O Trabalho, por Nuvem que passa - 2ª parte

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Se você potencializa a energia enquanto ainda a tem focada em um nível equivocado como a ira, por exemplo, vai passar a ter explosões de ira muito mais fortes, sendo ainda mais vítima do desequilíbrio.

Em Escolas estruturais vamos notar que há essa divisão.

Essência e personalidade.

Essência, a parte interna, personalidade aquilo que desenvolvemos sob influência do mundo. A essência é a parte que pode crescer, desenvolver-se e ir além. A personalidade também cresce, desenvolve-se mas não vai além. Ela é o agregado. Ela se dissolve quando o corpo se dissolve. Simultaneamente ou durando um pouco mais, mas acaba por se dissolver. Ao final da vida o corpo entra em profunda entropia e se dissolve. Isso é um fato, observável diariamente. Mais uma vez são idéias que exigem meditação e não quero que as aceite como verdades, vamos só considerá-las como hipóteses de trabalho. Pensemos juntos sobre uma vida. Desde o início biológico da vida (desculpem a redundância). Um óvulo e um espermatozóide se encontram. Após um período os núcleos de fundem. Cada uma daquelas células traz um material que passou por infinitas combinações até chegar ali. Um homem, uma mulher, filhos de um homem e uma mulher, cada um deles filho de mais um casal que por sua vez... E assim vai para cada uma dessa células germinativas. Aquele material nuclear vai agora criar um novo ser.

Vindo das antigas eras aquele material veio se misturando e misturando e agora ali está. A célula ovo vai se dividir, dividir, suas células vão se especializar, e da mesma célula ovo teremos desde um ultra especializado neurônio até uma célula da pele, com grande poder de regeneração. Após um período de vida intra-uterina nasce o ser.

Ele vai crescer e desenvolver sua habilidade de compreender o meio e se fazer compreendido por ele. Todas as complexas fases de desenvolvimento da inteligência. Hoje sabemos que existem fases neste desenvolvimento, onde pouco a pouco o ser vai se descentrando e aprendendo a relacionar-se com o meio. A criança limita o mundo a suas próprias relações, como um crente primitivo limita a divindade a um pai que o protege abençoa ou castiga. A cada fase vai ampliando suas habilidades, abandonando um pensar pré operatório e aprendendo a lidar com idéias mais complexas.

Raramente aprendemos a pensar, embora teoricamente a educação devesse nos conduzir a autonomia moral e intelectual. Nós saímos da escola dependentes da opinião de outros e raramente com nossas habilidades dedutivas, indutivas e analógicas desenvolvidas.

Vou dar um exemplo.

Uma criança na fase de alfabetização escreve /muinto/ em uma composição de texto. Via de regra o professor lê, risca em vermelho, diz que está errado e mostra que o ‘certo’ é /muito/. Assim a criança registra: "A autoridade diz que este é o certo, devo obedecer". Não há aprendizado, há apenas reforço da heteronomia.

Outra situação:

Ao invés de "corrigi-la’’ o professor deixa a criança com seu raciocínio, que não é "errado" pois ela escreveu conforme ouviu, houve um ato inteligente ali. Mas o professor pode então expor a criança a textos onde ela depare-se com /muito/ escrito na grafia vigente. Surgirá o questionamento. Nessa situação ideal, felizmente já presente em algumas poucas escolas, o professor poderá dizer:

-"Você escreveu do jeito que ouviu. Tudo bem. Mas a escrita social, aquela que as pessoas adotam e que você precisa usar para se fazer entender, nesta escrita é assim, /muito/."

Outro universo de resultados. A criança aprendeu que existe uma escrita social, que não é a CERTA mas a aceita convencionalmente por todos. Ela não reforçou sua heteronomia aceitando apenas a autoridade do professor, mas foi levada a perceber a necessidade de uma escrita convencionada para o contato em sociedade. Vai apreender sobre convenção.

A malha neural, as sinapses que se ativam nesse caso são muito mais amplas que as simples conexões "certo" "errado" determinadas pela autoridade do professor. A maioria de nós não foi educada como no segundo caso. Portanto, tivemos reforçada a heteronomia e a crença em certos e errados absolutos. Não nos ensinaram a pensar, mas sobre o que pensar e como pensar. Nossa educação ainda foi impregnada dos mesmos valores que geraram a Inquisição e os regimes totalitários.

