Zumbis com um belo sorriso: flúor.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Flúor, veneno ou remédio? Parte 1

O flúor é um gás amarelo, venenoso e altamente corrosivo. É utilizado industrialmente para matar micróbios, mas também mata nossas células. O flúor é altamente reativo, por isso nunca se encontra puro na natureza, mas sempre combinado com outros elementos. Ele é tão reativo que pode corroer até o vidro, aço, ferro e alumínio. Juntamente com o mercúrio, o flúor encontra-se na lista das substâncias mais venenosas do planeta.

O flúor, quando combinado a certos elementos químicos, é utilizado em várias áreas da atividade humana. O ácido fluorídrico (flúor e hidrogênio em água) é utilizado na indústria. Já o fluoreto de sódio encontra-se, em alta concentração, em venenos de rato e pesticidas; ao passo que em concentração mais baixa, ele é adicionado à sua pasta de dente. Outro composto de flúor, denominado hexafluorosilicato de sódio é adicionado à nossa água potável. Os especialistas afirmam, categoricamente, que a substância não é apenas segura, mas também previne cáries e melhora a saúde dos dentes. Por isso, a sua adição à água se tornou compulsória no Brasil! (Ver a parte de legislação no menu ao lado).

Os especialistas mencionam estudos comparando os índices de cáries em áreas fluoretadas versus não-fluoretadas, e que alegam demonstrar reduções dramáticas nas cáries em crianças, com diferenças de até 60%.

Se isso fosse verdadeiro e se o flúor fosse, de fato, um composto seguro, estaríamos diante de uma substância milagrosa. Mas ainda assim, não se justificaria acrescentá-la compulsoriamente à água que bebemos. Nós estamos todos sendo medicados, sem o menor direito de opção. E como veremos a seguir, os indícios de que o flúor na água realmente diminui as cáries não são tão confiáveis. Além disso, diversos estudos demonstram, convincentemente, que a incidência de cáries é mais alta em regiões fluoretadas.

No início do século 20, constatou-se, nos Estados Unidos, que crianças que habitavam certas regiões possuíam índices mais elevados de problema de manchas no esmalte dos dentes, que mais tarde passou a se chamar fluorose dentária. Estudos posteriores revelaram que a fluorose dentária era causada por altas concentrações de flúor que ocorriam naturalmente em alguns sistemas hídricos. Tais descobertas fizeram com que, em 1930, a Sociedade Odontológica Americana (American Dental Society) e o Departamento de Saúde Pública dos Estados Unidos, na pessoa do epidemiologista e dentista responsável, Dr. Trendley Dean, agissem em conjunto no sentido de retirar o flúor daquelas águas.

Naquela mesma década, um outro personagem, o químico Gerald Cox, que trabalhava no Instituto Mellon (a família Mellon era proprietária da Aluminum Company of America, ALCOA), empunhou a bandeira de que uma pequena dose de flúor poderia não apenas evitar a fluorose dentária, mas também as cáries. Ele fez essas afirmações sem o embasamento de nenhum estudo sério - nem sequer em animais - e sugeriu que o suplemento de flúor poderia ser seguro e eficaz.

Coincidentemente, um dos maiores dejetos da indústria de alumínio é o flúor. Devido à sua característica extremamente corrosiva e tóxica, a destinação do flúor era, na época, uma atividade perigosa e controversa, que custava milhões de dólares.

Coincidentemente - mais uma vez - o fundador da ALCOA, Andrew Mellon, era também o Secretário do Tesouro dos Estados Unidos no início da década de 1930.

E na época, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos era controlado pela Secretaria do Tesouro.

Na segunda metade da mesma década de 1930, o Dr. Trendley Dean, aquele que retirou o flúor das águas contaminadas, acabou apoiando a adição de uma parte por milhão de flúor à água, como sendo um método eficaz de redução de cáries.

Em 1o. de outubro de 1944, o Journal of the American Dental Association também advertiu que "os potenciais danos pesavam mais que os potenciais benefícios". Naquele mesmo artigo, a Associação Odontológica Americana reconheceu que até mesmo concentrações de 1,2 a 3 ppm de flúor na água potável, poderiam estar associadas a "distúrbios do desenvolvimento dos ossos, como osteoesclerose, espondilose e osteoporose".

Apesar de todas essas advertências, o Dr. Gerald Cox convenceu um dentista do estado de Wisconsin, Dr. J. J. Frisch, a promover ativamente a fluoretação da água potável, chegando a escrever um livro intitulado "A Luta Pela Fluoretação". Segundo os historiadores, o dentista levou a bandeira adiante com um fanatismo religioso, transformando a questão em uma cruzada política.

Segundo os registros das Audiências do Comitê Norte-Americano de Comércio Interestadual e Estrangeiro ocorridas entre 25 e 27 de maio de 1954, a ALCOA contratou, em 1944, um grande advogado, Oscar Ewing, por um mega-salário anual de 750 mil dólares, apesar da empresa não estar enfrentando, à época, grandes processos judiciais. Em 1947, por mais uma dessas coincidências, o advogado deixou empresa para aceitar o cargo de Administrador da Agência Federal de Segurança Norte-Americana. Uma das subsidiárias dessa agência era o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, que na década de 1930 se encontrara sob o controle direto de Andrew Mellon da ALCOA. O advogado fez grande alarde sobre sua saída altruísta de um emprego tão bem pago, para servir o povo em um cargo público. E lançou, ao mesmo tempo, uma campanha nacional vigorosa no sentido de promover a fluoretação de todo o fornecimento de água dos Estados Unidos.

A campanha de fluoretação era um desafio gigantesco, de modo que Oscar Ewing contratou o maior mestre em relações públicas dos Estados Unidos: Edward L. Bernays. Ele é conhecido, até hoje, como o "Pai das Relações Públicas". Viveu 104 anos, de 1891 a 1995. Judeu austríaco de nascimento, ele era, entre outras coisas, sobrinho de Sigmund Freud, o pai da psicanálise. No seu mais importante livro, intitulado "Propaganda", Bernays afirma: "A manipulação consciente e inteligente da opinião e dos hábitos das massas é um elemento importante na sociedade democrática. Seus manipuladores constituem um governo invisível dono do verdadeiro poder de comando sobre o país. Nós somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formados, nossas idéias são sugeridas, na maioria das vezes, por pessoas que nunca ouvimos falar. (...) Em quase todos os momentos da nossa vida, quer na política, quer nos negócios, quer no nosso comportamento social ou pensamento ético, nós somos dominados pelo número relativamente pequeno de pessoas (...) que compreendem os processos mentais e padrões sociais das massas. São essas pessoas quem manipulam os botões que controlam a mente pública." Além de seu trabalho na campanha da fluoretação para o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, ele trabalhou para um presidente dos Estados Unidos, para a Procter & Gamble, a CBS, a General Electric e a Companhia Americana de Tabaco, entre outros. A rota que ele visualizou para o sucesso da campanha de fluoretação envolvia, necessariamente, a aprovação da área médica e odontológica. Uma vez conquistada tal aprovação, a opinião pública se tornaria favorável.

Utilizando todo o seu poder e influência, a equipe de fluoretação do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos convenceu a prefeitura da cidade de Grand Rapids, em Michigan, a permitir que se fluoretasse o seu suprimento de água. Uma outra cidade, chamada Muskegon, não fluoretada, serviria de controle para comparar o experimento. O projeto teve início às 4 horas da tarde do dia 25 de janeiro de 1945 (apenas 3 meses após a publicação das advertências no Journal of the American Dental Association) e assim, Grand Rapids seria a primeira cidade da história a adicionar flúor à água potável. É importante observar que o projeto foi levado a cabo na ausência de quaisquer estudos publicados sobre a segurança em se adicionar flúor ao suprimento hídrico daquela cidade. Os seus habitantes se tornaram cobaias involuntárias.

Os opositores da fluoretação foram rapidamente rotulados pelos mestres em relações públicas como sendo radicais, extremistas e paranóicos. De repente, a American Dental Association e o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos começaram a apoiar a fluoretação indiscriminada, até mesmo antes de um único estudo do experimento de Michigan haver sido completado, demonstrando a segurança do procedimento ou a redução da incidência de cáries. Certamente que havia uma ótima razão para não se esperar pelos resultados finais: os resultados iniciais já demonstravam claramente que a incidência de cáries de Muskegon (não fluoretada) caira tanto quanto a de Grand Rapids (fluoretada). Aliás, as estatísticas mundiais demonstram que as cáries já estavam diminuindo em todos os países industrializados, muito antes da fluoretação, devido às melhores condições de nutrição e higiene.

As contradições acima foram reconhecidas e documentadas em 1952 por um Deputado Federal do estado de Nebraska, Arthur Lewis Miller, que também era presidente do Comitê Especial de Substâncias Químicas nos Alimentos. Ele registrou a estranheza pelo amplo apoio da alta hierarquia do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos à fluoretação, apenas 3 meses após a publicação de advertências recomendando extrema cautela. Ele também comentou a posição extremamente conveniente de Oscar Ewing como Administrador da Segurança Federal e advogado da ALCOA, empresa ansiosa por se livrar do lixo tóxico que é o flúor.

No livro que escreveu sobre esse assunto (Fluoride: The Aging Factor), o Dr. John Yiamouyannis (Ph.D. em bioquímica, membro da International Society of Fluoride Research, ex-membro do corpo editorial da revista Fluoride e descobridor da relação entre flúor e câncer) conta que os dentistas dissidentes recebiam censuras ou até chegavam a perder o seu registro pela Associação Americana de Odontologia. Conta também que os cientistas da área eram controlados pelas verbas de pesquisa do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, e todos aqueles que criticavam a fluoretação viam suas verbas secarem. Essa tática, por sinal muito eficiente, ainda é utilizada em muitas outras áreas da ciência totalmente politizada dos dias de hoje.

Na década de 1960, o Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos contratou um especialista em fluoretação chamado John Small, cujo trabalho era cortar pela raíz toda e qualquer crítica com relação à fluoretação, nem que para isso precisasse perturbar a vida, intimidar e até destruir a carreira profissional de qualquer um que falasse publicamente sobre os perigos da fluoretação. O próprio Dr. John Yamouyannis, à época editor do maior serviço mundial de informações químicas, o Chemical Abstracts Service, conta em seu livro que, após escrever revisões científicas contendo críticas à fluoretação, o Dr. John Small entrou em contato com o seu superior, que por sua vez o advertiu que estaria ameaçada uma verba federal de 1 milhão e cem mil dólares, caso ele não cessasse suas críticas à fluoretação. Após diversas advertências, e não tendo diminuído a divulgação da verdade sobre os perigos da fluoretação, o Dr. Yamouyannis foi forçado a pedir demissão. Em 1978, seus testemunhos perante os tribunais do estado da Pensilvânia convenceram o juiz a proibir a fluoretação de todo o suprimento de água da região.

Imediatamente em seguida, em 1979, a Associação Americana de Odontologia publicou um artigo, conhecido como "White Paper on Fluoridation", uma espécie de bíblia que estabeleceu os parâmetros sobre como lidar com inimigos da fluoretação dali por diante. Os opositores seriam oficialmente rotulados como não qualificados para opinar sobre o assunto. Diz o artigo: "Os dentistas, individualmente, devem se convencer de que não precisam estar a par dos relatos científicos sobre fluoretação, para que se tornem participantes ativos da mesma; sendo que a não-participação configura flagrante negligência". Em outras palavras, feche os olhos para o que diz a ciência e faça como nós mandamos. O artigo sugere aos dentistas que convençam seus pacientes que atuam na política, durante as consultas, a respeito das virtudes e eficácia da fluoretação.

E sugere que a Agência de Proteção Ambiental, o Centro de Controle de Doenças, os Centros Nacionais de Estatísticas de Saúde, o Instituto Nacional de Pesquisas Odontológicas e as sociedades odontológicas estaduais americanas trabalhem em conjunto na implementação da fluoretação.

O mesmo artigo contém até uma sugestão de como traçar o perfil de comportamento dos opositores, de modo a lidar melhor com eles. Os debates públicos sobre a segurança da fluoretação deveriam ficar a cargo do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos e dos departamentos de saúde dos estados, os quais assegurariam ao público que não existem estudos indicando problemas com a adição de pequenas quantidades de flúor à água. Obviamente, isso não é verdade. Desde a década de 1960, há estudos científicos mostrando que a substância pode ser tóxica até mesmo dentro das baixas concentrações propostas.

Em 1974, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos estipulou a concentração máxima permissível de flúor como sendo de 1,4 ppm para regiões de clima mais quente e 2,4 ppm para regiões mais frias. A razão da disparidade se deve ao acúmulo da substância tóxica, a qual permanece no organismo por muito tempo após a ingestão. No caso do flúor, a preocupação é com acúmulos nos ossos. Pessoas que moram em regiões mais quentes bebem mais água e, portanto, ingerem e armazenam quantidades maiores de flúor, em comparação aos habitantes de regiões mais frias.

A Associação Odontológica Americana (American Dental Association) não se conformou com o fato da Agência de Proteção Ambiental considerar como sendo quase tóxicos os níveis de flúor adicionados à água potável, e pediu a ela que elevasse os critérios de concentração tóxica para 8 ppm, a fim de diminuir eventuais temores com relação ao programa de fluoretação. Em resposta, a Agência de Proteção Ambiental instaurou uma comissão de inquérito, convidando representantes da Associação Odontológica para depor.

Durante as audiências, foi exibida a foto de uma criança com os dentes horrivelmente quebrados e repletos de erosões causadas pela fluorose, após exposição a 4 ppm de flúor proveniente de uma fonte natural. A representante da Associação Odontológica, Dra. Lisa Watson, em seu depoimento, declarou que tal caso não se tratava de um problema de saúde significativo, mas apenas de um problema meramente cosmético. O inquérito colheu, também, um relatório do governo americano afirmando que a fluorose dentária jamais ocorria com níveis de flúor abaixo de 2 ppm - o que não é verdade.

Ao final do inquérito, a Agência de Proteção ambiental não se convenceu e recusou-se, por 10 votos a 2, a elevar os limites tóxicos para 8 ppm, mantendo os limites em 1,4 a 2,4. Porém, mais tarde, graças a influências da indústria e do governo, e sem o conhecimento nem o consentimento da comissão de inquérito, acabou-se por elevar o limite de toxicidade para 4 ppm.

