Meditação Vipassana

sábado, 19 de julho de 2014


O inimigo sou eu

Esta é a história de uma aventura que desafia os limites do corpo e da mente. A repórter de ÉPOCA fez um retiro de meditação, no interior do Rio de Janeiro. Foram dez dias sem falar, ler ou escrever, mais de uma centena de horas imóvel. O objetivo do curso era mudar o funcionamento da mente para eliminar o sofrimento. Dos 61 participantes, cinco desistiram em diferentes etapas do percurso. A seguir, o relato dessa longa viagem pela geografia interior

ELIANE BRUM

Para onde eu fui, só havia mapa para chegar ao ponto de partida. Ele me deixou numa estradinha de terra, no interior do município de Miguel Pereira, na região serrana do Rio de Janeiro. Na porteira, estava escrito: “Meditação Vipassana”. Como eu, outras 60 pessoas desembarcaram de diferentes geografias para o início de uma viagem capaz de mudar a vida de todos. Alguns eram americanos, havia latinos de diversos países, brasileiros, a maioria. Durante dez dias, eu não poderia falar com meus companheiros de jornada. Nem olhar para eles, muito menos tocá-los. Só chegaria ao final quem conseguisse esquecer que existiam outros viajantes. Quando a travessia terminou, cinco pessoas – três homens e duas mulheres – haviam ficado no meio do caminho.

Para ser aceito nessa excursão de dez dias, cada um de nós assinara um compromisso: não roubar, não matar nenhum ser vivo (incluindo baratas e pernilongos), não mentir, não fazer sexo (nem mesmo do tipo que se faz sozinho), não usar substâncias como álcool, drogas ou medicamentos.

Antes de iniciar a expedição, abandonamos tudo o que nos ligava ao mundo exterior. Em vez de levar a bagagem, tivemos de deixá-la. Meu legado consistiu no seguinte: o livro que comecei a ler na ponte aérea São Paulo–Rio de Janeiro (O Homem Comum, de Philip Roth), um bloco de anotações, duas canetas, uma agenda de telefones, celular, fotos da família, dinheiro, cheques e cartões de banco e de crédito, carteira de identidade.

E alguns objetos de superstição que eu, agnóstica desde os 11 anos, costumo carregar por precaução científica: meu louva-a-deus da sorte (de borracha), medalhinhas de São Francisco de Assis e Nossa Senhora de Fátima, uma pedra do Deserto do Saara e um pequeno Golem (personagem da mitologia judaica).

Durante dez dias viajaríamos sempre para longe e para dentro, mas sem sair do lugar. Na janela, a mesma paisagem de folhinha de calendário: montanhas, árvores, vento e silêncio. Parecia que o mundo começava e acabava ali. Confinados em um espaço de cerca de 200 metros, os dias teriam três cenários: o refeitório, o alojamento e a sala de meditação. Homens e mulheres não se cruzariam em caminho algum. Nas fronteiras invisíveis entre os sexos, placas de madeira avisavam: “limite”.

Para mim, permanecer em silêncio por dez dias era a parte mais confortável do roteiro. Sou tímida. Olho muito mais do que falo. Sou ranzinza a ponto de achar que há excesso de ruídos no mundo, muita gente falando o tempo todo, dizendo quase nada, não escutando sequer a si mesma. O que me assustava era a imobilidade física que a viagem exigia. Eu sabia que teria de passar 12 horas por dia sentada, coluna ereta, cabeça firme sobre o pescoço. Em dez dias seriam 120 horas na mesma posição – o equivalente a um curso básico de inglês.

Meu recorde de meditação eram 15 minutos nas aulas de ioga. Não sou atleta, mas faço exercícios com regularidade há anos. Tinha acabado havia poucos meses um tratamento na coluna lombar e estava muito satisfeita por espirrar sem sofrer. Aos 41 anos, sem dores, sem bagagem e sem palavras, estava pronta para começar a me desligar de um mundo e entrar em outro.

E então o sino tocou. Eram 4 horas da madrugada do dia 1. Eu dividia um quarto pequeno, ocupado por uma cama e um beliche, com duas mulheres. Antes de o sol nascer, encontrava outras 28 companheiras no banheiro coletivo em silencioso mau humor. Um dia uma delas encarou o espelho, puxou o cabelo para cima e, com o olhar vidrado, disse em voz alta para si mesma: “Você está ficando doida”. Depois, no refeitório, ela olhou para a banana que comia e teve um ataque de riso.

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Descobri que um universo complexo me habitava, com manifestações novas e desconhecidas. Foi como passar a vida olhando o oceano da praia e, de repente, mergulhar
Às 4h30, estávamos sentadas no chão, sobre um fino tapete, cada uma em seu lugar determinado. O professor entrou na sala e sentou-se em posição de lótus sobre um tablado. Era magro, comprido e careca. Gastei um tempo considerável pensando com qual personagem de animação ele se parecia, mas não cheguei a nenhuma conclusão. Ele espichou o braço e ligou um aparelho de CD. Ouvi, pela primeira vez, a voz do mestre de origem indiana S.N. Goenka falando num inglês carregado. Depois, suas instruções eram traduzidas para o português em outra gravação.

Na primeira instrução, Goenka mandou… respirar.

Inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira, inspira, expira.

Um minuto. Se o parágrafo anterior for repetido 660 vezes, é possível ter uma idéia aproximada do primeiro dia do curso de meditação vipássana. A estréia ocuparia 134 páginas de revista, uma edição de ÉPOCA inteira, preenchida apenas com a observação do “ar que entra, o ar que sai; assim como entra, assim como sai”.

A tarefa era apenas observar a respiração, de olhos fechados, sem interferir. Desde o primeiro dia, somos ensinados a observar “a realidade como ela é”. Minha grande descoberta nessa estréia foi perceber que o ar não entra sempre pelas duas narinas e sai pelas duas, mas às vezes entra pela direita e sai pela esquerda. Ou vice-versa.

Isso foi instigante nos primeiros cinco minutos. Nos outros 640, tive de vencer o tédio e a sonolência, nem sempre com êxito. A agenda era rígida e imutável: acordar às 4 horas; das 4h30 às 6h30, meditar; das 6h30 às 8 horas, tomar café-da-manhã; das 8 às 11 horas, meditar, com um intervalo de dez minutos; das 11 às 12 horas, almoçar; das 12 às 13 horas, inscrever-se, se quiser, para fazer perguntas privadas ao professor; das 13 às 17 horas, meditar, com dois intervalos de dez minutos; das 17 às 18 horas, lanchar; das 18 às 19 horas, meditar; das 19 horas às 20h15, escutar uma palestra na mesma posição de meditação; das 20h15 às 21 horas, meditar seguindo novas instruções; das 21 horas às 21h30, fazer perguntas públicas ao professor. Das 21h30 às 22 horas, preparar-se para dormir. Às 22 horas, a luz se apagava.

E tudo recomeçava às 4 horas da madrugada do dia seguinte, com o sino. E com o sino tudo terminava, 18 horas depois – dez horas e 45 minutos preenchidos com meditação, uma hora e 15 minutos de palestra e seis horas para comer, tomar banho e descansar. O sino marcava os horários de início e fim das meditações, início e fim dos intervalos e também as refeições. Era o som da vida no retiro.

Às 4 horas, eu me contorcia dentro do saco de dormir. Dava, literalmente, o primeiro de uma série de gritos silenciosos. Eu me sentia a pintura mais famosa do Edvard Munch. À noite, eu, uma insone crônica, dormia no minuto em que me deitava. Nunca tinha pensado que observar a respiração pudesse ser mais extenuante que um fechamento da revista. Ou uma rave. Mas era. Muitos pensam que meditação é um descanso, um relaxamento. Descobri que era uma s maratona da mente. Eu estava imóvel, mas dentro de mim parecia que eu corria descalça a São Silvestre.

Na última meditação da noite, recebíamos as novas instruções. Na noite 1, soube que no dia 2 observaria “o pequeno toque do ar ao entrar pelas narinas”. Sem interferir. Pode parecer incrível, mas eu ansiava por esse momento: passar da observação do ar que entra e o ar que sai para o toquezinho no nariz era um instante de grande dinamismo.

Descobri que não tinha nenhum controle sobre minha mente. Parece óbvio, mas achar que controlamos nossa vida é uma das grandes ilusões contemporâneas. E eu sempre a tive em alta conta. Manter a mente no exato momento presente é um desafio: em geral, estamos no passado (nostálgicos ou lamentosos) ou no futuro (antecipando catástrofes ou adiando possibilidades). Aqui, agora, pouco estamos.

Desde o início, Goenka, o mestre da vipássana, pedia que cada aluno desse “uma chance justa à prática”. Sua proposta era semelhante ao método científico. Não acredite, duvide. Teste. Mas faça isso com rigor para que os resultados sejam confiáveis. Pareceu-me uma proposta honesta. Era uma apuração pouco ortodoxa, mas dediquei-me a ela com o mesmo rigor de uma reportagem sobre grilagem de terras na Amazônia ou crimes na internet – dois temas mais familiares a minha vida de repórter.


No segundo dia, isso significava obrigar minha mente a voltar para o toque do ar entrando pelo nariz a cada uma das centenas de vezes em que ela decidiu pegar uma rota alternativa sem me consultar. A concentração transformou meu mundo numa espécie de filme de Zhang Yimou, o cineasta chinês que filma como um pintor impressionista. Em suas imagens cada folha tem nuances, textura, é parte de um conjunto harmonioso. Eu percebia o vento em câmera lenta, a luz filtrada pelas nuvens no céu. Iniciei uma exploração sem palavras, pelos sentidos. Captava as mulheres a meu redor sem ouvi-las. Por algumas, tive uma aversão instintiva. Outras me despertaram ternura e uma afinidade profunda.

No terceiro dia, devíamos prestar atenção no triângulo cuja base é formada pelo lábio inferior, e cujo vértice pelo final do nariz. Nossa missão era perceber cada sensação nessa área. Coceira, calor, frio, amortecimento, pressão, dor. Sem julgamentos. E sem apego. Eu observava uma cócega na ponta do nariz, em seguida a abandonava por um amortecimento no lábio inferior, e assim por diante. Na hora do almoço, meu nariz sangrou. Não liguei muito porque estava com fome.

Nesses primeiros dias, eu era muito dedicada à comida, me apressava a ser a primeira da fila. Fazíamos duas refeições e um lanche. Toda alimentação era vegetariana. Eu, uma comilona convicta, tinha me despedido do mundo exterior com uma feijoada. À meia-noite, havia devorado uma caixa de bombons. Era minha estratégia para enfrentar tempos de Scarlett O’Hara, a heroína de …E o Vento Levou. No retiro, comecei comendo tudo o que me ofereciam, de mingau sem identificação a berinjela.

No terceiro dia, quando deitei ao sol depois de um delicioso arroz integral com o que pareceu ser carne de soja, percebi que uma formiga estava presa na manta. Tentei libertá-la, mas no afã heróico de salvá-la devo ter me excedido, porque ela desencarnou. Esse cadáver me doeu mais que qualquer crime do passado. Homicídio culposo, defini. Não houve dolo, intenção. Devo fazer um B.O.?