Portanto, antes de falarmos de transcendente temos que compreender que não atingimos nem mesmo o ápice do imanente. Temos que ter um desenvolvimento verdadeiro dessas nossas habilidades pensantes se queremos entrar em outros campos, em outros mundos e elaborá-los num todo coerente e equilibrado. Temos que nos descondicionar, ir além dos limites onde nos colocaram.

Os Xamãs consideram que não somos pensadores de fato, vivemos na periferia do pensar, ruminando alguns conceitos prontos que nos impuseram. Se queremos realmente ir a algum lugar temos que ir ao centro do pensar primeiro, compreender de fato o que é essa faculdade e o poderoso escudo que ela é para podermos enfrentar o desconhecido que nos envolve sem sucumbir a ele. Perceptualmente podemos dizer que estamos dentro deste (pequeno) círculo (do pensar).



Tudo o que percebemos está aí. Tudo com o que lidamos. Podemos chamá-lo de bolha da percepção. Existem muitos elementos dentro desta bolha. Mas nós só fomos estimulados a perceber alguns desses elementos. Chamamos a totalidade de nossa capacidade de perceber de realidade. Potencialmente poderíamos perceber muito mais, mas estamos limitados. Vindas de fora influências das mais diversas sensibilizam o ente perceptivo no centro da esfera.

Mas a percepção acaba decodificando sempre de acordo com os itens que dispõe.

Assim um ser de outro mundo que, passa por nós em um campo, pode ser decodificado apenas como um vento estranho, uma presença que por alguma razão se faz perceptível de repente, é um vulto. Um ente das montanhas pode ser visto como um monstro, algo que nos assusta. Um ente da terra , que muitos chamam de gnomo, vai ser visto em roupas de lenhador da Idade média, porque a percepção está presa em formas e padrões.

Decodificamos com base naquilo que temos já registrado. Apreender o mundo como xamã é apreender um novo conjunto de referenciais, os quais também estão dentro desta mesma bolha, mas nunca foram estimulados, nunca foram valorizados, por fazerem parte de outra descrição do mundo. Mas ainda aqui há um limite. Não estamos percebendo diretamente, estamos ainda decodificando. Assim podemos ver o ser de outro mundo com formas , mas ainda assim não é ele em si, é o resultado de uma interpretação.

Por esta razão os Xamãs perceberam que perceber a energia diretamente no seu estado natural, como ela flui no universo era a manobra a ser realizado para sairmos do terreno pantanoso da aparência e notar o que de fato estava em contato conosco.

Dizendo de outra forma: Ao invés de usar uma forma para decodificar o que estamos percebendo, quer fosse a forma cotidiana, quer fosse a forma dos magistas , deveríamos ver diretamente a energia em sua condição original. Ir além das descrições de mundo que nos deram e perceber a energia diretamente.

Este é o longo e árduo treinamento que acredito ser o necessário para um trabalho real. Treinar ver a energia diretamente, como ela flui pelo universo. Meditar é o começo de tudo. Observar, sem interferir, observar. Tudo a sua volta. A si mesmo.

Com a prática constante você vai aprender a desgrudar a personalidade da essência.

Somos uma essência perceptiva.

Percebemos.

Entretanto percebemos algo que decodificamos.

Interagimos com algo que nos faz conscientes.

Assim há algo sendo percebido, mas o que nos aparece, a nossa consciência, não é o que é percebido, pois já foi adaptado ao nosso condicionamento social. A tradição que estou estudando em vários de seus caminhos, propõe uma linha de procedimentos para voltarmos a perceber a energia diretamente.

Em primeiro lugar abandonar a falsa dualidade corpo - mente. Há uma dualidade mas essa dualidade se expressa entre o corpo físico e o que poderíamos chamar de corpo de energia. Mente, emoções, tudo isto está dentro do campo do corpo físico. O corpo é uma vasta teia de sistemas inter relacionados. Para os xamãs em nossas células de todo o corpo, e não apenas no cérebro, estão todas as lembranças que temos, as emoções que sentimos.

A outra parte da dualidade seria o corpo de energia, nosso ser luminoso, que tem existência mas não massa. Podemos dizer que o corpo físico é nosso corpo orgânico e o corpo de energia é nosso corpo inorgânico. Assim como o corpo físico nasce e precisa ser alimentado e cuidado para crescer, treinado para desenvolver plenamente suas habilidades, também o corpo energético precisa dos mesmos cuidados. A diferença é que o corpo energético plenamente desenvolvido pode continuar mesmo depois da dissolução do corpo físico.

Este ponto fundamental mostra a importância que os xamãs deram a este tema. Por observação direta eles viram que a vida e a consciência estavam emaranhadas, entretanto num certo momento forças tremendas tomavam de volta algo que haviam nos dado no começo de tudo:

A consciência.