FLUOR REMÉDIO OU VENENO? Parte 2

Conforme explicado na primeira parte, iniciou-se, cerca de 60 anos atrás, um grande movimento, por parte das autoridades americanas, no sentido de se adicionar o flúor à água potável de toda a população. O Brasil acabou aderindo a esse movimento. Hoje, a adição do flúor à água é obrigatória.

No entanto, uma série de documentos que foram mantidos em sigilo por mais de 50 anos pelo governo dos Estados Unidos, sob a alegação de "segurança nacional", foram liberados, descobertos e levados ao conhecimento público em 1998 pelos jornalistas norte-americanos Joel Griffiths (especializado em assuntos médicos, radicado em Nova York, autor de trabalhos sobre os primeiros experimentos com radiação em seres humanos) e Chris Brighton (detentor de mestrado em jornalismo e repórter independente para uma série de emissoras, como o canal público de televisão de Nova York, a ABC-TV e a rádio BBC). Como veremos abaixo, tais documentos trazem um novo enfoque às origens das medidas até hoje controversas, no sentido de fluoretar compulsoriamente a água da população. Ao mesmo tempo, revelam a conexão entre a fluoretação e o início da era nuclear. As alegações de que a fluoretação é segura e, principalmente, a obrigatoriedade da mesma, precisam ser revistas em função de documentos do Projeto Manhattan - programa militar ultra-secreto dos Estados Unidos, da época da 2a Guerra Mundial, e que resultou na fabricação da primeira bomba atômica. Segundo essa documentação, cientistas envolvidos no programa nuclear dirigiram e moldaram, secretamente, os primeiros experimentos de fluoretação.

De acordo com tais documentos, o flúor era, um componente-chave para a produção da Bomba. Quantidades imensas da substância, da ordem de milhões de toneladas, eram e continuaram sendo necessárias para a fabricação de urânio e plutônio, durante todo o período da guerra fria.

O flúor, substância entre as mais tóxicas conhecidas pelo homem, acabou despontando, na época, como sendo a principal ameaça à saúde em conseqüência do programa da bomba atômica, tanto para as pessoas envolvidas em sua fabricação, quanto para as populações vizinhas.

Coincidentemente, os documentos revelam que a maioria das "provas" de que o flúor seria seguro em baixas doses, foi gerada por cientistas envolvidos no Projeto Manhattan, e que receberam, secretamente, ordens para providenciar "evidências úteis em caso de litígio" da população contra empresas emissoras de flúor na atmosfera. Por incrível que pareça, segundo tais documentos, os primeiros processos judiciais contra o programa nuclear americano não foram por causa da radiação, mas sim do flúor!

Era preciso que se realizassem estudos em seres humanos. Os pesquisadores do programa nuclear lideraram a implementação do mais extenso de todos os estudos sobre os efeitos da fluoretação da água potável, na cidade de Newburgh, estado de Nova York, entre 1945 e 1955. Em uma operação ultra-secreta que recebeu o codinome "Programa F", eles analizaram, secretamente, o sangue dos habitantes, com a cooperação da Secretaria Estadual da Saúde de Nova York. A versão original (e que foi mantida sigilosa por 50 anos) de um estudo realizado por esses cientistas e publicado na edição de agosto de 1948 do Journal of the American Dental Association (vol. 37, no. 2, págs. 131-140), revela que a divulgação dos efeitos adversos do flúor foi censurados pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos por razões de "segurança nacional".

Os estudos da segurança do flúor foram conduzidos na Faculdade de Medicina da Universidade de Rochester - a mesma onde ocorreu um dos mais notórios experimentos de radiação do período da Guerra Fria, no qual pacientes receberam, sem seu conhecimento, injeções de plutônio radioativo - com os mesmos padrões éticos, em que prevalecia a "segurança nacional".

O conflito de interesses do governo dos Estados Unidos, bem como a sua motivação no sentido de comprovar a segurança do flúor em meio ao furioso debate sobre o assunto, iniciado na década de 1950, somente veio à tona há pouco tempo. O conteúdo dos documentos, liberados do sigilo, começa a se tornar conhecido por profissionais de saúde, pela mídia e pela população mundial, gerando grandes dúvidas a respeito dos efeitos do flúor no ambiente.

A ingestão do flúor vem aumentando nas últimas décadas, não apenas por causa da água e das pastas de dentes fluoretadas, mas também pela poluição industrial. O impacto pode ser visto nos sorrisos das pessoas. De acordo com dados do Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos, a fluorose dentária, cujo primeiro sinal visível são manchas ou listras esbranquiçadas nos dentes da frente, chega a atingir 80% das crianças em algumas cidades. Um problema menos divulgado é que o flúor também se acumula nos ossos. Ortopedistas pediátricos vêm manifestando preocupação quanto ao aumento das chamadas fraturas de stress em crianças e adolescentes nos Estados Unidos. Fraturas de stress são aquelas que os ossos se quebram expontaneamente, pelo simples ato de pular ou correr.

A Dra. Phyllis Mullenix, ex-chefe de toxicologia do Forsyth Dental Center em Boston, realizou pesquisas com animais e concluiu, no início da década de 1990, que o flúor poderia possuir um efeito muito tóxico para o sistema nervoso central e interferir na função do cérebro, mesmo quando administrado em baixas dosagens. Seu estudo, intitulado "Neurotoxicidade do Fluoreto de Sódio em Ratos, foi publicado em uma revista científica (Neurotoxicology and Teratology, vol. 17, no. 2, págs. 169-177). Espantada com a incrível escassez de estudos científicos sobre esse assunto, a pesquisadora solicitou verbas dos Institutos Nacionais de Saúde (National Institutes of Health) no sentido de dar continuidade às suas pesquisas.

Qual foi a surpresa dela, quando seu pedido foi recusado, sob a alegação de que "o flúor não possui efeitos negativos no sistema nervoso central".

Os documentos desarquivados do Projeto Manhattan mostram o contrário. Lê-se, em um memorando carimbado com a palavra "SECRETO", datado de 29 de abril de 1944: "Evidências clínicas sugerem que o hexafluoreto de urânio pode ter um efeito marcante no sistema nervoso central (...) Parece mais provável que o fator causador de tais efeitos seja o componente F [símbolo do flúor]". O memorando foi escrito por um capitão do corpo médico, para o chefe da área médica do Projeto Manhattan, Coronel Stafford Warren.

Lê-se, também, no memorando, um pedido para que seja aprovada uma certa proposta, em anexo, para pesquisa em animais. Tal proposta, anexada ao memorando, fora feita pelo chefe dos estudos de toxicologia do flúor da universidade de Rochester, Dr. Harold C. Hodge. A proposta em si não se encontra à disposição do público, portanto deve estar sendo mantida em sigilo até hoje. Diz o memorando, referindo-se a ela: "Sendo essencial o manuseio desses compostos químicos, torna-se necessário conhecer, de antemão, os possíveis efeitos mentais após a exposição (...) Isso se aplica não apenas para proteger um dado indivíduo, mas também para evitar que um operário com sintomas de confusão mental venha a causar danos a outros, graças ao cumprimento inadequado de suas funções".

No mesmo dia, a proposta foi aprovada. O ano era 1944. A 2a. Guerra Mundial estava no auge e os esforços para a construção da bomba atômica eram totais. Para que fossem aprovadas, naquele momento, pesquisas sobre os efeitos do flúor no sistema nervoso, o que quer que estivesse escrito naquela proposta deveria ter sido muito convincente. Porém, apenas o memorando, e não a proposta, se tornou público.

Interessante observar que a Dra. Mullenix teve sua proposta de pesquisa recusada em 1995 por um órgão governamental que tinha posse de tais documentos, e ainda assim alegou a ausência de efeitos do flúor no sistema nervoso central.

Meio século após o memorando, a Dra. Mullenix foi apresentada a um cientista que serviria de consultor para suas pesquisas com o flúor. O nome dele era Harold C. Hodge. Declara a Dra. Mullenix em sua entrevista aos jornalistas Joel Griffiths e Cris Bryson: "Embora devesse estar me ajudando, ele jamais mencionou a pesquisa realizada por ele mesmo para o Projeto Manhattan".

Em 1944, uma emissão particularmente severa de vapores de flúor ocorreu próximo a uma indústria química (E. I. DuPont de Nemours), que estava produzindo toneladas da substância para o projeto Manhattan, na cidade de Deepwater, em Nova Jersey. As fazendas das proximidades, conhecidas pela boa qualidade de seus produtos, começaram a ter sérios problemas: seus pêssegos e tomates queimaram. Seus frangos morreram após um temporal. Seus cavalos adoeceram e se tornaram enrijecidos. Suas vacas não tinham forças sequer para se levantar.

Um memorando datado de 27 de agosto de 1945, assinado pelo chefe do Projeto Manhattan, o general Leslie R. Groves, e endereçado ao Comando Geral do Exército no Pentágono, trata sobre a investigação de danos às plantações em uma cidade de Nova Jersey, e diz: "Mediante à solicitação do Secretário de Guerra, o Departamento de Agricultura [equivalente ao nosso Ministério da Agricultura] concordou em cooperar na investigação de queixas de danos às plantações atribuídas (...) a gases emitidos por uma fábrica que opera em conexão com o Projeto Manhattan".

Após o fim da guerra, o Dr. Harold Hodge, chefe das pesquisas de toxicologia do flúor do Projeto Manhattan, escreveu um memorando secreto (que somente veio ao conhecimento público na metade da década de 1990), datado de 1o. de março de 1946, para seu superior, o Coronel Stafford L. Warren, a respeito de "problemas associados à questão da contaminação da atmosfera pelo flúor, em uma certa região de Nova Jersey". "Parecem existir quatro problemas distintos, embora relacionados entre si: 1. A questão dos danos à safra de pêssegos de 1944; 2. Um relato de concentrações extraordinariamente altas de flúor nos vegetais cultivados nessa região; 3. Um relato de altas concentrações de flúor no sangue de seres humanos residentes dessa região; 4. Um relato sobre sério envenenamento de cavalos e gado nessa região."

Os fazendeiros de Nova Jersey, por sua vez, começaram a processar a DuPont e o Projeto Manhattan, após o fim da Guerra, pelas perdas e danos causados causados pelo flúor. Estes são, documentadamente, os primeiros processos contra o programa nuclear dos Estados Unidos.

Embora aparentemente triviais, estes processos causaram grande preocupação na esfera governamental - pelo menos é assim que revelam os documentos que permaneceram secretos até os anos 1990: uma série de reuniões secretas aconteceram em Washington entre o chefe do Projeto Manhattan, General Leslie R. Groves e cientistas, representantes do Departamento de Guerra dos Estados Unidos, do Projeto Manhattan, do FDA (Food and Drug Administration, órgão regulamentador dos alimentos e remédios), dos ministérios da Agricultura e da Justiça, do Serviço de Guerras Químicas, do Arsenal Edgewood e também advogados da DuPont. Os memorandos dessas reuniõess, revelam uma mobilização ampla e secreta de toda uma força governamental no sentido de ganhar os processos abertos pelos fazendeiros de Nova Jersey.

Em um memorando datado de 2 de maio de 1946, lê-se que as agências governamentais "estão realizando investigações científicas a fim de obter indícios que possam ser utilizados para proteger os interesses do governo no julgamento dos processos gerados pelos proprietários de plantações de pêssegos em Nova Jersey".

No tocante aos mesmos processos, o general Leslie R. Groves escreveu um memorando datado de 28 de maio de 1946, ao Comitê Especial de Energia Atômica do Senado dos Estados Unidos, declarando que "o Ministério da Justiça está cooperando na defesa desses processos".

Qual a causa de tamanho rebuliço sobre alguns poucos processos abertos por meia dúzia de fazendeiros de Nova Jersey?

Em 1946, os Estados Unidos iniciaram a produção em larga escala de bombas atômicas, e os processos envolvendo o flúor constituíam um sério bloqueio à sua estratégia. De acordo com o livro Day of Trinity, sobre a história do Projeto Manhattan, escrito por Lansing Lamont, "A ameaça de um número infinito de processos pairava como uma assombração sobre o exército". Em outras palavras, se os fazendeiros ganhassem, o caminho estaria aberto para muitos outros processos, que poderiam acabar por impedir a utilização do flúor pelo programa de energia nuclear. Além das enormes indenizações, haveria um sério problema de relações públicas. Nesse aspecto, de acordo com um memorando de 1o. de março de 1946, a DuPont encontrava-se particularmente preocupada com "possíveis reações psicológicas" do incidente de Nova Jersey: temendo um embargo do FDA (Food and Drug Administration, órgão regulador dos alimentos e remédios nos Estados Unidos) à safra daquela região devido ao "alto conteúdo de flúor", a DuPont enviou seu advogado aos escritórios do FDA em Washington, para uma reunião.

De acordo com um memorando datado do dia seguinte (2 de março), o advogado da DuPont argumentou que "em vista dos processos pendentes (...) qualquer ação por parte do FDA (...) poderia acarretar sérios efeitos sobre a DuPont e criar uma situação ruim de relações públicas". Após essa reunião, o Capitão John Davies, do Projeto Manhattan, abordou o chefe da divisão de alimentos do FDA e comunicou o "substancial interesse que o governo possui em reclamações que possam surgir como resultado de uma possível ação por parte do FDA".

Não houve embargo. Ao invés disso, de acordo com um memorando de 27 de agosto de 1946 assinado pelo General Leslie R. Groves, novos testes seriam realizados com o flúor na região de Nova Jersey, não pelo Departamento de Agricultura, mas pelo Serviço de Guerra Química do exército dos Estados Unidos (CWS: Chemical Warfare Service), pois "o trabalho realizado pelo CWS traria provas de maior peso, caso (...) processos fossem iniciados pelos reclamantes".

No entanto, o problema de relações públicas permanecia, pelo menos com relação aos fazendeiros e cidadãos das áreas acometidas de Nova Jersey.

O portador da solução mais ampla para esse problema foi o toxicologista-chefe do Projeto Manhattan, Dr. Harold C. Hodge. Em um memorando para o chefe do setor médico, Coronel Stafford Warren, datado de 1o. de maio de 1946, ele escreve: "Haveria alguma utilidade em se tentar contra-atacar o medo do flúor por parte dos moradores de Salem e Gloucester, através de palestras sobre a toxicologia do flúor, e quem sabe a utilidade do flúor na saúde dos dentes?"

