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segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Revelação nunca será bem-vinda entre os ditos poderosos



"A revolução nunca será televisionada".

A revelação nunca se dará pelos canais oficiais do poder institucional.

Revelação é igual à verdade. 

Por que pessoas tidas como poderosas fariam revelações que colocariam seu poder em xeque?

Quem quer a verdade seja revelada, a quem ela interessa? 

De que verdade estamos falando? - diriam alguns. Da verdade que incomoda os ditos poderosos de plantão, que ameaçam o status quo e que mantém a humanidade escrava de uma agenda que lhe é estranha, alienígena na acepção da palavra.

Mas devemos dizer que de uma certa forma as pessoas em geral temem a verdade, amam a mentira e na maioria esmagadora dos casos escolhem a ilusão, postergando ou mascarando apenas a dor inevitável. Assim sendo vamos apresentar a resposta na forma de fábula, a face encantadora da Verdade, pois até mesmo os ditos poderosos quando querem produzem através do cinema, por exemplo, obras que apresentam algo sem que isso os comprometa, até por que a capacidade para perceber do público é bastante reduzida. como na cena emblemática do pianista cego do filme De Olhos Bem Fechados.

A fábula da verdade ou a verdade fabulosa ou quem quer a verdade nua e crua(?)

Allahur Akbar! Allahur Akbar! (Deus é grande! Deus é grande!).

Quando Deus criou a mulher criou também a fantasia. Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.

Envolta em lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, o Cheique do Islã! O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:

- Senhor, - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.- Como se chama?

- Chama-se a Verdade!

- A Verdade! - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. - A Verdade quer

penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!

Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:

- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso Califa. Com esses ares impúdicos não poderás ir à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, pelos caminhos de Allah! Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harun Al-Raschid, cujas portas se lhe fecharam à diáfana formosura!

Mas...

Allahur Akbar! Allahur Akbar!

Quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação. E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid...

Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Acusação! - respondeu ela, em tom severo. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Comendador dos Crentes!

O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se como o grão-vizir.

- Senhor - disse, inclinando-se humilde, - uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid.

- Como se chama?

- A Acusação!

- A Acusação? - repetiu o grão-vizir, aterrorizado. - A Acusação quer entrar nesse palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que não, que não pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor!

Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade.

- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah!

Vendo quem não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harun Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.

Mas...

Allahur Akbar! Allahur Akbar! Quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho.

E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.

Vestiu-se com riquíssimos trajos, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.

Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês de Ramadã, o chefe dos guardas perguntou-lhe:

- Quem és?

- Sou a Fábula - respondeu ela, em tom meigo e mavioso. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Árabes! O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:

- Senhor, - disse, inclinando-se, humilde - uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa,

solicita audiência de nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Crentes.

- Como se chama?

- Chama-se a Fábula!

- A Fábula! - exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. - A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Benvinda seja a encantadora Fábula: Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes! Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!

E abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou.

E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harun Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do grande império mulçumano!

***


sábado, 18 de julho de 2026

O naualismo como revelação.



Imagine uma vida na qual não há mistério, encantamento, revelação, descoberta, uma vida perfeitamente segura, presa das rotinas, previsível, sem nenhuma surpresa ou fator inesperado, um disco arranhado que toca sem parar a mesma canção, eis a roda do samsara e seus infindáveis giros. Um verdadeiro saco! Uma prisão, de segurança máxima, por certo, mas de morte em vida também. Isso nos indica que a vida propriamente dita para ter graça tem que ter a marca do que é misterioso, do que é miraculoso, do inesperado

A essência da vida é um processo de revelação?

Dar à luz, fiat lux, faça-se a Luz e a luz foi feita. Tais expressões sugerem que a luz é gerada, fabricada, produzida a partir dos mistério da escuridão, do véu oculto do Espírito, do Ser, dessa enigma fundamental do olho que não pode ser visto. Nos deparamos então com o primeiro cerne abstrato do naualismo:

As manifestações do espírito (extraído do Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda):

— A primeira história de feitiçaria que vou lhe contar é chamada “As manifestações do espírito” — começou Don Juan —, mas não deixe que o título o mistifique. As manifestações do espírito são apenas o primeiro cerne abstrato ao redor do qual a primeira história de feitiçaria está construída.

