Precisamos despertar plenamente nossa natureza pagã, ser de corpo e alma um (a) pagão(ã), alguém que sente a VIDA sem intermediários, diretamente.
Recomendo muito ler Fernando Pessoa¹ e seus textos e poemas pagãos para sentir o que estou querendo colocar como "ser pagão".
Os poetas, FP em especial, conseguem dar uma elasticidade a palavra que ela se torna mais ampla, capaz então de conter em si verdadeiras definições deste complexo estado que é ser pagão (ã).
É um estado de espirito onde vamos direto a ELA, a Natureza, onde vamos além do que nos disseram ser a realidade para realmente SENTIR o que é a realidade.
Nós pagãos(ãs) nos sabemos parte DELA, sentimos em nós o Deus e a Deusa em seus movimentos.
Por isso um (a) pagão sente os ciclos da vida e os celebra, as luas cheias e novas, os trabalhos da crescente e da minguante, sabe quando o sol nasce, o meio dia, o crepúsculo que é porta e a noite escura, véu que nos permite atravessar as fronteiras e nos aventurarmos em outros mundos pelo SONHAR.
Há uma mudança profunda que se opera em nós quando deixamos de lado o condicionamento, o "que fizeram de nós" e ousamos ser "o que somos".
O Xamanismo coloca que neste caminho de auto-descobrimento e auto-realização, passamos por uma caverna, um lugar onde enfrentamos nossos fantasmas interiores, um lugar onde temos que aprender a integrar nossa sombra ao todo que somos.
A sombra quando não integrada gera uma turbulência na nossa totalidade e aspectos nossos não resolvidos podem vir à tona.
Meditem comigo, somos os(as) filhos(as), dos(as) pais, dos(as) avós, dos(as) bisavós, dos(as) tataravós e por aí vai.
Temos em nós a ancestralidade masculina e feminina que remonta a épocas além da concepção humana.
Temos todo tipo de estilos de ser nessa nossa ancestralidade, assim precisamos de fato harmonizar toda esta tremenda carga informacional que trazemos em nós, da qual somos manifestação.
Temos uma visão muito pobre do passado, do que são nossos ancestrais.
Os(as) verdadeiros(as) construtores(as) dos monumentos de pedra que intrigam a humanidade, ainda são desconhecidos, mesmo com as explicações simplistas e positivistas dos que ainda se arvoram de donos do saber, que julgam que suas teses são verdades que podem se sobrepor a realidade da existência.
Estamos querendo analisar o passado com olhos do presente, o passado tinha outros paradigmas, outra percepção da realidade.
Um jarro que tinha azeite não era só um vaso que tinha azeite como hoje uma lata de azeite numa mesa é prá nós.
Tudo tinha outra textura, outra época, temos que tomar cuidado para não embarcar na Helmman's Airlines e fazer uma leitura cinematográfica do passado.
Tem gente que crê mesmo que o passado é como Xena e Hércules mostram e que magia é o que Charmed "revela".
São até interessantes e muito bons tais seriados, antes que alguém venha em sua defesa, estou apenas citando como exemplo.
Legais, ótimos, bem feitos, mas são leituras de nossa época de uma época que era completamente diferente.
Os tempos mudam, mesmo recentemente.
Pensem como era sobreviver na Idade Média: pestes, ladrões nas estradas, senhores feudais temíveis, padres em suas diligências contra a "heresia" e o "demônio" com livre trânsito para acusar quem quisessem e não apenas matar, mas torturar de forma atroz quem fosse acusado(a).
Os vencedores sobrevivem em maior número, os que perdem as batalhas de conquista só o fazem porque abrem mão de seus referenciais de vida.
Os que perdem as batalhas sobrevivem em corpo, mas sua história e sua continuidade existencial lhes é negada, agora continuam para construir a realidade com os paradigmas dos vencedores.
Assim temos um mundo formado pelos referenciais dos vencedores das várias batalhas nos quais impérios mercantilistas foram conquistando e destruindo, quer completamente quer em parte, os povos nativos.
Quer os matando, quer os convertendo.
E isto continua acontecendo, agora , subjugados à miséria que lhes foi imposta, são presas fáceis para os que lá vão convertê-los à fés que lhes são estranhas.
E é isto que ocorre agora, povos nativos, pagãos, sofrendo a subjugação, talvez mais atroz, agora que lhes escravizam as almas, lhes prometem paraísos futuros enquanto lhes roubam o que têm.
São outros seres humanos que estão fazendo isso, quer a violência de lhes negar sua tradição milenar, que a violência ainda mais terrível de lhes negar vida, terra, liberdade, pois a exploração e a morte de nativos é uma triste realidade em todo nosso continente.
Quem está destruindo vidas pelo lucro, que queima a floresta, que draga o rio, mata um rio inteiro para tirar minérios (há barcos que fazem isso, passam uma draga no fundo do rio e separam os minérios que querem e devolvem o "restolho" para o fundo do rio, pensem os nichos do fundo do rio que foram destruídos, isso está acontecendo aos montes agora. Estão MATANDO rios e ninguém nem liga...) tudo isso acontecendo é uma manifestação temível desta mesma sombra, seres humanos negam sua sensibilidade e destroem a vida em todas as formas em busca de lucro.
Por isso é muito importante resolver a sombra, para não nos tornarmos partidários da destruição que este sistema propõe em várias estâncias.
Temos toda essa tremenda energia dentro de nós, temos forças ancestrais em nós que foram sábias e magnânimas, mas também temos forças ancestrais em nós que foram atrozes.
Por isso temos que harmonizar essas forças ancestrais em nós e uma parte da sombra que falamos aqui é composta dessas forças ancestrais de tremendo poder, mas que podem nos deturpar com seus preconceituosos conselhos, podem usar toda sua habilidade para levar nossa percepção a focar o "jeito" de ser de alguém que já viveu, em outra época, outro momento, quando o desafio é sermos nós, entes singulares e vivermos do NOSSO jeito.
¹ Fernando Pessoa como Alberto Caieiro - download aqui.
Nuvem que passa
¹ Fernando Pessoa como Alberto Caieiro - download aqui.
Rebanhos» (IX, X, XIII) (1925)
IX
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
***
X
«Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»
«Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?»
«Muita coisa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras coisas.
De memórias e de saudades
E de coisas que nunca foram.»
«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»
***
XIII
Leve, leve, muito leve,
Um vento muito leve passa,
E vai-se, sempre muito leve.
E eu não sei o que penso
Nem procuro sabê-lo.
(Athena, 4, janeiro de 1925, p. 148)