A questão da Sombra - 1ª parte

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Abordar a questão da sombra como pagãos (ãs) é entrar no assunto por outros campos.

É chegar já sem medo, sem crer em "mal", sem crer em pecados, que são crenças crististas que nada tem a ver com o paganismo.

Lembrando que chamamos de Cristista aqui o que fizeram do Cristianismo, pois a abordagem cristã da realidade também tem seus méritos, mas as religiões dogmáticas e dominantes, com sua necessidade de poder mundano acabaram deturpando a mensagem do Cristianismo reduzindo-o a um sistema muito tacanho e opressor, que, para diferenciar, chamo de cristismo.

Ir às questões fundamentais, como a Sombra, pela via do paganismo é outra realidade.

É outra abordagem, percebem, é uma história não para gente ficar explicando como às vezes temos mania, pegar um conto xamânico, uma lenda pagã, não é para ficar "interpretando": "isso e aquilo, tal coisa simboliza tal coisa, o osso é a tipificação do signo que é uma metalinguagem, sdroboWW!!!..."

O paganismo nos desafia a outro tipo de percepção, com o corpo da gente, é sentir o que está lendo, é sentir e não apenas raciocinar. Estas histórias falam para partes profundas de nós e temos partes profundas de nós que estão nas Sombras.

Não é iluminar as sombras, sombra é sombra, luz é luz, cada uma tem seu papel.

Nossos ancestrais estão nesta sombra, temos que resolver nossa relação com nossos ancestrais.

Muitas pessoas nunca conseguem se equilibrar porque seus ancestrais não estão em harmonia com sua realidade de aqui e agora.

Galera, vamos acordar, vamos parar de querer fazer leituras crististas do paganismo.

Não é que o cristismo é errado não, cada um na sua. Acredito que a realidade é muito ampla, cabe todo mundo, mas alguém que quer mesmo trilhar o caminho do paganismo, é bom ir além desses paradigmas.

Senão a gente fica igual os movimentos nova era da Califórnia. Tem exceções, fique claro, mas tem aqueles caras que falam as mesmas coisas, pecado, céu, inferno, culpa, medo, Jesus, um deus pai e tal, mas usam palavras novas, termos novos. Temos que ir além de só mudar os nomes, apenas dar novos nomes aos bois não muda o fato que são bois.

Se estamos num grupo de pagãos, vamos ser pagãos em nossa proposta de entender o mundo.

Vamos olhar com novos olhos nossa ARTE.

Caminhos como o Xamanismo e a Wicca são caminhos pagãos e neo pagãos, assim merecem ser abordados com outro conjunto de paradigmas.

Digo isso porque, como xamã, considero a Wicca uma prima, uma "iba dïbï saï" ("os meus de verdade" termo usado pelos Sanumá, grupo da nação conhecida como Yanomani, para designar parentes próximos).

Pensem, este povo está sendo dizimado. Agora, enquanto teclo, tem um monte de povos nativos sendo dizimados nesse continente, a guerrilha do sub-comandante Marcos, na Colômbia, Peru, Bolívia, o narcotráfico e os agentes norte-americanos, há tanta coisa levando o povo nativo à destruição.

Toda essa crise no mundo.

Por que esta guerra no mundo?

Porque antigos ódios não foram esquecidos, porque os (as) filhos (as) continuam as lutas de seus pais ao invés de buscarem novos caminhos.

Cada um que está hoje num desses conflitos está lutando por causas que vem alimentando gerações de mortes e destruição.

Esta Sombra que os impulsiona vem do fato que não vivem suas próprias vidas, continuam a luta de seus ancestrais.

O primeiro passo de transformação da Sombra precisa é o trabalhar com nossos ancestrais.

Pois temos muitos jeitos de reagir, de emocionar e de raciocinar que não são "nossos" de verdade, trazemos coisas de nosso pai, nossa mãe e de nossos ancestrais também, porque nossos pais trazem dos pais deles e estes dos deles e aí vai.

Temos de estar atentos se vamos mesmo lidar com nossa Sombra, temos de lidar com os fatos que somos, sem fantasias sobre nós mesmos.

A tradição xamanística diz que só gente de verdade pode andar nas trilhas da Sombra interior e não ser devorado por ela, por isso a vida é um dom tão raro, ensinam os(as) xamãs, só na trilha da vida podemos andar pela Sombra e integrar seu tremendo poder em nós.

Depois que alguém passa pela avó morte dizem que é quase impossível um homem ou mulher conseguir mais andar pela trilha da Sombra sem ser por ela devorado.

Pois a Sombra deve estar integrada a nós, não dominando, pois qualquer parte da vasta totalidade que somos que "domine" já está exercendo um tipo de poder que acaba se mostrando no final sempre nefasto.

Neste ponto é interessante lembrar que na Wicca, como no Xamanismo, a gente não tem aquela história de "dominar" os elementais, de ser "o senhor"(a) dos elementos.

Nós "encantamos", e a magia da Deusa, encantamento, outra forma de abordar o poder, com a mesma VONTADE.

Da mesma forma vamos "encantar" a energia tremenda de nossos antepassados que faz parte de nossa Sombra.

Precisamos falar sobre isso também de forma clara.

Vejam as briguinhas que surgem nas listas de debate de tempos em tempos, A fala algo B entende outro algo, C se sente ofendido.

Aí começam ataques e contra ataques, brigas, separações, quantas histórias assim vocês conhecem?

Tudo isso indica que ainda reagimos demais, que temos muita ansiedade e nos colocamos em guarda ao menor sinal (real ou imaginário) de ataque.

Sem trabalhar isso antes, querer trabalhar a Sombra é dar uma bomba atômica para um suicida religioso...

Portanto vamos ser bem realistas conosco mesmo.