“Esse primeiro cerne abstrato é uma história em si mesma. A história diz que tempos atrás houve um homem, um homem comum sem quaisquer atributos especiais. Era, como todos os demais, um conduto para o espírito. E em virtude disso, como todos os demais, era parte do espírito, parte do abstrato. Mas não sabia disso. O mundo mantinha-o tão ocupado que ele realmente não tinha o tempo nem a inclinação para examinar o assunto.

“O espírito tentou, sem sucesso, revelar sua conexão. Usando uma voz interior, o espírito revelou seus segredos, mas o homem era incapaz de compreender as revelações. Naturalmente, ouvia a voz interior, mas acreditava que fossem seus próprios sentimentos que estava sentindo e seus próprios pensamentos que estava pensando.

“O espírito, para sacudi-lo de sua modorra, deu-lhe três sinais, três manifestações sucessivas. O espírito cruzou fisicamente o caminho do homem da maneira mais óbvia. Mas o homem estava alheio a qualquer coisa a não ser a preocupação consigo mesmo.

Até aqui a citação do livro O Poder do Silêncio, do naual Dr. Carlos Castaneda.

Pelo que lemos nos é mostrado que a história é um processo de revelação, uma relação entre o Espírito e o ser humano, uma relação na qual o Espírito é a parte ativa, pois tenta revelar sua conexão, e o humano a parte passiva e até mesmo reativa, pois incapaz de perceber a conexão devido a sua preocupação consigo mesmo.

Aqui também o naual Carlos Castaneda nos revela que todos indiscriminadamente, e não apenas os nauais, são condutos do Espírito, todo homem e toda a mulher possuem uma conexão direta com o Poder e, portanto, são expressões do Abstrato.

Assim a história de cada um e de todos nós é a história das revelações do Espírito, estejamos ou não conscientes desse processo histórico. 

As manifestações do espírito se dão através:

Da voz interior, ou seja, não precisamos necessariamente que alguém o faça por nós, tais revelações podem se dar em nosso próprio interior, em nosso espaço íntimo, sagrado, em nosso coração.

O espírito pode manifestar-se fisicamente, como um acontecimento ou evento concreto, material, que cruza o caminho do ser, ou seja, as manifestações do espírito podem ser subjetivas (no interior do humano) ou objetivas (no espaço físico).

Não limites para as manifestações do espírito. Nós somos parte do espírito, do naual, do abstrato, então, nós somos também ilimitados em nossas manifestações. Eis aí o que precisamos compreender. Eis aí também por que as histórias de feitiçaria, do naualismo, dos xamãs-guerreiros são importantes, pois elas são indicadoras do processo pelo qual o Espírito se revela ao ser humano.

Daí falar-se em uma Era da Revelação específica é muito estranho, tem um cheiro de falácia no ar, pois não há Era na História humana na qual o Espírito não se manifeste para revelar de fato os segredos mais profundos ao ser humano. A questão é ele estar atento a isto e não enredado em distrações ou preocupações cotidianas que o impeçam de vislumbrar e compreender o verdadeiramente o miraculoso, o milagroso e o mágico na vida.

A ignorância fundamental aqui é desconhecermos a nossa origem, que todos nós somos condutos do espírito, tenhamos ou não a configuração energética própria de um naual. Assim todo esforço de revelação torna-se um processo de auto-revelação ou auto-investigação na qual a pergunta fundamental é: quem sou eu? Que não se busque aqui uma resposta intelectual, no campo da mente, mas uma vivência direta no âmbito do ser que percebe em si mesmo o abstrato, o infinito, o naual.

