Um conto sobre os predadores

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Felipe sabia que seu passo era decisivo.

Em algum ponto daquela caverna estava o seu elo de contato.

Desta vez iria além do contato, além do intermediário.

Iria falar com um deles. Ir ao Mundo deles.

Como seria estar lá naquele mundo estranho de sombras mutantes?

Um mundo de seres predadores, conhecedores de segredos de poder.

Ainda se sentia um pouco alterado pelos exercícios que realizara preparando-se para este encontro.

Seus anos de treinamento na Escola de Torhn permitiam-lhe adequar sua percepção a outros níveis de realidade.

Aprendera muito sobre a percepção.

Entendia plenamente que era um ente perceptivo e isto importava.

O que era percebido, o que via a sua volta como realidade, quer física, quer social, era um arranjo perceptivo criado a partir de um consenso.

Visitara muitos mundos e vira como de fato havia sempre um acordo mudo , uma mesma visão da realidade era partilhada por muitos e isso criava um mundo.

Assim pensara até agora.

Há bem pouco descobrira que os mundos e a consciência existem por si.

Todo a existência é composta de energia consciente de si mesma.

Somos entes perceptivos , mas o que percebemos vem lá de fora, são impulsos, irradiações que escolhemos perceber de tal ou qual forma.

O que criamos é nossa interpretação da realidade e esta interpretação está originalmente determindada pelo meio que nos educou.

Felipe aprendeu a rever tudo isso e a criar uma nova visão da realidade.
Felipe sabia de tudo isso e muito mais, mas ainda assim seu coração estava acelerado para um praticante dos exercícios pranayamas.

É para ele estranho praticá-los agora.

Pois tais exercícios lhe foram ensinados pelos mestres e mestras das Escolas de Torhn e neste instante cada passo seu é objetivamente um caminhar na negação de tudo que lhe foi ensinado ali.

Mas Felipe aprendeu a ser suficientemente cínico, para lidar consigo mesmo a princípio.

E assim acalma seus batimenos cardíacos e vai mais longe , amplia ao máximo sua percepção.

Dentro em breve estará no mundo de seres poderosos e predadores.

Seres que desejam a Teia dos Mundos para si.

Felipe descobriu que os Conquistadores eram apenas os capatazes, que os verdadeiros donos do poder eram seres misteriosos alienígenas, usando dos serviços dos Conquistadores rumo a seus próprios fins.

Felipe foi mais longe, teve acesso a esses misteriosos seres.

Sua interação com tais consciências alienigenas o transformaram.

Ele compreendeu aspectos novos do poder e da existência.

Foi seduzido a pactuar com tais seres.

Lhe prometeram torna-lo um deles, não um capataz como os outros, mas um deles.
E agora ali estava ele, dando os passos finais para tal transformação.

Era um traidor e por sua responsabilidade o que poderia levar ainda muito tempo para acontecer, a queda da maior parte da teia nas mãos Conquistadoras, agora era algo cada vez mais próximo.

A Teia dos Mundos.

Uma teia, como em uma teia de aranha os mundos se dispuseram pelos abismos vazios.
Se imaginares uma teia, cada ponto de junção de um fio com o outro é um mundo e as linhas entre os mundos são os túneis que ligam de fato um mundo a quatro ou mais outros.

Através desses túneis os seres iam e vinham pela teia, os reinos se comunicavam interagiam e cresciam.

Por eons assim foi.

Mas então surgiram os Consquistadores.

Uma coalizão de sacerdotes seguidores de um culto de culpa medo e submissão, sempre a espera de uma felicidade futura, assim facilmente manipuláveis no presente.

Eles corromperam guerreiros para servi-los e assim criaram um novo poder.

Esses Conquistadores tiveram seu poder ampliado de uma forma que eles mesmos não esperavam.

Foram apoiados por forças poderosas em suas imaturas disputas por poder e supremacia.

Felipe sabe que não são esses vulneráveis senhores e senhoras de reinos e mundos ou seus estratagemas violentos e destrutivos que de fato promovem sua ascenção, mas sim o apoio desses misteriosos seres: Os Sombrios.

Inteligências Sofisticadas que vieram à Teia dos Mundos e aqui ficaram presos. Agora desejam tudo destruir para poderem se soltar.

Como uma vespa moribunda capturada em seu vôo que vê na destruição da Teia sua única esperança de Salvação.

Forças em luta pela sobrevivência, como a vespa e a aranha na mata.

Felipe sabe que os sombrios são fortes e vencerão. Assim acredita.

Essa é sua certeza, por isso está pronto a dar um novo passo.

Ele esteve com oráculos, consultou fontes fidedignas de videntes e miradores de estrelas.

Uma fase de grande transformação está se aproximando.

Será um ciclo de desintegração de tudo o que está construído para que só o real resista e o que foi fundado em falhas bases pereça.

Os Conquistadores são destruidores, são alimentados por essa força de forma inconsciente.

Os Sombrios através dos Salvatores canalizam mais e mais energia para si. Dentro em pouco seu poder será mais e mais sensível.

O poder.

Era isto que interessava a Felipe.

"Somos o poder que temos".

Esta frase marcara profundamente a mente de Felipe, frase ouvida do mais carinhoso tom a mais assustadora ira.

Seu pai jamais permitira que ele esquecesse que era dele , só dele a responsabilidade de manter o poder na familia.

Felipe ria do seu velho e decrépito pai.

Ele tinha razão em parte.

E a terrível disiciplina que lhe impingiu facilitou seu treinamento, impediu que desenvolvesse emocionalismos inúteis como seus companheiros de estudo.

Balder, o filho de Torhn.

Um semi deus.

Enquanto Felipe viveria por muitos e muitos Katuns como todos os outros de sua raça Balder viveria por muitos e muitos Baktuns.

Foram amigos, mas Balder era um idealista, com sonhos de nobreza e servir ao seu povo e outras tolices de mentes imaturas que não compreendem a dura solidão e ferocidade do mundo.

Balder tinha a fraqueza da compaixão e Felipe não suportava tal fraqueza.

Tornaram-se competidores em tudo até que a hábil direção da escola colocou-os em campus diferentes visando impedir o surgir de uma rivalidade mais séria.

Felipe estava agora no último trecho da longa caverna.

Aqui ela se abre em duas entradas distintas.

Quem habitaria o eremitério da esquerda?

Já dentro do lado direito continuou a descer e descer , depois subiu muitos degraus encaracolados tendo a um lado inscrições e desenhos de uma beleza inquietante, símbolos grafados antes dos tempos atuais, por seres que há muito partiram.

Após contarem uma história de poder e força, da conquista de poderes e mundos por feiticeiros e feiticeiras de vasto poder as inscrições terminam abruptamente com avisos em tinta brilhante sobre os perigos que cercavam tais caminhos e que o poder exterior era sempre ilusório.

Símbolos alertando ao que sobe sobre os riscos que ele está prestes a desencadear sobre si e sobre seu povo.

- "Talvez mais, talvez muitos povos." pensava consigo.

Poucos já estiveram naquelas cavernas, onde ao redor de grossas estalactites e estalagmites degraus espiralados levam a muitos nichos nelas escavados.

Se, talvez, Felipe tivesse ido mais cedo para as Escolas no Estado de Torhn, se houvesse recebido outra educação talvez sua consciência, forjada a partir de influências mais despertas tivessem o poder de alterar seus próximos passos.

Mas Felipe é filho de Irgio e Irgio foi um pequeno senhor de poucas terras e muitas ambições.

A frustração de seus planos foi atribuída a sua falta de poder e o pequeno Felipe teve seu intelecto brilhante, sua grande força interior doutrinados para buscar o poder, o poder sobre outros.

Felipe esteve nas Escolas de Torhn.

Foi um aluno brilhante, mas fugiu.

Faz poucos kins, há poucos kins atras ele estava em seu retiro, preparando-se para testar suas habilidades nas trilhas místicas da floresta Icamiaba.

As Icamiabas.

Mulheres guerreiras que viviam no mundo floresta.

Icamiabas, As Escolas de Tohrn estão em seu mundo e nele tem santuário.

A vasta floresta Icamiaba, com suas milenares árvores Uru cheias de tal poder que em elo com Sonhadoras Icamiabas podem impedir que qualquer nave sobre elas voem.

O mundo Icamiaba com seus vastos 2 continentes cobertoss de florestas.

Em um ponto dessas florestas está o Estado de Thorn, um lugar ancestral.

Ali estudaram em outros tempos todos os futuros governantes de vários povos.

Homens e mulheres aprimoravam ali seu talento e apoiar seu povo em seus caminhos de vida.

