A natureza do conhecimento ou a pílula vermelha - 6ª parte

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014



Filme excelente, estilo 12 homens e uma sentença, baseado no desempenho dos atores e com um tema polêmico envolvendo o controvertido deus tribal dos judeus, Jeová, ao permitir a injustiça no mundo, ainda mais com relação ao chamado povo escolhido.

Quem teria coragem de colocar Deus no banco dos réus? Um grupo de judeus num campo de concentração alemão tem esta coragem e realiza o inusitado: o julgamento do deus tribal Jeová, o deus do antigo testamento. O julgamento se dá diante da iminência da morte e os diálogos expressam todas as questões de um crente diante de um deus que prometeu proteger o povo escolhido. 

Deus é culpado ou inocente?

Um questionamento da fé, pois como ter fé em quem não cumpre um pacto realizado, ainda mais em se tratando do deus tribal de Israel?

Samsara: filme

domingo, 14 de dezembro de 2014

A arte do guerreiro é equilibrar o terror de ser um homem com a maravilha de ser um homem - Carlos Castaneda.

(EUA, 2011, 102 min. - Direção Ron Fricke) - Samsara, filme do mesmo diretor de Baraka, usa apenas imagens e sons para mostrar um quadro ao mesmo tempo fascinante e terrível de nossa sociedade, o poder das imagens e da música nos conduz numa viagem perceptiva por várias partes do mundo mostrando toda a diversidade cultural e os efeitos da globalização em nosso planeta, onde o ser humano inserido na matrix torna-se mais um produto, completamente coisificado e alienado de si, um item no balcão do mercado mundial. Em pouco mais de 1 hora e meia fazemos um tour por todo o planeta, maravilhados e aterrorizados com a condição humana.

Samsara, o mundo da ilusão, o reino de maya, é o local onde o desafio proposto é justo percebendo a ilusão descobrir a verdadeira natureza humana, o buda interior, em meio à beleza e ao terror de nossa condição.

Sinopse Oficial: "Filmado por quase 5 anos em 25 países em 5 continentes, e filmando em filme de 70mm, Samsara nos leva a uma variedade de mundos de solos sagrados, zonas de desastre, complexos industrial e maravilhas naturais."

Para os que buscam a liberdade total

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Dentro de uma linda gaiola vivia um passarinho. De sua vida o mínimo que se poderia dizer era que era segura e tranqüila, como seguras e tranqüilas são as vidas das pessoas bem casadas e dos funcionários públicos.

Era monótona, é verdade. Mas a monotonia é o preço que se paga pela segurança. Não há muito o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para baterem suas asas. Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode. Assim, restava ao passarinho ficar pulando de um poleiro para outro, comer, beber, dormir e cantar. O seu canto era o aluguel que pagava ao seu dono pelo gozo da segurança da gaiola.

Bem se lembrava do dia em que, enganado pelo alpiste, entrou no alçapão. Alçapões são assim; têm sempre uma coisa apetitosa dentro. Do alçapão para a gaiola o caminho foi curto, através da Ponte dos Suspiros.

Há aquele famoso poema do Guerra Junqueiro, sobre o melro, o pássaro das risadas de cristal. O velho cura, rancoroso, encontrara seu ninho e prendera os seus filhotes na gaiola. A mãe, desesperada com o destino dos filhos, e incapaz de abrir a portinha de ferro, lhes traz no bico um galho de veneno. Meus filhos, a existência é boa só quando é livre. A liberdade é a lei. Prende-se a asa, mas a alma voa... Ó filhos, voemos pelo azul!... Comei!

É certo que a mãe do passarinho nunca lera o poeta, pois o que ela disse ao seu filho foi: Finalmente minhas orações foram respondidas. Você esta seguro, pelo resto de sua vida. Nada há a temer. Não é preciso se preocupar. Acostuma-se. Cante bonito. Agora posso morrer em paz!

Do seu pequeno espaço ele olhava os outros passarinhos. Os bem-te-vis, atrás dos bichinhos; os sanhaços, entrando mamões adentro; os beija-flores, com seu mágico bater de asas; os urubus, nos seus vôos tranqüilos da fundura do céu; as rolinhas, arrulhando, fazendo amor; as pombas, voando como flechas. Ah! Os prudentes conselhos maternos não o tranqüilizavam. Ele queria ser como os outros pássaros, livres... Ah! Se aquela maldita porta se abrisse.

Pois não é que, para surpresa sua, um dia o seu dono a esqueceu aberta? Ele poderia agora realizar todos os seus sonhos. Estava livre, livre, livre!

Saiu. Voou para o galho mais próximo. Olhou para baixo. Puxa! Como era alto. Sentiu um pouco de tontura. Estava acostumado com o chão da gaiola, bem pertinho. Teve medo de cair. Agachou-se no galho, para ter mais firmeza. Viu uma outra árvore mais distante. Teve vontade de ir até lá. Perguntou-se se suas asas agüentariam. Elas não estavam acostumadas.

O melhor seria não abusar, logo no primeiro dia. Agarrou-se mais firmemente ainda. Neste momento um insetinho passou voando bem na frente do seu bico. Chegara a hora. Esticou o pescoço o mais que pôde, mas o insetinho não era bobo. Sumiu mostrando a língua.

-- Ei, você! - era uma passarinha. - Vamos voar juntos até o quintal do vizinho. Há uma linda pimenteira, carregadinha de pimentas vermelhas. Deliciosas. Apenas é preciso prestar atenção no gato, que anda por lá... Só o nome gato lhe deu um arrepio. Disse para a passarinha que não gostava de pimentas. A passarinha procurou outro companheiro. Ele preferiu ficar com fome. Chegou o fim da tarde e, com ele a tristeza do crepúsculo. A noite se aproximava. Onde iria dormir? Lembrou-se do prego amigo, na parede da cozinha, onde a sua gaiola ficava dependurada. Teve saudades dele. Teria de dormir num galho de árvore, sem proteção. Gatos sobem em árvores? Eles enxergam no escuro? E era preciso não esquecer os gambás. E tinha de pensar nos meninos com seus estilingues, no dia seguinte.

Tremeu de medo. Nunca imaginara que a liberdade fosse tão complicada. Somente podem gozar a liberdade aqueles que têm coragem. Ele não tinha. Teve saudades da gaiola. Voltou. Felizmente a porta ainda estava aberta.

Neste momento chegou o dono. Vendo a porta aberta disse:

-- Passarinho bobo. Não viu que a porta estava aberta. Deve estar meio cego. Pois passarinho de verdade não fica em gaiola. Gosta mesmo é de voar...

O passarinho engaiolado, de Rubem Alves.