Manifestação vem de mão (manus) e segurar (festus), mas o que segura a mão que manifesta? O levantamento do véu, do mistério, do segredo, um processo que é íntimo, pessoal, pois se dá no interior de cada ser que está suficientemente preparado para percebê-lo. Assim se a revelação é um processo dialético entre o Espírito e o ser humano, é preciso que nessa re(ve)lação, em algum momento o humano se dê conta de que ele mesmo é o Espírito. Então nos deparamos com o que poderíamos chamar de "advaita naual", só para brincar com o conceito da filosofia da não-dualidade:

Advaita Naual


Naual não é um espírito familiar, ancestral ou animal, mas pode usar de toda e qualquer aparência e parecer-se como tal. É simples_mente o Espírito, algo indefinível, indescritível, absoluto, abstrato. É abstrato não em oposição ao que é concreto, mas por ser aquilo que sustenta toda a manifestação, o substrato de tudo, a essência, aquilo que subsiste de forma irredutível depois de tudo ter sido extraído, aquilo que resta após a dissolução, aquilo que coagula após o solve alquímico, o pó, o vibhuti, o ser. Nenhuma palavra O descreverá, pode ser experimentado, pode ser conhecido além de todo conceito. Nenhuma visão poderá revelá-lo, poderá ser um dedo apontando para a lua ou o indicador levantado para o vasto céu, ou ainda, o dedo sobre o lábios: "summa iru", apenas seja.
 

O INTENTO - O ESPÍRITO - O ABSTRATO - O NAUAL - A ÁGUIA - O PODER - O INFINITO - O MAR ESCURO DA CONSCIÊNCIA  

Extraído do Poder do Silêncio, do Dr. Carlos Castaneda

A história diz que tempos atrás houve um homem, um homem comum sem quaisquer atributos especiais. Era, como todos os demais, um conduto para o espírito. E em virtude disso, como todos os demais, era parte do espírito, parte do abstrato. Mas não sabia disso. O mundo mantinha-o tão ocupado que ele realmente não tinha o tempo nem a inclinação para examinar o assunto.

***

A única maneira de conhecer o intento — replicou — é conhecê-lo diretamente através de uma conexão viva que existe entre o intento e todos os seres sencientes. Os feiticeiros chamam de intento o indescritível, o espírito, o abstrato, o naual. Eu preferiria chamá-lo naual, mas isto se sobrepõe com o nome para o líder, o benfeitor, que também é chamado naual, portanto optei por chamá-lo espírito, intento, o abstrato.

***

Ele estava dizendo que a primeira história de feitiçaria concernente às manifestações do espírito era um relato do relacionamento entre o intento e o naual.

***

O espírito manifesta-se a um feiticeiro, em especial a um naual, a todo momento. Entretanto, esta não é a verdade completa. A verdade completa é que o espírito se revela a todos com a mesma intensidade e consistência, mas apenas os feiticeiros, e os nauais em particular, estão sintonizados a tais revelações.

***

Reconheceu o vôo do falcão assim como a aparência do homem como manifestações óbvias do espírito que não podia desdenhar. 

***

— Já lhe expliquei que não há maneira de falar sobre o espírito — continuou — porque espírito pode apenas ser experimentado. Os feiticeiros tentam explicar essa condição quando afirmam que o espírito não é nada que você possa ver ou sentir. Mas está pairando sobre nós o tempo todo. Às vezes vem para algum de nós. Durante a maior parte do tempo parece indiferente.

Fiquei quieto. E Don Juan continuou a explicar. Disse que de muitas maneiras o espírito era uma espécie de animal selvagem. Mantinha distância de nós até o momento em que algo atraía-o. Era então que o espírito se manifestava.

***

— O seu problema — disse ele — é que você considera apenas a sua própria ideia do que é abstrato. Por exemplo, a essência interior do homem, ou o princípio fundamental, são abstratos para você. Ou talvez algo um pouco menos vago, tal como caráter, volição, coragem, dignidade, honra. O espírito, naturalmente, pode ser descrito em termos de todas essas coisas. E é isso que é tão confuso, é que é todas essas coisas e nenhuma delas.