Debati-me por alguns minutos com essa questão. Afinal, eu havia assinado o compromisso de não matar nenhum ser vivo. No dia anterior, eu tinha capturado uma perigosa aranha marrom que passeava pelo colchão. Corri risco para devolvê-la ao mato sã, salva e letal. E agora essa fatalidade. Decidi então me abster de uma confissão pública. Compensaria meu crime quando saísse de lá. Daria imortalidade à formiga. Criei um argumento para um filme em que ela seria a personagem principal. Eu faria um roteiro para uma animação da Pixar.

Seria assim. Insetos nascidos e criados no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, estão cansados de enterrar cadáveres esmagados por tênis aerodinâmicos. Descobrem, então, que existe um lugar onde matar insetos é contra a lei, crime punido com sofrimentos atrozes nas 20 encarnações seguintes. Partem em busca da terra prometida e, depois de uma série de tribulações, alcançam o templo budista. Era tudo o que haviam prometido, mas o lugar estava infestado de pregadores que descobriam todo dia um demônio novo no corpo da formiga e de seus amigos. Incapaz de suportar mais um exorcismo sem rir, minha formiga se tornaria líder de um movimento pelo Estado laico. Interrompi nesse ponto porque o sino tocou chamando para a meditação. Na hora, me pareceu um réquiem genial para a formiga. Agora, com o salutar distanciamento dos dias, começo a aceitar a idéia de que a Pixar talvez não perceba o brilhantismo do argumento.

No intervalo seguinte lembrei que aos 9 anos eu havia escrito meu primeiro romance depois de esmagar um filhote de barata. Eu não era ré primária, portanto. Tinha antecedentes. Ainda havia sangue em minhas mãos quando comecei a imaginar a dor da dona barata voltando do trabalho com o jantar e deparando com o corpo do filho, estatelado no meio-fio do corredor lá de casa. No romance, eu expiava a culpa me retratando como uma assassina “fria e calculista” porque ainda não conhecia a palavra “psicopata”. Chamei a “obra” de “Autobiografia de uma barata” e, por tê-la cometido, eu merecia cadeira elétrica. Estava nesse ponto das minhas recordações quando tocou o sino para mais meditação.

Essa era minha situação no terceiro dia.

No quarto, a cada intervalo emergiam do meu inconsciente lembranças que eu não sabia que tinha. Gente que eu havia esquecido, episódios apagados. Alguns dramáticos, outros singelos, um repertório bem variado. Lembrei, por exemplo, do Chico, um menino deficiente que estudava comigo na 1a série. Ele gostava de mim porque eu era a única colega que falava com ele. Um dia ele foi brincar comigo e, num arroubo de amor, jogou o balanço na minha cabeça, causando comoção na escola.

Essas imagens emergiram de mim como um filme remasterizado. Eu me senti mal porque tinha vergonha quando o Chico dizia que eu era a namorada dele. Aos 7 anos, eu não queria ser namorada de um menino “diferente”. Eu me lembrei da irmã dele, que estudava na mesma sala e passava o tempo todo sozinha. Tive vergonha por não ser tão bacana quanto o Chico achava que eu era. Coisas assim surgiam o tempo todo. Pronto, abriram os portões do inferno, pensava.

A tarefa estimulante desse período era observar as sensações que ocorriam no ínfimo pedaço de pele entre o final do lábio superior e o início do nariz. Para “afiar a mente”, explicava Goenka. Era domingo. E era só o primeiro domingo que eu passaria lá. Mais uma semana inteira viria – e um feriadão. E eu seguiria não apenas no mesmo lugar, mas na mesma posição.

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Ter controle sobre a mente é um desafio. Em geral, estamos no passado, nostálgicos ou lamentosos. Ou no futuro, antecipando catástrofes ou adiando possibilidades. No presente, nunca
Às 4h30 da madrugada, sentada com as pernas cruzadas na sala de meditação, tentando observar o que acontecia no espaço de 1 centímetro de comprimento acima da minha boca, abaixo do meu nariz, por determinação de um indiano que me dava ordens em inglês por meio de um aparelho de CD, eu tive um pensamento ruim sobre meu chefe. Mas passou.

Na tarde do quarto dia se encerrou o período preparatório. Havíamos aprendido uma técnica de meditação chamada anapana, para domar uma mente acostumada a ir aonde bem entende, ensiná-la a nos obedecer e torná-la capaz de perceber sensações muito sutis em espaços muito pequenos do corpo.

Até então, era permitido mover uma mão ou esticar uma perna, abrir os olhos por um momento, se precisasse muito, ir ao banheiro. Na vipássana, deveríamos tentar não mover pernas e braços durante as instruções e, até o fim do retiro, passar uma hora, três vezes ao dia, absolutamente imóveis. E, nas demais, tentar nos mexer o mínimo possível. Segundo Goenka, uma hora sem movimento é o mínimo necessário para atingir níveis mais profundos do corpo.

A meditação vipássana consiste em observar as sensações de cada milímetro do corpo: começamos pelo topo da cabeça e vamos descendo, no máximo um minuto em cada lugar, até chegarmos ao pé. Repetimos esse itinerário interno centenas de vezes, hora após hora, de cima para baixo, de baixo para cima.
Naquele momento lembrei-me de outra viagem insólita, a do francês Xavier de Maistre, em 1790. Ele era um desbravador de geografias perigosas. Mas naquela primavera, vestindo um pijama de algodão rosa e azul, ele empreendeu o que chamou de “Viagem ao redor do meu quarto”. Mais tarde, fez ainda uma segunda etapa: “Expedição noturna pelo meu quarto”. De Maistre gastou um bom tempo admirando a elegância dos pés de seu sofá, assim como eu fiquei extasiada com a quantidade de sensações na minha orelha esquerda.

De Maistre propunha um novo olhar para a paisagem supostamente entediante do cotidiano: o olhar do viajante, o sentido do extraordinário. Lembrei-me dele ao iniciar minha longa jornada corpo adentro. Em minha primeira hora, além de detectar as sensações do corpo, senti os grandes tormentos que me acompanham vida afora: o temor de não conseguir s fazer alguma coisa (naquele momento, sentir as sensações), claustrofobia (no meu caso, pânico de ficar presa na escuridão do meu corpo), medo de morrer (tive taquicardia e pensei que meu coração cessaria de bater). Isso tudo passou pela minha cabeça em menos de cinco minutos, nessa ordem.

Percebi sensações em quase todo o corpo, me apavorei com a escuridão nos primeiros minutos, mas não fiquei presa dentro de minhas entranhas, nem morri. Passamos a vida sem perceber no corpo nada além das sensações óbvias de prazer ou de dor. Na trilha cartesiana (“penso, logo existo”), fizemos uma cisão entre corpo e mente. Em nossa época, essa ruptura atingiu seu ápice: o corpo foi reduzido a pouco mais que um objeto de intervenção, malhado ou modificado para o olhar do outro; um estranho para nós mesmos.

De repente, descobri que um universo complexo me habitava, com manifestações tão desconhecidas que nem sequer conseguia nomear. Guardadas as proporções, é como passar a vida olhando o oceano da praia e um dia mergulhar. Senti certa euforia com esse novo mundo descoberto no lugar mais óbvio e improvável. Como o russo Yuri Gagarin, tive vontade de gritar: “Meu corpo é azul!”.

Vipássana significa “insight”, “visão interior”. Segundo seus mestres, é a meditação usada pelo próprio Buda, 2.500 anos atrás, em sua busca pela iluminação. Goenka é hoje o mestre de vipássana mais conhecido e o principal divulgador da técnica pelo mundo. No Brasil, a vipássana apareceu em 1994, e o primeiro centro em 2003. Nos cursos, todo trabalho é voluntário, inclusive o dos professores, para “evitar exploração comercial”. Ao final, os alunos podem doar qualquer quantia ou trabalho. Ou não dar nada.

A idéia básica está presente em diferentes linhas do budismo: o que nos faz sofrer é o apego. Na vida, o apego se manifesta por uma reação de cobiça ou aversão. Queremos continuar sentindo o que nos dá prazer e não aceitamos sentir o que nos causa algum tipo de dor. Se aprendermos a arte do desapego – ou seja, não cobiçar o prazer nem sentir aversão pela dor –, a fonte do sofrimento estanca. Para isso, precisamos compreender que a vida é impermanência. Que nada dura, nem o prazer nem a dor. É necessário realmente entender que tudo é efêmero e, portanto, só a ignorância nos leva a qualquer tipo de apego – e ao sofrimento.

A vipássana é uma prática. Sem a prática, os mestres acreditam que a filosofia se torna vazia, um exercício intelectual sem importância. No curso, é ensinado que Siddhartha Gautama, o Buda histórico, teria percebido que cada reação de aversão ou cobiça causa uma espécie de nó em nosso corpo. E só removendo – fisicamente – esses nós, e não fazendo outros, poderíamos parar de sofrer. Como técnica, a vipássana pode ser usada por adeptos de qualquer religião ou de nenhuma.

Um exemplo prosaico. Eu adoro comprar sapatos. Buda poderia dizer que não é o sapato que compro – e Karl Marx concordaria… O que busco é repetir a sensação que sinto ao comprar um sapato. Não percebo que, por mais que gaste meu salário tentando transformar uma sensação prazerosa em permanente, ela vai passar e vou ter de gastar mais dinheiro para repeti-la. É cobiça, é apego. É ilusão.

Se Buda tivesse conhecido esse mundo de consumo, provavelmente o veria como uma fonte permanente de sofrimento causado pela cobiça. Nós nos tornamos escravos das sensações, com todas as implicações na vida que a escravidão representa. Uma pessoa pode passar a vida num emprego ruim, mas com um bom salário, só para ter a sensação efêmera causada pelo ato de consumo. Ou pelo poder que um cargo de chefia supostamente lhe dá. Ou pela sensação oposta, mas igualmente de apego, que é aversão à idéia de que não sabe o que vai acontecer se tentar algo novo na vida.

Essa idéia, a maioria de nós já ouviu por aí ou leu num livro de auto-ajuda. Mas compreender algo intelectualmente é fácil. Mudar é bem mais difícil. Quem faz anos de terapia às vezes se desespera porque já entendeu as razões que o levam a um tipo de comportamento destrutivo. Mas entender não é suficiente. Mudar é o processo mais difícil na vida, especialmente mudar o funcionamento da mente desde que nascemos. É aí que entra a técnica de meditação vipássana.

No quinto dia, eu estava encantada pelas sensações recém-descobertas no meu corpo. A ponto de esquecer a parte principal e mais difícil da prática: ser equânime. Observar, sem reagir, as sensações sutis e também as grosseiras. Na vipássana, essas são as duas únicas categorias para classificar as sensações. Eles não chamam sensações grosseiras de dor ou dizem que um arrepio de prazer é bom porque implicaria um julgamento da realidade, o início do apego.

