
quinta-feira, 23 de novembro de 2023
Observação de si, atenção e pequenos hábitos

Vipashyana - Meditação sobre a Vacuidade, por Sangye Khadro
Todos os ensinamentos buddhistas têm o objetivo de nos conduzir gradualmente à realização da vacuidade. Aqui, "vacuidade" significa a vacuidade de existência inerente, concreta, e a erradicação total em nossa mente deste falso modo de ver as coisas marca nosso atingimento da iluminação, do estado búddhico.
O que é "vacuidade de existência inerente"? Em termos práticos, o que isso significa? A assim-chamada "existência inerente" — da qual todos as coisas são ditas como sendo vazias — é uma qualidade que projetamos instintivamente sobre cada pessoa e coisa que experienciamos. Nós vemos as coisas como total e solidamente existentes em e por si mesmas, por sua própria parte, com sua própria natureza, bem independentes de qualquer outra coisa e condição, ou de nossa própria mente que as experiencia.
Pegue uma mesa, por exemplo. Vemos uma mesa sólida, independente, lá, tão obviamente uma mesa que até mesmo questioná-la parece ridículo. Mas onde está a mesa? Onde a sua "mesidade" está localizada? É uma de suas pernas? Ou é o seu topo? É uma de suas partes? Ou mesmo um de seus átomos? Quando ela passou a ser uma mesa? Quantas partes você deve tirar antes de ela deixar de ser uma mesa?
Se você investigar totalmente, descobrirá que simplesmente não pode encontrar a mesa que pensa estar lá. Há, entretanto, uma mesa interdependente, que muda de momento a momento, não-inerente, mas não é isto que vemos. Este é o X do problema. Nós não experienciamos a realidade nua de cada coisa e de cada pessoa, mas sim uma imagem exagerada da realidade, cheia, projetada pela nossa mente. Este erro marca cada uma de nossas experiências mentais, é bem instintivo e é a própria raiz de todos os nossos problemas.
A penetrante desordem mental começa com a apreensão errônea de nosso próprio "eu". Nós somos compostos pelo corpo — uma massa de carne, ossos e pelo — e pela mente — um fluxo de pensamentos, sentimentos e percepções. O composto é convencionalmente conhecido como "Maria", "João", "mulher", "homem". É uma aliança temporária que termina com a morte do corpo e com o fluir da mente para outras experiências.
Estes fatos rígidos, não-embelezados, podem ser inquietantes. Uma parte de nós, o ego, desejando segurança e imortalidade, inventa um "eu" inerente, independente, permanente. Não é um processo deliberado, consciente, mas ele toma lugar nas profundezas de nossa mente subconsciente.
O "eu" fantasiado aparece de maneira especialmente forte nas horas de stress, excitamento ou medo. Por exemplo, quando nós escapamos por pouco de um acidente, há um poderoso senso de um "eu" que quase sofreu morte ou dor, e que deve ser protegido. Esse "eu" não existe, é uma alucinação. Nossa aderência a este falso "eu" — conhecida como a ignorância do auto-apego — macula todas as nossas relações com o mundo. Nós somos atraídos por pessoas, lugares e situações que gratificam e mantém nossa auto-imagem, e reagiremos com medo ou animosidade a tudo que a ameace. Nós vemos todas as pessoas e coisas como definitivamente deste modo ou daquele. Assim esta raiz, o auto-apego, ramifica-se em apego, inveja, ódio, arrogância, depressão e na miríade de outros estados mentais turbulentos e infelizes.
A solução final é eliminar esta ignorância raiz com a sabedoria que realiza, em tudo o que experienciamos, a vacuidade das falsas qualidades que projetamos sobre eles. Esta é a transformação última da mente.
A vacuidade soa bem abstrata, mas de fato é muito prática e relevante para nossas vidas. O primeiro passo para entendê-la é tentar ter uma ideia do que pensamos existir; localizar, por exemplo, o "eu" em que acreditamos tão fortemente, usando o raciocínio claro na meditação analítica, ver que ele é uma mera fabricação, que é algo que nunca existiu e nem mesmo poderia existir.
Mas não exagere! Você definitivamente existe! Há um "eu" convencional, interdependente, que experiencia a felicidade e o sofrimento, que trabalha, estuda, dorme, medita e se torna iluminado. A primeira e mais difícil tarefa é distinguir entre este "eu" válido e o fabricado; geralmente nós não podemos distingui-los. Na concentração da meditação, é possível ver a diferença, reconhecer o "eu" ilusório e erradicar nossa crença habitual nele. A meditação aqui é um primeiro passo prático nessa direção.
A prática
Comece com uma meditação sobre a respiração para relaxar e acalmar sua mente. Motive-se fortemente para fazer esta meditação com o objetivo de se tornar se iluminado pelo benefício de todos os seres.
Agora, alerta como um espião, vagarosa e cuidadosamente torne-se consciente do "eu". Quem ou o quê está pensando, sentindo e meditando? Como parece que ele veio à existência? Como ele aparece para você? O seu "eu" é uma criação de sua mente? Ou é algo que existe concreta e independentemente em seu próprio direito?
Se você acha que pode identificá-lo, tente localizá-lo. Onde está o "eu"? Está na sua cabeça... nos seus olhos... no seu coração... nas suas mãos... no seu estômago... nos seus pés? Considere cuidadosamente cada parte do seu corpo, incluindo os órgãos, vasos sanguíneos e nervos. Você pode encontrar seu "eu"? Ele pode ser bem pequeno e sutil, então considere as células, os átomos, as partes dos átomos.
Depois de considerar o corpo inteiro, novamente pergunte a si mesmo como o seu "eu" manifesta sua existência aparente. Ele ainda parece ser vívido e concreto? O seu corpo é o "eu" ou não?
Talvez você pense que sua mente é o "eu". A mente é um fluxo constantemente mutante de pensamentos, de sentimentos e de outras experiências, indo e vindo em rápida alternação. Qual destes é o "eu"? É um pensamento amoroso... um pensamento furioso... um sentimento feliz... um sentimento deprimido? O seu "eu" é a mente que medita... a mente que sonha? Você pode encontrar o "eu" em sua mente?
Há qualquer outro lugar para se procurar o "eu"? Ele poderia existir em algum outro lugar ou de outro modo? Examine toda possibilidade que puder pensar.
Novamente, olhe para o modo pelo qual o seu "eu" realmente aparece, para você, como você o sente. Depois desta busca pelo "eu", você percebe alguma mudança? Você ainda acredita que ele é sólido e real como você sentia antes? Ele ainda parece existir independentemente, em e por si mesmo? Em seguida, desintegre mentalmente o seu corpo. Imagine todos os átomos se separando e flutuando. Bilhões e bilhões de partículas diminutas se espalham pelo espaço. Imagine que você realmente pode ver isto.
Agora, desintegre sua mente. Deixe flutuar cada pensamento, sentimento, sensação e percepção. Permaneça nesta experiência de espaço sem ser distraído pelos pensamentos. Quando voltar o sentimento de um "eu" independente, inerente, analise-o novamente. Ele existe no corpo? Na mente? Como ele existe?