Acrescentou que o que eu considerava abstrações eram ou os opostos de todas as praticidades sobre os quais eu podia pensar ou coisas que eu decidira não ter existência concreta.

— E no entanto, para um feiticeiro um abstrato é algo sem paralelo na condição humana.

— Mas são a mesma coisa — gritei. — Não vê que estamos ambos falando sobre a mesma coisa?

— Não estamos — insistiu. — Para um feiticeiro, o espírito é um abstrato simplesmente porque ele o conhece sem palavras ou mesmo pensamentos. E um abstrato porque não pode conceber o que seja o espírito. E no entanto, sem a menor chance ou desejo de compreendê-lo, um feiticeiro manipula o espírito. Reconhece-o, acena-lhe, convida-o, familiariza-se com ele, e expressa-o através de seus atos.

Sacudi a cabeça em desespero. Não podia ver a diferença.

— A raiz de sua concepção errônea é que usei o termo “abstrato” para descrever o espírito — explicou. — Para você, abstratos são palavras que descrevem status da intuição. Um exemplo é a palavra “espírito”,  que não descreve a razão ou a experiência pragmática, e a qual, naturalmente, não tem utilidade para você senão a de estimular  sua imaginação.

Eu estava furioso com Don Juan. Chamei-o de obstinado, e riu de mim. Sugeri que se eu pensasse sobre a proposição de que o conhecimento podia ser independente da linguagem, sem preocupar-me em compreendê-la, talvez pudesse ver a luz.

— Considerei isto — afirmou. — Não foi o ato de encontrar-me que importou para você. No dia em que o encontrei, você descobriu o abstrato. Mas uma vez que não podia falar a respeito, você não o percebeu. Os feiticeiros encontram o abstrato sem pensar a respeito, sem vê-lo, tocá-lo ou sentir sua presença.

***

Então lembrou-me de que eu já havia ouvido o seu relato detalhado sobre a primeira vez em que o espírito havia batido à sua porta. Por um momento não pude deduzir sobre o que estava falando.

— Não foi simplesmente o meu benfeitor quem tropeçou em mim quando eu estava morrendo do tiro — explicou. — O espírito também me encontrou e bateu à minha porta naquele dia. Meu benfeitor compreendeu que estava ali para ser um conduto para o espírito. Sem a intervenção do espírito, encontrar meu benfeitor não teria significado coisa alguma.

Explicou que um naual pode ser um conduto apenas depois que o espírito tenha manifestado sua intenção de ser usado — seja quase imperceptivelmente ou através de comandos diretos. Dessa maneira, não era possível para um naual escolher seus aprendizes de acordo com sua própria volição ou seus próprios cálculos. Mas, uma vez que a disposição do espírito era revelada através de presságios, o naual não poupava esforços para satisfazê-lo.

***

— Um aprendiz é alguém que está lutando para limpar e reviver seu elo de conexão com o espírito — explicou. — Uma vez que o elo é revivido, ele não é mais um aprendiz, mas até esse momento, para manter-se em movimento, necessita de um propósito ferrenho, o qual, naturalmente, não possui. Assim, permite ao naual que proporcione o propósito de que faça o que é necessário para renunciar à sua individualidade. Esta é a parte difícil.

***

Sentamo-nos ali e Don Juan retornou nossa conversação às histórias de feitiçaria. Avisou que agora eu sabia a história do intento manifestando-se ao naual Elias e a história do espírito assaltando a porta do naual Julian. E eu sabia como ele havia encontrado o espírito, e decerto não podia esquecer como eu o havia encontrado. Todas essas histórias, declarou, apresentavam a mesma estrutura; apenas os caracteres diferiam. Cada história era uma tragicomédia abstrata com um participante abstrato, o intento e dois atores humanos, o naual e seu aprendiz. O texto era o cerne abstrato.