O objetivo é aprender a olhar o prazer e a dor com a serenidade de quem sabe que tanto um quanto o outro vão mudar, passar. Isso não significa que vamos virar uma alface, apenas que não é necessário surtar de alegria ou desesperar-se quando algo dá errado. A verdadeira felicidade, segundo a vipássana, é a paz interior conquistada pela consciência de que não podemos controlar nem o mundo nem os outros, mas podemos controlar como vamos lidar com o mundo e com os outros. Sem aversão ou cobiça, é possível viver o presente sem ansiedade pelo sofrimento futuro ou nostalgia pelo passado.

Tudo isso eu ouvia repetidamente no curso – e entendia. Mas, até o quinto dia, só compreendi da forma habitual: intelectualmente. À noite, experimentei o que depois o mestre chamaria de “fluxo”. Havia sensações por todo o meu corpo. Uma corrente de energia subia e descia por ele. Ao deixar a sala de meditação, tive uma percepção do céu estrelado semelhante a uma viagem com alucinógenos. Entrei no meu saco de dormir muito contente comigo mesma e, pela primeira vez, ansiosa pelo sino das 4 horas da madrugada.
Eu achava que já sabia tudo, mas na verdade tinha cometido um erro primário: me apegara a uma sensação prazerosa e acreditava poder controlar a realidade para repeti-la. Cobiça.

O sino tocou e, pela primeira vez, levantei animada. Era o sexto dia. Na primeira hora sem me mover, comecei a ter uma dor forte nas costas, logo abaixo do ombro direito. Primeiro, pensei que havia dado um mau jeito ao me alongar, quando acordei. Ao final da manhã, a dor aumentava sempre que eu me sentava e desaparecia depois de alguns minutos deitada.

De novo, eu fazia o oposto do que me ensinaram: havia me apegado a uma sensação dolorosa e tentava controlar a realidade para que ela desaparecesse. Aversão.

Finalmente entendi: eu não havia dado um mau jeito, essa dor era causada por permanecer sentada. E, se essa era a razão, fiz as contas, eu teria mais quatro dias e meio de sofrimento, 54 horas de dores horríveis. E, se estava ruim naquele momento, pela lógica pioraria muito porque eu continuaria na mesma posição.
Disse um palavrão em perfeito silêncio. E chorei pela primeira vez. Percebi como eu havia sido prepotente ao imaginar que havia atingido uma espécie de iluminação e por me achar tão importante por causa disso. É difícil explicar, mas chorei por ter me percebido demasiado humana.

Pela primeira vez, me inscrevi para falar com o professor, após o almoço. Nesse momento, ele fica sentado no tablado e cada aluno, individualmente, senta-se no chão diante dele. Como discípulos, ficamos um nível abaixo do mestre. Eu disse: “Professor, costumo suportar bem a dor, mas estou sentindo uma dor muito forte nas costas e sei que ela não vai melhorar porque vou continuar sentada na mesma posição”. Ele olhou para mim, abriu um largo sorriso, espichou aqueles braços enormes e disse: “Aceita a dor”. E me despachou.

Eu juro. Saí dali achando que ele tinha dito a coisa mais inteligente que eu já tinha ouvido. O homem é muito carismático, pensei. Ou estou desenvolvendo uma síndrome de Estocolmo – o afeto que a vítima sente pelo seqüestrador como um mecanismo para suportar a pressão de estar nas mãos de um desconhecido.
Na hora seguinte, continuei sentindo a dor nas costas, mas ela ficou pequena diante do tremor involuntário do braço direito. Ele parecia ter dolorosa vida própria. Intervalo, lanche e, sim, não me preocupei mais nem com a dor nas costas nem com o braço direito, porque a perna esquerda latejou durante uma hora inteira.
Eu aprendia que até as dores são impermanentes, desaparecem, mudam de lugar. Não há como prever o que vai acontecer na próxima meditação. E, quando eu pensava que era possível prever pelo menos que eu sentiria dores, tive uma meditação repleta de sensações deliciosas.

A vipássana ensina, da forma mais dura (e inesquecível), que existe uma realidade interna para a qual nunca olhamos porque fomos ensinados a acreditar que tudo acontece no mundo externo. Segundo, que não controlamos nem a realidade s externa nem a interna. Mas essa é uma lição bem difícil de aprender na prática. Meu último pensamento antes de dormir foi: acho que me acostumei com a posição e não vai mais doer.

Como de hábito, eu estava enganada. Na primeira hora da meditação do sétimo dia, tive mais dores horríveis nas costas e no braço direito. Enquanto tentava me concentrar em cada parte do corpo, imaginei várias formas de escapar da dor e me responsabilizei por ela – se eu tivesse pelo menos trazido um antiinflamatório, tudo estaria resolvido. Em seguida, uma série de gritos ecoava dentro de minha imóvel figura – essa gente é doida, essas pessoas não passam de torturadores, isto aqui é uma insanidade, não faz nenhum sentido, preciso fugir deste lugar a-go-ra, já.

No intervalo, compreendi. Eu só tinha duas opções: ou ia embora, ou teria de vencer essa guerra travada no território do corpo. Fazer as malas e cair num mundo que agora me parecia muito confortável era o que uma parte considerável de mim desejava. Mas havia outra que sempre foi mais forte. Não gosto de desistir e nunca deixei uma reportagem pela metade. A rigidez do curso de meditação se encaixava perfeitamente no meu jeito de funcionar. E eu queria muito saber como tudo isso acabava.

Sentia prazer ao imaginar a seqüência de cenas: a recuperação da bagagem, o motorista chegando para me buscar e, em duas horas, o chope à beira da praia, no Rio. A vida que eu conhecia. Eu quase podia sentir o chope descendo pela minha garganta. Mas essa opção estava excluída. Por mim.

Assim, o que me aguardava era um desafio. Eu teria de realmente compreender vipássana, compreender na prática, para parar de sofrer. Esse era o ensinamento completo. Eu teria de sentir a dor – ou emoção grosseira – e olhar para ela com “equanimidade”. Sem cobiça – e sem aversão. Sem apego. Com a consciência de que não posso controlar a realidade, mas posso controlar como vou lidar com a realidade.
Nessa guerra no território do corpo, o inimigo era eu. Parar de sofrer dependia apenas de mim. E eu tinha acabado de descobrir que, ao contrário do que eu acreditara até então, eu não era resistente à dor. Sempre fui orgulhosa demais para admitir que sentia dor, porque sempre confundi fragilidade com fracasso. Chorei de novo. Dessa vez, porque percebi que essa era a luta mais difícil.

Sempre tive uma enorme dificuldade de aceitar a realidade. Por um lado, isso é ótimo, porque faz andar, criar, transformar. Por outro, há momentos em que não é possível mudar a realidade, só nos resta aceitá-la. Mas, para isso, é preciso aceitar algo ainda mais difícil: nossas limitações. As minhas, no caso. Sempre me debati muito contra aquilo que não podia mudar. Minha onipotência chegava ao extremo de pensar que, se não consegui mudar algo, é porque não fiz o suficiente. Eu sabia muito sobre brigar para mudar alguma coisa, mas pouco sobre aceitar o que não podia mudar.

Dessa vez, eu não poderia mudar a realidade. E, se seguisse com minha onipotência, tentando encontrar um jeito mágico de permanecer 12 horas por dia na mesma posição sem sentir dor, eu só aumentaria meu sofrimento. Decidi então aprender a olhar a dor – ou o prazer (parece mais fácil, mas não é) – com a serenidade de quem sabe que é efêmero. Nesse dia, fui a última a comer. Tinha perdido a fome.
No oitavo dia, na minha vez de fazer perguntas ao professor, ele disse: “Aceita quem você é”. Eu fui chorar no meio do mato. Era difícil olhar para mim mesma sem nenhuma máscara. O que ele disse pode ser uma obviedade, mas soou como uma redenção, porque eu compreendia não apenas intelectualmente, mas na prática. Eu estava havia oito dias isolada dentro de mim, nos últimos três sentira dores terríveis, tinha perdido 3 quilos e encarava todos os meus demônios no olho. Era uma situação-limite.

Na tarde do oitavo dia, consegui praticar vipássana. Em minha viagem por cada centímetro do corpo ou apenas seguindo o fluxo de sensações, eu encontrava as regiões “duras”, dolorosas. Sentia, investigava por um minuto, como se fosse uma cientista examinando um território neutro, e seguia sem desespero.
Aos poucos, eu sentia mais a dor nas costas e no braço direito nos intervalos da meditação. Quando permanecia dentro de mim, esquadrinhando o corpo e aprendendo a observar a realidade com equanimidade, me mantinha serena. A dor se tornava difusa, porque eu sentia uma infinidade de sensações ao mesmo tempo.

Passei a ter muitos sonhos e pesadelos. Não era a única, descobri depois. Havia quem gritasse dormindo, rompendo involuntariamente o “nobre silêncio”, como era chamada a regra de não falar durante dez dias.
Na noite do oitavo dia, acordei assustada, porque meu corpo inteiro meditava à revelia da minha consciência. Segundo o mestre, é o inconsciente que está o tempo todo desperto, registrando todas as sensações. É ele a parte mais consciente da nossa mente – e não o que chamamos de consciência, que opera apenas na superfície. Naquela noite, meu corpo inteiro era um fluxo de energia muito forte, com tantas sensações diferentes que eu poderia jurar que me movia.

Era tanto movimento interno que acordei – uma experiência ao mesmo tempo extraordinária e assustadora. Isso continuou madrugada adentro. E, depois, por muitas outras noites, mesmo ao voltar para casa. Eu estava submersa em mim mesma.

Mas, de novo, não tanto quanto eu imaginava. A garota que sentava a meu lado tinha falado em voz alta, quase gritando. Era a hora das perguntas públicas. Quem quisesse falar poderia se sentar diante do professor, um de cada vez. O professor brilhava nesses momentos, sempre com um excelente humor britânico. Quando uma das alunas descreveu longamente seu drama por causa da almofada que escorregava, numa oposição flagrante a sua imobilidade, esperando uma resposta filosófica, ele se limitou a dizer, impassível: “Talvez você pudesse trocar de almofada”.

Naquela noite, minha vizinha escutou a pergunta de um dos alunos, sobre “amor, paixão e apego”, e quis emendar a sua, lá de trás. Foi silenciada e, no dia seguinte, partiu. A meu lado, sentou-se uma mulher que lidava com a angústia da situação da forma mais básica: tentando falar com as colegas do quarto, se mexendo muito, fazendo o máximo barulho possível. Enfim, tentando quebrar todas as regras. Eu pensava: mas por que ela simplesmente não vai embora? Provavelmente porque, assim como para mim, para ela não era simples ir embora.

