Palestra de Carlos Castaneda no Seminário de Mulheres em Los Angeles

sexta-feira, 10 de julho de 2015

OPalestra de Carlos Castaneda no Seminário de Mulheres em Los Angeles

O ponto de aglutinação dos homens olha para fora e o das mulheres para dentro. Isto proporciona uma maneira diferente de interpretar e de perceber, uma visão diferente das coisas. Os bruxos têm insistido desde sempre nessa grande diferença entre homens e mulheres.

Segundo o mundo dos bruxos, as mulheres sabem coisas de uma maneira natural.

Sabem de uma forma que a mente masculina não pode conceber.

A socialização demanda que os homens ditem as normas, o que faz com que se sintam “sagrados”.

Para que este processo funcione, a socialização destroçou as sensações femininas.

As mulheres são mais inteligentes, mas não estão interessadas na taxonomia, em estabelecer categorias. "Taxonomizar" é uma condição masculina. Deixem que eles estabeleçam suas categorias e medidas, vocês não têm por que fazê-lo. Para que teriam que fazê-lo?

Vocês devem ser conscientes do que os homens têm feito a vocês. Inclusive o desejo de liberação, do último século, por parte das mulheres tem sido criado e induzido pelos homens. Desta forma a mulher “liberada” repete os padrões masculinos.

Eles brincam com o papel de “coitados bebezinhos” que vocês cuidam e amamentam. Por que o permitem?

Mas pelas suas próprias características as mulheres carecem de uma filosofia definida, de um sistema de pensamento que possa lhes servir de suporte para sustentar um propósito. O homem bruxo que têm alcançado um nível de sobriedade pode lhes proporcionar este sistema de pensamento. Este é o suporte que pode sustentar uma nova forma de viver.

Don Juan era um homem, mas não era em absoluto um macho, tinha eliminado a raiz do machismo em si mesmo. Para homens e mulheres aceitar que somos seres que vamos a morrer implica num novo arranjo.

Se seguirmos nos comportando como imortais nada novo pode nos acontecer.

As mulheres estão capacitadas para deter o fluxo de pensamentos, podem exercitá-lo com facilidade e entrar num estado quase “vegetativo”, quando estão submetidas a pressões físicas ou psicológicas fortes. Mas a falha radical é que a mulher não é persistente. Têm logrado este estado parcialmente, simplesmente porque são mulheres, sem esforço. Sua indiferença é outro resultado da socialização do macho.

Mas os bruxos querem dar a esta capacidade um propósito transcendente: que esta parada do fluxo de pensamento não se leve a cabo por pressões, por fuga, raiva ou tristeza, mas por um propósito plenamente consciente e dirigido.

Para isto a bruxa precisa se disciplinar num grau extremo.

Desde nosso ponto de vista o grande erro do mundo bruxo de Don Juan foi o seu isolamento, um isolamento que foi mantido de geração em geração e que talvez tenha relação com a preponderância feminina dos grupos de bruxos. As mulheres são muito insulares.

Nós terminamos com esse isolamento. Um seminário deste tipo nunca foi feito antes.

Talvez não possa convencer ninguém, não possa alcançar ninguém, mas estou tentando fazê-lo.

Se as mulheres conseguissem, através da disciplina, deter seu fluxo de pensamentos o que não seriam capazes de ver?

A Tensegridade as ajuda neste propósito, a Tensegridade fala por si mesma.

As mulheres costumam pensar “estou louca”. Isso é a socialização. Não estão loucas em absoluto, simplesmente são mulheres! E essa loucura pode se converter em algo delicioso. Mas vocês vivem de acordo com as idéias dos machos e ainda as interiorizam. Isso sim é loucura.

Tenho visto “garotos bonzinhos” ao meu redor, muitos garotos bonzinhos e submissos que procuram me agradar.

Mas nunca conheci “garotas boazinhas”.

Não levo a serio a mim mesmo. O que é serio para mim é o que faço, e o que faço é a única avenida possível que fui capaz de encontrar, a mais poderosa. Precisa-se de uma grande sobriedade para decidir o que nos esgota no mundo cotidiano.

Aos homens fascina estar num altar. Fascina, e as mulheres o permitem. Exceto em famílias que praticam uma educação equilibrada, de uma mulher ninguém se ocupa a não ser que se case e forme uma família. As mulheres têm sido socializadas para serem inimigas entre si, para serem competidoras. Na realidade todos os homens buscam em vocês as suas “mãezinhas”.