Não faça o erro de pensar, "Meu corpo não é o 'eu' e minha mente não é o 'eu', portanto, eu não existo". Você existe, mas não do modo que intrinsecamente sente, como se fosse independente e inerente. De modo convencional, o seu "eu" existe em dependência da mente e do corpo, e esta combinação é a base para a qual o pensamento conceitual atribui um nome: "eu" ou "self" ou "Maria" ou "João". Este é o "você" que está sentado, meditando e se surpreendendo com o pensamento de que "Talvez eu não exista!"
Tudo o que existe é necessariamente dependente de causas e condições, ou de partes e nomes, por exemplo. É assim que as coisas existem convencionalmente, e entender a interdependência é a principal causa para entender a natureza última de uma coisa, sua vacuidade. A natureza convencional de algo é sua dependência de causas condições, e sua natureza última é a sua vacuidade de existência inerente, interdependente.
Pense agora sobre como o seu corpo existe convencionalmente, em dependência de pele, sangue, ossos, pernas, braços, órgãos e assim por diante. Por sua vez, cada uma dessas coisas existe em dependência de suas próprias partes: células, átomos e partículas sub-atômicas.
Pense sobre a sua mente, como ela existe em dependência de pensamentos, sentimentos, percepções, sensações. E como, por sua vez, cada uma destas existe em dependência de experiências de consciência anteriores, que deram surgimento a eles.
Agora, volte ao seu sentimento de um "self" ou "eu". Pense sobre como você existe convencionalmente, em dependência do corpo-e-mente do nome — as partes do "eu".
Quando o corpo sente fome ou frio, por exemplo, você pensa, "Eu estou como fome", "Eu estou com frio". Quando a mente tem uma ideia sobre algo, você diz, "Eu penso". Quando você sente amor por alguém, você diz, "Eu te amo". Quando você se apresenta a alguém, você diz, "Eu sou fulano". Separado deste senso de um "eu" que depende dos fluxos sempre mutantes do corpo e da mente, há um "eu" sólido, imutável e independente?
A mera ausência desse "eu" inerentemente existe é a vacuidade do "self".
Termine a sessão com uma conclusão de como você, o seu "eu", existe. Conclua dedicando sinceramente qualquer energia positiva e insight que tenha obtido à iluminação de todos os seres. Pense que esta acumulação é apenas um passo ao longo do caminho para finalmente alcançar o insight direto na vacuidade, e assim cortar a raiz do sofrimento e da insatisfação.
(McDonald, Kathleen. How to Meditate: A Practical Guide.
Editado por Robina Courtin. Ithaca: Snow Lion, 1998. Pág. 58-62.)
Vendo a Vacuidade Diretamente, por Geshe Lobsang Chunzi - Michael Roach
Nos ensinamentos budistas, ouvimos bastante sobre o Nirvana, mas como podemos saber exatamente o que ele é e como atingi-lo? A palavra tibetana para Nirvana significa "ir além do sofrimento" e acontece quando você elimina inteiramente todos os pensamentos ruins, ou aflições mentais, de seu fluxo mental. Você só pode fazer isso de um modo, utilizando as realizações obtidas no caminho da visão. Certas coisas acontecem nessa hora — no período imediatamente anterior, durante e logo depois da percepção direta da vacuidade¹.
De acordo com o budismo, sua mente é sem início. Qualquer ponto na história passada de sua mente que você possa apontar deve ter sido produzido por um instante de mente no momento anterior a esse. Você não pode encontrar um ponto de partida para a sua mente porque isto leva a mente a criar a mente. Gostaria de dizer que você pode pensar que sua mente é como um longo talharim de espaguete que nunca teve um começo e que nunca terá um fim.
Suas vidas passadas são infinitas e suas vidas futuras são numeradas até você se tornar um Buda. Então você terminará o processo de renascimento, mas sua mente ainda vai para sempre. Em todo o talharim de espaguete do tempo infinito de sua mente, você vê a vacuidade pela primeira vez. Até você vir a vacuidade diretamente, você é um ser comum, que sofre. E então, se você tiver visto a vacuidade diretamente, você é chamado Arya². A palavra Arya significa superior, um tipo totalmente exaltado de ser, completamente diferente de um ser comum.
Quero falar sobre os momentos finais, pouco antes de você alcançar o caminho da visão. No caminho da preparação, que é o caminho número dois dos cinco caminhos, você está obtendo uma compreensão intelectual da vacuidade em preparação para ver a vacuidade diretamente. Há um estágio muito importante do caminho da preparação, chamado chöchog. Chö significa dharma, ou coisa, e chog significa "absoluto" ou "supremo". Chöchog refere-se ao último momento de uma pessoa que ainda é um ser comum.
Gostaria de descrever o que acontece no chöchog. Primeiro, você deve ter estado sob um curso espiritual de estudo durante algum tempo. Sua mente foi preparada. Nesta vida você encontrou um verdadeiro guia espiritual. Você o serviu e então obteve, karmicamente, exatamente o que precisava dele. É assim que funciona, é um dar e receber. Você tem servido-os com tudo o que poderia dá-los, principalmente devoção. E eles têm ensinado-o.
Você atravessa um curso em três estágios.
- O primeiro é a sabedoria que você obteve de um ser, em muitas horas de estudo na sala de aula com o seu lama.
- O segundo estágio é a contemplação, pensar sobre ela, trabalhar sobre ela em sua própria mente. A sabedoria que vem da contemplação cresce a partir dos estudos.
- O estágio final é a sabedoria da meditação, e esta por sua vez cresce a partir da sabedoria da contemplação.
Um dia, algo em sua compreensão intelectual engatilha o chöchog. Geralmente, é um assunto que chamamos chi e jedrag. Chi significa qualidade, como por exemplo um carro. Este é um ponto que não posso explicar muito. Você tem apenas de pensar. É algo que vem de sua parte. Jedrag significa característica, Chevrolet por exemplo. E você tem de pensar sobre o relacionamento entre o que chamamos de "carro" e o que chamamos de "Chevrolet". Se você tem um "Chevrolet", você tem um "carro".
Há quatro tipos de chi. O primeiro não é tão relevante e os últimos três são realmente relevantes. Um é o rigchi. Rig significa tipo ou classe, e chi aqui se refere à qualidade. Carro é um exemplo de rigchi. Um rigchi é uma qualidade com um monte de coisas que são características dessa qualidade. No caso do carro, pode ser Chevrolet, Ford ou Toyota. Estes são chamados jedrag — exemplos de um tipo geral. Então rigchi significa um tipo geral ou, mais corretamente, se você pensar sobre isso cuidadosamente, uma qualidade.
Então há o drachi. Dra significa som ou nome. Chi significa geral e o que isto se refere. Suponha que você nunca tenha estado em Paris. Você nunca experienciou a Torre Eiffel diretamente. E eu digo, "Torre Eiffel". No instante em que digo isso, um tipo de imagem forma-se em sua mente. Isso é o drachi, um chi ou imagem mental baseada apenas no nome de algo.
