Mostrando postagens com marcador Naualismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Naualismo. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de julho de 2026

O naualismo como revelação.



Imagine uma vida na qual não há mistério, encantamento, revelação, descoberta, uma vida perfeitamente segura, presa das rotinas, previsível, sem nenhuma surpresa ou fator inesperado, um disco arranhado que toca sem parar a mesma canção, eis a roda do samsara e seus infindáveis giros. Um verdadeiro saco! Uma prisão, de segurança máxima, por certo, mas de morte em vida também. Isso nos indica que a vida propriamente dita para ter graça tem que ter a marca do que é misterioso, do que é miraculoso, do inesperado

A essência da vida é um processo de revelação?

Dar à luz, fiat lux, faça-se a Luz e a luz foi feita. Tais expressões sugerem que a luz é gerada, fabricada, produzida a partir dos mistério da escuridão, do véu oculto do Espírito, do Ser, dessa enigma fundamental do olho que não pode ser visto. Nos deparamos então com o primeiro cerne abstrato do naualismo:

As manifestações do espírito (extraído do Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda):

— A primeira história de feitiçaria que vou lhe contar é chamada “As manifestações do espírito” — começou Don Juan —, mas não deixe que o título o mistifique. As manifestações do espírito são apenas o primeiro cerne abstrato ao redor do qual a primeira história de feitiçaria está construída.

“Esse primeiro cerne abstrato é uma história em si mesma. A história diz que tempos atrás houve um homem, um homem comum sem quaisquer atributos especiais. Era, como todos os demais, um conduto para o espírito. E em virtude disso, como todos os demais, era parte do espírito, parte do abstrato. Mas não sabia disso. O mundo mantinha-o tão ocupado que ele realmente não tinha o tempo nem a inclinação para examinar o assunto.

“O espírito tentou, sem sucesso, revelar sua conexão. Usando uma voz interior, o espírito revelou seus segredos, mas o homem era incapaz de compreender as revelações. Naturalmente, ouvia a voz interior, mas acreditava que fossem seus próprios sentimentos que estava sentindo e seus próprios pensamentos que estava pensando.

“O espírito, para sacudi-lo de sua modorra, deu-lhe três sinais, três manifestações sucessivas. O espírito cruzou fisicamente o caminho do homem da maneira mais óbvia. Mas o homem estava alheio a qualquer coisa a não ser a preocupação consigo mesmo.

Até aqui a citação do livro O Poder do Silêncio, do naual Dr. Carlos Castaneda.

Pelo que lemos nos é mostrado que a história é um processo de revelação, uma relação entre o Espírito e o ser humano, uma relação na qual o Espírito é a parte ativa, pois tenta revelar sua conexão, e o humano a parte passiva e até mesmo reativa, pois incapaz de perceber a conexão devido a sua preocupação consigo mesmo.

Aqui também o naual Carlos Castaneda nos revela que todos indiscriminadamente, e não apenas os nauais, são condutos do Espírito, todo homem e toda a mulher possuem uma conexão direta com o Poder e, portanto, são expressões do Abstrato.

Assim a história de cada um e de todos nós é a história das revelações do Espírito, estejamos ou não conscientes desse processo histórico. 

As manifestações do espírito se dão através:

Da voz interior, ou seja, não precisamos necessariamente que alguém o faça por nós, tais revelações podem se dar em nosso próprio interior, em nosso espaço íntimo, sagrado, em nosso coração.

O espírito pode manifestar-se fisicamente, como um acontecimento ou evento concreto, material, que cruza o caminho do ser, ou seja, as manifestações do espírito podem ser subjetivas (no interior do humano) ou objetivas (no espaço físico).

Não limites para as manifestações do espírito. Nós somos parte do espírito, do naual, do abstrato, então, nós somos também ilimitados em nossas manifestações. Eis aí o que precisamos compreender. Eis aí também por que as histórias de feitiçaria, do naualismo, dos xamãs-guerreiros são importantes, pois elas são indicadoras do processo pelo qual o Espírito se revela ao ser humano.

