O mistério reina soberano

segunda-feira, 25 de agosto de 2014


Olhando para a imensidão do Universo a maior parte dele é feito de luz ou de escuridão?

Olhando para dentro de nossa mente a maior parte dela é consciente ou inconsciente?

Olhando para o nosso corpo a maior parte dele está revelado ou escondido?

Mesmo a lua quando cheia só o é por pouco tempo e por um tempo maior ela é vazia, escura, negra.

Aquilo que sabemos é nada diante do que não sabemos.

E quanto mais aumenta o conhecimento mais temos noção da ignorância, eis o paradoxo de Sócrates.

Aquilo de que temos ciência nada é diante do mistério.

O mistério reina soberano desde sempre. Essa compreensão é a fonte da humildade.

E por temer o mistério projetamos nossos fantasmas nele. Assim o mistério, a escuridão, as trevas tornaram-se o reino do mal e a luz a força do bem, que fez e ainda faz arder muitas bruxas na luminosa fogueira da inquisição.

Mas poucos param para pensar que se Deus disse "Faça-se a luz", ele o fez a partir das trevas.

Há no Universo pontos de uma tal densidade que atraem para si a própria luz, os cientistas o chamam de buracos negros.

Mesmo quando nasce um ser se diz que a mãe deu a luz, mas essa doação de luz saiu de dentro da escuridão do útero.

Assim frente a luz as trevas reinam soberanas, e não há nenhum mal nisso, a não ser quando pela própria ignorância nós criamos o mal. Então o mal é uma criação da mente humana ignara. O mal é a ignorância.

O mal é uma criação da mente humana religiosa. Religião vem do latim religare, religar o homem ao divino, mas na verdade nada está separado, o homem não pode separar-se da divindade.

Assim religião é ignorância também, pois não estamos separados da Divindade, isso é impossível, pois se o homem tivesse esse poder ele seria mais forte que Deus e, portanto, o próprio Deus.

Vender a idéia da separação é conveniente para os sacerdotes religiosos que se arrogam de intermediários.

Para quem tem sede da Divindade: silencie a mente, mergulhe em seu silêncio interior e você encontrará o que procura.

Quando a mente religiosa crê que sua religião é a única e o seu deus é o único, então, essa mente religiosa considera todas as demais religiões e seus deuses como representantes do mal. O mal surge da projeção de uma mente religiosa fanática.

Mas de onde veio o fanatismo, como surgiu o fanatismo?

Da idéia de que a Divindade é uma exclusividade de um indivíduo, de um grupo, de um povo.

O fanatismo surge da possessividade, da apropriação do divino por um grupo de humanos.

O fanatismo deriva do ciúme religioso, portanto é uma forma de paixão altamente possessiva: meu deus, minha religião, meu senhor.

Mas a divindade não pode ser posse de ninguém. Deus não é propriedade privada de nenhuma religião.

Assim o mal surge da apropriação do divino pelo humano, obviamente uma ilusão. E de onde surge o desejo de posse? Do medo de perder o objeto da nossa crença.

Ora, qualquer coisa que ameaçe a crença tem que ser combatida ou negada. E aquilo que ameaça a crença, a fé, é visto como o mal, as trevas, a escuridão.

Assim apegados a uma pequena percepção queremos crer que ela é toda a verdade, e isso é o absurdo provocado pelo medo diante da imensidão, do infinito, pois por mais que amemos a luz quando olhamos as estrelas, a lua e o sol, o universo é feito em sua maior parte de trevas.

Amemos as trevas porque elas são luzes que ainda não compreendemos.

Amemos ao mistério, ele é a fonte da humildade.

Assim escuridão e luz são apenas um dualismo criado pela nossa mente limitada.

Não tenhamos medo de mergulhar na escuridão de nós mesmos. Quando desejamos luz o que ocorre é que a Divindade nos leva a perceber aquilo que não queremos ver, que tememos ver, mas que precisa ser resgatado em nós mesmos.

Nosso lado escuro é muito maior, muito mais poderoso, uma fonte infinita de energia, mas o nosso mal é considerá-lo como tal, pois aí nos alienamos de nós mesmos.

Lidar com a magia é ser capaz de lidar com o mistério que há em nós, compreendê-lo mais do que explicá-lo, pois explicá-lo é afastá-lo, é torná-lo uma assombração de nós mesmos.

Quando pesadelos e sonhos estranhos nos invadem é por certo essa parte de nós que grita por redenção, por compreensão, por reintegração ao espaço de nosso próprio ser.

Fernando Augusto

Sobre deuses, pássaros e gaiolas

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Eu não tenho religião. Não vou a igrejas, não participo de rituais, não acredito nos seus dogmas. Preciso não ter religião para amar a Deus sem medo, com alegria e, principalmente, sem nada pedir. Não tenho religião porque não concordo com as coisas que elas dizem de Deus. Deus é um Grande Mistério. Está além das palavras. Diante do Grande Mistério a gente emudece. Fica em silêncio. Discordo a partir do pronome “ele”.