Então nós tempos o dünchi. Dün significa significado, mas aqui significa o objeto em si, em oposição ao nome do objeto. Esta é a coisa real, ou a Torre Eiffel em si que você vê quando está de pé bem na frente dela. Isso é dün. Chi significa uma imagem mental. Aqui o chi mais importante, o crucial, é o dünchi: uma imagem mental de um objeto real.
Vou dar a você um possível cenário. Você tem realmente estudado duro, tem realmente feito um bom Guru Yoga nesta vida — e, de fato, durante muitas vidas — e está diante do fogão preparando uma xícara de chá para o seu lama, por exemplo. É de manhã, digamos, oito horas. Você colocou a água em um bule de alumínio sobre o fogão.
Você tem estudado o chi e o jedrag, e tem realmente pensado e meditado bastante sobre isso. Você está lá de pé e subitamente compreende que não está olhando para um bule; você está olhando para uma imagem mental de um bule. Por toda a sua vida você pensou que estava olhando para um bule e subitamente, sob a influência de todos estes fatores — de servir ao lama, de estudar duro, de rezar pelas bênçãos dos lamas —, subitamente isto acontece. Você compreende que não está olhando para um bule e que nunca esteve olhando para um bule. Você está olhando para um dünchi do bule.
Você compreende que a única coisa que realmente viu de um bule foram alguns poucos vestígios³ de sua parte frontal. Você vê um brilho prateado do lado direito, você vê uma pequena ponta curva do lado esquerdo, você vê esse negócio preto e reto saindo do lado. Talvez você não veja mais do que quatro ou cinco vestígios³. Você definitivamente nunca viu a parte de trás do bule. Sua mente está criando a imagem de um bule. Sua mente, devido à circunstâncias anteriores, devido a milhões de anos de karma, está vendo-o com um bule.
Você acabou de perceber a verdade da originação dependente, de que cada objeto em sua experiência normal é uma realidade enganosa. Esteve ao seu redor o tempo todo. Você nunca viu um outro tipo de objeto, exceto as coisas que são a realidade enganosa. Esse é o seu mundo todo, essas projeções (ou descrições). E você esteve acreditando nelas. Então isso é o chöchog. Esse é um estágio muito, muito importante.
Você termina de fazer o chá e vai ao templo fazer suas meditações matinais. Você se senta em uma boa postura e entra em profunda meditação. Estamos vivendo no reino do desejo mas, neste ponto, sua meditação prossegue tão profundamente que a sua mente entra no primeiro nível de samadhi, que corresponde a algo no reino da forma. Então sua mente está uma área totalmente diferente do universo. Esta é a única plataforma da qual você vê a vacuidade diretamente.
Você deve ter meditado regularmente para chegar nesse ponto, digamos uma a duas horas por dia, todo dia, e sem incluir o tempo gasto para você ficar pronto, o tempo gasto pensando sobre seu o café da manhã e sobre fazer os potes de oferenda de água; isso não conta. Se você não tem praticado meditação de maneira muito regular, de uma a duas horas por dia, você não pode alcançar esta plataforma. Se você nunca alcançar esta plataforma, é completamente impossível que você veja a vacuidade diretamente.
Esse estado é uma meditação muito, muito profunda, onde, especificamente, nenhum dos cinco objetos dos sentidos pode aparecer para você nesse momento. Então, devido à influência de todas estas outras coisas — estudo, contemplação, meditação, treinamento nas escrituras, bom ensinamento de um lama verdadeiro, servir o lama, obter a bênção do lama, obter a bênção de muitos lamas durante toda a sua vida —, você vai para a percepção direta da vacuidade.
Como é isto? Quando tempo dura? Talvez dure de quinze a vinte minutos na primeira vez. Nessa hora, você não pode fazer qualquer distinção entre você e o que você está vendo, entre o sujeito e o objeto. É impossível. O sujeito é a realidade enganosa, o que chamamos realidade convencional. E o objeto é a realidade última. Nesse momento você não pode ver qualquer coisa que não seja a realidade última. A única coisa que se apresenta para a sua consciência mental — e todas as outras cinco são fechadas — é a vacuidade pura, a realidade última. Nada mais está aparecendo para a sua mente nesse momento.
Isso é o que a não-dualidade realmente significa. Não significa que, de algum modo, todos os sujeitos e objetos no mundo são o mesmo. Não haveria qualquer atingimento em borrar a distinção entre sujeito e objeto tomando heroína ou alguma outra coisa deste gênero. Os sujeitos e objetos são totalmente separados. Ver a vacuidade não é o processo de se deixar ser fundido no mundo ou alguma coisa assim.
Em um sentido, não-dualidade significa que durante a percepção direta da vacuidade você não pode estar consciente da distinção entre sujeito e objeto simplesmente porque um deles não é a realidade última. Não é a vacuidade, é você, e você não é a vacuidade. O segundo significado da vacuidade é que, em um sentido, todos os objetos e todos os sujeitos são totalmente iguais no que são vazios, eles nunca foram outra coisa exceto as suas projeções ("a colher não existe" - Matrix). Isso pode ser dito sobre qualquer mente subjetiva e pode ser dito sobre cada objeto no universo.
Durante a experiência você não está consciente da passagem do tempo porque isso não é vacuidade; isso é um objeto relativo (é como se não houvesse tempo, aliás, a própria dor física desaparece, pois o corpo dolorido da postura meditativa sustentada por muito tempo também não é a vacuidade, já que a dor e o corpo são projeções). Você está lá e está em pura consciência direta da vacuidade, e isso é tudo. Então a percepção direta da vacuidade acaba. Esse estado de mente que você teve durante esses quinze ou vinte minutos é chamado nyamshag yeshe, o conhecimento da meditação profunda. Essa é a primeira metade do caminho da visão.
Nada mais há que qualquer um possa dizer sobre isso. É isso que eles querem dizer quando afirmam que a vacuidade é indescritível. Você não pode descrevê-la em termos de algo físico. É sem cor, sem forma, clara, invisível a outros olhos. E isso é tudo que você pode dizer sobre ela. Então você tem a sensação de descer dessa meditação e entrar em um estado chamado jetob yeshe, o conhecimento que se obtém logo depois de ver a vacuidade diretamente. Esta é a segunda metade do caminho da visão. Durante este período, que dura pelo resto do dia, você tem dúzias de importantes realizações espirituais que nunca teria tido sem ver a vacuidade diretamente.
Essas experiências e realizações podem ser agrupadas em quatro partes. Estas podem ser chamadas de quatro verdades Arya, significando quatro grupos de coisas que alguém que acabou de se tornar um Arya agora compreende diretamente como sendo verdadeiros. Você pode agrupar todas as realizações que teve durante aproximadamente as doze horas seguintes em uma destas quatro verdades Arya. Estas são coisas que apenas um Arya, uma pessoa que viu a vacuidade, pode compreender diretamente.
O primeiro grupo é a verdade Arya do sofrimento. Depois da sua primeira percepção direta da vacuidade, você compreende verdadeiramente o que o sofrimento é, pela primeira vez. Você compreende quanto sofrimento há. Esta caneta é sofrimento. Seu corpo é sofrimento. Os Estados Unidos são sofrimento. Praticamente cada pensamento é sofrimento. Todos os seus relacionamentos são sofrimento, a menos que sejam especialmente espirituais. O Arya vê a verdadeira extensão do sofrimento pela primeira vez.