Tais palestras de fato ocorreram, não apenas em Nova Jersey, mas em todos os Estados Unidos, durante todo o período de duração da Guerra Fria. Enquanto isso, os processos foram bloqueados pela recusa do governo em revelar a informação-chave, de quanto flúor teria sido despejado na atmosfera durante a Segunda Grande Guerra.

De acordo com um memorando datado de 24 de setembro de 1945 e escrito pelo Major C. A. Taney Jr., do Projeto Manhattan, "Tal revelação seria prejudicial à segurança militar dos Estados Unidos". Os fazendeiros acabaram concordando em fazer acordos financeiros, e as queixas foram esquecidas.

Um memorando de 2 de maio de 1946, do General Leslie R. Groves, diz: "Devido às queixas de danos causados pelos vapores de fluoreto de hidrogênio a seres humanos e animais na região de Nova Jersey, (...) a Universidade de Rochester está conduzindo experimentos para determinar o efeito tóxico do flúor". Muitas das "comprovações" alegando a segurança do flúor em baixas doses, saíram dos experimentos realizados pela Universidade de Rochester no período pós-Guerra.

O envolvimento de universidades particulares em pesquisas de larga escala patrocinadas pelo governo federal dos Estados Unidos, data da 2a Guerra Mundial. Naquela época, o New York College abrigou uma divisão do Projeto Manhattan, que estudou os efeitos de "materiais especiais", como urânio, plutônio, berílio e flúor, utilizados na fabricação da bomba atômica. Essas pesquisas continuaram no pós-Guerra, sob os auspícios da Comissão de Energia Atômica, sucessora do Projeto Manhattan. De acordo com o livro The Cold War and the University, de Noam Chomsky, entre o final da década de 1940 e da década de 1950, até 90% de todas as verbas federais para pesquisas em universidades partiram ou do Departamento de Defesa, ou da Comissão de Energia Atômica.

A Faculdade de Medicina da Universidade de Rochester passou, durante essa época, a ser freqüentada por un grande número de cientistas do programa nuclear. Faziam parte do corpo docente o Dr. Stafford Warren, principal oficial médico do Projeto Manhattan, e o Dr. Harold C. Hodge, toxicologista e chefe das pesquisas com o fluor do programa da bomba atômica.

Os estudos secretos do flúor realizados pela Universidade de Rochester, que receberam o nome-código de Programa F, iniciaram-se durante a Guerra e continuaram até o início dos anos 1950. Esses experimentos foram conduzidos no mesmo local (Strong Memorial Hospital) em que ocorrera um dos mais notórios experimentos de radiação em seres humanos de toda a Guerra Fria. Naquele insuspeito hospital, pacientes receberam, sem seu conhecimento, injeções de plutônio radioativo. A revelação desses experimentos em uma série de matérias publicadas em um minúsculo jornal do Colorado (tiragem de 35 mil exemplares) rendeu à jornalista Eileen Welsome o Prêmio Pulitzer em 1994, além de uma indenização multimilionária às famílias das vítimas.

O objetivo do Programa F não era a saúde dos dentes das crianças, mas sim fornecer munição científica para uso do governo e empresas particulares envolvidas no programa nuclear, em casos de processos relacionados ao flúor. Tal objetivo encontra-se explícito em um relatório de 1948: "O fornecimento de evidências úteis nos litígios gerados pelos alegados danos a plantações de frutas há vários anos, deixou uma série de problemas em aberto. Dado que níveis excessivos de flúor foram relatados em seres humanos, moradores da mesma região, nosso principal esforço tem sido de descrever a relação da concentração sangüínea do flúor com os seus efeitos tóxicos". O problema é que as pesquisas estavam sendo realizadas por uma parte envolvida: os acusados! O conflito de interesses é muito claro!

Infelizmente, muitos dos estudos comprovando a segurança do flúor resultaram de pesquisas realizadas por cientistas do Programa F, na Universidade de Rochester. O próprio diretor do Programa F era ninguém menos que o Dr. Harold C. Hodge, aquele mesmo que havia levado a cabo as investigações do Projeto Manhattan sobre a toxicidade do flúor na região de Nova Jersey.

A Universidade de Rochester emergiu, no período pós-Guerra, como a instituição acadêmica líder na pesquisa da segurança do flúor, bem como da sua eficácia contra as cáries. O Dr. Harold C. Hodge tornou-se, ao mesmo tempo, um dos principais proponentes da fluoretação da água.

Da mesma forma que o programa da bomba atômica requereu experiências com plutônio em seres humanos, ele também requereu estudos com o flúor. A adição dessa substância à água potável forneceria justamente uma oportunidade neste sentido.

Os cientistas do programa nuclear exerceram um papel fundamental no primeiro experimento de fluoretação da água ocorrido na cidade de Newburgh, estado de Nova York. O assim chamado Projeto-Demonstração de Newburgh é considerado o estudo mais abrangente sobre os efeitos da fluoretação na saúde, e fornece muitas das provas originais da segurança da utilização de baixas doses da substância, para os ossos, assim como sua eficácia dentária. O planejamento do Projeto iniciou-se em 1943, com a nomeação de um Comitê Especial da Secretaria da Saúde do Estado de Nova York, cuja missão era a de estudar o quão prudente seria a adição do flúor à água potável daquela cidade. Detalhe: o chefe do comitê era ele - de novo - o Dr. Harold C. Hodge. Entre os demais membros do Comitê, estavam o médico e Capitão Henry L. Barnett, da divisão médica do Projeto Manhattan, e John W. Fertig, que em 1944 pertenceu ao Office of Scientific Research and Development, criado em 1940 e precursor do Projeto Manhattan. As ligações destes indivíduos com as forças armadas foram mantidas em sigilo. O Dr. Harold C. Hodge era "farmacologista", e o Dr. Henry L. Barnett, "pediatra". Por fim, o Comitê - como seria de se esperar - recomendou que a água da cidade de Newburgh fosse fluoretada, selecionou os tipos de estudos médicos que seriam realizados, e forneceu a "orientação de peritos no assunto" durante toda a duração dos estudos.

O chefe do Projeto-Demonstração de Newburgh era o Dr. David B. Ast, dentista-chefe da Secretaria de Saúde de Nova York. De acordo com memorandos que deixaram de ser secretos após 50 anos, o Dr. Ast participou de uma conferência secreta do Projeto Manhattan sobre o flúor em janeiro de 1944, e mais tarde trabalhou lado a lado com o Dr. Harold C. Hodge nas investigações do incidente de Nova Jersey.

A questão principal a ser respondida pelo Projeto-Demonstração de Newburgh era: "Existem quaisquer efeitos cumulativos, benéficos ou não, nos órgãos e tecidos que não os dentes, advindos da exposição continuada e a longo prazo ao flúor em baixas concentrações?" Essa também era a questão de interesse fundamental para o programa de energia nuclear, uma vez que a fabricação da bomba atômica requeria uma exposição longa e continuada não apenas de trabalhadores, mas também de comunidades próximas a locais de emissão de flúor, durante toda a Guerra Fria.

Em maio de 1945 a água de Newburgh foi fluoretada, e durante os 10 anos seguintes, seus habitantes foram estudados pela Secretaria da Saúde do Estado de Nova York, e também - secretamente - pelo Programa F. Os estudos enfocavam a quantidade de flúor retida no sangue e tecidos. Amostras de sangue e placenta foram coletadas pelo Dr. David B. Overton, e enviados pela equipe do Programa F à Universidade de Rochester.

O relatório final do Projeto-Demonstração de Newburgh foi publicado em março do ano de 1956, no Journal of the American Dental Association, volume 52 (Hodge, HC: Fluoride metabolism: its significance in water fluoridation, em Newburgh-Kingston caries-fluorine study: final report). A conclusão: Em "baixas concentrações", o flúor é seguro à população. A comprovação biológica, "baseada nos trabalhos realizados (...) na Universidade de Rochester", foi fornecida pelo Dr. Harold C. Hodge.

Teriam os estudos de Newburgh, assim como outros estudos de larga escala que se sucederam, com a participação de cientistas envolvidos no programa nuclear durante todo o período da Guerra Fria, suprimido resultados de efeitos adversos à saúde?

Todos os estudos patrocinados pela Comissão de Energia Atômica tiveram de receber versões liberadas do sigilo antes de serem publicados em revistas científicas civis. Onde se encontram as versões originais sigilosas?

Os anais de uma das mais secretas conferências científicas do período da 2a Grande Guerra, sobre o "metabolismo do flúor", encontram-se ausentes, até hoje, dos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos. Alguns dos participantes desta conferência, datada de janeiro de 1944, foram personagens importantes na promoção da fluoretação da água e da segurança do uso do flúor: Harold C. Hodge, David B. Ast, e o dentista Trendley Dean, mais conhecido como o "pai da fluoretação".

Encontra-se indisponível, também, um relatório sobre fluoretação do Projeto Manhattan, datado de 25 de julho de 1944. Os quatro documentos numericamente consecutivos a este também se encontram ausentes, de acordo com a pesquisa dos jornalistas Joel Griffiths e Chris Bryson, que desvendaram a conexão entre o flúor e o programa da bomba atômica dos Estados Unidos.

Sete páginas foram suprimidas de um livro de anotações do programa nuclear, em Rochester, denominado "Litígio DuPont".

Os jornalistas acima descobriram a versão original, sigilosa, de um artigo que fora publicado em agosto de 1948 no Journal of the American Dental Association. A comparação dessa versão com a versão publicada indicou que a Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos censurou uma série de informações sobre danos causados pelo fluor, de um modo que seria cômico se não fosse trágico. O estudo era sobre a saúde geral e dos dentes de trabalhadores de uma fábrica de flúor para o programa da bomba atômica, e a conclusão da versão publicada foi que tais indivíduos apresentaram menos cáries. No entanto, a versão sigilosa relata que eles haviam perdido os dentes. Menos dentes, menos cáries! A versão sigilosa diz que os trabalhadores tinham de utilizar botas de borracha na fábrica, pois caso calçassem sapatos, tinham as unhas de seus pés desintegradas pelo vapor do flúor. A versão publicada não menciona tal fato. A versão secreta conclui que o flúor pode ter exercido ação semelhante sobre os dentes, contribuindo para que esses trabalhadores se tornassem desdentados. A versão publicada omite tal observação, e conclui que "os homens se encontravam excepcionalmente saudáveis, a julgar pelo ponto de vista médico e dentário".

Nenhum estudo sobre efeitos colaterais foi realizado pela AMA

Vinte longos anos do inicio da fluoretação das águas potáveis americanas, a Associação Médica Americana (AMA) admite que nenhum estudo foi realizado para saber se havia possíveis efeitos colaterais do Flúor no ser humano. E mesmo assim o programa da fluoretização das águas teve início, se manteve e continua com toda força. Mais uma vez sob o pretexto de combater cáries em dentes de crianças!!!

Carta resposta do Assistente Diretor do Departamento de Saúde Ambiental da AMA, Joseph E. Flanagan Jr, em 13 de Maio de 1965:



Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda: Francisco Plata

segunda-feira, 27 de abril de 2015

_ Quando você conheceu Carlos Castaneda?


_ Meu primeiro contato físico não foi com Carlos, e sim com Dom Juan. Tudo começou no ano de 73, graças a uma amiga minha chamada Zuleica. Em certa ocasião, estivemos conversando sobre a técnica de T’ai Chi Chuan, pois eu dava aulas dessa arte. Ela gostou muito do que eu lhe disse, e, em reciprocidade, me falou do primeiro livro de Carlos – a quem afetuosamente chamava Carlitos – que acabava de sair em inglês. O tema me interessou, ela me emprestou o livro, eu o li de uma vez só e assim conheci as idéias do nagual.

Naquela época, eu havia percorrido sociedades, grupos esotéricos e escolas de todo tipo; havia lido um bom número de livros sobre ocultismo e magia, mas em nenhum deles encontrava um paralelo com o que eu estava vivendo. Então conheci o livro de Carlos, e este sim se ajustava a minhas experiências pessoais! Fascinou-me de imediato.

Zuleica era amiga de uma curandeira, a mestra Magdalena, que era uma vidente extraordinária; assim que o via, sabia tudo sobre você e suas curas eram quase milagrosas. Por exemplo, cada vez que morria sua mãe, que já era muito idosa, ela ia para o outro lado e a trazia de volta. Assim fez umas cinco ou seis vezes, até que um dia a mãe lhe pediu:

“Deixe-me ir, minha filha, porque quero seguir meu caminho.”

Só então a deixou partir.

Segundo soube, a mestra Magdalena era muito amiga de Dom Juan Matus; já ouvi dizer até que era sua comadre.

Três anos mais tarde, em 73 ou 74, Carlos deu uma série de conferências na casa de Milosh. Este homem, de sobrenome Trnka, era um acupunturista de origem checa que se interessava muito pela cultura pré-hispânica e o mundo mágico. Como já era seu amigo, ele me ligou e me disse, com seu sotaque checo:

“Mestrrrre, venha parrra cá, porrrque Carrrlitos vai virrr.”

Assim o conheci. No total, foram seis reuniões de três ou quatro horas cada uma.

_ O que você se lembra desses encontros?

_ O primeiro que salta à memória é a facilidade com que Carlitos prendia sua atenção em uma conversa muito interessante, ao mesmo tempo amena e divertida. Por outro lado, transparecia a enorme profundidade do ensinamento do qual ele era herdeiro.

Na realidade, os ensinamentos de Dom Juan não podem se separar da tradição atualmente representada pelos concheros do México. Os concheros são a sobrevivência da religião asteca; chamam-se assim porque tocam a concha, um alaúde cuja caixa de ressonância é feita de uma concha de tatu. Em seus cantos, eles falam de como nasceu sua tradição; afirmam que a “pedra fundamental” foi levantada na cidade de Tlaxcala. Isso se refere à adaptação que fizeram no início do século XVI das tradições pré-hispânicas. Não significa que trocaram uma religião por outra, e sim que se adaptaram estrategicamente à realidade da colônia.

Os sábios e sacerdotes indígenas foram tão inteligentes que desde o primeiro momento encontraram na religião cristã os elementos que eram comuns à sua própria tradição, e mudaram os símbolos. Em grande parte, o que Carlos fez foi tomar esses símbolos e decodificar o conhecimento que protegiam, dando-lhe uma forma abstrata, de acordo com a nossa época. Entretanto, você deve levar em consideração que o que ele maneja não é o saber cultural pré-hispânico, mas o conhecimento dos bruxos de sua linhagem. A cultura é uma coisa, a sabedoria dos naguais, outra. É o mesmo que acontece entre nós. Imagine se todo mundo conhecesse a obra de Einstein! Não, em todas as culturas, só uns poucos são capazes de compreender o saber esotérico. Os naguais sempre foram uma elite, e, além de tudo, escondida.