A consciência é dada a cada ser, do vírus ao ser humano, no momento da fecundação (no caso deste último) para ser enriquecida pelo ato de estar vivo. Depois, num certo momento, ela era tomada de volta. A descoberta revolucionária dos xamãs foi perceber que a energia vital não era tomada junto. Apenas estava tão enredada na consciência que acabava se desfazendo quando a consciência voltava para sua fonte.

Foi então que os xamãs descobriram algo realmente determinante. O ente perceptivo existe durante a vida por identificar-se e projetar-se na consciência. Mas pode paulatinamente, desenvolver a consciência de si mesmo. Como diria G. todo choque é um dó em si mesmo, e todo dó contém em si uma oitava.

Assim o ente perceptivo, que reage a consciência enriquecendo-a através das experiências vividas, pode ao final ser consciente de si, abrir mão da consciência recebida da fonte e ainda assim manter sua força vital e sua individualidade o suficiente para aceitar uma outra conscientização, vinda da mesma fonte.

Deixaria de ser um ser orgânico, se tornaria um ser inorgânico.

Para os xamãs este seria o próximo passo evolutivo possível ao ser humano.

Uma mutação de faixas de consciência.

A consciência humana, mesmo em seus aspectos mais poderosos e amplos, desconhecidos totalmente pelas pessoas hoje, seria abandonada e outra possibilidade de consciência seria atingida, um outro nível de realização.

Dois caminhos surgiram a partir desta percepção.

Em outro caminho o ser transmigra com sua essência perceptiva para o corpo de energia e continua existindo após a morte do corpo físico.

Mas tal manobra se revela limitada com o passar das eras.

Mas há outro caminho, muito mais ousado.

Continua...

O Trabalho - 1ª parte

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

É por vezes bem arriscado tentar definir certos processos em palavras. As palavras têm limitações implícitas em sua própria constituição. Mas se nos lembrarmos disso, se compreendemos que palavras estão presas na memória e a memória é apenas o inventário de tudo o que vivemos, então poderemos usar as palavras como ferramentas.

O Trabalho.

Quantas vezes tentamos definir o que é o trabalho sobre si mesmo? E quantas vezes deixamos de alcançar o resultado por não termos claro o que é esse si mesmo sobre o qual acreditamos poder trabalhar. Por razões como esta que todo trabalho efetivo começa com a observação de si mesmo. Sim, lembrar-se de si mesmo no inicio é isso.

Observar-se.

Meditar.

Observar como respira, onde você está.

Observar suas emoções, seus pensamentos.

Observar como eles surgem, o que os motiva.

Como é seu reagir frente as diversas situações que a vida oferece?

Observando-se a cada instante acabará criando um significado mais amplo para esse "si mesmo". Se você não se observou nunca, ou se não o fez por tempo suficiente as colocações que vem a seguir não terão muito sentido. Este ensaio é destinado à aqueles e aquelas que já caminharam um pouco na senda da auto-observação, estando assim cônscios de certas peculiaridades de nosso ser neste mundo. Este exercício é muito difícil de ser realizado pela maioria das pessoas porque elas se observam esperando algum resultado, depois de um tempo consideram que "já se observaram o bastante" e agora o que vai acontecer? "Pronto, já me observei e agora?" Essa é uma reação que ocorre muito neste tipo de exercício. Este tipo de abordagem é inútil nesse exercício. Observar-se sem julgamento e apenas observar-se, contemplar-se como é, sem analisar, criticar.

Se você decidiu fazer um regime e ainda assim compra um doce na padaria, observe-se, sem traçar planos de regime, sem se reprovar, sem se justificar. Apenas observe-se no ato, no momento, o que sente, observe o que em você lhe leva a comer esse doce. Se alguém fuma observa-se acendendo o cigarro, o corpo pedindo, como pede, a satisfação da fumaça, o fumar cada momento, as reações de seu organismo. Cada momento seja ele como for. Quando estiver sem fôlego, arfante, tossindo, sinta isso, sinta seu organismo. Você vai no banheiro, como se sente durante o que quer que vá lá fazer? Antes, durante e depois, que já é outro durante de algum processo.

Observar-se é isso.

Um ponto que sempre me pedem é definir os objetivos do Trabalho e quais os métodos que ele usa para nestes objetivos chegar. Isto está bem de acordo com a cultura atual, envolvida em procedimentos, técnicas, etapas para se atingir algo.