O Estado de Thorn, protegido de leste a norte, de norte a sudoeste pela floresta Uru.

De sudoeste a leste um grande abismo, uma fissura na casca de terra, aberto para bolsões de uma substância instável da qual bolhas de plásmica energia sobem até muitos metros da fissura e ao explodir emanam tal radiação que mesmo os mais experientes voadores em tapetes de El Sarer não conseguem passar sobre a fissura.

Assim , naturalmente protegido, por muitos baktuns está a Escola de Torhn, com suas alas, uma grande cidade, integrada a grande floresta, esculpida na rocha e armada sobre o grande lago.


O Estado de Torhn é uma confederação composta por muitos núcleos, onde habitantes de diversos mundos , ou mesmo de povos diferentes do mesmo mundo se estabeleceram após terem conseguido fugir da invasão de seus lares natais pelas tropas dos Conquistadores.

Arquiteturas de todo o tipo serviam como salas de aula, áreas de treino e laboratórios.

Com o crescente poder dos Conquistadores, uma coalizão de senhores e senhoras ambiciosos e belicosos, sem nenhuma ética e prontos a usar outros seres humans como objeto para alcançar seus objetivos, os povos que ainda estavam livres enviavam seus futuros líderes para que se desenvolvessem e fosse sábios e sábias em seu governar.

Mas os Conquistadores cresciam e se tornavam mais fortes.

Se auto intitulam "Nóbiles" e fazem pactos entre si, contra aqueles que ainda apoiam as velhas câmaras do povo, onde todo cidadão podia discutir sobre os destinos de sua comunidade.

Antes entre os povos da maioria dos mundos da teia eram os chefes figuras de grande capacidade de consenso, a semelhança do que ainda ocorre em algumas tribos.

Palavras distantes ecoaram em sua mente:

-“Portanto o que esta nova elite de poder vem fazer é destruir a capacidade de autonomia , de ver e perceber com senso apurado o mundo.

Sistematicamente os conquistadores destroem nos mundos que dominam a capacidade dos seres de tomarem decisões. Assim em poucas gerações doutrinados e limitados entregam os seres o controle de suas vidas e a capacidade de decidir a gigantescos organismos, as instituições que os Salvatores mantém para dominar ideologicamente os mundos onde as armas já mataram aqueles que poderiam reagir.

Porque assim isolados, inseguros caíremos nas malhas da rede desses pescadores de consciência.

Assistiremos mundos e mundos renuciarem a liberdade do mar para nadar em tanques, seguros, tediosamente seguros.Até serem servidos no jantar.

Um súbito ranger de ferrolhos arrancou Felipe de seus devaneios.

Por que a aula de Tessálio lhe viera a mente agora?

Sim Tessálio tinha razão.

Mas ele mesmo estava preso.

Felipe ousara mais, iria mais longe.

"Busque o inesperado, faça o novo."

Será que seus mestres apoiariam o "novo”que estava pronto a fazer, o inesperado?

Talvez não fosse novo seu ato, pois a traição bem antiga é, mas inesperado sem dúvida seu ato seria.

Tinha certeza que Tessálio e o Xamã já sabiam de suas reais intenções.

Eles não negariam seu acesso ao coração da teia se já não soubessem o que de fato levava em sua mente.

Com certeza já sabiam há muito de suas reais intenções e estavam tentando atraí-lo de volta.

Sim , desde alguns tuns, muitos tuns estavam agindo de forma diferente com ele.
Sentiu uma ponta de raiva dentro de si por não ter percebido antes o que agora lhe era óbvio.

Todos a sua volta já sabiam que ele era um traidor.

Até mesmo Aliaanará, a forma sutil como ela tomou de volta a esmeralda que ele recebera dela tuns atraz e que era um elo entre ele e as Icamiabas.

Bancara o tolo e sua importância pessoal reagia a isso.

Tolos.

Espertos mas tolos.

Eles mesmo não alertavam para o perigo do Poder?

Teriam uma noção exata do que era o poder de fato?

Com suas disciplinas éticas viviam a conter-se, não exercendo plenamente suas possibilidades.

Não, este caminho poderia levar alguns a algum lugar mas não era definitivamente o caminho de Felipe.

Ele sabia que estava ali para testar o poder pleno, um caminho solitário.

Solidão.

Saudade.

Aliaanará.

Ela negou-se a estar com ele.

Como era possível negar o amor e a imortalidade por um conjunto de ideais falsos de liberdade e ética.

Alianará. Ela o amava também, mas o que era o amor?

Não seria apenas uma forma do corpo manifestar uma extrema atração sexual, um reconhecer de cheiros e texturas que gritam aos gens que carregamos que encontraram no outro vetor bons elementos para cruzamento?

Compreendia a absoluta falta de sentido em tudo, a efemeridade de tudo e todos e a vã ilusão de seus planos.

"O poder que temos é o que somos".

Disso ele tinha certeza.

Todos diziam isso.

Mas nas Escolas de Torhn eles insisitam em usar o poder interior e não interferir com o exterior.

Essa era a fraqueza deles.

Mais tarde saberia usa-la.

Teria coragem de estar no ataque?

Ele sabia qual era o ponto fraco de toda a proteção ao Estado de Torhn.

A mata era a guardiã daquele mundo e era protegida por magia.

Mas em Midgard havia um elemento artificial.

Plutônio.

Ele era instável demais e ao mesmo tempo inacessível a magia dos teúrgicos.
Aliaanará.

Teria coragem de enfrenta-la, como oponente?

Ele a conhecera na Escola de Torhn.

Apaixonou-se por ela como as sombras de um pantâno se apaixonam pela luz límpida da aurora.

Com intensidade e tristeza por saber que tal luz seguiria seu caminho e ele, pantâno, já estava condenado a mergulhar mais e mais em suas sombras, em busca de algo que poucos ousavam vislumbrar:

O poder.

Viveram juntos segundo os costumes da escola, em alojamentos para os que desejavam viver com alguém.

Aliaanará era a provável sucessora da líder das Icamiabas do seu continente (o mundo Icamiaba possui apenas dois vastos continentes, gelados nos polos e todo o resto coberto de floresta no mais é um grande mar).

Embora partilhassem um incrível afeto já aquela época Felipe sabia qual era seu destino.

Ele buscava o poder, o poder puro.

E sabia que o poder sobre si mesmo tão alardeado pelos adeptos do Chi interior não lhe seria suficiente.

"O ser humano é muito diminuto perante o vasto todo. Se desejo conhecer o poder exerce-lo-ei além das fronteiras de mim mesmo."

Tudo isso passou pela mente de Felipe , mas quando a grande e pesada porta de ferro frio se abriu sua mente estava limpa e aberta.

Felipe mais uma vez usou o saber de seu treinamento.

Limpou sua mente de tudo, inclusive dos conceitos que eles lhes deram.

Assim nada estava a perturbar-lhe a percepção quando sentiu a energia dos Sombrios ativando o portal.

Pela primeira vez iria alêm do espelho.

O espelho não mais seria o canal de contato entre ele e o misterioso ser das Sombras que há muito era seu real mestre.

Agora Felipe estava pronto.

Sem intermediários.

Seu lance já estava dado.

A mensagem que enviara ao conselho dos Senhores e Senhoras reunidos no Reino de Bispou já devia estar sendo lida.

Com que assombro não estaria sendo ouvida.

Se os Senhores e Senhoras da guerra, maioria no conselho, entendessem a vantagem que lhes estava sendo oferecida não excitariam em dar total apoio a Felipe.

Bispou tentaria impedir, mas Felipe tinha o trunfo final.

Bispou era um crente.

A religião dos Salvatores era apenas um instrumento de manobra ideológica para converter e dominar os povos.

A maioria dos Senhores e Senhoras tinha um comprometimento apenas formal e aparente com tais credos.
Mas Bispou secretamente acreditava em certos credos dos Salvatores, acredita em seus deuses. Participara dos rituais secretos onde o Prior dos Salvatores e seus aliados contatavam os Deuses.

Deuses!

Eram seres de incrível poder consciências muito mais amplas e profundas.

Mas seres, não deuses.

Bispou apesar de todo o poder de suas legiões, criadas em condições extremas, era frágil por ser um seguidor.
Ele havia transformado seu mundo num lugar terrível para gerar ‘soldados perfeitos’.

Apenas um elite vivia em condições mínimas, o resto do planeta condenado a uma vida em condições sub humanas, em situações de extrema penúria e expostos a climas desregulados devido a agressões constantes ao meio ambiente.