Com este assunto ocorre o mesmo que com os aprendizes: a técnica dos naguais é transmitir a informação em dois níveis de consciência, dos quais um permanece oculto e o outro se faz público. Depende do aprendiz recuperar a totalidade do ensinamento mediante exercícios de introspecção e alinhamento.

Carlos assegurou que, depois daquele famoso salto no abismo, ele não se lembrava de grandes porções do que lhe havia ensinado Dom Juan; as partes mais importantes se apagaram de sua memória. Nem sequer tinha certeza de que o que havia acontecido com ele era verdade ou somente imaginação. Acrescentou que ele vinha ao México precisamente para recuperar o ensinamento.

Um exemplo de sua relação com a tradição é a regra. A regra é o aspecto central do nagualismo; pode-se definir como o mapa das ações dos grupos de bruxos.

Em uma das reuniões, Carlos nos confessou como havia conseguido recordar esse tema. Aconteceu que ele teve que vir para tramitar a publicação de seu primeiro livro em espanhol. Aproveitou para dar uma entrevista coletiva, na qual grudou nele um repórter que queria aprender tudo, e ia para todo lado com ele. Este o levou para conhecer os dançarinos concheros, que estavam ensaiando. Nesse momento, o Espírito se manifestou:

Um dos louvores dizia: “Que viva, que viva o senhor Santiago, porque ele é o mensageiro dos quatro ventos!” Carlos conta que, quando ouviu isso, teve um choque, sua memória profunda se abriu e começou a recordar: veio-lhe o ditado completo da regra.

Sentindo-se muito emocionado e sumamente agradecido, decidiu dar várias palestras, e assim o propôs a Andrés Segura.

_ Pode nos explicar um pouco mais sobre a regra?

_ Os bruxos afirmam que tudo o que ocorre no Universo tem regras; é assim que as coisas funcionam. Aplicadas às atividades que eles fazem, essas regras formam a teoria do grupo do nagual – um grupo de práticas xamânicas – cujo propósito é dar um salto coletivo para a liberdade.

Mas há muitas outras aplicações da regra, milhares. Por exemplo, na medicina tradicional vemos que as pessoas se afetam mais facilmente segundo a direção de sua energia: os homens de ação ficam doentes do coração e do intestino delgado; os eruditos, do estômago e do baço, e por aí vai. A regra é a base de todas as artes tradicionais, a acupuntura, o Feng Shui, as artes marciais... Podemos encontrá-la em todos os livros oraculares do mundo, tais como o Tarot, o I Ching, as runas, o Tonalámatl (calendário pré-hispânico)... De modo que a regra não é algo exclusivo dos naguais nem do México: é um assunto universal.

A regra do nagual afirma que os bruxos se organizam em grupos, em múltiplos de quatro, orientados para as quatro direções. É a organização mais natural para que a energia flua. Eu tive conhecimento dessa ordem muito antes de saber de Carlos. Através de uma investigação “histórica” (digo histórica entre aspas, porque melhor dizendo é mítica), percebi que os mestres orientais trabalhavam em grupos estruturados. Por exemplo, você tem aí os dezesseis Arhan do budismo, as quatro bestas de quádruplo rosto na visão de Ezequiel, os quatro grupos de quatro cavalos com as cores das quatro direções que viu o xamã norte-americano Alce Negro quando foi iniciado. A lei do quatro aparece uma e outra vez em todas as tradições.

Naquela época, eu aplicava a regra de forma intuitiva. Agora que tenho os livros de Carlos, então digo, ah, pois é o grupo (partida)! O ensinamento do nagual, ainda que não tenha modificado essencialmente o curso de minha vida, me serviu de modelo. Seus livros vieram colocar a nota final em uma série de investigações que eu havia empreendido de forma muito pessoal.

Mas é um erro conversar sobre este assunto. A regra é algo que tem que se experimentar. E não estou certo de que alguém que não seja um nagual possa entendê-la totalmente. Isto não minimiza a importância dos guerreiros dentro de um grupo. Tal como indica o texto de Armando Torres, cada um dos participantes é tão valioso como qualquer outro para conseguir o objetivo final, que é o passo para a liberdade. O valor de cada guerreiro consiste em reconhecer-se e aceitar-se tal como é, segundo sua forma energética, e ao mesmo tempo reconhecer e aceitar os demais. Só assim podemos funcionar como indivíduos e como conjunto.

A importância da regra está em vivê-la, não em como é recebida. Há muitas tradições no mundo. Carlos a recebeu em forma oral, segundo a tradição de sua linhagem. Outros a recebem através de um sonho, experimentando com os aliados das plantas ou lendo-a em um livro. Qualquer um que estude a fundo e seriamente as artes tradicionais da terra (chamadas “o caminho com coração”) cedo ou tarde encontrará as diretrizes da energia e começará a viver de acordo com elas.

O objetivo da regra, a longo prazo, é formar um supergrupo (superpartida) e disseminar novas linhagens, para impedir que o conhecimento se extinga. Isto significa que esse desenho não só descreve um diagrama da energia, como também um processo, ou seja, um caminho de evolução. Não basta saber como se organizam os dezesseis modelos luminosos do grupo e que relações têm entre si; também é preciso entender como se sucedem os grupos, porque este é o único modo de enlaçar o tonal dos guerreiros com o tonal dos tempos.

Para isso existem os naguais de três pontas, como foi o caso de Carlos. No livro de Armando é muito clara a função destes naguais; eles não vêm para trabalhar com guerreiros diretamente, e sim para ser sementeiros de novos naguais, semeadores de grupos.

Quando Carlos afirmou: “Eu não sou um nagual tradicional de quatro pontas, só tenho três pontas”, o que significa isso? Para qualquer um que tenha uma formação em simbolismo numérico, a implicação é óbvia. Um nagual de quatro pontas está submetido à sua própria estrutura, pois o quatro é um número muito estável. Temos as quatro paredes de uma casa, os quatro lados de um terreno, as quatro pernas de uma mesa... O quatro delimita e define, e por isso mesmo, põe fim. Então, não é um número dinâmico, não se presta à transmissão a longo prazo.

Um nagual de quatro pontas pode trabalhar com guerreiros em múltiplos de quatro, porque os galhos de sua energia se orientam para as quatro direções. Mas um nagual de três pontas se complica, já que o três é um número muito dinâmico, de mudança. Os chineses o chamam san cai, “os três poderes”, e afirmam que está presente quando vai acontecer algum fenômeno. As coisas precisam de três passos para dar resultados; então, o três é um número de resultados, não tem estabilidade.

Eu me inteirei há anos da regra para os naguais de três pontas, tanto do que foi publicado quanto de outras partes. Em 1994 fui convidado a participar de uma reunião na qual se tocou nesses assuntos. Propunha-se que Carlos trabalhasse exclusivamente com líderes de grupos, naguais, e estes por sua vez com seus guerreiros. Entretanto, depois não se falou mais nesse assunto.

_ Como se formam os grupos de guerreiros?

_ Ser Guerreiro é sempre uma escolha pessoal. O primeiro é acumular energia. A viagem para o infinito exige inteireza, em sentido literal e metafórico. Inteireza do corpo físico, da energia e do caráter. Para poder funcionar no mundo mágico, devemos ter completo e forte o ovo luminoso, e isto só se consegue recompondo a energia que foi dissipada durante anos de trato com o mundo.

_ Como remendar os buracos da nossa luminosidade?

_ Fazendo-nos conscientes dessa necessidade. Se você não percebe que tem um problema, não o supera.

O passo seguinte é recapitular. A recapitulação é um instrumento maravilhoso, que lhe ensina a recuperar parte do que perdeu e a não permitir que continue perdendo.

A primeira vez que ouvi falar desta técnica foi no âmbito das artes marciais. Nessa ocasião, ensinaram-me a fazê-la respirando em forma vertical, quer dizer, movendo a cabeça lenta e suavemente para cima ao inalar, tendo o propósito interior de recuperar a energia investida nos eventos passados. Ao exalar, ao contrário, a cabeça desce, enquanto você solta o que não é seu.

A princípio, é bom recapitular com disciplina; eu o fiz à moda antiga, dentro de uma cova. Mas uma vez que você pega o jeito, pode fazer até quando está ocupado em outra atividade. Começa com lembranças imperfeitas, mas com o tempo se tornam mais claras e precisas.

_ Como se sabe que o exercício está funcionando?

_ Bem, você se recorda do evento como uma vivência, sente alegria, tristeza, rancor, vergonha, chora, ri, fica vermelho, conforme a situação. Finalmente, nada; a situação se torna totalmente alheia, como se tivesse acontecido com outra pessoa e não com você. Desvanecem-se culpas, ódios e apegos. Resta somente você.

Isso é o começo do que Carlos chama “perder a forma humana”. Há aprendizes que pensam que, ao chegar a esse ponto, se tornarão uns monstros insensíveis, mas não é assim. Pelo contrário, ficamos terrivelmente sensíveis; a diferença é que agora não nos envolvemos.

Uma coisa que descobri enquanto recapitulava é que esta técnica nos ajuda a recuperar a vida no ensonho. Sim, há uma vida paralela da qual nos esquecemos por completo quando despertamos. Uma das tarefas do bruxo é recuperar essa outra vida. A recapitulação se faz perfeita quando aprendemos a recordar dentro do ensonho, porque, desse modo, a outra vida se faz contínua e manipulável.

O exercício da recapitulação tem que ser complementado com outros, que têm o propósito de dar flexibilidade e movimento à energia. Para isso existem os exercícios de T’ai Chi Chuan ou Chi Kung. Por exemplo, veja Milosh; ele tomou como apostolado curar utilizando a acupuntura: costumava sair aos sábados para ir a povoados próximos e colocar suas agulhas nas pessoas. Depois voltava para casa, ia dormir à noite, e acordava na terça-feira! É que estava tendo um desgaste energético enorme. Então, o doutor Kim, mestre em acupuntura, recomendou a ele e a seus companheiros, discípulos da mestra Magdalena, a prática do T’ai Chi Chuan. Eles se dedicaram a buscar alguém que lhes pudesse ensinar esta arte e foi assim que se depararam comigo.

Quando conheci Carlos, fui apresentado como mestre de T’ai Chi. Passaram-se os anos e apareceu seu sétimo livro, “O Fogo Interior”. Ao abri-lo, vejo que começa com um agradecimento – algo que não era de seu costume – a um mestre que lhe deu um caminho alternativo de exercícios para recuperar sua energia. Recordo que, ao ler isso, comentei com meus alunos:

“Que acham? Carlitos está fazendo T’ai Chi.”

Eles zombaram de mim. Mas em pouco tempo – coisa de três semanas ou um mês depois – Carlos deu uma palestra no Palácio de Minería. Chegou, sentou-se e anunciou que responderia perguntas. Sabendo que esse era seu costume, já tinha a mão levantada e lhe fiz a primeira:

“Ouça, Carlos, por que tem essa dedicatória no seu último livro?”

Respondeu-me: “Boa pergunta!”

Disse que Dom Juan deixou-lhe uma série de tarefas que exigem uma enorme quantidade de energia e, para cumpri-las, ele consumiu toda a energia de que dispunha. O pior é que não encontrava maneiras para repô-la, porque Dom Juan só lhe havia ensinado a economizar, não a ganhar. Então, dedicou-se a buscar um método que o ajudasse a resolver seu problema; praticou yoga, meditação, lamaísmo, quarto caminho, buscou por todos os lados até que encontrou um mestre que lhe ensinou uns velhos exercícios orientais, com os quais se recuperou.

E mais não disse, mas no decorrer da palestra, cada vez que se virava e me via, fazia um sutil movimento de T’ai Chi. Isso foi tão evidente para meus alunos, que todos perceberam e admitiram: “É verdade, ele está fazendo T’ai Chi!”

Nesse encontro aconteceu um fato que gostaria de contar. A maioria dos presentes era fanática por Carlos. Depois de duas horas de estar contando suas aventuras com Dom Juan, levanta-se uma senhora na primeira fila e pergunta, com sotaque espanhol:

“Diga, Carlos, quem é esse Dom Juan de que você tanto fala?”

_ E a dança conchera, tem os mesmos efeitos que o T’ai Chi?

_ Não. A dança foi delineada com uma função específica. Dá uma grande energia, mas não do mesmo tipo. A dança é um complicado ritual que lhe abre as portas do mundo mágico e o leva à segunda atenção, ao ensonho. Nós ríamos muito porque Andrés, capitão de concheros, passava o tempo todo dormindo pelos cantos. Quando havia uma reunião ou conferência, ele adotava “a pose” – uma posição de poder – e fechava os olhos; quem não o conhecia achava que ele estava dormindo. Havia inclusive os que se aborreciam com ele; Milosh sempre lhe dizia: “Andrrrés, não vou lhe convidarrr mais, porrrque você fica dorrrmindo pelos cantos!”

Mas não era assim. Ele era um grande mestre dessa arte e conseguia mover seu ponto de encaixe para o ensonho, participando das reuniões nesse outro estado de consciência. A prova disso é que, quando diziam algo com o qual não concordava, pulava e se punha a defender seu ponto de vista, como se o tempo todo houvesse estado muito consciente da conversa.

_ E a Tensegridade, tem o mesmo efeito que o T’ai Chi?

_ Veja, o ensinamento de Carlos é muito especializado. Supõe-se que, quando você chega a ele, é porque já percorreu boa parte do caminho, incluindo ter aprendido técnicas paralelas para compactar sua vitalidade. Recordo que, certa vez, na Casa Chata do antigo Colégio de Medicina, uma moça lhe perguntou:

“Carlos, como podemos recuperar a energia?”

Ele confirmou o que já nos havia dito em outras ocasiões:

“Dom Juan não me ensinou a recuperá-la. De modo que vocês devem economizá-la.”

Entretanto, depois ele mesmo apareceu com uma série de movimentos que, afirmou, eram a herança da linhagem, e que têm uma função parecida com a do T’ai Chi e outras artes orientais. A princípio lhes chamou simplesmente de passes mágicos, mas, quando a coisa se popularizou, deu-lhes um nome elegante: Tensegridade.