Mas as metas do trabalho não estão no mesmo plano de nossa compreensão ordinária. As reais metas do trabalho estão além da esfera onde a mente usual opera. No nosso nível ordinário de consciência não há como compreender plenamente o Trabalho, assim toda definição, toda elaboração racional sobre o Trabalho, como esta que aqui está sendo tecida, vai ser sempre, na melhor das hipóteses uma aproximação, um aludir, um apontar para algo que embora comece na nossa esfera do cotidiano tem como objetivo o adentrar em outras esferas da realidade.

Quando começamos a tecer um tapete por exemplo sabemos qual é o resultado exato que pretendemos, assim temos que trabalhar, usar as combinações certas de cores para atingir o desenho que queremos e a usar o ponto adequado. Mas o Trabalho é como tecer um tapete com fios mágicos, fios que uma vez juntos na trama da tessitura provocarão um resultado novo e surpreendente além de toda nossa expectativa.

O Trabalho tal qual o consideramos aqui começa numa esfera, na esfera limitada e robótica onde vivemos nossas vidas, mas nos leva a outra esfera, ao estar desperto e presente de fato. Embora não possa ser limitado, é possível dentro da amplitude na qual o Trabalho ocorre destacar alguns aspectos seus, para que façam sentido mesmo dentro dos limites ainda cartesianos que a mente linear opera. Mas não perca nunca isso de vista, não se esqueça:

Falar sobre o trabalho é apresentar um pálido esboço, chamar a atenção para alguns aspectos de um todo multi-facetado e muito mais abrangente que a tosca descrição possível dentro da linguagem vulgar que usamos. O trabalho é mais do que o açambarcado pelo falar. Aqui vale o velho aforismo:

"Se queres ver a estrela não te fixes no dedo que a aponta".

A história humana tal qual a estudamos na escola é uma tolice sem par. Alguns homens, sempre homens, indo e vindo, matando, pilhando, roubando, impondo seus caprichos sobre outros. Servos que destroem seus opressores e instalam um tipo de opressão ainda pior. Escravos que se tornam peões, que se tornam assalariados e continuam a servir. A implantação do modelo nascido e desenvolvido no Mediterrâneo sobre todos os outros povos. Vimos isso como guerras de conquista, depois como "colonização" e agora o mesmo imperialismo é chamado globalização.

Mas não deixa um minuto de ser o que sempre foi.

Grupos em busca do poder, grupos que se aliam e brigam e voltam a se aliar. Grupos que dominam o poder das armas e grupos que dominam o poder religioso. Assim, matando, subjugando e convertendo os povos, vem esses grupos se espalhando há séculos por todo o mundo e agora dominam-no completamente.

Pense que neste instante estão trabalhando em artefatos nucleares, outros tantos já prontos aguardam em silos e usinas, de segurança duvidosa. Existem mentes brilhantes agora manipulando bactérias e vírus, tentando criar doenças que possam ser lançadas sobre populações especificas, doenças como armas. Contaminar o mundo e criar uma imunidade só nos grupos escolhidos.

Você é tão robotizado que nem sequer pensa nisso?

Que toda, TODA, a vida neste planeta está ameaçada completamente enquanto esses engenhos existirem?


Neste instante alguma mente brilhante foi desviada de seu curso e serve a indústria da guerra: mentes humanas pensando o meio mais letal e eficiente de matar outros seres humanos. Guerra química, guerra biológica, domínio psicológico das massas.

Destruição.

Indústrias continuam rasgando a terra, poluindo ar e mar, esquecidos que nossos recursos naturais são finitos e a Terra é como um aquário no meio do grande espaço inter-estelar. Sim um aquário, a mesma limitação de um aquário.

Pense nisto e pense com atenção, faz partes das coisas que te ensinaram a não pensar.

As árvores são organismos geradores de energia.

Cada ser árvore tem sua própria linha evolutiva e quando adultas geram um campo de energia que fortalece a vida como um todo. Árvores adultas geram energia e poderiam nos proteger de certos entes parasitas que tem muito poder sobre a humanidade há alguns milênios.

Nós somos partes da vida.

Não tecemos a teia da vida, somos apenas um de seus fios na vasta trama. E somos afetados por tudo que fazemos à Terra. Tudo que fazemos a Terra fazemos a nós mesmos. Mas somos escravos, embotados e tornados robôs apenas para servir. Nosso orgulho e arrogância nos mantém distantes de qualquer possibilidade de percebermos nossas limitações. Nosso medo nos mantém distante da auto-consciência.