A segunda verdade é a fonte do sofrimento, de onde todo este sofrimento veio. Basicamente, qualquer coisa que é sofrimento também é uma fonte de sofrimento. Esta caneta é sofrimento e esta caneta também é a fonte do sofrimento. Sua cabeça é ambos, sua mente é ambos, seus ouvidos são ambos.
Então vem a verdade do fim do sofrimento. Esse novo Arya vê o fim do sofrimento diretamente. Eles ainda não o alcançaram, mas pelo menos podem vê-lo. Eles sabem quando o fim do sofrimento virá e sabem como isso será.
A quarta é a verdade do caminho. Este novo Arya compreende perfeitamente a verdade do caminho, exatamente o que ele precisa fazer para se livrar do sofrimento. Ele percebe a verdade do caminho diretamente.
Estas são algumas realizações específicas que caem sob estas quatro categorias. Algumas delas ocorrem depois da sua experiência direta da vacuidade, algumas enquanto você ainda está sentado em meditação, e algumas delas ocorrem depois, enquanto você está andando por aí.
Os Aryas têm uma experiência direta de sua morte vindoura e eles agem sobre isso pelo resto de suas vidas. Eles não perdem tempo. Eles sabem que vão morrer. Eles veem a própria morte diretamente.
Durante a maioria das dez ou doze horas seguintes, você pode ler a mente dos outros pela primeira vez. Você percebe o samsara na mente de outra pessoa diretamente. Até esse ponto, você nunca realmente soube o que a mente de outra pessoa está pensando. Mas neste dia, você poder ler as mentes das outras pessoas, e você está completamente consciente do sofrimento que eles estão suportando.
Por exemplo, você pode estar com um negociante de carros, tentando vender um carro rapidamente porque você precisa de dinheiro nesse dia em particular. Você oferece a ele um carro vermelho, muito bonito, que talvez custe três mil dólares. Para o negociante, você parece distante por causa do que estava acontecendo e ele decide em sua mente que pode tirar proveito de você. Você pode ler os pensamentos dele, sabe que está para mentir para você, e então ele mente para você. Ele diz, "Este carro custa dois mil dólares e eu vou dar a você dois mil dólares por ele." Você pode ler estes pensamentos na mente dele. Você está completamente consciente da desordem e da agonia da mente samsárica da outra pessoa. Você pode ver isso.
Prosseguindo na causa do sofrimento — a principal causa é a ignorância. Neste dia, pela primeira vez, vindo dessa percepção, você compreende que esta foi a primeira percepção correta que teve. Em um minuto temos centenas de percepções. Cada uma delas, por toda a extensão de sua vida, foi errônea.
Uma outra verdade relativa à verdade da causa do sofrimento que você compreende nesse dia é que você nunca se encarregou de uma ação sem egoísmo. Não é o mesmo apego à auto-existência, mas esse apego a causa. Um resultado necessário de nosso apego é que você fica preocupado apenas com você mesmo. Um ser humano normal não pode fazer um verdadeiro ato de caridade. Mesmo que faça bons atos, você estará constantemente infectado pelo pensamento, "O que há nisto para mim? Como eu olho para as pessoas? Eles estão conscientes da boa ação que estou fazendo?" Esta é a condição humana e nesse dia, nesse momento, ela é deprimente.
Uma subcategoria desta verdade específica é que você nunca se engaja em um relacionamento no samsara a menos que esteja obtendo algo dele. Não somos capazes de ser não-egoístas em nossos relacionamentos. Uma pessoa no samsara não se engajará num relacionamento a menos que esteja tirando proveito de algum modo. Estou descrevendo a nossa condição comum; todos nós a temos. É um fato deprimente que você compreende no dia em que percebe a vacuidade diretamente.
Aqui está parte boa. Acho que esta deve ser a experiência mais agradável do dia inteiro. Se você estiver na trilha do bodhisattva, um praticante Mahayana, você percebe diretamente que se tornará um Buddha, e você percebe exatamente quantas vidas isso demorará. É comum que se leve mais sete vidas para se alcançar a iluminação depois de ter visto a vacuidade diretamente.
Durante estas sete vidas, você nunca terá qualquer grande problema novamente. Você sempre estará confortável. Você sempre estará entre as pessoas do mundo que, nesse planeta e nesse momento, têm o lazer para estudar o Dharma. Você sempre estará cercado de bons professores, bons pais. Você sempre irá a uma boa escola. Sua vida parecerá um encanto. Tudo será basicamente correto. Você ainda tem de envelhecer e morrer nestas vidas. Mas a vida em que você vir a vacuidade diretamente será, como um todo, bem agradável. Você percebe isso diretamente.
Em nossa situação atual, se não tivermos visto a vacuidade diretamente, não poderemos provar nem mesmo a existência de um Buddha.
Vendo a vacuidade nesse dia, você terá visto o Dharmakaya do Buddha, e você saberá que encontrou um Buddha.
(DHARMAKAYA é a manifestação da verdade em forma absoluta, para além da necessidade de discriminação em conceitos. Representa a verdade que está além da forma e da ideia. Corresponde à mente de Buda. Sambhogakaya: é a manifestação da forma pura e perceptível aos grandes praticantes.)
A experiência nesse momento é algo como o que você sempre pensou ser — antes de se tornar buddhista — um encontro com Deus. É um tipo de energia imensa, clara, poderosa, e você a contata diretamente. Você agora confirmou a existência de um Buddha. Você encontrou o Buddha e sabe que encontrou o Buddha.
Nesse momento você compreende diretamente o que são os corpos físicos do Buddha. Agora as pinturas e estátuas são algo bem diferente para você. Você compreende que eles representam o que você viu e eles tomam um significado totalmente diferente. É a expressão física do Dharmakaya. Alguém, em algum lugar, viu Tara e a pintaram. É assim que ela realmente se parecia. E então alguém viu a imagem e a copiou, e outro a copiou. Definitivamente, se você voltar para trás, alguém viu Tara. Alguém teve a experiência da expressão do Dharmakaya. Então as imagens estão representando o mais elevado objeto do universo. Você não pôde realmente apreciar um pintura de um Buddha até esse dia.
Você compreende o significado da prostração. Você compreende que se tivesse chocado com o Dharmakaya, a reação imediata e natural a essa experiência seria se prostrar no chão. Você realmente compreende a prostração pela primeira vez.
No primeiro instante, no primeiro microssegundo da percepção direta da vacuidade, três coisas já aconteceram. Você entrou no caminho da visão, você se tornou um Arya e, se tiver Bodhichitta⁴, você alcançou o primeiro estágio do Bodhisattva. Durante os minutos seguintes dessa experiência, você tem uma experiência direta e poderosa da bodhichitta real.
É quase como uma sensação física de algum tipo de amor e cuidado pelos outros seres, vindo do seu coração como um rio, como uma luz clara. Você sabe que passará o resto de sua vida servindo os seres sencientes; você está certo disso. Você sabe o que tem de fazer para servi-los e sabe que sempre o fará desse momento em diante.