Minha visão pessoal é que a Tensegridade se compõe de movimentos de artes marciais adaptados. Muitos dos passes praticados pelos seguidores de Carlos atualmente são derivações. Mas os primeiros exercícios, aqueles que ele nos ensinou diretamente, são movimentos básicos de Chi Kung.

Não me atrevo a julgar Carlos, não sei se seu objetivo era que a Tensegridade se transformasse nesse exagero de movimentos que estamos vendo nos seminários. Mas me lembro que, em uma de suas últimas intervenções públicas, afirmou que as práticas massivas são somente um passo inicial, antes de enfrentar o verdadeiro desafio dos bruxos.

“A Tensegridade”, disse, “foi delineada para nos dar energia, a fim de enfrentarmos as coisas realmente pesadas. É algo suave, mas é um começo.”

_ O que você opina sobre as plantas de poder?

_ O ser humano é algo muito especial porque, por um lado, tem umas possibilidades assombrosas, mas, por outro, estamos muito mal equipados por natureza. Essa falta de equipamento nos obriga a buscar coisas que nos ajudem. É tão simples como o seguinte: tenho frio e tenho que usar roupas, mas os animais não têm necessidade disso. Nós aprendemos a usar o que nos rodeia, e principalmente as plantas.

Os antigos videntes descobriram que havia três tipos principais de plantas; um deles são as plantas de poder, chamadas assim porque movem o ponto de encaixe, permitindo que se focalize outros mundos de energia. À medida que faziam experimentos, descobriram que as plantas nos põem em contato com o mundo mágico, mas que em nenhum caso podemos controlá-las cem por cento, só o que podemos é fazer uma aliança com elas.

É por isso que os xamãs tradicionais têm uma forma muito peculiar de agir com as plantas de poder, que aparece claramente referida nos livros de Carlos: eles se guiam por augúrios; usam-nas quando há sinais claros, e se não há sinais, não as usam.

O problema gerado ao redor das plantas tem a ver com o movimento da Nova Era, que incentivou o aparecimento de todo tipo de tendências místicas. Uma delas foi o uso de psicotrópicos, o que motivou que o uso xamânico das plantas terminasse sendo uma moda. As modas passam rapidamente, mas a tradição não passa.

Neste momento e lugar, diria a você que as plantas só devem ser usadas com um guia, com um mestre adequado e com um augúrio. Se você chega a elas com o mesmo espírito com que lê um livro, para saber se lhe serve ou não, é provável que não vá longe. A única opção que tem, quando lhe falta um guia, é que você mesmo seja um xamã, mas esses casos são raros.

Creio que a opinião de Carlos, baseada em sua extraordinária experiência, é suficientemente clara nesse assunto. As plantas têm poder, e esse poder tem que ser respeitado. O uso ligeiro pode nos conduzir muito longe de nossa meta, e até pode nos deixar em um âmbito do qual já não tornamos a sair, porque o trabalho com as plantas, ou melhor dizendo, com os aliados das plantas, tem uma conseqüência cara: consome a nossa energia.

_ De qual aspecto da obra de Castaneda você gostou mais?

_ O que sempre me causou impacto e continua causando é a impecabilidade de Dom Juan. Definitivamente, ele é o modelo a seguir. Onde vamos encontrar alguém assim? É muito difícil.

Da última vez que escutei Carlos, ele contou algo a respeito: disse que Dom Juan era um cíclico. Explicou que no mundo há seres que reproduzem a mesma estrutura de outros que existiram anteriormente, porque têm a mesma configuração luminosa, a mesma aparência, como se a história se repetisse. Esclareceu que “eram iguaizinhos, não reencarnações”.

Também nos disse que os cíclicos têm a possibilidade de obter consciência de seus predecessores. Por isso Dom Juan acumulava uma sabedoria imensa, era um clone de sábios da antigüidade. Isso foi a última coisa que o escutei dizer.

_ O que Castaneda queria dizer quando se referia a “antigos” e “novos” videntes?

_ Creio que essa é uma classificação pertinente à linhagem de Carlos e Dom Juan. Nessa linhagem há uma diferença enorme entre o modo como os antigos viam o mundo, e o modo como o vêem na atualidade. Não só mudou a linguagem como também a forma mesma de trabalhar com a energia. Mas não se confunda com os termos. Os antigos videntes ainda existem; eu fui aluno de pessoas assim, pessoas que faziam práticas antigas. Mesmo em plena Cidade do México sobrevive esta casta de bruxos; não é uma questão de época, mas de atitude.

Os velhos videntes, como dizia Dom Juan, estão obcecados com assuntos como extrair poder, viajar para outros mundos, manipular um monte de aliados... São os bruxos dos contos, transformam-se em animais para atacar suas vítimas. Os bruxos modernos percebem que isso é um desperdício de esforço, cálculo e tempo. Eles se perguntam: O que eu busco realmente? Qual é meu objetivo na vida, onde quero chegar? Eles se propõem a ousadia de passar para o infinito, e para isso, não posso estar fazendo bonequinhos de cera ou costurando olhos de lagartixas!

Em contraste com os velhos videntes está o enfoque abstrato de Carlos. E também há xamãs que, como eu, tiraram das diversas tradições – a européia, a oriental, a tolteca – e sintetizaram diversos modos da bruxaria. Eu não posso dar um nome ao que estou fazendo, não posso lhe dizer se pertenço aos antigos ou aos novos videntes. O que realmente percebo é que a humanidade está dando um passo adiante. O fato de que haja existido um Carlos Castaneda, independentemente do modo como tomemos seus ensinamentos, nos indica que é um momento de mudança na história, algo que afeta a humanidade em geral e, obviamente, os bruxos.

_ Esta etapa é comparável com a de Buda, Jesus ou Quetzalcóatl?

_ Eu não me meteria em comparações, cada momento da história é único e irrepetível. Contudo, posso afirmar que houve um momento parecido há mil e poucos anos, na cultura de Teotihuacan; e não somente ali, mas em toda a área mesoamericana. Em torno do ano 900 de nossa era aconteceu uma mudança gigantesca e brutal no ponto de encaixe da sociedade. Teotihuacan foi uma cidade construída com um objetivo muito claro: alcançar a realização total dos seres humanos. O objetivo era que os homens se transformassem em deuses. Por isso se chama Teotihuacan, “a cidade dos que se fazem deuses”. Para chegar a essa meta, foi requerido um longo processo, que frutificou finalmente quando grandes massas da população alcançaram de uma vez a auto-realização, ou a liberdade total, como chamava Dom Juan, e dispararam para outra atenção em um só dia.

Há um signo em Teotihuacan que é muito óbvio: o coração sangrando, emblema da concentração da energia e da passagem entre as dimensões. Mas este símbolo tem um detalhe interessantíssimo: em lugar de estar dividido em quatro lóbulos, tem somente três. A meu ver, é o símbolo do nagual de três pontas, da mudança radical. De algum modo, nossa época reflete as condições daquela. Este é um momento precioso, semelhante ao dos velhos toltecas. É um momento que temos que aproveitar, porque acontece raramente. Estão sendo criadas as condições para que uma enorme quantidade de pessoas possa alcançar a liberdade de uma vez só, de modo que vão preparando as malas!

_ É possível chegar à liberdade como parte de uma massa?

_ A liberdade é um assunto individual. Mas podemos integrar nossos esforços para chegar ao outro mundo como equipe de bruxos. O que verdadeiramente causa impacto aos guerreiros desta época é o evento em si, a ousadia, o arrojo, a maravilha. É como quando você vê um amanhecer ou um eclipse; não importa se outros vêem contigo ou se você está sozinho. O fenômeno é maravilhoso por si, porque é algo que raramente vemos. O mesmo ocorre com as épocas de mudança. São fantásticas, somente por existir. De alguma maneira foi isso que sentiu Carlos como nagual de três pontas, o assombro de ser testemunha de um evento não visto durante muitas gerações.

_ Como vê o futuro do castanedismo?

_ O boom produzido por Carlos trouxe como conseqüência o “nagualismo” da Nova Era. Muitos se aproveitarão deste rio revolto, especialmente do ponto de vista econômico, para engrandecer seu ego. Como tantas outras correntes ideológicas na história da humanidade, isso terá um auge e irá desaparecendo com o tempo. Mas a tradição dos xamãs continuará exatamente como há milhares de anos.

Paralelamente, ocorrerá outro fenômeno, que já começou e que, este sim, é provável que tenha efeitos a longo prazo: o aparecimento de uma igreja nagualista. Isso não será um evento da bruxaria, mas da história da religião.

Como você sabe, no mundo houve grandes xamãs: Buda, Maomé, Jesus. Nenhum deles pretendeu fundar uma religião, só deram uma série de ensinamentos práticos para a elevação da humanidade, segundo a modalidade da época em que viveram. Porém, com o passar do tempo, seus ensinamentos se converteram em dogmas que deveriam ser aceitos para ser parte de um sistema. Com o sistema de Castaneda está acontecendo o mesmo; tem todos os elementos para formar um culto: o mito, a doutrina, as práticas, e até o lado místico. Tem também um aparelho censor: a sociedade Cleargreen, que se auto-qualifica como a única depositária da verdade castanedista. É inevitável que esta tendência siga o curso normal das crenças; de fato, já se começam a perceber os primeiros elementos.

Temos, por exemplo, o decesso do nagual. Eu não recebi a notícia em primeira mão; Eddy me deu-a, a qual lhe chegou por outro amigo. Ele imediatamente ligou para a Califórnia, e lhe avisaram que ele havia morrido de câncer do fígado, sendo depois cremado e suas cinzas lançadas no deserto. Mas, posteriormente, Cleargreen informou que Carlos não morreu, e sim “passou para o lado ativo do infinito”. Como você pode perceber, este é o dogma nuclear de um fenômeno messiânico. Observe este outro detalhe: quando Eddy ligou para averiguar sobre o decesso, Heiko atendeu o telefone (Heiko sempre se havia destacado por ser um buscador sincero). Quando Eddy o chamou pelo nome, aquele respondeu:

“Já não me chamo Heiko, agora me chamo Gavin, e me proibiram de falar com você.”

Isso é um mau sinal. É questão de tempo – quiçá uns duzentos anos, talvez menos –, mas acontecerá. É um fenômeno natural que temos visto ao longo da história. Os grandes mestres nos trouxeram a opção da liberdade, mas os discípulos a converteram em crenças. Carlos advertiu que todos os “ismos” conduzem à coação ideológica, à questão de fé, e que o nagualismo não é uma exceção.

No entanto, também é inevitável que haja pessoas e grupos que mantenham desperto o sentido da busca, à margem de que os tachem de heterodoxos.

Assim como eu peguei um fio do ensinamento e o estou trabalhando à minha maneira, não sou o único; neste momento deve haver milhares de pessoas fazendo o mesmo em toda a Terra.

Tal como diz Armando, o trabalho conjunto de Dom Juan e de Carlos assinala um momento de expansão do conhecimento que pode nos levar a uma revolução da consciência. A difusão do nagualismo através de livros está permitindo o nascimento de novas linhagens. Não sei o quanto precisam estar unidas essas linhagens ou o quanto podem atuar de forma independente; isso é algo que a prática dirá.

O importante de Carlos não é que tenha feito milagres ou que tenha partido para o infinito envolto em um halo de luz, e sim que nos deixou uma opção. Como Moisés, que nunca pisou na terra prometida, mas levou todo o seu povo até seus limites, ele nos apontou o caminho para a liberdade. O que acontecerá agora depende de cada um de nós, de nosso esforço e abertura, da decisão que assumirmos.

Dica de filme: O Caminho do Guerreiro Pacífico

domingo, 26 de abril de 2015

O caminho do guerreiro pacífico ou Poder além da Vida é um filme excelente, baseado em história real e que tem tudo a ver com os ensinamentos do caminho do guerreiro tal como ele foi apresentado ao mundo por Carlos Castaneda. Vemos também elementos do Budismo Zen. A história é sensível, engraçada e prenhe de ensinamentos sobre o Caminho.

Download via Torrent AQUI.

Ver on line no youtube:

https://www.youtube.com/watch?v=bhN59ZXGKwo


Veja AQUI como fazer para baixar (sem ter que ir a um terreiro).

A Bíblia desenterrada - Livro

Lendo uma jóia rara, interessante estudo arqueológico feito por dois judeus sobre o Antigo Testamento, um livro chamado "E a Bíblia não tinha razão", excelente para rasgar o véu da ilusão e apresentar as histórias da Bíblia (os livros iniciais) dentro do seu contexto real: uma construção cultural e ideológica de uma aristocracia interessada em unificar um povo pela idéia de um só deus, uma só nação, um só rei.

Download do livro AQUI.

Israel Finkelstein, autor de importantes estudos no campo da arqueologia da Palestina, foi o Diretor do Instituto de Arqueologia Sonia e Marco Nadler da Universidade de Tel Aviv, Israel, de 1996 a 2002, e co-diretor das escavações de Tel Meguido. Atualmente, 2005, é o titular da Cátedra Jacob M. Alkow de Arqueologia de Israel nas Idades do Bronze e do Ferro da mesma Universidade, e acaba de ganhar o prêmio Dan David. Neil Asher Silberman foi Diretor de Interpretação Histórica do "Ename Center for Public Archaeology and Heritage Presentation", na Bélgica e atualmente [2011] é Professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Massachusetts- Amherst, nos Estados Unidos.

Este envolvente livro, A Bíblia Desenterrada: Uma Nova Visão Arqueológica do Antigo Israel e da Origem de seus Textos Sagrados (no Brasil: A Bíblia Não Tinha Razão, São Paulo, A Girafa, 2003), contém 12 capítulos agrupados em três partes, um epílogo, 7 apêndices - que retomam e aprofundam temas tratados ao longo do texto - uma bibliografia, um índice de nomes e lugares, além dos tradicionais prólogo e introdução. Donos de prosa refinada, os autores tomam cuidadosamente o leitor pela mão e o conduzem em aventura fascinante através do mundo do Antigo Israel.

Um pouco do livro...