Daí falar-se em uma Era da Revelação específica é muito estranho, tem um cheiro de falácia no ar, pois não há Era na História humana na qual o Espírito não se manifeste para revelar de fato os segredos mais profundos ao ser humano. A questão é ele estar atento a isto e não enredado em distrações ou preocupações cotidianas que o impeçam de vislumbrar e compreender o verdadeiramente o miraculoso, o milagroso e o mágico na vida.

A ignorância fundamental aqui é desconhecermos a nossa origem, que todos nós somos condutos do espírito, tenhamos ou não a configuração energética própria de um naual. Assim todo esforço de revelação torna-se um processo de auto-revelação ou auto-investigação na qual a pergunta fundamental é: quem sou eu? Que não se busque aqui uma resposta intelectual, no campo da mente, mas uma vivência direta no âmbito do ser que percebe em si mesmo o abstrato, o infinito, o naual.

Manifestação vem de mão (manus) e segurar (festus), mas o que segura a mão que manifesta? O levantamento do véu, do mistério, do segredo, um processo que é íntimo, pessoal, pois se dá no interior de cada ser que está suficientemente preparado para percebê-lo. Assim se a revelação é um processo dialético entre o Espírito e o ser humano, é preciso que nessa re(ve)lação, em algum momento o humano se dê conta de que ele mesmo é o Espírito. Então nos deparamos com o que poderíamos chamar de "advaita naual", só para brincar com o conceito da filosofia da não-dualidade:

Advaita Naual


Naual não é um espírito familiar, ancestral ou animal, mas pode usar de toda e qualquer aparência e parecer-se como tal. É simples_mente o Espírito, algo indefinível, indescritível, absoluto, abstrato. É abstrato não em oposição ao que é concreto, mas por ser aquilo que sustenta toda a manifestação, o substrato de tudo, a essência, aquilo que subsiste de forma irredutível depois de tudo ter sido extraído, aquilo que resta após a dissolução, aquilo que coagula após o solve alquímico, o pó, o vibhuti, o ser. Nenhuma palavra O descreverá, pode ser experimentado, pode ser conhecido além de todo conceito. Nenhuma visão poderá revelá-lo, poderá ser um dedo apontando para a lua ou o indicador levantado para o vasto céu, ou ainda, o dedo sobre o lábios: "summa iru", apenas seja.
 

O INTENTO - O ESPÍRITO - O ABSTRATO - O NAUAL - A ÁGUIA - O PODER - O INFINITO - O MAR ESCURO DA CONSCIÊNCIA  

Extraído do Poder do Silêncio, do Dr. Carlos Castaneda

A história diz que tempos atrás houve um homem, um homem comum sem quaisquer atributos especiais. Era, como todos os demais, um conduto para o espírito. E em virtude disso, como todos os demais, era parte do espírito, parte do abstrato. Mas não sabia disso. O mundo mantinha-o tão ocupado que ele realmente não tinha o tempo nem a inclinação para examinar o assunto.

***

A única maneira de conhecer o intento — replicou — é conhecê-lo diretamente através de uma conexão viva que existe entre o intento e todos os seres sencientes. Os feiticeiros chamam de intento o indescritível, o espírito, o abstrato, o naual. Eu preferiria chamá-lo naual, mas isto se sobrepõe com o nome para o líder, o benfeitor, que também é chamado naual, portanto optei por chamá-lo espírito, intento, o abstrato.

***

Ele estava dizendo que a primeira história de feitiçaria concernente às manifestações do espírito era um relato do relacionamento entre o intento e o naual.

***

O espírito manifesta-se a um feiticeiro, em especial a um naual, a todo momento. Entretanto, esta não é a verdade completa. A verdade completa é que o espírito se revela a todos com a mesma intensidade e consistência, mas apenas os feiticeiros, e os nauais em particular, estão sintonizados a tais revelações.

***

Reconheceu o vôo do falcão assim como a aparência do homem como manifestações óbvias do espírito que não podia desdenhar. 

***

— Já lhe expliquei que não há maneira de falar sobre o espírito — continuou — porque espírito pode apenas ser experimentado. Os feiticeiros tentam explicar essa condição quando afirmam que o espírito não é nada que você possa ver ou sentir. Mas está pairando sobre nós o tempo todo. Às vezes vem para algum de nós. Durante a maior parte do tempo parece indiferente.