Você pode pensar que, nos anos seguintes a essa experiência, poderia começar a duvidar do que aconteceu. Mas há uma certa percepção inegável, uma percepção absoluta e puramente correta que você tem durante o jetob yeshe, o que acabou de acontecer com você foi absolutamente verdadeiro. O que aconteceu com você foi puramente verdadeiro.
O que acontece então é um tipo de interesse. Você tem uma realização direta e inegável de que cada página das escrituras buddhistas, dos estágios do caminho e de todos os outros livros, é total e absolutamente verdadeira, e de que este caminho é o caminho verdadeiro. Não estou sendo sectarista; estou apenas falando de uma experiência real que você pode confirmar por si mesmo. Você pode seguir este caminho e terá absolutamente os mesmos resultados, e todos estes eventos acontecerão com você. Isso é absolutamente verdadeiro.
Então você adquire um tipo de mania de proteger os livros de budhismo. Eles não devem desaparecer deste mundo. Eles são a perdida vacina secreta para as aflições mentais. Você sabe que deve devotar suas vidas para assegurar que estes livros e ensinamentos conectados a eles nunca sejam perdidos no mundo. Eles são todos absolutamente verdadeiros. E eles são realmente o único caminho que leva para fora do sofrimento.
Você compreende nessa hora o significado do diamante como uma metáfora para a vacuidade. Um diamante é a única coisa próxima do que você viu. Se você tiver um carro e nenhum outro dinheiro, você pode pegá-lo, vendê-lo a alguém, comprar um diamante e oferecê-lo no templo, em algum lugar onde ninguém possa encontrá-lo, e não importaria se ninguém soubesse disso.
O que acontece depois desse dia? O que você suporia fazer durante estas sete vidas? O quarto caminho é chamado habituação. Significa acostumar-se a algo. O quarto caminho é usar o que você viu e realizou, durante aproximadamente sete vidas e meia, para limpar o resto de suas aflições mentais. Demora tudo isso para se acostumar totalmente com o que aconteceu e utilizar esse conhecimento em sua vida cotidiana para parar suas aflições mentais. A essência disso é o processo do que acontece em sua vida diária, como quando o seu chefe grita com você, e você usa a percepção da vacuidade para superar suas reações automáticas. Fazendo isto, você pode quebrar o ciclo do samsara.
As condições para a prática Dharma serão absolutamente perfeitas para as próximas sete vidas.
Como uma criança, você não lembra do que aconteceu, mas logo você já estará entendendo estas coisas. É como nas histórias da vida de Je Tsongkhapa, por exemplo. Eu não diria quatro anos de idade, mas talvez dez ou quinze. Se você se livrar de suas aflições mentais, então você alcança o Nirvana, e se você continuar, você alcança a iluminação. Esse é o processo do que acontece após você perceber a vacuidade diretamente. No dia em que você usá-la, na hora em que você vê-la, seu futuro torna-se previsível. Você está definitivamente no caminho para fora. Dentro de um quantidade fixa de tempo, você se tornará um Buddha.
Uma vez que você tenha visto a vacuidade diretamente, alguém poderá perguntá-lo se as coisas existem do modo como ele as vê. Você teria de dizer absolutamente não. Você ainda as vê como auto-existentes? Absolutamente não, pois isso é um estado mental esquizofrênico. A partir do momento em que você sai da percepção direta da vacuidade, você sabe que o que os outros estão vendo é errado. Mas você não acredita nisso. Você sabe que as percepções deles são distorcidas.
Você também sabe que não pode pará-las bem agora. E, de fato, quando você parar a tendência inerente de se apegar às coisas como auto-existentes, como não sendo apenas as suas projeções, você alcançará o Nirvana. Essa é a última aflição mental que você tem de superar. Cada um, até mesmo os animais, têm a tendência inerente de ver as coisas como auto-existentes. No quarto caminho, o caminho da habituação, você ainda está vendo as coisas como auto-existentes, mas você sabe que está errado e não acredita mais em si mesmo.
Isso é o que significa quando os budistas dizem que as coisas são uma ilusão. Esse é o único significado da ilusão. Não significa que as coisas não existem. Especialmente não significa que os atos bons e ruins são uma ilusão, que o sofrimento e o paraíso são uma ilusão e que então eu posso fazer qualquer coisa que quiser. Significa que, como as coisas são uma ilusão, eu devo ser bom. Esse é o único modo pelo qual você alcançará o Nirvana. O dia em que você for capaz de usar os entendimentos — obtidos depois de ver a vacuidade — para superar a última das suas aflições mentais será o dia em que você alcançará o Nirvana — e esta é de fato a definição tradicional de Nirvana.
Notas
¹ Vacuidade, interdependência e unidade são os fundamentos do Budismo. Vacuidade: nada existe por si. Interdependência: tudo existe em relação a. Unidade: tudo é Um. O Um é o único existente. Não pode ser definido, é Nada e Nada é. Quando no filme Matrix um monge menino entrega para Neo uma colher, ele diz: "- A colher não existe". Não temos aqui um ensinamento sobre a vacuidade?
² Termo sânscrito para “Ser Superior”. Alguém que tem uma realização direta, ou não- conceitual, da vacuidade. Pode ser um hinayana ou um mahayana.
³ Ver apêndice do livro O Presente da Águia, de Carlos Castaneda, em particular a segunda proposição explicativa intitulada: 'A atenção é o que nos faz perceber os comandos da Águia como vestígios'. Segue breve extrato: "Explicou que para a primeira atenção lidar com os comandos da Águia ela tem de ser treinada a mover-se instantaneamente por todo um espectro das emanações da Águia, do qual não toma conhecimento evidente, a fim de alcançar as “unidades perceptíveis” que todos nós aprendemos a aceitar como perceptíveis. Essa realização da nossa primeira atenção é conhecida pelos observadores como “vestígio” porque engloba a capacidade de afastar as emanações supérfluas e escolher as emanações a serem enfatizadas".
⁴ O supremo bom coração, neste contexto, é a bodhichitta. Bodhi significa iluminação, em sânscrito, e chitta, mente; portanto, o sentido literal do termo “bodhichitta” é “mente de iluminação”.
terça-feira, 21 de novembro de 2023
Um velho verde
Vivi muito tempo, e o caminho da minha vida perde-se nas folhas amarelas e secas - Shakespeare.
Hoje, na sociedade do espetáculo e da imagem, o arquétipo do Eremita, do velho sábio, arcano 9 do Tarot, encontra-se extremamente enfraquecido, basta ver como os aposentados são tratados em termos salariais obrigando-os muitas vezes a uma reinserção no competitivo mercado de trabalho "capetalista". A própria palavra velho é mal vista, não se associa mais com sabedoria, experiência e conhecimento, antes está fortemente associada com algo que ficou para trás, algo superado, ultrapassado, obsoleto. Nota-se assim uma coisificação da vida e do tempo humano onde a velhice é vista como uma espécie de obsolescência programada.
O que é ser velho, o que é envelhecer? Estamos todos envelhecendo mas parece que ninguém quer pensar ou refletir sobre isto... por quê?