O mundo no qual a Bíblia foi criada não era um reino mítico de grandes cidades e heróis santificados, mas um pequeno reino, simples, onde as pessoas lutavam por seu futuro, contra os medos, compreensivelmente humanos, da guerra, da pobreza, da injustiça, das doenças, da fome e da seca. A saga histórica contida na Bíblia – do encontro de Abraão com Deus e sua jornada para Canãa à libertação da escravidão dos filhos de Israel por Moisés, à ascensão e queda dos reinos de Israel e Judá – não foi uma revelação miraculosa, mas um inteligente produto da imaginação humana; sua concepção teve início – como os recentes achados arqueológicos sugerem – durante o breve espaço de tempo de duas ou três gerações, há cerca de 2.600 anos. O local de nascimento do reino de Judá, região pouco povoada por pastores e fazendeiros, assentada de forma precária no meio de uma terra montanhosa, sobre estreito espinhaço, entre ravinas escarpadas e rochosas e governada por uma cidade real afastada.

Durante poucas décadas notáveis de efervescência espiritual e agitação política, perto do final do VII a.C., uma improvável coalização de oficiais da corte de Judá – escribas, sacerdotes, camponeses e profetas – se formou para criar um movimento. No seu âmago estava uma escritura sagrada de incomparável gênio literário e espiritual: era uma saga épica, composta por surpreendente coleção de escritos históricos, memórias, lendas, contos folclóricos e historietas, propaganda real, profecia e poesia antiga. Uma parte dela era composição original e a outra, adaptação de fontes e versões antigas, mas aquela obra-prima literária passaria por nova edição e elaboração, a fim de tornar-se uma âncora espiritual não apenas para os descendentes do povo de Judá, mas para as comunidades do mundo inteiro.

História de um guerreiro

sábado, 25 de abril de 2015


O homem que plantava árvores ( "L'homme qui plantait des arbres", de 1987), vencedor do Oscar de Melhor Animação de 1988. Baseado em um conto do romancista francês Jean Giono, de 1953, e dirigido por Fréderic Back, o desenho conta a história de Elzéard Bouffier, um pastor de ovelhas silencioso e persistente.

O Trabalho

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Quem te conhece não te conhece pois toma a parte como se fosse o todo, te faz em pedaços e você mesmo acaba por não se reconhecer. O caminho é recolher os pedaços de si para se fazer inteiro. A parte responsável por este "defrag" anímico precisa resguardar-se continuamente em silêncio e solidão para executar o seu trabalho e não ser também quebrada, triturada e massacrada pelo sistema que está aí.

A frase mais imprópria do ponto de vista do sistema social é:

O trabalho dignifica o homem.

Nada neste sistema o dignifica, antes o explora, o avilta e o transforma num recurso humano.

O único trabalho que dignifica o ser é o trabalho para se fazer inteiro, íntegro.


Prática Vital

quarta-feira, 22 de abril de 2015

As lágrimas escorrem pela face em função da beleza que vêem: arte.
O súor brota pelo corpo em função do esforço que realiza: trabalho.
O sangue flui pelas tuas veias em função do alimento digerido: energia (comida e ar)
A água da vida ascende pela tua coluna como um dragão de fogo: paixão transmutada.
Tudo se transforma em ti, numa série de impressões incessantes, para que "tu" seja apenas uma referência passageira.
Teu ser líquido é um fluxo ígneo no leito do corpo: vulcão, lava e explosão.
Estás morrendo em vida. Estás vivendo em morte.
"Tu" é uma ilusão de permanência e uma verdade irrefutável de impermanência.


Asherah: A Deusa Proibida

ASHERAH:
THE FORBIDDEN GODDESS
Ana Luisa Alves Cordeiro

Graduanda do Bacharelado em Teologia pela Universidade Católica de Goiás. Assessora do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos (CEBI). Correio eletrônico: analuisatri@yahoo.com.br

Resumo: Este artigo tem por objetivo realizar uma reconstrução da imagem da Deusa Asherah no Antigo Israel, como possibilidade de representação feminina no sagrado. Após a contextualização do processo de elaboração do monoteísmo em Israel, voltamos a um processo anterior, o politeísmo, onde vislumbramos a presença das Deusas e Deuses no contexto cananeu, em especial Asherah, para posteriormente identificarmos a relação conflituosa que se estabelece entre os escritos bíblicos e Asherah.

Palavras-chave: Deusa Asherah, Deus Yahweh, politeísmo, monoteísmo, Antigo Israel.

Para a maioria das pessoas que lêem a Bíblia, a idéia de um único Deus de Israel, Yahweh, parece ser clara. No entanto, descobertas arqueológicas das últimas décadas vem demonstrando que nem sempre foi assim. Nem sempre Yahweh esteve solitário. Antes da ascensão do monoteísmo em Israel, o Deus Yahweh fazia parte de um contexto politeísta onde havia um panteão de Deuses e Deusas, sendo que provavelmente foi adorado ao lado de sua consorte, Asherah.

Reconstruir a presença da Deusa Asherah na vida de mulheres e homens no antigo Israel é um esforço de, a partir de uma perspectiva feminista e de gênero, trazer elementos que nos ajudem numa maior aproximação do que foram os espaços religiosos e vitais deste povo. Esta reconstrução é algo necessário, uma vez que estamos diante de textos sagrados marcados pelo sistema patriarcal, onde há o domínio do pai e quiriarcal, onde há o domínio do senhor (Gossmann, 1997: 371-374). Sistemas que projetaram historicamente um Deus masculino, legitimando práticas e funções masculinas, com isso silenciando mulheres, suas representações sagradas, tudo aquilo que pudesse lhes garantir espaço e voz. Por isso, faz-se necessário a nossa reflexão voltar a um ponto anterior ao monoteísmo patriarcal, até religiões nas quais uma Deusa era a imagem divina dominante ou então era emparelhada com a imagem masculina de uma forma que tornava a ambas modos equivalentes de aprender o divino (Ruether, 1993: 46).

Carol Christ (2005: 17) ressalta que “re-imaginar o poder divino como Deusa tem importantes conseqüências psicológicas e políticas”, como caminho de desconstrução do pensamento que naturaliza a dominação masculina. Segundo Schroer (1995: 40), o culto à Deusa era exercido tanto por homens como por mulheres, mas veio sobretudo ao encontro das necessidades das mulheres, pois lhes oferecia mais espaço no âmbito religioso.

Através de uma “hermenêutica feminista de suspeita”, método proposto por Elisabeth Schüssler Fiorenza (1992: 89), queremos “re-imaginar” Asherah a partir de uma análise exegética crítica ao patriarcado/quiriarcado presente nos textos bíblicos, reconstruindo a memória da Deusa a partir dos dados arqueológicos e identificando na literatura bíblica a relação conflituosa que se estabelece com ela.

As Origens do Monoteísmo no Antigo Israel

Antes de qualquer reflexão em torno da Deusa Asherah, é necessário primeiramente fazermos uma breve alusão sobre o que foi a constituição do monoteísmo no Antigo Israel, para então entendermos como este monoteísmo afetou a cultura politeísta da época, mais especificamente o culto e a imagem da Deusa Asherah.

Há uma grande problemática em torno do início do monoteísmo, são vários os apontamentos e as pesquisas. Frank Crüsemann (2001: 780) aponta a época do profeta Elias (cf. 1Rs 18,19-40) como o momento histórico em que se começa a falar da exclusividade do Deus de Israel, principalmente no embate com o Deus Baal e no processo de sincretismo onde Yahweh incorpora as características de Baal. Os escritos bíblicos do Primeiro Testamento teriam em si a tendência de mostrar, do início ao fim, a realidade do monoteísmo, “a proibição de se adorar outras divindades já é pressuposta em Gênesis e formulada claramente no Sinai (Ex 20,2)” (Crüsemann, 2001: 781).

Haroldo Reimer (2006: 115) aponta, sobretudo o século V a.E.C como o momento histórico marcante, em que Yahweh vai se constituindo como Deus único de Israel, desencadeando um “processo de diabolização de outras divindades”.

Num primeiro momento, a divindade Yahweh teria sido um elemento religioso que veio de fora do contexto cananeu. Nesta época, possivelmente era o Deus El que ocupava a cabeça do panteão divino. Yahweh passa a integrar o contexto israelita sem contudo negar a existência e diversidade de outras divindades.

No entanto, os conflitos religiosos começam a acontecer, sobretudo no Reino do Norte, no período que vai dos séculos IX a VIII a.E.C, com o Deus Baal, ocorrendo a transferência dos atributos da fertilidade de Baal para Yahweh, o que Crüsemann também aponta. Já no Reino do Sul, do final do século VIII até o final do século VII a.E.C, a fé monoteísta javista é afirmada em um contexto nacionalista, na medida em que se pode retrojetar a idéia de nação para aqueles tempos. A diversidade religiosa passa a ser objeto de ações perseguidoras oficiais, buscando-se sempre a cumplicidade dos homens de Israel que devem denunciar quem se desvia do credo oficial afirmado desde Jerusalém (Reimer, 2006: 117).

Neste sentido, a afirmação da exclusividade de Yahweh acarreta um processo de “diabolização” da própria Deusa Asherah, onde textos bíblicos serão instrumentos de justificação deste processo monoteísta.

Frente a essa exclusividade de Yahweh, será impossível a sobrevivência de qualquer outra divindade, além de que a ênfase em Yahweh será critério de afirmação do sacerdócio masculino perpetuando uma sociedade patriarcal (Reimer, 2006: 117).

Neste contexto, a existência de outras divindades masculinas e femininas foi sempre uma ameaça ao monoteísmo estabelecido, sendo que as reformas religiosas em Judá, de Josafá (870-848 a.E.C), de Ezequias (716-687 a.E.C), de Josias (640-609 a.E.C) e as legislações do Código da Aliança (Ex 20,22-23,19) e do Código Deuteronômico (Dt 12-26) agiram como instrumentos que visavam assegurar a fé monoteísta (Reimer, 2003: 968).

O desenvolvimento do Monoteísmo e suas fases

O pesquisador Haroldo Reimer (2003) aponta cinco fases do desenvolvimento do monoteísmo no Antigo Israel.

A primeira fase seria marcada pelo sincretismo entre El e Yahweh, no qual El é uma divindade cananéia cujas características é criador da terra e pai dos deuses.

A segunda fase, por volta do século IX a.E.C, seria marcada pelos conflitos com o Deus Baal.

Baal era filho de El, cuja característica principal era a fertilidade.

A terceira fase estaria na ênfase da adoração exclusiva a Yahweh. O profeta Oséias, no século VIII a.E.C, equipara a idolatria à adoração de outras divindades. Neste período acontece a reforma de Ezequias (2Rs 18,4), que mostra a remoção dos lugares altos e a destruição da serpente de bronze, Neustã, reforma legitimada legalmente através do Código da Aliança (Ex 20,22-23,29).

A quarta fase remete à época de dominação assíria, com a reforma de Josias (2Rs 22-23), justificada legalmente pelo Código Deuteronômico, englobando uma série de medidas visando a exclusividade de Yahweh e sua centralidade em Jerusalém, do templo de Jerusalém teriam sido retirados utensílios feitos para Baal, Aserá e o Exército do céu; sacerdotes dos 'altos' foram depostos, a estaca sagrada (hebraico: asherah) foi destruída, cabanas onde as mulheres teciam véus para Aserá foram demolidas etc. Também os santuários do interior foram desautorizados e desmantelados. Houve, assim, claramente, uma concentração do culto a Yahveh em Jerusalém, com a conseqüente exigência da adoração exclusiva dessa divindade (Reimer, 2003: 982).

Cada vez mais, as reformas religiosas vêm carregadas de intolerância religiosa proibindo qualquer tipo de imagens de divindades, mesmo que de Yahweh. Esta fase teria repercutido imensamente no culto à Deusa Asherah, consorte de Yahweh.

A quinta fase seria marcada pelo monoteísmo absoluto e estaria relacionada com o período do exílio. Esta realidade estaria clara em Is 45,5 “Eu sou Yahweh e fora de mim não existe outro Deus”. Gn 1 seria a afirmação do poder criacional de Yahweh diante do domínio babilônico ancorado na fidelidade à divindade Marduc. No entanto, o pós-exílio, época do domínio Persa e do retorno das elites sacerdotais exiladas na Babilônia, seria o momento de maior afirmação do monoteísmo absoluto em Yahweh, bem como, da supressão de qualquer referência a outras divindades, sobretudo femininas. Toda a literatura bíblica produzida e finalizada neste período terá essa tendência exclusivista em Yahweh.

Enfim, o monoteísmo em Israel traz em si um longo processo de elaboração e afirmação, que se absolutiza sobretudo em torno dos séculos VI e V a.E.C.

A presença da Deusa em Israel (Do Bronze ao Ferro)

Conforme a pesquisadora Monika Ottermann (2004), que traça o panorama da presença da Deusa em Israel, da Idade do Bronze à Idade do Ferro, no Oriente Médio, datando a Idade do Bronze Médio (1800-1500 a.E.C), a representação da Deusa é caracterizada como “Deusa-Nua”, destacando o triângulo púbico, emergindo também representações em forma de ramos ou pequenas árvores estilizadas, combinação que vem a ser denominada “Deusa-Árvore”.

Na Idade do Bronze Tardio (1550-1250/1150 a.E.C), a Deusa-Árvore apresenta duas mudanças, aparecendo em forma de uma árvore sagrada flanqueada por cabritos ou como um triângulo púbico, que substitui a árvore. Neste período, já se nota a tendência de substituição do corpo da Deusa pelos seus atributos, em especial a árvore. Aparece, na passagem do BM para o BT uma mudança decisiva no campo das figuras de material mais precioso: as Deusas Nuas foram substituídas em grande parte por deuses guerreiros como Baal e Reshef (...) o encontro dos sexos fica claramente relegado ao segundo plano e é substituído por representações de legitimação, luta, dominação e lealdade político-imperial (Ottermann, 2004: 5).

A Deusa continua perdendo representatividade na religião oficial, onde divindades masculinas ganham cada vez mais força, principalmente a partir de características dominadoras e guerreiras. Na Idade do Ferro I (1250/1150-1000), a forma corporal da Deusa-Árvore vai desaparecendo enquanto que formas de animais que amamentam filhotes, às vezes com a presença de uma árvore estilizada, ganham cada vez mais espaços na glíptica, significando a prosperidade e a fertilidade. A presença da Deusa fica relegada aos espaços de religiosidade das mulheres.

Na Idade do Ferro IIA (1000-900 a.E.C), início da formação do javismo as Deusas passam a ser simbolizadas por seus atributos. A forma vegetal da Deusa confunde-se com seu símbolo, a árvore estilizada, sendo que muitas vezes é substituída por ele. Entendemos essas imagens como representações da Deusa Asherah.