Além das tantas outras agressões, Bispou e seus engenheiros comportamentais levavam todos a experimentarem, aquele profundo senso de derrota, inutilidade e frustração que depois bem trabalhados geravam máquinas humanas prontas a matar , odiando o que quer que lhes mandassem odiar, inconscientes da magia e do valor das próprias vidas, assim sem nenhum respeito para com qualquer vida.

Nesse meio adverso Bispou treinava seus soldados desde crianças.

Eram verdadeiras máquinas de matar, resistentes, bitolados, incapazes de pensar por si mesmos exceto em assuntos onde a destruição do inimigo fosse a meta.

E inimigo era sempre aquele que Bispou habilmente sabia apontar, mostrando que se fossem eliminados haveria uma vida melhor para todos.

Seu exércicito genocida e as armas que desenvolvera, testando inclusive em seu próprio mundo lhe dava grande poder no Conselho.

Ele era um dos líderes dos Conquistadores.

Mas com sua crença era manipulável.

Como muitos outros cria nas manobras dos Salvatores e em seus Deuses.

Tinha a carência de um pai psicológico, o medo de assumir a solidão da existência e o profundo desamparo ao qual todos estão de fato expostos.

Felipe recebera outra educação e aprendera que existem seres em muitas escalas de poder, mas eram seres, não deuses.

E ele entraria em contato com tais seres agora.

Estaria em sua morada.

Sorriu ante a ironia do que estava por fazer.

Pensou no personagens das sagas sagradas dos vários povos que diziam ter conversado com seus deuses ou intermediários destes.

Ao menos Felipe sabia que ele não seria logrado.

Não era um crente devoto amedrontado em busca de um pai psicológico que atravessava o portal.

Era um ser consciente que havia aprendido a desenvolver um profundo senso de análise e observação.

Então atravessou a moldura do grande espelho igneo.

De fato o fogo não o queimou.

Mas o brilho o levou para muito, muito longe, fora da teia, um mundo parasita, no nosso preso.

Felipe estava num vasto túnel.

Sentia tudo a sua volta em tons de enxofre e ocre.

Alguns seres em forma de chamas bruxuleantes mas semi opacos se aproximaram.

Subitamente todo o local tomou a forma de uma vasta sala de piso quadriculado e horizontes a perder de vista.

-Não! - disse Felipe e sua voz era um som disforme e pesado, como uma gosma sólida a escorregar pela língua e sair no ar a sua frente.

A imagem desapareceu e voltaram ao túnel que pulsava com estranha vitalidade.

-"Não fale, sentiu ele em sua mente. Faça como nós".

-"Não quero ilusões que acalmem meus sentidos".

Felipe notou certa perplexidade.

Não estavam preparados para tais atitudes.

Ele tinha o treinamento das Escolas de Torhn a seu favor.

Não antropomorfizaria as imagens ficando em lugares paradisíacos que com certeza essas criaturas eram capazes de gerar drenando informações a partir de suas carência profundas.

Aprendera o suficiente para não ser assombrado por seus fantasmas interiores.

Se ia negociar com esses seres desejava estar num ambiente nitidamente alienigena para que seus sentidos estivessem aguçados.

Observou tudo a sua volta.

Era aquele o lugar que o recebiam.

As formas parecendo chamas de vela, que seriam?

Uma delas se destacou do grupo e se aproximou.

Pulsou sua luz até tomar uma forma humanóide.

Felipe sorriu sarcástico.

Aquela forma insinuava sinais de um ser que conhecia bem.

Tudo muito discreto, nada que percebesse se não fosse seu treinamento.

Emitiu seus sentimentos e o ser voltou a sua forma bruxeleante, porém muito, muito mais opaco que uma vela.

Sensações, texturas, sons e cheiros inundaram-lhe a percepção.

Uma torrente de informações sensoriais.

Felipe percebeu o que isso significava.

Eles estavam se comunicando com ele em via direta, sem usar de subterfúgios, de mitos de sua própria cultura.

Sua percepção absorveu as informações contidas naquela comunicação.

Levaria alguns meses em seu próprio mundo para linearizar tudo aquilo, mas a essência lhe era clara.

Fora aceito como aliado, não como servo.

Ele conseguira.

O pacto era um sucesso.

Deixou que uma aparente empolgação o envolvesse e notou que os seres se tornaram menos em guarda ao senti-la.

Felipe se perguntava quantos como ele conseguiram tal aliança?

Só quando estava em seu quarto na segurança de sua câmara que Felipe permitiu-se demonstrar um pouco de suas verdadeiras percepções.

Havia sido um sucesso.

Ele sabia que havia conseguido.

Estava exausto.

Não operava naquele nível de energia há tuns.

Sim, há tuns seus mestres e mestras na Escola de Torhn não o expunham mais a tais campos de energia.

Emtão já sabiam de sua traição há tanto tempo?

Não importava isso agora.

Ele estava aliado a poderes muito maiores que o "ético caminho" de Torhn e sua escola.

O cosmos é caótico demais.

Há momento que temos de forçá-lo para algum lado.

Domar o dragão.

Uma imagem vem a memória de Felipe.

Tessálio, em uma aula treino.

Ele fala sobre domar o dragão.

Mas ensina a trabalhar o dragão interior.

Felipe sabe que está ousando.

Tais racionalismos o incomodam.

Precisa de energia.

Toca um gongo que ecoa um som ondulante até os corredores, saem para as varandas do pátio interno e despertam a jovem que dorme ao lado da fonte das 7 pedras.

A jovem se ergue, caminha como em transe e só para ao estar na porta do quarto de Felipe.

As portas que dão para o corredor do pátio, guardadas por 4 mulheres da guarda pessoal de Felipe.

As guardas pessoais de Felipe estão atentas e , como ouviram o gongo, deixam a jovem passar.

As pesadas portas de bronze com o desenho do dragão incrustado em pedras vermelhas e metal amarelo e verde se abrem.

A mulher entra e observa ausente a cena. As portas são fechadas.

Felipe acaba de acender a grande lareira que fica num canto do quarto.

O quarto redondo tem a um lado uma grande cama com dossel.

Felipe sabe que mesmo no auge de seu poder não poderá abandonar por muito tempo esta região.

É aqui que está o epicentro de seu poder, é seu ponto de máximo poder e sua obra exigirá sempre tal foco.

Aquela cama precisa ser preparada magicamente.

Os sonhadores entre os povos ligados as Escolas de Torhn são muitos e habilidosos.

Não pode arriscar ser abordado por algum agora.

Havia também o pacto com Aliaanará.

Tal pacto o tornava accessível a mulher líder de um poderoso povo, um povo que Felipe sabia que não poderia nunca destruir totalmente.

Ataques limitados como o que faria em breve ainda eram possíveis, mas as Icamiabas possuíam uma magia que estava além de seu poder.

Elas encontrariam seu fim se toda a teia fosse destruída, mas antes elas deveriam ser mantidas acuadas, mas não destruídas.

Isso lhe tranquilizava em parte.

A menos que Aliaanará se arriscasse desnecessariamente não precisaria matá-la.

Aliaanará viva mantinha uma parte dele mesmo ainda viva.

Ficou de pé observando o fogo crescer na lareira.

A jovem se aproximou.

Era uma escrava enviada por um dos povos que já se submetera a nova ordem que sua mensagem ao conselho criara.

A jovem estava em transe e trazia a bandeira da casa reinante em sua cintura.

Felipe sabia o que devia fazer.

Criar um escudo psíquico a sua volta para que nunca fosse rastreado em sonho.

Sangue seria o veículo.

Sangue virginal.

Suavemente deitou a jovem na cama.

Entre as almofadas acetinadas e o tecido aveludado da colcha a jovem começou a sentir as ondas de energia que Felipe irradiava.

Pulsando o feixe de fibras que todo ser orgânico possui, os humanóides na altura do umbigo, ele já tocava a jovem levando-a a vibrar em desejo.

O corpo maduro, ainda virgem, fora aprisionada de um dos Templos dos Povos das Montanhas de Yarcvr , onde as sacerdotisas virgem guardam seus mistérios e seus himens da curiosidade masculina.

Aos poucos a jovem ardia em prazer.

Felipe entoou os mantras tântricos e a jovem arfou, sequiosa de um membro viril que matasse a fome de seu corpo, até então quase toda saciada nos ritos de sua irmandade.

O som tocava as terminações nervosas, biológicas e o velho instinto, ancestral e dominante possuiu a jovem.

O transe era pleno.

Pulsando seu corpo no mesmo tom Felipe conduziu a jovem pelos caminhos do êxtase tântrico.

Seus corpos se contemplaram, se tocaram com a leveza da brisa e a intensidade das tempestades.

Suor e saliva aos poucos se misturaram.

Sons em tons, específicos tons.

