"Há muito pouco valor na instrução"

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

“A única ajuda concreta que você obteve de mim é o fato de que ataco sua auto-reflexão. Não fosse por isso, você estaria desperdiçando o seu tempo.

— Você me ensinou, Don Juan, mais do que qualquer outra pessoa em minha vida inteira — protestei.

— Ensinei-lhe todos os tipos de coisa para prender sua atenção. Você irá jurar, entretanto, que esse ensinamento foi a parte importante. Há muito pouco valor na instrução. Os feiticeiros afirmam que mover o ponto de aglutinação é tudo que importa. E esse movimento, como você bem sabe, depende de acúmulo de energia e não de instrução.

Então ele fez uma afirmação contraditória. Disse que qualquer ser humano que seguisse uma seqüência específica e simples de ações poderia aprender a mover seu ponto de aglutinação.

Retruquei que ele estava contradizendo a si mesmo. Para mim, uma seqüência de ações significa instruções; significa procedimentos.

— No mundo dos feiticeiros há apenas contradições de termos — replicou.

— Na prática não há contradições. A seqüência de ações sobre a que estou falando é uma que se origina de estar consciente. Para tornar-se consciente dessas seqüências você necessita de um nagual. É por isso que falei que o nagual proporciona uma chance mínima, mas essa chance mínima não é instrução, como a que você necessita para aprender a operar uma máquina. A chance mínima consiste em se tornar consciente do espírito.

Don Juan explicou que a seqüência específica que tinha em mente exigia estar consciente de que a auto-estima é a força que mantém o ponto de aglutinação fíxo. Quando a auto-estima é podada, a energia que requer não é mais gasta. Essa energia aumentada serve então como o trampolim que lança o ponto de aglutinação, automaticamente e sem premeditação, para uma viagem inconcebível.

Uma vez que o ponto de aglutinação se moveu, o próprio movimento implica afastar-se da auto-reflexão, e isto, por sua vez, assegura um elo de conexão limpo com o espírito. Comentou que, afinal, era a auto-reflexão que havia desconectado o homem do espírito em primeiro lugar.

— Como já lhe expliquei — continuou Don Juan —, a feitiçaria é uma viagem de retorno. Voltamos vitoriosos ao espírito, tendo descido ao inferno. E do inferno trazemos troféus. O entendimento é um de nossos troféus.

O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda.

                      

Mestres(as) e caminho solitário

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Este tema de mestres e solitude do caminho é interessante.

A questão que vejo aqui é que flutuamos entre dois extremos.

Por um lado existem os que se tornam dependentes de mestres e de outro os que negam totalmente isso. Todo extremo é danoso e é sempre útil buscar o saudável caminho do meio. Usaria o exemplo da Arte Marcial para deixar claro como vejo o processo. Não existe arte marcial sem mestre. A essência da Arte Marcial não é essa pancadaria glorificada pelos filmes modernos, é outra coisa. Arte Marcial é um estilo de trabalhar as energias corporais que resultam inclusive em uma habilidade de se defender, mas não é esse seu objetivo focal. Shao Lin, em seus muitos mosteiros e tantos outros centros de aprendizado não tinham na formação de combatentes seu objetivo, isto só acontece mais tarde, quando condições históricas assim obrigam e ainda assim a luta é uma forma de expressão de algo mais amplo.

Taoistas buscam algo mais que lutar, os movimentos, tidos por "experts" ocidentais como excessivos e desnecessários, na realidade tem a função de harmonizar a energia que flui pelos meridianos do corpo, harmonizar e vitalizar os centros orgânicos , é um aprendizado acumulado por gerações e para transmitir na integra tais conhecimentos há a figura de quem ensina. Um conhecimento que durante milhares de anos foi acumulado pode ser transmitido, se fossemos seguir sós no caminho teríamos que ter uma vida de milhares de anos para aprender tudo.

Isso é o "mestre" ou "mestra" embora estes termos sejam tão deturpados que gosto mais do termo que alguns xamãs como o Doutor Carlos Castaneda usa: Benfeitor. Alguém que te ajuda no trabalho, te transmite o conhecimento acumulado por gerações.

