, o psiquiatra. O fato de ser amigo de seu irmão mais novo parecia ter acabado com toda a cerimônia entre nós dois. Ele transformou-se em meu amigo íntimo sem nenhuma hesitação, e ali estava na porta de minha casa. Acendi a luz e abri a porta.

“Entre, por favor”, disse eu. “O que aconteceu?”

Eram três da manhã, e por seu rosto lívido e suas olheiras, percebi que ele estava profundamente agitado. Entrou e sentou-se. Seu orgulho e alegria, sua cabeleira preta e comprida, tudo estava espalhado em sua face. Ele não ligava para isso e não tentava pentear o cabelo para trás como sempre o fazia. Eu gostava muito dele, pois era uma versão mais velha de meu amigo de LA, com grossas sobrancelhas escuras, olhos castanhos penetrantes, queixo quadrado, e lábios grossos. Seu lábio superior parecia possuir uma dobra extra por dentro, e de vez em quando, ao sorrir de certa maneira, ele dava a impressão de ter o lábio superior duplo.

Ele sempre comentava sobre a forma de seu nariz, que ele descrevia como impertinente e peludo. Eu achava que ele era extremamente seguro de si, dogmático a perder de vista. Ele afirmava que em sua profissão, tais qualidades eram essenciais ao sucesso.

“O que aconteceu!” Repetiu ele em de zombaria, com seu lábio superior duplo tremendo incontrolavelmente. “Ninguém sabe o quanto me aconteceu esta noite”.

Sentou-se numa cadeira. Parecia tonto, desorientado, procurando pelas palavras. Levantou-se e foi até ao sofá, estirando-se nele.

“Eu não apenas tenho responsabilidade sobre meus pacientes,” continuou, “mas também pelas pesquisas, por minha mulher e meus filhos, e agora recebo outra carga desgraçada e o pior é que eu mesmo sou o culpado, com minha burrice em confiar numa vagabunda estúpida!

“Vou dizer para você, Carlos”, continuou ele, “não existe nada mais constrangedor, nojento, nauseante, que a insensibilidade das mulheres. Eu não sou alguém que deteste as mulheres, você sabe disso! Mas nesse momento tenho a impressão de que cada uma dessas vagabundas não passa disso, uma vagabunda. Vira folhas e vil!”

Eu não sabia o que dizer. Tudo o que ele estava dizendo não necessitava nem de aprovação e nem de negação. Eu não me atreveria absolutamente a contradizê-lo. Não tinha argumentos para tanto. Eu estava com muito sono. Queria voltar para a minha cama e continuar dormindo, mas ele continuou falando como se sua vida dependesse disso.

“Você conhece Theresa Manning, não conhece?” Perguntou-me ele de um modo forçado, acusatório.

Por um instante, acreditei que ele estivesse me acusando de ter algo a ver com a sua jovem e linda secretária estagiária. Sem me dar tempo para responder, ele continuou falando.

“Theresa Mannig é uma vagabunda. É uma simplória! É uma mulher estúpida e sem consideração que não tem outro incentivo na vida que enrolar as pessoas com um pouquinho de fama e notoriedade. Eu pensei que ela fosse uma mulher inteligente e sensível. Pensei que ela tivesse alguma coisa, alguma compreensão, alguma empatia, algo que pudesse ser compartilhado, ou mesmo guardado para si mesmo como um tesouro. Eu não sei, mas esse é o retrato de si mesma que ela pintou para mim, quando na realidade ela é indecente e degenerada, e mais ainda, posso acrescentar, uma mulher incuravelmente grossa”.

Enquanto ele continuava falando, uma estranha imagem começou a emergir.

Aparentemente o psiquiatra tinha apenas tido uma má experiência envolvendo sua secretária.
“Desde o dia em que ela começou a trabalhar para mim”, continuou ele, “eu percebi que ela sentia-se atraída sexualmente por mim, mas ela nunca manifestou isso.

Isso só era percebido nas indiretas e nos olhares. Bem, foda-se! Esta tarde eu me senti doente e farto de tanto fingimento e fui direto ao assunto. Subi até sua mesa e disse-lhe, ‘sei o que você quer, e você sabe o que eu quero....”