Fiquei quieto. E Don Juan continuou a explicar. Disse que de muitas maneiras o espírito era uma espécie de animal selvagem. Mantinha distância de nós até o momento em que algo atraía-o. Era então que o espírito se manifestava.

***

— O seu problema — disse ele — é que você considera apenas a sua própria ideia do que é abstrato. Por exemplo, a essência interior do homem, ou o princípio fundamental, são abstratos para você. Ou talvez algo um pouco menos vago, tal como caráter, volição, coragem, dignidade, honra. O espírito, naturalmente, pode ser descrito em termos de todas essas coisas. E é isso que é tão confuso, é que é todas essas coisas e nenhuma delas.

Acrescentou que o que eu considerava abstrações eram ou os opostos de todas as praticidades sobre os quais eu podia pensar ou coisas que eu decidira não ter existência concreta.

— E no entanto, para um feiticeiro um abstrato é algo sem paralelo na condição humana.

— Mas são a mesma coisa — gritei. — Não vê que estamos ambos falando sobre a mesma coisa?

— Não estamos — insistiu. — Para um feiticeiro, o espírito é um abstrato simplesmente porque ele o conhece sem palavras ou mesmo pensamentos. E um abstrato porque não pode conceber o que seja o espírito. E no entanto, sem a menor chance ou desejo de compreendê-lo, um feiticeiro manipula o espírito. Reconhece-o, acena-lhe, convida-o, familiariza-se com ele, e expressa-o através de seus atos.

Sacudi a cabeça em desespero. Não podia ver a diferença.

— A raiz de sua concepção errônea é que usei o termo “abstrato” para descrever o espírito — explicou. — Para você, abstratos são palavras que descrevem status da intuição. Um exemplo é a palavra “espírito”,  que não descreve a razão ou a experiência pragmática, e a qual, naturalmente, não tem utilidade para você senão a de estimular  sua imaginação.

Eu estava furioso com Don Juan. Chamei-o de obstinado, e riu de mim. Sugeri que se eu pensasse sobre a proposição de que o conhecimento podia ser independente da linguagem, sem preocupar-me em compreendê-la, talvez pudesse ver a luz.

— Considerei isto — afirmou. — Não foi o ato de encontrar-me que importou para você. No dia em que o encontrei, você descobriu o abstrato. Mas uma vez que não podia falar a respeito, você não o percebeu. Os feiticeiros encontram o abstrato sem pensar a respeito, sem vê-lo, tocá-lo ou sentir sua presença.

***

Então lembrou-me de que eu já havia ouvido o seu relato detalhado sobre a primeira vez em que o espírito havia batido à sua porta. Por um momento não pude deduzir sobre o que estava falando.

— Não foi simplesmente o meu benfeitor quem tropeçou em mim quando eu estava morrendo do tiro — explicou. — O espírito também me encontrou e bateu à minha porta naquele dia. Meu benfeitor compreendeu que estava ali para ser um conduto para o espírito. Sem a intervenção do espírito, encontrar meu benfeitor não teria significado coisa alguma.

Explicou que um naual pode ser um conduto apenas depois que o espírito tenha manifestado sua intenção de ser usado — seja quase imperceptivelmente ou através de comandos diretos. Dessa maneira, não era possível para um naual escolher seus aprendizes de acordo com sua própria volição ou seus próprios cálculos. Mas, uma vez que a disposição do espírito era revelada através de presságios, o naual não poupava esforços para satisfazê-lo.

***

— Um aprendiz é alguém que está lutando para limpar e reviver seu elo de conexão com o espírito — explicou. — Uma vez que o elo é revivido, ele não é mais um aprendiz, mas até esse momento, para manter-se em movimento, necessita de um propósito ferrenho, o qual, naturalmente, não possui. Assim, permite ao naual que proporcione o propósito de que faça o que é necessário para renunciar à sua individualidade. Esta é a parte difícil.

***

Sentamo-nos ali e Don Juan retornou nossa conversação às histórias de feitiçaria. Avisou que agora eu sabia a história do intento manifestando-se ao naual Elias e a história do espírito assaltando a porta do naual Julian. E eu sabia como ele havia encontrado o espírito, e decerto não podia esquecer como eu o havia encontrado. Todas essas histórias, declarou, apresentavam a mesma estrutura; apenas os caracteres diferiam. Cada história era uma tragicomédia abstrata com um participante abstrato, o intento e dois atores humanos, o naual e seu aprendiz. O texto era o cerne abstrato.