Por que somos obrigados a olhar para a morte mais de perto? Por causa da recusa e do menosprezo social pelos velhos? E, contudo, a sociedade como um todo está envelhecendo, o tempo de vida das pessoas tem aumentado, mas e a qualidade do viver? Temos trabalhado no que amamos? Temos trabalhado menos para dedicar mais tempo a outros aspectos da existência? A maioria das pessoas alcança uma velhice de qualidade, de saúde, criatividade e lucidez?
Até os nossos deuses (ou deus) parecem ser sempre jovens e belos, além de imortais, não há deus ou deuses velhos em nossa cultura, parece que ser deus é superar o tempo ou ignorá-lo, mas vemos que na tradição afro existem deuses velhos, por exemplo, Nanã, Omulu ou Oxalufan, sintoma positivo de uma cultura tradicional que valoriza as diferentes estações da existência humana.
Uma sociedade ou cultura que não sabe valorizar as diferentes estações do existir humano é uma sociedade capenga, incompleta e destituída de sabedoria, incapaz de acessar os valores mais sublimes pois não consegue perceber os movimentos da Roda do Tempo, arcano 10 dez do Tarot, diante da qual o arquétipo do Eremita realiza suas meditações. No Eremita estamos no tempo da meditação, tempo de afiar a nós mesmos. Assim deixo esta história para que possamos acessar esta dimensão temporal do Eremita, o velho sábio.
A parábola do velho lenhador
Conta-se que um jovem lenhador ficara impressionado com a eficácia e rapidez com que um velho e experiente lenhador, da região onde morava, cortava e empilhava madeira das árvores que derrubava. O velho lenhador era um homem tranqüilo, bem relacionado com todos e era tido como uma pessoa de bom coração, além de ser considerado o melhor lenhador de toda a redondeza.
O jovem o admirava e o seu desejo permanente era de um dia, torna-se tão bom, se não melhor, que aquele homem, no ofício de cortar madeira. Certo dia, aquele jovem finalmente decidiu procurar o velho lenhador com o propósito de aprender com quem mais sabia e assim tornou-se o melhor lenhador que aquela cidadezinha já tinha ouvido falar.
Passados alguns dias daquele aprendizado, o jovem resolvera que já sabia tudo e que aquele velho não era tão bom quanto falavam. Sendo assim, o jovem decidira afrontar o velho lenhador, desafiando-o para uma disputa: em um dia de trabalho quem cortaria mais árvores?. Aquele velho lenhador aceitou, sabendo que seria mais uma oportunidade de dá uma lição no jovem arrogante. E assim fizeram, reuniram testemunhas, formaram comissão julgadora, organizaram torcida, delimitaram as áreas onde seriam cortadas as árvores e, no dia escolhido para o confronto, lá se foram decidir os dois quem seria o melhor.
De um lado, o jovem forte, robusto e incansável, mantinha-se firme, cortando as suas árvores. Do outro, o velho lenhador, desenvolvendo o seu trabalho silencioso, tranqüilo. Também firme e sem demonstrar nenhum cansaço.
Num dado momento, o jovem olhou para trás a fim de ver como estava o velho lenhador e qual não foi a sua surpresa ao vê-lo sentado. O jovem riu e pensou: ‘ além de velho e cansado, está ficando tolo, por acaso não sabe ele que estamos numa disputa?”. E assim, ele prosseguiu cortando lenha sem parar, sem descansar um minuto.
Ao final do tempo estabelecido, encontraram-se os dois e os representantes da comissão julgadora foram efetuar a contagem e medição e, para admiração de todos, foi constatado que o velho havia cortado duas vezes mais árvores do que o jovem desafiante.
Este, espantado e irritado ao mesmo tempo, indagou-lhe qual o segredo para cortar tantas árvores, já que uma ou duas vezes que parara apenas para olhar, via-o sentado bem tranqüilo, enquanto ele não parou um só minuto. O velho, bastante sereno, respondeu: ” todas as vezes que você me via sentado, eu não estava simplesmente parado, descansando. Eu estava afiando o meu machado.
Escrito quando eu já era velho, um "velho verde".
DR
segunda-feira, 20 de novembro de 2023
Somos todos conservadores
A ilusão de mudar o mundo ou os outros revela-se na incapacidade de alterar, por exemplo, pequenos hábitos danosos a nós mesmos. Revolucionários que não se modificam são pregadores hipócritas de seitas sejam elas religiosas ou não.
A imutabilidade do ego revela-se e disfarça-se como auto-promoção e mostra que, no fundo, somos todos conservadores.
Preservamos o nosso eu.
Combater ou debater-se. Combater é travar as próprias batalhas, debater-se é lutar por coisas impossíveis ou muito além de nosso raio de ação. A primeira é real, conduz a uma mudança efetiva, a outra é apenas ilusória, quixotesca e segue uma agenda ditada de fora.
DR
A confiança do guerreiro, por Chögyam Trungpa Rinpoche
Quando há vontade de olhar para si mesmo, investigar e praticar o despertar de forma imediata, então, você se torna um guerreiro.
Isto é coragem.
Assim a coragem não é um simples resultado de dominar ou superar o medo, para o guerreiro a coragem é um estado de ser positivo, é um estado pleno de prazer, alegria e brilho nos olhos, o guerreiro, neste caso, não significa alguém que faz guerra contra os outros.
A agressividade é a fonte dos nossos problemas, não a solução, o guerreiro é, na verdade, a tradição da bravura humana ou a tradição do destemor.
O guerreiro é alguém que é corajoso o suficiente para viver em paz neste mundo.
Em última análise esta é a definição de bravura: não ter medo de si mesmo.
Ser um guerreiro é aprender a ser autêntico, em todos os momentos da vida, é estar simplesmente aqui, sem distração, nem preocupação, e quando estamos aqui, ficamos alegres, podemos sorrir para o nosso medo, não precisamos ter vergonha do que somos, podemos não ser particularmente esclarecidos, pacíficos ou inteligentes, no entanto, como somos seres sencientes, temos um solo suficientemente bom para cultivarmos qualquer coisa nele.
Temos nossa bondade básica, nosso estado inerente de confiança, que é por natureza desprovido de covardia e agressão, livre do mal.
A covardia é qualidade sedutora e perturbadora de nossas mentes errantes e neuróticas que nos impede de descansarmos em nosso estado natural, o estado de inabalável vigília que chamamos de confiança do guerreiro.
Desse ponto de vista, o propósito do guerreiro é subjugar o mal de nossas mentes covardes, para descobrirmos a nossa bondade básica, a nossa confiança.
Chögyam Trungpa Rinpoche (1939 - 1987) foi um estudioso, professor, artista, poeta e mestre de meditação da tradição budista vajrayana.
Ordenado monge aos oito anos de idade, Trungpa dedicou-se ao estudo e à prática das diversas disciplinas monásticas tradicionais. Aos vinte anos, em 1959, em razão da invasão do Tibete pelos chineses, Trungpa foi obrigado a partir em exílio.
Pioneiro na disseminação do budismo tibetano no Ocidente, Trungpa foi autor de mais de duas dezenas de livros em inglês. Em 1970 foi para a América do Norte, e nos quinze anos seguintes, fundou uma rede de várias centenas de centros de meditação budista nos Estados Unidos e Canadá.