Deus “ele”, masculino? Onde foi que aprenderam sobre o sexo de Deus? Deus tem sexo? Se tem sexo, por que não ela, Deus mulher? Como a mulher do Cântico dos Cânticos? A Igreja Católica não conhece a mulher. Conhece apenas a “mãe” que foi mãe sem ter sido mulher. Deus: por que não uma flor, a mais perfumada? Por que não um mar sem fim onde a vida navega? Místicos houve que disseram que Deus é uma criança que nos convida a brincar... Mas pode ser também que Deus seja música, como pensaram os místicos pitagóricos.

Ter uma religião é falar as palavras sagradas daquela religião e acreditar nelas. As religiões se distinguem e se separam: pelas diferenças das palavras que usam para se referir ao sagrado. Se elas nada falassem, se houvesse apenas o silêncio diante do Grande Mistério, a Babel das religiões não existiria. Diante do Grande Mistério apenas uma palavra é permitida, a palavra poética, porque a poesia não o diz mas apenas aponta para ele. O Grande Mistério está além das palavras.

Se tenho uma religião ela se chama poesia. Por isso, amo a Cecília Meireles, sacerdotisa profana, que quando queria se referir a Deus falava sobre um mar sem fim, misterioso e selvagem. Quem em silêncio contempla o mar sem fim ouve vozes em meio ao barulho das ondas. Também Fernando Pessoa sabia disso. Mas, prestando bem atenção, é possível ver, a voar sobre o mar sem fim, um pequeno pássaro que canta: “Leve é o pássaro: e a sua sombra voante, mais leve. E a cascata aérea de sua garganta: mais leve. E o que lembra, ouvindo-se deslizar seu canto, mais leve...”

Os poetas escrevem em transe: não sabem sobre que estão escrevendo. Faz muitos anos, escrevi um livro para minha filha. Ela tinha 4 anos. Eu iria fazer uma demorada viagem pelo exterior e ela ficou com medo de que eu morresse e não voltasse. Apareceu-me, então, uma estória, A menina e o pássaro encantado. Resumida, era assim: era uma vez uma menina que amava um pássaro encantado que sempre a visitava e lhe contava estórias, o pássaro a fazia imensamente feliz. Mas sempre chegava um momento quando o pássaro dizia: “Tenho de ir”. A menina chorava porque amava o pássaro e não queria que ele partisse. “Menina”, disse-lhe o pássaro, “aprenda o que vou lhe ensinar: eu só sou encantado por causa da ausência. É na ausência que a saudade vive. E a saudade é um perfume que torna encantados a todos os que o sentem. Quem tem saudades está amando. Tenho de partir para que a saudade exista e para que eu continue a amá-la, e você continue a me amar...” E partia. A menina, sofrendo a dor da saudade, maquinou um plano: quando o pássaro voltou e lhe contou estórias e foi dormir, ela o prendeu numa gaiola de prata dizendo: “Agora ele será meu para sempre”.

Mas não foi isso que aconteceu. O pássaro, sem poder voar, perdeu as cores, perdeu o brilho, perdeu a alegria, não mais tinha estórias para contar. E o amor acabou. Levou tempo para que a menina percebesse que ela não amava aquele pássaro engaiolado. O pássaro que ela amava era o pássaro que voava livre e voltava quando queria. E ela soltou o pássaro que voou para longe. A estória termina na ausência do pássaro e a menina se enfeitando para a sua volta.

Minha intenção, ao escrever esta estória, era simples: consolar a minha filha. Mas quando foi publicada ganhou um sentido que não estava nas minhas intenções: começou a ser usada em terapia, com casais possuídos pela ilusão de que, engaiolado, o amor seria posse eterna... Desde então passei a presentear noivos com uma gaiola da qual eu arrancava a porta. Mas, passado algum tempo, uma pessoa me disse: “Que linda estória você escreveu sobre Deus!” “Sobre Deus?”, eu perguntei sem entender. “Sim”, ela me respondeu. “O Pássaro Encantado não é Deus? E as gaiolas não são as religiões nas quais os homens tentam aprisioná-lo?” Aprendi, então, da minha própria estória, algo que não sabia: Deus como um Pássaro Encantado que me conta estórias. Amo o Pássaro. Odeio as gaiolas. O Pássaro Encantado: não pousa em galhos para cantar. Não é possível fotografá-lo. Canta enquanto voa. Dele, o que temos é apenas a sua leve sombra voante e a cascata aérea de sua garganta... Quando ouço o seu canto, ele já passou. Só é possível vê-lo em seu vôo, por trás. Vai-se o Pássaro. Fica a memória do seu canto.