Ele então começou com uma enorme e elaborada falação de como ele esforçou-se para dizer a ela que a esperava em seu apartamento do outro lado da rua, às 23:30 e que não modificava suas rotinas para ninguém, que leu, que trabalhou, que bebeu vinho até uma da manhã, quando então foi para o quarto de dormir. Ele mantinha um apartamento no cidade bem como uma casa no subúrbio onde vivia com sua mulher e filhos.

“Estava muito confiante de que tudo iria dar certo e que seria uma noite memorável,” disse ele suspirando. Sua voz adquiriu o tom meloso de alguém que confidenciasse algo muito íntimo.

“Cheguei até mesmo a entregar-lhe a chave do meu apartamento,” disse ele com a voz em falsete.

“Muito obedientemente ela chegou às 11:30,” continuou ele. “Entrou no apartamento usando a chave que lhe dei, e esgueirou-se para quarto de dormir como uma sombra. Isso excitou-me terrivelmente. Sabia que ela não iria representar nenhuma dificuldade para mim. Ela sabia qual era o seu papel. Provavelmente ela pegou no sono ao deitar-se na cama. Ou talvez tenha ficado vendo TV. Eu fiquei envolvido em meu trabalho, e não me importei com o que estivesse acontecendo com ela. Sabia que ela estava no papo.

“Mas no momento em que fui para o quarto,” continuou ele, com sua voz tensa e contrita, como se tivesse sido moralmente ofendido, “Theresa pulou em cima de mim como um animal e pegou meu pênis. Ela nem mesmo me deu tempo para colocar no chão a garrafa e os dois copos que estava segurando. Tive agilidade suficiente para colocar no chão meus dois copos de cristal sem quebrá-los. A garrafa rodou pelo assoalho quando ela agarrou meus bagos como se eles fossem pedras. Eu tentei bater nela. Na verdade berrei de dor, mas isso não afetou-a. Ela dava risadas como se tivesse louca, pensando que eu estivesse me fazendo de atraente e sexy. Ela disse isso, como para me conter”.

Balançando a cabeça com uma raiva contida, ele disse que aquela mulher estava tão faminta sexualmente e era tão egoísta que não levou em consideração que o homem necessita de um momento de paz, que necessita de sentir-se à vontade, como se estivesse em casa, num ambiente amigo. Em lugar de mostrar consideração e compreensão, como exigia o seu papel, Theresa Manning tirou os seus órgãos sexuais para fora de suas calças com a perícia de alguém que tivesse feito isso centenas de vezes.

“O resultado de toda essa merda”, disse ele, “foi que minha sensualidade retraiu-se com horror. Eu fiquei emocionalmente brocha. Meu corpo abominou aquela vagabunda instantaneamente. Mesmo assim, minha luxúria impediu-me de jogá-la no olho da rua”.

Ele disse que decidiu então que, em lugar de ficar miseravelmente vexado com a sua impotência, como era a sua tendência, ele iria fazer sexo oral com ela, e fazer com que ela tivesse um orgasmo – ou seja, colocá-la sob seu controle – mas seu corpo rejeitou aquela mulher tão completamente que ele não pôde fazer aquilo.

“A mulher não era mais nem mesmo bonita”, disse ele, “mas era uma mulher comum. Quando vestida, seu vestido disfarçava o volume de suas ancas. Ela realmente parecia OK. Mas quando nua, é um saco volumoso de carne branca! A elegância que ela mostra quando vestida é falsa. Não existe”.

O veneno jorrava do psiquiatra numa quantidade que eu nunca poderia imaginar. Ele tremia de raiva. Ele queria desesperadamente parecer calmo, e fumava um cigarro atrás do outro. Ele disse que o sexo oral era muito mais enlouquecedor e nauseante, e que ele estava quase vomitando quando aquela vagabunda deu um soco em sua barriga, rolou-o para fora de sua própria cama fazendo com que ele caísse no chão, e ainda chamou-o de fresco e brocha.

Nessa altura de sua narrativa, os olhos do psiquiatra estavam flamejantes de ódio. Sua boca estava trêmula. Ele ficou extremamente pálido.

“Tenho que usar o seu banheiro”, disse ele. “Necessito tomar um banho. Estou fedendo a fumaça de cigarro. Acredite ou não, peguei também um cheiro de vagina”.