O Quarto Caminho (livro), por P.D. Ouspensky
Nestas conferências, temos falado do homem, não o bastante, mas o suficiente para fins práticos; falamos um pouco do Universo, mas vejo que a ideia de escola e do trabalho de escola ainda está muito vaga e à vezes mesclada com concepções ordinárias, que não levam a nada. A ideia de escola deve ser considerada simplesmente: uma escola é um lugar onde aprendemos algo. Mas deve sempre haver certa ordem nas coisas e não podemos aprender sem obedecer a essa ordem. Falando das escolas ligadas a algum tipo de escola superior (sem essa ligação uma escola não tem nenhum sentido), eu disse que, em tais escolas, devemos trabalhar sobre o nosso ser, ao mesmo tempo que sobre o nosso conhecimento, porque, do contrário, todo o nosso conhecimento será absolutamente inútil e não tiraremos qualquer proveito dele. As ideias esotéricas que não são interpretadas de maneira prática tomam-se mera filosofia, simples ginástica intelectual que não pode levar a parte alguma.Dei-lhes todas as palavras necessárias ao estudo do sistema e expliquei a posição deste em relação aos outros sistemas. Devem estar lembrados de que falei dos diferentes caminhos e, do que eu disse sobre eles, resulta mais ou menos que este sistema pertence ao Quarto Caminho, isto é, tem todas as peculiaridades e características das escolas do Quarto Caminho. Disse então que uma escola depende do nível das pessoas que estudam nela, e esse nível depende do nível de ser.Para o desenvolvimento do ser a escola é necessária - muitas pessoas trabalhando na mesma direção de acordo com os princípios e métodos da escola. Aquilo que um homem não pode fazer, muitas pessoas trabalhando juntas podem fazer(princípio da massa crítica). Quando encontrei este sistema, convenci-me muito depressa de que ele estava ligado às escolas e, dessa maneira, tinha atravessado a história escrita ou não. Durante esse tempo, os métodos foram inventados e aperfeiçoados.As escolas podem ser de graus diferentes, mas, no momento, considero escola todos os tipos de escolas preparatórias que conduzem numa certa direção, e uma organização que pode ser chamada uma "escola" do Quarto Caminho é aquela que apresenta três forças no seu trabalho. O que é importante compreender é que há uma espécie de segredo no trabalho de escola, não no sentido de algo realmente escondido, mas algo que tem que ser explicado. A ideia é essa. Se considerarmos o trabalho de escola como uma oitava ascendente, saberemos que, em cada oitava, há dois intervalos ou claros, entre mi e fá e entre si e dó. Para ultrapassar esses claros, sem mudar o caráter e a linha do trabalho, é necessário saber como preenchê-las. Assim, se eu quiser assegurar a direção do trabalho em linha reta, deverei trabalhar simultaneamente em três linhas. Se eu trabalhar apenas numa linha, ou em duas, a direção mudará. Se eu trabalhar em três linhas, ou três oitavas, uma linha ajudará a outra a atravessar o intervalo, dando-lhe o choque necessário. É muito importante compreender isso. O trabalho de escola utiliza muitas ideias cósmicas, e as três linhas de trabalho são um arranjo especial para salvaguardar a direção justa do trabalho e para torná-lo bem sucedido.A primeira linha é o trabalho sobre si mesmo: estudo de si mesmo, estudo do sistema e a tentativa de mudar pelo menos as manifestações mais mecânicas. Esta é a linha mais importante. A segunda linha é o trabalho com as outras pessoas. Não podemos trabalhar sozinhos (princípio do pequeno tirano); um certo atrito, o incômodo e a dificuldade de trabalhar com as outras pessoas criam os choques necessários. A terceira linha é o trabalho para a escola, para a organização (princípio do sacrifício). Essa última linha assume diversos aspectos para diferentes pessoas.O princípio das três linhas é que as três oitavas devem caminhar simultaneamente e paralelas entre si, mas elas não começam todas ao mesmo tempo e, desse modo, quando uma linha atinge um intervalo, outra linha entra para ajudá-la a atravessar esse intervalo, uma vez que os lugares destes não coincidem. Se um homem é igualmente ativo em todas as três linhas, isso o livra de muitos acontecimentos acidentais. Naturalmente, a primeira linha começa primeiro. Na primeira linha de trabalho, recebemos conhecimento, ideias, ajuda. Essa linha se refere apenas a nós mesmos, é inteiramente egocêntrica. Na segunda linha, devemos não só receber como dar - transmitir conhecimento e ideias, servir de exemplo e muitas outras coisas. Ela se relaciona com as pessoas no trabalho, de modo que, nesta linha, trabalhamos, em parte, para nós mesmos e, em parte, para os outros. Na terceira linha, devemos pensar no trabalho em geral, na escola ou organização como um todo. Temos que pensar no que é útil, no que é necessário à escola, naquilo de que ela tem necessidade, de modo que a terceira linha diz respeito à ideia global de escola e todo o presente e futuro do trabalho. Se o homem não pensar sobre isso e não o compreender, então as primeiras duas linhas não produzirão o seu pleno efeito. É essa a maneira como o trabalho de escola é organizado e a razão pela qual as três linhas são necessárias; só podemos receber choques adicionais e os benefícios totais do trabalho, se trabalhando nas três linhas.Relacionam-se as três linhas de trabalho com a ideia de certo e errado, tudo o que ajuda a primeira linha, isto é, o nosso trabalho pessoal, é correto. Mas, na segunda linha, não podemos ter tudo para nós; temos que pensar nos outros que estão no trabalho, temos que aprender não só a compreender como a explicar, devemos dar aos outros. E, em pouco tempo, veremos que só podemos compreender certas coisas explicando-as aos outros. O círculo se toma mais amplo, o certo e o errado se tornam maiores. A terceira linha já tem relação com o mundo exterior, e bom e mau passam a ser aquilo que ajuda ou prejudica a existência e o trabalho de toda a escola, de modo que o círculo torna-se ainda mais amplo. Essa é a maneira de pensar nessa questão.Chamo particularmente a atenção de vocês para o estudo e a compreensão da ideia das três linhas. É um dos princípios fundamentais do trabalho de escola. Se o pusermos em prática, muitas coisas se abrirão para nós. Este sistema está repleto de tais instrumentos. Se os utilizamos, eles abrem muitas portas.O primeiro princípio do trabalho é que os esforços dão resultados proporcionais à compreensão. Se não compreendermos, não haverá resultados; se, de fato, compreendermos, os resultados serão de acordo com o nível da nossa compreensão. Assim, a primeira condição é compreender, e mesmo antes disso, devemos saber o que é compreender e o modo como adquirir a compreensão correta. O trabalho verdadeiro deve ser o trabalho sobre o ser, mas este exige compreensão das metas, condições e métodos do trabalho. A meta do trabalho é instituir uma escola. Para isso, é necessário trabalhar de acordo com os métodos e regras da escola, e trabalhar nas três linhas. O estabelecimento de uma escola significa muitas coisas.Há duas condições no trabalho com que devemos começar; a primeira é que não devemos acreditar