Felipe sabia como conduzir a jovem agora.

Ela estava totalmente entregue em suas mãos.

E ele estava excitado totalmente excitado.

Nunca fora além desse ponto, pois em toda a Escola de Torhn se considera necromancia usar outro ser sem este estar consciente.

Mas o ato que a pouco realizara ao ir ao mundo dos parasitas Sombrios lhe tornava imune a toda consciência moral que ainda pudesse possuir.

A jovem em suas mãos não tem consciência treinada para operar em tais níveis de energia.

Está em transe, vivendo fantasias não realizadas.

Prisioneira de fantasias.

Felipe pulsa seu chacra raiz.

O som, a forma geométrica, a cor, o tom.

A jovem responde.

Ela está tomada, seus centros superiores foram ligados mas os básicos não sabem como conectá-los.

Felipe liga-se neles.

Chacra a chacra, até que a mulher entra em tal êxtase que ele mesmo quase perde o controle tal o prazer que o possui. Mas sabe manter-se no limiar, sabe envolver-se sem se entregar.

Pleno de um poder estranho ele controla sua ejaculação e conduz a energia pelo caduceu.

Pulsa um campo a sua volta, a volta de onde está e só então deixa que seu membro penetre totalmente a mulher.

Um gemido a leva ao explodir do transe.

Um pequeno fluxo de sangue escorre até a bandeira do povo que a capturou e enviou como tributo.

Já há sangue no pendão.

Sangue dos mortos na luta para salvar a bandeira milenar dos que pretendiam vender seu povo.

Monges ferozes e hábeis, mas poucos.

Desarmados e perplexos demais.

Alguém já disse em algum lugar que a invenção de armas permitiu aos covardes e desonrrados dominar o mundo.

Dois sangues, o poder do medo e o poder do prazer inconsciente.

Felipe estava com sua consciência ampliadíssima.

Era um tantrista, adepto do mais terrível e abominável tantra.

Capaz de manter sua consciência operando mesmo em tais níveis de amplitude.

Forjou a bolha de proteção ao redor de si e criou outra ao redor da grande cama.

Sua consciência estava ampla, bordejando outros mundos de pura energia.

Voltou para o mundo cotidiano com os gritos da jovem.

O olhar ensandecido, saltados.

Felipe sabia o que havia acontecido.

Ela fora exposta a mais poder que poderia elaborar conscientemente.

Subitamente inundado por tanto poder seu racional se queimara, se desfizera.

Como um cristal arquivo que se apaga se for exposto a um pulso de certo tom.

Felipe equilibrou sua pulsação e permitiu que uma aparência humana retorna-se ao seu olhar.

Era disciplinado o bastante para nunca olhar no espelho mas sabia que nunca mais teria um olhar humano, a não ser esta paródia vulgar que só o ocultava o fato dos não treinados.

Como enfrentaria o olhar de seus antigos mestres e amigos quando os visse?

Tolice, se os visse novamente seria para assinar suas sentenças de morte, pois ele agora consumara o ato que iniciara há muito, muito tempo, naquele ensolarado dia que descera para os túneis secretos sob o castelo, ainda adolescente, para ser apresentado ao elo sombrio, o ser intermediário que o levara até seu mestre.

Naquele dia trocara o dia ensolarado pelas sombrias cavernas e acreditava dentro de si mesmo nunca ter saído realmente das sombras.

Há tempos se tornara um desgarrado.

Hoje apenas confirmara tal ato.

Chamou suas guardas e elas levaram a jovem.

Quando os gritos da jovem foram ficando distantes, perdidos nos corredores de pedra que levam as alas internas da fortaleza, deixou de pensar no que os soldados fariam com ela.

Sentou-se num nicho de pedra que tinha num dos cantos.

Sobre o nicho cristais das sete cores num arranjo exótico.

Um campo de nulificação.

Ali, dentro daquele campo nenhum psíquico poderia rastreá-lo.

Abriu uma pequena gaveta e dela tirou uma flauta de tom acobreado.

Era uma flauta Parola.

Flautas que eram vendidas com grandes blocos de uma pedra usados como cofre.

O cofre era um cubo da pedra dentro de uma camada de um material radioativo de alta intensidade que ficava dentro de outra pedra.

Assim , nesse arranjo sanduíche ficava o cofre interior.

A flauta ao ser tocada criava um cone até o cofre interno, uma abertura.

Se por algum outro meio tentassem abrir o cubo cofre o material radioativo vazaria, destruindo o material no seu interior e contaminando todo o ambiente e todos que estivessem próximos.

O bico da flauta, onde a língua devia tocar, era mantido liso com um veneno específico, algo que era geneticamente desenvolvido para só não afetar uma específica pessoa.

Era um artificio engenhoso.

Mas o que guardaria Felipe ali?

Um grosso volume de folhas finissimas.

Capa dura, de madeira talhada e incrustaçoes.

Felipe abre o grande livro e com uma pena e tinteiro põe-se a escrever.

Que não escreveria em seu diário o homem que estava a trair toda a teia e condenar bilhões de seres a morte ou a escravidão?

Nuvem que passa

Predadores e reptilianos no Caminho do Xamã

Quando o breve crepúsculo equatoriano foi substituído pela escuridão, Tomás pôs um quarto do líquido numa cabaça e disse-me que o bebesse. Todos os índios observavam. Senti-me como Sócrates entre os compatriotas atenienses, aceitando a cicuta — pois me ocorrera que um dos nomes alternativos que o povo do Amazonas peruano dava à ayahuasca era "a pequena morte". Bebi a poção rapidamente. Tinha um sabor estranho, ligeiramente amargo. Então, esperei que Tomás também bebesse, mas ele disse que afinal resolvera não participar.


Amarraram-me na plataforma de bambu, sob o grande teto feito de colmo da casa comunal. A aldeia estava silenciosa, exceto pelo cricrilar dos grilos e os guinchos do macaco ruivo, nas profundezas da selva.


Enquanto olhava para cima, na escuridão, tênues linhas de luz apareceram. Tornaram-se mais nítidas, mais intrincadas e explodiram em cores brilhantes. De muito longe vieram sons, como os de uma cascata, e foram se fazendo cada vez mais fortes, até encherem meus ouvidos.


Minutos antes eu me sentira desapontado, certo de que a ayahuasca não ia ter efeito sobre mim. Agora, o som da água em movimento inundava meu cérebro. Meu maxilar começou a ficar entorpecido, e aquele entorpecimento ia subindo para as têmporas.


Sobre a minha cabeça, as linhas indistintas formavam um dossel que parecia um mosaico geométrico de vidro pintado. A brilhante tonalidade violeta formava um teto que se expandia sem cessar sobre mim. Dentro daquela caverna celestial, ouvi o som da água aumentar e pude ver figuras nebulosas, que faziam movimentos espectrais. Quando meus olhos se ajustaram ao escuro, a cena movimentada reduziu-se a algo que se assemelhava a um imenso parque de diversões, a uma orgia sobrenatural de demônios. Ao centro, presidindo as atividades, e olhando diretamente para mim, havia uma gigantesca cabeça de crocodilo mostrando os dentes, de cujas mandíbulas cavernosas jorrava uma enxurrada torrencial de água. Lentamente, a água foi subindo, até que a cena transformou-se em simples dualidade de céu azul sobre o mar. Todas as criaturas se haviam desvanecido.


Então, da posição onde eu estava, próximo à superfície da água, comecei a ver dois barcos estranhos, vagando de cá para lá, flutuando no ar em minha direção e aproximando-se cada vez mais. Lentamente, juntaram-se, formando uma só embarcação, com imensa cabeça de dragão na proa, não muito diferente de um barco viking. No meio do navio erguia-se uma vela quadrada. Aos poucos, enquanto o barco serenamente flutuava de cá para lá sobre mim, ouvi um som rítmico sibilante e vi que se tratava de uma galera gigantesca, com centenas de remos, movendo-se em cadência com o som.


Tornei-me consciente, então, do mais belo cântico que tinha ouvido em minha vida, em alto som, e etéreo, emanado de miríades de vozes a bordo da galera. Olhando com mais atenção para o convés, pude distinguir grande número de seres com cabeça de gaio azul e corpo de homem, bastante parecidos com os deuses do antigo Egito, com cabeça de pássaro, que eram pintados nas sepulturas. Ao mesmo tempo, uma essência de energia, advinda do navio, começou a flutuar em meu peito. Embora eu pensasse que era ateu, fiquei inteiramente certo de que estava morrendo, e de que aquelas cabeças de pássaro tinham vindo buscar a minha alma para levá-la ao barco. Enquanto o fluxo da alma continuava a sair do meu peito, percebi que as extremidades do meu corpo iam fazendo-se entorpecidas.