Quando Vc aprende matemática não precisa investigar todos os teoremas matemáticos e leis da física. Se o fizesse poderia por exemplo ficar preso no paradigma newtoniano. Mas tem alguém prá te contar que tal paradigma já foi superado e hoje temos a abordagem quântico relativística. Precisamos de alguém para nos contar que o senso comum da abordagem da física clássica foi superado e que a realidade é paradoxal e complexa.

Na Magia ocorre o mesmo. A abordagem pelo senso comum pode levar a erros sem fim. Quantas civilizações ancestrais caíram pelo uso equivocado da magia. Magia não é alguma bobeira mística que podemos "intuir" se formos bons, ou algo assim. É Arte, mas é também ciência. E alguém entraria num laboratório cheio de ácidos e venenos e ficaria buscando por intuição uma mistura entre tais substâncias?

Aliás, a própria intuição é uma habilidade que precisa ser desenvolvida, pois a cultura dominante a bitola profundamente. Mas o mestre real numa linhagem marcial não fica se arrogando títulos ou posições. Ele ou ela, apenas já dominam o suficiente o espirito da Arte para transmitir a outros de forma sistematizada e eficiente.

Aliás, num grupo de arte marcial tradicional quando um aluno novo chega ele não começa já tendo aula com os Mestres da casa. Começa com instrutores que estão mais próximos da realidade de quem chega. Passa por um período de adaptação, um noviciado até ser iniciado formalmente na "família" como chamamos.

Isto ajuda quem chega, que encontra apoio em alguém que está mais próximo de seu estágio, que vai compreender suas dificuldades por ter recentemente passado por elas e ajuda quem faz o papel de instrutor que tem de rever todos o seu próprio aprendizado para poder ensinar com eficiência. Aprender alguma arte marcial depende totalmente de Vc, de sua dedicação, de sua força de vontade, de sua disciplina e ninguém pode te dar a técnica, podem te ensinar, ninguém pode te levar a se desenvolver, podem te mostrar como. Assim também é na Arte Mágica.

Pessoas a mais tempo na arte podem servir de instrutores, pessoas que já aprenderam nuances da Arte, a contornar suas armadilhas e que podem auxiliar no desabrochar de quem está aprendendo. Ninguém pode aprender por Vc, ninguém pode te desenvolver. Podem te auxiliar dando-lhe subsídios.

Qualquer sinal de arrogância porém, de pretensa superioridade indica apenas que temos um ego inflado, uma pessoa que incapaz de se colocar no mundo cotidiano usa da magia para satisfazer suas fantasias de prepotência e poder. Títulos pomposos, "senhor" , "senhora" , "cavaleiro" do tal grau, tudo isso é resquício de um tempo que já se foi. Senhor, domine, está ligado a um arquétipo que nada tem a ver com o paganismo, é profundamente judaico-cristão e só ocorre nas sociedades que decaíram profundamente.

A humildade de quem conhece o mistério vem naturalmente, sabe que somos nada perto da eternidade, que somos efêmeros demais, que temos um longo caminho até para nos considerarmos existentes de fato e frente a imensidão da eternidade como considerar-nos "importantes", "onipotentes"?

Eu tenho um critério pessoal para notar quem já presenciou o mistério. Quem já presenciou o mistério brinca com ele. Sim, brinca, tem uma postura leve, pois o mistério é em si tão complexo, tão avassalador em sua transcendência que a única forma de lidar com ele é de uma forma leve, tranqüila, para apaziguar o assombro que a enormidade da questão nos causa.


Já quem nunca presenciou o mistério, nunca se sensibilizou a ele, precisa de ares, de caras e bocas, de aparências, precisa "fazer" mistério para substituir a ausência do verdadeiro contato com a Eternidade.

São essas pessoas que se arrogam títulos e posições, conhecimentos que dizem secretos e ares mil a protegê-las de que percebam sua ignorância. Temos que tomar muito cuidado quando vamos avaliar as antigas culturas pagãs pois muito de sua história foi terrivelmente deturpada.

Os Incas e Astecas, por exemplo, eram povos conquistadores, como os Romanos. Eram imitadores, copiaram os ritos e a magia dos povos conquistados mas copiaram a forma sem entender a essência. Eles invadiram outros povos, escravizaram e deturparam os sagrados ritos e conhecimentos para seus próprios fins.