***

— Os feiticeiros dizem que o quarto cerne abstrato ocorre quando o espírito corta nossas cadeias de auto-reflexão. Cortar nossas cadeias é maravilhoso, mas também muito indesejável, pois ninguém deseja ser livre.

***

— Uma vez que nossas correntes são cortadas — continuou Don Juan —, não estamos mais presos pelas preocupações do mundo cotidiano. Permanecemos no mundo cotidiano, mas não pertencemos mais a ele. Para isso ocorrer, devemos partilhar das preocupações das pessoas, e sem correntes não conseguimos.

Don Juan contou que o naual Elias explicara-lhe que o que distingue pessoas normais é que partilhamos de um punhal metafórico. As preocupações de nossa auto-reflexão. Com esse punhal, cortamo-nos e sangramos; e o trabalho de nossas cadeias de auto-reflexão é proporcionar-nos a sensação de que estamos sangrando juntos, que estamos partilhando de algo maravilhoso: nossa humanidade. Mas se fôssemos examiná-lo, iríamos descobrir que sangramos sozinhos; que não estamos partilhando nada; que tudo o que estamos fazendo é brincar com nossa reflexão, manipulável e irreal, feita pelo homem.

***

Numa voz calma, Don Juan disse-me que pela primeira vez em minha vida eu havia visto o espírito, a força que sustenta o universo. Enfatizou que intento não é algo que alguém possa usar ou comandar ou mover de algum modo — não obstante, podia-se usá-lo, comandá-lo ou movê-lo como se desejasse. Essa contradição, explicou, é a essência da feitiçaria. A falha de compreendê-lo havia levado gerações de feiticeiros à dor e à pena inimagináveis. Os nauais dos dias modernos, num esforço para evitar pagar esse preço em dor, haviam desenvolvido um código de comportamento chamado o caminho do guerreiro, ou a ação impecável, o qual preparava os feiticeiros realçando sua sobriedade e prudência.

 ***

Examinada dessa maneira, a feitiçaria torna-se uma tentativa de restabelecer nosso conhecimento do intento e recuperar seu uso sem sucumbir a ele. E os cernes abstratos das histórias de feitiçarias são sombras de realização, graus de nossa consciência do intento.
 

***

Disse que, misterioso como era o movimento para a consciência intensificada, tudo o que alguém necessitava para realizá-lo era a presença do espírito.
 

***

...saiba é que realmente não há procedimento envolvido em fazer o ponto de aglutinação mover-se. O espírito toca o aprendiz, e seu ponto de aglutinação se move. É simples como isso.

***

Os feiticeiros acreditam que, quando o homem tornou-se consciente de que sabia, e quis ficar consciente do que sabia, perdeu a visão deste saber. Esse conhecimento silencioso, que você não consegue descrever, é, naturalmente, o intento — o espírito, o abstrato. O erro do homem foi querer conhecê-lo diretamente, da maneira como conhecia a vida cotidiana. Quanto mais o desejava, tanto mais efêmero este se tornava.

— Mas o que significa isso em palavras simples, Don Juan?

— Significa que o homem renunciou ao conhecimento silencioso pelo mundo da razão. Quanto mais se agarra ao mundo da razão, tanto mais efêmero se torna o intento.

***

Transforme tudo naquilo que realmente é; o abstrato, o espírito, o naual. Não há bruxaria, nem mal, nem diabo. Existe apenas percepção.

*** 

— Não é sobre isto que estou falando — disse ele, rindo. — A ideia do abstrato, do espírito, é o único fator importante. A ideia do eu pessoal não tem valor algum. Você continua a colocar a si mesmo e seus próprios sentimentos na frente. Toda vez que tive oportunidade, agi consciente da necessidade de abstrair. Você sempre acreditou que eu pensava de modo abstrato. Não. Abstrair significa fazer você mesmo disponível ao espírito, estando consciente dele.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A maior de todas as revelações



Dando continuidade ao texto anterior (Era da Revelação?), vamos agora revelar o maior de todos os mistérios, mas quem poderá compreendê-lo e fazer dele uso para seu próprio benefício e de outrem?