Encarem duma vez o fato de que são mulheres. Chegará o momento em que vocês serão forçadas a cooperar entre si se quiserem que o mundo sobreviva. A raça humana desaparece. Somente vocês são poderosas, mas adoram brincar de ser “menininhas eternas”.

Dentro de todos nós existe um fluxo de conhecimento. Através dele desenvolvemos estados subjetivos que podem se intercambiar e que criam um campo de intersubjetividade que possibilita a comunicação entre as pessoas. Mas a não ser que experimentem as ações práticas do mundo dos bruxos, não há forma de compartilhar com os bruxos uma intersubjetividade. Falar somente de nós mesmos nos impede de ser conscientes do fluxo de energia. Há que forçar o estado de silêncio interno.

Compartilhar a intersubjetividade dos bruxos pode se iniciar com a Tensegridade. Seus movimentos não foram inventados, e sim descobertos, segundo Don Juan entre sete mil e dez mil anos atrás. Os movimentos são um atalho para aquietar o diálogo interno. Não podem mudar essa possibilidade pelas idéias que os homens lhes deram, não é justo que o façam. Façam a Tensegridade como se não existisse o amanhã, porque de fato não existe. Vamos morrer. Que enorme conselheira é a Morte!

Quero lhes dar idéias racionais, um “corpus” de conhecimento a partir do qual possam tomar uma decisão. Eu não as necessito, mas quisera lhes dar minha sobriedade. E quisera ficar para ver a explosão, mas não tenho tempo. Estou indo embora.

Mas a minha pressão sobre vocês não pode de maneira alguma ser pessoal. Isso seria opressão. Vocês têm que decidir individualmente que querem fazê-lo. Como mulheres podem fazê-lo!

Ver que algo assim pode acontecer é para mim enormemente excitante. Será possível? Eu espero que sim, mas não sei.

Dependo de ter sucesso no meu propósito de alcançá-las sobriamente.
Seus pais demoraram anos em socializá-las, agora deverão trabalhar anos para romper essa socialização.

Em 1985 a Mulher Nagual voltou e isto mudou por inteiro o mundo de don Juan. Então nos encontramos totalmente sozinhos, fazendo algo novo que nunca foi intentado antes. Preciso de tempo. Talvez vocês possam ser uma razão de peso para que este tempo me seja concedido.

5 comentários:

a.mar disse...

Existe alguma coisa especial no "poder".

Abraço! Bom Dia!
Sol, hoje está Sol. Ontem foi o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Estivemos a escolher as Sete Maravilhas construidas por portugueses no Mundo. No Brasil estão duas (http://www.7maravilhas.sapo.pt/#/27Maravilhas/Vencedores).
Nós fomos um povo muito poderoso e hoje em dia temos a idéia que somos uns fracos, pequeninos e sem poder nenhum.
No entanto a história fala por nós.
Éramos uma aldeia de mais ou menos três milhões de habitantes em 1500 e chegámos onde chegámos num tempo em que tudo era muito inimaginável. Se calhar por não se poder imaginar é que o medo não ocupava espaço nas nossas mentalidades e o que existia para lá da nossa terra era um desafio a descobrir. Não havia fronteiras para esses desafios. Hoje, estamos engaiolados, limitados por tudo.
Só a morte, de facto, é que nos torna ilimitados e nos desprende da nossa estrutura constituída.

Quando falas em bruxos e feiticeiros fico logo com a cabeça cheia de cenas de filmes de ficção e mistérios secretos das avózinhas. Bruxarias e feitiços.
Acho que é mesmo isso.
Acho que as palavras limitam mesmo e enquadram as coisas e não as deixam ser outras coisas.

De facto quando abro a boca para falar alguma teoria das minhas, como costumam apelidá-las, alguém acaba por me chamar maluca.
Tenho dúvidas que tenha alguma semente de bruxa ou feiticeira dentro de mim, mas se é uma coisa que está na Natureza, então estará em mim também, eu é que não a reconheço.
Eu vejo todo o tipo de meditação com o corpo como uma activação nervosa e quanto mais eu sentir e tiver consciência de cada músculo, tendão, grau de amplitude das minhas articulações, maior é a minha flexibilidade física e mental. Mais células nervosas estão activas, electrificadas, iluminadas. Mais sensível e acordada eu estou. E como estou mais acordada, estou mais atenta e se sinto o meu corpo todo, mais variedade de sensações eu tenho.