Não nascemos assim.

Os mecanismos sociais como a família , a escola e a religião cuidaram para que nos tornássemos assim. É nisto que hoje essas antigas instituições, que um dia já foram caminhos para a conquista da autonomia moral e intelectual, foram transformadas. Em vetores do estado sonambúlico no qual somos mantidos usando o mínimo de nossas habilidades. As criaturas mágicas que somos, os viajantes da eternidade transformados em produtores consumidores de futilidades. A observação atenta de nós mesmos nos permite reconhecer algumas das facetas dessa condição de escravizados e assim daremos o primeiro passo para nossa liberdade.

O reconhecimento de nosso estado real. Pois a melhor forma de manter alguém prisioneiro é mantê-lo ignorante desse estado. Vale aqui um antigo conto oriental narrado por Gurdjieff.

Um homem, possuidores de muitos poderes tinha um grande rebanho. Este rebanho era a fonte de sustento, status e poder desse homem, pois em sua sociedade pastoril o tamanho do rebanho era o sinal do poder de seu possuidor. Mas tal rebanho era também a fonte de preocupações do mesmo homem, pois os carneiros fugiam, tinha que pagar muitos empregados e muitas vezes era roubado. Certo dia teve a idéia da solução. Reuniu todas as ovelhas numa garganta. Colocou-se num lugar de onde todas podiam vê-lo e ouvi-lo. Usando seus poderes hipnóticos convenceu a todas que ele era o Deus supremo, o senhor, o bom pastor que as conduzia por pastos verdes e fartos, sombras tranqüilas e água fresca. Sempre seria assim. Elas eram ovelhas e mesmo quando parecia que ele as tosquiava impiedosamente e que ao final vinha degolá-las aquilo nada mais era que a passagem ao paraíso, perderiam o pesado e pecaminoso corpo e entrariam em espírito num estado de glória, onde a grama era eternamente verde e boa, a água sempre fresca , e nenhum lobo ou leão da montanha poderia neste céu entrar. Lhes disse que eram imortais e que não precisavam se preocupar com nada, só em comer e beber para a plenitude do pastor. Mas para isso elas deveriam estar sempre onde ele mandasse e jamais ir com outros, esses sim o mal e a perdição. Após sua prédica ele observou por alguns dias o rebanho. Ficou satisfeitíssimo com o resultado. Despediu todos os pastores, só deixando um de guarda para o caso de ladrões. Nunca mais precisou arrumar nem mesmo a cerca.

O conto dispensa comentários. Fala por si só.

Assim como as ovelhas , precisamos sair desse estado hipnótico que nos puseram para podermos ser donos de nossas próprias vidas. E só podemos começar observando-nos, atentamente. Com calma, sem predisposições, só observar-se. Para perceber que o que chamamos de "eu" é um agregado. Um conjunto de jeitos de emocionar-se e pensar que reunimos dentro de um mesmo saco e chamamos esse saco de " Eu".

Uma analogia.

Você pega peças e as reúne. Cria um carburador, caixa de marcha, tanque, motor, sistema elétrico e tudo o mais. Quando coloca a bateria e enche o tanque você pode usar esse todo para leva-lo de um lado para outro. Chama o todo de carro. É algo concreto, ali, um carro, de um certo modelo, de um certo estilo. Com o tempo você pode trocar pneus, peças, como as células estão se renovando em seu corpo. Como troca de idéias, de emoções. Mas ao final o carro acaba, bate, enferruja, e vai embora, desmontado. Sobrou algo do carro? Suas peças podem ir para outros carros, seu material pode ser fundido e reaproveitado, mas aquele carro, aquele que você as vezes até deu um nome para ele, com o qual viveu tantas histórias cadê ele? Pode haver um motorista no carro, mas digamos que a maioria dos carros sejam carros de frota, cada dia um pega para dirigir. O carburador precisa de limpeza, mas o motorista da tarde não sabe que o da manhã detectou essa necessidade. E muitos motoristas dirigem esse carro. Podemos criar condições para que um dono verdadeiro surja nesse carro, mas antes temos que saber que isso é possível.

Saber que podemos ter um Eu real faz parte das coisas que nos negam fazendo acreditar que já as temos. E o mais importante, esse Eu real , essa individualidade nada tem a ver com a abordagem segmentada, egóica e dissociada que temos hoje do termo "eu". Como o consumidor mediano se crê num mundo livre por poder escolher a marca do seu aspirador de pó e do seu remédio para a cardiopatia que o ataca. Note que aqui estamos muito distantes do espiritualismo do senso comum que acredita que há uma alma em torno da qual o ser se forma.