De um lado da sala ficavam os homens, do outro as mulheres. Eu sentava exatamente no limite do espaço das mulheres. Do meu lado esquerdo havia um homem, do direito uma mulher. Entre mim e meu colega havia uma cortina que ele abria e eu fechava, dia após dia. Minha nova vizinha acolheu os olhares do galã do retiro.
A cena era a seguinte: eu no meio, de olhos fechados, imóvel, tentando aprender a olhar para a dor com serenidade, e os dois falando com movimentos da boca, mandando beijos, ela puxando as saias até as coxas. Agora, escrevo e acho engraçado. Mas, na hora, eu queria muito poder falar e, digamos, tocar.
Sempre fui intolerante com as pessoas que, na minha opinião, pioram o mundo. A frase famosa de Sartre, “o inferno são os outros”, sempre foi uma espécie de mantra para mim. Além de me incomodar estar no meio de um fogo cruzado não tão silencioso, eu achava inaceitável alguém desrespeitar as regras do lugar onde era hóspede. De novo, eu tinha duas opções: falar com o professor ou vencer minha aversão. Chorei de novo ao apalpar o tamanho da minha intolerância.

Decidi que estava na hora de aprender a lidar melhor com as agruras da realidade externa. Se conseguisse, eu teria grande chance de não perder mais nenhum minuto de sono sempre que alguém fizesse ou dissesse algo desagradável – ou simplesmente existisse a minha revelia.

Consumi o nono dia inteiro nessa briga interna. Pela manhã, eu rangia os dentes sempre que os dois se mandavam recados. Tudo o que consegui foi uma dor no maxilar. À noite, eu havia me tornado quase uma monja. Parei de ouvi-los, mergulhei em mim.

De qualquer modo, mais alguém se incomodou, porque no décimo dia a cortina estava grudada na parede com fita adesiva. A essa altura, a situação que horas antes havia se tornado um tormento que contaminava todos os meus pensamentos me pareceu bem engraçada. E era: duas pessoas adultas, num retiro de meditação, tentando namorar sem poder falar nem se tocar. Isso era desespero.

Na manhã do décimo dia, eu tinha dores nas costas, no braço direito e quase não podia sentar. Mas isso não me perturbava mais. O mestre ensinou a parte final, chamada metta. Nela, emergimos do nosso interior para, nos minutos finais, darmos ao mundo e às pessoas nossas melhores vibrações de paz.
Não fui capaz de transmitir muita paz ao mundo. Minha mente foi tomada por recordações muito dolorosas, que eu havia evitado mesmo em anos de sessões de psicanálise. Decidi não fugir delas. Senti doença em meu corpo, pensei que teria uma gripe muito forte. Quando acabou, tudo em mim doía, eu era território arrasado. O mestre disse que havíamos feito s uma “cirurgia na mente”, para mudar um jeito muito arraigado de funcionar. Eu me sentia exatamente assim, despertando depois de uma cirurgia. Mas uma sem anestesia.
Eu não queria voltar a falar. Naquele momento, o silêncio era uma proteção. Mas acabou. Teríamos uma tarde de adaptação ao mundo exterior, e o curso acabaria com meditação na madrugada do 11o dia. Para minha surpresa, muitas mulheres queriam falar para poder reclamar do comportamento das outras, das que falavam, roncavam, espirravam, fungavam. Mal abrimos a boca, uma corrente de fofocas já percorria o retiro.

Ao longo do curso, percebi como não falar fazia bem não só para a vida interior, mas para a comunitária. Se cada uma de nós pudesse falar, certamente teria havido cisões, mágoas, alianças, discórdia. E por motivos que não eram tão importantes, motivos que se perderam ao longo dos dias. É o que acontece em nossa vida cotidiana. Estamos em geral confinados ao espaço do trabalho ou da casa, e a maior parte do que nos parece muito importante, definitivo, é só um momento que passa. Quando falamos, materializamos, damos início a uma corrente de reações em cadeia.

Assim que soou o sino anunciando a libertação de todas as línguas, me deu vontade de escapar daquelas mulheres falantes: naquele momento eram 27, contando comigo, a maioria falando muito e ao mesmo tempo. Eu fugiria disso em qualquer circunstância. Mas comecei a gostar de muitas delas, a gostar de ouvi-las.
Procurei me aproximar de todas para descobrir o que mudava na minha primeira percepção agora que escutava suas vozes. Nada. Tive afinidade pelas que já havia sentido e preferi continuar afastada das que evitava. Passei o resto do dia tomando água de dez em dez minutos, porque minha garganta secava, eu só conseguia falar bem devagar.

No exato momento em que escrevo, faz duas semanas que voltei dessa viagem interior. Parece muito mais. No início, eu não conseguia escrever nenhuma linha. Assim que recuperei meu bloquinho, ainda no retiro, tentei anotar o que tinha acontecido, mas não consegui. A única palavra que escrevi foi esta: “palavra”.
Era difícil tornar qualquer coisa permanente depois de compreender – de forma tão radical – a impermanência da realidade. Eu, que me tornei jornalista na ânsia de capturar o real, me encontrei nesse impasse. Escrever era tornar permanente o momento, o acontecimento fugaz, era impedir que algo fosse embora. Parecia impossível voltar a fazer isso. Na ponte aérea da volta, peguei o jornal e nenhuma notícia parecia fazer sentido, ter importância.

Tinha dificuldade também com as memórias. No início do retiro, percebi que se tornava cada vez mais difícil lembrar o que havia pensado ou sentido no dia anterior. Depois, tornou-se complicado fixar o pensamento nas horas anteriores. Do mesmo modo, eu também não conseguia fazer planos para os dias posteriores. Eu estava sendo treinada para, pela primeira vez, não viver no passado nem no futuro, mas no presente.
Na minha primeira noite em casa, tive um pesadelo, daqueles em que sabemos que estamos dormindo. Arranhei minha perna com as unhas na tentativa de acordar. Então, no sonho, minha espinha se partiu, e uma espécie de duplo saiu das minhas entranhas. Acordei com o fluxo de sensações subindo e descendo pelo meu corpo.

Nos dias seguintes, as dores não foram embora. Procurei ajuda. Fiz um exame de ressonância magnética. Minha coluna não é muito bonita de ver. Eu tinha uma escoliose que não fora diagnosticada porque nunca havia incomodado. Eu poderia passar o restante da minha vida sem ter nenhum sintoma, porque o corpo vai encontrando seus caminhos de compensação – ou poderia ter problemas daqui a dez ou 20 anos.
Mais de uma centena de horas na mesma posição em dez dias desencadearam uma crise severa na coluna cervical. Comecei a sentir perda de força e motricidade no braço direito. Coisas banais como amarrar o cadarço do tênis, escrever à mão, teclar o celular tornaram-se complicadas. Minha letra piorou a ponto de eu mesma não entendê-la. Uma semana depois da minha volta, eu não conseguia sentar para comer ou escrever sem sentir dores muito fortes. Estava difícil levar o garfo à boca, digitar no teclado do computador. Este texto foi escrito lentamente, com dor.

O médico e a fisioterapeuta que me atenderam, ambos profissionais excepcionais, são taxativos ao desaconselhar um curso de dez dias com essa quantidade de horas na mesma posição. Na opinião deles, algo assim deveria ser feito progressivamente, ao longo de muito tempo, para preparar o corpo. Tudo o que é em excesso não teria harmonia. Eles têm razão. É como correr uma maratona sem nenhum treinamento.
Pode ser que eu mude de idéia mais tarde, mas hoje não me arrependo de ter chegado até o fim. O efeito que a vipássana teve em minha vida supera os problemas na coluna que ela desencadeou. Acredito, porém, que as pessoas precisam saber que podem ter problemas. Tem de ser um risco assumido, uma escolha. No caso de uma pessoa com a coluna absolutamente saudável, é claro, a chance de seqüelas é menor.

Desde o início, me impressionou o rigor do curso de vipássana num mundo de tantos relativismos, em que sempre se pode dar um jeito, burlar uma regra ou outra. Nos dez dias, as regras eram mantidas, cobradas, fiscalizadas de perto. Bastava alguém tentar escorregar um pouco para que a responsável pelas mulheres já mandasse sentar direito. Era preciso ser sério ou então ir embora. Não era um espaço de negociações.
Surpreendeu-me que apenas cinco pessoas tenham desistido. Menos de 10%. Estou acostumada a situações-limite, tenho grande resistência à pressão, mas pensei seriamente em desistir. Era difícil ficar. E a maioria permaneceu, chegou até o fim. Isso pode significar que há uma busca por rigor – e por limites – neste mundo de permissividades que permeia da política às relações pessoais. Há uma busca por algo que seja real – e não apenas uma promessa fácil de auto-ajuda.

E há também uma necessidade de sentir. Nossa época acredita que é possível viver sem sentir nenhum tipo de dor, física ou psíquica. Não ter dor se tornou quase um direito. Basta uma pontada na cabeça, que já corremos a tomar uma pílula. Basta uma tristeza real, para que imediatamente nos ofereçam um antidepressivo. Não queremos menstruar nem ter dor de parto, qualquer desentendimento com o chefe acaba com nosso dia, desistimos de um amor no primeiro percalço, por acreditar que merecemos a felicidade eterna. Não podemos nem sentir calor ou frio, para isso há ar-condicionado. Parece que não queremos é viver. Descobri no retiro que muita gente pressente que há demasiadas falsas promessas em sua vida.

Talvez houvesse um caminho alternativo para mim. Provavelmente o mais sensato teria sido desistir quando a dor aumentou – aceitar algo mais difícil que a dor, meus limites. Se minha coluna simbolicamente “quebrou”, talvez seja por causa da minha rigidez, da minha dificuldade de ser mais flexível. Talvez houvesse um aprendizado para mim ao desistir de algo importante, aceitar que precisava parar. Hoje, preciso usar o que aprendi na vipássana para enfrentar uma dor constante, 24 horas por dia, com serenidade.
Neste momento, sinto minha vida mais larga. Cada dia é longo. Tenho dificuldade de me concentrar no que aconteceu ontem, e a próxima semana está longe. Percebo imediatamente quando estou vivendo algo especial, coisas muito simples que antes não perceberia. E descarto os acontecimentos desagradáveis no minuto seguinte. Quando sinto medo ou ansiedade, sei que vai passar. Só essa certeza já reduz os monstros à metade do seu tamanho.

A vida parou de correr. É como se o ano, que passou voando, tivesse pisado fundo no freio. Está tudo quase em câmera lenta. Descobri ontem que tenho preenchido meus cheques com a data do mês anterior. Não tenho idéia do que vai acontecer. E acho ótimo não saber. Sempre achei, mas antes tinha mais medo.
Esta é minha aventura, minha experiência, com meu jeito de olhar. Ela é pessoal, única, intransferível. Tentei ser o mais honesta possível com o que sou, senti e vivi. Tudo o que foi escrito aqui é minha interpretação, não tenho o aval de nenhum mestre da vipássana. Esta reportagem é apenas o relato de uma experiência radical um pouco diferente do que estamos acostumados a entender como radical. Não é um incentivo para que os leitores façam um curso como esse – nem um incentivo para não fazer.

Este é apenas o relato de uma viagem para um lugar bem exótico – meu corpo. Você poderia estar lendo sobre uma circunavegação da Antártica ou a escalada da parede sul do Aconcágua. Mas esta é uma expedição de dez dias, mais de cem horas de olhos fechados, sem sair do lugar e sempre para dentro. Ao avesso de qualquer outra aventura, quanto mais longe, mais perto estava de mim. Neste mundo em que todas as geografias já foram devassadas – e a maioria delas devastada – talvez este seja um desafio mais real.