Vamos fazer a maior das revelações já feitas (ou seja, aqui não há novidade, não há nada de novo sob o sol, apenas vaidade) e ainda assim não compreendida, pois não se trata de uma questão de tempo, Era ou momento histórico.

Quem controla a narrativa impõe sua própria agenda e não se interessa efetivamente pela Verdade.

Vamos para além das narrativas ou "limited hangouts", como dizem os gringos.

Que rufem os tambores e soem as trombetas, pois revelaremos tudo o que importa!

Vamos abrir a porta para o infinito!

Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas, diz o livro da revelação em Apocalipse 2, 17. Ora, temos aqui uma aviso, só àqueles(as) que estão em silêncio (capacidade para escutar) podem perceber o que o Poder (Espírito) tem a transmitir para os seres humanos (igrejas, templos vivos). O Poder só pode ser acessado pelo poder, e aí entra a questão do poder pessoal. Vamos usar uma passagem do Naual Carlos Castaneda em Porta para o Infinito, 1ª parte, Testemunha dos Atos de Poder para fazer tal revelação, conforme segue:

Eu lhe disse que recebera cartas de várias pessoas, dizendo-me que era errado escrever sobre minha aprendizagem. Citavam, como argumento, que os mestres das doutrinas esotéricas orientais exigiam segredo absoluto acerca de seus ensinamentos.

— Talvez tais mestres estejam apenas se divertindo, com seu mestrado — disse Dom Juan, sem olhar para mim. — Não sou mestre, apenas um guerreiro. Assim, não sei, realmente, como um mestre se sente.

— Mas talvez eu esteja revelando coisas que não deva, Dom Juan.

— Não importa o que se revela e o que se guarda para si. Tudo o que fazemos, tudo o que somos, reside em nosso poder pessoal. Se temos o suficiente, uma palavra que nos for pronunciada pode ser suficiente para mudar o rumo de nossas vidas. Mas, se não tivermos suficiente poder pessoal, o fato de sabedoria mais magnífico nos poderá ser revelado sem que tal revelação faça a menor diferença.

 — Ele aí baixou a voz, como se estivesse me contando algo de confidencial. 

— Vou pronunciar o que é talvez o maior fato de sabedoria que qualquer pessoa possa exprimir. Vejamos o que você pode fazer com isso: Sabe que neste momento você está cercado pela eternidade? E sabe que pode usar essa eternidade, se o desejar?

Depois de uma pausa prolongada, em que ele me pediu, com um movimento sutil dos olhos, para fazer alguma declaração, eu disse que não estava entendendo de que ele estava falando.

— Ali! A Eternidade está ali! — e apontou para o horizonte. Em seguida, apontando para o zênite, acrescentou: — Ou ali, ou talvez possamos dizer que a eternidade é assim. — Ele estendeu ambos os braços para Leste e Oeste.

Nós nos entreolhamos. Os olhos dele encerravam uma pergunta.

— O que me diz disso? — perguntou-me, sugerindo que eu ponderasse sobre suas palavras.

Eu não sabia o que dizer.

— Você sabe que pode estender-se para sempre em qualquer das direções em que apontei? — continuou ele. — Sabe que um momento pode ser a eternidade? Isso não é uma charada; é um fato, mas somente se você agarrar esse momento, utilizando-o para levar a totalidade de você em qualquer direção, para sempre.

Ele ficou olhando para mim.

— Você antes não possuía esse conhecimento — disse ele, sorrindo. — Mas agora possui. Eu o revelei a você, mas não faz a menor diferença, pois você não tem suficiente poder pessoal para utilizar minha revelação. No entanto, se você tivesse suficiente poder, minhas palavras bastariam para lhe permitir reunir a totalidade de você e fazer com que a parte importante saísse dos limites em que está confinada.

Ele se postou a meu lado e cutucou meu peito com os dedos. Era um tapinha muito de leve.