Na Idade do Ferro IIB (925-720/700 a.E.C), Israel e Judá apresentam diferenças no âmbito simbólico. Os documentos epigráficos de Kuntillet Adjrud e de Khirbet el-Qom destacam um vínculo estreito entre Asherah e Yahweh, o que acima de tudo demonstra um contexto politeísta, onde se adoravam a várias divindades femininas e masculinas.

Na Idade do Ferro IIC (720/700-600 a.E.C), a Babilônia derruba a Assíria e passa a dominar Israel e Judá. Neste período encontramos o símbolo tradicional da Deusa, a árvore e o ramo. Vários selos ou impressões de selos que associam símbolos astrais com árvores estilizadas foram encontrados na Palestina e na Transjordânia, o que reforça interpretações sobre a existência de um culto a Deusa Asherah ao lado do Deus Yahweh. É principalmente na forma de árvore estilizada que, ao longo de séculos, Asherah esteve presente em Israel.

Mas é sobretudo na época pós-exílica que as vertentes políticas e religiosas dominantes vão excluir e proibir a presença de uma divindade feminina dentro do javismo (Ottermann, 2005:.52).

Evidências arqueológicas da Deusa Asherah

As primeiras evidências de Asherah aparecem em textos cuneiformes babilônicos (1830-1531 a.E.C) e nas cartas de El Armana (século XIV a.E.C) (Neuenfeldt, 1999:.5).

Para o pesquisador Ruth Hestrin (1991: 52-53), informações importantes sobre Asherah vêm dos textos ugaríticos de Ras Shamra (Costa Mediterrânea da Síria). Nestes textos, Asherah é chamada de Atirat, consorte de El, principal Deus do panteão cananeu no II milênio a.E.C, sendo mencionada também como ‘Elat, forma feminina de El. Nos textos ugaríticos, Asherah (ou seja, Atirat ou ‘Elat) é a mãe dos Deuses, simbolizando a Deusa do amor, do sexo e da fertilidade.

Também foram escavados vários pingentes ugaríticos que retratam uma Deusa, provavelmente Atirat/ ‘Elat. A figura humana estilizada nestes pingentes contém o rosto, os seios e a região púbica e uma pequena árvore estilizada gravada acima do triângulo púbico.

Em 1934, o arqueólogo britânico James L. Starkey encontrou o jarro de Lachish, datado aproximadamente no 13º século a.E.C, provavelmente ano 1220.

O jarro é decorado e contém inscrições raras do antigo alfabeto semítico. Na decoração há o desenho de uma árvore flanqueada por duas cabras com longos chifres para trás, que, segundo Ruth Hestrin, representa Asherah. Uma inscrição que segue pela borda do jarro tem sido reconstruída e traduzida por Frank M. Cross, como: “Mattan. Um oferecimento para minha senhora "Elat”.

Não se sabe quem é Mattan, mas está claro que ele faz uma oferenda para 'Elat, que é o feminino para El, chefe do panteão cananeu no II milênio a.E.C, equivalente ao pré-bíblico Asherah. Nota-se um dado importante, o nome 'Elat está escrito logo acima da árvore, representação de 'Elat/ Asherah. Há uma possibilidade deste jarro e seu conteúdo terem sido uma oferenda à Deusa (Hestrin, 1991: 54).

No entanto, foi no templo de Arad, no Neguev, ao sul de Jerusalém, que se encontrou fortes evidências de Asherah. No santuário interno foram encontrados dois altares diante de um par de pedras verticais, possivelmente lugar de culto a Yahweh e Asherah. Um outro altar foi encontrado no pátio externo do templo com tigelas dos sacerdotes e cinzas de ossos de animais queimados, no canto uma irmandade local e altares com pedras duplas (Discovery, 1993). Segundo Elaine Neuenfeldt (1999:.6), o templo é datado aproximadamente da época do Bronze Recente, entre o 10º e 8º séculos a.E.C., quando possivelmente a reforma de Ezequias o extinguiu (2Rs 18).

Em Khirbet el-Qom, ao oeste de Hebron, em 1967, outro arqueólogo encontrou um túmulo judaico da segunda metade do século VIII (Discovery, 1993), com uma inscrição na parede interior que Severino Croatto (2001:.36) traduz como:

1. Urijahu (...) sua inscrição.
2. Abençoado seja Urijahu por Javé (lyhwh)
3. sua luz por Asherah, a que mantém sua mão sobre ele
4. por sua rpy, que...

Segundo Hestrin, em 1975-1976, o arqueólogo israelita Ze’ev Meshel, em Kuntillet Adjrud, 50km ao sul de Qadesh-Barnea, na antiga estrada de Gaza a Elat, escavou uma pousada no deserto que continha várias inscrições. Controlado por Israel, este posto estatal encontrava-se em território de Judá, funcionando aproximadamente entre 800-775 a.E.C. No prédio principal, em sua entrada, duas jarras de armazenagem com desenhos e inscrições foram encontradas e identificadas como pithos A e pithos B. Na inscrição do pithos A se lê:
Diz... Diga a Jehallel... Josafa e...”:

Abençoo-vos em YHWH de Samaria e sua Asherah.

No pithos B se lê:

Diz Amarjahu: Diga ao meu Senhor: Estás bem?”.

Abençoo-te em YHWH de Teman e sua Asherah.

Ele te abençoa e te guarde e com meu senhor.

Neste pithos aparecem três figuras, duas masculinas retratos do Deus egípcio Bes e uma claramente feminina (seios em destaque) tocando uma lira.

Ruth Hestrin (1991: 55–56), aponta ainda que em outra pintura egípcia, do túmulo do Faraó Tuthmosis III, está retratada uma Deusa na forma humana no tronco de uma árvore, apresentando alimento para o rei através do seio que é sustentado pelo braço, ambos saindo da árvore.

Willian Dever (Discovery: 1993) também aponta a dama-leão como uma forte evidência de que Asherah existiu como Deusa no início de Israel. No mundo antigo, o leão quase sempre acompanhou o Deus chefe. Em uma estela egípcia a Deusa despida em cima de um leão é chamada de Qudshu, que para William F. Albright e Frank Cross é o equivalente egípcio do ugarítico ‘Atirat/ ‘Elat e do bíblico Asherah. Em outra figura a árvore sagrada que representa Asherah é colocada em cima de um leão (Hestrin, 1991: 55-57).

Em 1968, o arqueólogo americano Paul Lapp escavou um outro artefato muito famoso em Taanach, datando ao final do 10º século a.E.C (Hestrin, 1991: 57). Num dos quartos da instalação cúltica foram encontrados prensa de óleo, forma para fazer figuras de Asherah, sessenta pesos de tear e 140 ossos de articulações de ovelhas e cabras (Neuenfeldt, 1999: 7).

Um quadrado oco de terracota, aberto na base, composto de quatro níveis ou róis também foi encontrado. Conforme Ruth Hestrin (1991: 57-58), no rol inferior, uma mulher nua flanqueada por dois leões é mais uma representação de Asherah, Deusa-mãe, o que é similar á estela egípcia com Qudshu. No segundo rol temos uma abertura vazia no meio (provavelmente a entrada do templo) flanqueada por duas esfinges (corpo de leão, asas de pássaros e cabeça de mulher). O terceiro rol traz uma árvore sagrada da qual saem três pares de galhos, simbolizando a Deusa principal, Asherah, consorte de Baal e fonte da fertilidade, sendo flanqueada possivelmente por duas leoas. No rol superior temos um touro sem chifres, com um disco de sol em cima, o que simboliza o Deus supremo não só na Mesopotâmia e no panteão hitita, como também no panteão cananeu. O jovem touro representa Baal, principal Deus do panteão cananeu, que no II milênio substituiu El, cabeça do panteão.

Em 1960, a arqueóloga inglesa Kathyn Kenyon descobriu centenas de estatuetas femininas quebradas em uma caverna perto do templo de Salomão em Jerusalém, para vários estudiosos esta descoberta sinalizou a existência do templo, para outros determinou o fim dos cultos pagãos pelo rei Josias, o qual ordenou a destruição de todos os vasos feitos para Baal e Asherah (Discovery, 1993).

Todas essas descobertas são fortes evidências da existência da Deusa Asherah. Parece claro que por determinado tempo essa Deusa teve mais espaço e representatividade na vida do povo em Canaã/ Israel, até ser taxada como a causa de todos os males que o povo estava sofrendo nas mãos de seus dominadores, em especial na época da dominação Babilônica, com toda experiência de destruição e exílio, Aserá, na maioria do tempo venerada sob o corpo de uma árvore, era, inicialmente, a parceira de YHWH, mas com o crescente desenvolvimento do javismo como religião de um deus masculino, transcendente e único, ela foi taxada como sua maior rival e inimiga (Ottermann, 2005: 48).

A existência da Deusa Asherah remonta uma época de adoração a vários Deuses e Deusas, antes da ascensão do Javismo, o culto da Deusa Árvore Asherah realizava-se, principalmente, em torno de uma árvore natural ou estilizada, ou seja, de um poste sagrado que podia estar ao lado de um altar seu ou de uma outra divindade, inclusive YHWH. Porém, seu culto foi realizado, de preferência, debaixo de uma árvore natural, nos chamados 'lugares altos', santuários ao ar vivo no topo das colinas e montanhas. Na maioria do tempo, uma imagem ou símbolo de Asherah estava também presente dentro do próprio templo de Jerusalém (Ottermann, 2005:.49).

É fato que a nova religião, centrada em Yahweh, vai se construindo e se impondo a partir da proibição a qualquer tipo de representação religiosa que não fosse Yahweh.

De politeísta Israel passa a se constituir monoteísta, pelo menos na religião oficial.

Provavelmente, adorações a Deuses e Deusas dentro das casas continuaram por longo tempo, como forma de resistência. A centralização no Deus único, Yahweh, que neste processo também se apropriou das funções de Asherah, custou caro aos outros Deuses e Deusas que compartilhavam da mesma cultura. Esta proibição atingiu a vida de homens e mulheres, que ali encontravam uma significação religiosa.

Seria ingênuo querer defender, neste contexto, uma sociedade no antigo Israel onde havia reciprocidade entre os sexos, pelo simples fato de existirem as Deusas. Pelo contrário, como reflete Simone de Beauvoir (2002:.91), o culto a Deusa se dá dentro de um contexto patriarcal, onde a perda de representação da Deusa atinge profundamente e principalmente ao universo religioso das mulheres, sendo que, o culto a Asherah vai sobrevivendo, até ser definitivamente extinguido e proibido, dos espaços, das mentes e dos corpos, de homens e mulheres que tinham em Asherah uma fonte de significação para a vida.

É nesse contexto patriarcal, que Yahweh se torna uma forte representação do masculino no sagrado, justificando a dominação masculina, tanto no âmbito social, econômico, político, como religioso. A religião oficial israelita absorve então uma identidade somente masculina, onde o feminino passa a ser relegado ao espaço particular das mulheres.

Por isso, é extremamente importante uma memória da Deusa, em especial Asherah, consorte de Yahweh, não só numa tentativa de reconstruir a história do antigo Israel, mas principalmente dar espaço e voz às divindades femininas, que são uma possibilidade de identificação sagrada das mulheres, em busca de relações mais recíprocas e humanizadas entre os gêneros.

Deusa Asherah: Uma imagem a partir dos Escritos Bíblicos

Conforme Ruth Hestrin (1991:.50), Asherah é mencionada cerca de 40 vezes na Bíblia Hebraica, de três formas diferentes, ora como uma imagem que representa a própria Deusa, ora como uma árvore ou como um tronco de árvore, que a simbolizam.

Asherah, a Deusa Cananéia, na mitologia ugarítica era conhecida como “Senhora do Mar”, a esposa de El, chefe do panteão dos Deuses. No Primeiro Testamento ela aparece muitas vezes como esposa de Baal, sendo que na épica de Baal, Asherah cria os monstros que o devoram, se opondo à construção de um templo para Baal (Mackenzie, 1984:.82).

O culto a Asherah foi muito popular em Israel e Judá. O rei Asa (912-871 a.E.C), que ficou no poder durante 41 anos em Judá, empreendeu uma restauração no culto a Yahweh e “chegou a retirar de sua mãe a dignidade de Grande Dama, porque ela fizera um ídolo para Aserá; Asa quebrou o ídolo e queimou-o no vale do Cedron” (1Rs 15,13; cf. 2Cr 15,16). O ídolo remete na palavra hebraica mifleset, a algum objeto de culto, provavelmente de madeira. É interessante perceber que o culto se dá no palácio, em ambiente oficial (Croatto, 2001: 40-41). Já na passagem de 1Rs 16,33 “Acab erigiu também um poste sagrado...” demonstrando que Asherah também foi adorada em Israel.

Em 2Cr 14,1-2, onde o rei Asa é lembrado como o rei que fez o que é “bom e justo aos olhos de Yahweh, seu Deus”, exatamente porque “eliminou os altares do estrangeiro e os lugares altos, despedaçou as estelas, destruiu as aserás...” ordenando o povo a praticar a lei e os mandamentos de Yahweh (cf. Jz 3,7).

Refletindo sobre os textos bíblicos que mencionam a Deusa Asherah teremos como pano de fundo o contexto que Silvia Schroer tão bem elucida, os/as repatriados/as da Babilônia tinham integrado a questão da culpa de tal maneira que consideravam sobretudo o culto às deusas como motivo da ruína de Israel. Os expoentes deste grupo conseguiram banir de Judá quase completamente o culto às deusas dentro de um século e de apagar, o máximo possível, as memórias dele. Não é por acaso que o culto clandestino à deusa acontece no contexto de proibições misóginas e xenófobas de casamentos mistos. Todas as tentativas que seguem, de integrar a deusa pelo menos na linguagem teológica, são tentativas assentadas dentro do sistema monoteísta (Schroer, 1995:.40).

A partir desta perspectiva, de demonização da Deusa ou das Deusas, tentaremos constatar, nos escritos bíblicos, os impactos e as conseqüências que tal visão e atitude trouxe para a imagem da Deusa Asherah, que aos poucos passa a se tornar a Deusa proibida, a causa dos males e da ruína de Israel.

A marginalização do feminino, das mulheres é um processo que também se dá e se sustenta por meio de escritos bíblicos justificadores de uma sociedade patriarcal, atuando assim no que podemos chamar de “desempoderamento” das mulheres a partir do sagrado, o que trouxe e traz fortes impactos nas dimensões culturais, religiosas, sociais, econômicas e políticas.