Começando pelos braços e pelas pernas, vagarosamente, tive a impressão de meu corpo estar se tornando de concreto. Eu não podia me mover, nem falar. Aos poucos, esse entorpecimento fechou-se sobre o meu peito, na direção do coração, e tentei usar a boca para pedir ajuda, para pedir um antídoto aos índios. Por mais que tentasse, entretanto, não conseguia dominar a minha força o bastante para pronunciar uma palavra. Simultaneamente, meu abdômen parecia se tornar de pedra, e tive de fazer um tremendo esforço para manter meu coração batendo.


Comecei a chamar meu coração de amigo, meu mais querido amigo, a falar com ele, a encorajá-lo a bater, com toda a força que ainda me restava.


Fiz-me consciente do meu cérebro. Senti — fisicamente — que ele tinha sido dividido em quatro níveis distintos. Na superfície superior estava o observador, o comandante, consciente da condição do meu corpo e responsável pela tentativa de manter o coração funcionando. Percebi, mas apenas como espectador, a visão que emanava do que pareciam ser as partes mais profundas do cérebro. Imediatamente abaixo do nível mais alto, senti uma camada entorpecida, que parecia ter sido posta fora de ação pela droga, e ali não estava. O nível seguinte era a fonte de minhas visões, inclusive a do barco da alma.


Agora, eu me sentia virtualmente certo de que estava para morrer. Enquanto tentava avaliar meu destino, uma parte ainda Interior do meu cérebro começou a transmitir mais visões e informações — "disseram-me" que esse novo material me estava sendo apresentado porque eu ia morrer e, portanto, estava "pronto" para receber aquelas revelações. Informaram-me que se tratava de segredos reservados aos agonizantes e aos mortos. Apenas vagamente, pude perceber os que me transmitiam esses pensamentos: répteis gigantes, repousando apaticamente na mais ínfima região da parte de trás do meu cérebro, no ponto onde ele encontra a parte superior da coluna espinhal. Eu só podia vê-los de forma nebulosa e, assim, pareciam-me profundezas sombrias, tenebrosas.


Depois, eles projetaram uma cena diante de mim. Primeiro, mostraram-me o planeta Terra tal como era há uma eternidade atrás, antes que nele houvesse vida. Vi o oceano, a terra nua e o brilhante céu azul.


Então, flocos pretos caíram do céu, às centenas, e pousaram diante de mim, na paisagem nua. Pude ver que esses "flocos" eram, na verdade, grandes e brilhantes criaturas negras, com reforçadas asas que assemelhavam-se as dos pterodátilos e imensos corpos como o da baleia. Suas cabeças não eram visíveis a mim. Tombaram pesadamente, mais do que exaustas pela viagem feita, que durara épocas infinitas, Explicaram-me, numa espécie de linguagem mental, que estavam fugindo de alguma coisa, no espaço. Tinham vindo ao planeta Terra a fim de escapar desse inimigo.


Essas criaturas mostraram-me, então, como haviam criado a vida sobre o planeta, com o intuito de se ocultarem sob diversas formas e assim disfarçar sua presença. Diante de mim, a magnificente criação e a especificação das plantas e dos animais — centenas de anos de atividade — foram feitas em tal escala, e com tamanha intensidade, que me é impossível descrever.


Aprendi que essas criaturas semelhantes a dragões estavam, assim, dentro de todas as formas de vida, inclusive no homem. Eram elas os verdadeiros senhores da humanidade e de todo o planeta, foi o que me disseram. Nós, humanos, não passávamos de seus receptáculos e servos. Por isso é que podiam falar comigo de dentro de mim.


Surgindo a partir das profundezas da minha mente, essas revelações alternavam-se com as visões da galera flutuante que quase terminara por levar minha alma para bordo. O barco, com sua tripulação de cabeças de gaio azul no convés, ia aos poucos se afastando, puxando minha força de vida com ele, enquanto seguia em direção a um grande fiorde, flanqueado por algumas colinas erodidas e áridas. Eu sabia que tinha apenas um momento para viver e, estranhamente, não sentia medo daquele povo de cabeças de pássaro, não me importava ceder-lhe a minha alma, se a pudesse manter. Receava, entretanto, que de alguma forma a minha alma não pudesse se manter no plano horizontal do fiorde, mas, por meio de processos desconhecidos, embora sentidos e temidos, fosse capturada, ou recapturada pelos alienígenas das profundezas, com seu aspecto de dragões.


Subitamente senti, de maneira clara, a minha condição de homem, o contraste entre a minha espécie e os antigos répteis ancestrais. Desatei a lutar contra a volta dos antigos, que começavam a parecer cada vez mais alienígenas, e que seriam, possivelmente, perversos. Voltei-me para o auxílio humano.


Com um último esforço, que não pode sequer ser imaginado, mal pude balbuciar uma palavra para os índios: "Remédio!"; vi que corriam para preparar o antídoto e senti que não conseguiriam prepará-lo a tempo. Eu precisava de um guardião que pudesse derrotar os dragões e, desesperadamente, procurei evocar um ser poderoso para proteger-me contra aqueles répteis alienígenas. Um deles apareceu diante de mim e, nesse momento, os índios abriram à força minha boca e nela derramaram o antídoto. Aos poucos, os dragões desapareceram, recuando para as profundezas. O barco das almas e o fiorde já não existiam. Eu, aliviado, relaxei.


O antídoto melhorou radicalmente o meu estado, mas não evitou que viessem novas visões, de natureza mais superficial. Com estas podíamos lidar, eram agradáveis. Fiz viagens fabulosas, á vontade, através de regiões distantes, mesmo para fora da Galáxia, criei arquiteturas incríveis, usei demônios de sorrisos sardônicos para realizar as minhas fantasias. Muitas vezes, dei comigo rindo alto, pelas incongruências das minhas aventuras.


Finalmente, adormeci.


O Caminho do Xamã, de Michael Harner - baixe o livro AQUI


***De acordo com as traduções de Zecharia Sitchin, a palavra Nefilim relaciona-se com “Aqueles que Desceram”, enquanto outros dizem que significa “os que caíram” ou “aqueles que caíram”. Isso é muito parecido com a visão apresentada nesse texto do livro O Caminho do Xamã.

O fim da infância da raça humana - 2ª parte

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Essa é a 3ª e a 4ª parte do Projeto Revelação ou The Project Disclosure. Esse projeto super sério envolve o testemunho de homens em posições chaves do governo americano: militares de alta patente, controladores de vôo, engenheiros especializados em projetos secretos e semelhantes. Eles estão dispostos a testemunhar sobre suas visões e encontros com OVNIs, revelando até então algo que o governo americano não tinha permitido, fazendo pressão sobre o Congresso e o Governo Americano para que abram a caixa preta sobre a questão dos OVNIs e do alienígenas. A 1ª parte se encontra AQUI!




SOLstício de Verão: entrevista genial com Amit Goswami

domingo, 21 de dezembro de 2008

Estamos num momento de plenitude, o sol alcança seu ponto máximo e teremos aqui no hemisfério sul, o dia mais longo do ano e a noite mais curta. Enquanto isso no hemisfério norte teremos o solstício de inverno, com o dia mais curto e a noite mais longa. Mas lá como aqui estaremos em breve festejando o Natal, que é uma festa do solstício do inverno que comemora o retorno da luz. Coisas de uma sociedade globalizada que perdeu a sintonia com os ciclos naturais e vive numa sintonia falsa, antenada nas demandas consumistas de um sistema prestes a falir.

É interessante que o nosso solstício de verão coincida com o domingo, dia do Sol, dia de Oxalá. É um momento interessante para refletirmos como vivemos numa sociedade manipulada por interesses que nada tem a ver com as necessidades humanas como parte de um sistema natural e cósmico muito mais amplo. É um dia para dizemos magicamente NÃO a esta falsidade que aí está e que ainda insiste em permanecer.

Nós que lidamos com a magia sabemos que a mente cria a realidade. A mente cria a realidade.

O que há de comum entre o efeito placebo, o efeito maharishi, o conceito de ponto de aglutinação, o primeiro princípio hermético, a idéia da lei de atração e as recentes descobertas da física tal como apresentadas pelo físico Amit Goswami?



O que há de comum é a idéia de que a mente cria a realidade.

Eles sabem disso e querem manipular a nossa mente para manter a realidade do consenso social. Nós sabemos disso e queremos retomar o controle de nossa mente e dizer não a programação da agenda que eles querem nos impor.