É um equívoco acreditar que os Incas construíram lugares como Machu Pichu. Outros povos, como os Aymarás, construíram tais lugares para eles, Incas, aliás, como já disse, Inca é a elite governante do império. Chamar de Inca a complexa cultura que se desenvolveu naquela área dos Andes é como chamar todo o povo egípcio de faraós.

Gurdjieff tem uma abordagem muito interessante desse processo. Ele diz que quando duas pessoas que estão no caminho do trabalho sobre si mesmo se encontram elas primeiro conversam e se observam longamente para descobrir quem entre as duas é a mais desperta. Esta tomará o papel de guia, ou seja alguém que pode auxiliar o despertar. Mas o aprendizado não é nunca uma rua de mão única, há sempre troca e tal troca é rica. Acontece que o ser humano está doente. Entre outras coisas, perdeu a capacidade de tomar decisões.

E aí entra a confusão quando se acredita que um (a) mestre (a) vai ser aquela pessoa que tomará todas as decisões morais e intelectuais pelo aprendiz, vai dizer o que ele deve e não deve fazer. Muito pelo contrário. Os (as) mestres (as) da arte que tive a sorte de conhecer agem de forma oposta. Criam ou te expõe a situações onde você terá que por em prática tudo o que te ensinaram e "somem" enquanto dura a prova, justamente para que Vc aprenda a ser autônomo, a tomar suas próprias decisões morais e intelectuais por si.

Pois é esse o sentido de educar: Ajudar o ser a desabrochar, a revelar seu interior. A escola tradicional nos bitolou em decorar fórmulas e regras, chegar no horário certo e obedecer o professor e muitos levam esses vícios para a vida cotidiana e pior, para o mundo mágico acreditando que magia é também decorar fórmulas, obedecer formalidades e ficar submisso a vontade de outrem.

A questão do caminho ser solitário é outro ponto que questiono. Em certo sentido ele é solitário, tudo importante na vida é solitário. Nascemos sozinhos, morremos sozinhos e se nestes dois momentos mais significativos estamos sós o que não dizer em outros. Mas a existência de grupos de trabalho é possível e até mesmo recomendável. Pois trabalhar sozinho pode ser uma boa desculpa para justamente não se trabalhar, pois nada mais difícil que o convívio humano.

É muito fácil chegar em resoluções irreais quando se está só, em acreditar que atingimos tal ou qual estado, mas quando em contato com outros que nos colocam em xeque constantemente é outra coisa. Um grupo deve ser harmônico e não surge da noite para o dia. Um grupo é formado por laços de respeito e afinidade e é no buscar desses laços que muito se aprende. Todas as escolas iniciáticas consideram que o ser humano no seu estado "normal" está dormindo, robotizado, num sono hipnótico que precisa acordar. Aprender rituais não é acordar, pelo contrário, você pode dormir mais ainda sonhando com os rituais. Acordar é estar presente aqui e agora, consciente e com foco. E nisso um grupo pode te ajudar a não deixar que vc faça joguinhos, que se iluda. É muito difícil o convívio humano, é uma verdadeira arte.

E vejo aí o fato que muitas pessoas preferem o caminho solitário, para evitar o desgaste do convívio, mas aí fogem também do aprendizado. Ficar em torres de marfins, isolado de tudo e todos é fácil, mas qual o valor disso?

Só no contato efetivo com a realidade e com outras pessoas podemos ter certeza que nosso aprendizado é real e não apenas mais uma das muitas ilusões que desenvolvemos durante a vida. Para essa questão do grupo repito a frase de um mestre que muito me ensinou:

Um grupo é como bambus crescendo, crescem juntos mas cada um tem sua raiz.

Nuvem que passa

Vaidade sob a ótica do 4C - 1ª parte

terça-feira, 14 de outubro de 2014


O tema vaidade realmente é muito procedente em nosso trabalho.

Como a vaidade nos faz vulneráveis.

Tenho notado que nos sistemas religiosos dominantes as pessoas fazem as coisas para ganhar recompensas e para agradar a Deus ou a seus anjos e santos.