Estamos usando o exemplo do carro não apenas para compara-lo com o corpo, mas com os campos emocionais e mentais, com os vários componentes , os vários jeitos de ser e pensar que amarramos no mesmo fardo e chamamos "eu". Esta consciência não pode ser apenas intelectual. Não adianta você ler isso. Você precisa meditar, por muito tempo e atentamente para perceber isso.

Todas as escolas trabalham com exercícios para que essa percepção seja possível. Portanto seguir lendo este trabalho e o compreender indica que você já trabalhou o suficiente para compreender que o que chamamos "eu" é um agregado. Algumas escolas falam de muitos "egos", outras de muitas "personalidades".

Personas, máscaras que usamos para nos comunicar com o mundo. Quem é esse nós que se comunica? Quem usa as máscaras? Há uma unidade, algo, alguém? Ou são só fluxos, que focados sob a lente do presente parecem ser algo, parecem ter unidade e existência própria, mas são apenas momentos num fluir constante?

Não passe apenas por essas questões, pense nelas, visualize, pare, respire e leia de novo esta página. Várias Escolas tocam nesse ponto. Percebemos o mundo a nossa volta. E quando níveis mais amplos de consciência são atingidos, algo permanece existindo. A psicologia ocidental em quase sua totalidade só se interessa pelos estados outros de consciência que não o usual quando estes são patológicos, isto é , não integrados no indivíduo. Esquizofrenia, psicoses, neuroses, este é o campo que tais escolas lidam.

Escolas como a junguiana e a transpessoal são exceções importantes, que embora de forma tímida, dão os primeiros passos no estudo dos níveis alterados de consciência nos quais ela não se fragmenta ou descompensa, mas se amplia. De uma forma primária ainda chamam tais estados de transe, muitas vezes considerando-os ocorrência fugidias, como acessos que vem e vão.

Mas outras escolas de psicologia mais sofisticadas como a budista compreendem que existem outros estados de consciência e podemos não apenas incidir neles mas ampliar a tal ponto nossa percepção que um novo mundo se descortina aos nossos olhos, ampliado por podermos perceber mais. Um desses estados é conhecido como o estado de Arhat. Após um trabalho disciplinado o ser passa a interagir de forma mais consciente com o meio e assim ao invés de estados ilusórios passa a perceber o mundo como ele de fato é, com seus fluxos e mutações. Costuma-se dizer que o Arhat vê a essência das coisas e não apenas a superfície.

Todo trabalho é realizado em etapas.

Em relação a energia por exemplo, como veremos mais adiante, é importante em primeiro lugar poupar energia, pois precisamos de energia para começar o trabalho sobre nós mesmos. Em segundo lugar é o momento de recanalizar a energia, reconhecer que os focos nos quais a energia foi anteriormente aplicada eram determinados pelo sistema que nos criou, o qual tem seus próprios fins, bem distantes da auto-consciência e do equilíbrio.

Finalmente em terceiro lugar aprendemos a potencializar e ampliar nossa energia, liberando-a dos pontos onde estava bloqueada e aprendendo a ampliar ainda mais a energia que possuímos.

Veja que tal seqüência não é arbitrária mas estratégica.

Continua...

Paranóia

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Qual a sua paranóia predileta?

Se formos levar em conta a etimologia da palavra paranóia todos o são, varia apenas a intensidade e o tipo.

Do Grego paranoia, “loucura, doença mental”, de PARA-, “ao lado, além”, mais NOOS, “mente”.

Ou seja a mente fora do seu lugar.

Mas o que significa este lugar. Qual o lugar da mente?

Talvez a palavra paranóia nos revele mais sobre isto.

Paranóia é um tipo de ansiedade, ansiedade persecutória, a pessoa sente-se perseguida. A ansiedade projeta a mente sempre para o futuro, portanto, tira a mente do presente e daquilo que é. Coloca a mente num outro "lugar", num outro tempo: o futuro.

A mente fixada no futuro movida pela ansiedade estaria fora do seu "lugar" pois fora do seu tempo? A alienação do presente para viver uma fantasia mental, uma projeção delirante, uma imaginação negativa estruturada, coerente e lógica, apesar de mentirosa. Temos uma convincente e convicta farsa crônica.

Quantas coisas não são capazes de tirar a mente do seu lugar? Muitíssimas.