Estamos mesmo nos trabalhando para estarmos mais em harmonia com a gente e com realidade ou tenho uma vida em crises com tudo e todos (as) a minha volta?

Da sinceridade desta resposta, que no silêncio do ler este texto, pelo menos por um instante vai passar pela tua consciência, vem a também a resposta se é hora ou não de lidar com esta questão da Sombra.

Nuvem que passa

8 comentários:

a.mar disse...

Eu costumo ficar em silêncio. É mesmo muito difícil lutar pelas coisas, contrariar.
Ás vezes acho que tenho pouca coragem e até me chamam de cobarde. Mas outras vezes acho que o melhor que faço é deixar passar a tempestade. Lutas não têm nada a ver comigo. Só uma vez na vida gritei com uma pessoa a sério. Há anos. Só teimo uma vez.
Essa força de búfalo que as pessoas às vezes têm de reacção é-me completamente estranha.

Até logo, tenho que ir fazer rolar o rolo na parede, já estou atrasada...

a.mar disse...

Estava a acabar de pintar as paredes vermelhas e passou-me a semana toda pela cabeça, desde que comecei até hoje...

Passou tanto tempo...

Uma eternidade, parece....

E fiquei a pensar nisso da sombra, dos ancestrais...
A Lua que eu gosto mais é a que é meia luz, meia sombra. O Luar da Lua cheia é lindíssimo, a noite sem Luz da Lua também, porque se vêem mais as estrelas, mas a Meia Lua de Luz fala-me muito mais.
Com os ancestrais já fiquei mais "triste". Ora bolas, será que ainda não arrumei tudo o que tinha para arrumar? Será que a limpeza ainda não está toda feita?
Quanto mais tempo vou ter de estar nesta casa limpando, emprateleirando, catalogando coisas, minhas e dos meus ancestrais?
Quanto mais vamos avançando nas gerações, mais coisas se acumulam para arrumar?
Este trabalho doméstico que nunca acaba...

Um beijinho da hora de almoço

F.A. disse...

Aloha, A.Mar!

Essa ligação da Lua e da Sombra...passado, ancestrais, lembranças, inconsciente, infância,...

De fato, o "trabalho doméstico" nunca acaba, mas a nossa relação com ele pode mudar.

Por exemplo.

A luta do dia a dia é um reflexo da luta interna. O conflito externo é um reflexo do conflito interno. E é o conflito interno que desgasta a nossa energia.

Uma pergunta que devemos nos fazer para observar em nós mesmos sem que qualquer racionalização intervenha é:

Quando evito o confronto exterior evito também o conflito interior?

No intento,

F.A.

Daniele disse...

Tenho pensado muito em termos da sombra, e não conseguia entender o colocar luz na sombra, mas consciência dá, eu sinto pelo menos agora. E este negócio de bem e mal é complicado, porque tenho que ficar atenta a todo instante, porque senão já fiz um julgamento. Estou repensando os meus rótulos e vivendo e deixando viver, com aquele tempo de silêncio que eu ganhei de mais de alguns segundos. Rsrs. Isto tem me mostrado o quanto eu me defendo, o quanto eu projeto e o quanto eu posso ser livre. Assim deixei um pouco de me julgar e exigir perfeição para sentir. Agir com sentimento. Mas aí que dor.. mas não posso dizer que é ruim e tenho me divertido como nunca. Grata pelo texto.

F.A. disse...

Aloha, Daniele!

Os textos do "Nuvem" são muito bons, né? Virão mais dentro desse tema.

O que me chama a atenção é que a nossa prisão interna é feita de palavras, palavras que são "materializações de pensamentos".

Nuvens no céu da mente silenciosa.

Não pude deixar de notar que você escreveu:

"Isto tem me mostrado o quanto eu me defendo, o quanto eu projeto e o quanto eu posso ser livre."

E o que você escreveu me fez olhar pra mim mesmo e me perguntar:

Ser livre não é livrar-se do eu?

Claro, que isso é praticamente um jogo de palavras e as palavras são sombras daquilo que é, daquilo que verdadeiramente somos.

O eu é uma sombra do ser? Não resisti...risos.

Valeu!

No intento,

F.A.

Daniele disse...

Estou vivendo de rir do seu comentário. Realmente me fez pensar. Rsrs e pensar não é nada silencioso e penso muitooooooo. O eu, o ego se defende, mas ele não sou eu. aí lembrei de uma parte do seu texto, não deixar estas partes no comando.
Pode não resistir e falar o que sentiu sempre.Descobri que é assim gente cresce, olha por um ângulo diferente.
Grata mais uma vez.
E haja hoponopono pra desprogramar. Rsrs.

Professor disse...

Realmente, tratar a questão da sombra em nós é algo primordial quando se trilha o caminho da evolução. Qualquer que seja a estrada.
E muitas vezes a.mar, ela é uma questão de perspectiva realmente. Você abre sua janela e admira as várias fases da lua, na perspectiva do céu. Mas já pensou em desligar sua luz, postar-se de costas para a janela e ver a Lua em tuas paredes vermelhas? E que assim admirarias cada fase de tua parede?
Como disse Daniele, enxergar-se de outros ângulos, preferencialmente de fora.
A minha linguagem não pode tratar de mim, por que é minha. E como tal seria um paradoxo.
E é justamente isso que buscamos aqui, tratar de nós através da linguagem de outros.
Escrevi um pouco sobre meu lado sombrio aqui:
http://sapatonaporta.blogspot.com/2008/12/primavera-de-praga.html
Se der tempo passem por lá.
P.S: Adorei ter passado aqui

Daniele disse...

Ai q estranho, me ler depois de tanto tempo...rsrs a questão da sombra, sabe o q eu prendi na minha? A alegria de viver. Irônico?