Um pássaro voando é um pássaro livre. Não serve para nada. Impossível manipulá-lo, usá-lo, controlá-lo. Pássaro inútil. E esse é, precisamente, o seu segredo: a sua inutilidade: ele está além das maquinações dos homens. Sua única dádiva é o seu canto. Só faz um milagre, um único milagre: quando, chorando, lhe peço “Passa de mim esse cálice”, ele canta e o seu canto transforma a minha tristeza em beleza. Por isso eu nada lhe peço. Sei que ele não atende a pedidos. O seu canto me basta: ao ouvi-lo transformo-me em pássaro. E vôo com ele...

Mas aí vêm os homens com as suas arapucas e gaiolas chamadas religiões. E cada uma delas diz haver conseguido prender o Pássaro Encantado em gaiolas de palavras, de pedra, de ritos e magia. E cada uma delas afirma que o seu pássaro engaiolado é o único Pássaro Encantado verdadeiro...

Por que prenderam o Pássaro? Porque o seu canto não lhes bastava. Não lhes bastava a beleza. Na verdade, não o amavam. O que os homens desejam não é a beleza de Deus. O que eles desejam é manipular o seu poder. O que eles querem é o milagre. O canto do pássaro poderia lhes dar asas para voar. Mas não é isso que querem. O que desejam é o poder do pássaro para continuar a rastejar: Deus, transformado em ferramenta. Ferramenta é um objeto que se usa para se atingir um fim desejado. Assim são os martelos, as tesouras, as panelas... O que as religiões desejam é transformar Deus em uma ferramenta a mais. A mais poderosa de todas. A ferramenta que realiza os desejos. Como o gênio da garrafa. Pois não é isso que é o milagre, a realização de um desejo por meio da manipulação do sagrado? Só é canonizada santa uma pessoa que realizou milagres: o milagre é o atestado do seu poder para manipular o divino.

E é assim que as religiões se multiplicam, porque os desejos dos homens não têm fim, e os seus santuários se enchem de santos de todos os tipos, os santos milagreiros são nossos despachantes espirituais, todos eles a serviço dos nossos desejos, atenderão nossos desejos a preço módico, se rezarmos a reza certa e prometermos publicar o milagre em jornal, e pela televisão se anunciam fórmulas, sessões de descarrego, águas bentas milagrosas, exorcismo de demônios, os DJs de cada religião têm uma música na fala que lhes é própria... Assim, a poesia do canto do Pássaro Encantado se transforma em manipulação do pássaro engaiolado. E não percebem que aquele pássaro que têm dentro de suas gaiolas não é o Pássaro Encantado, que não se deixa engaiolar, porque é como o vento, e voa como quer, e tem uma única dádiva a oferecer aos homens: a beleza do seu canto. À transformação da poesia em manipulação milagreira ? Os profetas deram o nome de idolatria.
Rubem Alves

Vaidade

quarta-feira, 20 de agosto de 2014


A maior dificuldade que enfrentamos ao informar as pessoas que elas estão sendo enganadas é a vaidade, pois ninguém quer acreditar que foi enganado por tanto tempo sem perceber que estava sendo.

A maior prova disto é quando a informação revelada se dá no âmbito das relações cotidianas, pois ninguém quer acreditar que o outro, que é como você, mais um na multidão, está de posse de um conhecimento desse nível, então você acaba por ser taxado de teórico da conspiração ou paranóico de plantão. Mesmo que as informações sejam passadas com clareza, lógica e evidências o aparente ceticismo está cimentado numa vaidade tão estruturada que é muito difícil a pessoa ceder diante de argumentos mesmo cabais.

Assim uma definição possível de vaidade é o culto do reflexo das próprias crenças.

Fanatismo, ceticismo, estupidez e paranóia são apenas variações conceituais da mesma vaidade.

O principal objeto de culto dessa vaidade chama-se TV, que se tornou uma projeção na mente da maioria das pessoas. Ainda há tempo, desligue-a. A gente se vê por aqui, ou por aí.

Contudo, a informação pura e simples, mesmo embasada em dados reais não é suficiente para amparar novas decisões, pois estas não são tomadas no nível puramente racional, precisam atingir camadas mais profundas da psique. Sabedores disso alguns, desde o início do século passado, amparado nas teorias de Freud, resolveram utilizar tal informação para simplesmente manipular as pessoas em seus pontos mais fracos: vaidade, luxúria e medo.

Assim uma mulher pode ter mais de 40 pares de sapato, um homem ter um potente Porsche para trafegar no trânsito de Sampa e um humilde trabalhador pode torcer por seu time de jogadores milionários simplesmente porque isso os fazem se sentir do jeito que a propaganda lhes sugeriu, mesmo que seja absolutamente desnecessário e até mesmo completamente absurdo.

O consumismo não é o consumo de coisas, mas sim de emoções.

Assim nós, as pessoas, nos tornamos produtos que consomem produtos para satisfazer desejos e emoções artificialmente induzidas.

Como diz o diabo de Al Pacino no filme Advogado do Diabo: a vaidade é o meu pecado predileto.

A sorte é que alguns de nós estamos conscientes, em certo nível, de nossa própria vaidade. E podemos rir dela.

F.A.