A seguir, em dois momentos, analisaremos citações bíblicas sobre Asherah. Primeiramente as que mencionam Asherah como Deusa, depois as que aparecem com o nome “poste sagrado”, símbolo da Deusa.

A Deusa Asherah:

Há uma preocupação dos redatores bíblicos de excluir qualquer suspeita da Deusa Asherah ao lado de Yahweh, como sua consorte, de tal forma que os escritos bíblicos possivelmente foram redigidos com a intenção de apagar e demonizar a presença da Deusa.

As inúmeras citações sobre Asherah demonstram seu peso no contexto religioso, o que faz dela uma grande ameaça ao monoteísmo javista em ascensão.

Em 1Rs 18,19, “pois bem, manda que se reúna junto de mim no monte Carmelo, todo o Israel com os quatrocentos e cinqüenta profetas de Baal e os quatrocentos profetas de Aserá, que comem à mesa de Jerusalém”, a referência a Asherah geralmente é considerada uma glosa. Quem incluiu esta referência tinha claro que Asherah era uma Deusa e a coloca em paralelo com Baal (Croatto, 2001:.41).

O rei Josafá (871-848 a.E.C), filho e sucessor do rei Asa, deu continuidade à política de seu pai, “Yahweh manteve o reino em suas mãos” (2Cr 17,5), pois “seu coração caminhou nas sendas de Yahweh e ele suprimiu de novo em Judá os lugares altos e as aserás” (2Cr 17,6). Em outra passagem, Josafá após combater contra Aram, apesar de ferido, volta com vida para Jerusalém sendo aclamado por Jeú, o vidente, deve-se levar auxílio ao ímpio? Amarias aqueles que odeiam Yahweh, para assim atrair sobre ti sua cólera? Todavia, foi encontrado em ti algo de bom, pois eliminaste da terra as aserás e aplicaste teu coração à procura de Deus (2Cr 19,3).

Ezequias (727-698 a.E.C), filho e sucessor de Acaz, é lembrado como o rei que “fez o que é agradável aos olhos de Yahweh”. Durante o seu reinado, após a celebração da Páscoa e da festa dos Ázimos é empreendida uma reforma do culto, terminadas todas essas festas, todo o Israel que lá se achava saiu pelas cidades de Judá quebrando as estelas, despedaçando as aserás, demolindo os lugares altos e os altares, para eliminá-los por completo de todo o Judá, Benjamim, Efraim e Manassés. A seguir, todos os israelitas voltaram para suas cidades, cada um para seu patrimônio (2Cr 31,1).

Nesta época o Reino do Norte, Israel, já havia sido destruído, sendo assim, Judá, Reino do Sul, tornou-se o único espaço onde a identidade religiosa do povo de Yahweh poderia ser mantida. Foi nesse contexto que Ezequias promoveu uma extensa reforma religiosa e política, com intenções de reunir o povo em torno de um só Deus e um só rei. Por isso, Ezequias é exaltado pelos redatores deuteronomistas como o rei que “fez o que agrada aos olhos de Yahweh” (2Rs 18,3). A reforma religiosa de Ezequias era baseada nas seguintes medidas: no combate a idolatria, na centralização do culto a Yahweh em Jerusalém e no cumprimento dos mandamentos. Tais medidas podem ter sido fundamentadas no documento trazido do Norte (Dt 12-26), que foi adaptado à reforma em Judá. Josias retoma 100 anos mais tarde este documento para empreender sua reforma religiosa e política (Gass, 2005: 78-83).

O rei Manassés (698-643 a.E.C), filho e sucessor de Ezequias, é lembrado pelos redatores como um rei que “fez mal aos olhos de Yahweh”, justamente porque reconstruiu os lugares altos que seu pai havia destruído, ergueu altares para os baais e fabricou postes sagrados, prestando-lhes culto. No entanto, foi construir altares dentro do Templo de Yahweh (2Rs 21,7) a maior abominação para os redatores, que ao final dos escritos sobre Manassés relatam sua conversão a Yahweh. “Sua oração e como foi ouvido, todos os seus pecados e sua impiedade, os sítios onde havia construído os lugares altos e erguido aserás e ídolos antes de se ter humilhado, tudo está consignado na história de Hozai” (2Cr 33,19).

O rei Josias (640-609 a.E.C) empreendeu uma reforma a partir de 622 a.E.C fazendo de Jerusalém o centro político e religioso de seu estado, destruindo os santuários de Yahweh que havia no interior e acabando com os cultos cananeus e assírios, que aconteciam no templo de Jerusalém e nos lugares altos. A reforma de Josias atingiu a liberdade religiosa popular, pois ordenou a Helcias, o sumo sacerdote, aos sacerdotes que ocupavam o segundo lugar e aos guardas das portas que retirassem do santuário de Yahweh todos os objetos de culto que tinham sido feitos para Baal, para Aserá e para todo o exército do céu, queimou-os fora de Jerusalém, nos campos do Cedron e levou suas cinzas para Betel (2Rs 23,4).

Com isso, o culto exclusivo a Yahweh é reafirmado pela corte e pela classe sacerdotal de Jerusalém, exclusividade que custou caro à religiosidade popular (Gass, 2003:.134-138).
Josias ainda “demoliu as casas dos prostitutos sagrados, que estavam no templo de Yahweh, onde as mulheres teciam véus para Aserá” (2Rs 23,7). Aqui provavelmente se trata de vestidos feitos para a estátua de Asherah (Croatto, 2001:.41).

As intenções daqueles que redigiram tais textos parecem claras, ou seja, querem demonstrar que o “bom e justo” rei e povo é aquele que elimina qualquer resquício da presença de outros Deuses e Deusas em Israel, que o rei ou povo que “faz mal aos olhos de Yahweh” seria justamente aquele que aceita a realidade politeísta.

Na citação a seguir além de derrubar, despedaçar e reduzir a pó os altares, Josias manda espalhar este pó sobre o túmulo dos que ofereciam sacrifício a Baal e Asherah, ou seja, está explicíto que pessoas foram assassinadas. Aqui o nome Asherah também aparece no plural,
no oitavo ano de seu reinado, quando ainda não era mais que um adolescente, começou a buscar ao Deus de Davi, seu antepassado. No décimo segundo ano de seu reinado, começou a purificar Judá e Jerusalém dos lugares altos, das aserás, dos ídolos de madeira ou de metal fundido. Derrubaram diante dele os altares dos baais, ele próprio demoliu os altares de incensos que estavam sobre eles, despedaçou as aserás, os ídolos de madeira ou de metal fundido, e tendo-os reduzido a pó, espalhou o pó sobre os túmulos dos que lhes ofereceram sacrifícios (...) Nas cidades de Manassés, de Efraim, de Simeão e também de Neftali e nos territórios devastados que os rodeavam, ele demoliu os altares, as aserás, quebrou e pulverizou os ídolos, derrubou os altares de incenso em toda a terra de Israel e depois voltou para Jerusalém (2Cr 34,3-4.6-7).

Em Is 27,9 a Deusa Asherah é taxada de forma explícita como o pecado de Israel, a causa de sua iniqüidade e ruína, devendo ser banida por completo, porque, com isto, será expiada a iniqüidade de Jacó. Este será o fruto que ele há de recolher da renúncia ao seu pecado, quando reduzir todas as pedras do altar a pedaços, como pedras de calcário, quando as Aserás e os altares de incenso já não permanecerem de pé.


Está claro que a ascensão do culto exclusivo a Yahweh não se faz de forma tranqüila, mas de forma violenta, a partir da intolerância religiosa, da destruição e da eliminação por completo do outro, que se torna uma ameaça.

Asherah como objeto cúltico:

A proibição “não plantarás um poste sagrado ou qualquer árvore ao lado de um altar de Yahweh teu Deus que hajas feito para ti, nem levantarás uma estela, porque Yahweh teu Deus a odeia” (Dt 16-21-22), conforme Croatto (2001:.42), revela que o objeto que simboliza Asherah é feito de madeira, que está plantado, ou seja, é um poste ou uma estaca e não uma estátua, que sua colocação “ao lado de um altar de Yahweh” transparece o caráter cultual do símbolo e principalmente a associação da Deusa simbolizada junto com o próprio Yahweh.

Em Jz 6,25 o pai de Gedeão possuía um altar de Baal que tinha uma Asherah ao lado, “aconteceu que, naquela mesma noite, Yahweh disse a Gedeão: Toma o touro de teu pai, o touro de sete anos, de uma segunda cria destrói o altar de Baal que pertence a teu pai e quebra o poste sagrado que está ao lado”. Conforme Jz 6,26.28, o 'poste sagrado' é queimado. Tal atitude provocou revolta, “os habitantes da cidade disseram então a Joás: Traze para fora o teu filho, para que morra, porquanto destruiu o altar de Baal e cortou o poste sagrado que estava ao lado” (Jz 6,30).

Acab (874-853 a.E.C) construiu um templo de Baal para sua esposa fenícia, “erigiu também um poste sagrado e cometeu ainda outros pecados, irritando Yahweh, Deus de Israel, mais que todos os reis de Israel que o precederam” (1Rs 16,33).

Os redatores deuteronomistas se queixam que na época do rei Joacaz (813-797 a.E.C) o culto a Asherah esteve presente “todavia, não se apartaram do pecado ao qual a casa de Jeroboão havia arrastado Israel; obstinaram-se nele e até mesmo o poste sagrado permaneceu de pé em Samaria” (2Rs 13,6). A ruína da Samaria é então explicada em 2Rs 17,16 porque “rejeitaram os mandamentos de Yahweh seu Deus, fabricaram para si estátuas de metal fundido, os dois bezerros de ouro, fizeram um poste sagrado, adoraram todo o exército do céu e prestaram culto a Baal”.

Manassés desfaz a reforma de seu pai Ezequias “reconstruiu os lugares altos que Ezequias, seu pai, havia destruído, ergueu altares a Baal, fabricou um poste sagrado, como havia feito Acab, rei de Israel...” (2Rs 21,3).

Em 2Rs 23,6 o rei Josias tira Asherah de dentro do Templo de Jerusalém, transportou do Templo de Yahweh para fora de Jerusalém, para o vale do Cedron, o poste sagrado e queimou-o no vale do Cedron, reduziu-o a cinzas e lançou suas cinzas na vala comum.

Na citação de 2Rs 23,15b supõe-se que havia uma Asherah em Betel, muito antes de Josias, mas que este a “queimou”, demoliu também o altar que estava em Betel, o lugar alto edificado por Jeroboão, filho de Nabat, que havia arrastado Israel ao pecado, demoliu também esse altar e esse lugar alto, queimou o lugar alto e o reduziu ao pó, queimou o poste sagrado.

Conforme Croatto (2003:.43) o termo aserot (“os postes”) que designa o símbolo específico da Deusa Asherah é encontrado em poucos lugares. No plural, aparece geralmente no masculino (aserim). Nestas citações o termo já perdeu seu sentido original de símbolo da Deusa Asherah, num processo de “masculinização” que tenta apagar qualquer memória da Deusa.

Estes textos bíblicos nos ajudam a perceber o profundo processo de erradicação da Deusa Asherah, apagando qualquer resquício de sua memória, causando conseqüências drásticas à importância de Asherah na religiosidade do povo, bem como, no antigo culto ao lado de Yahweh. Os redatores bíblicos têm uma intenção nítida, contar a história a partir de Yahweh, único Deus, de tal forma que Asherah de consorte passe a ser sua rival, ou seja, a elite de escritores bíblicos tinham uma idéia daquilo que Deus deveria ser, único e masculino: Yahweh, negando assim toda a realidade politeísta em Israel.

Conclusões

Concluímos que Asherah possivelmente era uma Deusa e consorte de Yahweh no Antigo Israel e não um simples atributo deste. Várias descobertas arqueológicas e mencionadas nesta pesquisa nos ajudam na reflexão, destacando as de Khirbet el-Qom, em 1967 e a de Kuntillet Adjrud, em 1976, que traz a inscrição “abençoo-te em Yahweh de Teman e sua Asherah”.

A proibição da Deusa Asherah é fruto de um dado momento histórico de elaboração e ascensão do monoteísmo javista. A identidade judaica, após a drástica experiência do exílio babilônico e na tentativa de reorganização da nação, passa a se constituir em torno de três pilares: um só Deus, um só Povo e uma só Lei. A centralidade em Yahweh se torna um fator importante de credibilidade e legitimação da nova identidade nacional em formação, resultado das reformas empreendidas por Esdras e Neemias. A idolatria se torna então a culpa da ruína de Israel e neste contexto Yahweh é triunfante. Isso irá se refletir no conflito que os textos bíblicos demonstram em relação a Asherah e a outros Deuses e Deusas, bem como, em relação principalmente às mulheres estrangeiras.


Podemos claramente perceber que a elaboração e instituição do monoteísmo não se deu de forma democrática e muito menos pacífica. A partir de um contexto politeísta, a centralidade em Yahweh é um processo violento, de destruição da cultura religiosa do outro e da outra, de proibição do diferente, demonizando-o e tornando-o uma ameaça. Um processo nítido de intolerância religiosa.


A supressão do culto e da imagem da Deusa Asherah traz consigo conseqüências profundas para as relações entre os gêneros, afetando em especial aos corpos das mulheres, que tinham na Deusa uma possibilidade de representação do feminino no sagrado. A religião judaica vai se constituindo em torno de um único Deus masculino, legitimando historicamente uma sociedade patriarcal. Este poder divino imaginado somente como Deus afetou as mulheres, as crianças, a natureza, pois quase sempre partiu de um pressuposto de dominação, opressão e hierarquização das relações, tanto humanas como ecológicas.

Afirmar Asherah como Deusa é polêmico, mas necessário à religião e à pesquisa bíblica. Dar voz a uma época em que Deuses e Deusas eram adorados, em que o próprio Yahweh foi adorado ao lado de Asherah, nos impulsiona a re-pensar não só as relações pré-estabelecidas entre homens e mulheres, bem como, a própria representação do sagrado estabelecida.
Re-imaginar o sagrado como Deusa é re-imaginar as relações de poder, não numa tentativa de apagar a presença de Deus e sim de dar espaço ao feminino no sagrado, novamente o feminino não como um atributo do Deus masculino, mas como Deusa.
Esta talvez seja uma grande contribuição da reflexão feminista, que nos desloca e nos provoca a re-imaginar o sagrado, como possibilidade de re-imaginar a sociedade e as estruturas cristalizadas secularmente.

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