***

— Os feiticeiros dizem que o quarto cerne abstrato ocorre quando o espírito corta nossas cadeias de auto-reflexão. Cortar nossas cadeias é maravilhoso, mas também muito indesejável, pois ninguém deseja ser livre.

***

— Uma vez que nossas correntes são cortadas — continuou Don Juan —, não estamos mais presos pelas preocupações do mundo cotidiano. Permanecemos no mundo cotidiano, mas não pertencemos mais a ele. Para isso ocorrer, devemos partilhar das preocupações das pessoas, e sem correntes não conseguimos.

Don Juan contou que o naual Elias explicara-lhe que o que distingue pessoas normais é que partilhamos de um punhal metafórico. As preocupações de nossa auto-reflexão. Com esse punhal, cortamo-nos e sangramos; e o trabalho de nossas cadeias de auto-reflexão é proporcionar-nos a sensação de que estamos sangrando juntos, que estamos partilhando de algo maravilhoso: nossa humanidade. Mas se fôssemos examiná-lo, iríamos descobrir que sangramos sozinhos; que não estamos partilhando nada; que tudo o que estamos fazendo é brincar com nossa reflexão, manipulável e irreal, feita pelo homem.

***

Numa voz calma, Don Juan disse-me que pela primeira vez em minha vida eu havia visto o espírito, a força que sustenta o universo. Enfatizou que intento não é algo que alguém possa usar ou comandar ou mover de algum modo — não obstante, podia-se usá-lo, comandá-lo ou movê-lo como se desejasse. Essa contradição, explicou, é a essência da feitiçaria. A falha de compreendê-lo havia levado gerações de feiticeiros à dor e à pena inimagináveis. Os nauais dos dias modernos, num esforço para evitar pagar esse preço em dor, haviam desenvolvido um código de comportamento chamado o caminho do guerreiro, ou a ação impecável, o qual preparava os feiticeiros realçando sua sobriedade e prudência.

 ***

Examinada dessa maneira, a feitiçaria torna-se uma tentativa de restabelecer nosso conhecimento do intento e recuperar seu uso sem sucumbir a ele. E os cernes abstratos das histórias de feitiçarias são sombras de realização, graus de nossa consciência do intento.
 

***

Disse que, misterioso como era o movimento para a consciência intensificada, tudo o que alguém necessitava para realizá-lo era a presença do espírito.
 

***

...saiba é que realmente não há procedimento envolvido em fazer o ponto de aglutinação mover-se. O espírito toca o aprendiz, e seu ponto de aglutinação se move. É simples como isso.

***

Os feiticeiros acreditam que, quando o homem tornou-se consciente de que sabia, e quis ficar consciente do que sabia, perdeu a visão deste saber. Esse conhecimento silencioso, que você não consegue descrever, é, naturalmente, o intento — o espírito, o abstrato. O erro do homem foi querer conhecê-lo diretamente, da maneira como conhecia a vida cotidiana. Quanto mais o desejava, tanto mais efêmero este se tornava.

— Mas o que significa isso em palavras simples, Don Juan?

— Significa que o homem renunciou ao conhecimento silencioso pelo mundo da razão. Quanto mais se agarra ao mundo da razão, tanto mais efêmero se torna o intento.

***

Transforme tudo naquilo que realmente é; o abstrato, o espírito, o naual. Não há bruxaria, nem mal, nem diabo. Existe apenas percepção.

*** 

— Não é sobre isto que estou falando — disse ele, rindo. — A ideia do abstrato, do espírito, é o único fator importante. A ideia do eu pessoal não tem valor algum. Você continua a colocar a si mesmo e seus próprios sentimentos na frente. Toda vez que tive oportunidade, agi consciente da necessidade de abstrair. Você sempre acreditou que eu pensava de modo abstrato. Não. Abstrair significa fazer você mesmo disponível ao espírito, estando consciente dele.

Sinal de Fumaça

O naualismo como revelação.

Imagine uma vida na qual não há mistério, encantamento, revelação, descoberta, uma vida perfeitamente segura, presa das rotinas, previsível,...