em nada, devemos verificar tudo; a segunda, e até a mais importante condição se refere a fazer. Não deveremos fazer nada, enquanto não compreendermos por que e para que fim fazemos algo. Essas duas condições devem ser compreendidas e lembradas. É verdade que podemos nos dar conta de que não sabemos nada e não sabemos o que fazer. Nesse caso, sempre podemos pedir orientação, mas, se a pedirmos, teremos que aceitá-la e obedecer a ela.Até agora trabalhamos na primeira linha, estudamos o que nos foi dado e explicado e tentamos compreender. Agora, se quisermos continuar, deveremos tentar trabalhar na segunda linha e, se possível, na terceira. Temos que tentar pensar em como encontrar mais trabalho na primeira linha, como passar para a segunda linha e como nos aproximar do trabalho na terceira linha. Sem isso, o nosso estudo não dará nenhum resultado.Façam agora perguntas até que estejam persuadidos de que compreendem as três linhas de trabalho: o que cada linha significa, por que são necessárias, o que é necessário a cada uma delas, etc. O proveito que podemos obter é sempre proporcional à nossa compreensão. Quanto mais conscientemente trabalharmos, mais poderemos obter. É por isso que é tão importante que tudo isso seja explicado e compreendido.Pergunta: De que maneira precisamos de três linhas de trabalho?Resposta: No início, tudo depende da mente; ela deve ser educada, deve despertar. Mais tarde, dependerá da emoção. Para isso, precisamos de uma escola, devemos encontrar outras pessoas que saibam mais do que nós e devemos examinar as coisas com elas. Sem dúvida, se ficarmos sozinhos, esqueceremos as coisas que aprendemos, porque há tantos momentos em nós, que as coisas simplesmente desaparecem da nossa mente. É por isso que um homem não pode trabalhar sozinho e apenas o trabalho conjugado de muitas pessoas juntas pode produzir os resultados necessários. Há muitos obstáculos, muitos fatores que nos mantêm dormindo e tornam impossível o nosso despertar. As coisas que aprendemos simplesmente desaparecerão, se nada as favorecerem, e o que pode favorecê-las? Só outras pessoas à nossa volta.Em princípio, devemos trabalhar na aquisição de conhecimento, de material, de prática. Em seguida, quando obtivermos uma certa quantidade, começaremos a trabalhar com outras pessoas, de modo que uma pessoa será útil a outra e ajudará a outra. Na segunda linha, devido a certa organização especial, estamos em condições de trabalhar para outros, não apenas para nós. E, posteriormente, podemos compreender de que modo podemos ser úteis à escola. É tudo uma questão de compreensão. Na terceira linha, trabalhamos para a escola apenas, não para nós. Se trabalharmos nessas três linhas, depois de algum tempo essa organização se tornará uma escola para nós; mas, para as outras pessoas, que trabalham apenas numa linha, ela não será uma escola. Lembrem-se de que eu disse que uma escola é uma organização onde podemos não só adquirir conhecimento, mas também mudar o nosso ser. Uma escola dessa natureza nem sempre é a mesma, tem qualidades mágicas e pode ser um tipo de escola para uma pessoa e algo completamente diferente para outra. Devemos compreender que tudo que podemos receber, todas as ideias, todo o conhecimento possível, toda a ajuda, vêm da escola. Mas a escola não assegura coisa alguma. Considerem uma universidade comum, onde se dão apenas conhecimento e instrução. Ela pode nos assegurar uma certa quantidade de conhecimento, mas, ainda assim, só se trabalharmos. Mas, quando se apresenta a ideia de mudança de ser, não é possível nenhuma garantia, de modo que as pessoas podem estar na mesma escola, na mesma organização e podem estar em diferentes níveis.Pergunta: O senhor falou das metas e das necessidades da escola. Poderia nos dizer quais são?Resposta: Primeiro temos que nos preparar para compreendê-las. Temos ideias da escola, de modo que devemos fazer uso delas: isso nos ajudará a compreender as escolas. Se nós mesmos não fizermos nada e falarmos sobre as escolas, só criaremos imaginação e nada mais. Devemos tirar partido das ideias que temos, do contrário as escolas não existirão para nós. Devemos ter a nossa própria meta e ela deve coincidir com a meta da escola, deve fazer parte dela.Pergunta: A diferença entre a primeira e a terceira linhas indica que a escola tem metas diferentes do desenvolvimento dos seus membros, tais como, por exemplo, a perpetuação do seu próprio conhecimento?Resposta: Não apenas isso. Pode haver muitas coisas, porque ela é considerada numa linha de tempo diferente. Em relação a nós só podemos considerar o presente. Em relação à escola o tempo é mais longo.Pode ser útil lembrar-lhes como esse trabalho começou. Há muito tempo atrás, cheguei à conclusão de que muitas coisas existiam no homem que podiam ser despertadas, mas vi que isso não levava a nada, porque, num momento, elas estão despertas e, noutro, desaparecem, uma vez que não há nenhum controle. Desse modo, dei-me conta da necessidade da escola e comecei a procurar uma, mais uma vez em conexão com os poderes que eu chamava "miraculosos". Finalmente, encontrei uma escola e entrei em contato com muitas ideias. São as ideias que estamos estudando agora. Para esse estudo, é necessário uma organização; primeiro, para que as pessoas possam estudar essas ideias e, em seguida, para que possam ser preparadas para um estágio posterior. Esta é uma das razões para a existência de uma organização e só aqueles que já fizeram algo por si mesmos é que têm um lugar nela. Enquanto estiverem em poder da falsa personalidade, não podem ser úteis a si mesmos nem ao trabalho. Por isso, a primeira meta de quem esteja interessado no trabalho é estudar-se e descobrir o que deve ser mudado. Só quando certas coisas tenham mudado é que um homem está efetivamente preparado para o trabalho ativo. Uma coisa deve estar ligada a outra. Devemos compreender que o estudo pessoal está ligado à organização e ao estudo das ideias gerais. Com a ajuda dessas ideias podemos descobrir muito mais: quanto mais tivermos, mais poderemos descobrir. O trabalho nunca chega ao fim; o fim está muito distante. Ele não pode ser teórico; cada uma dessas ideias deve tornar-se prática. Há muitas coisas nesse sistema que um homem comum não pode inventar. Algumas, podemos descobrir sozinhos; outras, só podemos compreender se nos forem dadas, mas do contrário não. E há uma terceira espécie de coisas que não podemos em absoluto compreender. É necessário compreender essas graduações.
Sinal de Fumaça
Lamas e Xamãs (Atualizado e com notas)
Lamas e Xamãs (Atualizado e com notas) Sempre lembrando… Não esqueçam de ver o sorriso despreocupado nestas palavras. Escrev...

-
Narrativa versus História Um dos pontos que temos de rever quando vamos estudar em profundidade o que se esconde por trás dos conceitos de X...
-
A civilização na qual estamos inseridos tem algumas falhas estruturais no quesito levar cada ser humano ao atingir de sua maturidade moral e...
-
Como já notaram não sou de escrever pouco, é que a meu ver, as palavras podem gerar tanta confusão que acredito sempre necessário localizar ...