É todo um jogo de busca de recompensas, uma troca e um jogo de "agradar" , mera repetição de relações que já tivemos com os adultos a nossa volta.

Fomos condicionados a crer que se formos "bonzinhos" ganhamos a mesada, o doce, o presente, papai noel atende nossos pedidos, enfim, fomos condicionados a agir para agradar.

E muitos entram neste tipo de clima mesmo aqui.

Agir, responder a lista, escrever para a lista para agradar.

Agradar quem?

Alguém que insistimos em colocar como juiz em nossas vidas.

Sempre elegemos alguém fora de nós para agradarmos e aqui a questão fica complexa pois "nós" é alguém que não existe ainda.

Agir para agradar nos leva a tomarmos por base de atuação a aceitação coletiva para nossa forma de estar no mundo.

E assim ficamos terrivelmente vulneráveis as opiniões e pontos de vista dos outros a nossa volta.

A auto piedade, a piedade que o ser humano tem de si mesmo me parece a raiz de toda a vaidade.

Só quando caí na piedade de si mesmo, quando o reconhecimento do nada que somos, da efemeridade de tudo que representamos frente a Eternidade, quando esta constatação de nossa solitude fundamental e efemeridade enquanto ente singular, é mal resolvida temos o florescer da vaidade, da importância pessoal.

E a pessoa que tem a importância pessoal exacerbada pode até se matar para chamar atenção, para que "reconheçam seu valor".

Me lembro uma das palavras chaves que certa vez li.

Dizia que se não nos importamos de sermos bobos, de fazermos papel de bobos frente a todos realmente podemos nos considerar aptos para ir muito longe em direção a nossa meta.

A necessidade de assegurar nossa posição no bando, de que todos reconheçam nossa "seriedade" nos torna uma verdadeira piada.

A morte como conselheira nos permite purgar todas as bobeiras e nos deixa sóbrios para encararmos ativamente o desafio que estar vivo representa.

Gastar nossa preciosa energia para defender uma imagem falseada que temos de nós mesmos é não só anti estratégico como danoso ao caminho do despertar e da liberdade.

Acreditamos que somos unidade, que somos imortais, que temos um corpo de energia pronto e assim crendo não trabalhamos para desenvolver estes talentos.

Aqui é por pura vaidade que acreditamos já ter uma alma imortal, já sermos capazes de agir, quando tudo que fazemos é reagir, sermos capazes de sentir quando tudo que fazemos é nos emocionar e sermos capazes de pensar quando tudo que fazemos é raciocinar.

A vaidade cria teorias espantosas em ilusão e auto engano, em fórmulas prontas para manter quem dorme no sono.

O que incomoda em disciplinas como o Quarto Caminho e similares é que são implacáveis em remover toda essa fantasia.

Bem trabalhadas tais trilhas de auto conhecimento levam a constatação dura mas necessária do nada que somos e ainda assim somos maravilhas, fragmentos de estrelas que precisam recuperar seu brilho.

Temos que lembrar de nós para deixar de ser essa máquina que nos tornaram e recuperarmos a liberdade que existe em nós, trancada por preconceitos e formas limitadas de inserção na realidade.

E tudo isso só é possível se nos observamos com atenção, com serenidade, se reconhecemos factualmente em nós como nos alteramos, como reagimos a coisas sem importância, como lutamos para defender uma imagem tola que temos de nós mesmos.

Quanto mais reativa é uma pessoa a qualquer comentário que façam dela, quanto mais fica pensando e remoendo aquilo que lhe dizem, aquilo que a ameaça, mais presa é esta pessoa da vaidade.

Vaidade é algo sutil e se a considerarmos enquanto importância pessoal encontramos mesmo a base sobre a qual a falsa personalidade mantém seu domínio e se alimenta.

Não é algo simples, é mesmo uma das maiores travas no nosso caminho ao despertar.

A vaidade nos faz reagir sem raciocinar, nos faz ficar lamurientos e chatos, arrogantes e empafiados querendo a todo custo defender a imagem que fazemos de nós mesmos.

Este tipo de atitude é uma clara prisão as possibilidades que temos de ir rumo a liberdade.

Paz e Luz
Guerrero - 22/10/2000