Publicado na Revista Época

Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda: Mariví de Teresa

quarta-feira, 9 de julho de 2014


los testigos del nagual

Entrevistas com parceiros de Carlos Castaneda

Entrevista com Mariví de Teresa


_ Aceitei esta entrevista porque chegou o momento de devolver o que recebi, romper o silêncio e falar do bem que ele nos deixou, do verdadeiro benfeitor que foi para milhares de pessoas que, como eu, até agora têm permanecido caladas.

_ Em sua opinião, por que tem havido silêncio entre os chegados a Castaneda depois de sua partida?

_ Ele nos ensinou que um bruxo não tem nada a defender, e, portanto, tampouco tem muito a dizer. Esse é o sentimento que temos. Mas, ao mesmo tempo, não podemos nos calar. Um bruxo não deixa dívidas de gratidão pelo caminho.

Olha, esta que você vê aqui morreu; o nagual a matou. Minha única razão de seguir neste planeta é limpar meu vínculo com o espírito, e por isso me interessa reconhecer o que devo ao nagual.

_ Além do sentimento de gratidão, há alguma outra razão que a motivou a pôr por escrito suas experiências junto a Castaneda?

_ Sim, os augúrios.

Eu não havia decidido escrever sobre isso até que vi augúrios suficientes para fazê-lo, abrir completamente o que aprendi e vivi.

O primeiro foi quando, sem que o esperasse, tive que falar de Carlos Castaneda. Acabava de chegar a Barcelona e não tinha essa conferência em mente, assim que, quando me pediram, repliquei: “Estão malucos? Não posso, que vou dizer? Não sei de onde vocês tiraram que vou dar uma palestra!”

Finalmente, dei a palestra, e nesse momento soube que minha tarefa era transmitir. Disse para mim mesma: “É tempo de dizer a verdade!”

Outro sinal foi o livro de Armando Torres e as revelações que ele faz ali sobre a regra do nagual de 3 pontas. Esse é um tópico muito profundo. Ele deixou fragmentada a informação sobre a regra entre diversas pessoas.

_ O que é a regra?

_ Ele a descrevia como um mapa, um conjunto de índices, um sistema. Em uma conferência que nos deu na Casa Amatlán, disse-nos:

“A regra é uma série de tarefas, um compromisso que se deixa aos guerreiros de um grupo. Tudo que eu escrevi é a regra.

“A regra se faz evidente para os que lutam pela liberdade através da impecabilidade, já que obrigatoriamente se põem em contato com ela e conseguem ser impecáveis quando vêem que esta se cumpriu.”

_ Qual foi o terceiro augúrio?

_ O terceiro augúrio foi certa informação que tive sobre o passado do meu país.

_ Você disse que Carlos lhes deixou um quebra-cabeças?

_ Sim, essa era sua forma de agir, algo característico dos naguais que têm a constituição energética como a que ele tinha. São transmissores por excelência. E esse é o modo como o espírito dispôs que se transmita o conhecimento.

Carlos era muito específico, a cada um de nós encarregou de coisas, e inclusive nos fez pronunciar um voto de silêncio. Quando lhe perguntei o porquê dessa atitude, me respondeu: “É que há coisas que não se pode dizer até que chegue o momento.”

Não se trata de dar importância ao segredo, e sim de um senso de oportunidade. Seu trabalho não foi o trabalho de um homem. Ele foi o instrumento de uma linhagem de conhecimento que retrocede até tempos muito antigos, por isso o chamamos o nagual.

A linhagem acumulou muita sabedoria através de experimentação e revelações, e cada nagual deve transmitir a porção que corresponde à sua própria época.

A Carlos coube viver em um momento de crise, de mudança. Então, teve que encontrar estratégias para nos legar a extraordinária informação que possuía.

Nunca nos dava o mapa completo, dava as peças para que a gente armasse e descobrisse suas indicações. E a porção de cada um era feita na sua própria medida, era o seu pedaço do quebra-cabeças.

Como ele nunca nos explicou esse assunto, nós pensamos que o que tínhamos era tudo. Não foi senão quando se passaram os anos e alguns de nós começamos a intercambiar informações, que descobrimos que o nagual havia preparado um plano, algo gigantesco, que vai muito além do seu grupo. Ainda é muito cedo para ter uma visão global desse plano, mas percebo alguns de seus elementos.

_ Explique-nos mais sobre esse plano.

_ A questão é fazer as perguntas apropriadas. Por que se forma um grupo de guerreiros? Qual a sua função e como se desenvolve? Por que Dom Juan o configurou tal como o fez, incorporando elementos não indígenas?

_ Que sentido tem a configuração energética de Carlos? Por que a cada um dos grupos, e a cada entidade dentro de um grupo, se dá um ensinamento particular, uma informação, uma tarefa? Aonde leva tudo isso?

_ Só posso falar do meu espaço, posso contar-lhe sobre as peças do quebra-cabeças que me entregaram. Levei dez anos de trabalho árduo para identificá-las e armá-las, porém só assim pude entender muitas coisas.

_ É casual o fenômeno Carlos Castaneda, ou foi uma convocação da energia?

_ Este tempo é o tempo do ser humano, acabaram-se os gurus, os guias. É tempo da espécie despertar.

O nagual de 3 pontas é um cíclico, e aparece com uma corte de cíclicos. A energia dispôs assim, é um comando.

Os cíclicos estão a serviço do nagual, se metem no tonal dos tempos, não porque gostem mas porque este é seu caminho para a liberdade.

O cíclico vem para encontrar-se consigo mesmo, e ao ver-se se reconhece, porque já se deixou aí, há cinco, dez mil anos. Esclareceu: “Não são reencarnações. Não como a gente a considera, não há nada linear aí.”

Alguém numa conferência lhe perguntou sobre o México e ele respondeu: “Não perguntem para mim! O que vocês podem me dizer sobre o México? É seu, cabe a vocês decifrá-lo!”

Carlos insistia em encontrar a explicação dos cíclicos de seu grupo nas pedras talhadas do México.

Disse: “Quando chega a clareza, morre sua personalidade individualista, e você entende que não é importante, e sim uma energia com uma função. Quanto mais importante se sente, mais se afasta de sua função.”

Inclusive mandou fazer umas camisetas com a legenda: “A importância pessoal mata!” Disse-me: “O estresse é uma necessidade imperiosa de sustentar uma imagem de si e de sua realidade, e provoca infartos. A importância pessoal mata!”

O desafiante da morte é a pedra angular desta etapa cíclica. Sempre foi, porque ele vive aí, na eternidade do ciclo. Ele é o impulso.

O passado é o tempo linear: se damos meia-volta, podemos entrar no tempo que vem, que não é retilíneo, é curvo, um aqui e agora permanente. Aí não há passado.

Às vezes, a forma como Carlos nos dizia as coisas era tão incompreensível (pensando de maneira linear), que tínhamos que reunir energia para recordá-las. Tive que lutar durante todo esse tempo para entender uma boa parte dos ensinamentos que me deu. Tem sido um trabalho difícil.

O plano do nagual não é só um desenho estratégico aplicado a nossa mente linear. É antes de tudo um desenho energético, que tem efeitos em muitos níveis. Explicar um tema dessa natureza não é possível; é como tentar explicar o sabor de uma manga a quem nunca a provou.

Para cumprir com a tarefa que ele encomendou a cada um de nós, temos que transformar o intelecto em vivência. Mover nosso ponto de encaixe para testemunhar o abstrato e tentar convertê-lo em palavras cotidianas não é possível.

A linguagem é muito limitada e se presta a um sem-fim de interpretações errôneas. Por outro lado, uma vivência produz clareza, e é o único modo de entender realmente. O problema está precisamente na clareza, porque é muito atraente, você quer estar aí todo o tempo, mas não tem jeito, a luta é permanente.

A clareza produz um falso senso de saber, de segurança, do que se aproveita a importância pessoal para nos fazer crer que somos mais importantes que os outros. Para os que tratamos diretamente com o nagual, a clareza é um perigo, sentir que você sabe tudo, que percebe o plano. Não está certo! Apenas percebemos pontas, não vemos o conjunto completo.

_ Pode nos falar de sua tarefa em particular?

_ Ele nos deixou uma tarefa. Disse-nos: “Não fiquem sentadas, digam às mulheres que deixem de sustentar o mundo do macho.”

Ordenou-me que levasse às mulheres a mensagem de que podem livrar-se da carga do homem, e que, para isso, não têm que imitá-lo. Dizia: “As mulheres não tem porque jogar com o intelecto, quando têm um órgão tão extraordinário como o útero, um órgão que percebe as coisas de maneira direta.”

Dizia que a mulher é como uma pirâmide invertida: recebe tudo de cima e só se apóia em um ponto sobre a terra. O homem, ao contrário, é como uma pirâmide plantada na terra, tão fixo em suas rotinas, que apenas recebe uma gotinha do alto. É por isso que os homens necessitam construir pontes com as palavras; as mulheres recebem tudo diretamente. Então, as mulheres não têm porque depender dos homens.

_ De que modo se conecta o despertar das mulheres com o plano do nagual?_ A bruxaria é um assunto feminino, um assunto de energia, e as mulheres são a fonte. Desse modo, quando nós nos dermos conta de nosso potencial, as peças do quebra-cabeças dos bruxos se armarão por si mesmas.

Minha certeza é que, se a mulher não despertar, nossa espécie vai desaparecer. Isso é uma certeza absoluta, não tem questionamento para mim!

_ Mudando de assunto, o que pode nos dizer sobre os detratores da mensagem de Carlos?

_ Em geral, são pessoas que se sentem defraudadas.

É como se o nagual lhes houvesse prometido algo e não houvesse cumprido. São pessoas despeitadas. O que têm é pura importância pessoal.

Já lhe disse que o ensinamento não era linear, tínhamos que fazer um grande esforço para entender, um esforço de bruxos. E aos homens, em particular, isso é quase impossível. Daí que muitos se queixaram ou duvidaram dele, e alguns até tentaram sujar seu nome.

Entre o grupo de seus conhecidos, os que mais o detrataram foram aqueles que esperavam ser reconhecidos dentro do grupo como líderes, como futuros continuadores do nagual. E Carlos não jogava esses jogos. Ele atendia aos desígnios do espírito, e não à importância pessoal das pessoas. Isso é o que eu vejo na maior parte dos detratores: desejos não cumpridos. “Não viu como sou maravilhoso! Não compreendeu meu valor, minha capacidade organizadora, meu grande conhecimento!”

Claro que, quando uma pessoa fica aborrecida, o que se aborrece é sua importância pessoal. Em geral, considero que os críticos de Carlos respondem a estereótipos implantados. Uma prova disso são esses detratores que, sem tê-lo conhecido ou sequer lido seus livros nem praticado nada, se dedicam a difamá-lo.

_ A que se refere quando fala de “estereótipos implantados”?

_ A nossos moldes mentais. Todos os seres humanos temos uma visão do que deveria ser um mestre, um guru. Cristo, Buda, Gandhi, Madre Teresa. Esses são os arquétipos que nos venderam, e os trazemos como se estivessem geneticamente gravados em nosso disco rígido.

