A medusa interior

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Um "eu" é uma entidade definida em nós, com uma parte intelectual, uma parte emocional e uma parte motora. Os Eus vivem em nossa casa interior e nos controlam incessantemente.

Os "eus" moram em diferentes subdivisões dos centros. Temos várias personalidades diferentes e cada uma delas está composta por um grupo de eus.

O "eu", digamos, Fantasia cria a Falsa Personalidade, fazendo-nos crer que temos um só Eu real. A falsa personalidade é puro fingimento. Uma das piores forma de mentir é o fingimento. Todo homen 1,2 e 3 finge ser o que não é. Essas mentiras vem da fantasia sobre o si mesmo, do eu digamos Fantasia. As mentiras obscurecem a Essência, porque a Essência, só pode crescer mediante a Verdade. Um homem deve deixar de enganar-se a si mesmo antes que possa começar a compreender a verdade. O homem deve se livrar da mentira.

Temos milhares de pequenos "eus" em nós, mas devido aos obstáculos a consciência, não os vemos e seguimos acreditando que há um só Eu, que sempre atua e sente da mesma maneira. Este é o "eu", digamos, Fantasia, este "eu" nos impede de mudar.

Cada pequeno "eu" tem uma parte pensante, uma parte emocional e uma parte motora. Seu centro de gravidade pode estar na esfera dos pensamentos, das emoções ou dos movimentos. Observar o centro de gravidade de um pequeno "eu" já é um grande progresso.

Cada pequeno "eu" é uma entidade que se passa por nós e fala pelo intermédio dos centros, chamando-se a si mesmo de Eu. Todos os nossos pensamentos, nossos estados de ânimo, nossos sentimentos, nossas ações, nossas palavras, nossos gestos, nossos movimentos, nossos humores provêm de diferentes tipos de "eus" em nós. Não temos uma individualidade real, ou melhor, não temos um CENTRO DE GRAVIDADE PERMANENTE.

Inicialmente, é mais fácil observar aos "eus" que atuam emprestando-nos certos pensamentos. Observe que está pensando, de certa maneira, a respeito de uma pessoa. Este é um "eu" que está pensando, mas você crê que é você mesmo. Ou digamos que está pensando sobre sua vida; é outro "eu" e você acha que é você mesmo. Quando uma pessoa não vê esse ardil constantemente repetido, toma todos esses pensamentos como ela mesma, neste ponto passou a ser mecânica.


Não vê que algo está pensando por ela, mas ouve os pensamentos desses "eus" como se fosse ela que os estivesse pensando.

Quando começamos a observar verdadeiramente nossos pensamentos, costumamos notar certos pensamentos que são indesejáveis, com relação a outras pessoas ou com relação a nós mesmos. Pois bem, se pensamos que esses pensamentos são nossos, se nos identificamos com eles, se concordamos com eles, concedemos poder a eles, fazemos com que eles tenham poder sobre nós e assim fortalecemos os "eus" que estão por trás deles. Observar é também dissolver os "eus" mecânicos.

A Tradição nos ensina a praticar a separação interior, que para observarmos um eu temos que nos separar dele. Mas se tomamos tudo que passa em nossos pensamentos como nós mesmos, não poderemos separar-nos. Como pode "eu" separar-se de "eu"?

No que concerne à esfera das emoções, existem muitos eus que produzem alterações em nossos estados emocionais, do mesmo modo que certos "eus" transmitem pensamentos à nossa mente, outros "eus" transmitem sentimentos à nossa esfera das emoções.

Alguns desses Eus costumam esgotar-nos, fazer-nos perder a confiança em nós mesmos, deprimir-nos, desalentar-nos, etc. Se ao menos pudéssemos auto-recordar-nos sempre, esses eus não teriam poder sobre nós uma vez que lembraríamos de suas atuações passadas. Mas como concedemos tanto poder a eles, nem nos ocorre observá-los; entram e saem de nossa parte emocional como se essa lhes pertencesse.

Ainda que seja difícil observar diretamente esses "eus", podemos descobrir sua presença ao notar que se abaixa o nível ou há uma súbita perda de força (energia). Se não estamos bastante alertas, esses eus podem nos possuir OS CENTROS e então levaremos dias no sono que eles nos causam.

É preciso aprender a andar muito cuidadosamente dentro de nós mesmos. É inútil discutir com os "eus" desagradáveis. Por isso, a prática da separação interior é tão importante. Basta perder a guarda por um instante, em uma situação difícil, para permitir a entrada em cena deste tipo de "eus" que nada mais são que MÁSCARAS, que usamos para suportar a realidade. É preciso aprender a separar-nos desses "eus" negativos, primeiro na esfera dos pensamentos e logo na esfera das emoções e motora através da técnica de não identificação interior.