Podemos dizer não ao sistema que eles criaram de formas muito simples e efetivas que os xamãs da linhagem de Don Juan Matus chamariam de não-fazer. Não fazer é um ATO consciente e deliberado para romper com nossos hábitos e rotinas, descubra algo que é uma rotina em sua vida e elimine-a. Simples assim. Pode ser ver TV, pode ser tanta coisa, construir um minhocário, enterrar o lixo orgânico no quintal (se der), romper com um padrão de consumo do tipo beber leite (aliás você já se perguntou porque somos o único mamífero do planeta que bebemos leite mesmo depois de desmamarmos e leite de um tipo diferente e para o qual não possuímos enzima para metabolizar?), começar a meditar...

Essa é uma bela maneira de celebrar o solstício de verão, fazendo com que a luz de nossa própria verdade brilhe mais e mais a despeito das falsas luzes artificiais que insistem em piscar.

Paz e Luz,

F.A.

Meditação - filme O Segredo

sábado, 20 de dezembro de 2008

Download via Dreamule AQUI da 2ª parte do filme O Segredo, que apresenta um vídeo muito didático e instrutivo sobre meditação. Dreamule é um programa de download que pode ser baixado AQUI. Mesmo que você não tenha curtido o filme em si, o vídeo sobre meditação vale a pena.

Esse vídeo sobre meditação também pode ser visto via Youtube, tal como apresento abaixo:

Dica de filme: The Nines

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

The Nines é um excelente filme, mexe com a percepção, não é óbvio, porque confunde a mente linear e, assim, muito pouca gente o compreendeu.

Quem entendeu The Nines?

Nesse sentido The Nines se parece com The Fountain, pois parece que quase ninguém sacou qual é a desses filmes. E eles possuem um tema central comum: nossa condição de seres multidimensionais.

Mas num e noutro nós vemos a crítica fazer abordagens totalmente estapafúrdias, como se tivessem entendido alguma coisa. Certamente o leitor comum, que diz não ter entendido nada, entendeu mais do que os chamados críticos, que apenas acreditaram ter entendido algo, quando na verdade colaram apenas uma interpretação pessoal naquilo que viram. E isso é bem interessante porque uma pergunta que podemos fazer é a seguinte: como vamos interpretar algo que nos é desconhecido? Apenas em termos daquilo que conhecemos. Assim sendo o desconhecido acaba oculto em nossa interpretação.

Isso acontece com The Nines, as pessoas vêem e não entendem, ou então pensam que entendem porque colam uma interpretação que lhes parece aceitável ou plausível. Uma visão da crítica sobre The Nines é que o filme é sobre tv e seu poder de influência cultural. Como diz a música do filme: será que é só isso mesmo? Se assim fosse não haveria um porquê para o fato de na 3ª parte do filme acontecer o que acontece, onde a natureza e condição do The Nines é revelada.

A chave para entender The Nines, a meu ver, e posso estar redondamente enganado, tem muito mais a ver com o mito de Vishnu e de seus avataras, com o conceito de multidimensionalidade e com a idéia, de origem xamânica, de que o sonhador e sonhado podem por identificação se confundir (coisa que ocorre com o personagem principal). E eis aqui uma frase enigmática (eu vim para confundir!) para sintetizar The Nines: é um ser multidimensional no 4º portão do sonhar, que esqueceu que é o sonhador para se tornar o sonhado. O filme é pura viagem e bem pode ter sido feito por um "nine" zodiacal - F.A.

Baixe o filme, via Torrent, AQUI!

Baixe a legenda AQUI!

Depois de ver o filme talvez seja legal dar uma lidinha no texto abaixo pra mergulhar de cabeça.

“Um sonho é um sonho em relação à vigília. Mas um sonho é vigília em relação ao próprio sonho. O sonho não é diferente da vigília. A vigília é dupla” 50:76.

Yoga Vasistha (VI: 2.137)



“A distinção entre o real e o imaginário está apenas em nossas mentes?”

Stephen Hawking – físico


Esperar que a vida seja uma ilusão é um passo para me desligar dela,

morto, maluco ou solitário. Sofrer com as lições da vida é não ver que

por trás do espinho existe a flor, e que a pedra no meu caminho foi colocada

para que eu aprenda a andar e me desviar dela.

Sonhando, o sonho é real. Seja um sonho bom, seja um sonho ruim,

que bom que sempre posso aprender.


O que é realidade? O que é o verdadeiro? A moderna física (Cf. no Volume 1), com a teoria das supercordas, admite e prova matematicamente a possibilidade de múltiplas realidades (o islamismo admite a existência de 18 mil universos criados por Alá), mas a vivência delas, pelo ser humano, é uma função do estado de consciência em que ele se encontra. Vimos que as diversas tradições religiosas falam de diversos estados de consciência, que podem ser desenvolvidos, seja no estado de vigília ou fora dele. Há inúmeras “versões” da realidade, ou dimensões, cada uma com o seu propósito, seu tempo e seu espaço: sua existência. Cada dimensão é tão real quanto mais atenção a nossa mente dá a elas.


O estado de vigília deveria significar uma presença real no “aqui e agora”: estarmos acordados. Mas na verdade vivemos a nossa vigília num estado de hipnotismo, com nossos pensamentos e sentimentos vivendo ou no passado ou no futuro. Não estamos vigilantes e sim adormecidos em nossos pensamentos, sonhando acordados. Viver a realidade vigil significa trazer à consciência o mundo físico, através de nossas sensações, emoções e pensamentos, evocados pelo contato com esse mundo.


Quando passamos a viver o presente conscientemente, passamos a perceber e a interpretar tudo o que nos acontece, o que fazemos e como reagimos. Basicamente, sempre teremos duas formas de interpretar cada situação, uma negativa (como é que ele, ou ela, faz isso comigo?) e uma positiva (o que essa situação quer me mostrr e o que posso aprender com ela), e a partir disso podemos fazer uma miríade de escolhas quanto à ação que iremos realizar, que inclui até nada fazer. mas, presos em nossos "pré-conceitos", situações críticas nos faze perder a noção de totalidade, não vemos as múltiplas formas de perceber os fatos e, presos à negatividade, nos vemos reagindo automaticamente e, na maioria das vezes, extravasando nossas negatividades.


As religiões, a filosofia, a psicologia e, mais recentemente, até a física tem se deparado com essas questões: posso realmente reagir ao que me acontece de uma forma nova (livre-arbítrio) ou estou “condenado” à mesma antiga reação (determinismo)? Uma das conseqüências das equações da relatividade de Einstein é a relatividade do tempo, que em resumo diz que presente, passado e futuro coexistem e são pré-determinados. Quando aumento a minha velocidade e me aproximo à da luz, o meu tempo pessoal passa cada vez mais lento, isso quer dizer que nessa situação tudo à minha volta vai passar mais rápido. Assim, na prática, viajo ao futuro e posso gravar em meu passado (na minha memória) coisas que ainda não aconteceram, mas que vão acontecer pois eu já as vi e já são meu passado.


Então toda mudança pessoal minha, e dos outros, já está “escrita nas estrelas”. Nessa situação nenhuma mudança é real, pois não há mudança, mas apenas um desvio previsto de rota. Tal coisa não existe no mundo microscópico das subpartículas onde nada está determinado e, lógico, não pode ser previsto. Nessa situação a mente do observador tem um papel crucial no que acontece: a mente escolhe o que vai se “materializar”. Ou seja, aquela onda energética de probabilidades (o campo quântico) se torna uma subpartícula e ocupa o seu local no espaço-tempo (o colapso de onda), e todas as outras possibilidades de surgimento no espaço-tempo somem.


Trazendo para o nosso dia-a-dia, diante de uma situação qualquer sempre teremos um “campo quântico” de possibilidades de resposta, mas iremos escolher apenas uma (um colapso de onda) e todas as outras sumirão. No momento seguinte teremos então diversas outras possibilidades, inclusive de desfazer o que escolhemos, e de repente “bum”: outro colapso de onda. Em física quântica, a existência teórica de universos paralelos, que nos faz pensar em um multiverso e não em um universo, nos explica o que pode acontecer com todas as outras infinitas possibilidades de reação (ou, no mundo quântico, de colapso de onda): elas colapsam simultaneamente nessas outras dimensões.


Então seríamos seres multidimensionais, em que infinitas partes nossas vivem todas aquelas escolhas que rejeitamos. E na verdade, todas as possibilidades são escolhidas e todas ocorrem simultaneamente, em múltiplas dimensões, mas a nossa consciência ordinária percebe e vivencia apenas uma. Assim, cada reação nossa envolve uma percepção diferente e uma vivência de nossa consciência em uma dimensão diferente. Quando, conscientemente, percebemos duas opções de interpretação de uma mesma situação em nossas vidas, viajamos entre duas dimensões psíquicas, tão reais quanto as dimensões postuladas pela física moderna.