Então, quando vem um que é diferente, um que promove a liberdade, que se ri de si mesmo, denuncia a importância pessoal e lhe dá uma visão completamente fora de seus esquemas e expectativas, é muito difícil escutá-lo. Você se sente tentado a exagerar ou inventar defeitos, a julgá-lo da sua perspectiva.

De um guru estamos dispostos a reverenciar até a sombra, mas a um nagual que oferece a liberdade chamamos de farsante, um manipulador que nos lava o cérebro e rouba a energia! Essa voz que nos faz idolatrar ou execrar provém da mente do voador, a mente que o obriga a ser tímido e não se atrever, para que ao final termine bailando com algum guru.

_ Você acha que não precisamos de mestres?

_ Não, não necessitamos de explicações nem mestres. Tudo o que precisamos é de uma oportunidade e coragem. Oportunidade de conhecer os postulados dos bruxos, e coragem para deixarmos de olhar e ver, para não ficarmos atados à história pessoal e soltarmos as amarras da percepção, e assim chegar a perceber.

O mito é uma formação arquetípica que assinala uma direção. Por isso é tão estúpida a detração que alguns fazem do ensinamento do nagual. Os detratores buscam uma explicação linear, uma forma de acomodar as coisas no seu limitado inventário pessoal. E, nesse empenho, acabam com uma possibilidade infinita.

Os detratores vão atrás de uma razão, porém o ensinamento do nagual não explica nada, exige que entendamos com outras partes do nosso ser. Por isso, ele não é um mestre, no sentido convencional da palavra. Ele mesmo advertiu: “Acabaram-se os guias”.

_ Entretanto, ele era seu mestre.

_ Não é a mesma coisa um guru e um nagual. Um guru é alguém atraente, você se sente encantado de estar com ele. Ao contrário, todos nós queríamos fugir do nagual. Era muito duro! Pobrezinhos de nós!

A relação entre mestres e discípulos é reflexo da importância pessoal. Portanto, o que faz um mestre, geralmente, é sustentar essa relação, e o faz baseando-se em milagres, explicações, exigências, e sobretudo adulando a importância pessoal do discípulo.
Em compensação, o nagual o fustiga a cada momento, mas, ao mesmo tempo, o deixa livre. Cada vez que me via, Carlos fazia em pedacinhos minha importância pessoal. Este nagual me chutava o traseiro a cada trinta segundos. Por outro lado, com os gurus me sentia tão especial, pertencia ao grupo dos eleitos.

O que dói quando nos batem é a estupidez. Como sua importância vai gostar que você limpe o vínculo com o espírito se a primeira coisa que tem que fazer é descartar sua própria importância? Mas o guerreiro se regozija com isso.

Carlos me dizia o tempo todo: “Você tem que polir seu vínculo!”
Quando sai o medo e chega a clareza, morre a personalidade individualista e você compreende que não é importante, é só uma energia com uma função.

Quanto mais importante você se sente, mais se afasta de sua função real.

_ Sabe se existem outros naguais além do Castaneda?

_ Eu lhe perguntei isso em uma ocasião e me respondeu: “Sim, tem louros, altos e de olhos azuis. E a você coube um preto, feio e baixinho. Odeie-se!”

Explicou-me que houve muitos naguais na história, e não só no México. Perguntei: “E Jesus, também era nagual?” E ele respondeu: “Veja que classe de nagual ele era, que a partir dele se conta o tempo!”

Deu-me exemplos sobre a atividade dos naguais conhecidos e desconhecidos no desenvolvimento da sociedade humana.

_ Qual é a sua impressão pessoal sobre Carlos Castaneda? Era um homem de poder ou uma pessoa comum e corrente?

_ Fazia manipulações na nossa energia, movia nosso ponto de encaixe. Moveu meu ponto de encaixe em várias ocasiões e, para mim, essa é a prova do seu poder pessoal. Mas o que mais lhe agradeço é ter-me dado uma direção. Carlos era contra os milagres. Fazer milagres teria sido corroborar nossas crenças e converter-nos em entidades dogmáticas de um novo ensinamento.

Pelo contrário, fustigava nossos estereótipos mentais para pôr abaixo todas as crenças, para nos desestruturar, e nunca se aproveitava desse vazio para nos impor sua interpretação do mundo. Enfatizava que buscássemos nossa própria visão. Disse mil vezes: “Não acreditem em mim! Façam, comprovem! Tudo o que eu lhes digo é para convidá-los à ação, para que confirmem algumas das propostas dos bruxos através da experiência.”

Em uma ocasião, ao observar a forma como a maioria dos seus seguidores acolhia seus ensinamentos, comentei: “Nagual, isso está se tornando a Santa Igreja Castanedense.” Fez um gesto de desgosto e respondeu: “Todos os ‘ismos’ são iguais e vêm da mente do voador. Não sejam tão idiotas de converter um ensinamento que lhes propõe a liberdade em um dogma a mais!”

_ Quer dizer que as propostas de Castaneda só devem ser tomadas com um sentido prático?

_ Exatamente!

As propostas do nagual só devem ser tomadas em um sentido prático; no entanto, somos compelidos a interpretar, não podemos evitá-lo. A questão é não tomarmos nossas leituras como dogmas, e sim como unidades operacionais que nos orientam para a verificação.

Recordo que uma vez estivemos falando sobre a forma como a interpretação se cola em tudo que fazemos. Perguntei por que levamos essa imposição social a momentos tão íntimos quanto o sonho ou a viagem com plantas de poder.

Respondeu: “Isso é porque é uma ordem da Águia que transmitamos nossas experiências. Para transmitir temos que interpretar, senão vem abaixo todo o sistema de ensinamentos. Não veja isso como uma maldição. A interpretação é uma dádiva para interagirmos e nos comunicarmos. Mas temos que perceber que, acima de nossa interpretação, está nossa capacidade de escolher, escolher acreditar para em seguida verificar. Esses são os dois passos: primeiro, um ato de vontade, seguido de uma corroboração experimental. E se ainda lhe restarem forças para intentar o caminho dos bruxos, então se deixe ir no que escolheu acreditar, em um ato de loucura controlada.”

_ O que é a loucura controlada?

_ É a liberação de nossas percepções. Uma coisa é acreditar impulsionado pelo temor, sugestão ou esperança, outra é escolher sua crença, de um modo livre e soberano.

A diferença entre o ensinamento do nagual e os dogmas que as religiões nos impõem é que ele o dirigia todo ao objetivo de sermos livres. Ao referir-se ao modo como os pastores conduzem seus rebanhos para objetivos muito distantes do nosso verdadeiro destino, dizia: “Estes fdp nos apresentaram um deus derrotado!”

O que ele fez realmente por mim foi me dar a opção da liberdade, dizer-me que isso é possível, que não tinha que me contentar com os contos escravizantes que me fizeram a vida toda. Ele me mostrou que a liberdade é literal, um estado de ser, um ato de vontade definitivo.

Dizia, quando falávamos do céu: “Não quero ser livre amanhã, quero aqui e agora.”

_ Como podemos alcançar a liberdade?

_ Sacrificando as cadeias que nos atam às coisas: os apegos, os medos, a importância e a história pessoal, o desejo de reconhecimento, tudo isso.

Somos livres por natureza: assim que descartamos as imposições, recuperamos nossa liberdade.

No caso de Carlos, ele teve que aprender a se fazer invisível. Dona Florinda – a velha – lhe deu uma ordem direta: disse-lhe que tinha que passar desapercebido, pois o sucesso de seus livros o estava colocando em uma situação comprometedora (o sucesso tira a liberdade, pois põe a pessoa na mira para que todos atirem: por isso um nagual precisa ser invisível).

Então ele adotou o nome de Joe Cortez e foi trabalhar em um restaurante como cozinheiro especialista em fazer ovos. Ali ocorreu uma história que revela sua verdadeira personalidade.

Uma garçonete que lá trabalhava era fanática por Castaneda e morria de vontade de conhecê-lo. Um dia ela chegou muito emocionada, dizendo que lhe haviam informado que Castaneda ia passar por ali e teriam oportunidade de conhecê-lo. Era um segredo, porém o boato havia corrido.

De repente passou uma limusine com um tipo louro de olhos claros que dava cursos sobre nagualismo e usurpava a personalidade de Carlos. Ela gritou: “Olha, é Castaneda!” e saiu correndo até o carro. Mas o sujeito nem a olhou, desprezou-a. A moça voltou chorando para junto de Joe Cortez, que a abraçou e consolou: “Fique calma, não se preocupe. É que essa gente famosa nem liga para nós, os pobres.”

Essa moça nunca soube que Joe era o verdadeiro Castaneda.

_ Como Carlos reagiu ao fenômeno de seus duplos?

_ Ele nunca se importou que outros o suplantassem. Ria muitíssimo com isso. Estávamos jantando com Florinda Donner e comentei que havia gente verdadeiramente gananciosa e Florinda disse a ele que não o permitisse. Foi quando ele trouxe a público um artigo no qual advertia contra aqueles que usurpavam sua personalidade para ganhar dinheiro.

Numa ocasião em que estava com seu editor, de repente lhes avisam: “Chegou o Sr. Castaneda.” O editor lhe disse: “Carlos, não diga nada, vamos ver quem é.” Ele respondeu: “Ok, vou cuidar das suas plantas e, enquanto isso, você o recebe.”

Assim foi. Entrou o suposto Castaneda, que era um tipo alto, bonito e bem vestido, e se apresentou: “Prazer, sou o doutor Carlos Castaneda.” Logo perguntou, referindo-se a Carlos, que continuava trabalhando a um canto: “E este, quem é?” O editor respondeu: “Não se preocupe, é meu jardineiro. Por certo, é um grande fanático pelos seus livros, vai ser uma honra para ele ser apresentado ao senhor.”

E, virando-se para Carlos, gritou: “Olha, Joe, lhe apresento o doutor Castaneda!”

Ao escutar isso, Carlos se levantou das flores, lavou as mãos e foi correndo conhecer seu duplo. Deu-lhe a mão e disse: “Muito prazer, senhor Castaneda, sou seu admirador.”

O outro interrompeu: “Senhor, não: doutor Castaneda, doutor em antropologia.”

Carlos respondeu: “O senhor me desculpe, doutor, é que estou muito emocionado.”

“Me disseram que é fanático pelos meus livros, você leu todos?”

“Sim, alguns.”

“E compreendeu?”

“Ah doutor, bem mesmo não entendi, mas gosto muito como o senhor escreve.”

Depois que o indivíduo se foi, Carlos e seu editor se atiraram ao chão de tanto rir. Quando se recordava do fato, dizia: “Pregamos uma peça no doutor Castaneda!”

_ Você esteve entre os fundadores da Casa Amatlán. Pode nos falar sobre essa experiência?

_ Sim. Em 1992 abrimos a Casa Amatlán junto com outros companheiros que formavam parte do círculo de conhecidos, a fim de propiciar ao nagual um espaço para dar suas conferências. Foi uma experiência única para mim.