Paranóia, medo, ansiedade persecutória é apenas uma delas, contudo é a palavra paranóia que carrega em sua origem esta noção de bagunça mental, de desalinhamento, de mente fora do seu lugar, então é ela que nos permite uma análise da nossa própria loucura através de um raciocínio específico.

Faço parte da chamada tribo dos conspiranóicos e e noto que as pessoas que compõem esta tribo são capazes de ver numa cedilha o rabo do próprio Satanás.

Há vários tipos de paranóia. Um tipo bem popular e comum é o ciúme. Ciúme é paranóia. Não é à toa que se brinca dizendo: chifre é uma coisa que colocaram na sua cabeça. Talvez por isto o Diabo tenha chifres pois ele é o fomentador da paranóia e o alvo predileto de paranóicos religiosos. O Diabo é uma metáfora para o nosso querido ego. O ego é diabólico, pois ele é um projetor poderoso de forças do inconsciente sob o filtro de uma aparente racionalidade, o ego é um lacaio da sombra, ele não se sabe escravo e age de forma tal que expressa a idéia de Sartre: o inferno são os outros.

Temos então o tipo ciúme e o tipo persecutório. Mas há um outro tipo, relativamente comum, é o tipo grandeza, com ares de mitomania, sente-se a encarnação de um grande personagem ou deus, julgando ter poderes especiais, é aquele que se sente capaz de fazer chover. Conheço alguns, o que me preocupas deveras, considerando-se a lei da atração. Normalmente vejo estes tipos associados de alguma maneira a parte espiritual, são misticóides, relatam suas grandes experiências, fascinados por si mesmos e alimentam um poderoso medo da morte, lutam a todo custo para afirmar ou justificar sua suposta grandeza, deste tipo o Diabo representado pelo ator Al Pacino no filme Advogado do Diabo disse:

- A vaidade é o meu pecado predileto.


Este tipo ainda pode ver, sentir, perceber que estão lhe fazendo mal através de magias, feitiços e outras artes mágicas, mas seu suposto poder sempre o protege, sente-se atacado mas se acredita invencível, é capaz de tornar-se iniciado em tradições místicas para justificar sua suposta condição de grande hierarca. Pode tornar-se assassino, psicopata mesmo, justificando tal coisa por ser um enviado da Justiça Divina, um executor da lei espiritual.

Outro tipo interessante que já encontramos é o tipo somático, ele manifesta em seu corpo ou em sua percepção fantasiosa uma série de impressões olfativas, gustativas, visuais ou auditivas que justificam a sua paranoia, um clássico exemplo de efeito nocebo, o lado negativo do efeito placebo.

Por fim temos o paranoico amoroso, ele idealiza uma pessoa a coloca num pedestal e acredita firmente que esta pessoa o ama, de um ponto de vista espiritual e fantástico.

Em geral os paranóicos tornam-se muitos refratários ao contato social, são anti-sociais, quase sociopatas, fecham-se em suas cavernas, isolam-se e são extremamente introspectivos e seletivos em suas relações. Julgam-se de alguma formas especiais, distintos do mundo, alguns se acreditamu encarnações de seres alienígenas e justificam isto de uma maneira bastante lógica pelo seu próprio comportamento estranho.

Como paranoico contumaz me vejo ou já me vi em alguns tipos e o melhor antídoto contra esta tendência psíquica é basear-nos em evidências concretas e orientamos a nossa razão e imaginação dentro de um contexto onde a mente se encontre em seu “lugar”, assentada no presente, sem as elocubrações fantásticas típicas da paranoia, usando a meditação e a própria razão de uma forma implacável para questionar as nossas próprias projeções psíquicas.

Sejamos paranóicos, mas com moderação, afinal há um prazer secreto em crer-se capaz de perceber os segredos e conspirações deste mundo sejam elas reais ou não. Evitemos toda a viagem na Hellman´s Airline, se possível.

Certamente a paranóia interessa aos podres poderes que regem esta era de ferro - Kali Yuga - pois ela nos impede de ver e de agir de uma maneira positiva para mudarmos a nossa própria realidade.

F.A.

O psicopata virtual

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Ressentir-se por que não recebeu uma curtida é carência demasiada que tem levado ao surgimento de uma nova modalidade de psicopata: o serial killer de perfis, o hitman virtual, também conhecido como o deletador cibernético.
Ah, "a vaidade é o meu pecado predileto"...

Ela, a vaidade, é implacável, é inclemente e absoluta invade todos os espaços por onde trafega e navega audaciosamente a carência.

Quantos mortos e vítimas desta sanha assassina, desta fissura descontrolada do eu, eu, eu.