É uma viagem interdimensional real de nossa consciência entre duas dimensões físicas nossas, fato que está sendo pesquisado seriamente por renomados físicos. Nessa investigação já se conseguiu até fazer com que uma mesma molécula tivesse presença física, simultaneamente, em mais de um lugar diferente. Então, ter uma mudança de percepção seria viajar interdimensionalmente, viagem feita por nossa consciência. É ela quem escolhe em qual dimensão física viver: a de dor e de sofrimento ou a de felicidade e bem-aventurança. Nessa perspectiva, não é a partícula que surge, mas é a nossa consciência que viaja para uma dimensão em que ela tem existência real naquele local e momento.


Quanto mais formas de percepção formos capazes de ter (quanto maior for a nossa visita a outras dimensões psíquicas), maior o leque de opções que a nossa consciência tem para escolher. O ato de tirar nossa consciência do espaço-tempo, fazendo outras coisas e interagindo com outras histórias, é a forma mais simples de não se aprisionar àquela situação de sofrimento. Mas, uma forma mais elaborada é “parar o tempo” e visitar outras dimensões, universos de possibilidades, e a partir daí, escolher onde queremos ficar. Essa viagem, essa mudança de percepção e essa escolha são feitas por aquela parte nossa que transcende o nosso corpo, as nossas emoções e os nossos pensamentos. Essa viagem é feita pela nossa consciência. Vivenciar essa possibilidade é experimentar uma ampliação de nossa consciência, que passa a abranger cada vez mais possibilidades de ser, existir e escolher.


1. OS SONHOS


“Um sonho é um sonho em relação à vigília. Mas um sonho é vigília em relação ao próprio sonho. O sonho não é diferente da vigília. A vigília é dupla” 50:76.

Yoga Vasistha (VI: 2.137)


Outro mundo real é o mundo dos sonhos, pelo menos enquanto estamos imersos nele. A sua porta de entrada é o relaxamento do corpo físico, tendo em sua indução importantes neurotransmissores, como a serotonina. Durante essa imersão, desconectamos a nossa consciência do nosso corpo físico, com suas sensações, e conectamos o nosso sistema psíquico, com suas emoções e pensamentos, com o sistema psíquico do mundo. No processo de desconexão de nossas sensações físicas, geralmente distorções delas ocorrem, de forma que, por exemplo, um latido ouvido pode ser percebido pelo corpo físico como uma sirene. Podem ocorrer também outras sensações físicas como: o levitar, o voar, o cair, ficar imobilizado ou desdobrar-se (ver o próprio corpo dormindo). Essas sensações ocorrem pelo afastamento do corpo energético de seu corpo físico nas fases iniciais do sono. Se formos despertados durante essas fases iniciais, o rápido voltar do corpo energético geralmente traz taquicardia, taquipnéia e uma sensação sufocante no peito junto com uma sensação de que algo entrou ou empurrou o nosso corpo físico.


A essa fase inicial do sono se segue uma outra já descrita: a do sono REM. Esses momentos, em geral entre 90 a 120 minutos por noite, onde a atividade cerebral é tão intensa quanto à da vigília, permitiram que os mamíferos estivessem mais bem preparados que os répteis a se defenderem, pois acordavam mais prontos, ativos e responsivos: todos os mamíferos têm sono REM. Da mesma forma, é essa atividade que permite ao filhote o amadurecimento mais rápido, pois substitui a estimulação externa indutora de desenvolvimento neuronal, e permite a estabilização de conexões neuronais geneticamente programadas, possibilitando o comportamento instintivo de cada espécie.


Durante o tempo gasto em vigília, os receptores cerebrais para as monoaminas (neurotransmissores envolvidos na regulação do humor e da depressão) vão paulatinamente se dessensibilizando ante a liberação contínua delas (noradrenalina, histamina e serotonina) causada pelas exigências emocionais da vida. É no sono REM (ou na meditação) que as células produtoras das monoaminas param totalmente a sua atividade, de forma que os receptores descansem e voltem à sua sensibilidade normal.


De qualquer forma, há uma concordância geral de que o estado de sonho e o de vigília são um continuum da nossa existência, cuja realidade e importância devemos trazer à consciência. Da mesma forma que perdemos contato com o mundo material durante o sono, também perdemos contato com o mundo onírico durante a vigília. Durante a vigília temos apenas algumas lembranças do mundo onírico e durante o sono apenas alguns fatos cotidianos do mundo vígil são sonhados.


Tomar consciência dos nossos sonhos é vivê-los conscientemente de forma que nos lembremos deles tão facilmente quanto nos lembramos de algo ocorrido há uma hora atrás, no mundo vígil. Tomar consciência do mundo onírico, o mundo astral das emoções e desejos, exige uma disciplina rígida, quase um ritual, em que as técnicas de relaxamento, a programação do que se quer sonhar e a anotação dos sonhos em um diário, são pontos críticos que devem ser realizados. Sonhos inacabados devem ser completados. O verdadeiro, e recomendável, sonhar acordado não é viver sonhando no estado vígil e sim ser vígil no estado de sonho: o sonho lúcido.


Para os hindus, o mundo vígil da criação é apenas um sonho de Vishnu. A conscientização plena da transição, do mundo vígil para o onírico, e a do próprio mundo onírico, nos leva a estar preparados e conscientes na hora da transição para o nosso último sonho: o morrer. Nessa hora revemos, como num flash, toda a nossa existência e entramos num mundo desconhecido da maioria da humanidade. O “Livro Tibetano dos Mortos” é uma obra prima que recomenda e ensina a morrer sem perder a consciência (o p’howa).


Sonhamos, em média, 5 a 7 vezes durante uma noite. Podemos sonhar realizando desejos que estão ocorrendo simultaneamente no corpo físico, como o desejo de urinar, de comer ou de ter relações sexuais. Revivemos experiências ocorridas no dia que se encerrou, ou mais distante no passado, que agora podem ocorrer, realizando desejos anteriormente reprimidos. Mas se a repressão tiver sido intensa e forte, e estiver muito escondida no inconsciente, esse reviver pode tomar a forma de símbolos. Esses são sonhos atribuídos ao corpo físico.


Podemos sonhar também de uma forma bastante vívida, onde surgem imagens conhecidas como hipnogógicas, muito mais realistas e “movediças”, onde surgem rostos conhecidos ou não, objetos, paisagens e situações. Existe um outro tipo de sonho que não podemos chamar de sonho, posto que é mais definível como uma viagem fora do corpo físico e parece derivar do sonho com as imagens hipnogógicas. O tipo mais simples dele é quando nos julgamos plenamente acordados e não conseguimos nos mover, ou quando, imobilizados no ar, vemos nosso corpo físico imóvel no leito. Nesse caso, estamos tendo consciência de que os nossos corpos sutis estão afastados do corpo físico. Outras vezes temos a nítida impressão de estarmos caindo, quando subitamente acordamos: é um retorno abrupto dos corpos sutis ao corpo físico.


O que acontece é que, separado do corpo físico no sono, acessamos outra dimensão e podemos viajar mentalmente através do espaço, visitando outros lugares ou encontrando outras pessoas: os sonhos do corpo etérico. Mas às vezes a viagem é maior e excede o nosso espaço-tempo. Quando nos separamos do corpo físico e do etérico, embora permanecendo ligado a eles apenas por um “fio” energético, os nossos demais corpos sutis entram em contato com uma outra realidade, o mundo astral. Nesse mundo dos sentimentos e emoções, vivemos habitando nosso corpo astral, o corpo de desejos, e nos tornamos capazes de viajar no passado: acessamos o inconsciente coletivo da humanidade.


Essa viagem se faz através do tempo e do espaço, numa velocidade superior à velocidade da luz, pois não mais estamos presos às leis da física. O corpo astral tem acesso às três dimensões temporais (gerando retrocognição, clarividência e pré-cognição), e à visão à distância, tópicos estudados pela parapsicologia, podendo fazer “viagens” pelo mundo astral, pelo mundo físico ou a outras dimensões do espaço (mundos paralelos). Na pré-cognição estão os sonhos proféticos e dentro da retrocognição há a viagem ao passado pessoal, ao passado da humanidade, pelo inconsciente coletivo (para quem não acredita em reencarnação), ou pelas memórias de vidas passadas.