Supunha-se que a casa estava sob a condução de Carlos Hidalgo. Mas um dia o nagual me chamou e disse: “Você que tem que abrir a casa, pois Carlitos não vai fazer nada.”

Eu tomei literalmente sua recomendação e em um desses ímpetos de auto-suficiência abri a Casa Amatlán. Quase me mataram a importância pessoal e a prepotência.

O edifício estava em más condições, tivemos que repará-lo e pintá-lo com as mãos. O nagual queria provar-nos. Chamou-me e deu-me suas recomendações: “Sua tarefa é fazer o que menos goste na vida.”

Como o que eu menos gosto é cozinhar, pus um restaurante no andar térreo da casa.

_ E o que faziam nesse lugar?

_ A princípio nos dedicávamos a fazer exercícios elaborados por Carlos para romper nossa importância pessoal. Também convidei diversos amigos que eram conferencistas conhecidos. Ali se passaram coisas estranhas. Lembro que uma sexta veio um amigo chamado Miguel e nos contou a lenda das “Filhas da Grande Flauta”. O nagual costumava nos chamar de filhas da grande flauta mas, como não conhecíamos a história, não sabíamos se estava nos ofendendo ou elogiando. Então pedimos a Miguel, que sabia dessas coisas, que nos contasse a história.

Ele disse que na cadeia montanhosa dos Bacatetes vivem uns seres chamados Surem, e com eles umas entidades femininas que estavam pelos quatro pontos cardeais. Acrescentou: “Conta a lenda que quando a grande flauta fala, a terra treme.”

No momento em que Miguel disse isso, a terra tremeu. Ficamos pasmos.

Ele nos perguntou: “Por que me olham com essa cara de estúpidos?”

Não sabíamos se o terremoto havia sido real ou produto da sugestão. Então ligamos o rádio e escutamos que acabava de haver um tremor de terra com epicentro no estado de Guerrero.

Foi extraordinário. Cada palavra que disse Miguel sobre os Bacatetes, os Surem e as Filhas da Grande Flauta se ia manifestando fisicamente naquela sexta lendária. Éramos vinte pessoas vivendo a experiência. Não foi algo mental.

_ Pode contar-nos mais sobre os Surem?

_ Se lhe conto o que vi, vou parecer demente. Só posso lhe dizer que o mundo está cheio de mistérios. Sei com certeza absoluta que há forças no universo que não são humanas e têm consciência própria.

_ Essas forças podem nos ajudar em nossa evolução pessoal?

_ Algumas estão a favor do espírito humano e outras estão contra. Porém, falar delas como boas ou más não reflete sua verdadeira natureza. Não tenho idéia de como chamá-las. A única maneira que poderia descrevê-las é como ausência de luz, como buracos negros. Um buraco negro não é bom nem mau, é de sua natureza capturar a energia.

Podem nos dar um poderoso empurrão, mas, se nos aproximamos demais, então sua existência vai contra nossos interesses como entidades humanas. Por isso interagir com esse mundo é tão perigoso. O nagual o descrevia de uma forma muito especial: “Somos um galinheiro cósmico no qual outras energias predatórias se alimentam de nós. Por que em um universo predatório seríamos nós a exceção?”

Nós seres humanos nos cremos tão importantes que pensamos estar por cima de tudo. Essa é a arrogância que nos induz a ver as coisas através do filtro racional. Para Carlos, o único modo de lidar com essas forças é como guerreiro. Dizia: “É muito fácil ir ao reino inorgânico. O difícil é envolver-se em uma guerra eterna neste universo predatório. Se algum dia tiver que ir com eles, vão ter que lutar pela minha consciência.”

_ Quer dizer que o objetivo dos naguais é uma guerra eterna?

_ Definitivamente. No caminho do guerreiro não há descanso, porque não há nada no qual fixar-se. Carlos dizia: “O universo está em constante movimento, porque eu vou estar fixo?”

Em uma ocasião, Eddy e Matias fizeram um plano para comprar um rancho e retirar-se do meio social. Insistiam que se tinha que estar próximo à natureza para calar a mente. Ao saber disso, perguntei ao nagual: “Vejo seus fanáticos retirarem-se do mundo. É necessário isso para se tornar um guerreiro?”

Respondeu-me: “Não. Um guerreiro está onde está o campo de batalha.”

_ Pode nos dizer qual é, em sua opinião, a essência da mensagem de Carlos?

_ A essência da mensagem de Carlos era economizar energia. Quando os níveis de energia sobem, você sabe sem necessidade de palavras. Seu corpo vibra e seu ponto de encaixe se desloca. Isso é entrar no consenso dos bruxos.

Para economizar energia, antes de tudo temos que saber o que é a energia, e isso se consegue economizando-a, e não intelectualizando a respeito. Por isso que é um assunto prático.

Começa-se pouco a pouco, estudando os aspectos de nossa personalidade que mais nos afetam, como as crenças que temos, a importância que nos damos, a imagem que aparentamos ante os outros e a conduta sexual. Depois, começamos a mudar os hábitos, substituímos coisas que nos esgotam por outras que nos renovam. É uma redistribuição consciente dos elementos do nosso tonal.

_ Como Carlos enfocava a questão sexual?

_ Esse é um tema muito difícil de explicar com palavras, porque todo mundo tem idéias muito definidas e quase sempre errôneas sobre o que é a sexualidade e sobre o modo como influi em nossos níveis energéticos.

Em uma ocasião, Carlos nos explicou que a vida sexual de um guerreiro não tem parâmetros rígidos, tudo depende da quantidade de energia que a pessoa tem. Comentou: “Quando falo de sexualidade, todo mundo acha que estou dizendo que não transem. Não falo disso!”, disse, com fúria, “Vocês estão tão fixos em suas rotinas que não querem me ouvir, ouvem o que querem. O que eu digo é: homens, deixem de machismo! Mulheres, deixem de sustentar o mundo do macho! Porque vocês o sustentam, é uma cumplicidade doentia.”

Explicou que a sexualidade tem muitos níveis, e que sua expressão máxima entre os seres humanos é o manejo da energia sexual para o sonho, que é o que caracteriza os bruxos. Deu o exemplo do homem e da mulher nagual, uma parceria que produz harmonia, e, em lugar de entregar-se aos desgastes emocionais que gera o intercâmbio sexual, confabulam para a liberdade. “Já que somos cúmplices na destruição de nossa energia, por que não nos fazemos cúmplices em sua criação e evolução?”

_ Como podemos redistribuir os elementos de nossa personalidade?

_ O único modo de manejar seus elementos é conhecendo-se a si mesmo. Para isso existe uma técnica infalível, e Carlos nos explicou muitas vezes: a recapitulação.

_ Você se refere a recordar nosso passado?

_ Não, recapitular não é deleitar-se em lembrar o que lhe ocorreu, e sim tentar decifrá-lo, encontrar as chaves, para que possa aplicar sua atenção nos pontos onde se fixaram seus hábitos e rotinas. O intento inicial desse exercício é recolher o que lhe corresponde e entregar o que não é seu, ver o que fez com o seu capital energético.

A palavra “capitular” significa ceder uma praça, perder um espaço na guerra. Por isso, recapitular é saber quantas vezes seu ser real cedeu ao domínio da sua domesticidade, quantas vezes você capitulou, se auto-derrotou, onde deixou sua energia, em que eventos, intercâmbios, emocionalidades, compromissos, saber em que se envolve, como cede seu potencial à modalidade da sua época.

A recapitulação é uma técnica tão efetiva quanto dura. Carlos Hidalgo nos contava que havia estado recapitulando e sua vida tinha sido magnífica, uma maravilha.

O nagual lhe respondia: “Você não está recapitulando, está recordando sua vida. Isso não é recapitulação.”

Ninguém desfruta de uma verdadeira recapitulação, porque dói quando vemos as entidades mecânicas e repetitivas em que nos converteram, quando detectamos o animal doméstico que temos dentro. Ninguém se regozija de sua domesticação.

Eu vomitava cada vez que recapitulava. Contei a Carlos: “Nagual, recapitulo e me dá nojo ver plasmada minha estupidez.” Disse-me que isso também acontecia com ele.

_ Qual é o resultado desse exercício?

_ A recapitulação o conecta com a consciência cósmica. Quando recapitula, o que você faz é juntar suficiente energia para poder estar nesse sonho que temos na Terra, e também nesse outro que temos aí, no desconhecido. Se você faz uma leitura intelectual do recapitulado, pode sentir que tudo ocorreu no decorrer do tempo, mas isso é uma reinterpretação. Na realidade, tudo sucede aqui e agora.

Os bruxos sabem que, se abstraímos o tempo da memória, o que sobra é consciência pura. É por isso que a recapitulação se torna uma necessidade imperiosa e um vício para o guerreiro.

A consciência é o veículo universal e a recapitulação uma técnica para ter acesso a ela. Por isso a recapitulação vai muito além de nossa existência pessoal, além dessa vida. É algo que não termina nunca, chega a tudo, depende de quão profundamente você pode mover seu ponto de encaixe. Pode ver o que se passa nesses mundos simultâneos de energia.

Do ponto de vista do indivíduo, recapitular é recordar; mas, como entidades cósmicas, sabemos que é consciência pura e total. Cada movimento do ponto de encaixe o conecta com uma linha, um sulco diferente do tempo, e podemos viajar por aí, se sabemos como conservar o sentido de ser. Por isso o nagual dizia que uma das bruxas tinha seiscentos sonhos. É que ela podia mudar de um mundo a outro, viver intensidades correspondentes a muitos séculos de tempo linear. Ele chamava a esse feito a audácia final, o salto da consciência.

_ Você se refere a que essa bruxa podia reencarnar conscientemente?

_ Não, não tem nada a ver com isso. A ansiedade do ser humano por continuar consciente, unida ao temor de perder os limites da personalidade, nos faz elaborar teorias estranhas, crenças numa sobrevivência linear. É como um cachorro sobre um barril que flutua na água, dando voltas sem parar, mas sem sair de sua situação. O quê, isso é a reencarnação?

Tantos mundos, tantas galáxias, consciências por todo lado, seres orgânicos e inorgânicos por onde queira, que nem imagina... e o cachorro babaca agarrado ao seu barril em um mundinho chamado Terra! Essas crenças repetitivas são reflexo das vidas aborrecidas que levamos. E aí vem o ser humano fazer as mesmas idiotices uma e outra vez, e, ainda por cima, sem se lembrar! Volta à modalidade da época, a viver sistemas.

Olhe onde chega a fixação, que os egípcios mumificavam seus mortos com o intuito de mantê-los atados a este mundo.

_ Se não é através da reencarnação, então como explica que podemos passar de uma existência individual a outra?

_ Isso não é para se explicar, tem que ser vivido. Eu me dei conta disso antes de conhecer Carlos. Uma noite tive um sonho longuíssimo. Amanheceu e disse a mim mesma: “Essa merda não existe! A porra da reencarnação não existe! Existem vidas simultâneas!”

Não tinha a menor idéia de como explicar isso, até que chega o nagual e começa a me dar as peças do quebra-cabeças.