Esta nova modalidade de psicopata ou sociopata virtual é tão terrível que abunda como erva daninha e sua sofreguidão e violência proclama apenas o culto macabro ao eu, eu, eu.

E lá no fundo, a cada crime, a fissura aumenta e a desventura prossegue até que a própria vida extinta tenha a morte a apertar a tecla delete.

O que é esoterismo? 2ª parte

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016



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Nada é mais indecifrável, "esotérico", que o Zen. Será? Há duas historias que mostram com clareza quase brutal que o esotérico não o é por si mesmo, mas talvez por que aqueles que buscam entendê-lo o fazem a partir de um suposto conhecimento sobre o próprio esoterismo.

O Elefante e a Pulga


Roshi Kapleau (um mestre Zen moderno) concordou em falar a um grupo de psicanalistas sobre Zen. Após ser apresentado ao grupo pelo diretor do instituto analítico, o Roshi quietamente sentou-se sobre uma almofada colocada sobre o chão. Um estudante entrou, prostrou-se diante do mestre, e então sentou-se em outra almofada próxima, olhando seu professor.


"O que é Zen?" o estudante perguntou. O Roshi pegou uma banana, descascou-a, e começou a comê-la.


"Isso é tudo? O senhor não pode me dizer nada mais?" o estudante disse.

"Aproxime-se, por favor." O mestre replicou. O estudante moveu-se mais para perto e Roshi balançou o que restava da banana em frente ao rosto do outro. O estudante fez uma reverência e partiu.

Um segundo estudante levantou-se e dirigiu-se à audiência:

"Vocês todos entenderam?"

Quando não houve resposta, o estudante adicionou:

"Vocês acabaram de testemunhar uma completa demonstração do Zen. Alguma questão?"

Após um longo silêncio constrangido, alguém falou.

"Roshi, eu não estou satisfeito com sua demonstração. O senhor nos mostrou algo que eu não tenho certeza de ter compreendido. DEVE existir uma maneira de nos DIZER o que é o Zen!"

"Se você insiste em usar mais palavras," o Roshi replicou, "então Zen é um elefante copulando com uma pulga...".

Uma xícara de Chá

Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas. Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.

O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:

"Está muito cheio. Não cabe mais chá!"

"Como esta xícara," Nan-in disse, "você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?"

O que é esoterismo? - 1ª parte

domingo, 3 de janeiro de 2016

Esoterismo é uma palavra bastante "esotérica". Parece que sabemos do que falamos ou escrevemos quando usamos tal termo, mas quando olhamos mais a fundo ela parece nos escapar. Algo esotérico parece assim: inalcançável, distante, misterioso, indecifrável, pertencente a um grupo de pessoas especiais, misteriosas, dotadas de poderes e conhecimento além dos mortais.

Esotérico parece algo que pertence a um grupo tão fechado e secreto que se distancia da vida real, comum, do dia à dia e, contudo, não pode estar a parte da Vida porque a Vida envolve tudo, inclusive a si própria, como uma mulher misteriosa. Esotérico parece que tem algo a ver justo com isso:

1 - com o fato da Vida estar toda conectada, ligada como numa Teia e

2 - com o fato da Vida envolver a própria Vida, a si mesma, em diferentes camadas, da mais superficial a mais profunda.

Mas talvez devêssemos antes falar das confusões que tornam o esotérico mais "esotérico" ainda.

Quando trabalhava para uma financeira costumava brincar com meus clientes advogados que sempre usa(va)m, assim como os médicos, e eis aí duas categorias profissionais tão "esotéricas" quanto a maior parte do pretensos intelectuais, termos que as pessoas comuns não entendem e lhes perguntava o seguinte:

- Doutor, o que é um contrato de adesão formal de efeito vinculativo plúrimo?

Nenhum deles nunca soube me responder, e isso estava escrito no verso da proposta de crédito que eu como vendedor lhes fazia assinar em troca de um produto financeiro. Com um sorriso vitorioso eu lhes dizia:

- Um cartão de crédito.

Mas o que isso tem a ver com esoterismo?

Tudo e nada.

Tudo porque pelo senso comum esotérico é algo que é tão difícil, tão intricado que só poucos tem acesso a tal conhecimento e nada porque o esoterismo pode ser acessado porque qualquer um sem que seja necessário conhecimentos intelectuais sofisticados para tal.

Ou como diria o Gil, que nos dá uma deixa logo a seguir, com a participação da Gal / Bethânia:

"Até que nem tanto esotérico assim / Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais"

Continuamos...