O poder levantar o braço tem algo que se lhe diga, mantê-lo tenso, controlar a respiração e saber que quantidade de oxigénio ele precisa para manter a actividade que está a realizar.

Não somos persistentes talvez porque quando a criança cresce dentro de nós temos a experiência de que cresce independentemente da nossa vontade. Nós damos-lhe os traços, mas o todo não depende de nós, há qualquer coisa para além de nós que toma as rédeas.
O poder faz coisas extraordinárias, já tivémos o poder de criar um ser novo, uma nova direcção e possibilidade dentro de nós, ficamos satisfeitas.
E logo aquele ser passa a ser o centro das nossas atenções e nos esquecemos de nós. O leite que os faz crescer está a ser produzido em nós.

Daniele disse...

F.A, estou na fase interorizada, passo sempre por aqui, mas tenho a sensação de que qualquer palavra é insuficiente para descrever o que estou vivendo. Por favor, se tiver mais textos como este poste. O feminino começa a ser real, e é um entrega ao mesmo tempo com direção e propósito indescritível. Estou com muito medo, mas não vou recuar. Intentando acordar e ser uma sonhadora consciente.
Grata pela companhia.
Ps: adorei a parte da loucura.

eu sou anfibia disse...

olá, f.a!

também tenho deixado espaços em meus dias para apreender percepções relacionadas à mulher.

gostaria que postasse mais sobre a mulher e o nagualismo, e falasse um pouco sobre as mulheres feiticeiras treinadas por castaneda.

tenho uma questão sobre a mulher e a raça predadora. em comentários anteriores, vc falou que apenas a energia masculina interessa aos predadores, compreendo que é porque é exatamente igual a deles mesmos.

as mulheres quando se alinharam tão fielmente ao modo de vida masculino, passaram (suponho eu) a servirem aos predadores enquanto fonte de energia também, não mais apenas como 'poedeiras' de outros machos.

dessa forma elas não devem estar passando 'tão batido' no sentido de permanecerem 'desinteressantes' ao predador.

talvez minha pergunta seja - essa 'transformação' em machos é postiça e, desaprendendo-a, a mulher volta a ser mais facilmente 'invisível' para os predadores, ou já tem a atenção suficiente deles a ponto de ter se comprometido coletivamente, como os machos?

ou talvez minha pergunta seja - os machos são os interessantes, ou qualquer um que reproduza os comportamentos que geram as energias que lhes interessam?

agradeço um comentário!
um grande abraço!

F.A. disse...

Aloha, A.Mar, Daniele e Anfíbia!

Estou com um tempo curto pra comentar mais pra semana já volto a carga, ok?

No intento,

F.A.

F.A. disse...

Aloha, Anfíbia.

A energia do macho é a energia que interessa aos predadores. O homem é mais facilmente domesticado e servil do que a mulher. Ele é mais facilmente manipulado. Por isso foi colocado numa posição de poder. Por isso a mulher foi tão fortemente alijada do poder, especialmente na esfera mágica, religiosa e política.

Por ser mais manipulável o homem ficou como um lacaio dos predadores e a mulher teve que ser violentamente submetida em nossa realidade. Nessa realidade como o homem é mais forte, fisicamente, foi usado como "capataz", o "gerente". No sonhar as mulheres são mais fortes, pois possuem mais energia e a energia do Universo é preponderandemente feminina.

Em termos de energia os predadores alimentam-se da energia masculina, mas as mulheres precisam ser submetidas porque são elas que alimentam energeticamente os homens, formando uma cadeia, uma corrente que vai nesse sentido: das mulheres para os homens e dos homens para os predadores.

A principal escravidão da mulher se dá a nível energético, segundo a linhagem de Don Juan Matus.

Na medida em que homens e mulheres ficam submetidos a ideologia machista que domina a nossa sociedade essa pirâmide energética pode se manter, onde as mulheres permanecem na base da pirâmide, os homens ficam numa posição intermediária e os predadores no topo.

Eventualmente, mulheres que estão suficientemente domesticadas chegam a posições de poder, tipo Margaret Thacter.

O mito da queda contido em Gênesis 3 é muito esclarecedor porque revela a verdadeira natureza do deus bíblico, um predador. Recomendo a leitura de Gênesis 3, já que tal mito molda a mente humana faz séculos.

No intento,

F.A.