Um dia, tentando explicar a uma amiga o que eram as vidas simultâneas, conto que é como se a consciência fosse uma só, e a própria consciência como um polvo que tivesse muitos braços.

Cada braço é um sonho, e o guerreiro pode se meter em qualquer dos sonhos através da matriz que lhe permite conectar-se com todos.

Quando recapitula, junta energia suficiente para estar neste sonho ou neste outro, aqui e ali. Tudo acontece aqui e agora, porém, se você faz uma leitura intelectual, pode sentir que aconteceu no passado. Reinterpreta o fato e a reinterpretação dá forma a sua energia.

Você vê o que se passa nesses mundos simultâneos de energia.

É como se a consciência cósmica quisesse viver experiências diferentes simultâneas. Quando um dos braços percebe a existência dos outros, se acendem as fibras luminosas e você salta à terceira atenção. Volta a ser o que era, um navegante do infinito.

Se você abstrai o tempo da memória, sobra a consciência pura.

Estive recapitulando muito quando tive a perna fraturada. Não tinha outra coisa para fazer. De repente, estou sentada na minha cama, durmo, entro em um sonho e me vejo parada em uma esquina de uma cidade antiga que acredito ser Paris, com um carrinho de mercado desses europeus, que têm lona por trás.

Fico em pé, e tenho consciência de estar dormindo no México, e a que lá está também tem consciência de estar segurando o carrinho.

Há uma brutal dissonância cognitiva em ambos os lados, e sei com certeza que minha consciência pode despertar aqui ou ali: agarrando o carrinho nessa esquina, ou deitada em minha cama no México.

Sem saber o que ia ocorrer depois, olho ao redor e decido acordar no México. Abro os olhos e digo: “Merda!” O regresso à cama foi como um golpe.

Pois bem, este ano fui a Graz, Áustria. Uma amiga me pede que a acompanhe a dar uma terapia, entro na casa e começa a sentir uma opressão no peito, uma nostalgia e vontade de chorar espantosas. Começo a buscar referências do que me cria essa nostalgia, se as escadarias recordam minha infância, ou se algo tem a ver com meu passado. Não encontro nenhuma associação com esse sentimento, não havia mais que uma sensação de saudade espantosa.

Ela faz o trabalho e eu entro em meditação, e de repente ela termina o trabalho e lhe digo: “Vem comigo olhar pela janela, por favor, porque se vejo a esquina onde trazia meu carrinho de compras pela mão, me cago aí mesmo!”

Abro a janela e lá está a esquina. Tremendo, digo a ela: “E agora lhe digo, se a meia quadra daqui houver uma loja de produtos naturais, me cago em dobro!”

Descemos, paro na esquina e meu coração começa a bater selvagemente. Olho e lá está a loja de produtos naturais. Começo a fixar asfixiada. É que não se encaixava com aquela realidade. Tinha a vivência de estar em dois lados, e como sou uma cética, minha mente se rebelava contra o que eu experimentava.

Fui com ela e lhe disse: “Peço-lhe um favor, estou a ponto de enfartar, meu ponto de encaixe está sabe-se lá onde. Dê-me um tempo para saber onde estou, em que sonho estou. Deixa eu relaxar, respirar profundamente, tocar bem o solo de Graz, a chuva, definir quem sou aqui e agora.”

Já que consegui recolher minhas fibras de energias outra vez, me senti em minha realidade de sempre e recuperei o equilíbrio que me caracteriza.

Isso para mim é uma comprovação. Não me venham contar teorias nagualescas; eu as vivi na carne. Se não comprovo, não falo.

Moral da história, quem passar por isso tente controlar o medo que causa esse tipo de experiência. Entendam que é parte do mistério do ser humano. O ser humano é um mistério ainda por desvendar; se aceitamos a domesticação até na parte mais abstrata, que é a energética, nos ferramos!

Dêem-se a oportunidade de viver a experiência como parte do mistério da espécie! Não é loucura, é uma característica da nossa existência.

Não se assustar, observar, não tentar racionalizar, fluir com a experiência, tomar medidas elementares, como respirar, aprender a se acalmar, jogar água fria na cabeça, se for necessário. Foi isso que fiz: fiquei na chuva.

Voar é uma capacidade inerente ao ser humano. Uma vez disse Carlos: “O corpo humano é uma nave intergalática.”

A emoção desorganiza a energia, a sobriedade do guerreiro controla a situação. Dê-se uma fração de segundo para tornar a se situar, flua na experiência, se recoloque e diga: “Stop, estou aqui e agora, esta consciência está trabalhando aqui e agora!” Assumir o movimento e a fixação do ponto de encaixe, aprender a aceitar.

O espírito ajuda a idiotas como eu, não posso dizer outra coisa.

_ Como podemos desenvolver essas potencialidades de nossa percepção?

_ Adotando estratégias do caminho do guerreiro. Pode começar fazendo-se consciente de sua história nesse mundo, o que o leva a economizar sua energia, o que por sua vez o lança nos caminhos da consciência impessoal.

Um dos resultados mais emocionantes dessa aventura é que descobrimos que não somos lineares, somos cíclicos.

Em uma ocasião o nagual nos perguntou: “Por que vocês acham que a cultura do México antigo deixou todo seu conhecimento em algo indestrutível, a pedra? As posições do ponto de encaixe são mensagens dos bruxos antigos para si mesmos, mensagens para o futuro, para poder recordar.”

É como deixar para si mesmo uma contra-senha, sua peça particular do quebra-cabeças. Por isso ele associava certas estátuas do México com algumas das pessoas que o rodeavam. Entretanto, ele esclareceu que não devíamos confundir isso com reencarnações.

_ O que você pode dizer sobre a morte de Carlos?

_ O nagual morreu. Partiu para a segunda atenção com toda a sua consciência, porém seu corpo ficou na terra. Fui testemunha de como sua entidade física envelheceu rapidamente, e também de como fez brincadeiras com a idade.

Uma das últimas vezes que o vi, foi em um museu no sul da Cidade do México. Emprestaram-nos um auditório para que desse sua conferência e se reuniram umas duzentas pessoas. Porém Carlos não chegava. Conforme foi passando o tempo, o auditório foi esvaziando, até que no final sobraram oito ou dez gatos pingados. Finalmente, nos expulsaram da sala grande e tivemos que esperá-lo em um salão congelado, com um frio espantoso.

Quando já se haviam passado três horas, os que ficamos pensamos que o encontro era só uma brincadeira de Carlos. Então decidimos ir pecar, ou seja, comer churros com chocolate. E, no momento em que saíamos, apareceu o nagual! Ele fazia sempre essas coisas, para determinar quem realmente tinha que ficar. Vinha com alguém que pouca gente conheceu: o Explorador Negro, a filha de Taisha Abelar.

Assim que o vi, meu coração se oprimiu, e disse a mim mesma: “Meu nagual está morrendo.” Seu rosto estava pálido, seu corpo estava tão deteriorado que era óbvio que não agüentava mais. Fui tomada de uma nostalgia indescritível, era a certeza absoluta de que o nagual estava indo. Nós o cumprimentamos e regressamos ao pequeno compartimento que nos haviam deixado. Ele deu uma conferência muito triste. Ao sair, disse-lhe: “Nagual, já tem um carro novo.” É que eu acabava de comprar um carro. Respondeu: “Quero que amanhã me leve a Tula.”

Na manhã seguinte fui a seu hotel para organizar a ida, e ele me disse: “Organize uma conferência para esta noite.” Minha mente linear perguntou: “Como vou organizar uma reunião para esta noite se ao mesmo tempo estou com ele em Tula?” Mas eu mesma me respondi: “O espírito se encarregará, só necessito de um telefone e vinte minutos.”

Subimos ao seu quarto; comigo iam o nagual, o Explorador Negro e Kylie. De seu quarto fiz várias chamadas, entre outras, a Toni Karam, para que nos emprestasse o espaço para a conferência. Depois fomos jantar em um restaurante próximo e finalmente partimos para Tula.

Segundo Carlos, esta cidade foi criada pelos antigos no sonho. Ele nos levou para ver se captávamos na abstração de Tula o que denominava a façanha final dos guerreiros toltecas, que era se transformar em serpentes emplumadas. Disse-nos exatamente o que se passava com o guerreiro, levou-nos a uma parte da cidade e nos mostrou o lugar onde os antigos intentavam a audácia final, que era burlar a morte de forma definitiva.

À noite regressamos à Cidade do México. Fui para a Casa Tibet ver quanta gente estava reunida. Tremia de medo, porque sabia que, se Carlos nos dava uma tarefa e esta não era cumprida, era uma mancha indelével. A expressão que usávamos era que subiam e baixavam nossos bônus com o nagual. Mas quando cheguei, fiquei impressionada: havia 150 pessoas! Fiquei doida. Foram cinco ligações, e umas pessoas trouxeram as outras, e subiram meus bônus temporariamente.

Carlos chegou e pediu que o ajudassem a descer do carro e o guiassem, porque não estava enxergando bem. Todos notamos que estava muito velhinho, com seu cabelo branco e sua pele pálida. Parecia um homem de 80 anos maltratados.

Nessa conferência atacou os gurus. Durante quatro horas nos falou sobre a egomania dos que se pretendem mestres, o cuidado que devíamos ter ao lidar com eles e os perigos de nos tornarmos um deles.

Também falou do compromisso dos guerreiros e de nos fazermos acessíveis aos comandos do espírito.

Enquanto falava, aconteceu algo extraordinário: começou a ganhar energia, e, diante dos 150 espectadores, rejuvenesceu paulatinamente. A pele foi ficando morena, os olhos brilhantes e a voz forte de um jovem. Foi impactante, um deslocamento do ponto de encaixe.

Ao terminar, me acerquei dele e disse: “Nagual, você entrou com 80 e saiu com 35!” Ele me respondeu: “Você notou? E ainda me falta conseguir que o cabelo se torne preto!”

_ Como você percebe a evolução do nagualismo, cinco anos depois da morte de Carlos?

_ Ele levou em conta a continuação de sua obra. Para esse fim, deixou diversas empresas. Uma delas é a Cleargreen, que tem funcionado muito bem na divulgação da Tensegridade. Cleargreen representa o nagual e a Tensegridade, que, mesmo sendo um aspecto importante do caminho, não é o único.

A tarefa de Carlos vai muito além e depende em grande parte do que façamos conosco como guerreiros. Estamos obrigados a seguir as pegadas abstratas do nagual para pedir sua anuência. Só assim nosso trabalho dará frutos.

Na última vez que o vi, ele se referiu veladamente a esse objetivo final. Havia me chamado para despedir-se; ao vê-lo, senti a enormidade do que ele havia feito por mim e lhe disse: “Obrigada, nagual, não sei como lhe pagar o que me deu.” Respondeu: “Sim, sabe...”



Naquele momento não entendi. Custou-me muito trabalho chegar a saber como poderia pagar-lhe. Mas agora compreendo: o pagamento é ser livre, faça-se livre! A melhor forma de continuar o trabalho de Carlos, e de retribuir tudo o que ele nos deu, é compartilhar com os outros sua mensagem de que podemos ser livres.