— São esses os limites a que me refiro — prosseguiu. — Podemos libertar-nos deles. Somos um sentimento, uma consciência encerrada aí.

Bateu em meus ombros com ambas as mãos. Meu bloco e lápis caíram.

Dom Juan pôs o pé sobre o bloco, fitou-me e aí riu. Perguntei-lhe se ele se importava que eu tomasse notas. Respondeu-me que não, num tom tranquilizador, e tirou o pé.

— Somos seres luminosos — disse, sacudindo a cabeça ritmadamente. — E para um ser luminoso só interessa o poder pessoal. Mas, se me perguntar o que é o poder pessoal, terei de dizer-lhe que minha explicação não o explicará.

Dom Juan olhou para o horizonte a Oeste e comentou que ainda restavam algumas horas de luz do dia.

***


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Era da Revelação?


 


Está em voga a tal “Era da Revelação” desde que o governo estadunidense resolveu divulgar uma série de documentos até então sigilosos sobre a questão alienígena. Uma antiga promessa, tantas vezes descumprida, começa a se realizar. Será? Há motivos para duvidar de quem faz 80 anos mente e oculta informações sobre o tema. Por que agora, justamente quando o Império do Caos está em franco declínio tanto no campo político-econômico quanto no militar? O que está por trás da tal “Era da Revelação”? Se a fonte de tal revelação está poluída, manchada, contaminada por um passado de secretismo pode-se esperar algo de bom e verdadeiro decorrente dela?

A origem da palavra revelação vem do latim “revelatio” e significa mostrar, destapar, descobrir. O prefixo RE em revelação tem significado diferente do que possui em geral, tal como em rememorar, redescobrir ou reconhecer, pois em revelar o significado do RE é uma exceção semântica que indica oposição, assim revelar não é velar de novo, mas implica na retirada do véu. 


Os termos neste caso parecem não ser escolhidos ao acaso, a Era da Revelação tem também, no contexto ocidental, um tom profético, místico e religioso, já que revelação remete diretamente ao significado de Apocalipse, o último livro da Bíblia, que em sua introdução, 1:1, nos diz: “Revelação de Jesus Cristo, a qual Deus lhe deu, para mostrar aos seus servos as coisas que brevemente devem acontecer; e pelo seu anjo as enviou, e as notificou a João seu servo;”

Pelo visto querem indicar com a expressão “Era da Revelação” um caráter místico, messiânico, transcendente para aquele que seria o porta-voz de tal revelação, no caso o presidente dos EUA, que seria assim revestido como tal atributo, no caso em questão uma liderança política sem nenhuma credibilidade, já que estaria na prática envolvida em escândalos diversos de corrupção, pedofilia, tráfico de influência, genocídio, assassinato de crianças, guerras imperiais, enfim, todas as características de um anti-cristo. Poderia a revelação nesse caso ser usada como espécie de água batismal para a purificação dos pecados de uma criatura corrompida ao extremo? Dizem que o discurso da revelação já está pronto e pode ser anunciado a qualquer momento, ainda neste ano de Nosso Senhor Jesus Cristo: 2026. Criando o contexto necessário a tal revelação temos o lançamento mundial do filme de Steven Spielberg, Dia D, e o documentário a Era do Desacobertamento, com a presença de figuras de alto escalão do governo do Império do Caos, sendo incensados pelo poder midiático da varinha mágica e manipuladora de Holly_wood.




A questão que se coloca aqui não é propriamente a da Revelação, mas de uma reedição da velha ordem, uma repaginação da Era da Enganação sob a capa da Revelação, com uma liberação controlada de informações que não coloque em xeque os interesses dominantes. Que interesses seriam estes? Podemos enumerar alguns.


1 - os interesses econômicos.