Há três tipos de viagens pelas dimensões espaciais. Pode-se viajar pelo mundo físico, visitando amigos, parentes ou outras pessoas, mas sem interagir com elas (sonhos clarividentes), a outros países ou até outros planetas. Pode-se viajar no próprio mundo astral, interagindo com seres astrais, que podem ser pessoas que já morreram, outras pessoas que também estão dormindo ou outros tipos de seres não humanos. E, por fim, pode-se ir a diversos mundos paralelos (os sonhos espirituais) onde se entra em contato, interagindo, com seres desses outros mundos.


A parapsicologia estuda os fenômenos de percepção extra-sensorial (premonição, telepatia e clarividência), os fenômenos de telecinese (interferência direta da mente sobre a matéria) e também as experiências de “quase-morte”, ou seja, os fenômenos de influência da mente e da consciência sobre a matéria.


Os povos antigos (babilônios, assírios, egípcios, gregos e chineses) nunca distinguiram o mundo dos sonhos do mundo da vigília e consideravam os sonhos como orientações ou interferências do plano espiritual no plano material: comunicação com espíritos de mortos ou mensagens de deuses (soluções de problemas, advertências, penitências, etc.).


O respeito ao mundo astral se encontra em todas as escrituras religiosas: os sonhos bíblicos (mais de 600 citações de sonhos podem ser encontradas na Bíblia Sagrada, relacionadas com mensagens divinas aos sonhadores), os sonhos de Maomé com o arcanjo Gabriel (a maior parte do Alcorão lhe foi ditado em sonhos) ou os templos de sonhos de Esculápio, na Grécia antiga. Nesses templos, após banhos, jejuns e orações, o paciente deveria dormir algumas noites até que o primeiro sonho fosse interpretado, de forma a se obter o tratamento médico adequado. Há até um código no Talmud para a interpretação de sonhos.


Os nativos norte-americanos têm no sonho a fonte e fundamento de toda a sua espiritualidade. O xamanismo, surgido no período Neolítico, há pelo menos 10 mil anos atrás, busca resgatar o nosso “espírito guardião” de dentro do nosso “Mundo Profundo”, resgatando energias perdidas no inconsciente (pedaços de alma). A sua viagem a esse Mundo Profundo é realizada por meio de um transe semelhante ao sonho lúcido, podendo, o Xamã, projetar-se no sonho do paciente para curá-lo, ir a mundos inferiores (animal de poder) ou a mundos superiores (seres evoluídos) em busca de ajuda.


São Malaquias, por volta de 1.138, teve uma visão dos 112 papas seguintes, a qual deixou documentada com uma descrição sucinta de cada um deles, visão essa comprovada já 110 vezes. São João Bosco (1.815-1.888) ficou conhecido como o padre que sonhava o futuro. Em psicoterapia, os sonhos são um processo criativo de integração das experiências diárias, resolvendo problemas e inspirando-nos a usar nossos talentos para atingir a totalidade, uma tentativa de autocura da nossa psique, janelas abertas para o mundo interno. Nesses sonhos inspirativos, por exemplo, Dmitri Ivanovitch Mendeleiev (1.834-1.907) formulou a tabela periódica e Elias Howe (1.819-1.867) inventou a máquina de costura.


Para Sigmund Freud (1.856-1.939), o sonho é apenas a realização de um desejo inconsciente reprimido, feita numa linguagem simbólica que precisaria ser interpretada. Carl Gustav Jung (1.875-1.961) concordava com Freud, mas ia mais além, pois considerava os sonhos como uma comunicação vinda diretamente do Self (do “Eu superior”), contendo mensagens pessoais arquetípicas e simbólicas, vindas do inconsciente coletivo, num movimento interior voltado à saúde psíquica. Já Alfred Adler (1.870-1.937) defendia que o sonho era uma forma de nutrição emocional, uma tentativa de solução de problemas numa linguagem metafórica.


A verdadeira função do sonho é nos fazer entrar em contato com uma dimensão interna nossa, invisível e inconsciente, para que padrões energéticos simbólicos (nossos arquétipos) possam ser apreendidos e, uma vez liberados, atinjam a consciência e influenciem no desenvolvimento e expressão da nossa personalidade, no intuito do nosso desenvolvimento pessoal. Jung via no sonho uma oportunidade ímpar de atingirmos a nossa totalidade, a nossa individuação: deixarmos de ser o homem coletivo.


2. A CLARA LUZ



No progredir do sono, a mente (o corpo causal) separa-se da psique (corpo astral) e pode viver o sono sem sonhos, atravessando o vazio e entrando no mundo causal de luz, necessário para que o nosso “Eu superior” se nutra energeticamente de “Luz”. Os tibetanos chamam esse estado de “clara luz”, pois as pessoas que se lembram desse mundo se lembram apenas de ter visto uma luz.


Hoje já há evidências científicas suficientes da importância crucial do sono sem sonhos em nossa vida física. A privação total do sono, com raríssimas exceções, leva à morte após vários meses, enquanto, ao contrário, sete horas de sono por noite correspondem a um tempo maior de vida. É no sono não-REM, livre de sonhos, em que o baixo índice do metabolismo proporciona com que enzimas, antes ocupadas com a manutenção das membranas celulares, agora se encarreguem do reparo das lesões das membranas celulares causadas por radicais livres que foram gerados em momentos de grande metabolismo (vigília).


A negação cética da existência dessas outras realidades, tão reais quanto a vigília, se deve ao fato dessa experiência ser pessoal, ao acaso, mas que pode ser plenamente controlável através de algumas técnicas. Por exemplo, se praticarmos técnicas de relaxamento, até entrarmos num estado de relaxamento profundo, hipnose ou técnicas de regressão, entraremos no mundo astral plenamente conscientes. Experimentaremos “sonhar” plenamente acordados.


Viver consciente nessas três realidades, passando de uma a outra à vontade, nos traz a libertação descrita pelos budistas. Isso significa trazer à consciência física, a existência de três corpos presentes no homem, cada um responsável pelo “viver” em três mundos diferentes e reais dentro da ilusão da Criação: o mundo físico das sensações (Nirmanakaya budista), o mundo astral das emoções e pensamentos (Sambhogakaya budista) e o mundo causal de luz (Dharmakaya budista).


Para os tibetanos, tanto as experiências vividas no mundo vigil quanto as vividas no onírico são ilusórias. Mas a manifestação do Absoluto, o sonho de Vishnu com seus inúmeros mundos, é a realidade relativa em que vivemos. Não são realidades diferentes, mas diferentes formas da mesma realidade num continuum inseparável e, por isso mesmo, interdependentes. O valor de cada realidade é ditado por nossa mente. A mente humana individual é a responsável por atribuir valores a coisas que não tem valor individualmente, mas que só têm valor se consideradas em seu conjunto. A doença humana (física, psíquica e espiritual) vem à existência quando a mente humana começa a separar as realidades e apegar-se, querer viver e valorizar a apenas uma delas.


“A vida é uma sala de projeções mental, macroscópica, onde se passam os sonhos – ilusões de Maya – que se dissolvem no estado vígil da sabedoria suprema... Assim como um sonho desaparece quando a pessoa é acordada, assim, também, este sonho cósmico se dissolve quando o devoto une sua consciência com a perpétua vigília de Deus” 102:139.

Paramahansa Yogananda (1.893-1.952)


Desde que ainda precisemos de comida, sono e meios de obtê-los (trabalhar e lutar), temos de nos empenhar em fazer o melhor. Viver essa realidade. Rotular a vida física como um sonho vazio, sem que se tenha qualquer real percepção da verdade, é o mais crasso erro que se pode cometer. “Se sonhar for necessário, então faça do drama da vida um belo sonho” 102:139 (Paramahansa Yogananda).


É lógico que a realidade última, o Absoluto, não está manifestada. Mas há, por detrás da dimensão hárica do corpo causal, a dimensão mais profunda da manifestação, o nosso âmago. Em verdade é o nosso âmago quem tem o propósito de vida, quem tem a intenção. Não é a personalidade, nem nenhum nível da aura e muito menos a dimensão da intencionalidade quem tem a intenção. Ela provém de nosso Eu mais profundo e fica registrada no nível hárico de onde vem a causa da manifestação áurica e física. A dimensão do conhecedor: Aquele que é o que é, o que foi e o que sempre será, a fonte interna do divino 10:483.


“Embora eu compreenda que... o âmago está em toda a parte, a concentração... no centro do corpo... parece emitir uma luz brilhante [como uma estrela], que é constituída de várias cores... [e] é ao mesmo tempo o Deus individuado dentro de nós e o Deus Universal... A essência do âmago se expressa... nos lugares da sua intenção, nos campos de energia da sua vida, no seu corpo físico e na sua vida; ela se expressa mais plenamente nos lugares em que você está saudável e feliz” 10:484.


Barbara Ann Brennan