O Trabalho se inicia pela auto-observação e é um sistema que provém do Círculo Consciente da Humanidade, isto é, daqueles que lutaram a batalha contra os "eus" e alcançaram a sublime meta de conhecer a SI mesmo.

Quando alguém começa a auto-observar-se seriamente, desde o ponto de vista de que não é Um, mas sim Muitos, inicia de verdade o trabalho sobre si. E como resultado disso teremos que dividir-nos em observador e observado.

O lado observador relaciona-se com a fração de Essência ou Consciência liberada sob as influências do Trabalho interior . O lado observado vem a ser todo esse desfile de pensamentos, sentimentos, desejos, preocupações, estados emocionais, paixões, etc., provenientes de toda essa multiplicidade que levamos dentro de nós por força da simples lei do ACASO.

Indubitavelmente, quando essa divisão não acontece, continuamos identificados com todos os processos dos muitos "eus". Quem toma todos os seus processos psicológicos como funcionalismo de um "eu" único, individual e permanente, encontra-se tão identificado com todos os seus erros, os tem tão unidos a si mesmo que perde, por tal motivo, a capacidade de separá-los de sua psique. Então qualquer mudança será quase impossível.

Através desse trabalho psicológico, temos que chegar a ser cada vez mais conscientes de nós mesmos, de todas as nossas contradições e conflitos íntimos.

É sabido que quando alguém está a ponto de morrer, como por exemplo, quando alguém está se afogando, vê toda sua vida com todas suas contradições passar diante de si. No aspecto psicológico ocorre algo semelhante. Temos que ver tudo que há em volta de nós mesmos nesta vida, antes de morrer psicologicamente. É muito importante compreender o significado psicológico de muitas coisas.

É preciso reconhecer e aceitar os vários aspectos existentes em nós mesmos. Através da auto-observação, da divisão em observador e observado, sob a influência do trabalho psicológico, vamos nos liberando de tantas idéias fantasiosas sobre nós mesmos, de tantas virtudes e méritos que não possuímos em absoluto. Então é que nos convertemos de verdade em crianças e compreendemos o que significam as palavras iniciais do Sermão da Montanha. Deixamos então de sentir-nos grandes e teremos uma compreensão inteiramente nova de nós mesmos, um sentimento inteiramente novo e pensamentos inteiramente novos.

Deixamos de ser a pessoa que havíamos imaginado ser, durante toda nossa vida. Qual o maior perigo que corremos à medida que envelhecemos? É o de cristalizar na idéia que temos de nós mesmos, de acreditar cada vez mais na fantasia que temos sobre nós mesmos. Se valorizamos corretamente o trabalho psicológico, a divisão em observador e observado logo esse perigo não será tão grande. Somos criaturas tão minúsculas e desagradáveis que é preciso um prolongado trabalho de auto-observação para ver como somos ridículos em nossa vaidade e em nosso orgulho.

Depois de passar um bom tempo neste trabalho, as pessoas se tornam mais simples a respeito de si mesmas e em relação aos outros. Porque começam a se observar em lugar de imaginar que são o que acreditam ser. Vêem que o abismo que existe entre o que imaginam ter sido e o que são é muito profundo. Quando isto sucede, por meio da constante auto-observação, toda sua relação consigo mesmas começa a mudar. Tudo aquilo sobre o qual fundamentava seus valores, suas diversas formas de sentir-se superior aos outros, sua falsa caridade almejando o céu, suas caretas, suas ambições de poder , seu preconceito, sua mentira interior, suas crenças, etc, as bases psicológicas sobre as quais descansava, tudo isso desaparece. Terá uma bela experiência, pois não terá mais que manter e conservar aquela máscara de pessoa inventada da qual é escravo. Se tornará simples como crianças de novo, porem conscientes.

Quando um homem ou uma mulher começa a observar-se seriamente, dentro da atmosfera do Trabalho , sentindo que o trabalho o conduzirá a um novo nível de Ser além do nível do saber, experimentará pouco a pouco uma mudança real e significativa em sua vida.

Mas se tenta fazê-lo sem estar respaldado pela influência B e C, toda sua observação será inútil e o levará simplesmente às querelas, argumentos e emoções negativas. Tentamos todos estudar algo que é muito grande e devemos compreender que somos muito pequenos. E neste entendimento devemos nos dedicar a aprender despojados de nossos "eus" e suas velhas cantigas.

Flávio

2 comentários:

Rafael F.C. disse...

Bom, agora me pergunto..

O que a medusa tem haver com a observação de si mesmo..

Será uma analogia, comparando cada serpente de seu cabelo como um pequeno eu, e o observar petrificante como solução para escapar da falsa identificação?

Agradeço!

F. A. disse...

Dê uma lida no mito que fala da luta de Perseu contra Medusa. A Medusa simboliza os eus. O espelho usado por Perseu é uma metáfora da observação de si.

No intento,

F.A.