Inicialmente, quando vemos os registros feitos de naves ditas alienígenas que superam a tecnologia humana conhecida, observamos antes de tudo que elas são silenciosas, não-poluentes, não causam deslocamento de massa de ar, capazes de aceleração incrível, de manobras radicais e feitas de material extremamente leve e resistente. Ou seja, dispensam, por exemplo, o uso de combustível fóssil. Vamos ter acesso a tal tecnologia na dita Era da Revelação? Vai estar no pacote o acesso amplo e irrestrito a uma tecnologia que pode beneficiar a toda a humanidade sem que haja controle ou monopólio de patentes? Esse ponto realmente interessa à humanidade muito mais do que cenas, filmagens ou fotos de naves ou aliens, pois trata-se de algo com um benefício óbvio, concreto e pragmático não só para a humanidade como para o planeta inteiro em função do agravamento das mudanças climáticas.

2 - os interesses dos senhores da guerra: o complexo industrial militar.


Os senhores da guerra não vão querer manter o monopólio de uma tecnologia (alienígena, via engenharia reversa) tão poderosa e avançada?


3 - os interesses da ciência.

Quantos paradigmas científicos não serão quebrados se a dita revelação indicar que o homo sapiens não é o topo da cadeia alimentar, mas sim um recurso natural para usufruto de determinadas espécies alienígenas dentro da cadeia biológica universal e também um produto decorrente de modificação genética (OGM)?

4 - os interesses das instituições religiosas.


A mesma questão colocada para a ciência com as devidas adequações já que o ser humano não seria mais a joia da criação divina, mas apenas mais uma criatura dentro da hierarquia de seres criados.


5 - os interesses de grupos secretos.

Quantos segredos sujos e acordos espúrios não foram feitos onde a moeda de troca era a própria humanidade? Quantos crimes não foram cometidos contra a própria humanidade pela elite governamental? Isso fará parte do pacote da dita revelação ou ficaremos reduzidos a uma revelação seletiva baseada apenas em imagens de ovnis, fotos de seres alienígenas e documentos não indicativos dos crimes de lesa-humanidade perpetrados por sociedades secretas imiscuídas dentro do aparato estatal?

Quantas revelações já não ocorreram antes na História da Humanidade? Por que chamar justamente esse tempo de Era da Revelação? As tradições antigas das mais diferentes culturas já não indicaram amplamente tantas e tantas revelações, descobertas e mistérios? Revelação para quem, de quem e com que finalidade? Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas, diz o livro da revelação em Apocalipse 2, 17. E o que a humanidade fez a respeito dessas revelações luminosas, conhecimentos apresentados e arcanos desvelados? Qual a importância de tais revelações quando a atenção da humanidade em geral centra-se na sobrevivência ou numa Copa do Mundo? Bem, esse será o nosso próximo tema.

Modak






quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

A Era da Revelação

Novo documentário prestes a ser lançado traz a baila o testemunho de altos oficiais das forças militares e de agências de inteligência do Império revelando a existência, a presença e o contato com inteligências não-humanas, com naves não-humanas e com tecnologias de origem não-humana que podem revolucionar por completo o nosso modo de vida. O documentário "A Era da Revelação" cumpre um papel semelhante ao Projeto Revelação - Disclosure Project, lançado em maio de 2001 pelo Dr. Steven Greer, pouco antes do golpe de falsa bandeira do 11 de setembro nos EUA. O Disclosure Proeject encontra-se publicado AQUI.

Uma verdadeira convergência de provas documentais, testemunhas oficiais em posições de destaque na vida pública, vídeos fidedignos, aparição crescente em nossa atmosfera de naves não-humanas e de material de todas as naturezas que vem criando uma onda avassaladora que culmina no verdadeiro significado da palavra apocalipse: revelação!



Origem da palavra: APOCALIPSE:

Do Grego APOKALYPSIS, de APOKALYPTEIN, “desvendar, descobrir, revelar”, de APO-, “sobre”, mais KALYPTEIN, “cobrir, esconder”.

Sinal de Fumaça

A Lua do Guru - Guru Purnima - e a confiança no Naual

Imagem gerada por IA baseada no texto a seguir. Guru Purnima Na Índia, sempre se reverencia a relação de conhecimento entre o Guru (professo...