Ele chorava abertamente e eu daria qualquer coisa do mundo para não estar ali. Talvez fosse o meu cansaço, ou a natureza mesmérica de sua voz, ou ainda a futilidade daquela situação que tenha criado a ilusão de que eu não estava ouvindo a voz de um psiquiatra, mas sim a voz de um suplicante masculino de uma de suas fitas reclamando de um probleminha que foi transformado em algo sério pela repetição obsessiva do mesmo. Meu tormento terminou por volta das nove horas da manhã. Era hora de ir para minhas aulas e hora para o psiquiatra ir embora e ver até onde havia se rebaixado.

Fui para a escola então com a enorme carga de uma ansiedade que me queimava por dentro, e com uma tremenda sensação de desconforto e impotência. Lá eu recebi o golpe final, golpe que causou uma tentativa de minha parte de uma mudança drástica que quase provocou meu colapso final. Nesse colapso não estava incluída nenhuma parte de minha vontade, e ele surgiu como se tivesse sido programado de antemão, sendo seu desenrolar acelerado por alguma causa desconhecida.

O professor de antropologia começou sua palestra sobre um grupo de indígenas do altiplano do Peru e Bolívia, os aymarás. Ele chamava-os de “ei- Má- ras”, alongando o nome como se sua pronúncia daquele nome fosse a única certa em todo o mundo. Ele disse que a preparação da chica, que é pronunciada como “CHEE-cha”, mas que ele pronunciava como “CHAHI-cha”, uma bebida alcoólica feita do milho fermentado, era do domínio de uma seita de sacerdotisas, consideradas semidivinas pelos aymarás. Ele disse, num tom de revelação, que tais mulheres tinham a seu cargo preparar o milho cozido transformando-o numa papa a ser fermentada, e que faziam isso mastigando e cuspindo o milho, adicionando à papa, desse maneira, a enzima que existe na saliva humana. Toda a classe recolheu-se com um horror contido quando ele mencionou tal fato.

O professor pareceu estar se deliciando ao máximo. Ele dava risadinhas a prestação. Era como um risinho desagradável de um bebê. Ele continuou dizendo que as mulheres eram mastigadoras peritas, e chamava-as de as “chahichas mastigadoras”. Ele olhou para as pessoas da primeira fileira da sala, onde estava sentada a maioria das jovens alunas, e desferiu seu golpe de misericórdia.

“Tive o p-r-r-ivilégio”, disse ele com uma estranha entonação como se fosse um estrangeiro, “de ser convidado a dormir com uma das mastigadoras chahi-cha. A arte de mastigar a papa do chahi-cha faz com que elas desenvolvam os músculos faciais e ao redor da garganta ao ponto de que elas possam fazer maravilhas com eles.”

Ele olhou para a sua platéia atônita e fez uma longa pausa, salpicando-a com os seus risinhos maliciosos. “Estou certo de que vocês perceberam o que insinuo,” disse ele, e então começou a dar acessos de risadas histéricas.

Toda a classe ficou louca com as indiretas do professor. A palestra foi interrompida por pelo menos cinco minutos de risadas e uma enxurrada de perguntas que o professor declinou-se de responder, emitindo outros risinhos estúpidos.

Eu senti-me tão oprimido pela pressão das fitas, pela história do psiquiatra e pelas “mastigadoras chahi-cha” do professor que numa tacada instantânea desisti do emprego, da escola e voltei para LA.

“O que quer que tenha me acontecido por causa do psiquiatra e do professor de antropologia”, disse para don Juan, “lançou-me num estado emocional desconhecido.

Eu só posso chamá-lo de introspeção. Tenho falado comigo mesmo sem parar”.

“A sua doença é muito simples”, disse don Juan, tremendo de tanto rir. Aparentemente deliciava-se com minha situação. Era um deleite do qual eu não podia participar, porque não encontrava nenhuma graça nele.

“Seu mundo está chegando ao fim”, disse ele. “É o fim de uma era para você.

Você acha que o mundo que sempre conheceu irá deixá-lo levar uma vida tranqüila, sem nenhuma confusão ou balbúrdia? Não! Ele irá contorcer-se sob seus pés e chicoteá-lo com sua cauda”.